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UC · Unidade de Competência · UC02659

Sebenta · Executar peças cerâmicas com moldes em gesso (UC02659)

Pastas líquidas e plásticas, enchimento por via líquida e por via plástica, acabamentos, secagem, cozedura e controlo de qualidade
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Cerâmica Criativa ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a produzir peças cerâmicas em série, usando moldes em gesso, uma das técnicas mais usadas na produção de cerâmica, da pequena olaria ao atelier de autor. O gesso tem uma propriedade que torna tudo isto possível: é poroso e absorve a água da pasta cerâmica encostada a ele, o que permite formar a peça só por contacto, sem precisar de a modelar à mão de cada vez.

O percurso desta UC segue a ordem real de trabalho na oficina: primeiro preparamos o molde e escolhemos a pasta, depois aprendemos os dois processos de enchimento (via líquida, com barbotina, e via plástica, com pasta moldável), tratamos dos acabamentos, da secagem e da cozedura, e fechamos com o controlo de qualidade e as normas de segurança. No fim, deves conseguir produzir uma peça completa por qualquer um dos dois processos, do molde limpo à peça cozida.

Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar as operações para a elaboração de peças cerâmicas com moldes em gesso; realizar os procedimentos de enchimento por via líquida e por via plástica; proceder aos acabamentos, à secagem e ao controlo de qualidade das peças, cumprindo as normas de higiene, segurança e uso de equipamento de proteção individual.

1. O molde em gesso e o princípio do enchimento

O molde em gesso é uma reprodução em negativo da peça que se quer produzir, feito em gesso (sulfato de cálcio hidratado). A sua qualidade central é a porosidade: os poros microscópicos do gesso puxam a água da pasta cerâmica encostada, secando-a por contacto até formar uma camada sólida.

Esta propriedade explica os dois processos ensinados nesta UC:

Processo Pasta usada Como forma a peça
Via líquida barbotina (pasta líquida) a água é absorvida pelas paredes do molde, formando uma casca oca
Via plástica pasta plástica (moldável) a pasta é pressionada contra o molde, que lhe retira água e a fixa na forma

O molde é reutilizável dezenas de vezes, desde que seque bem entre usos: um molde saturado de água já não absorve, e a peça não se forma corretamente.

Contexto de trabalho

Todo este processo decorre numa oficina ou atelier de cerâmica, equipada com forno, agitador, compressor, ferramentas de mão e os moldes propriamente ditos. É o mesmo contexto de trabalho de um oleiro industrial ou de um atelier de produção de autor.

2. Tipos de pastas cerâmicas

O referencial distingue claramente dois tipos de pasta: líquidas e plásticas. Escolher a pasta certa é um dos primeiros critérios de desempenho avaliados nesta UC.

Pastas líquidas: a barbotina

A barbotina é argila diluída em água até uma consistência de creme fluído, com desfloculante (silicato de sódio ou similar) adicionado para manter a argila em suspensão sem precisar de muita água.

Pastas plásticas

A pasta plástica tem uma consistência moldável, semelhante a massa de modelar, com pouca água e boa plasticidade (capacidade de deformar sem rachar).

Exemplo resolvido: escolher a pasta certa

Situação: é preciso produzir uma chávena fina e oca, e uma figura decorativa com relevo grosso.

  1. A chávena fina e oca pede uma pasta capaz de formar uma casca uniforme dentro do molde: escolhe-se barbotina, pelo processo de enchimento por via líquida.
  2. A figura com relevo grosso precisa de ser pressionada contra o pormenor do molde: escolhe-se pasta plástica, pelo processo de enchimento por via plástica.

A escolha depende sempre do molde disponível e do resultado final desejado, nunca de comodidade ou hábito.

3. Equipamentos e ferramentas

Equipamentos

Ferramentas de mão

Um equipamento mal mantido, como um peneiro entupido ou um agitador desligado, compromete todas as peças da fornada, não só uma.

4. Preparar as operações

A primeira realização desta UC é preparar as operações antes de qualquer enchimento. Dois critérios de desempenho definem esta fase.

Preparar o molde de gesso

Selecionar a pasta adequada

Nunca comeces a encher sem inspecionar o molde e confirmar a pasta. Um minuto de verificação evita horas de trabalho perdido numa peça que nasce mal.

5. Enchimento por via líquida

O enchimento por via líquida usa a barbotina para formar peças ocas, aproveitando a absorção do gesso. Segue sempre esta sequência:

  1. Preparação do molde: limpo, seco, bem fechado e apertado.
  2. Enchimento: verter a barbotina até encher completamente a cavidade, sem bolhas de ar.
  3. Controlo de espessura: aguardar o tempo necessário para o gesso absorver água e formar uma camada de pasta nas paredes.
  4. Vazamento: escoar o excesso de barbotina ainda líquida do centro do molde.
  5. Controlo de secagem: deixar a peça secar dentro do molde até ganhar rigidez.
  6. Desmoldagem: abrir o molde e retirar a peça com cuidado.

Encher uniformemente, o critério central

Um critério de desempenho explícito desta UC é encher uniformemente o molde com a pasta, controlando a espessura e evitando bolhas de ar ou espaços vazios:

Vazamento e desmoldagem

Ao atingir a espessura pretendida, vaza-se: escoa-se devagar o excesso de barbotina ainda líquida, sem virar o molde de repente, o que deixaria marcas de escorrência.

A peça continua a secar dentro do molde, que continua a puxar humidade e ajuda a peça a destacar-se das paredes. Na desmoldagem, abrem-se as partes do molde com cuidado, começando pelas zonas mais largas, e a peça é apoiada numa tábua sem se segurar por zonas finas.

Desmoldar cedo de mais (peça ainda mole) deforma-a; desmoldar tarde de mais dificulta a separação e pode partir o molde. O ponto certo aprende-se com a prática e com o toque cuidadoso.

6. Enchimento por via plástica

O enchimento por via plástica usa pasta na sua consistência moldável, pressionada contra as paredes do molde. É a técnica indicada para peças maciças, com relevo ou textura que a via líquida não reproduz bem.

Sequência do processo:

  1. Preparação do molde: limpo e seco, tal como na via líquida.
  2. Contramoldagem e prensagem: colocar a pasta contra as paredes do molde e pressionar até tomar a forma.
  3. Controlo da espessura: garantir uma camada uniforme em toda a peça.
  4. Controlo de secagem: deixar a peça perder humidade suficiente dentro do molde.
  5. Desmoldagem: separar a peça do molde com cuidado.

Contramoldagem e prensagem

Tal como na via líquida, o objetivo é encher o molde de forma uniforme, mas aqui por pressão manual:

Exemplo resolvido: prensar uma peça com relevo

Situação: um molde com um motivo em relevo profundo (uma folha decorativa) precisa de ser preenchido com pasta plástica.

  1. Amassar bem a pasta, garantindo que está desarejada (sem bolhas).
  2. Pressionar primeiro pequenas porções dentro do relevo, com os dedos ou uma ferramenta pequena, garantindo que o detalhe fica bem definido antes de preencher o resto.
  3. Continuar a pressionar do centro do relevo para as bordas do molde, em camadas, até atingir a espessura uniforme pretendida.
  4. Verificar visualmente se o relevo ficou nítido, sem zonas vazias por baixo da superfície.

Se o relevo não pegasse bem, a causa mais provável seria pasta demasiado seca (racha ao pressionar) ou pressão insuficiente nos detalhes finos.

Secagem e desmoldagem na via plástica

A secagem inicial dentro do molde é mais rápida do que na via líquida, porque a pasta plástica já tem menos água. Um tempo curto de mais deixa a peça mole de mais para desmoldar; um tempo longo de mais pode encolher a pasta em excesso e criar tensões.

A desmoldagem exige separar as partes do molde com movimentos suaves, apoiar a peça numa base rígida desde o primeiro momento e ter atenção redobrada às zonas com relevo, que têm mais pontos de contacto com o molde.

7. Acabamentos

Depois de desmoldada, a peça em cru (ainda não seca por completo, no estado chamado "de couro") recebe os acabamentos que definem o seu aspeto final:

Este bloco corresponde a um critério de desempenho explícito: "procedendo aos acabamentos da peça produzida, corrigindo imperfeições e aplicando detalhes adicionais". A ordem de trabalho recomendada é primeiro as rebarbas, depois as correções, e só no fim os detalhes e o alisamento: alisar antes de corrigir obriga a repetir o alisamento.

Numa fornada de chávenas, a costura do molde deixa sempre uma linha fina a meio da peça. O teque remove essa linha num único gesto contínuo, e a esponja húmida apaga a marca do corte, deixando a superfície lisa ao tato antes mesmo de secar.

8. Secagem e cozedura

Secar de maneira homogénea

Depois dos acabamentos, a peça tem de secar por completo antes da cozedura. A secagem tem de ser homogénea:

Cozedura

A cozedura transforma a argila seca, ainda frágil e solúvel em água, em cerâmica dura e permanente:

  1. Enfornar: colocar as peças no forno, sem se tocarem, sobre placas ou grelhas próprias.
  2. Curva de cozedura: o forno sobe de temperatura de forma programada, com patamares.
  3. Ponto crítico: entre os 500°C e os 600°C liberta-se a água quimicamente ligada à argila; uma subida demasiado rápida nesta fase pode rachar as peças.
  4. Arrefecimento: também controlado, nunca se abre o forno ainda quente.

A cozedura é irreversível: um defeito que passasse despercebido antes só se revela depois de cozido, e nessa altura já não há correção possível.

9. Controlo de qualidade e defeitos

O controlo de qualidade acompanha todo o processo, não é só uma inspeção final: verifica-se o molde antes de encher, a espessura durante o enchimento, e a peça depois de cada etapa (acabamento, secagem, cozedura).

Tabela de defeitos e prevenção

Defeito Característica Prevenção
Bolhas de ar vazios internos ou à superfície encher devagar, prensar por camadas
Rachas de secagem fendas em zonas de espessura desigual secagem lenta e homogénea
Empenos deformações fora da forma original desmoldar e transportar com cuidado
Paredes irregulares espessura desigual na peça controlar o tempo de contacto com o gesso
Rachas de cozedura fendas após o forno curva de subida lenta no ponto crítico

Reconhecer o defeito pela sua característica é o primeiro passo para corrigir a causa real, não apenas o sintoma que aparece à vista.

10. Segurança, EPI e normas

A oficina de cerâmica tem riscos próprios: pó de argila e de gesso, água perto de equipamento elétrico, e um forno a alta temperatura.

Este bloco corresponde ao último critério de desempenho da UC: "cumprindo as normas de higiene e segurança e o uso adequado de equipamentos de proteção individual".

O pó fino de argila e de gesso (com sílica) acumula-se nos pulmões ao longo dos anos com a exposição repetida. Usar máscara em tarefas de lixar ou aparar peças secas não é excesso de zelo, é uma norma de segurança e saúde no trabalho.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Produzir uma peça cerâmica com molde em gesso segue sempre a mesma lógica: preparar o molde (limpo, seco, sem fissuras) e escolher a pasta adequada (barbotina ou plástica) → encher de forma uniforme, controlando a espessura e evitando bolhas de ar, pelo processo certo (via líquida ou via plástica) → desmoldar com cuidado, no ponto certo de secagem → tratar dos acabamentos (rebarbas, correções, detalhes, alisamento) → secar de forma homogénea e cozer com uma curva controlada → aplicar controlo de qualidade em todas as etapas, cumprindo sempre as normas de segurança e EPI. Domina esta sequência e consegues produzir qualquer peça, por qualquer um dos dois processos.

Exercícios resolvidos

1. Porque é que um molde húmido de uma peça anterior compromete a peça seguinte?

Resolução: o gesso forma a peça absorvendo a água da pasta encostada a ele. Se já estiver saturado de água de um uso anterior, a sua capacidade de absorção fica muito reduzida, o que atrasa a formação da peça ou impede que ela ganhe a espessura e rigidez certas. Por isso o molde tem de secar entre usos.

2. Tens dois moldes: um para uma taça fina e oca, outro para uma figura decorativa com relevo grosso. Que pasta e que processo escolhes para cada um?

Resolução: a taça fina e oca pede barbotina, pelo enchimento por via líquida, que forma cascas ocas e uniformes. A figura com relevo grosso pede pasta plástica, pelo enchimento por via plástica, que se pressiona contra os detalhes do molde.

3. Durante o enchimento por via líquida, o nível de barbotina no molde desceu visivelmente. Que fazer, e porquê?

Resolução: reabastecer o nível, completando com mais barbotina até ao topo. O nível desce porque o gesso está a absorver água; se não se repuser, o topo da peça fica com uma parede mais fina do que o resto, um defeito de espessura irregular.

4. Uma peça, ao ser desmoldada, deforma-se nas mãos. Que erro foi cometido, e como corrigir na próxima?

Resolução: a peça foi desmoldada cedo de mais, sem ter ganho rigidez suficiente durante o controlo de secagem. Na próxima peça, deve deixar-se mais tempo dentro do molde antes de abrir, verificando com cuidado (sem forçar) se a peça já se aguenta sozinha.

5. Uma peça apresenta uma fenda numa zona onde a parede é muito mais fina do que o resto. Que defeito é este, e qual a prevenção?

Resolução: é uma racha de secagem, causada por espessura desigual: a zona fina seca (e encolhe) mais depressa do que a zona grossa, criando tensão que rasga a peça. A prevenção é controlar a espessura durante o enchimento, para que fique o mais uniforme possível, e secar de forma lenta e homogénea.

6. Porque é que se deve evitar abrir o forno ainda quente, mesmo só para espreitar?

Resolução: porque provoca choque térmico: uma peça cerâmica quente exposta subitamente ao ar frio da sala contrai de forma brusca e desigual, o que pode rachar ou partir a peça. O arrefecimento tem de ser gradual e controlado, dentro do forno.

7. Um colega dispensa a máscara "só para aparar duas peças secas". Que lhe respondes, e com base em que norma?

Resolução: que o pó fino de argila e gesso (com sílica) é precisamente mais perigoso em tarefas de aparar ou lixar peças secas, porque se solta e fica em suspensão no ar da oficina. A norma de utilização do EPI aplica-se a qualquer tarefa com produção de pó, independentemente da duração, e é um critério de desempenho avaliado nesta UC.