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UC · Unidade de Competência · UC00298

Executar operações financeiras (UC00298)

Informação de suporte, matemática financeira, mapas de tesouraria, demonstrações financeiras, rácios e proteção de dados
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Gestão e Admin., T. Contabilidade ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

Esta sebenta ensina a executar as operações financeiras de rotina de uma organização: reunir e preparar a informação que as suporta, calcular juros, valores atuais e prestações de empréstimos, controlar a tesouraria, comparar o orçado com o realizado, preencher as demonstrações financeiras, apurar rácios e reportar tudo isto com rigor e com respeito pelos dados pessoais. O técnico ou a técnica que ocupa este lugar não decide a estratégia financeira da empresa, mas é quem prepara os números em que essa decisão se apoia. Um número mal preparado leva a uma decisão mal tomada.

O percurso segue o trabalho real. Começa-se pela informação de suporte (de onde vêm os dados e como se organizam em mapas), passa-se à matemática financeira (tempo, capital e juro; juros simples e compostos; equivalência de taxas e de capitais; rendas; empréstimos), depois ao controlo de tesouraria (mapa de tesouraria, mapa de cash-flow, mapa de origem e aplicação de fundos), ao orçamento anual e à análise dos desvios, e às demonstrações financeiras (balanço de gestão, conta de exploração, demonstração de resultados por natureza e por funções, alterações no capital próprio e fluxos de caixa pelo método direto e indireto). Fecha-se com os rácios, o uso da folha de cálculo e as normas de proteção de dados.

Ao longo de todo o texto aparecem exemplos resolvidos passo a passo. Convém acompanhá-los com uma calculadora ou com uma folha de cálculo aberta: só se aprende finanças fazendo as contas. Os valores usados são exemplos didáticos, escolhidos para as contas darem números redondos ou fáceis de conferir; nas empresas reais, as taxas, os prazos e as regras dependem dos contratos e da legislação em vigor.

Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar a informação de suporte às operações financeiras; preparar a informação para a execução do controlo de tesouraria; preencher modelos de demonstrações financeiras e respetivos anexos; e apurar rácios de suporte à análise e avaliação das operações financeiras da organização. Em todas as tarefas, cumprindo as normas gerais e os regulamentos internos de gestão financeira, garantindo o cumprimento dos procedimentos, prazos e requisitos estabelecidos, e reportando as causas dos desvios e as oportunidades de melhoria contínua.

1. Informação de suporte às operações financeiras

Antes de qualquer cálculo, há um trabalho de recolha e seleção da informação económico-financeira. É a fase menos vistosa e a mais decisiva: todos os mapas, demonstrações e rácios que se produzem depois só valem o que valerem os dados de entrada.

De onde vem a informação

Numa organização, a informação financeira nasce em documentos e em registos:

Origem Exemplos Que informação fornece
Documentos de compra faturas de fornecedores, notas de encomenda, guias de receção gastos, dívidas a fornecedores, prazos de pagamento
Documentos de venda faturas e notas de crédito emitidas, recibos rendimentos, dívidas de clientes, prazos de recebimento
Meios financeiros extratos bancários, talões de depósito, registos de caixa recebimentos e pagamentos efetivos, saldos
Pessoal recibos de vencimento, mapas de remunerações gastos com pessoal, encargos a pagar
Contratos empréstimos, rendas, leasing, seguros prestações, taxas de juro, prazos
Contabilidade balancete, razão, diários saldos das contas, resultados do período
Obrigações fiscais e contributivas declarações e guias de pagamento impostos e contribuições a pagar e respetivas datas
Plano e orçamento orçamento anual, planos de investimento valores previstos para comparar com os reais

Recolher é o primeiro passo; selecionar é o segundo. Nem tudo o que existe interessa à tarefa em mãos. Para construir um mapa de tesouraria interessam datas e valores de recebimentos e pagamentos (movimentos de dinheiro); a data da fatura só interessa na medida em que ajuda a prever quando o dinheiro entra ou sai. Já para uma demonstração de resultados interessam os rendimentos e gastos do período, independentemente de terem sido pagos ou recebidos. Esta diferença entre dinheiro e resultado atravessa toda a UC, e voltaremos a ela várias vezes.

Critérios de qualidade da informação

A informação de suporte deve ser:

Mapas contabilísticos, mapas de idade de saldos e mapa financeiro

Os mapas são quadros que organizam a informação para ser lida depressa. Três tipos aparecem com frequência nesta UC.

Mapas contabilísticos. São listagens e quadros extraídos da contabilidade: o balancete (lista de todas as contas com os seus saldos devedores e credores), o extrato de conta de um cliente ou fornecedor, o mapa de depreciações, o mapa do IVA. Servem de matéria-prima para quase tudo o resto. Cada conta pertence a uma classe do plano de contas: no Sistema de Normalização Contabilística (SNC), na redação em vigor, a classe 1 reúne os meios financeiros líquidos, a classe 2 as contas a receber e a pagar (clientes, fornecedores, Estado), a classe 3 os inventários, a classe 6 os gastos e a classe 7 os rendimentos. Saber em que classe procurar um valor poupa muito tempo.

Mapas de idade de saldos. Distribuem as dívidas (de clientes ou a fornecedores) por escalões de antiguidade, em geral "a vencer", "vencido há 1 a 30 dias", "31 a 60 dias" e "mais de 60 dias" (podem acrescentar-se "61 a 90 dias" e "mais de 90 dias"). Dizem à empresa quanto tempo as dívidas estão em aberto e onde está o risco de não pagamento. Quanto mais antigo o saldo, menor a probabilidade de o receber.

Mapa financeiro. É o quadro que reúne, num só sítio e para um período, os principais valores financeiros da empresa: recebimentos, pagamentos, saldos de tesouraria, dívida bancária, prestações a vencer. É o documento que a gestão consulta para saber "onde estamos" em termos de dinheiro.

Exemplo resolvido · Construir um mapa de idade de saldos de clientes

Uma pequena empresa de distribuição de material de escritório tem, em 31 de março, os seguintes saldos de clientes em aberto, já distribuídos pela data de vencimento das faturas (valores em euros):

Cliente A vencer 1 a 30 dias 31 a 60 dias Mais de 60 dias Total
Cliente A 4 200 1 800 0 0 6 000
Cliente B 2 500 3 100 1 200 0 6 800
Cliente C 0 900 2 600 1 500 5 000
Cliente D 6 100 0 0 0 6 100
Cliente E 1 300 700 400 2 200 4 600
Total 14 100 6 500 4 200 3 700 28 500
  1. Somar cada coluna: 4 200 + 2 500 + 0 + 6 100 + 1 300 = 14 100 (a vencer); o mesmo para as outras.
  2. Confirmar que a soma dos totais por coluna é igual à soma dos totais por cliente: 14 100 + 6 500 + 4 200 + 3 700 = 28 500, e 6 000 + 6 800 + 5 000 + 6 100 + 4 600 = 28 500. O quadro está fechado.
  3. Calcular o peso de cada escalão no total: a vencer 14 100 ÷ 28 500 ≈ 49,5%; 1 a 30 dias ≈ 22,8%; 31 a 60 dias ≈ 14,7%; mais de 60 dias ≈ 13,0%.
  4. Interpretar: perto de metade da dívida ainda não venceu, mas 13% (3 700 €) está vencido há mais de 60 dias. Os clientes C e E concentram esse risco: C e E têm, juntos, 3 700 € nesse escalão. São os primeiros a contactar.

Um mapa de idade de saldos que não é lido e não gera uma ação (um telefonema, uma carta, uma suspensão de fornecimento) é só papel. O seu objetivo é provocar a decisão de cobrança.

Folha de cálculo como ferramenta de suporte

Quase todos estes mapas constroem-se hoje numa folha de cálculo. O capítulo 12 desenvolve o tema; para já fica a regra de ouro: cada valor calculado deve ser uma fórmula, não um número escrito à mão. Assim, quando um dado de origem muda, o mapa atualiza-se sozinho e os erros ficam visíveis.

2. Tempo, capital e juro: o juro simples

A ideia central: o dinheiro tem um preço no tempo

Receber 1 000 € hoje não é o mesmo que receber 1 000 € daqui a um ano. Hoje, esse dinheiro pode ser depositado ou investido e render; daqui a um ano, já não pode ter rendido. Por isso o dinheiro tem um valor no tempo, e o juro é o preço desse tempo: a compensação paga por quem usa o capital de outrem durante um período.

Os elementos de qualquer operação de juros são:

Regra de ouro: a taxa e o tempo têm de estar na mesma unidade. Taxa anual com tempo em anos; taxa mensal com tempo em meses. Se não estiverem, converte-se o tempo (por exemplo, 9 meses = 9/12 de ano) antes de calcular.

Regime de juro simples

No regime de juro simples, o juro de cada período calcula-se sempre sobre o capital inicial. Os juros já vencidos não rendem juros. As fórmulas são:

O juro simples cresce em linha reta com o tempo: duplicar o prazo duplica o juro. É usado em operações de curto prazo (em regra, até um ano), em juros de mora, em descontos de letras e em muitos cálculos de rotina.

Exemplo resolvido · Juro e montante a juro simples

Uma empresa aplica 2 000 € a 3% ao ano, em juro simples, durante 9 meses.

  1. Pôr o tempo em anos: n = 9/12 = 0,75 anos.
  2. Calcular o juro: J = 2 000 × 0,03 × 0,75 = 45 €.
  3. Calcular o montante: M = 2 000 + 45 = 2 045 €.

Confirmação com a outra fórmula: M = 2 000 × (1 + 0,03 × 0,75) = 2 000 × 1,0225 = 2 045 €. Dá o mesmo.

Descobrir a taxa, o prazo ou o capital

Como a fórmula do juro tem quatro grandezas, conhecendo três descobre-se a quarta:

Exemplo resolvido · Taxa implícita num empréstimo curto

Um sócio empresta 5 000 € à empresa durante 6 meses e recebe de juros 150 €. Qual foi a taxa anual, em juro simples?

  1. n = 6/12 = 0,5 anos.
  2. i = 150 ÷ (5 000 × 0,5) = 150 ÷ 2 500 = 0,06.
  3. A taxa anual foi de 6%.

Ano civil e ano comercial

Quando o prazo é dado em dias, é preciso decidir o número de dias do ano. Há duas convenções:

O contrato (ou o regulamento interno da empresa) diz qual se aplica. Nunca se escolhe ao acaso, porque o resultado difere.

Exemplo resolvido · A mesma conta com dois anos diferentes

Um capital de 10 000 € rende 2,5% ao ano, a juro simples, durante 90 dias.

A diferença é pequena (0,86 €), mas numa carteira grande ou em muitas operações acumula-se. O importante é usar a convenção do contrato e usá-la sempre da mesma maneira.

Desconto de títulos a juro simples

Quando uma empresa precisa de dinheiro antes do vencimento de um título (uma letra, por exemplo), pode descontá-lo num banco: recebe hoje um valor inferior ao nominal. A diferença é o desconto. Existem duas formas de o calcular:

Exemplo resolvido · Desconto de uma letra

Uma letra de 1 200 € vence daqui a 60 dias. A taxa de desconto é 6% ao ano (ano comercial).

  1. Desconto comercial: D = 1 200 × 0,06 × 60/360 = 12,00 €. Valor recebido: 1 200 − 12 = 1 188,00 €.
  2. Desconto racional: Valor atual = 1 200 ÷ (1 + 0,06 × 60/360) = 1 200 ÷ 1,01 ≈ 1 188,12 €.

O desconto comercial é ligeiramente maior (a taxa incide sobre um valor maior), logo quem desconta recebe menos. É por isso que os bancos o preferem.

3. Juros compostos, taxas e valor do dinheiro no tempo

Capitalização: juros que rendem juros

No regime de juro composto, no fim de cada período os juros são somados ao capital e passam a render juros nos períodos seguintes. Chama-se a este mecanismo capitalização. É o regime usado nas aplicações e empréstimos de médio e longo prazo.

As fórmulas fundamentais são:

O fator (1 + i)^n chama-se fator de capitalização (leva um valor do presente para o futuro) e o seu inverso (1 + i)^(−n) chama-se fator de atualização (traz um valor do futuro para o presente).

Aqui, ao contrário do juro simples, o crescimento é exponencial: quanto mais longo o prazo, maior a diferença entre os dois regimes.

Exemplo resolvido · Valor acumulado a juro composto

Uma empresa deposita 5 000 € a 4% ao ano, com capitalização anual, durante 3 anos.

  1. Ano 1: 5 000 × 1,04 = 5 200,00 €.
  2. Ano 2: 5 200 × 1,04 = 5 408,00 €.
  3. Ano 3: 5 408 × 1,04 = 5 624,32 €.
  4. Pela fórmula: M = 5 000 × 1,04³ = 5 000 × 1,124864 = 5 624,32 €.
  5. Os juros totais são 5 624,32 − 5 000 = 624,32 €. Em juro simples, seriam 5 000 × 0,04 × 3 = 600 €. A diferença de 24,32 € vem dos "juros sobre juros".

Exemplo resolvido · Valor atual

Quanto é preciso depositar hoje, a 3% ao ano, para ter 10 000 € daqui a 5 anos?

  1. C = 10 000 ÷ 1,03⁵ = 10 000 ÷ 1,159274.
  2. C ≈ 8 626,09 €.

Leitura: 10 000 € daqui a 5 anos "valem" hoje 8 626,09 € a esta taxa. O valor atual é a ferramenta para comparar dinheiro que se recebe em datas diferentes.

Tempo para duplicar: a regra dos 72

Uma estimativa rápida para o tempo que um capital leva a duplicar a juro composto é 72 ÷ taxa (em %). A 4% ao ano, 72 ÷ 4 = 18 anos. O cálculo exato é ln 2 ÷ ln 1,04 ≈ 17,67 anos. É uma regra de cabeça, útil para ter noção da ordem de grandeza e para desconfiar de resultados absurdos.

Taxas: proporcionais, equivalentes, nominais e efetivas

Este é o ponto onde mais erros se cometem. Convém separar quatro ideias.

Taxa efetiva. É a taxa que realmente se obtém ou se paga num período, já com a capitalização incluída. Quando se diz "6% ao ano" sem mais nada, entende-se, em regra, taxa efetiva anual.

Taxas equivalentes. Duas taxas referidas a períodos diferentes são equivalentes se, aplicadas ao mesmo capital durante o mesmo tempo, dão o mesmo montante. Para converter uma taxa para um período mais curto (ou mais longo), usa-se:

i_k = (1 + i)^(1/k) − 1, em que k é o número de períodos "curtos" em um período "longo" (k = 2 para semestres, 4 para trimestres, 12 para meses).

Taxas proporcionais. São as que se obtêm dividindo a taxa anual pelo número de períodos: 8% ao ano é proporcional a 2% ao trimestre (8 ÷ 4). Em juro simples, taxas proporcionais são equivalentes. Em juro composto, não são. Este é o erro clássico.

Taxa nominal. É a taxa anual "de catálogo", acompanhada do período de capitalização: "8% ao ano, capitalização trimestral". Significa que a taxa trimestral usada é a proporcional (8 ÷ 4 = 2%) e que, por haver capitalização, a taxa efetiva anual acaba por ser maior do que 8%.

Exemplo resolvido · Taxa equivalente semestral e mensal

A taxa efetiva anual é 6%. Qual é a taxa equivalente semestral? E a mensal?

  1. Semestral: i₂ = 1,06^(1/2) − 1 = 1,029563 − 1 ≈ 2,9563%.
  2. Mensal: i₁₂ = 1,06^(1/12) − 1 ≈ 0,4868%.
  3. Verificação: 1,029563² = 1,06. 1,004868¹² ≈ 1,06. As taxas equivalentes, capitalizadas, dão a taxa anual.

Repare que a taxa proporcional (6 ÷ 12 = 0,5% ao mês) é ligeiramente superior à equivalente (0,4868%). É por isso que usar a proporcional num empréstimo ou depósito de capitalização composta dá um resultado errado.

Exemplo resolvido · Da taxa nominal à taxa efetiva

Um depósito paga "8% ao ano, capitalização trimestral". Qual a taxa efetiva anual?

  1. Taxa trimestral (proporcional): 8% ÷ 4 = 2% ao trimestre.
  2. Taxa efetiva anual: (1 + 0,02)⁴ − 1 = 1,082432 − 1 = 8,2432%.

Quem lê "8%" e acredita que ganha 8% ao ano, ganha, na prática, 8,24%. Numa operação de crédito é o contrário: o custo real é superior ao nominal. É por isso que, no crédito aos consumidores (pessoas singulares), a lei impõe a divulgação de um indicador único, a TAEG (taxa anual de encargos efetiva global), que inclui os encargos além dos juros e permite comparar ofertas. O Banco de Portugal disponibiliza informação ao público sobre estes conceitos.

Taxas variáveis e indexantes

Muitos empréstimos têm taxa variável: a taxa de juro é a soma de um indexante (uma taxa de referência do mercado monetário, como a Euribor, que se atualiza de tempos a tempos) com um spread (margem fixa do banco). Para o técnico, isto significa que a prestação muda quando o indexante muda e que o mapa de tesouraria tem de usar pressupostos explícitos para as taxas futuras.

4. Regimes de equivalência e rendas

Equivalência de capitais

Dois ou mais capitais, situados em datas diferentes, só se comparam depois de os trazer para a mesma data, a data focal, com uma taxa de juro dada. Dizem-se equivalentes se, na data focal, têm o mesmo valor.

O raciocínio tem sempre os mesmos passos:

  1. Marcar numa linha de tempo todas as datas e valores.
  2. Escolher a data focal (a escolha é livre em juro composto, mas convém uma que simplifique as contas).
  3. Levar cada valor até à data focal: capitalizar os que estão antes e atualizar os que estão depois.
  4. Escrever a equação de equivalência (soma do que se paga = soma do que se recebe) e resolver.

Exemplo resolvido · Substituir duas dívidas por um pagamento único

Uma empresa deve 3 000 € daqui a 1 ano e 4 000 € daqui a 3 anos. Pretende pagar tudo numa só vez, daqui a 2 anos. A taxa é 5% ao ano. Quanto paga?

  1. Data focal: o ano 2 (a data do pagamento único).
  2. Os 3 000 € do ano 1 estão antes da data focal: capitalizam-se 1 ano. 3 000 × 1,05 = 3 150,00 €.
  3. Os 4 000 € do ano 3 estão depois: atualizam-se 1 ano. 4 000 ÷ 1,05 ≈ 3 809,52 €.
  4. Pagamento único no ano 2: 3 150,00 + 3 809,52 = 6 959,52 €.

Rendas: sequências de pagamentos iguais

Uma renda é uma sequência de pagamentos (ou recebimentos) iguais, em intervalos de tempo iguais. É o modelo de uma prestação de empréstimo, de uma renda de arrendamento ou de uma poupança regular. Descreve-se por três elementos: o valor de cada termo (R), o número de termos (n) e a taxa por período (i), sempre na mesma unidade de tempo do intervalo entre termos.

Há dois tipos quanto ao momento do pagamento dentro do período:

As fórmulas da renda postecipada são:

E a relação entre os dois é Vₙ = V₀ × (1 + i)^n.

Exemplo resolvido · Valor atual e acumulado de uma renda

Uma empresa paga 500 € no fim de cada ano durante 5 anos, a uma taxa de 4% ao ano.

  1. Fator de atualização da renda: [1 − 1,04⁻⁵] ÷ 0,04 = (1 − 0,821927) ÷ 0,04 ≈ 4,451822.
  2. Valor atual: V₀ = 500 × 4,451822 ≈ 2 225,91 €. É quanto "vale" hoje esta sequência de pagamentos.
  3. Fator de capitalização da renda: [1,04⁵ − 1] ÷ 0,04 = 0,216653 ÷ 0,04 ≈ 5,416323.
  4. Valor acumulado: V₅ = 500 × 5,416323 ≈ 2 708,16 €. É quanto haveria no fim do 5.º ano se cada pagamento fosse depositado.
  5. Verificação: 2 225,91 × 1,04⁵ = 2 225,91 × 1,216653 ≈ 2 708,16 €.
  6. Se a renda fosse antecipada: V₀ = 2 225,91 × 1,04 ≈ 2 314,95 € e V₅ = 2 708,16 × 1,04 ≈ 2 816,49 €.

Exemplo resolvido · Poupança mensal e taxa equivalente

Uma empresa deposita 200 € no fim de cada mês, durante 12 meses. A taxa efetiva é 3% ao ano. Quanto acumula?

  1. A renda é mensal, logo a taxa tem de ser mensal equivalente: i₁₂ = 1,03^(1/12) − 1 ≈ 0,24663%.
  2. Valor acumulado: V₁₂ = 200 × [(1,0024663)¹² − 1] ÷ 0,0024663.
  3. O numerador é 1,03 − 1 = 0,03, logo V₁₂ = 200 × 0,03 ÷ 0,0024663 ≈ 2 432,82 €.
  4. Os depósitos somam 200 × 12 = 2 400 €. Os juros são 32,82 €.

Perpetuidades

Uma renda perpétua nunca acaba (por exemplo, uma renda paga indefinidamente). O seu valor atual é V₀ = R ÷ i, porque o fator [1 − (1 + i)^(−n)] tende para 1 quando n cresce. Com R = 100 € por ano e i = 5%, V₀ = 100 ÷ 0,05 = 2 000 €. É uma aproximação útil para ter ordem de grandeza.

As funções da folha de cálculo para tudo isto

A folha de cálculo traz funções que fazem estas contas. Os nomes variam consoante a língua do programa; em português, as mais usadas são:

Pergunta Função (português) Argumentos principais
Valor futuro de um capital ou de uma renda VF taxa, nper, pgto, vp, tipo
Valor atual de um capital ou de uma renda VA taxa, nper, pgto, vf, tipo
Prestação constante de um empréstimo PGTO taxa, nper, vp
Número de períodos NPER taxa, pgto, vp
Taxa por período TAXA nper, pgto, vp
Juro de uma prestação IPGTO taxa, período, nper, vp
Capital amortizado numa prestação PPGTO taxa, período, nper, vp

Duas regras práticas: a taxa e o número de períodos têm de estar na mesma unidade (taxa mensal com prazo em meses), e as funções devolvem sinais opostos para dinheiro que sai e dinheiro que entra, pelo que o resultado de VA ou PGTO aparece, muitas vezes, negativo. Confirmar com a conta manual, uma vez, dá confiança para usar a função daí em diante.

5. Operações de médio e longo prazo: amortizações e empréstimos clássicos

O que é um empréstimo clássico

Um empréstimo é uma operação em que alguém (o mutuante, em geral um banco) entrega um capital a outrem (o mutuário) que se compromete a devolvê-lo, com juros, ao longo de um prazo. Quando o prazo é superior a um ano, fala-se de operação de médio e longo prazo. Chama-se empréstimo clássico àquele em que os juros de cada período se calculam sobre a dívida em aberto no início desse período e os pagamentos são feitos em prestações periódicas.

Cada prestação (ou anuidade, quando o período é o ano) tem duas partes:

Prestação = Juro + Amortização. A dívida em aberto no fim do período é Dₖ = Dₖ₋₁ − Aₖ. O empréstimo termina quando a dívida chega a zero, e o total das amortizações é igual ao capital emprestado.

O instrumento que organiza todas estas contas é o quadro de amortização (ou plano de reembolso), com uma linha por período e as colunas: período, dívida no início, juro, amortização, prestação e dívida no fim.

Primeiro modelo: prestações constantes (sistema francês)

Aqui todas as prestações são iguais. Como os juros diminuem à medida que a dívida diminui, a parte de amortização aumenta a cada prestação. A prestação calcula-se com a fórmula da renda:

P = C × i ÷ [1 − (1 + i)^(−n)]

É o modelo mais comum no crédito à habitação e no crédito automóvel, porque a previsibilidade da prestação facilita o orçamento familiar e empresarial.

Exemplo resolvido · Quadro de amortização com prestações constantes

Uma empresa contrai um empréstimo de 12 000 € a 6% ao ano, a pagar em 5 prestações anuais constantes (postecipadas).

  1. Prestação: P = 12 000 × 0,06 ÷ [1 − 1,06⁻⁵] = 720 ÷ 0,252742 ≈ 2 848,76 €.
  2. Construir o quadro, linha a linha:
Ano Dívida no início Juro (6%) Amortização Prestação Dívida no fim
1 12 000,00 720,00 2 128,76 2 848,76 9 871,24
2 9 871,24 592,27 2 256,49 2 848,76 7 614,75
3 7 614,75 456,89 2 391,87 2 848,76 5 222,88
4 5 222,88 313,37 2 535,39 2 848,76 2 687,49
5 2 687,49 161,25 2 687,49 2 848,74 0,00
  1. Como se constrói cada linha: o juro é a dívida do início vezes 6%; a amortização é a prestação menos o juro; a dívida do fim é a do início menos a amortização. No ano 1: 12 000 × 0,06 = 720; 2 848,76 − 720 = 2 128,76; 12 000 − 2 128,76 = 9 871,24.
  2. Verificações obrigatórias: a soma das amortizações é igual ao capital (12 000,00 €); a dívida no fim do último ano é zero; e a última prestação absorve as diferenças de cêntimos de arredondamento (aqui, 2 848,74 € em vez de 2 848,76 €).
  3. Juros totais: 720,00 + 592,27 + 456,89 + 313,37 + 161,25 = 2 243,78 €.

Convém fixar o padrão: a prestação é igual todos os anos, mas a fatia de juros desce (720 → 161) e a fatia de capital sobe (2 129 → 2 688). No início, paga-se sobretudo juros. É por isso que quem amortiza antecipadamente nos primeiros anos poupa mais juros.

Segundo modelo: amortização constante de capital

Aqui o que é constante é a amortização: A = C ÷ n. Os juros diminuem com a dívida, logo as prestações vão diminuindo. A primeira prestação é a mais pesada.

Exemplo resolvido · Quadro com amortização constante

O mesmo empréstimo (12 000 €, 6%, 5 anos) com amortização constante.

  1. Amortização anual: 12 000 ÷ 5 = 2 400 €.
  2. Quadro:
Ano Dívida no início Juro (6%) Amortização Prestação Dívida no fim
1 12 000 720 2 400 3 120 9 600
2 9 600 576 2 400 2 976 7 200
3 7 200 432 2 400 2 832 4 800
4 4 800 288 2 400 2 688 2 400
5 2 400 144 2 400 2 544 0
  1. Juros totais: 720 + 576 + 432 + 288 + 144 = 2 160 €.
  2. Comparação com as prestações constantes (2 243,78 €): este modelo custa menos juros no total (menos 83,78 €), porque se amortiza mais capital logo no início. Em contrapartida, a primeira prestação (3 120 €) é bem mais pesada do que a prestação constante (2 848,76 €). Qual é melhor depende da capacidade de tesouraria da empresa nos primeiros anos.

Terceiro modelo: juros periódicos e capital no fim

Há ainda o empréstimo em que se pagam apenas os juros em cada período e o capital é devolvido de uma só vez no fim (chamado, em alguns contextos, bullet). Para 12 000 € a 6%: 720 € de juros por ano e 12 000 € no ano 5. O encargo anual é baixo, mas a empresa tem de ter o capital disponível na data final, o que exige planeamento da tesouraria.

Períodos de carência

Um empréstimo pode ter carência de capital: durante um período inicial só se pagam juros e a amortização começa depois. É útil em investimentos que demoram a gerar receita. A carência não é "de graça": o capital em dívida mantém-se, os juros continuam e as prestações posteriores ficam mais altas.

Prestações mensais e taxa mensal

Nos empréstimos reais, as prestações são mensais. A taxa anual nominal divide-se por 12 para obter a taxa mensal (a taxa contratual proporcional), e o prazo conta-se em meses.

Exemplo resolvido · Prestação mensal de um empréstimo

Uma empresa pede 8 000 € a pagar em 24 prestações mensais, com taxa anual nominal de 6% (taxa mensal de 0,5%).

  1. Taxa mensal: 6% ÷ 12 = 0,5% = 0,005.
  2. Prestação: P = 8 000 × 0,005 ÷ [1 − 1,005⁻²⁴] = 40 ÷ 0,112814 ≈ 354,56 €.
  3. Primeira linha do quadro: juro = 8 000 × 0,005 = 40,00 €; amortização = 354,56 − 40,00 = 314,56 €; dívida = 8 000 − 314,56 = 7 685,44 €.
  4. Segunda linha: juro = 7 685,44 × 0,005 ≈ 38,43 €; amortização = 354,56 − 38,43 = 316,13 €; dívida = 7 685,44 − 316,13 = 7 369,31 €.
  5. Custo total em juros: cerca de 509,5 €. Com a prestação constante de 354,56 €, 24 × 354,56 − 8 000 = 8 509,44 − 8 000 = 509,44 €; mas a última prestação absorve os cêntimos de arredondamento (354,68 € em vez de 354,56 €), pelo que o total dos juros do quadro completo é 509,56 €.

Equivalência financeira de um empréstimo

Há uma verificação elegante: o valor atual de todas as prestações, à taxa do empréstimo, é igual ao capital emprestado. No exemplo mensal, 354,56 × [1 − 1,005⁻²⁴] ÷ 0,005 ≈ 8 000 €. Se o valor atual não bater com o capital, o quadro tem um erro.

O custo real de um empréstimo

A taxa de juro nominal é só uma parte do custo. Comissões, seguros obrigatórios e impostos entram no custo total. No crédito aos consumidores, a lei obriga a divulgar a TAEG, que reúne esses encargos. Num empréstimo a uma empresa essa obrigação legal não se aplica, mas o raciocínio é o mesmo: a comparação entre propostas faz-se pelo custo efetivo total (juros, comissões, seguros e impostos) e não só pela taxa de juro. Para um técnico, o passo prático é pedir sempre o plano de reembolso completo e confirmar que os totais batem com o contrato.

6. Controlo de tesouraria: mapas de tesouraria e de cash-flow

Tesouraria e resultado não são a mesma coisa

A tesouraria é o dinheiro disponível: caixa e depósitos à ordem. Uma empresa pode ter lucro e ficar sem dinheiro (vende a crédito e os clientes demoram a pagar) ou ter prejuízo e ter dinheiro (recebeu um empréstimo). É por isso que, além da demonstração de resultados, é preciso um controlo específico da tesouraria: a empresa não paga salários com lucro, paga-os com dinheiro.

O controlo de tesouraria responde a três perguntas: quanto dinheiro temos hoje, quanto vamos ter nas próximas semanas e meses e o que fazemos se faltar (ou sobrar).

O mapa de tesouraria

O mapa de tesouraria (ou plano de tesouraria) é o quadro que prevê, período a período (em regra, mês a mês), o que a empresa vai receber e pagar, e daí o saldo de dinheiro no fim de cada período. A sua estrutura é sempre:

  1. Saldo inicial (o saldo final do período anterior).
  2. Recebimentos: de clientes, de outros (venda de equipamento, subsídios, empréstimos recebidos).
  3. Pagamentos: a fornecedores, ao pessoal, rendas, energia e comunicações, impostos e contribuições, prestações de empréstimos, investimentos.
  4. Saldo do período = recebimentos − pagamentos.
  5. Saldo final = saldo inicial + saldo do período.

O elemento mais delicado é o calendário: o que conta é a data em que o dinheiro entra ou sai, não a data da fatura. Uma venda de março, com pagamento a 60 dias, é um recebimento de maio. É para isso que servem os prazos médios de recebimento e de pagamento.

Exemplo resolvido · Mapa de tesouraria trimestral

Uma empresa de comércio tem, em 1 de janeiro, um saldo de caixa e depósitos de 6 000 €. Prevê, para o trimestre:

Rubrica Janeiro Fevereiro Março
Saldo inicial 6 000 2 200 (3 400)
Recebimentos de clientes 22 000 25 000 28 000
Outros recebimentos 0 0 1 500
Total de recebimentos 22 000 25 000 29 500
Pagamentos a fornecedores 12 000 13 000 15 000
Pagamentos ao pessoal 6 000 6 000 6 000
Rendas 2 000 2 000 2 000
Energia e comunicações 800 900 700
Impostos e contribuições 3 500 3 200 3 600
Prestação do empréstimo 1 500 1 500 1 500
Investimento (equipamento) 0 4 000 0
Total de pagamentos 25 800 30 600 28 800
Saldo do período (3 800) (5 600) 700
Saldo final 2 200 (3 400) (2 700)

(Valores entre parênteses são negativos.)

  1. Janeiro: total de recebimentos 22 000; total de pagamentos 12 000 + 6 000 + 2 000 + 800 + 3 500 + 1 500 + 0 = 25 800; saldo do período −3 800; saldo final 6 000 − 3 800 = 2 200.
  2. Fevereiro: o saldo inicial é o final de janeiro (2 200). Recebimentos 25 000; pagamentos 30 600 (inclui 4 000 de investimento); saldo do período −5 600; saldo final 2 200 − 5 600 = −3 400.
  3. Março: saldo inicial −3 400; recebimentos 29 500; pagamentos 28 800; saldo do período +700; saldo final −2 700.
  4. Leitura: a empresa fica sem dinheiro em fevereiro (−3 400 €) e mantém-se com saldo negativo em março (−2 700 €). Isto não é um problema do resultado do ano, é um problema de calendário de dinheiro. Antes de fevereiro, é preciso decidir.

O que fazer perante um défice de tesouraria

O mapa serve para antecipar e agir com tempo. As opções habituais, a validar com a gestão, são:

O técnico não decide sozinho, mas entrega a informação a tempo e a proposta de alternativas com o seu custo. É isso que se avalia na prática profissional.

Mapa de cash-flow

O mapa de cash-flow (mapa de fluxos de caixa) reúne, por período, os fluxos de dinheiro da empresa separados por natureza da atividade:

A soma dos três dá a variação líquida de caixa do período. É o fundamento da demonstração de fluxos de caixa, que veremos no capítulo 10. A diferença para o mapa de tesouraria é de perspetiva: o mapa de tesouraria é sobretudo previsional e centrado no calendário; o mapa de cash-flow é mais usado para analisar o que gerou e consumiu dinheiro, por tipo de atividade.

Mapa de origem e aplicação de fundos

O mapa de origem e aplicação de fundos responde à pergunta: de onde veio o dinheiro e para onde foi? Parte das variações entre dois balanços e arruma-as em duas colunas:

O total das origens é sempre igual ao total das aplicações. Se não for, há um erro. Veremos um exemplo completo no capítulo 10, onde o mesmo caso alimenta o mapa de fluxos de caixa e o de origem e aplicação de fundos, para se ver que são duas leituras do mesmo conjunto de factos.

7. Orçamento anual e análise de desvios

Para que serve um orçamento

O orçamento é a tradução em números do plano da empresa para um período, em regra o ano, dividido em meses ou trimestres. Contém o que se espera vender, gastar, investir e receber ou pagar. Serve para três coisas: planear (decidir quanto se pode gastar e investir), coordenar (cada departamento sabe o seu limite) e controlar (comparar o que aconteceu com o que se previu).

O orçamento anual compõe-se de orçamentos parciais que se encadeiam:

  1. Orçamento de vendas (quantidades e preços), o ponto de partida, porque tudo depende do que se vende.
  2. Orçamento de produção ou de compras, para ter mercadoria ou produto para vender.
  3. Orçamento de gastos operacionais: pessoal, fornecimentos e serviços externos, depreciações.
  4. Orçamento de investimentos.
  5. Orçamento de tesouraria, que transforma o conjunto em movimentos de dinheiro.
  6. Demonstração de resultados previsional e balanço previsional, que resumem o ano.

Desvio: orçado contra real

O desvio é a diferença entre o valor real e o valor orçado:

Para interpretar o sinal, convém distinguir rendimentos de gastos:

Rubrica Real superior ao orçado Real inferior ao orçado
Rendimento (vendas, prestações de serviços) Favorável (ganhou-se mais) Desfavorável
Gasto (pessoal, fornecimentos) Desfavorável (gastou-se mais) Favorável

Um desvio positivo não é automaticamente "bom": um gasto acima do previsto é um desvio positivo e desfavorável. A coluna que se acrescenta ao mapa, "favorável" ou "desfavorável", poupa muitas confusões.

Exemplo resolvido · Análise de desvios de um trimestre

Uma empresa de prestação de serviços orçamentou o trimestre e apurou o real (valores em euros):

Rubrica Orçado Real Desvio absoluto Desvio % Leitura
Prestações de serviços 120 000 126 000 +6 000 +5,0% Favorável
Gastos com pessoal 54 000 55 800 +1 800 +3,3% Desfavorável
Fornecimentos e serviços externos 21 000 19 500 −1 500 −7,1% Favorável
Depreciações 6 000 6 000 0 0,0% Neutro
Outros gastos 3 000 4 200 +1 200 +40,0% Desfavorável
Resultado operacional 36 000 40 500 +4 500 +12,5% Favorável
  1. Resultado orçado: 120 000 − 54 000 − 21 000 − 6 000 − 3 000 = 36 000.
  2. Resultado real: 126 000 − 55 800 − 19 500 − 6 000 − 4 200 = 40 500.
  3. Desvio do resultado: 40 500 − 36 000 = +4 500 (+12,5%).
  4. Leitura: o resultado ficou 12,5% acima do orçado, sobretudo graças às prestações de serviços (+6 000) e à poupança em fornecimentos (−1 500), que compensaram os gastos de pessoal e outros gastos. O desvio percentual maior é em "outros gastos" (+40%), mas o seu peso em euros é pequeno (1 200). Para a análise, o valor absoluto e o peso da rubrica contam tanto como a percentagem.

Analisar as causas: o relatório de desvios

Identificar o desvio é só metade do trabalho. O critério de desempenho da UC exige reportar as causas dos desvios e identificar oportunidades de melhoria contínua. Um bom relatório de desvios:

Desvio de volume e desvio de preço

Em rendimentos e em gastos de compras, o desvio total decompõe-se muitas vezes em duas causas: quantidade e preço. As fórmulas são:

A soma dos dois é o desvio total, porque (Qr − Qo) × Po + (Pr − Po) × Qr = Qr × Pr − Qo × Po.

Exemplo resolvido · Decompor o desvio de vendas

Uma loja orçamentou vender 4 000 unidades a 120 € (480 000 €). Vendeu 4 100 unidades a 122 € (500 200 €).

  1. Desvio total: 500 200 − 480 000 = +20 200 €.
  2. Desvio de quantidade: (4 100 − 4 000) × 120 = +12 000 €.
  3. Desvio de preço: (122 − 120) × 4 100 = +8 200 €.
  4. Verificação: 12 000 + 8 200 = 20 200 €. Bate certo.

Leitura: perto de 60% do desvio favorável veio do volume e cerca de 40% do preço. Se a análise parasse no total, perdia-se esta informação, que muda a conversa: vender mais e vender mais caro pedem ações diferentes.

Orçamento flexível e revisões

Quando a atividade real é muito diferente da prevista, comparar com o orçamento inicial pode enganar: os gastos variáveis sobem naturalmente com as vendas. Algumas empresas usam um orçamento flexível, ajustado ao volume real, e outras fazem revisões trimestrais do orçamento. Cabe à gestão decidir; ao técnico cabe aplicar o procedimento definido e registar sempre qual é a base de comparação.

8. Balanço de gestão e conta de exploração

Do balanço contabilístico ao balanço de gestão

O balanço contabilístico mostra, numa data, o que a empresa tem (ativo) e como o financiou (capital próprio e passivo). Respeita sempre a equação Ativo = Capital próprio + Passivo. É organizado por liquidez e exigibilidade e serve sobretudo o relato obrigatório.

O balanço de gestão (também chamado balanço funcional) reagrupa as mesmas rubricas segundo a sua função na empresa, para responder a perguntas de gestão: o dinheiro que está preso na atividade corrente é financiado por quê? Há folga ou aperto? Não há números novos, há arrumação nova.

A arrumação passa por separar:

Três indicadores de equilíbrio

Com esta arrumação, calculam-se três grandezas centrais:

A relação TL = FM − NFM é o centro do balanço de gestão. Se o FM cobre as NFM, a tesouraria é positiva e a empresa é folgada. Se não cobre, a tesouraria é negativa e a empresa depende de crédito de curto prazo, o que é arriscado.

Exemplo resolvido · Balanço de gestão

Uma empresa comercial tem, no fim do ano, o seguinte balanço (valores em euros):

Ativo Valor Capital próprio e passivo Valor
Ativo fixo líquido 150 000 Capital próprio 122 000
Existências 48 000 Empréstimos de médio e longo prazo 90 000
Clientes 70 000 Empréstimos de curto prazo 10 000
Caixa e depósitos 40 000 Fornecedores 78 000
Estado e outros credores 8 000
Total do ativo 308 000 Total 308 000
  1. Verificar o equilíbrio: 150 000 + 48 000 + 70 000 + 40 000 = 308 000, e 122 000 + 90 000 + 10 000 + 78 000 + 8 000 = 308 000. O balanço fecha.
  2. Capitais permanentes: 122 000 + 90 000 = 212 000.
  3. Fundo de maneio: 212 000 − 150 000 = 62 000.
  4. Necessidades de fundo de maneio: 48 000 + 70 000 − 78 000 − 8 000 = 32 000.
  5. Tesouraria líquida: 62 000 − 32 000 = 30 000. Confirmação pela outra via: 40 000 (meios financeiros) − 10 000 (empréstimos de curto prazo) = 30 000. Os dois caminhos coincidem.

Leitura: o financiamento estável cobre os ativos fixos e ainda sobram 62 000 €; a atividade corrente "come" 32 000 € e a tesouraria é folgada em 30 000 €. A situação é equilibrada. Se as NFM subissem para 70 000 € (por exemplo, porque os clientes passaram a pagar mais tarde), a tesouraria líquida cairia para −8 000 € e a empresa precisaria de crédito. É por isso que o prazo de recebimento é tão vigiado.

A conta de exploração

A conta de exploração é um mapa de gestão que mostra, de forma resumida e escalonada, como a atividade corrente da empresa gera resultado, antes de considerar o financiamento e os impostos. Parte das vendas e vai subtraindo os gastos por escalões, o que dá "resultados intermédios" que dizem onde o valor se cria ou se perde.

Exemplo resolvido · Conta de exploração escalonada

Para a mesma empresa comercial (valores em euros):

Linha Valor
Vendas 500 000
− Custo das mercadorias vendidas 300 000
= Margem bruta 200 000
− Fornecimentos e serviços externos 60 000
= Valor acrescentado bruto (simplificado) 140 000
− Gastos com o pessoal 80 000
+ Outros rendimentos 5 000
− Outros gastos 5 000
= Resultado antes de depreciações, financiamento e impostos (EBITDA) 60 000
− Depreciações 15 000
= Resultado operacional (de exploração) 45 000
  1. Margem bruta: 500 000 − 300 000 = 200 000, ou 40% das vendas.
  2. Valor acrescentado bruto simplificado: 200 000 − 60 000 = 140 000.
  3. EBITDA: 140 000 − 80 000 + 5 000 − 5 000 = 60 000, ou 12% das vendas.
  4. Resultado operacional: 60 000 − 15 000 = 45 000, ou 9% das vendas.

Cada escalão responde a uma pergunta diferente. A margem bruta diz se o preço de venda cobre o custo do que se vende. O EBITDA diz quanto a atividade gera antes das decisões de investimento (depreciações) e de financiamento (juros) e do imposto. O resultado operacional acrescenta o desgaste dos ativos fixos.

A conta de exploração pode ser previsional (para o orçamento) ou histórica (para análise). O que a distingue de uma demonstração de resultados completa é que se detém no resultado operacional: não inclui juros nem imposto.

9. Demonstração de resultados por natureza e por funções

O que mostra a demonstração de resultados

A demonstração de resultados (DR) é a demonstração financeira que apresenta os rendimentos e os gastos de um período (em regra, o ano) e termina no resultado líquido do período. Ao contrário do balanço, que é uma fotografia numa data, a DR é um filme de um período.

Dois princípios explicam o que entra e quando:

Por isso a DR não é o mapa de tesouraria. O resultado e o dinheiro andam em tempos diferentes, e é esse o motivo de se preparar também a demonstração de fluxos de caixa (capítulo 10).

A estrutura e as rubricas das demonstrações financeiras constam do Sistema de Normalização Contabilística (SNC), na redação em vigor, que prevê modelos de demonstrações financeiras. O que se apresenta a seguir usa as rubricas usuais desses modelos, de forma didática. Na prática, o técnico usa o modelo oficial adotado pela empresa e o software que o preenche.

DR por natureza

Na DR por natureza, os gastos agrupam-se pelo tipo do que se gastou (matérias, serviços, pessoal, depreciações…), sem perguntar para que departamento foram. É o modelo mais simples e, por isso, o mais usado nas pequenas empresas. A estrutura típica é:

Rubrica
Vendas e serviços prestados
Subsídios à exploração
Variação nos inventários da produção
Trabalhos para a própria entidade
Custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas
Fornecimentos e serviços externos
Gastos com o pessoal
Imparidade e provisões
Outros rendimentos
Outros gastos
Resultado antes de depreciações, gastos de financiamento e impostos
Gastos/reversões de depreciação e de amortização
Resultado operacional (antes de gastos de financiamento e impostos)
Juros e rendimentos similares obtidos
Juros e gastos similares suportados
Resultado antes de impostos
Imposto sobre o rendimento do período
Resultado líquido do período

Exemplo resolvido · DR por natureza

Uma empresa comercial tem os seguintes valores do ano (euros): vendas 500 000; outros rendimentos 5 000; custo das mercadorias vendidas 300 000; fornecimentos e serviços externos 60 000; gastos com o pessoal 80 000; depreciações 15 000; outros gastos 5 000; juros suportados 5 000. Para o imposto, admite-se só neste exemplo uma taxa hipotética de 20% sobre o resultado antes de impostos.

Rubrica Valor
Vendas e serviços prestados 500 000
Custo das mercadorias vendidas (300 000)
Fornecimentos e serviços externos (60 000)
Gastos com o pessoal (80 000)
Outros rendimentos 5 000
Outros gastos (5 000)
Resultado antes de depreciações, gastos de financiamento e impostos 60 000
Gastos de depreciação (15 000)
Resultado operacional 45 000
Juros e gastos similares suportados (5 000)
Resultado antes de impostos 40 000
Imposto sobre o rendimento do período (hipótese de 20%) (8 000)
Resultado líquido do período 32 000
  1. Resultado antes de depreciações, gastos de financiamento e impostos: 500 000 − 300 000 − 60 000 − 80 000 + 5 000 − 5 000 = 60 000.
  2. Resultado operacional: 60 000 − 15 000 = 45 000.
  3. Resultado antes de impostos: 45 000 − 5 000 = 40 000.
  4. Imposto: 20% × 40 000 = 8 000, e resultado líquido: 40 000 − 8 000 = 32 000 €.

DR por funções

Na DR por funções, os gastos agrupam-se pela função da empresa que os gerou: o que custou vender (distribuição), o que custou administrar, o que custou produzir ou comprar o que se vendeu, o que custou investigar e desenvolver. Responde a uma pergunta mais de gestão: quanto custa cada atividade? Tem a vantagem de mostrar a margem bruta (vendas menos o custo do que se vendeu) e a desvantagem de exigir repartir os gastos por funções, o que obriga a critérios e a julgamento.

A estrutura típica é:

Rubrica
Vendas e serviços prestados
Custo das vendas e dos serviços prestados
Resultado bruto
Outros rendimentos
Gastos de distribuição
Gastos administrativos
Gastos de investigação e desenvolvimento
Outros gastos
Resultado operacional (antes de gastos de financiamento e impostos)
Juros e rendimentos similares obtidos
Juros e gastos similares suportados
Resultado antes de impostos
Imposto sobre o rendimento do período
Resultado líquido do período

Exemplo resolvido · A mesma empresa, DR por funções

Os gastos que, por natureza, eram fornecimentos e serviços externos (60 000), pessoal (80 000), depreciações (15 000) e outros gastos (5 000), somam 160 000. Repartem-se, segundo os critérios da empresa, em: distribuição 65 000; administrativos 90 000; outros gastos 5 000.

Rubrica Valor
Vendas e serviços prestados 500 000
Custo das vendas (300 000)
Resultado bruto 200 000
Outros rendimentos 5 000
Gastos de distribuição (65 000)
Gastos administrativos (90 000)
Outros gastos (5 000)
Resultado operacional 45 000
Juros e gastos similares suportados (5 000)
Resultado antes de impostos 40 000
Imposto sobre o rendimento do período (8 000)
Resultado líquido do período 32 000

Verificações:

  1. O resultado operacional é 45 000 nos dois modelos. O resultado líquido é 32 000 nos dois. Muda a apresentação dos gastos, não o resultado.
  2. A soma dos gastos operacionais que não são custo das vendas tem de ser igual nos dois modelos: 65 000 + 90 000 + 5 000 = 160 000 = 60 000 + 80 000 + 15 000 + 5 000.
  3. O que a DR por funções acrescenta é o resultado bruto (200 000, 40% das vendas), que a DR por natureza não mostra de forma direta.

Natureza ou funções: qual escolher

Critério Por natureza Por funções
Simplicidade Alta: usa as contas como estão Menor: exige repartir gastos
Objetividade Alta Depende de critérios de repartição
Informação de gestão Menos (não mostra o custo de cada função) Mais (margem bruta, custo de vender, de administrar)
Comparabilidade entre empresas Boa Condicionada pelos critérios
Quem tende a usar Pequenas e médias empresas Empresas maiores ou com contabilidade analítica

Quando uma empresa adota a DR por funções, o regime contabilístico aplicável pede, em regra, informação adicional sobre gastos por natureza, nomeadamente gastos com o pessoal e depreciações, no anexo. Convém confirmar no modelo da entidade quais as divulgações exigidas.

O anexo

O anexo é o documento que acompanha as demonstrações financeiras e que explica e completa os números: as políticas contabilísticas adotadas (por exemplo, o método de depreciação e a forma de valorizar as existências), o detalhe das rubricas mais importantes (quanto são clientes de cobrança duvidosa, qual o prazo dos empréstimos), os compromissos e factos posteriores ao fim do período. Preencher os anexos exige pôr em texto e em quadros o que as demonstrações só resumem.

O modelo de anexo e a numeração das notas dependem do regime contabilístico aplicável à entidade. Convém, por isso, partir sempre do modelo em vigor e preencher apenas as notas que se aplicam, com a mesma informação que consta do balanço e da demonstração de resultados.

Exemplo resolvido · Preencher notas do anexo

Para a empresa comercial da DR por natureza deste capítulo (gastos com o pessoal 80 000; depreciações 15 000; juros suportados 5 000), admitem-se só neste exemplo os dados adicionais seguintes. O equipamento custou 90 000 € e é depreciado pelo método da linha reta ao longo de 6 anos; no início do ano a depreciação acumulada era de 30 000 €; os restantes ativos fixos são terrenos, que não se depreciam. As remunerações foram 64 000 € e os encargos sobre remunerações 16 000 €, com 5 pessoas em média. As mercadorias são valorizadas pelo custo médio ponderado. Há um empréstimo bancário de 100 000 € a 5% ao ano, dos quais 90 000 € se reembolsam a mais de um ano e 10 000 € no ano seguinte, tal como mostra o balanço do capítulo 8. Em fevereiro do ano seguinte, a empresa assinou o arrendamento de um novo armazém, com renda de 2 500 € por mês.

Nota · Políticas contabilísticas. As mercadorias são valorizadas ao custo, pelo método do custo médio ponderado. Os ativos fixos tangíveis são depreciados pelo método da linha reta, ao longo da vida útil estimada (equipamento: 6 anos).

Nota · Ativos fixos tangíveis (equipamento).

Movimento Valor
Custo no início e no fim do ano 90 000
Depreciação acumulada no início 30 000
Depreciação do ano 15 000
Depreciação acumulada no fim 45 000
Valor líquido no fim do ano 45 000

Nota · Gastos com o pessoal. Remunerações 64 000 € mais encargos sobre remunerações 16 000 € dão 80 000 €, igual ao valor da DR. Número médio de pessoas ao serviço: 5.

Nota · Financiamentos obtidos. Empréstimo bancário de 100 000 €, à taxa contratual de 5% ao ano: não corrente 90 000 € e corrente 10 000 €, iguais às duas linhas de empréstimos do balanço. Juros suportados no ano: 5 000 €, igual ao valor da DR.

Nota · Factos posteriores à data do balanço. Em fevereiro, a empresa assinou o arrendamento de um novo armazém, com renda de 2 500 € por mês (30 000 € por ano). O facto não altera os valores do balanço, mas é divulgado por ser relevante para quem lê as contas.

Verificações: 64 000 + 16 000 = 80 000 (nota dos gastos com o pessoal igual à DR); 90 000 − 45 000 = 45 000 (nota dos ativos fixos tangíveis); 90 000 + 10 000 = 100 000, igual aos empréstimos de médio e longo prazo e de curto prazo do balanço, e os juros da nota dos financiamentos (5 000 €) são os da DR. Uma nota que não bate com a demonstração a que se refere tem um erro.

10. Alterações no capital próprio, fluxos de caixa, origem e aplicação de fundos

Demonstração de alterações no capital próprio

O capital próprio é o que pertence aos sócios: capital realizado, reservas, resultados transitados e resultado líquido do período. A demonstração de alterações no capital próprio mostra, por componente, como cada uma mudou durante o período. Parte do saldo no início, regista as variações e chega ao saldo no fim, que tem de coincidir com o capital próprio do balanço.

As variações mais comuns são:

Exemplo resolvido · Alterações no capital próprio

Uma empresa começa o ano com: capital realizado 50 000; reserva legal 4 000; outras reservas 6 000; resultados transitados 10 000; resultado líquido do período anterior 20 000 (total 90 000). Durante o ano:

Componente Capital Reserva legal Outras reservas Resultados transitados Resultado líquido Total
Saldo inicial 50 000 4 000 6 000 10 000 20 000 90 000
Aplicação do resultado anterior 0 1 000 0 19 000 (20 000) 0
Dividendos distribuídos 0 0 0 (10 000) 0 (10 000)
Aumento de capital 10 000 0 0 0 0 10 000
Resultado líquido do período 0 0 0 0 32 000 32 000
Saldo final 60 000 5 000 6 000 19 000 32 000 122 000
  1. Aplicação do resultado: o resultado de 20 000 sai da coluna "Resultado líquido" (−20 000) e entra 1 000 na reserva legal e 19 000 em resultados transitados (soma: 20 000, total da linha: zero).
  2. Dividendos: saem dos resultados transitados (−10 000), diminuindo o capital próprio total.
  3. Resultados transitados finais: 10 000 + 19 000 − 10 000 = 19 000.
  4. Total final: 60 000 + 5 000 + 6 000 + 19 000 + 32 000 = 122 000. Confirmação por outra via: 90 000 + 10 000 (aumento de capital) + 32 000 (resultado) − 10 000 (dividendos) = 122 000.
  5. Este valor de 122 000 coincide com o capital próprio do balanço de gestão do capítulo 8.

Demonstração de fluxos de caixa

A demonstração de fluxos de caixa (DFC) explica como variou o dinheiro da empresa no período: de quanto era no início, quanto entrou e saiu, e quanto ficou no fim. Organiza os fluxos em três atividades, as mesmas do mapa de cash-flow: operacionais, de investimento e de financiamento. A soma dos três é a variação de caixa e seus equivalentes, que somada ao saldo inicial dá o saldo final.

A diferença entre os dois métodos está só na forma de apurar o fluxo das atividades operacionais. Os fluxos de investimento e financiamento são apresentados da mesma maneira nos dois.

Método direto. Mostra os recebimentos e pagamentos brutos das atividades operacionais: recebimentos de clientes, pagamentos a fornecedores, pagamentos ao pessoal, pagamento de impostos. É mais intuitivo, mas exige que a contabilidade reúna esses movimentos de dinheiro.

Método indireto. Parte do resultado líquido e ajusta-o até chegar ao fluxo operacional: soma os gastos que não são saídas de dinheiro (depreciações), retira os resultados que pertencem a outras atividades (juros, que vão para financiamento) e corrige as variações das contas correntes (clientes, existências, fornecedores, Estado). É o mais usado, porque parte de informação que já existe.

A lógica das variações do balanço

Para o método indireto, a regra de leitura é:

Variação entre o início e o fim Efeito no fluxo de caixa operacional
Aumento de clientes ou de existências (ativos) Diminui o fluxo (dinheiro preso)
Diminuição de clientes ou de existências Aumenta o fluxo
Aumento de fornecedores ou de Estado e outros credores (passivos) Aumenta o fluxo (pagou-se menos do que se gastou)
Diminuição de fornecedores ou de credores Diminui o fluxo

Exemplo resolvido · Fluxos de caixa pelos dois métodos

A empresa dos exemplos anteriores (resultado líquido 32 000) tem, durante o ano, os seguintes dados de dinheiro e de balanço:

Pelo método direto:

Fluxos de caixa Valor
Recebimentos de clientes 490 000
Pagamentos a fornecedores (355 000)
Pagamentos ao pessoal (80 000)
Caixa gerada pelas operações 55 000
Pagamento do imposto sobre o rendimento (7 000)
Fluxos das atividades operacionais 48 000
Pagamentos respeitantes a ativos fixos (30 000)
Recebimentos provenientes de ativos fixos 4 000
Fluxos das atividades de investimento (26 000)
Realização de capital 10 000
Empréstimos obtidos 20 000
Reembolsos de empréstimos (12 000)
Juros pagos (5 000)
Dividendos pagos (10 000)
Fluxos das atividades de financiamento 3 000
Variação de caixa (48 000 − 26 000 + 3 000) 25 000
Caixa no início 15 000
Caixa no fim 40 000

Pelo método indireto (só muda o fluxo operacional): a empresa sabe que, em relação ao início do ano, os clientes aumentaram 15 000, as existências aumentaram 8 000, os fornecedores aumentaram 18 000, e a conta do Estado (imposto) aumentou 1 000.

  1. Resultado líquido: 32 000.
  2. Somar o imposto reconhecido como gasto (8 000) e os juros (5 000), que pertencem a financiamento, e as depreciações (15 000): 32 000 + 8 000 + 5 000 + 15 000 = 60 000. É o resultado operacional (45 000) mais as depreciações (15 000).
  3. Corrigir as variações: clientes −15 000; existências −8 000; fornecedores +18 000. Resultado: 60 000 − 15 000 − 8 000 + 18 000 = 55 000.
  4. Subtrair o imposto efetivamente pago (7 000): 55 000 − 7 000 = 48 000.
  5. O fluxo operacional é 48 000 nos dois métodos. O resto da demonstração é igual. A caixa final é 40 000.

Aqui está a chave da DFC: o lucro (32 000) é diferente do dinheiro gerado pelas operações (48 000), porque há depreciações (que não saem da caixa) e variações de clientes, existências e fornecedores. Uma empresa com lucro e sem caixa tem quase sempre as NFM a crescer.

Mapa de origem e aplicação de fundos, com o mesmo caso

O mesmo conjunto de factos conta-se, agora, pela lógica de onde veio o dinheiro e para onde foi:

Origens Valor Aplicações Valor
Autofinanciamento (32 000 + 15 000) 47 000 Aquisição de ativos fixos 30 000
Aumento de capital 10 000 Reembolso de empréstimos 12 000
Novos empréstimos 20 000 Dividendos pagos 10 000
Venda de ativo fixo 4 000 Aumento das NFM 4 000
Aumento da tesouraria 25 000
Total das origens 81 000 Total das aplicações 81 000
  1. Autofinanciamento: resultado líquido mais depreciações, 32 000 + 15 000 = 47 000.
  2. Aumento das NFM: clientes +15 000, existências +8 000, fornecedores −18 000 (financiam), Estado −1 000: 15 000 + 8 000 − 18 000 − 1 000 = 4 000.
  3. Origens: 47 000 + 10 000 + 20 000 + 4 000 = 81 000. Aplicações: 30 000 + 12 000 + 10 000 + 4 000 + 25 000 = 81 000. Fecham.
  4. O aumento de tesouraria (25 000) é igual à variação de caixa da DFC. As duas demonstrações confirmam-se uma à outra.

Coerência entre as demonstrações

Um técnico competente verifica sempre a coerência entre os mapas. As ligações principais são:

Quando uma destas igualdades falha, há um erro em algum lado, e é melhor encontrá-lo antes de entregar do que depois.

11. Rácios de análise e avaliação das operações financeiras

O que é um rácio e porque se usa

Um rácio é o quociente entre duas grandezas das demonstrações financeiras. Transforma números absolutos (que só se leem bem dentro de uma empresa) em medidas relativas, que se comparam ao longo do tempo (a empresa este ano contra o ano passado), com o orçamento e com empresas semelhantes do mesmo setor. Um lucro de 32 000 € diz pouco; um lucro de 6,4% das vendas já permite comparar.

Um rácio nunca se interpreta sozinho. Precisa de um termo de comparação (a tendência da própria empresa, a média do setor, a meta fixada) e de contexto (uma empresa de distribuição tem rácios muito diferentes de uma de consultoria). O trabalho do técnico é apurar os rácios com rigor, apresentá-los de forma legível e apontar o que mudou. A decisão pertence à gestão.

Os rácios agrupam-se em famílias. Usaremos, para todos, os dados do balanço de gestão (capítulo 8) e da DR (capítulo 9) da empresa comercial dos exemplos: ativo total 308 000; capital próprio 122 000; passivo 186 000; ativo corrente (existências 48 000 + clientes 70 000 + caixa 40 000) 158 000; passivo corrente (empréstimos curto prazo 10 000 + fornecedores 78 000 + Estado e outros 8 000) 96 000; vendas 500 000; custo das vendas 300 000; resultado operacional 45 000; resultado líquido 32 000.

Rácios de liquidez

Medem a capacidade da empresa para pagar as dívidas de curto prazo com os meios de que dispõe a curto prazo.

Rácio Fórmula Cálculo Resultado
Liquidez geral Ativo corrente ÷ Passivo corrente 158 000 ÷ 96 000 1,65
Liquidez reduzida (Ativo corrente − Existências) ÷ Passivo corrente (158 000 − 48 000) ÷ 96 000 1,15
Liquidez imediata Meios financeiros líquidos ÷ Passivo corrente 40 000 ÷ 96 000 0,42

Leitura: por cada euro de dívida a curto prazo, a empresa tem 1,65 € de ativos que se convertem em dinheiro no curto prazo. Mesmo sem contar com as existências, tem 1,15 €. E só com o dinheiro que tem em caixa e no banco cobre 42% das dívidas a curto prazo. Valores abaixo de 1 na liquidez geral e reduzida são sinal de alerta. A liquidez imediata é naturalmente mais baixa e não deve ser lida como alarme sozinha.

Rácios de estrutura financeira

Medem como a empresa se financia e que parte do risco é suportada pelos sócios.

Rácio Fórmula Cálculo Resultado
Autonomia financeira Capital próprio ÷ Ativo total 122 000 ÷ 308 000 39,6%
Solvabilidade Capital próprio ÷ Passivo total 122 000 ÷ 186 000 0,66
Endividamento Passivo total ÷ Ativo total 186 000 ÷ 308 000 60,4%

Leitura: 39,6% dos ativos são financiados por capitais dos sócios e 60,4% por dívida. Autonomia + endividamento = 100%, porque Ativo = Capital próprio + Passivo, o que serve de verificação. Quanto maior a autonomia, menor a dependência de credores e maior a margem para absorver prejuízos.

Rácios de rendibilidade

Medem quanto lucro a empresa obtém em relação às vendas, aos ativos e ao capital dos sócios.

Rácio Fórmula Cálculo Resultado
Margem bruta Resultado bruto ÷ Vendas 200 000 ÷ 500 000 40,0%
Margem operacional Resultado operacional ÷ Vendas 45 000 ÷ 500 000 9,0%
Rendibilidade líquida das vendas Resultado líquido ÷ Vendas 32 000 ÷ 500 000 6,4%
Rendibilidade do ativo (ROA) Resultado líquido ÷ Ativo total 32 000 ÷ 308 000 10,4%
Rendibilidade do capital próprio (ROE) Resultado líquido ÷ Capital próprio 32 000 ÷ 122 000 26,2%

Leitura: de cada 100 € vendidos, 40 € ficam depois de pagar as mercadorias, 9 € depois de todos os gastos operacionais e 6,40 € depois de juros e imposto. Os sócios obtêm 26,2 € de lucro por cada 100 € de capital próprio. Uma nota de método: muitas empresas usam o valor médio do ativo ou do capital próprio do ano (média entre o início e o fim) em vez do valor final. Neste exemplo, com o capital próprio inicial de 90 000 e o final de 122 000, a média seria 106 000 e o ROE ≈ 30,2%. O que importa é usar a mesma convenção sempre que se compara.

Rácios de atividade: prazos médios e rotação

Medem a rapidez do ciclo de exploração: quanto tempo a empresa demora a receber, a pagar e a vender o que tem em armazém.

Rácio Fórmula Cálculo Resultado
Prazo médio de recebimento (PMR) Clientes ÷ Vendas × 365 70 000 ÷ 500 000 × 365 ≈ 51 dias
Prazo médio de pagamento (PMP) Fornecedores ÷ Compras e FSE × 365 78 000 ÷ 368 000 × 365 ≈ 77 dias
Prazo médio de estadia das existências Existências ÷ Custo das vendas × 365 48 000 ÷ 300 000 × 365 ≈ 58 dias
Rotação das existências Custo das vendas ÷ Existências 300 000 ÷ 48 000 6,25 vezes

(Para o PMP, as compras do ano foram aproximadas por 300 000 de custo das vendas mais 8 000 de aumento de existências, 308 000, a que se somaram 60 000 de FSE.)

Leitura: a empresa leva em média 51 dias a receber dos clientes, 77 dias a pagar aos fornecedores e mantém em armazém o equivalente a 58 dias de vendas. Receber mais depressa do que paga é saudável para a tesouraria. Nota técnica importante: as vendas e as compras das demonstrações não incluem o IVA, mas os saldos de clientes e fornecedores no balanço incluem-no, por isso, rigorosamente, deve-se tratar esta diferença de forma consistente (por exemplo, usando a faturação com IVA no denominador). A regra de ouro, de novo: a mesma convenção, sempre, e dizê-la no relatório.

Rácios de cobertura e de serviço da dívida

Medem a capacidade de a empresa suportar os encargos da dívida.

Rácio Fórmula Cálculo Resultado
Cobertura dos juros Resultado operacional ÷ Juros suportados 45 000 ÷ 5 000 9,0 vezes

Leitura: o resultado operacional cobre nove vezes os juros. Valores muito baixos (perto de 1) significam que quase todo o resultado operacional é consumido pelos juros.

Como apurar e apresentar rácios com rigor

  1. Definir a fórmula de cada rácio e escrevê-la no relatório. Dois "ROE" com fórmulas diferentes não se comparam.
  2. Usar os mesmos critérios para todos os períodos comparados (valores finais ou médios, 365 ou 360 dias).
  3. Ir buscar os valores à fonte: balanço e DR aprovados, não a mapas provisórios.
  4. Apresentar o rácio com o termo de comparação: ano anterior, orçamento, referência do setor.
  5. Escrever uma frase de leitura por cada rácio relevante: o que mudou e qual a causa provável.
  6. Assinalar as limitações: um rácio calculado num único momento do ano pode esconder sazonalidade.

12. Software, monitorização e reporte das operações financeiras

Folha de cálculo: características e funcionalidades

A folha de cálculo é o software de eleição para quase todo o trabalho desta UC. Organiza os dados em células (cruzamento de uma linha e de uma coluna), agrupadas em folhas e livros. As suas funcionalidades essenciais são:

Boas práticas na construção de um modelo financeiro em folha de cálculo

  1. Separar dados, pressupostos e cálculos. Uma folha para os dados de origem, outra para os pressupostos (taxas, prazos, percentagens) e outra para os mapas finais.
  2. Nunca escrever pressupostos dentro das fórmulas. Em vez de "=B50,06", usa-se "=B5taxa", com a taxa numa célula identificada. Assim, a mudança de uma taxa faz-se num só sítio.
  3. Uma fórmula por linha ou coluna, copiada para o resto, em vez de fórmulas diferentes em cada célula.
  4. Totais de controlo: uma linha que verifique igualdades (Ativo − Capital próprio − Passivo = 0; origens − aplicações = 0).
  5. Cores e legendas consistentes: células de dados em azul, fórmulas em preto, verificações em verde ou vermelho.
  6. Guardar versões com data e identificar quem alterou, para se poder voltar atrás.
  7. Rever com outra pessoa sempre que o resultado vai para a gestão.

Exemplo resolvido · Fórmulas para o quadro de amortização

Para o empréstimo de 12 000 € a 6% em 5 anos, a folha de cálculo pode ter nas células B1 (capital = 12 000), B2 (taxa = 6%) e B3 (anos = 5). Nesse caso:

  1. Prestação: =-PGTO(B2;B3;B1) devolve 2 848,76. O sinal "−" evita o resultado negativo.
  2. Juro do 1.º ano: =D6*$B$2, em que D6 é a dívida no início do 1.º ano. O cifrão em $B$2 garante que a taxa não se desloca ao copiar a fórmula para baixo.
  3. Amortização: =prestação − juro.
  4. Dívida no fim: =D6 − amortização, e a dívida do início do ano seguinte é igual a esta.
  5. Linha de controlo: a soma das amortizações tem de ser igual a B1, e a dívida final tem de ser 0.

Se a fórmula de juro fosse "=D6*0,06", funcionaria, mas qualquer mudança de taxa obrigaria a corrigir célula a célula.

Colaborar na monitorização e na avaliação das operações

Monitorizar é acompanhar, com regularidade e de forma sistemática, os indicadores que mostram se as operações financeiras decorrem como previsto: saldos de tesouraria, cobranças, pagamentos, execução do orçamento, cumprimento das prestações dos empréstimos. O técnico colabora, por exemplo:

Avaliar é o passo seguinte: perceber se as operações foram boas para a empresa. Colabora-se na avaliação apurando e comparando indicadores (rácios, custo efetivo de um financiamento, desvios), organizando a informação e apresentando as conclusões à chefia, que decide.

Reportar com clareza

O reporte é a entrega da informação a quem decide. Um bom relatório financeiro de rotina:

Reportar também é saber escalar um problema. Perante um erro encontrado (um valor que não bate, um documento em falta), a atitude certa é dizê-lo logo, com os factos, em vez de tentar resolver em silêncio ou de esperar que ninguém dê por isso.

Atitudes profissionais

O trabalho financeiro tem uma componente ética forte. As atitudes avaliadas nesta UC concretizam-se assim:

13. Normas de proteção de dados

Porque é que isto faz parte das operações financeiras

O trabalho financeiro lida, todos os dias, com dados pessoais: nomes e contribuintes de clientes e fornecedores, IBAN, recibos de vencimento dos trabalhadores, dados de sócios e de avalistas. A proteção desses dados é regulada por legislação europeia e nacional. O texto central é o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD), o Regulamento (UE) 2016/679, que se aplica diretamente em Portugal e é complementado por legislação nacional na redação em vigor. A autoridade nacional de controlo é a Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD).

Conceitos fundamentais

Princípios do tratamento

O RGPD estabelece princípios que o técnico deve interiorizar e aplicar:

Princípio Em termos práticos
Licitude, lealdade e transparência Só se tratam dados com um fundamento legal válido e informando o titular
Limitação das finalidades Os dados recolhidos para faturar não se usam para outros fins incompatíveis
Minimização Recolher apenas os dados necessários
Exatidão Manter os dados corretos e atualizados
Limitação da conservação Não guardar mais tempo do que o necessário ou o que a lei exige
Integridade e confidencialidade Proteger contra acessos indevidos, perda e alteração
Responsabilidade A empresa tem de conseguir demonstrar que cumpre

Direitos dos titulares

Os titulares têm direitos que a empresa tem de saber respeitar: informação, acesso aos seus dados, retificação, apagamento (nos casos previstos), limitação do tratamento, portabilidade e oposição. Quando um cliente pede, por exemplo, uma cópia dos dados que a empresa tem sobre ele, o técnico não responde sozinho: encaminha o pedido para o responsável interno, dentro dos prazos que a lei estabelece.

Aplicar as normas no trabalho do dia a dia

  1. Aceder só ao necessário: entrar nos sistemas com as credenciais próprias e consultar só o que a tarefa exige. Nunca partilhar a palavra-passe.
  2. Minimizar nos mapas: um mapa de idade de saldos para uma reunião não precisa do contribuinte nem da morada do cliente. Basta o código ou o nome.
  3. Proteger os ficheiros: folhas de cálculo com dados pessoais devem ter palavra-passe ou ficar em pastas com acesso restrito, nunca num suporte pessoal.
  4. Cuidado com o envio: confirmar o destinatário antes de enviar um mapa por correio eletrónico; usar a cópia oculta quando se escreve a vários clientes.
  5. Não deixar documentos à vista (impressões com recibos de vencimento) e destruí-los de forma segura quando deixam de ser necessários.
  6. Conservar o tempo certo: seguir o calendário de conservação definido pela empresa e pela lei para cada tipo de documento.
  7. Comunicar de imediato qualquer incidente (um e-mail enviado ao destinatário errado, um computador perdido) ao responsável, porque há obrigações de comunicação com prazos apertados.

Exemplo resolvido · Preparar um mapa para circular internamente

A chefia pede o mapa de idade de saldos para uma reunião com a equipa comercial. O ficheiro de origem tem, por cliente, nome, número de contribuinte, morada, IBAN e saldos.

  1. Perguntar para quê: a equipa precisa de saber quem deve, quanto e há quanto tempo.
  2. Aplicar a minimização: o mapa a circular leva só o nome (ou código) do cliente e os escalões de saldo. Contribuinte, morada e IBAN não entram.
  3. Guardar o ficheiro completo numa pasta de acesso restrito, e o mapa reduzido numa pasta da equipa.
  4. Enviar por canal interno aprovado, aos destinatários da reunião, e não a uma lista geral.
  5. Registar o que foi feito, para poder demonstrar o cumprimento.

Relação com o sigilo profissional

Além do RGPD, o trabalho financeiro envolve segredo comercial e sigilo: preços, margens, dívidas e planos da empresa não se comentam fora dela. A regra prática é simples: só se partilha o que a função exige, com quem a função exige.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Executar operações financeiras é preparar bem os números e lê-los com sentido crítico. Recolhe-se e seleciona-se a informação, organizada em mapas contabilísticos, mapas de idade de saldos e mapas financeiros. Na matemática financeira, o juro simples cresce em linha reta, o juro composto capitaliza; taxas equivalentes obtêm-se por raízes e potências, nunca por divisão; capitais só se comparam na mesma data focal; rendas e empréstimos resolvem-se com a fórmula do valor atual, e o quadro de amortização tem de fechar. No controlo de tesouraria, o mapa de tesouraria antecipa défices pelo calendário do dinheiro; o mapa de cash-flow e o de origem e aplicação de fundos explicam de onde veio e para onde foi. O orçamento serve para planear e controlar, e o desvio só tem valor se for explicado. As demonstrações financeiras (balanço de gestão, conta de exploração, DR por natureza e por funções, alterações no capital próprio, fluxos de caixa pelos métodos direto e indireto) devem ser coerentes entre si. Os rácios transformam números em comparações, e só se leem com termo de comparação. Em tudo isto, a folha de cálculo é a ferramenta, as atitudes (rigor, ética, organização) são o padrão e a proteção de dados é uma obrigação.

Exercícios resolvidos

1. Uma empresa aplica 6 000 € a 4% ao ano, a juro simples, durante 15 meses. Qual o juro e o montante?

Resolução: n = 15/12 = 1,25 anos. J = 6 000 × 0,04 × 1,25 = 300 €. M = 6 000 + 300 = 6 300 €.

2. Um depósito de 7 500 € rende 3% ao ano, com capitalização anual. Qual o valor ao fim de 4 anos?

Resolução: M = 7 500 × 1,03⁴ = 7 500 × 1,125509 ≈ 8 441,32 €.

3. Qual é a taxa mensal equivalente a uma taxa efetiva anual de 12%?

Resolução: i₁₂ = 1,12^(1/12) − 1 ≈ 1,009489 − 1 ≈ 0,9489% ao mês. A taxa proporcional (12 ÷ 12 = 1%) seria superior e estaria errada em juro composto.

4. Um depósito oferece "6% ao ano, capitalização mensal". Qual a taxa efetiva anual?

Resolução: taxa mensal = 6% ÷ 12 = 0,5%. Taxa efetiva anual = 1,005¹² − 1 ≈ 1,061678 − 1 = 6,1678%.

5. Quanto vale hoje, a 5% ao ano, uma dívida de 9 000 € a pagar daqui a 3 anos?

Resolução: C = 9 000 ÷ 1,05³ = 9 000 ÷ 1,157625 ≈ 7 774,54 €.

6. Uma empresa paga 1 000 € no fim de cada ano durante 4 anos. A 5% ao ano, qual é o valor atual dos pagamentos?

Resolução: V₀ = 1 000 × [1 − 1,05⁻⁴] ÷ 0,05 = 1 000 × (1 − 0,822702) ÷ 0,05 = 1 000 × 3,545951 ≈ 3 545,95 €.

7. Um empréstimo de 10 000 € a 5% ao ano é pago em 4 prestações anuais constantes. Qual a prestação e qual a parte de juros da primeira?

Resolução: P = 10 000 × 0,05 ÷ [1 − 1,05⁻⁴] = 500 ÷ 0,177298 ≈ 2 820,12 €. Juro da 1.ª prestação: 10 000 × 0,05 = 500 €; amortização: 2 820,12 − 500 = 2 320,12 €.

8. Num mapa de tesouraria, o saldo inicial é 4 000 €, os recebimentos do mês 18 000 € e os pagamentos 21 500 €. Qual o saldo final e o que sugere?

Resolução: saldo do período = 18 000 − 21 500 = −3 500; saldo final = 4 000 − 3 500 = 500 €. Ainda é positivo, mas a margem é curta: se o mês seguinte repetir o padrão, o saldo fica negativo. Convém antecipar medidas (cobranças, prazos, financiamento).

9. O orçamento previa gastos de 40 000 € e o real foi 43 000 €. Qual o desvio absoluto, o relativo e a leitura?

Resolução: desvio absoluto = 43 000 − 40 000 = +3 000 €; desvio relativo = 3 000 ÷ 40 000 = +7,5%. Num gasto, é um desvio desfavorável. Falta explicar a causa: preço, quantidade ou calendário.

10. Um balanço de gestão tem capitais permanentes de 80 000 €, ativo fixo líquido de 60 000 €, NFM de 25 000 €. Qual o fundo de maneio e a tesouraria líquida?

Resolução: FM = 80 000 − 60 000 = 20 000 €. TL = FM − NFM = 20 000 − 25 000 = −5 000 €. A tesouraria é negativa: a empresa financia parte do ciclo de exploração com crédito de curto prazo.

11. A DR por natureza de uma empresa tem: vendas 300 000, custo das vendas 180 000, FSE 30 000, pessoal 50 000, depreciações 10 000, juros 4 000. Qual o resultado operacional e o resultado antes de impostos?

Resolução: resultado antes de depreciações = 300 000 − 180 000 − 30 000 − 50 000 = 40 000. Resultado operacional = 40 000 − 10 000 = 30 000. Resultado antes de impostos = 30 000 − 4 000 = 26 000.

12. Um capital próprio começa o ano com 60 000 €, a empresa tem resultado líquido de 15 000 €, distribui 5 000 € de dividendos e os sócios entram com 8 000 € de capital. Qual o capital próprio final?

Resolução: 60 000 + 15 000 − 5 000 + 8 000 = 78 000 €.

13. No método indireto, o resultado líquido é 20 000, as depreciações 6 000, os clientes aumentaram 5 000 e os fornecedores aumentaram 3 000 (ignora juros e imposto). Qual o fluxo operacional?

Resolução: 20 000 + 6 000 − 5 000 + 3 000 = 24 000 €. O aumento de clientes diminui o fluxo, o aumento de fornecedores aumenta-o.

14. Uma empresa tem ativo corrente de 90 000 € (existências de 30 000) e passivo corrente de 60 000 €. Calcula a liquidez geral e a reduzida.

Resolução: liquidez geral = 90 000 ÷ 60 000 = 1,50; liquidez reduzida = (90 000 − 30 000) ÷ 60 000 = 1,00. Sem contar com as existências, o ativo corrente cobre apenas à justa as dívidas de curto prazo.

15. Uma empresa tem vendas de 400 000 € e clientes de 50 000 €. Qual o prazo médio de recebimento?

Resolução: PMR = 50 000 ÷ 400 000 × 365 = ≈ 46 dias.

16. Uma folha de cálculo com dados de clientes (nome, contribuinte, IBAN) vai ser enviada a toda a equipa comercial. O que deve fazer o técnico?

Resolução: aplicar a minimização: enviar só o nome (ou código) e os saldos, sem contribuinte nem IBAN; guardar o ficheiro completo em pasta de acesso restrito; enviar para os destinatários necessários e registar o procedimento. Se tiver dúvidas sobre o que pode partilhar, consulta o responsável pela proteção de dados na empresa.