Captar e tratar imagens digitais (UC02236)
- Introdução
- 1. A evolução da fotografia
- 2. A câmara e os seus órgãos
- 3. O sensor e a formação da imagem
- 4. O triângulo de exposição
- 5. Medição da luz, histograma e compensação
- 6. Distância focal e perspetiva
- 7. Foco e profundidade de campo
- 8. Balanço de brancos e temperatura de cor
- 9. Composição da imagem
- 10. Luz natural e luz artificial
- 11. RAW e JPEG
- 12. Revelação e tratamento de imagem
- 13. Gestão de ficheiros, metadados e direitos de imagem
- 14. Segurança e saúde no trabalho, e proteção ambiental
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.
Introdução
Esta sebenta ensina a captar e tratar imagens digitais com rigor técnico, do princípio óptico mais simples até à imagem final pronta para publicar ou imprimir. Vamos analisar a evolução da fotografia, desde a câmara escura até ao sensor digital, para depois dominar o triângulo de exposição, a composição, o RAW e o fluxo de revelação com ferramentas livres e comerciais.
O percurso segue o de um profissional real: primeiro compreendemos como se forma a imagem (câmara, sensor, luz), depois como controlar a exposição e a composição na captação, e por fim como tratar e entregar o resultado, com metadados, direitos de imagem, segurança e proteção ambiental em conta.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar a evolução da fotografia; efetuar operações de preparação para a captação de imagem; efetuar operações de captação, edição e tratamento de imagens digitais; gravar e exportar imagens digitais; e aplicar as normas de segurança e saúde no trabalho e de proteção ambiental.
1. A evolução da fotografia
Vamos analisar a evolução da fotografia em três grandes fases: a óptica, a química e a eletrónica.
Da câmara escura ao daguerreótipo
A câmara escura é o princípio mais antigo: uma caixa fechada com um pequeno orifício projeta, invertida, a imagem do exterior numa parede interior. Era conhecida e usada por pintores muito antes de existir qualquer forma de a fixar em suporte.
O que faltava à câmara escura era um material que fixasse a luz de forma permanente. Essa etapa vem no século XIX:
| Ano | Marco | Suporte |
|---|---|---|
| 1826 | Primeira fotografia permanente (Nicéphore Niépce) | placa de estanho, horas de exposição |
| 1839 | Daguerreótipo (Louis Daguerre) | placa de cobre prateada, minutos de exposição |
| 1841 | Calótipo (William Talbot) | negativo em papel, permite cópias |
| 1888 | Rolo de película (Kodak) | fotografia amadora popular |
O daguerreótipo marca o nascimento oficial da fotografia porque, pela primeira vez, uma imagem é fixada de forma estável e repetível.
Da película ao sensor digital
A fotografia convencional em película regista a imagem por reação química à luz: cristais de prata suspensos numa emulsão escurecem em proporção à luz recebida. Cada fotografia tem um custo direto, o do rolo e da revelação química, e o resultado só se vê depois de revelar.
A fotografia digital substitui a película por um sensor eletrónico que converte a luz em sinal elétrico e depois num ficheiro de imagem. As primeiras câmaras digitais surgem nos anos 1970 e 1980, e a partir dos anos 1990 tornam-se cada vez mais acessíveis, até dominarem por completo o mercado.
Exemplo resolvido · Comparar fotografia convencional e digital
Um fotógrafo tem de escolher entre uma câmara de película e uma câmara digital para um evento com centenas de convidados.
- Em película: cada disparo tem um custo de material e revelação; não há revisão imediata; o resultado depende de um processo químico posterior.
- Em digital: cada disparo tem custo praticamente nulo; é possível rever, apagar e repetir de imediato; a edição é não destrutiva.
- Para um evento com muitos convidados e necessidade de entrega rápida, a câmara digital é claramente a escolha certa: permite verificar a exposição no momento e produzir centenas de imagens sem custo por disparo.
A fotografia contemporânea combina câmaras dedicadas e smartphones, que hoje captam a maior parte das imagens produzidas no mundo, graças ao processamento computacional embutido.
2. A câmara e os seus órgãos
Toda a câmara, seja compacta, DSLR, mirrorless ou smartphone, partilha os mesmos órgãos principais:
- Objetiva (lente): conjunto de elementos ópticos que focam a luz proveniente da cena.
- Diafragma: abertura variável dentro da objetiva que regula a quantidade de luz que passa.
- Obturador: mecanismo que controla o tempo durante o qual a luz incide no sensor.
- Sensor: capta a luz e converte-a em sinal elétrico.
- Visor e ecrã: permitem enquadrar a cena e rever o resultado.
- Cartão de memória e bateria: gravação da imagem e alimentação do equipamento.
Tipos de equipamento e critérios de escolha
| Tipo | Características | Uso típico |
|---|---|---|
| Compacta | leve, objetiva fixa | uso casual, viagem |
| DSLR (reflex) | espelho e visor ótico, objetivas intermutáveis | estúdio, reportagem |
| Mirrorless | sem espelho, visor eletrónico, objetivas intermutáveis | híbrido, vídeo e foto |
| Smartphone | vários sensores pequenos, processamento computacional | uso diário, redes sociais |
| Ação (action cam) | robusta, grande angular fixo | desporto, imersão |
A seleção do dispositivo faz-se sempre em função da imagem a captar: as condições de luz, a mobilidade exigida e o destino final da imagem (rede social, impressão, publicação editorial) determinam a melhor escolha, tal como pede o critério de desempenho da UC.
Preparação dos dispositivos antes da captação
Antes de qualquer sessão, o fotógrafo deve efetuar operações de preparação para a captação de imagem:
- Verificar o nível de carga da bateria e levar uma de reserva.
- Confirmar que há espaço livre no cartão de memória e um cartão de reserva.
- Limpar a objetiva e o sensor, se necessário.
- Ajustar as definições base: formato de gravação (RAW), modo de medição, balanço de brancos.
- Verificar acessórios: tripé, flash, cartões extra, cabos, baterias sobresselentes.
Uma sessão bem preparada evita interrupções e perdas de material a meio do trabalho.
3. O sensor e a formação da imagem
A luz atravessa a objetiva, passa pelo diafragma e chega ao sensor, uma grelha de milhões de fotossítios sensíveis à luz. A formação da imagem digital segue cinco etapas:
- Cada fotossítio acumula carga elétrica proporcional à luz recebida.
- Um filtro de Bayer atribui vermelho, verde ou azul a cada ponto (o dobro de sensores é verde, por ser a cor mais sensível ao olho humano).
- Um algoritmo de demosaicing reconstrói a cor completa de cada pixel a partir dos vizinhos.
- Um conversor analógico digital (ADC) transforma o sinal elétrico em valores numéricos.
- O processador da câmara grava o resultado num ficheiro.
Tamanho do sensor e resolução
O tamanho físico do sensor e a resolução (número de pixels) são características distintas, com efeitos diferentes:
| Sensor | Tamanho relativo | Efeito |
|---|---|---|
| Full frame | grande | melhor em pouca luz, menos ruído, menor profundidade de campo |
| APS-C | médio | equilíbrio entre tamanho, custo e qualidade |
| Micro quatro terços | pequeno | equipamento compacto e leve |
| Smartphone | muito pequeno | grande profundidade de campo natural, mais ruído em pouca luz |
Um sensor maior capta mais luz por pixel, o que resulta em menos ruído e maior gama dinâmica. A resolução deve ser adequada ao suporte final: um ecrã exige muito menos megapixel do que uma impressão em grande formato.
4. O triângulo de exposição
A exposição é a quantidade de luz que chega ao sensor, controlada por três variáveis que formam o triângulo de exposição: diafragma, velocidade do obturador e ISO.
- Diafragma (abertura): medido em valores f (f/1,8, f/4, f/11). Um valor f menor significa abertura maior e mais luz; também controla a profundidade de campo.
- Velocidade do obturador: o tempo durante o qual o sensor recebe luz, de frações de segundo a vários segundos. Velocidades rápidas congelam o movimento; velocidades lentas arrastam-no.
- ISO: a sensibilidade do sensor à luz. Um ISO mais alto permite fotografar com menos luz, mas introduz ruído digital.
As trocas do triângulo
Cada variável traz um efeito colateral quando se altera para compensar as outras:
| Se aumentar | Ganha | Perde |
|---|---|---|
| Abertura (f menor) | mais luz, fundo desfocado | menos profundidade de campo |
| Velocidade | congela o movimento | precisa de mais luz ou ISO |
| ISO | trabalha com menos luz | mais ruído na imagem |
Exemplo resolvido · Fotografar um desporto em interior pouco iluminado
- Escolher uma velocidade rápida (1/1000 s) para congelar o movimento do atleta: perde-se muita luz.
- Compensar abrindo o diafragma ao máximo (f/2,8), o que reduz a profundidade de campo, mas isola bem o atleta do fundo.
- Ainda falta luz: subir o ISO para 3200, aceitando algum ruído digital como custo do compromisso.
O triângulo não tem solução perfeita, apenas o compromisso adequado a cada cena.
5. Medição da luz, histograma e compensação
A câmara mede a luz da cena para propor uma exposição, através de três modos principais:
- Matricial (avaliativa): analisa toda a cena por zonas e pondera o resultado; é o modo por defeito.
- Ponderada ao centro: dá mais peso ao centro do enquadramento, útil em retratos.
- Pontual (spot): mede apenas uma pequena área, essencial quando o fundo é muito mais claro ou escuro do que o sujeito.
O histograma
O histograma é um gráfico que mostra a distribuição de tons da imagem, do preto (esquerda) ao branco (direita). Um histograma encostado à esquerda indica subexposição; encostado à direita indica sobrexposição, com zonas de luz queimadas e sem detalhe recuperável.
Exemplo resolvido · Corrigir uma cena de neve
Uma cena de neve, fotografada em modo automático, sai cinzenta em vez de branca.
- Ler o histograma: os tons estão deslocados para o centro, em vez de para a direita, onde deveriam estar numa cena tão clara.
- A câmara interpretou a neve como um cinzento médio, subexpondo a cena.
- Aplicar compensação de exposição positiva (+1 a +1,5 EV) para empurrar o histograma para a direita, sem sobrexpor por completo.
- O resultado final mostra a neve branca, com detalhe preservado.
6. Distância focal e perspetiva
A distância focal (em milímetros) determina o ângulo de visão da objetiva:
| Distância focal | Tipo | Ângulo de visão | Uso típico |
|---|---|---|---|
| 14 a 24 mm | grande angular | amplo | paisagem, arquitetura, interiores |
| 35 a 50 mm | normal | próximo do olho humano | reportagem, uso geral |
| 70 a 200 mm | teleobjetiva | estreito | retrato, desporto, vida selvagem |
A perspetiva é a relação de tamanho entre os elementos da imagem, determinada sobretudo pela distância ao sujeito. Aproximar-se exagera a perspetiva; afastar-se e usar teleobjetiva achata-a. O ponto de vista (altura e ângulo da câmara) transforma por completo a leitura da imagem: de baixo transmite poder, de cima transmite vulnerabilidade.
7. Foco e profundidade de campo
Focar é colocar o plano nítido exatamente onde interessa na cena.
- Autofoco de ponto único (AF-S): foca uma vez e trava, ideal para sujeitos parados.
- Autofoco contínuo (AF-C): reajusta o foco continuamente, ideal para sujeitos em movimento.
- Foco manual: controlo total pelo fotógrafo, essencial em macrofotografia ou pouca luz.
A profundidade de campo é a zona da imagem que aparece nítida, à frente e atrás do ponto de foco. Depende de quatro fatores: abertura do diafragma, distância focal, distância ao sujeito e tamanho do sensor. Profundidade de campo reduzida isola o sujeito do fundo (retratos); profundidade de campo grande mantém tudo nítido (paisagens).
8. Balanço de brancos e temperatura de cor
Cada fonte de luz tem uma temperatura de cor, medida em graus Kelvin (K):
| Fonte de luz | Temperatura aproximada | Tonalidade |
|---|---|---|
| Vela | 1900 K | muito quente, alaranjada |
| Lâmpada de tungsténio | 3200 K | quente, alaranjada |
| Luz do dia ao meio-dia | 5500 K | neutra |
| Céu nublado | 6500 K | fria, azulada |
| Sombra ao ar livre | 7500 K | muito fria, azulada |
Quanto mais baixa a temperatura, mais quente (alaranjada) a luz; quanto mais alta, mais fria (azulada), o inverso da associação comum entre "temperatura alta" e "calor".
O balanço de brancos corrige a tonalidade da imagem para que o branco pareça branco: automático (AWB), predefinições (luz do dia, nublado, tungsténio) ou personalizado, com um cartão cinzento neutro fotografado sob a luz da cena. Em RAW, o balanço de brancos continua ajustável depois da captação, sem perda de qualidade.
9. Composição da imagem
A composição organiza os elementos dentro do enquadramento, respeitando os princípios de enquadramento e composição pedidos pelo referencial:
- Regra dos terços: dividir o enquadramento em três colunas e três linhas; colocar os elementos importantes nas interseções.
- Linhas guia: estradas, muros e outras linhas naturais conduzem o olhar até ao sujeito principal.
- Enquadramento (framing): usar elementos da cena (uma porta, uma janela, ramos) para moldar o sujeito e dar profundidade.
- Ponto de vista: mudar a altura e o ângulo da câmara transforma completamente a leitura da imagem.
- Espaço negativo: áreas vazias em torno do sujeito reforçam o seu destaque.
A criatividade e a imaginação no enquadramento e na composição fazem parte da avaliação desta UC: as regras servem de ponto de partida para depois se decidir, com critério, quando quebrá-las.
10. Luz natural e luz artificial
A luz do sol muda de qualidade ao longo do dia:
- Hora dourada (perto do nascer e do pôr do sol): luz quente, suave e de ângulo baixo.
- Hora azul: luz fria e uniforme, sem sombras duras.
- Sol a pino: luz dura, sombras muito marcadas, geralmente evitada em retratos.
- Luz difusa (dia nublado): sombras suaves e uniformes.
Quando a luz natural não chega ou não é controlável, recorre-se a luz artificial: luz contínua (painéis LED, fácil de prever) ou flash de estúdio (disparo curto e intenso). O esquema clássico de três luzes combina uma luz principal (key), uma luz de preenchimento (fill) que suaviza as sombras da principal, e uma luz de fundo (back) que separa o sujeito do fundo. Difusores e refletores suavizam ou redirecionam a luz, natural ou artificial.
11. RAW e JPEG
A câmara grava a imagem em dois formatos principais:
| RAW | JPEG | |
|---|---|---|
| Dados | sensor sem processar | já comprimido e processado |
| Tamanho do ficheiro | grande | pequeno |
| Edição | grande margem sem perda de qualidade | margem limitada |
| Balanço de brancos | ajustável depois | fixado na captação |
| Uso imediato | precisa de revelação | pronto a usar ou partilhar |
O RAW é o "negativo digital": guarda toda a informação captada pelo sensor, com maior gama dinâmica e margem para recuperar detalhe em sombras e luzes. O JPEG já é uma interpretação comprimida dessa informação, pronta a usar, mas com margem de correção muito mais limitada. É por isso que fotografar em RAW é, quase sempre, a escolha certa para um trabalho profissional.
12. Revelação e tratamento de imagem
Revelar um RAW é efetuar operações de captação, edição e tratamento de imagens digitais que a câmara deixou em aberto. O fluxo típico:
- Importar as imagens e organizá-las por sessão.
- Selecionar (cull): escolher as melhores, descartar as repetidas ou falhadas.
- Ajustes de exposição e contraste: recuperar sombras e luzes, ajustar as curvas de tons.
- Ajustes de cor: saturação, temperatura, tons seletivos.
- Recorte e correção de perspetiva: endireitar horizontes, corrigir linhas verticais em arquitetura.
- Redução de ruído: atenuar o grão digital de ISOs altos, com cuidado para não perder detalhe fino.
- Nitidez (sharpening): reforçar os contornos, aplicada por último e ajustada ao suporte de saída.
Exemplo resolvido · Revelar um retrato subexposto em RAW
Um retrato foi captado com uma velocidade demasiado rápida e ficou subexposto.
- Abrir o ficheiro RAW no software de revelação (por exemplo darktable ou Adobe Lightroom).
- Subir a exposição cerca de 1 stop, para recuperar o brilho geral.
- Ajustar as sombras para trazer detalhe ao rosto sem alterar as luzes já corretas.
- Corrigir o balanço de brancos, que ficou demasiado frio na captação.
- Aplicar nitidez moderada nos olhos e exportar em JPEG a 2048 px no lado maior, para publicação online.
Ferramentas livres e comerciais
| Ferramenta | Tipo | Uso |
|---|---|---|
| darktable | livre | revelação de RAW, edição não destrutiva |
| RawTherapee | livre | revelação de RAW, muito completo em ajustes de cor |
| GIMP | livre | edição pixel a pixel, retoque avançado |
| Adobe Lightroom | comercial | revelação e organização de RAW |
| Adobe Photoshop | comercial | edição pixel a pixel e retoque avançado |
| Capture One | comercial | revelação de RAW, muito usado em estúdio |
O fluxo de trabalho é o mesmo em qualquer software; muda apenas a interface. A competência é transferível entre ferramentas livres e comerciais.
13. Gestão de ficheiros, metadados e direitos de imagem
Uma sessão fotográfica gera facilmente centenas de ficheiros; sem organização, o trabalho perde-se.
- Estrutura de pastas: por data e por projeto, por exemplo
2026-09-27_sessao-produto. - Nomenclatura consistente: nomes sem espaços nem caracteres especiais.
- Cópias de segurança: a regra 3-2-1, ou seja, 3 cópias, em 2 suportes diferentes, 1 delas fora do local de trabalho.
- Metadados EXIF: gravados automaticamente pela câmara (câmara, objetiva, exposição, data, localização).
- Metadados IPTC: preenchidos pelo fotógrafo (autor, descrição, palavras-chave, direitos de autor).
Gravar e exportar imagens digitais
Depois de tratada, a imagem precisa de ser gravada e exportada de forma adequada ao destino final:
| Destino | Formato | Resolução típica |
|---|---|---|
| Redes sociais / web | JPEG | 1080 a 2048 px no lado maior |
| Impressão | JPEG ou TIFF, alta qualidade | 300 ppi ao tamanho final |
| Entrega a cliente | conforme contratado | conforme contratado |
O ficheiro RAW original mantém-se sempre guardado; a exportação produz sempre uma cópia derivada, nunca substitui o original.
Direitos de imagem
Fotografar pessoas e locais implica responsabilidades legais e éticas:
- Direito à privacidade: em muitos contextos é preciso consentimento da pessoa fotografada para publicar a sua imagem.
- Uso comercial vs editorial: um uso em publicidade exige normalmente uma autorização escrita (termo de responsabilidade); o uso jornalístico tem regras diferentes.
- Direitos autorais: quem tira a fotografia é, em regra, o titular dos direitos sobre a imagem, salvo contrato em contrário.
- Licenças: ao usar imagens de terceiros, respeitar a licença (Creative Commons, banco de imagens pago) e atribuir a autoria quando exigido.
14. Segurança e saúde no trabalho, e proteção ambiental
A UC exige o conhecimento e a aplicação das normas de segurança e saúde no trabalho e das normas de proteção ambiental.
Normas de segurança e saúde no trabalho
- Trabalho em altura: usar escadotes e andaimes estáveis e apropriados; nunca improvisar apoios para ganhar altura.
- Cabos no chão: prender ou sinalizar cabos de alimentação e de sincronismo, para evitar quedas.
- Baterias de lítio: transportar em recipientes próprios, não expor a temperaturas elevadas nem a danos físicos; substituir baterias danificadas ou inchadas.
- Iluminação quente: as lâmpadas de estúdio aquecem muito; deixar arrefecer antes de manusear e manter afastadas de materiais inflamáveis.
- Postura: ajustar tripés e ecrãs à altura do corpo, evitar sessões longas em posições forçadas.
- Proteção da visão: nunca olhar diretamente para um flash potente ou uma fonte de luz muito intensa a curta distância.
Normas de proteção ambiental
- Resíduos de equipamento elétrico e eletrónico (REEE): câmaras, cartões e equipamento avariado não vão para o lixo comum; entregam-se em pontos de recolha próprios.
- Baterias e pilhas: recolha e reciclagem específica, nunca em contentores indiferenciados, dado o risco químico e de incêndio.
- Consumo de energia: preferir iluminação LED, de baixo consumo, em vez de fontes contínuas antigas e ineficientes.
- Consumíveis: reduzir impressões de teste desnecessárias e reutilizar material de embalagem sempre que possível.
Exemplo resolvido · Preparar um estúdio em segurança
Uma equipa vai montar um pequeno estúdio de luz contínua para fotografar produtos.
- Verificar o local: sem obstáculos, piso estável para o tripé e para eventuais escadotes.
- Organizar os cabos junto às paredes, presos com fita ou canaletas, longe do trajeto das pessoas.
- Deixar as luzes quentes ligar e estabilizar com espaço livre à volta, longe de tecidos ou papel.
- Confirmar que as baterias de lítio das câmaras e flashes não apresentam sinais de dano.
- No final, desligar tudo, deixar arrefecer o equipamento antes de arrumar, e separar pilhas gastas para reciclagem.
Erros comuns
- Aumentar sempre o ISO perante pouca luz, sem considerar primeiro abrir o diafragma ou baixar a velocidade.
- Culpar a objetiva por uma perspetiva estranha, quando o problema é a distância ao sujeito.
- Gravar só em JPEG para poupar espaço, perdendo depois a margem de correção em imagens mal expostas.
- Aplicar nitidez em excesso, criando halos visíveis à volta dos contornos.
- Usar fotografias de outras pessoas encontradas na internet sem verificar a licença ou pedir autorização.
- Deitar baterias de lítio no lixo comum, o que é proibido e perigoso.
- Guardar as imagens só num suporte, sem cópia de segurança adicional.
Glossário
- Câmara escura: caixa fechada com um orifício que projeta a imagem do exterior no seu interior.
- Daguerreótipo: primeira técnica fotográfica com resultado estável e repetível, de 1839.
- Sensor: componente que converte a luz em sinal elétrico.
- Diafragma: abertura variável que regula a quantidade de luz que entra na câmara.
- Obturador: mecanismo que controla o tempo de exposição do sensor à luz.
- ISO: sensibilidade do sensor à luz.
- Triângulo de exposição: o conjunto de diafragma, velocidade e ISO, que determina a exposição.
- Histograma: gráfico da distribuição de tons de uma imagem.
- Profundidade de campo: zona nítida da imagem, à frente e atrás do ponto de foco.
- Balanço de brancos: correção da tonalidade da imagem em função da fonte de luz.
- Temperatura de cor: escala em graus Kelvin que descreve a tonalidade de uma fonte de luz.
- RAW: formato de imagem com os dados do sensor sem processar.
- Revelação: processo de ajustar um ficheiro RAW até ao resultado final.
- Metadados: informação associada ao ficheiro de imagem (EXIF, IPTC).
- REEE: resíduos de equipamento elétrico e eletrónico.
Síntese
Captar e tratar imagens digitais segue sempre a mesma lógica: compreender como se forma a imagem (câmara, sensor, luz) para depois controlar a exposição (diafragma, velocidade, ISO, medição, histograma) e a composição (distância focal, foco, profundidade de campo, balanço de brancos, regras de enquadramento), captar em RAW para ter margem de tratamento, e revelar e exportar com um fluxo consistente, em ferramentas livres ou comerciais. Todo este trabalho é acompanhado por uma gestão de ficheiros e metadados responsável, pelo respeito dos direitos de imagem, e pela aplicação das normas de segurança e saúde no trabalho e de proteção ambiental.
Exercícios resolvidos
1. Ordena por data: daguerreótipo, câmara escura, sensor digital, rolo de película.
Resolução: câmara escura (princípio milenar) → daguerreótipo (1839) → rolo de película (1888) → sensor digital (a partir dos anos 1970/1990). A câmara escura resolve a óptica; as etapas seguintes resolvem o registo permanente da imagem.
2. Um retrato a contraluz, com uma janela muito clara atrás da pessoa, sai com o rosto escuro em medição matricial. Porquê, e como corrigir?
Resolução: o fotómetro em modo matricial pondera toda a cena, incluindo a janela muito clara, e "pensa" que há muita luz, escurecendo o rosto. Corrige-se mudando para medição pontual (spot) sobre o rosto, ou aplicando compensação de exposição positiva em modo automático.
3. Numa fotografia de desporto em interior com pouca luz, que ordem de prioridades no triângulo de exposição faz mais sentido?
Resolução: primeiro a velocidade (rápida, para congelar o movimento), depois a abertura (a mais larga possível, para deixar entrar o máximo de luz), e só por fim subir o ISO o necessário para completar a exposição, aceitando algum ruído.
4. Porque é que, em RAW, o balanço de brancos errado na captação não é grave, mas em JPEG é?
Resolução: em RAW, o balanço de brancos é só uma etiqueta que se pode mudar por completo no software de revelação, sem perda de qualidade. Em JPEG, a imagem já foi processada e comprimida com esse balanço de brancos fixado, e corrigi-lo depois introduz perdas de qualidade visíveis.
5. Um aluno quer desfocar bastante o fundo de um retrato, mas a câmara tem uma objetiva com abertura máxima limitada. Que outras três variáveis pode explorar?
Resolução: aproximar-se mais do sujeito (reduz a distância ao sujeito), usar uma distância focal maior (teleobjetiva) e afastar o sujeito do fundo. As três, combinadas com a abertura disponível, reduzem a profundidade de campo mesmo sem uma objetiva muito luminosa.
6. Que normas de segurança e de proteção ambiental se aplicam ao transporte e ao fim de vida de baterias de lítio de equipamento fotográfico?
Resolução: no transporte, as baterias de lítio devem ir em recipientes próprios, protegidas de choques e de temperaturas elevadas, por norma de segurança e saúde no trabalho. No fim de vida, seguem para pontos de recolha específicos de pilhas e baterias, nunca para o lixo comum, por norma de proteção ambiental, dado o risco químico e de incêndio.