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aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC02122

Sebenta · Executar pisos e tetos em madeira e derivados (UC02122)

Do desenho técnico ao soalho e ao forro prontos, com estruturas, samblagens, remates e acabamento
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Marcenaria e Carpintari ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta prepara-te para executar pisos e tetos em madeira e derivados, do primeiro traço no papel à última passagem de lixa. É trabalho de obras de carpintaria e de aplicação de pavimentos e revestimentos, de indústrias de carpintaria e mobiliário e de outras indústrias da segunda transformação da madeira. Em qualquer destes contextos, os dois critérios de desempenho são sempre os mesmos: aplicar diversas técnicas, de acordo com as especificações do trabalho a realizar, e cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho.

O percurso segue a ordem real de uma obra:

  1. Ler o desenho e as outras especificações técnicas.
  2. Selecionar a madeira e os derivados, confirmando o teor de água.
  3. Preparar instrumentos, máquinas e ferramentas, bem regulados e com o EPI certo.
  4. Serrar, aparelhar e moldar as peças, incluindo o perfil macho-fêmea.
  5. Construir a estrutura de suporte (vigamento, barrotes, ripado, caibros) e as suas samblagens.
  6. Prever o isolamento térmico e acústico.
  7. Executar o soalho e o forro do teto, com as ferragens certas.
  8. Executar os remates, lixar e verificar.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar o desenho e outras especificações técnicas; aplicar diferentes técnicas na execução de pisos e tetos em madeira e derivados; operar máquinas e ferramentas. Para isso vais aprender a interpretar desenhos, selecionar a madeira, regular máquinas e ferramentas, serrar, aparelhar e moldar (perfilar macho e fêmea e outros), executar estruturas de suporte (caibros, ripado, vigamento), executar samblagens de estruturas (meia-madeira, meia-esquadria e outras), executar remates para pisos e tetos, lixar soalho e forro, utilizar os EPI e aplicar as normas de segurança e saúde no trabalho e as normas da qualidade.

Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo tem a matéria, pelo menos um exemplo resolvido passo a passo e, no fim, os erros mais frequentes. Refaz as contas no caderno antes de leres a resolução. No fim há um glossário, uma síntese e exercícios resolvidos para testares o que aprendeste.

1. Do desenho técnico às especificações

Analisar o desenho e outras especificações técnicas é a primeira realização desta UC, e a que condiciona todas as seguintes. Nenhum corte se faz sem antes confirmar o que o desenho pede.

1.1 O que o desenho técnico transmite

Peça desenhada O que mostra O que o carpinteiro tira dela
Planta a divisão vista de cima dimensões do piso ou do teto, sentido das tábuas, posição das vigas e dos vãos de porta
Corte a construção "fatiada" por um plano vertical camadas do piso e do teto, espessuras, cotas de nível, altura livre
Alçado uma face vista de frente alturas de rodapés, portas e remates
Pormenor construtivo uma zona ampliada (1:5, 1:2, 1:1) perfil macho-fêmea, samblagens, remate junto à parede, fixações
Planta de teto (teto refletido) o teto desenhado como se se visse num espelho no chão sentido do forro, ripado, candeeiros, alçapões

1.2 Escalas

A escala diz quantas vezes o desenho é mais pequeno do que a realidade. Em 1:50, 1 mm no papel vale 50 mm em obra; em 1:20, vale 20 mm.

Exemplo resolvido 1 · Converter uma medida de planta. Numa planta à escala 1:50, a parede maior da divisão mede 84 mm.

  1. Medida real = medida no papel x denominador da escala = 84 x 50 = 4200 mm.
  2. Converter: 4200 mm = 4,20 m.
  3. Confirmar com a cota escrita, se existir. A cota escrita prevalece sempre sobre a medida tirada à régua, porque o papel pode ter encolhido ou a impressão pode ter sido reduzida.

Exemplo resolvido 2 · O caminho inverso. Queres desenhar um pormenor com uma tábua de 120 mm à escala 1:5. Medida no papel = 120 / 5 = 24 mm.

1.3 Simbologia e cotas

1.4 Outros documentos de especificação

Documento O que define
Memória descritiva materiais, técnicas e acabamentos exigidos
Mapa de quantidades (medições) quantidade de trabalho a executar, em m², m e unidades
Lista de materiais espécie de madeira, derivados, ferragens e isolamento
Caderno de encargos condições técnicas e critérios de aceitação do dono de obra
Fichas técnicas dos fabricantes teor de água, colas, juntas de dilatação, espaçamentos, acabamentos

Quando dois documentos se contradizem (o desenho diz carvalho, a memória diz castanho), não escolhes tu: esclareces com o responsável de obra e registas a resposta.

1.5 Exemplo resolvido 3 · Interpretar uma cota de espessura

O corte do desenho indica sobre a laje uma camada de 15 mm de soalho flutuante + 3 mm de base acústica + película de polietileno (espessura desprezável). O piso antigo, a retirar, tinha 10 mm de alcatifa.

  1. Somar as espessuras novas: 15 + 3 = 18 mm.
  2. Diferença para o piso antigo: 18 menos 10 = 8 mm a mais.
  3. Confirmar se as portas têm folga inferior para mais 8 mm e se o piso do corredor fica ao mesmo nível. Se não houver folga, as portas têm de ser cortadas em baixo ou é preciso um perfil de transição; decide-se com o responsável de obra antes de começar, nunca improvisando em obra.

1.6 Como ler um desenho em cinco passos

  1. Ler a legenda (escala, data, revisão, autor).
  2. Identificar plantas, cortes e pormenores e relacioná-los entre si.
  3. Registar num caderno de obra as cotas principais: dimensões da divisão, espessuras, cotas de nível.
  4. Confirmar em obra as medidas reais (medir a divisão, porque as paredes raramente estão em esquadria perfeita).
  5. Anotar dúvidas e esclarecê-las antes de encomendar material ou cortar.

Erros frequentes no capítulo: medir à régua um desenho reduzido; esquecer a revisão mais recente do desenho; não medir a divisão real antes de encomendar.

2. Contexto profissional e normas da qualidade

Esta UC prepara-te para três contextos: obras de carpintaria e aplicação de pavimentos e revestimentos (reabilitação de soalhos antigos, pavimentos novos, tetos em lambril), indústrias de carpintaria e mobiliário (produção de soalho, lambril, rodapés e molduras em série) e outras indústrias da segunda transformação da madeira. A escala muda, a técnica de base é a mesma.

2.1 O que são "normas da qualidade" na prática

Qualidade é cumprir a especificação e conseguir prová-lo. Na execução de pisos e tetos isto traduz-se em:

As normas técnicas europeias e portuguesas (NP EN) para pavimentos de madeira classificam, por exemplo, o aspeto das tábuas e definem ensaios. Não precisas de as saber de cor; precisas de saber que existem e de ir à especificação do projeto ver qual se aplica.

2.2 Exemplo resolvido 4 · Uma ficha de controlo simples

Verificação Instrumento Momento Resultado Ação
Teor de água das tábuas higrómetro de madeira receção conforme a especificação? aceitar ou esperar aclimatação
Nível do vigamento nível e régua antes do soalho desvios anotados calçar ou aplainar
Esquadria da 1.ª fileira esquadro grande, cordel ao assentar desvio anotado corrigir antes de avançar
Folga perimetral cunhas espaçadoras, fita métrica durante contínua em todo o perímetro repor onde faltar
Aspeto final vista rasante com luz antes da entrega defeitos anotados reparar e voltar a verificar

Uma ficha destas transforma o "parece bem" numa verificação com instrumento, momento e critério.

3. Segurança, saúde e equipamentos de proteção individual

Cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho é um dos dois critérios de desempenho desta UC, não um extra. A carpintaria de pisos e tetos junta os riscos da oficina (máquinas, pó, ruído) com os riscos da obra (trabalho em altura, eletricidade, desarrumação).

3.1 Principais riscos

Risco Onde aparece Medida principal
Corte e amputação serra circular, tupia, desempenadeira, serra de esquadria resguardos no lugar, empurradores, máquina regulada
Retrocesso (projeção da peça) serra circular de bancada, tupia cutelo divisor, guia bem regulada, nunca cortar à mão livre
Pó de madeira serrar, aparelhar, afagar e lixar captação na origem, limpeza por aspiração, máscara
Ruído máquinas estacionárias, afagadora, pregadora proteção auditiva
Queda em altura forro de teto, falsos tetos andaime ou plataforma estável, nunca cadeiras ou caixotes
Queda ao mesmo nível aparas, cabos, tábuas soltas no chão arrumação contínua
Posturas e cargas trabalho de joelhos, transporte de tábuas joelheiras, pausas, carregar a dois
Incêndio pó acumulado, panos com óleo de acabamento limpeza, panos em recipiente metálico fechado ou em água
Produtos químicos colas, vernizes, óleos ventilação, luvas adequadas, ficha de dados de segurança

3.2 Máquinas: regras que salvam dedos

3.3 O pó de madeira é um problema de saúde, não de limpeza

O pó de madeira de folhosas (carvalho, castanho, faia, eucalipto e outras) é um agente cancerígeno reconhecido, associado sobretudo a cancros das fossas nasais. Por isso a legislação europeia fixa-lhe um valor-limite de exposição profissional: a Diretiva (UE) 2017/2398 estabeleceu 2 mg/m³ (fração inalável, média ponderada de 8 horas) a partir de 18 de janeiro de 2023, depois de um período transitório a 3 mg/m³. Em Portugal, esta diretiva foi transposta pelo Decreto-Lei n.º 35/2020, que reviu o regime de proteção dos trabalhadores contra agentes cancerígenos.

A ordem das medidas é sempre a mesma:

  1. Captar na origem: aspiração ligada a cada máquina (serra, desempenadeira, desengrossadeira, tupia, afagadora, lixadoras).
  2. Limpar por aspiração, nunca com ar comprimido nem vassoura a seco, que voltam a pôr o pó no ar.
  3. Proteção respiratória quando a captação não chega: máscara filtrante FFP2 ou FFP3, bem ajustada à cara (a barba impede a vedação).

As máscaras de "pó" de papel sem classe FFP não protegem do pó fino.

3.4 Ruído

As máquinas de carpintaria são das mais ruidosas da oficina. O Decreto-Lei n.º 182/2006 fixa as obrigações sobre exposição ao ruído: a partir do valor de ação inferior de 80 dB(A) o empregador tem de disponibilizar proteção auditiva; a partir do valor de ação superior de 85 dB(A) o seu uso é obrigatório. Na prática da oficina: junto de máquinas de corte e de afagadoras, protetores auriculares ou tampões sempre.

Para ti, a consequência prática é simples: usa máquinas com marcação CE e manual, respeita o manual e comunica qualquer proteção avariada.

3.6 Trabalho em altura nos tetos

3.7 EPI por tarefa

Tarefa EPI Nota
Serrar, aparelhar, perfilar óculos, proteção auditiva, calçado de proteção sem luvas junto de ferramentas em rotação
Afagar e lixar máscara FFP2 ou FFP3, proteção auditiva, óculos aspiração ligada
Pregar com pregadora pneumática óculos, proteção auditiva nunca apontar a pregadora a ninguém
Manusear tábuas em bruto luvas de trabalho só com as máquinas paradas
Colar e envernizar luvas resistentes a químicos, ventilação ler a ficha de dados de segurança
Forro de teto óculos (aparas e pó a cair), capacete se houver trabalho por cima plataforma estável
Assentar soalho joelheiras, calçado de proteção pausas regulares

3.8 Exemplo resolvido 5 · Analisar uma situação

Um colega vai cortar ripas de 25 mm de largura na serra circular de bancada, sem cutelo divisor ("foi tirado porque atrapalhava"), de luvas, a empurrar a ripa com os dedos.

  1. Cutelo em falta: risco de retrocesso. Parar e montar o cutelo antes de qualquer corte.
  2. Luvas junto da serra: podem ser agarradas pelos dentes. Tirá-las.
  3. Dedos junto da serra numa peça estreita: usar empurrador.
  4. Registar a ocorrência e comunicar ao responsável, para que o cutelo não volte a ser retirado.

4. A madeira: comportamento, humidade e seleção

4.1 Porque é que a madeira "mexe"

A madeira é um material anisotrópico: comporta-se de forma diferente conforme a direção.

Direção Retração ao secar (e inchamento ao humedecer)
Longitudinal (ao longo do fio) desprezável
Radial (do centro para a casca) média
Tangencial (tangente aos anéis) a maior, cerca do dobro da radial

Consequências práticas para quem assenta soalho e forro:

4.2 Teor de água

O teor de água (ou humidade da madeira) calcula-se em base seca, isto é, em relação à massa da madeira completamente seca (anidra):

Teor de água (%) = (massa húmida menos massa anidra) / massa anidra x 100

Exemplo resolvido 6 · Método da secagem em estufa. Uma amostra de tábua pesa 520 g. Depois de seca em estufa até massa constante, pesa 460 g.

  1. Água perdida: 520 menos 460 = 60 g.
  2. Dividir pela massa anidra: 60 / 460 = 0,1304.
  3. Multiplicar por 100: 13,0 %.

Atenção ao erro clássico: dividir pela massa húmida (60 / 520 = 11,5 %) dá um valor errado, mais baixo do que o real.

Em obra usa-se o higrómetro de madeira (de agulhas ou de contacto), mais rápido do que a estufa. Mede-se em várias tábuas, longe dos topos, e regista-se.

Valores de referência. Para pavimentos e carpintaria de interior em edifícios habitados, o teor de água usual anda pelos 8 a 12 %; para carpintaria de exterior é mais alto. O valor exato que se aceita vem da especificação do projeto ou da ficha técnica do produto.

4.3 Aclimatação e humidade de equilíbrio

A madeira troca água com o ar até atingir a humidade de equilíbrio com o ambiente. Por isso:

4.4 Espécies usadas em pisos e tetos

Espécie Grupo Uso frequente em pisos e tetos Nota
Pinho bravo resinosa vigamentos, barrotes, ripado, soalho tradicional a resinosa mais comum na floresta portuguesa
Casquinha (pinho silvestre) resinosa soalho, forro, lambril importada, fio mais regular
Abeto, espruce resinosa lambril, ripado, estruturas madeiras leves
Carvalho folhosa soalho, taco, parquet dura, resistente ao desgaste
Castanho folhosa soalho, forro, vigamentos à vista muito usado na construção tradicional portuguesa
Eucalipto folhosa soalho, taco muito dura; exige secagem cuidada
Faia, freixo folhosas soalho, parquet boa dureza

As resinosas são em geral mais macias e económicas, por isso dominam nas estruturas e no ripado; mas o soalho de pinho foi e continua a ser muito usado em Portugal. As folhosas duras resistem melhor ao desgaste em zonas de passagem intensa.

4.5 Defeitos e critérios de seleção

Selecionar a madeira é uma aptidão explícita do referencial. Verifica, peça a peça:

Defeito O que é Consequência
Nó solto ou nó morto nó que não está ligado à madeira à volta pode cair e deixar um buraco; fragiliza
Nó são nó bem aderente aceitável em classes rústicas
Fenda separação ao longo do fio abre com o tempo, lasca
Empeno (arqueamento, encurvamento, torção, abaulamento) deformação da peça não encaixa ou encaixa forçada
Descaio falta de madeira na aresta (resto de casca) a aresta não tem perfil
Bolsa de resina cavidade com resina mancha o acabamento
Ataque de insetos (furos, serrim) ou fungos (manchas, madeira mole) degradação biológica rejeitar e investigar a origem

E ainda: espécie e classe conforme a especificação; secção (espessura e largura) correta; teor de água medido; quantidade com margem para cortes e para escolher e emparelhar veios.

Exemplo resolvido 7 · Aceitar ou rejeitar. Um lote de 40 tábuas de carvalho para soalho chega à obra. O higrómetro dá 9 a 11 % na maioria, mas 5 tábuas dão 17 %; 2 tábuas têm nós soltos.

  1. Especificação: 8 a 12 %. As 5 tábuas a 17 % estão fora: separar e não aplicar até estarem conformes (ou devolver).
  2. As 2 tábuas com nós soltos: usar só em cortes de remate, onde o nó fica fora, ou rejeitar.
  3. Registar a não conformidade e avisar o responsável, porque pode faltar material.

5. Derivados da madeira

Os derivados são painéis fabricados a partir de madeira (folhas, partículas ou fibras) e cola. Valem pela estabilidade dimensional, pelos formatos grandes e pelo custo.

Derivado Como é feito Uso típico em pisos e tetos
Contraplacado folhas de madeira coladas com o fio cruzado entre camadas consecutivas, em número ímpar de camadas base de soalho sobre vigamento, tetos, painéis
Aglomerado de partículas partículas de madeira coladas e prensadas bases interiores secas; há versões resistentes à humidade
MDF fibras de madeira coladas e prensadas, densidade média forros e painéis pintados, rodapés e molduras lacadas
OSB partículas longas orientadas em camadas cruzadas bases de pavimento sobre vigamento, revestimentos de estrutura
Painel lamelado (lamelado colado, painéis de 3 camadas) lamelas de madeira maciça coladas tampos, pavimentos à vista, tetos

O número ímpar de camadas do contraplacado faz com que as duas faces tenham o fio na mesma direção e o painel fique equilibrado, sem empenar.

5.1 Derivados e humidade

5.2 Pavimentos industriais de madeira e o laminado

5.3 Madeira maciça ou derivado?

Critério Madeira maciça Derivados
Estabilidade dimensional menor maior
Formatos limitados pela árvore painéis grandes
Aspeto natural, valorizado pintado ou revestido (salvo multicamada e lamelados)
Renovação pode ser afagado várias vezes limitada à camada de uso
Uso típico soalho e forro à vista, estruturas bases, forros pintados, pavimentos industriais

Exemplo resolvido 8 · Contar painéis. Uma base de contraplacado para um piso de 4,00 x 3,00 m usa painéis de 2,50 x 1,25 m, e prevê-se 10 % de perda.

  1. Área: 4,00 x 3,00 = 12,00 m². Com perda: 12,00 x 1,10 = 13,20 m².
  2. Área de um painel: 2,50 x 1,25 = 3,125 m².
  3. Número: 13,20 / 3,125 = 4,22, arredondado para cima: 5 painéis.
  4. Confirmar com um esquema de corte: as juntas dos painéis devem cair sobre as vigas e ficar desencontradas.

6. Tipos de isolamento em pisos e tetos

Os tipos de isolamento são um conhecimento explícito do referencial. Aplicam-se tanto ao piso como ao teto e resolvem problemas diferentes.

6.1 Isolamento térmico

Reduz as trocas de calor entre espaços. Materiais frequentes:

Material Forma Onde se usa
Lã mineral (lã de rocha, lã de vidro) mantas e painéis entre vigas e entre ripas, acima de forros de teto
Poliestireno extrudido (XPS) placas rígidas sob betonilhas, pisos térreos
Poliestireno expandido (EPS) placas sob betonilhas
Aglomerado de cortiça expandida placas pisos, tetos, coberturas; material português de referência
Fibra de madeira painéis e mantas pisos, tetos, coberturas

6.2 Isolamento acústico

Há dois tipos de ruído a tratar:

Num piso de madeira sobre vigamento entre dois andares, a solução típica combina: lã mineral entre as vigas, camada resiliente sob o pavimento e teto do andar de baixo bem fechado.

6.3 Humidade: barreira de vapor, película e ventilação

6.4 Exemplo resolvido 9 · Quantidade de lã mineral entre ripas

Um teto de 4,00 x 3,50 m vai levar lã mineral em mantas de 1,20 x 0,60 m entre o ripado, e prevê-se 5 % de perda.

  1. Área: 4,00 x 3,50 = 14,00 m²; com perda: 14,00 x 1,05 = 14,70 m².
  2. Área de uma manta: 1,20 x 0,60 = 0,72 m².
  3. Número: 14,70 / 0,72 = 20,4, arredondado para cima: 21 mantas (confirmar quantas mantas traz cada embalagem).

A área ocupada pelas ripas é pequena e fica do lado da segurança não a descontar.

6.5 Erros com consequência tardia

7. Instrumentos de medição, marcação e traçagem

7.1 Medir e verificar

Instrumento Para que serve
Fita métrica medições lineares de divisões e peças
Metro articulado, régua medições curtas, traçagem
Paquímetro espessuras e perfis (macho e fêmea) ao décimo de milímetro
Esquadro de carpinteiro, esquadro grande ângulos retos, esquadria da primeira fileira
Suta (falso esquadro) copiar e transferir ângulos quaisquer
Esquadro de meia-esquadria traçar e verificar 45°
Nível de bolha, régua de nível comprida horizontalidade e planeza
Nível laser planos de referência em toda a divisão (vigamento, ripado, teto falso)
Fio de prumo verticalidade
Higrómetro de madeira teor de água das tábuas
Higrómetro para bases, método do carboneto humidade de betonilhas antes de colar ou assentar madeira

7.2 Marcar e traçar

Traçar é passar a medida do desenho para a peça, com precisão.

7.3 Exemplo resolvido 10 · Verificar a esquadria de uma divisão pelo 3-4-5

Para saber se dois lados de uma divisão formam um ângulo reto:

  1. Num canto, marcar 3,00 m ao longo de uma parede e 4,00 m ao longo da outra.
  2. Medir a diagonal entre as duas marcas. Se der 5,00 m, o canto está em esquadria (3² + 4² = 9 + 16 = 25 = 5²).
  3. Se der, por exemplo, 5,03 m, o canto está aberto; se der 4,97 m, está fechado.
  4. Numa divisão fora de esquadria, a primeira fileira de soalho alinha-se por uma linha de cordel reta, não pela parede; a diferença absorve-se nos cortes junto à parede e fica escondida pelo rodapé.

Também se pode usar 0,60 / 0,80 / 1,00 m em espaços pequenos (os mesmos números a dividir por 5).

7.4 Exemplo resolvido 11 · Verificar a esquadria de uma peça

  1. Encostar o esquadro à face de referência da peça.
  2. Ver se o canto encosta à lâmina do esquadro sem luz entre os dois.
  3. Se houver luz, marcar o ponto alto e corrigir com plaina.
  4. Repetir a verificação depois da correção.

"Mede duas vezes, corta uma" aplica-se sempre, sobretudo em madeira que não se recupera depois de cortada curta.

8. Máquinas-ferramentas e ferramentas

Operar máquinas e ferramentas é uma das três realizações da UC, e regular máquinas e ferramentas é uma aptidão explícita.

8.1 Máquinas estacionárias

Máquina Função em pisos e tetos Regulações principais
Serra circular de bancada cortes ao comprimento (ao fio) e ao través, ripas, barrotes altura da serra, guia paralela, cutelo divisor, resguardo
Serra de esquadria (ingletadora) cortes de topo a 90° e a 45° em tábuas, rodapés e molduras ângulo de corte, batente, inclinação
Serra de fita cortes curvos, peças espessas, desdobrar tábuas tensão e guias da fita, altura do guia superior
Desempenadeira desempenar: acertar uma face e um canto de referência, direitos e em esquadria profundidade de passagem, guia a 90°, resguardo de ponte
Desengrossadeira (garlopa de desengrosso) desengrossar: dar a espessura e a largura finais, paralelas às referências espessura, velocidade de avanço
Tupia de mesa perfis: macho-fêmea, rebaixos, molduras, meias-canas altura da fresa, guia, velocidade, anéis de proteção, pentes de pressão
Moldureira (quatro faces) na indústria, aparelha e perfila soalho e lambril numa só passagem ferramentas e pressores por veio
Engenho de furar (furadora de coluna) furos perpendiculares, cavilhas, respigas velocidade, profundidade, fixação da peça

Atenção a uma confusão clássica: a desempenadeira não garante espessura nem paralelismo. Garante uma face plana e um canto a 90° com ela. A espessura, paralela à face de referência, dá-a a desengrossadeira.

8.2 Máquinas portáteis mais usadas em obra

8.3 Ferramenta manual

8.4 Regular e manter

  1. Máquina desligada antes de qualquer afinação.
  2. Ferramenta de corte em bom estado, afiada e própria para o material (os derivados com cola desgastam mais depressa as lâminas; usam-se ferramentas de metal duro).
  3. Guias e batentes acertados e verificados com esquadro.
  4. Altura, profundidade e ângulo conforme a peça.
  5. Proteções e aspiração montadas e a funcionar.
  6. Corte de ensaio numa aparra (sobra de madeira) e medição antes de passar à peça final.
  7. Limpeza e manutenção conforme o manual.

Uma ferramenta de corte mal afiada obriga a mais força, queima a madeira e é mais perigosa, não menos.

9. Serrar, aparelhar e moldar

A aptidão serrar, aparelhar e moldar (perfilar macho e fêmea e outros) é a ponte entre a tábua em bruto e a peça pronta a assentar. Hoje a maioria do soalho e do lambril chega já perfilada da fábrica, mas o técnico tem de saber fazê-lo: peças especiais, reparações de soalhos antigos, espécies ou medidas que não existem no mercado.

9.1 A sequência de aparelhar

  1. Traçar e serrar em bruto, com sobremedida (a peça fica um pouco maior do que a medida final).
  2. Desempenar uma face na desempenadeira (face de referência).
  3. Desempenar um canto a 90° com essa face (canto de referência).
  4. Desengrossar na desengrossadeira: espessura final, paralela à face de referência.
  5. Serrar ou desengrossar a largura final, paralela ao canto de referência.
  6. Perfilar na tupia ou na moldureira: macho num canto, fêmea no outro; nos soalhos, também nos topos (macho-fêmea de topo).
  7. Cortar ao comprimento, em esquadria.

Marca-se a face e o canto de referência com um sinal a lápis: a partir daí, todas as medidas partem deles.

9.2 O perfil macho-fêmea

Outros perfis a saber:

Perfil Descrição Uso
Junta lisa (topo a topo) cantos direitos forros simples, tábuas à vista com mata-juntas
Meio-fio (rebaixo sobreposto) cada tábua leva um rebaixo que sobrepõe a seguinte forros e revestimentos
Lingueta postiça (fêmea dos dois lados) uma lingueta solta entra nas duas ranhuras reparações, tábuas mudadas de sentido
Encaixe de clique perfil que tranca ao rodar a tábua pavimentos flutuantes industriais
Macho-fêmea com chanfro (V) arestas chanfradas que marcam cada junta lambril e soalhos rústicos

9.3 Exemplo resolvido 12 · Das medidas finais às medidas em bruto

Queres tábuas de soalho com 20 mm de espessura final e 110 mm de largura útil (face à vista). O macho sai 6 mm para fora da largura útil. O desenho de fabrico prevê 5 mm de sobremedida na espessura e 5 mm na largura para aparelhar.

  1. Largura total da tábua com macho: 110 + 6 = 116 mm.
  2. Largura em bruto: 116 + 5 = 121 mm.
  3. Espessura em bruto: 20 + 5 = 25 mm.
  4. A largura útil (110 mm) é a que conta para calcular metros quadrados; o macho fica escondido dentro da fêmea da tábua seguinte.

9.4 Exemplo resolvido 13 · Afinar a tupia para a fêmea

Espessura da tábua: 20 mm. O pormenor pede uma fêmea de 6 mm de largura, centrada na espessura, com 8 mm de profundidade.

  1. Espaço de cada lado da fêmea: (20 menos 6) / 2 = 7 mm.
  2. Regular a fresa para que o corte comece a 7 mm da face de baixo (a mesa) e tenha 6 mm de altura.
  3. Regular a guia para 8 mm de profundidade.
  4. Fazer um ensaio numa aparra, medir com o paquímetro, e só depois perfilar o lote.
  5. Para o macho, regular a fresa própria com a mesma referência (face à vista sempre para o mesmo lado), para que as faces de cima fiquem ao mesmo nível.

10. Estruturas de suporte: vigamento, barrotes, ripado e caibros

Executar estruturas de suporte (caibros, ripado, vigamento) é uma aptidão explícita, e técnicas de execução de estruturas para pisos e tetos é um conhecimento do referencial. Primeiro, o vocabulário certo, porque estas peças confundem-se muito:

Peça Onde está Função
Viga pavimentos e tetos peça principal que vence o vão entre apoios (paredes, outras vigas)
Vigamento pavimentos e tetos conjunto das vigas de um pavimento ou de um teto
Barrote pavimentos e tetos peça de secção menor; nos pavimentos antigos são as próprias "vigas" pequenas onde se prega o soalho; sobre lajes, são as peças onde se fixa o soalho pregado
Tarugo entre vigas ou barrotes peça curta colocada entre vigas para as travar e impedir que tombem ou torçam
Ripa, ripado sob vigas ou barrotes (tetos), sobre lajes, sob caibros peças finas, em série, que recebem diretamente o forro
Caibro (ou vara) coberturas peça inclinada da cobertura, que vai do frechal (junto ao beirado) à cumeeira (no topo), apoiada nas madres; recebe o ripado da telha
Frechal topo das paredes peça horizontal onde apoiam as vigas ou os caibros

Caibros e barrotes não são a mesma coisa. Os caibros pertencem às coberturas inclinadas; os barrotes pertencem aos pavimentos e tetos. Os caibros entram nesta UC quando se forra por baixo de uma cobertura (tetos inclinados de sótãos e águas-furtadas), em que o forro acompanha a inclinação do telhado e se fixa ao ripado pregado aos caibros.

10.1 Estrutura de suporte de um piso

Pavimento sobre vigamento (reabilitação de edifícios antigos, construção em madeira):

  1. Verificar os apoios das vigas: entregas nas paredes secas, sem podridão.
  2. Confirmar o sentido do vão: as vigas vencem o vão menor, de apoio a apoio; o soalho pregado assenta perpendicular às vigas.
  3. Espaçamento entre eixos de vigas: o definido pelo projeto, conforme a carga, o vão e a espessura do soalho ou da base. Não se decide "a olho".
  4. Tarugar: tarugos entre vigas, desencontrados ou em cruz, a meio vão ou onde o projeto indicar.
  5. Nivelar: todas as vigas à mesma cota, confirmada com régua e nível ou com laser. Corrige-se calçando (com cunhas duras ou calços de derivado, nunca com restos que esmagam) ou aplainando o topo das vigas altas.
  6. Colocar isolamento entre vigas, se previsto, e a base (contraplacado, OSB/3) ou o soalho.

Pavimento sobre laje com barrotes (soalho pregado sobre laje):

  1. Traçar a posição dos barrotes com cordel.
  2. Fixar os barrotes à laje (buchas e parafusos, ou ancoragens próprias), nivelados com calços.
  3. Preencher entre barrotes com isolamento ou com enchimento, conforme o projeto.
  4. Pregar o soalho perpendicular aos barrotes.

10.2 Estrutura de suporte de um teto

O ripado fica perpendicular ao sentido do forro, para que cada tábua de forro tenha vários apoios ao longo do comprimento. O espaçamento das ripas vem da especificação do forro (espessura e rigidez das tábuas) e do desenho.

10.3 Exemplo resolvido 14 · Quantas ripas para um teto

Um teto tem 4,00 m no sentido em que se distribuem as ripas. O desenho pede ripas com espaçamento máximo de 40 cm entre eixos, com uma ripa junto a cada parede.

  1. Número de vãos: 4,00 / 0,40 = 10 vãos.
  2. Número de ripas = número de vãos + 1 = 10 + 1 = 11 ripas.
  3. Espaçamento real: 4,00 / 10 = 0,40 m, conforme.

Variante: o teto tem 4,20 m.

  1. 4,20 / 0,40 = 10,5. Como o espaçamento é máximo, arredonda-se o número de vãos para cima: 11 vãos.
  2. Ripas: 11 + 1 = 12 ripas.
  3. Espaçamento real: 4,20 / 11 = 0,382 m (cerca de 38 cm), que respeita o máximo de 40 cm.

Metros lineares de ripa: se a outra dimensão do teto for 3,50 m, cada ripa mede 3,50 m e o total é 12 x 3,50 = 42,0 m; com 10 % de perda, 42,0 x 1,10 = 46,2 m. Em varas de 2,50 m: 46,2 / 2,50 = 18,5, arredondado para cima: 19 varas, e as emendas das ripas fazem-se sempre sobre uma viga ou barrote, desencontradas.

10.4 Exemplo resolvido 15 · Nivelar um vigamento

Num piso com 5 vigas, as leituras com nível laser (distância do feixe ao topo de cada viga, a meio vão) são: 102, 98, 100, 105 e 101 mm.

  1. Quanto maior a leitura, mais baixa está a viga (o feixe está sempre à mesma altura).
  2. A viga mais alta é a de 98 mm. Tomando-a como referência, as restantes estão mais baixas: 4, 2, 7 e 3 mm respetivamente.
  3. Opções: calçar as vigas baixas até 98 mm (ou colocar sarrafos pregados de lado), ou aplainar a viga alta se o projeto o permitir e a secção sobrar. Nunca se aplaina uma viga estrutural sem autorização.
  4. Voltar a medir em vários pontos de cada viga, não só a meio.

11. Samblagens de estruturas

Executar samblagens de estruturas (meia-madeira, meia-esquadria e outras) é uma aptidão explícita. Uma samblagem é a ligação de duas peças de madeira por encaixe das próprias peças, com ou sem cola e ferragens.

11.1 Meia-madeira

Cada peça perde metade da sua espessura na zona da ligação, e as duas encaixam uma na outra, ficando à face (à mesma cota).

Variante Onde se usa
Meia-madeira em cruz cruzamento de duas ripas ou travessas de um ripado em grelha
Meia-madeira em T uma travessa que termina a meio de outra peça
Meia-madeira em L (de canto) cantos de caixilhos e grades de estrutura
Meia-madeira de prolongamento emendar duas peças no mesmo alinhamento, sobre um apoio

Exemplo resolvido 16 · Meia-madeira em cruz entre duas ripas de 45 x 30 mm.

  1. Profundidade de cada entalhe: 30 / 2 = 15 mm.
  2. Largura de cada entalhe: igual à largura da outra peça, 45 mm. Traçar com esquadro e marcar a profundidade com graminho, sempre a partir da face de referência.
  3. Serrar pelo lado de dentro das linhas até à profundidade, fazer cortes intermédios e retirar o material com o formão.
  4. Ensaiar: o encaixe deve entrar com pressão da mão ou batidas leves do maço, sem folga.
  5. Verificar a esquadria e fixar (cola, pregos ou parafusos, conforme a especificação).

Cortar mais fundo do que metade enfraquece a peça e deixa a ligação desnivelada.

11.2 Meia-esquadria

Cada peça é cortada a 45°, e as duas juntam-se para formar um canto a 90° sem topos à vista. Não se tira metade da espessura: é um corte de topo inclinado.

11.3 Outras samblagens e ligações

12. Tipos de soalho e as suas ligações

Tipos de soalho e tetos e samblagens e ligações em soalho e tetos (macho-fêmea e outros) são conhecimentos explícitos do referencial.

Tipo Como se fixa Base Uso típico
Soalho maciço pregado tábuas macho-fêmea pregadas às vigas ou aos barrotes, com prego oculto vigamento ou barrotes sobre laje casas antigas, reabilitação, soalho tradicional
Soalho maciço ou multicamada colado colado em toda a superfície betonilha seca e plana, base de derivado construção nova sobre laje
Taco pequenas peças maciças coladas betonilha padrões (espinha, xadrez, fiadas)
Parquet (mosaico, lamparquet) peças pequenas coladas em padrões; o lamparquet é fino betonilha pavimentos decorativos
Flutuante tábuas encaixadas entre si (macho-fêmea colado ou clique), sem fixação ao suporte base resiliente sobre betonilha ou pavimento antigo remodelações, rapidez de montagem

Ligações do soalho entre tábuas:

Juntas desencontradas. As juntas de topo de fileiras vizinhas nunca ficam alinhadas; desencontram-se com uma distância mínima que o fabricante indica, para que o conjunto trabalhe como um todo e fique com bom aspeto.

13. Técnica de execução do soalho

Técnica de execução de soalho é um conhecimento explícito, e aplicar diferentes técnicas na execução de pisos é a realização central da UC.

13.1 Preparação comum a todos os tipos

  1. Obra fechada: janelas colocadas, rebocos e betonilhas secos, trabalhos húmidos terminados.
  2. Madeira aclimatada e com o teor de água medido e registado.
  3. Base verificada: plana (régua), limpa, sólida e seca. A humidade de uma betonilha mede-se com higrómetro próprio ou pelo método do carboneto; o valor admissível depende do tipo de betonilha e do pavimento e está na ficha técnica do fabricante ou no caderno de encargos. Não se cola nem se assenta madeira sobre uma betonilha que não se mediu.
  4. Esquadria e sentido: traçar a linha de referência da primeira fileira. O sentido das tábuas vem do desenho; quando não vem, a regra habitual é orientá-las na direção da luz principal (as juntas notam-se menos) e, em pregado sobre estrutura, perpendicular às vigas ou barrotes.
  5. Folga de dilatação perimetral planeada: em todo o perímetro, em pilares, tubos e soleiras. Nos flutuantes e colados é comum uma folga da ordem dos 10 a 15 mm, mas o valor a respeitar é o da ficha técnica do fabricante, que o faz crescer com a dimensão da divisão. Divisões muito compridas podem pedir juntas de dilatação intermédias.

13.2 Soalho pregado com prego oculto

  1. Assentar a primeira fileira com a fêmea virada para a parede (o macho para o lado onde se avança), alinhada pelo cordel, com cunhas para a folga.
  2. A primeira fileira prega-se pelo macho e, além disso, pela face junto à parede, com prego de cabeça perdida afundado com punção, porque é a referência de todo o soalho e não pode mexer. A última fileira não deixa espaço para pregar pelo macho e fixa-se só pela face. O rodapé tapa estes pregos.
  3. Nas restantes fileiras, o prego entra em ângulo (cerca de 45°) na base do macho, atravessa a tábua e crava na viga ou no barrote. A tábua seguinte tapa-o: é o prego oculto.
  4. Encostar cada tábua com taco de batida (nunca o martelo diretamente no macho) antes de pregar.
  5. Um prego em cada apoio (viga ou barrote) que a tábua atravessa, ou conforme a especificação.
  6. Desencontrar as juntas de topo.
  7. Última fileira: medir em vários pontos, serrar à largura (menos a folga), encostar com puxa-tábuas.

13.3 Soalho flutuante

  1. Estender a película de polietileno (se a base não a trouxer) com as sobreposições do fabricante, subindo na parede.
  2. Estender a base resiliente (espuma, cortiça, fibra de madeira) sem sobreposições.
  3. Montar a primeira fileira com cunhas junto à parede.
  4. Encaixar as fileiras seguintes (clique ou macho-fêmea colado), com juntas desencontradas.
  5. Não pregar nem colar ao suporte, e não prender o pavimento com móveis fixos, ilhas de cozinha ou rodapés pregados ao chão: o flutuante tem de se mover livremente.
  6. Retirar as cunhas no fim e aplicar o rodapé.

13.4 Soalho, taco e parquet colados

  1. Betonilha seca e medida, plana, limpa, sem pó; primário se o fabricante o pedir.
  2. Cola própria para madeira (a que o fabricante indica), espalhada com a espátula dentada do tamanho indicado.
  3. Assentar e pressionar cada peça para que a cola a molhe por baixo em toda a área.
  4. Respeitar o tempo aberto da cola (quanto tempo se pode trabalhar depois de espalhada).
  5. Nos tacos e parquet: traçar eixos a partir do centro da divisão para que o padrão fique simétrico e os cortes iguais nos dois lados.
  6. Não pisar nem afagar antes do tempo de secagem indicado.

13.5 Exemplo resolvido 17 · Material para soalho

Uma divisão tem 4,50 x 4,00 m. O soalho tem 120 mm de largura útil e vem em caixas de 1,80 m². Prevê-se 8 % de perda (divisão retangular, assentamento a direito).

  1. Área: 4,50 x 4,00 = 18,00 m².
  2. Com perda: 18,00 x 1,08 = 19,44 m².
  3. Caixas: 19,44 / 1,80 = 10,8, arredondado para cima: 11 caixas (19,80 m²).
  4. Em metros lineares: 18,00 / 0,120 = 150 m de tábua sem perda; com perda, 150 x 1,08 = 162 m.

A regra prática da perda: 5 a 10 % para divisões retangulares assentes a direito; mais para divisões com muitos recortes, para assentamento em diagonal ou em espinha. Arredonda-se sempre para cima.

Atenção: usa-se a largura útil (a que fica à vista), não a largura total com o macho. Se usasses 126 mm (com o macho), terias 18,00 / 0,126 = 142,9 m, isto é, cerca de 7 m a menos do que precisas.

13.6 Exemplo resolvido 18 · A última fileira

A divisão tem 4,00 m de largura no sentido perpendicular às tábuas, com 10 mm de folga de cada lado. As tábuas têm 120 mm de largura útil.

  1. Largura a cobrir: 4000 menos 2 x 10 = 3980 mm.
  2. Número de fileiras: 3980 / 120 = 33,17: 33 fileiras inteiras e uma de 0,17 x 120 = 20 mm.
  3. Uma fileira de 20 mm é frágil e fica feia. Solução: cortar também a primeira fileira, dividindo a sobra: (120 + 20) / 2 = 70 mm para a primeira e para a última.
  4. Confirmar: 70 + 32 x 120 + 70 = 70 + 3840 + 70 = 3980 mm. Correto.

13.7 Reabilitar soalho antigo

Em Portugal, muitos edifícios antigos têm soalho de pinho ou de casquinha pregado sobre vigamento de madeira. Antes de o substituir, avalia-se se é recuperável:

14. Tetos em madeira e técnica de execução do forro

Técnicas de execução de forro para tetos é um conhecimento explícito do referencial.

14.1 Tipos de teto em madeira

Tipo Descrição
Forro de lambril réguas estreitas macho-fêmea (muitas vezes com chanfro em V), pregadas ou fixadas com grampos ao ripado
Forro de tábuas à vista tábuas largas, com junta lisa e mata-juntas, meio-fio ou macho-fêmea
Forro de saia e camisa forro tradicional português com tábuas alternadas em dois planos: umas junto à estrutura, outras por baixo a cobrir as juntas das primeiras
Teto de masseira teto tradicional em que as abas inclinadas junto às paredes sobem para um painel central plano, lembrando uma masseira invertida
Teto com vigamento à vista as vigas ficam aparentes e o forro fixa-se por cima delas ou entre elas
Teto falso em painéis de derivado painéis de MDF, contraplacado ou folheados, sobre estrutura suspensa

14.2 Técnica de execução do forro de lambril

  1. Confirmar o ripado: nivelado em todo o comprimento, perpendicular ao sentido do forro, bem fixado, com o espaçamento especificado. Isolamento e instalações (cabos, caixas de luz) já colocados e testados.
  2. Traçar a linha de referência da primeira régua com cordel ou laser, paralela à parede de partida (as paredes raramente são retas).
  3. Primeira régua com a fêmea (ou o macho, conforme o sistema de fixação) virada para a parede, deixando uma folga junto à parede que a moldura ou cantoneira tapa.
  4. Fixar sem fixações à vista: prego oculto em ângulo pela base do macho, agrafo de pregadora no mesmo sítio, ou grampos de lambril (ferragens metálicas que prendem a lingueta ao ripado).
  5. Desencontrar as juntas de topo, e fazê-las cair sobre uma ripa (salvo se as réguas tiverem macho-fêmea de topo).
  6. Encaixar sem forçar: deixar a junta com a folga do perfil para que o forro possa dilatar.
  7. Recortar à volta de pontos de luz, alçapões e tubos com serra de recortes, depois de medir e traçar.
  8. Última régua: serrar à largura, fixar pela face junto à parede (fica escondida pela moldura).
  9. Remates no perímetro (capítulo 16).

Trabalha-se de um lado para o outro do teto, sem interromper o alinhamento a meio: começar em dois sítios e tentar encontrar-se no centro raramente fecha bem.

14.3 Exemplo resolvido 19 · Material para forro de teto

Um teto de 4,00 x 3,50 m leva lambril com 95 mm de largura útil, em réguas de 2,50 m. Prevê-se 10 % de perda.

  1. Área: 4,00 x 3,50 = 14,00 m²; com perda: 14,00 x 1,10 = 15,40 m².
  2. Área útil de uma régua: 0,095 x 2,50 = 0,2375 m².
  3. Número de réguas: 15,40 / 0,2375 = 64,8, arredondado para cima: 65 réguas.
  4. Grampos de lambril, um por cada cruzamento régua/ripa: com ripas a 40 cm, uma régua de 2,50 m cruza 6 ou 7 ripas (2,50 / 0,40 = 6,25), conforme a posição. Do lado da segurança, contam-se 7: 65 x 7 = 455 grampos, comprados em caixas e com margem.

15. Ferragens para fixação

Tipos de ferragens para fixação é um conhecimento explícito do referencial.

Ferragem Uso Nota
Prego liso estruturas, ripado o mais simples
Prego anelado ou espiralado soalho e ripado resiste muito melhor ao arrancamento; reduz o ranger
Prego de cabeça perdida (sem cabeça) primeira e última fileiras, forros, rodapés afunda-se com punção e tapa-se com massa
Pregos e agrafos de pregadora pneumática soalho, lambril rapidez; afinar a pressão para não esmagar o macho
Parafuso para madeira barrotes, ripado, reparações fixação mais forte e desmontável; furo-guia em madeira dura e perto dos topos
Bucha e parafuso, ancoragem fixar barrotes e ripado a lajes e paredes escolher pela base (betão, tijolo)
Grampo de lambril forro de lambril fixação invisível que prende a lingueta
Esquadros, chapas perfuradas, sapatas de viga ligações estruturais reforço de samblagens e apoios de vigas
Tirantes e pendurais tetos falsos suspender a estrutura da laje ou do vigamento
Cavilhas ligações de madeira alinhamento e reforço

Resistência à corrosão: em zonas húmidas e no exterior usam-se ferragens galvanizadas ou em aço inoxidável. Em madeiras com taninos, como o carvalho e o castanho, o ferro comum reage e mancha de negro a madeira à volta do prego: aí prefere-se o inox.

Comprimento do prego: tem de atravessar a tábua e penetrar bem no apoio, bastante mais do que a espessura da tábua; o comprimento concreto vem da especificação ou da ficha técnica do soalho.

16. Tipos de remate em soalho e teto (forro)

Tipos de remate em soalho e teto · forro é um conhecimento do referencial, e executar remates para pisos e tetos é uma aptidão.

16.1 Remates de pavimento

Remate Onde Função
Rodapé junta soalho/parede tapa a folga de dilatação e protege a parede; fixa-se à parede, nunca ao soalho
Meia-cana (quarto de círculo) ao pé do rodapé tapa folgas maiores; fixa-se ao rodapé, não ao pavimento flutuante
Perfil de transição entre dois pavimentos ao mesmo nível tapa a junta de dilatação na porta
Perfil de desnível (rampa) entre pavimentos a cotas diferentes evita o tropeço
Perfil terminal junto a portas de sacada, vidros, degraus acaba a borda do pavimento
Soleira vão de porta remate de madeira ou pedra entre divisões
Nariz ou focinho de degrau bordo de degrau protege a aresta
Rosetas (tapa-tubos) tubos de aquecimento tapam a folga em volta do tubo

Cortar os aros das portas: em vez de recortar o soalho à volta do aro, corta-se a parte de baixo do aro com a serra oscilante, à altura do pavimento novo (usa-se uma tábua como guia), e a tábua entra por baixo, com a folga escondida.

16.2 Remates de teto e forro

Remate Onde Função
Moldura ou cornija junta forro/parede tapa a folga do forro e dá acabamento
Cantoneira ângulo forro/parede ou arestas remate simples em L
Meia-cana ângulo forro/parede alternativa discreta à moldura
Junta de sombra folga à vista, regular, entre forro e parede remate contemporâneo sem moldura
Mata-juntas juntas entre tábuas ou painéis tapa juntas lisas
Aro de alçapão abertura de acesso remata e dá apoio à tampa

16.3 Exemplo resolvido 20 · Rodapé para uma divisão

Divisão de 4,50 x 4,00 m, com uma porta de 0,80 m de vão. Rodapé em varas de 2,40 m, 10 % de perda (cortes a 45° nos cantos).

  1. Perímetro: 2 x (4,50 + 4,00) = 17,00 m.
  2. Descontar a porta: 17,00 menos 0,80 = 16,20 m.
  3. Com perda: 16,20 x 1,10 = 17,82 m.
  4. Varas: 17,82 / 2,40 = 7,43, arredondado para cima: 8 varas.
  5. Cantos: 4 cantos interiores, cada um com meia-esquadria (ou recorte) e emendas de rodapé a meio de parede feitas em chanfro (a 45° no sentido da espessura), que disfarçam melhor do que o topo a direito.

17. Lixar soalho e forro e acabamento

Lixar soalho e forro é uma aptidão explícita do referencial e o último passo antes do acabamento e da entrega.

17.1 Afagar o soalho

Em Portugal, lixar um soalho em obra chama-se afagar. Usam-se:

Sequência:

  1. Preparar: afundar todas as cabeças de pregos com punção (um prego saliente rasga a lixa e o tambor), retirar restos de cola e sujidade.
  2. Primeira passagem com grão grosso, para planificar. Num soalho de tábuas corridas, trabalha-se a favor do fio; se o soalho estiver muito desnivelado ou for de taco em padrão, a primeira passagem pode ser feita em diagonal, e as seguintes acertam a superfície.
  3. Passagens seguintes com grãos progressivamente mais finos (por exemplo 40, 60, 80, 100 ou 120), sem saltar mais de um grão: cada grão tem de apagar os riscos do anterior.
  4. Última passagem a favor do fio das tábuas (nos padrões com várias direções, a favor da direção dominante, ou com lixadora orbital).
  5. Nunca parar a afagadora com o tambor em contacto com o soalho: deixa uma cova. Baixa-se o tambor com a máquina já em movimento e levanta-se antes de parar.
  6. Aspirar muito bem antes do acabamento.

17.2 Lixar o forro

O forro normalmente chega aparelhado e lixado da fábrica, e lixa-se antes de montar (ou antes do acabamento final, com lixadora orbital), sempre a favor do fio, com grão fino. Lixar um teto já montado é trabalho em altura com pó a cair na cara: óculos, máscara e plataforma estável.

17.3 Acabamentos

Acabamento Características
Verniz (aquoso ou de base solvente) película dura e resistente ao desgaste; várias demãos com lixagem fina entre elas
Óleo penetra na madeira, aspeto natural, fácil de reparar localmente; exige manutenção
Cera acabamento tradicional, pouco resistente à água
Velatura ou tapa-poros dá cor ou prepara a superfície

Respeitar os tempos de secagem e a ventilação. Os panos embebidos em óleo podem aquecer sozinhos e inflamar-se: guardam-se em recipiente metálico fechado ou em água, e deitam-se fora conforme a ficha de segurança.

17.4 Verificação final

Com luz rasante (lanterna encostada ao chão ou ao teto), procura riscos, covas da afagadora, juntas abertas, lascas, pregos à vista e manchas. Depois: nível e planeza com régua, folgas perimetrais tapadas, remates alinhados, ficha de controlo preenchida.

Um trabalho só está terminado depois de verificado, não apenas depois de montado.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Executar um piso ou um teto em madeira segue sempre a mesma ordem: ler o desenho e as especificações · selecionar a madeira e os derivados, medindo o teor de água · regular máquinas e ferramentas e usar o EPI certo · serrar, aparelhar e perfilar · construir a estrutura de suporte (vigamento, barrotes, ripado ou caibros) com as suas samblagens · prever o isolamento e a gestão da humidade · executar o soalho (pregado, colado, taco ou flutuante) ou o forro, com as ferragens certas e a folga de dilatação · executar os remates · lixar ou afagar, acabar e verificar, sempre com as normas de segurança e de qualidade.

Exercícios resolvidos

1. Uma amostra de soalho pesa 345 g húmida e 300 g depois de seca em estufa. Qual é o teor de água? Está dentro de uma especificação de 8 a 12 %?

Resolução: (345 menos 300) / 300 x 100 = 45 / 300 x 100 = 15 %. Está acima da especificação: não se aplica até estar conforme.

2. Porque é que o soalho abre juntas na largura e quase nada no comprimento?

Resolução: porque a madeira é anisotrópica: a retração ao longo do fio é desprezável, enquanto na largura (direções tangencial e radial) é significativa. Como as tábuas têm o comprimento no sentido do fio, o movimento aparece na largura.

3. Que máquina dá a espessura final de uma tábua, e porque não é a desempenadeira?

Resolução: a desengrossadeira. A desempenadeira só acerta uma face plana e um canto a 90°; não garante espessura nem paralelismo entre as faces.

4. Um colega vai tirar o cutelo divisor da serra circular "para cortar mais depressa". O que lhe dizes?

Resolução: que não. O cutelo mantém o corte aberto e evita que a madeira aperte a serra e seja projetada para trás (retrocesso). Nunca se remove nem se anula uma proteção de uma máquina.

5. Uma divisão de 5,00 x 3,60 m vai levar soalho em caixas de 2,00 m². Prevendo 10 % de perda, quantas caixas se encomendam?

Resolução: área 5,00 x 3,60 = 18,00 m²; com perda 18,00 x 1,10 = 19,80 m²; 19,80 / 2,00 = 9,9, arredondado para cima: 10 caixas.

6. Um teto tem 3,60 m no sentido de distribuição das ripas. O desenho pede espaçamento máximo de 40 cm. Quantas ripas são?

Resolução: 3,60 / 0,40 = 9 vãos; ripas = 9 + 1 = 10 ripas.

7. Distingue caibro de barrote.

Resolução: o caibro é uma peça inclinada da cobertura, entre o frechal e a cumeeira, que recebe o ripado da telha (ou, por baixo, do forro inclinado). O barrote é uma peça de pavimento ou de teto, de secção menor que a viga, onde se prega o soalho ou se fixa o ripado.

8. Distingue meia-madeira de meia-esquadria.

Resolução: na meia-madeira, cada peça perde metade da espessura na zona da ligação e as duas ficam à face (por exemplo, o cruzamento de duas ripas). Na meia-esquadria, cada peça é cortada a 45° para formar um canto a 90° (por exemplo, o canto de um rodapé ou de uma moldura).

9. Porque é que o rodapé de um soalho flutuante se fixa à parede e nunca ao soalho?

Resolução: porque o flutuante tem de se mover livremente. Se o rodapé fosse pregado ao pavimento, prendia-o e anulava a folga de dilatação, e o pavimento levantaria ao inchar.

10. Onde entra o prego oculto num soalho pregado, e porque é que a última fileira se prega pela face?

Resolução: entra em ângulo, cerca de 45°, pela base do macho, e crava na viga ou no barrote; a tábua seguinte tapa-o. Na última fileira, encostada à parede, não há espaço para a pregadora nem para o martelo junto ao macho, por isso prega-se pela face, com prego de cabeça perdida afundado com punção, junto à parede, onde o rodapé o esconde. A primeira fileira também leva pregos pela face, como reforço da referência.