Sebenta · Implementar os principais mecanismos legais de proteção do património cultural e arqueológico (UC02360)
- Introdução
- 1. Património cultural: definição, princípios e finalidades
- 2. Estabilização jurídica do património cultural: a "Constituição Cultural" e as orientações internacionais
- 3. Bens culturais e formas de proteção: inventariação
- 4. Bens culturais e formas de proteção: classificação, conceito operativo, categorias e graus
- 5. Património edificado como componente cultural do território: planeamento territorial
- 6. Património arqueológico: regime e formas de proteção
- 7. Convenções internacionais para a proteção do património cultural
- 8. O achado fortuito e a atividade arqueológica no terreno
- 9. Regime sancionatório do património cultural
- 10. Política de património cultural e entidades competentes
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Um/a assistente de arqueólogo/a trabalha quase sempre à beira de uma decisão legal: continuar a obra ou parar; inventariar ou classificar; comunicar já ou esperar. Esta sebenta ensina os mecanismos legais de proteção do património cultural e arqueológico que sustentam essas decisões, desde os princípios constitucionais até ao procedimento concreto perante um achado no terreno.
O percurso segue o referencial oficial da UC: primeiro os conceitos e a base jurídica do património cultural, depois as formas de proteção (inventariação e classificação), o património edificado e o planeamento territorial, o regime específico do arqueológico, as convenções internacionais, o procedimento do achado fortuito, o regime sancionatório e, por fim, a política de património cultural e as entidades que hoje a executam.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar os mecanismos legais de preservação do património cultural e aplicar as normas legais da atividade arqueológica nacional, cumprindo os mecanismos legais e jurídicos de inventariação e classificação, e as práticas adequadas de preservação do sítio arqueológico.
1. Património cultural: definição, princípios e finalidades
O património cultural é o conjunto de bens que testemunham valores de memória, antiguidade, autenticidade, originalidade, raridade ou exemplaridade, com interesse relevante para a identidade de uma comunidade. Inclui bens móveis, imóveis e imateriais, e cobre domínios tão diferentes como a arqueologia, a arquitetura, a etnologia ou o património industrial.
Princípios gerais
- Universalidade: qualquer bem que cumpra os critérios de interesse cultural pode ser objeto de proteção, independentemente do seu proprietário ser público ou privado.
- Função social: a proteção do património serve a comunidade, não apenas o proprietário do bem.
- Cooperação: Estado, regiões autónomas, municípios e particulares partilham responsabilidades na proteção.
Finalidades da proteção e salvaguarda
A lei atribui à proteção do património quatro finalidades principais: o estudo e conhecimento científico dos bens; a fruição pública, garantindo o acesso da comunidade; a transmissão às gerações futuras, para que o que hoje se conhece não se perca; e a promoção da diversidade cultural, reconhecendo diferentes expressões e identidades no território nacional.
Um sítio arqueológico só ganha valor de conhecimento se for escavado com método e registado. Uma vez destruído sem escavação, a informação perde-se de forma irreversível, mesmo que os objetos encontrados sejam preservados num museu.
2. Estabilização jurídica do património cultural: a "Constituição Cultural" e as orientações internacionais
A doutrina jurídica portuguesa fala de uma "Constituição Cultural" para designar o conjunto de normas constitucionais sobre cultura e património: o direito de todos à fruição e criação cultural, e a incumbência do Estado de proteger e valorizar o património cultural do povo português, promovendo a democratização da cultura.
Desta base constitucional decorre a Lei de Bases do Património Cultural, aprovada pela Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, que estabelece as bases da política e do regime de proteção e valorização do património cultural. É o diploma central de toda a matéria: define conceitos (bem cultural, classificação, inventariação), tipos e categorias de bens, formas de proteção e as competências das entidades envolvidas.
A hierarquia normativa
Constituição da República Portuguesa
│ ("Constituição Cultural")
▼
Lei n.º 107/2001 (Lei de Bases do Património Cultural)
│
├─► DL 164/2014 (Regulamento de Trabalhos Arqueológicos)
└─► DL 309/2009 (procedimento de classificação de imóveis)
Orientações internacionais
Portugal não legisla isoladamente: segue convenções internacionais ratificadas, como a Convenção da UNESCO de 1972 e a Convenção de La Valletta de 1992 (aprofundadas no capítulo 6), que moldaram conceitos hoje centrais no direito nacional, como a proteção preventiva do património arqueológico e a integração da proteção no ordenamento do território.
Exemplo resolvido · Situar um diploma na hierarquia
Um colega pergunta: "se um regulamento municipal contradiz o Decreto-Lei n.º 164/2014, qual prevalece?"
Resolução: o regulamento municipal, sendo de grau hierárquico inferior, não pode contrariar um decreto-lei nacional. Prevalece o DL 164/2014, e o regulamento municipal teria de ser corrigido para ficar conforme. A hierarquia normativa (Constituição, lei, decreto-lei, regulamento) determina sempre qual a norma que prevalece em caso de conflito.
3. Bens culturais e formas de proteção: inventariação
Os bens culturais são os elementos concretos, materiais ou imateriais, que integram o património cultural: um edifício, um sítio arqueológico, uma coleção, uma tradição. A lei prevê duas formas principais de proteção, com naturezas jurídicas distintas: a inventariação e a classificação.
Inventariação: conceito e função
A inventariação é o processo de identificação, registo e descrição sistemática de um bem cultural, para efeitos de conhecimento, estudo e gestão. É o primeiro nível de proteção: aplica-se logo que o bem é identificado, ainda antes de qualquer decisão sobre classificação.
Uma ficha de inventário arqueológico reúne, em regra, os seguintes campos:
| Campo | Conteúdo |
|---|---|
| Identificação | designação, código, coordenadas geográficas |
| Descrição | tipologia, materiais, cronologia estimada |
| Estado de conservação | bom, razoável, degradado, em risco |
| Enquadramento legal | forma de proteção existente, se houver |
| Fontes | bibliografia, relatórios técnicos, registo fotográfico |
Exemplo resolvido · Preencher uma ficha de inventário
Durante um acompanhamento arqueológico de obra, é identificado um troço de calçada romana com cerca de 4 metros de comprimento.
- Identificação: "Calçada romana, Rua da Cerca, Vidalonga", coordenadas GPS registadas no local.
- Descrição: pavimento em lajes de granito irregulares, sem argamassa visível, cronologia estimada romana com base na tipologia.
- Estado de conservação: razoável, com fraturas pontuais causadas pela obra.
- Enquadramento legal: sem proteção formal prévia; entra na carta arqueológica municipal.
- Fontes: relatório de acompanhamento, fotografias georreferenciadas.
A ficha, preenchida com rigor, é o que permite depois decidir se o achado merece avançar para um procedimento de classificação.
4. Bens culturais e formas de proteção: classificação, conceito operativo, categorias e graus
A classificação é o ato jurídico formal que atribui a um bem cultural um estatuto de proteção reforçada, com base no seu interesse cultural. Ao contrário da inventariação, a classificação tem efeitos jurídicos diretos e vinculativos: condiciona obras, usos e intervenções.
O procedimento de classificação
O procedimento de classificação de bens imóveis está regulado no Decreto-Lei n.º 309/2009, de 23 de outubro, que disciplina as suas fases: abertura do procedimento, instrução técnica, audiência dos interessados (incluindo o proprietário) e, por fim, a decisão e publicação em Diário da República. Sem esta publicação, a classificação não produz efeitos.
Categorias e graus
Os bens classificam-se por categoria (consoante a sua natureza: monumento, conjunto ou sítio) e por grau (consoante o âmbito do interesse reconhecido):
| Grau | Âmbito | Exemplo típico |
|---|---|---|
| Interesse nacional | monumento nacional, reconhecimento de topo | um castelo emblemático |
| Interesse público | relevância nacional, âmbito mais restrito | uma igreja com valor histórico regional |
| Interesse municipal | relevância local, decisão da autarquia | um moinho ou uma fonte histórica |
A cada forma de proteção corresponde um nível de registo próprio: um bem classificado de interesse nacional entra no registo central, um bem de interesse municipal entra no registo da autarquia, mas ambos ficam sujeitos a condicionantes legais.
Exemplo resolvido · Inventariar ou classificar?
Uma câmara municipal identifica um antigo lagar de azeite do século XIX, em bom estado, com maquinaria original preservada.
Resolução: o primeiro passo é sempre inventariar o bem, registando-o com uma ficha completa. Se, na avaliação técnica, se concluir que o lagar tem valor relevante e representativo (raridade da maquinaria preservada, exemplaridade do conjunto), a autarquia pode abrir um procedimento de classificação, provavelmente de interesse municipal, dado tratar-se de um bem de relevância local. A inventariação não impede uma classificação posterior; é, aliás, o percurso normal.
5. Património edificado como componente cultural do território: planeamento territorial
O património edificado não existe isolado: insere-se no território, e tem de ser articulado com o planeamento territorial, sob pena de conflitos entre desenvolvimento urbano e proteção do património.
PDM e cartas de condicionantes
Os Planos Diretores Municipais (PDM) e os demais instrumentos de gestão territorial, regidos pelo Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial (RJIGT), identificam e cartografam o património classificado e inventariado no concelho. As respetivas plantas de condicionantes assinalam:
- Bens classificados e as suas zonas de proteção envolventes.
- Sítios arqueológicos inventariados, mesmo sem classificação formal.
- Servidões e restrições de uso do solo daí decorrentes.
Zonas de proteção
Em torno de um bem classificado existe, em regra, uma zona de proteção: uma área envolvente onde qualquer intervenção (nova construção, demolição, alteração) fica sujeita a parecer prévio da entidade competente. A zona de proteção existe para impedir que construções na envolvente descaracterizem a leitura e a visibilidade do bem, mesmo estando fisicamente fora dele.
Uma obra pode estar fora dos limites físicos de um monumento e, ainda assim, precisar de parecer prévio, por estar dentro da sua zona de proteção. Verificar sempre a planta de condicionantes do PDM antes de assumir que um terreno está "livre".
Exemplo resolvido · Ler uma planta de condicionantes
Um promotor pretende construir um armazém a 150 metros de um monumento nacional. A planta de condicionantes do PDM assinala uma zona de proteção com 200 metros de raio.
Resolução: o armazém está dentro da zona de proteção. O processo de licenciamento tem de incluir parecer prévio vinculativo da entidade competente pela tutela do património cultural, antes de a câmara municipal poder aprovar a obra. Ignorar esta condicionante e avançar sem parecer expõe o promotor ao regime sancionatório (capítulo 8).
6. Património arqueológico: regime e formas de proteção
O património arqueológico é uma categoria específica dentro do património cultural, com um regime próprio: a maior parte encontra-se no subsolo ou em contextos que só se revelam através de escavação. Aplicam-se-lhe as mesmas duas formas de proteção dos restantes bens culturais, inventariação e classificação, e cada uma dá lugar ao correspondente nível de registo.
- Um sítio inventariado entra na carta arqueológica municipal ou regional.
- Um sítio classificado entra no registo de bens classificados, com efeitos jurídicos plenos.
O Regulamento de Trabalhos Arqueológicos
Os trabalhos arqueológicos em Portugal são disciplinados pelo Regulamento de Trabalhos Arqueológicos, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 164/2014, de 4 de novembro. Este diploma define:
| Aspeto regulado | Conteúdo |
|---|---|
| Tipos de intervenção | emergência, acompanhamento de obra, escavação programada, sondagens de diagnóstico |
| Autorização | exigida à entidade responsável (empresa, instituição) para a generalidade das intervenções |
| Equipa técnica | qualificações mínimas do diretor científico e dos elementos da equipa |
| Relatório final | obrigação de entrega de relatório técnico-científico com os resultados |
Exemplo resolvido · Que tipo de intervenção é esta?
Durante a abertura de uma vala de saneamento numa rua do centro histórico, aparecem vestígios de um muro antigo. A empresa de arqueologia é chamada de imediato, sem que existisse um projeto arqueológico prévio.
Resolução: trata-se de um trabalho arqueológico de emergência, realizado em resposta a um achado não planeado, com o objetivo de registar e salvaguardar a informação antes de a obra prosseguir. Distingue-se do acompanhamento de obra, que é planeado desde o início do projeto precisamente para antecipar situações como esta.
7. Convenções internacionais para a proteção do património cultural
Portugal ratificou instrumentos internacionais que moldaram, e continuam a moldar, o direito interno sobre património.
A Convenção da UNESCO de 1972
A Convenção para a Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural, adotada pela UNESCO em 1972, é o instrumento internacional de referência global. Cria a Lista do Património Mundial, reservada a bens de valor universal excecional, e estabelece o dever de cada Estado de identificar, proteger, conservar e transmitir o seu património às gerações futuras. Portugal tem vários bens inscritos nesta lista, o que implica compromissos reforçados de gestão e monitorização.
A Convenção de La Valletta de 1992
A Convenção Europeia para a Proteção do Património Arqueológico (revista), assinada em La Valletta em 1992, é o instrumento europeu de referência específico para a arqueologia. Consagra dois princípios centrais:
- Proteção preventiva: identificar e avaliar o potencial arqueológico de um terreno antes de uma obra avançar, e não apenas reagir depois de o dano ocorrer.
- Integração no ordenamento do território: a variável arqueológica passa a fazer parte, desde a fase de planeamento, dos processos de licenciamento e das grandes obras públicas.
Um estudo de impacte arqueológico prévio a uma nova via rodoviária, com sondagens de diagnóstico ao longo do traçado, é uma aplicação direta do princípio da proteção preventiva da Convenção de La Valletta.
Exemplo resolvido · Que convenção se aplica?
Um projeto de licenciamento de uma barragem inclui, desde a fase de estudo prévio, sondagens arqueológicas ao longo da futura albufeira, para identificar sítios antes da construção.
Resolução: a prática segue o princípio da proteção preventiva consagrado na Convenção de La Valletta de 1992, que defende avaliar o potencial arqueológico antes da obra, integrando-o no próprio processo de licenciamento e ordenamento do território.
8. O achado fortuito e a atividade arqueológica no terreno
Um achado fortuito é a descoberta casual de vestígios ou bens arqueológicos, sem que existisse uma intervenção arqueológica programada para esse efeito, por exemplo durante uma obra de construção civil, uma abertura de vala ou trabalhos agrícolas.
O procedimento correto, passo a passo
- Parar de imediato os trabalhos na área do achado.
- Não mexer, não remover e não levar nenhum objeto ou vestígio do local, mesmo que pareça pouco relevante.
- Comunicar de imediato à entidade competente (autarquia, tutela do património cultural ou autoridade policial), dentro do prazo legalmente previsto.
- Preservar o local até chegar orientação técnica sobre os passos a seguir.
- Colaborar com a avaliação arqueológica subsequente, disponibilizando toda a informação da obra.
Este dever de comunicação aplica-se independentemente do valor aparente do achado: uma decisão apressada no local, como levar um objeto "para mostrar depois", pode destruir para sempre um contexto que só uma escavação cuidada preservaria.
Exemplo resolvido · Reagir a um achado fortuito
Durante a escavação da vala de fundação de um parque de estacionamento, a máquina expõe estruturas em alvenaria e fragmentos de cerâmica que parecem antigos.
Resolução:
- O operador da máquina para de imediato os trabalhos naquela zona.
- Ninguém toca nos fragmentos nem nas estruturas.
- O/a assistente de arqueólogo/a, ou o responsável da obra, comunica de imediato à autarquia e à entidade competente pela tutela do património cultural, dentro do prazo legal.
- A zona é isolada e preservada até à visita técnica.
- A equipa colabora, fornecendo o projeto da obra e a localização exata do achado.
Só depois desta comunicação, e da avaliação técnica que se segue, se decide se é necessária uma intervenção de emergência, um acompanhamento reforçado ou, em casos raros, a alteração do próprio projeto de obra.
9. Regime sancionatório do património cultural
O incumprimento das regras de proteção do património cultural tem consequências legais, previstas no regime sancionatório da Lei de Bases do Património Cultural.
- Contraordenações, puníveis com coima, para infrações como intervenções não autorizadas em bens classificados ou incumprimento do dever de comunicação de um achado fortuito.
- Crimes contra o património cultural, para condutas mais graves, como a destruição dolosa de um bem classificado ou de um sítio arqueológico protegido.
- Poderes de fiscalização das entidades competentes, incluindo a possibilidade de determinar a suspensão de obras que ponham em risco o património.
| Situação | Consequência possível |
|---|---|
| Não comunicar um achado fortuito | contraordenação, coima |
| Intervir sem autorização num sítio protegido | contraordenação ou crime, consoante a gravidade |
| Destruir dolosamente um bem classificado | crime contra o património cultural |
| Obra que avança apesar de embargo | suspensão coerciva, responsabilidade agravada |
Conhecer o regime sancionatório não é para memorizar penas: é para saber justificar, com fundamento legal, uma paragem de obra perante um promotor ou um encarregado que quer avançar.
Exemplo resolvido · Fundamentar uma paragem de obra
Um encarregado de obra insiste em continuar a escavação depois de um achado fortuito ter sido identificado, alegando "atrasos que custam dinheiro".
Resolução: o/a assistente de arqueólogo/a deve explicar que a continuação dos trabalhos, sem comunicação e sem autorização, pode configurar uma contraordenação (por incumprimento do dever de comunicação) e, dependendo da gravidade do dano causado ao bem, um crime contra o património cultural. Além da responsabilidade legal do promotor, há o risco de suspensão coerciva da obra, o que geraria atrasos maiores do que os poucos dias necessários para a avaliação técnica.
10. Política de património cultural e entidades competentes
A política de património cultural é o conjunto de orientações, prioridades e instrumentos com que o Estado organiza a proteção, a valorização e a divulgação do património. Articula-se em três eixos: conhecer (inventariar, estudar), proteger (classificar, fiscalizar, licenciar) e valorizar (musealizar, divulgar, promover o acesso público).
As entidades competentes, em 2026
Em 2024, a estrutura orgânica da tutela do património cultural em Portugal foi reorganizada. É essencial usar sempre a designação atual, nunca a antiga, em relatórios e comunicações oficiais:
| Função | Antes de 2024 | Desde 2024 |
|---|---|---|
| Tutela central do património cultural | DGPC (Direção-Geral do Património Cultural) | Património Cultural, I.P. |
| Tutela regional | DRC (Direções Regionais de Cultura) | CCDR, na componente de cultura |
O Património Cultural, I.P. é hoje o organismo central para a classificação, a fiscalização técnica e o acompanhamento das intervenções arqueológicas de âmbito nacional. As Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) assumiram, na sua componente de cultura, as funções regionais antes exercidas pelas DRC.
Nunca escrever "a DGPC autorizou" ou "a DRC classificou" para um facto ocorrido depois de 2024: a designação correta é Património Cultural, I.P. ou a CCDR competente. A DGPC e as DRC podem ser referidas como antecessoras destes organismos, nunca como se estivessem hoje em funções.
Exemplo resolvido · Corrigir uma designação desatualizada
Um relatório de estágio, copiado de um manual antigo, escreve: "o processo de classificação foi submetido à DGPC para parecer".
Resolução: a frase tem de ser corrigida para refletir a reorganização de 2024, ficando, por exemplo: "o processo de classificação foi submetido a Património Cultural, I.P. para parecer". A DGPC pode ser referida em contexto histórico, como antecessora, mas nunca como organismo atualmente em funções.
Erros comuns
- Confundir inventariação com classificação. Inventariar é registar e conhecer; classificar é atribuir um estatuto jurídico vinculativo. Um bem pode estar inventariado sem estar classificado, e continua a merecer cuidado no planeamento territorial.
- Continuar a obra depois de um achado fortuito "só mais um bocadinho". Qualquer avanço pode destruir informação irrecuperável; o procedimento correto é parar de imediato.
- Levar um objeto do local de um achado "para o pôr em segurança" ou "para mostrar depois". É sempre proibido: o objeto fica no local até à orientação técnica.
- Escrever DGPC ou DRC como organismos atualmente em funções. Desde 2024, os nomes corretos são Património Cultural, I.P. e as CCDR.
- Assumir que um terreno está "livre" só porque não tem um monumento visível. É preciso verificar a planta de condicionantes do PDM, que pode assinalar uma zona de proteção envolvente ou um sítio arqueológico apenas inventariado.
- Inventar números de artigo de um diploma sem certeza. É preferível descrever o mecanismo legal com rigor do que citar um número errado.
Glossário
- Achado fortuito: descoberta casual de vestígios arqueológicos, sem intervenção programada para esse efeito.
- Bem cultural: elemento concreto, material ou imaterial, que integra o património cultural.
- CCDR: Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional, hoje responsável, na componente de cultura, pelas funções regionais que cabiam às DRC.
- Classificação: ato jurídico formal que atribui a um bem cultural um estatuto de proteção reforçada e vinculativa.
- Constituição Cultural: conjunto de normas constitucionais sobre cultura e património.
- Contraordenação: infração administrativa punível com coima, prevista no regime sancionatório do património cultural.
- Inventariação: registo e descrição sistemática de um bem cultural, para conhecimento e gestão.
- Nível de registo: forma concreta de registo correspondente a cada forma de proteção (carta arqueológica, registo de bens classificados).
- Património Cultural, I.P.: organismo central da tutela do património cultural desde a reorganização de 2024, sucessor da DGPC.
- PDM: Plano Diretor Municipal, instrumento de gestão territorial que cartografa condicionantes patrimoniais.
- Proteção preventiva: princípio de avaliar o potencial arqueológico de um local antes de uma obra avançar.
- Zona de proteção: área envolvente de um bem classificado, sujeita a parecer prévio para qualquer intervenção.
Síntese
O caminho legal do património cultural começa na Constituição e desenvolve-se na Lei 107/2001, que dá as bases de todo o sistema. Um bem cultural protege-se por inventariação (conhecer) ou classificação (vincular juridicamente), cada uma com o seu nível de registo próprio. O património edificado exige articulação com o planeamento territorial, através dos PDM e das zonas de proteção. O património arqueológico tem regime específico no DL 164/2014, e a sua proteção foi reforçada por convenções internacionais como a UNESCO 1972 e a La Valletta 1992, que consagram a proteção preventiva. Perante um achado fortuito, o procedimento é sempre o mesmo: parar, não mexer, comunicar no prazo, preservar e colaborar. O incumprimento tem consequências no regime sancionatório, e todas as comunicações e relatórios devem usar as designações atuais das entidades competentes: Património Cultural, I.P. e as CCDR.
Exercícios resolvidos
1. Um bem está inventariado mas não classificado. Está desprotegido?
Resolução: não. A inventariação já é uma forma de proteção, o primeiro nível: o bem fica registado, é considerado no planeamento territorial e mantém-se sujeito ao dever geral de proteção do património cultural. A ausência de classificação apenas significa que não tem o regime jurídico reforçado e vinculativo próprio dessa forma de proteção.
2. Que diploma regula especificamente os trabalhos arqueológicos em Portugal, e o que exige antes de qualquer intervenção?
Resolução: o Decreto-Lei n.º 164/2014, que aprova o Regulamento de Trabalhos Arqueológicos. Exige, para a generalidade das intervenções, autorização prévia da entidade competente e, no final, a entrega de um relatório técnico-científico com os resultados.
3. Uma obra encontra vestígios arqueológicos e o encarregado quer continuar "só mais um bocadinho". O que deve fazer o/a assistente de arqueólogo/a?
Resolução: exigir a paragem imediata dos trabalhos na área do achado, garantir que nada é mexido ou removido, e comunicar de imediato à entidade competente, dentro do prazo legal. Continuar, mesmo que pouco, arrisca destruir informação irrecuperável e pode configurar uma contraordenação.
4. Distingue os graus de classificação de interesse nacional, público e municipal, com um exemplo de cada.
Resolução: interesse nacional é o grau mais elevado, reconhecido para bens de relevância máxima (ex.: um castelo emblemático); interesse público cobre bens de relevância nacional mas de âmbito mais limitado (ex.: uma igreja histórica regional); interesse municipal é atribuído pela autarquia a bens de relevância local (ex.: um moinho antigo). A cada grau corresponde um nível de registo e um regime de condicionantes proporcional.
5. Qual a diferença entre a Convenção da UNESCO de 1972 e a Convenção de La Valletta de 1992?
Resolução: a Convenção de 1972 é global e abrangente, cria a Lista do Património Mundial para bens de valor universal excecional, cultural ou natural. A Convenção de La Valletta de 1992 é europeia e específica para o património arqueológico, consagrando o princípio da proteção preventiva e a integração da arqueologia no ordenamento do território.
6. Um relatório escreve "processo enviado à DGPC em 2026". Está correto?
Resolução: não. Desde a reorganização de 2024, o organismo central da tutela do património cultural é o Património Cultural, I.P.. A DGPC pode ser referida como antecessora histórica, mas não como entidade atualmente em funções; a frase deve ser corrigida.