Sebenta · Executar portas e janelas (UC02119)
- Introdução
- 1. Portas e janelas: visão geral, nomenclatura e contexto
- 2. Desenho técnico: leitura e interpretação
- 3. A madeira: seleção, serragem, aparelhamento e desengrosso
- 4. Tipos de janelas e respetivos aros
- 5. Tipos de portas e respetivos aros
- 6. Medidas de corte: do aro à folha, às travessas e ao vidro
- 7. Marcação e traçagem dos componentes
- 8. Samblagens e componentes de janelas e portas
- 9. Máquinas-ferramentas e ferramentas manuais
- 10. Furação, respigagem e moldagem
- 11. Armação dos elementos construtivos
- 12. Colagem com palmetas: ajustamento e desempeno
- 13. Verificação de esquadrias e empenos, afagamento e lixagem
- 14. Ferragens para janelas e portas
- 15. Aplicação de vidros
- 16. Segurança, saúde e ambiente
- 17. Normas da qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a executar portas e janelas de madeira com aro, da leitura do desenho técnico até ao conjunto montado, colado, ferrado, envidraçado e pronto a instalar. É uma das competências mais completas da carpintaria: junta desenho, escolha e preparação da madeira, marcação, samblagens, colagem, acabamento, ferragens e vidro num único objeto que tem de funcionar todos os dias durante décadas, à chuva, ao sol e às mãos de quem o usa.
O percurso segue a ordem real de produção numa oficina: ler e interpretar o desenho, selecionar e preparar a madeira (serrar, aparelhar e desengrossar), marcar e traçar as peças (montantes e travessas do aro, couceiras, travessas e pinázios da folha), executar a furação, a respigagem e a moldagem, armar a seco, colar com palmetas fazendo o ajustamento e o desempeno, verificar esquadrias e empenos, afagar e lixar, e por fim aplicar ferragens e vidros. Tudo com as normas de segurança, saúde e qualidade cumpridas do primeiro ao último passo.
A sebenta foi escrita para estudares sozinho: cada capítulo tem explicação, tabelas de consulta e exemplos resolvidos passo a passo, com as contas feitas. No fim tens erros comuns, glossário, síntese e exercícios resolvidos.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar desenhos e outras especificações técnicas; aplicar técnicas de execução de portas e janelas; operar máquinas e ferramentas. No fim da UC deves ser capaz de construir janelas com aro e construir portas com aro de acordo com as especificações técnicas do desenho, cumprindo as normas de segurança e saúde no trabalho.
1. Portas e janelas: visão geral, nomenclatura e contexto
Uma porta ou uma janela de madeira é um conjunto de peças ligadas entre si por samblagens, coladas, afinadas e ferradas, com uma função precisa: fechar um vão, deixar passar pessoas, luz ou ar quando se quer, isolar do exterior e resistir ao uso.
Todo o conjunto assenta em duas partes:
- Aro: o quadro fixo, preso ao vão da parede (chumbado, aparafusado a tacos ou buchas, ou fixado com espuma e parafusos, conforme a obra), que recebe a parte móvel.
- Folha: a parte móvel (de batente, de correr, basculante, pivotante…) que fecha o vão. Nas janelas também se lhe chama caixilho móvel; na linguagem corrente, "caixilho" designa muitas vezes a janela inteira, por isso na oficina diz-se "folha" para evitar confusões.
Nomenclatura das peças
Usar o nome certo de cada peça evita cortes errados. Não se confunde o que é do aro com o que é da folha.
| Onde | Peça | Posição e função |
|---|---|---|
| Aro | montantes (ou prumos) do aro | peças verticais do aro; recebem as dobradiças, os recebedores dos fechos ou as calhas |
| Aro | travessa superior do aro (cabeceira ou padieira do aro) | peça horizontal de cima |
| Aro | peitoril (janela) ou soleira (porta) | peça horizontal de baixo; na janela exterior tem pingadeira e inclinação para escoar a água |
| Aro | batente (rebaixo do aro) | degrau do aro contra o qual a folha encosta ao fechar |
| Folha | couceiras | peças verticais da folha; a do lado das dobradiças é a couceira de suspensão, a outra é a couceira do fecho |
| Folha | travessas (superior, inferior, intermédias) | peças horizontais da folha; a inferior é normalmente a mais larga |
| Folha | pinázios | peças finas que dividem o vidro em partes mais pequenas |
| Folha | almofadas (painéis) | enchimentos de madeira ou derivado nas portas almofadadas |
| Folha | bites ou baguetes | réguas finas que prendem o vidro no rebaixo |
Atenção à palavra "ombreira". Em construção, a ombreira é a face lateral do vão da parede (em alvenaria ou pedra). Algumas oficinas também chamam ombreiras aos montantes do aro. O que nunca se faz é chamar ombreira a uma couceira: a couceira é sempre da folha.
Contexto de trabalho
Estas operações fazem-se em obras de carpintaria, em indústrias de carpintaria e mobiliário com madeira e noutras indústrias da segunda transformação da madeira: sempre que se produzem janelas, portas interiores ou exteriores, à medida (reabilitação, obra nova) ou em série.
Esta UC integra a qualificação de Técnico/a de Marcenaria e Carpintaria, com 4,5 créditos e 50 horas. É avaliada por três critérios de desempenho: construir janelas com aro de acordo com o desenho, construir portas com aro de acordo com o desenho, e cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho.
Portas e janelas exteriores e interiores
- Exteriores (janelas, portas de entrada, portas de varanda): têm de vedar à água e ao ar, resistir ao vento e à radiação solar, e escoar a água que as molha. Pedem madeira durável ou tratada, colas resistentes à água, perfis com pingadeira e vidros adequados.
- Interiores (portas de quartos, cozinhas, divisórias envidraçadas): a exigência principal é estabilidade, bom funcionamento e acabamento; a humidade é menor e mais constante.
2. Desenho técnico: leitura e interpretação
Nenhuma peça se corta sem antes se ler o desenho até ao pormenor. É a primeira realização da UC: analisar desenhos e outras especificações técnicas (caderno de encargos, notas da obra, fichas técnicas das ferragens e do vidro).
O que um desenho de porta ou janela mostra
| Elemento do desenho | O que define | Onde o usas |
|---|---|---|
| Alçado (vista de frente) | forma geral, medidas fora a fora do aro, divisão das folhas, pinázios, sentido de abertura | escolha do tipo, lista de peças |
| Corte horizontal | secção dos montantes do aro, das couceiras e do encontro entre folhas | espessuras, rebaixos, perfis |
| Corte vertical | secção da travessa superior do aro, das travessas da folha e do peitoril ou soleira | pingadeira, escoamento, altura das travessas |
| Pormenores (escala 1:1 ou 1:2) | perfil exato, rebaixo do vidro, posição das ferragens e dos vedantes | afinação da tupia, alojamentos |
| Cotas | medidas de cada componente | marcação e lista de corte |
| Lista de materiais | espécie de madeira, quantidades, colas, ferragens, vidro | encomenda e seleção |
| Notas técnicas | acabamento, tipo de vidro, folgas de funcionamento, tolerâncias | verificação final |
Escalas e cotas
- Os alçados de conjunto desenham-se a escalas pequenas (1:20, 1:10); os cortes de pormenor a 1:2 ou 1:1, porque é deles que tiras as medidas da ferramenta.
- Numa escala 1:10, 1 cm no papel são 10 cm reais; em 1:2, 1 cm no papel são 2 cm reais. Nunca meças o desenho com a régua para tirar medidas: usa as cotas escritas. Se falta uma cota, pergunta; não a adivinhes.
- Na carpintaria as cotas vêm em milímetros, mesmo quando o desenho não o diz.
- Cotas fora a fora (dimensões exteriores do aro) não são o mesmo que luz (espaço livre entre peças) nem que medida da folha. Saber de que medida se está a falar é metade do trabalho.
Sentido de abertura
No alçado, o sentido de abertura de uma folha de batente representa-se por duas linhas que formam um triângulo, com o vértice virado para o lado das dobradiças. A folha de correr representa-se com uma seta no sentido do movimento. A convenção exata (traço contínuo ou interrompido consoante a folha abra para o observador ou para o lado oposto) varia entre gabinetes: confirma sempre na legenda do desenho e, na dúvida, pergunta de que lado se vê o alçado (interior ou exterior).
Exemplo resolvido 1 · interpretar um corte de aro
Um corte horizontal indica: montante do aro com 68 mm × 42 mm, batente formado por um rebaixo de 15 mm × 20 mm, e a primeira dobradiça a 200 mm do topo da folha.
- A secção do montante (68 × 42 mm) diz que peça tens de preparar: 68 mm de largura e 42 mm de espessura, já aparelhada. A madeira em bruto tem de ser maior (ver capítulo 3).
- O rebaixo (15 × 20 mm) é o batente contra o qual a folha fecha. Ler bem qual das duas medidas é a profundidade e qual é a largura (o desenho mostra-o); trocá-las muda a posição da folha no aro.
- A cota da dobradiça (200 mm) localiza o alojamento, medida sempre a partir da mesma referência (o topo da folha) e nunca em cadeia a partir de outra marca já feita.
Interpretar mal uma cota propaga o erro a várias peças: lê-se o desenho todo antes de ligar qualquer máquina.
Exemplo resolvido 2 · da cota à lista de corte
O alçado de uma janela de uma folha dá o aro com 800 mm × 1200 mm fora a fora. O corte mostra montantes e travessa superior do aro com 60 mm de face e peitoril com 80 mm de face.
- Montantes do aro: 2 peças com 1200 mm (a altura total), mais sobra para acerto.
- Travessa superior e peitoril: o comprimento depende da samblagem. Se os montantes passam por fora e as travessas entram neles com respiga, a travessa mede de ombro a ombro 800 - 60 - 60 = 680 mm, mais o comprimento das duas respigas.
- Luz do aro (espaço livre entre montantes): 800 - 2 × 60 = 680 mm. Na altura: 1200 - 60 - 80 = 1060 mm.
Com estas medidas faz-se a lista de corte: uma tabela com cada peça, quantidade, comprimento, largura, espessura e espécie. A lista de corte é o documento que vai para a serra; o desenho fica na bancada para a marcação. O cálculo completo da folha desta janela está no capítulo 6.
3. A madeira: seleção, serragem, aparelhamento e desengrosso
A madeira mexe: anisotropia e retração
A madeira é anisotrópica: comporta-se de maneira diferente conforme a direção.
- Longitudinal (ao longo do fio): a retração é desprezável. Por isso o comprimento das couceiras, travessas e montantes segue sempre o sentido do fio.
- Radial (do centro do tronco para a casca): retrai pouco.
- Tangencial (tangente aos anéis): retrai cerca do dobro da radial.
Consequência prática: uma peça cortada com os anéis quase perpendiculares às faces largas (corte radial) é mais estável e empena menos do que uma com os anéis paralelos às faces (corte tangencial). Numa janela, onde as peças são estreitas e compridas e têm de ficar direitas durante anos, esta escolha conta. É também por isso que a indústria usa muito a madeira lamelada colada para caixilharia: várias lamelas coladas com os anéis alternados compensam-se umas às outras e a peça empena menos.
Teor de água
A madeira troca humidade com o ar até atingir o equilíbrio. Se for trabalhada mais húmida do que vai ficar em serviço, retrai depois de montada: as juntas abrem, as almofadas soltam-se, as folhas empenam.
- Para mobiliário e carpintaria de interior, o teor de água usual anda pelos 8 a 12 %.
- Para carpintaria de exterior é mais alto, próximo da humidade de equilíbrio do local; o valor exato vem do caderno de encargos.
O teor de água calcula-se em base seca:
teor de água (%) = (massa húmida - massa anidra) ÷ massa anidra × 100
A massa anidra obtém-se secando a amostra em estufa até a massa deixar de variar. Na oficina usa-se no dia a dia o higrómetro (medidor de humidade de agulhas ou de contacto), ajustado à espécie.
Exemplo resolvido 3 · teor de água. Uma amostra de pinho pesa 520 g ao sair da pilha e 460 g depois de seca em estufa.
- Água contida: 520 - 460 = 60 g.
- Divide pela massa anidra (não pela húmida): 60 ÷ 460 = 0,130.
- Multiplica por 100: 13,0 %.
Para uma porta interior (8 a 12 %), esta madeira ainda está húmida de mais: deixa-se estabilizar na oficina antes de aparelhar. Erro típico: dividir pela massa húmida (60 ÷ 520 = 11,5 %), que dá um valor mais baixo e engana.
Espécies correntes
| Espécie | Tipo | Uso típico em portas e janelas |
|---|---|---|
| Pinho bravo | resinosa | aros, portas interiores e janelas pintadas; tratado em autoclave para exterior |
| Casquinha (pinho silvestre) | resinosa | caixilharia tradicional portuguesa, pintada ou envernizada |
| Abeto, espruce | resinosa | portas interiores, lamelados para caixilharia |
| Carvalho | folhosa | portas e janelas de qualidade, à vista |
| Câmbala (iroko) | folhosa | portas de entrada e janelas exteriores, boa durabilidade |
| Sapeli, meranti | folhosas | caixilharia exterior envernizada ou velada |
As resinosas são mais leves, baratas e fáceis de trabalhar; as folhosas indicadas acima são mais densas e duráveis. A escolha depende do uso (interior ou exterior), da exposição à água e do acabamento (pintado esconde a madeira; envernizado mostra-a).
Selecionar a peça
- Fio direito e paralelo ao comprimento; fio inclinado torce e parte.
- Sem nós soltos, fendas, bolsas de resina, podridão ou ataque de insetos; nós sãos pequenos só em zonas sem samblagem nem ferragens.
- Sem medula nas peças da folha (a zona do centro do tronco fende e empena).
- Teor de água dentro do especificado.
- Peças para couceiras e travessas escolhidas das tábuas mais direitas; as menos boas vão para peças curtas, bites ou calços.
Serrar, aparelhar e desengrossar
A preparação segue sempre a mesma ordem, antes de qualquer marcação:
- Serrar (traçar e rachar): cortar a madeira em bruto nos comprimentos e larguras aproximados, com sobra. Uma regra prática de oficina é deixar alguns milímetros (tipicamente 3 a 5 mm) na espessura e na largura e umas dezenas de milímetros no comprimento, conforme o empeno da tábua.
- Desempenar na desempenadeira: acertar uma face de referência plana e depois um canto de referência a 90° com essa face (encostado à guia esquadriada). A desempenadeira endireita, mas não garante espessura nem paralelismo entre faces.
- Desengrossar na garlopa de desengrosso (desengrossadeira): com a face de referência para baixo, dar a espessura final, paralela à face de referência. Depois, com o canto de referência de lado ou na serra, dar a largura final, paralela ao canto de referência.
- Cortar ao comprimento na serra de esquadria ou na esquadrejadora, com topos a 90°, deixando as sobras que a samblagem pedir.
Ao conjunto destas operações chama-se aparelhar a madeira. A face e o canto de referência marcam-se logo com o sinal de marceneiro: todas as cotas seguintes medem-se a partir deles.
Exemplo resolvido 4 · sequência de uma couceira. Precisas de uma couceira acabada com 55 mm × 45 mm × 1080 mm.
- Serrar da tábua uma peça com cerca de 60 mm de largura, 50 mm de espessura e 1150 mm de comprimento.
- Desempenar uma face e o canto adjacente a 90°.
- Desengrossar para 45,0 mm; depois dar a largura de 55,0 mm.
- Deixar o comprimento maior do que 1080 mm: as sobras nos topos protegem a peça quando se abre a caixa junto da ponta, e cortam-se depois da colagem.
- Medir com paquímetro: se a espessura deu 44,5 mm em vez de 45,0 mm, a peça pode servir (depende da tolerância do desenho), mas todas as peças do conjunto têm de ter a mesma espessura, senão as faces não ficam à face.
4. Tipos de janelas e respetivos aros
O tipo de janela define-se pelo movimento da folha, e o movimento define o aro, a ferragem e a marcação. Vê primeiro o quadro geral e depois cada tipo.
| Tipo | Movimento da folha | Eixo | Uso típico |
|---|---|---|---|
| De batente | roda como uma porta | vertical, na couceira das dobradiças | o tipo mais comum; uma ou duas folhas |
| De correr | desliza na horizontal, em calhas do aro | não roda | vãos largos, onde a folha não pode ocupar espaço a abrir |
| De guilhotina | desliza na vertical, em guias do aro | não roda | arquitetura tradicional, reabilitação |
| Basculante | roda em torno de um eixo horizontal, geralmente inferior; o topo inclina para dentro | horizontal, na travessa inferior | ventilação, bandeiras, casas de banho |
| Pivotante | roda em torno de um eixo central, horizontal ou vertical | horizontal ou vertical, a meio da folha (ou perto) | folhas grandes, limpeza das duas faces por dentro |
| Oscilobatente | abre de batente ou bascula, comandada por um único puxador | vertical (batente) e horizontal inferior (báscula) | habitação atual; ventila com segurança |
4.1 Janela de batente
É a janela "de abrir" clássica. A folha está presa ao aro por dobradiças numa das couceiras e fecha contra o batente do aro. Em Portugal abre normalmente para o interior.
- Uma folha: couceira de suspensão (dobradiças) e couceira do fecho.
- Duas folhas: as couceiras centrais encontram-se sem montante fixo no meio. O encontro faz-se com rebaixos sobrepostos (meio-batente) e muitas vezes com uma régua de encontro que cobre a junta. Uma das folhas abre primeiro; a outra fica presa por ferrolhos ou pela própria cremona.
- Aro: montantes e travessa superior com rebaixo de batente; peitoril com inclinação e pingadeira para a água escorrer para fora; a travessa inferior da folha leva também uma pingadeira (a chamada "pingadeira da folha" ou peça de escoamento).
- Ferragem: dobradiças, fecho de cremona ou espanholeta, puxador.
4.2 Janela de correr com aro
As folhas deslizam lado a lado em planos diferentes, guiadas por calhas ou ranhuras no aro.
- Aro: travessa superior com ranhuras (ou calha) que guiam a parte de cima das folhas; peitoril com calhas de rolamento e escoamento da água que entra nas calhas.
- Folhas: cada folha corre no seu plano; as couceiras que se encontram ao centro sobrepõem-se para fechar a junta.
- Folgas: a folha tem de caber na altura entre a calha inferior e a ranhura superior com folga para entrar e sair na montagem (a folha levanta-se para a ranhura de cima e pousa em baixo), mas sem folga que a deixe saltar.
- Ferragem: roldanas ou patins na travessa inferior, fecho de correr (de gancho) nas couceiras de encontro, puxador embutido ou concha, escovas ou vedantes.
- Veda pior do que uma janela de batente ou oscilobatente, porque as folhas têm de deslizar.
4.3 Janela de guilhotina
As folhas (geralmente duas, uma superior e uma inferior) deslizam na vertical, em planos paralelos, dentro de guias do aro. É a janela de muita arquitetura tradicional portuguesa e surge com frequência em reabilitação.
- Aro: montantes com calhas ou ranhuras para cada folha, separadas por uma régua de separação; tradicionalmente, o aro é uma caixa que esconde os contrapesos.
- Equilíbrio: cada folha é equilibrada por contrapesos pendurados em cordas que passam por roldanas no alto do aro, ou por molas ou balanceadores nas soluções atuais. Sem equilíbrio, a folha cai.
- Encontro: as travessas de encontro das duas folhas sobrepõem-se ao centro e aí se aplica o fecho de guilhotina.
- Marcação: posição das calhas, das roldanas e da tampa de acesso aos contrapesos, previstas desde o início porque condicionam a secção do aro.
4.4 Janela basculante
A folha roda em torno de um eixo horizontal, geralmente o inferior: as dobradiças ficam na travessa inferior e a parte de cima inclina para dentro. A variante com eixo superior e abertura para fora chama-se habitualmente janela de projeção (ou projetante).
- Aro: batente nos quatro lados, como na de batente; peitoril com escoamento.
- Ferragem: dobradiças na travessa inferior; braços (compassos ou tesouras) laterais que limitam a abertura e seguram o peso da folha; fecho na travessa superior (muitas vezes comandado por alavanca ou vara, porque fica alto).
- Marcação: eixo das dobradiças na travessa inferior e posição dos braços limitadores nas couceiras e nos montantes do aro.
4.5 Janela pivotante
A folha roda em torno de um eixo central, horizontal ou vertical, definido por dois pivôs. Metade da folha vai para dentro e a outra metade para fora, o que permite limpar as duas faces a partir do interior.
- Pivotante horizontal: os pivôs ficam nas couceiras, a meia altura da folha (ou perto dela).
- Pivotante vertical: os pivôs ficam nas travessas, a meio da largura (ou afastados de uma couceira, conforme o desenho).
- Aro e batente invertido: como metade da folha abre para cada lado, o batente muda de lado na linha do eixo. Numa pivotante horizontal, por exemplo, a metade de cima encosta num batente de um lado e a metade de baixo no batente do lado oposto. O desenho tem de mostrar onde o rebaixo muda de face, tanto no aro como na folha.
- Ferragem: pivôs com travão (fixam a folha em posições intermédias), fecho.
4.6 Janela oscilobatente
Combina dois movimentos com um único puxador:
- puxador para baixo: fechada;
- puxador na horizontal: abre de batente, rodando no eixo vertical do lado das dobradiças;
- puxador para cima: bascula, rodando no eixo horizontal inferior; a parte de cima abre para dentro uns centímetros e fica segura pelo compasso.
(A posição exata do puxador para cada movimento pode variar com o fabricante; confirma na ficha técnica.)
- Ferragem perimetral: uma caixa de manobra (cremona) na couceira do fecho aciona varões que correm à volta da folha e comandam vários pontos de fecho, que engatam em recebedores fixos no aro; um compasso na travessa superior; uma dobradiça de canto inferior, que serve os dois movimentos; um apoio de canto superior ligado ao compasso.
- Bloqueio de falsa manobra: impede mudar de movimento com a folha aberta. Sem ele, a folha pode ficar solta num dos cantos e cair.
- Aro e folha: os perfis de madeira preparam-se com a ranhura e a folga que o fabricante da ferragem indica (a posição do eixo e da ranhura vem da ficha técnica, não se improvisa).
Não confundas basculante com oscilobatente. A basculante só bascula; a oscilobatente bascula e abre de batente, com a ferragem própria. Uma ferragem de basculante não serve numa oscilobatente.
Exemplo resolvido 5 · escolher o tipo certo
Uma casa de banho tem um vão estreito, alto em relação ao chão, e precisa de ventilação frequente sem ocupar espaço à frente do lavatório.
- Movimento: uma basculante (ou uma oscilobatente em posição de báscula) ventila com a folha pouco aberta e não invade o espaço interior como uma batente.
- Aro: batente nos quatro lados, peitoril com escoamento.
- Ferragem: dobradiças na travessa inferior, braços limitadores, fecho alto com comando.
- Vidro: translúcido (fosco ou impresso), por privacidade.
A escolha do tipo de janela nasce da função do espaço, não só da estética.
5. Tipos de portas e respetivos aros
As portas classificam-se de duas maneiras: pelo movimento e pela construção da folha. Uma porta pode ser, ao mesmo tempo, de batente e almofadada.
Pelo movimento
| Tipo | Como funciona | Uso típico |
|---|---|---|
| De batente (de abrir), uma folha | roda sobre dobradiças numa couceira | o caso geral, interior e exterior |
| De batente, duas folhas | uma folha ativa e uma passiva, presa por ferrolhos | vãos largos, portas de entrada, salas |
| De correr | desliza sobre calha ou carril, à face da parede ou embutida numa caixa dentro da parede | onde não há espaço para a folha rodar |
| Pivotante | roda num eixo vertical definido por pivôs no chão e no aro, sem dobradiças convencionais | folhas grandes e pesadas, entradas |
| De vaivém | abre para os dois lados e volta sozinha ao centro, com dobradiças ou pivôs de mola | cozinhas profissionais, zonas de serviço |
Pela construção da folha
| Tipo | Construção |
|---|---|
| Almofadada | quadro de couceiras e travessas com almofadas (painéis) encaixadas em ranhuras; a almofada fica solta na ranhura, sem cola, para poder dilatar e retrair |
| Envidraçada | quadro com rebaixo para vidro em vez de almofada, com ou sem pinázios |
| Lisa | duas faces de contraplacado ou MDF coladas sobre um quadro com enchimento (alveolar tipo favo, aglomerado tubular ou maciço) |
| De réguas | réguas macheadas, presas por travessas e, muitas vezes, uma diagonal (portas rústicas, arrecadações) |
Na almofadada, colar a almofada à ranhura é um erro clássico: a almofada deixa de poder mexer com a humidade e racha, ou abre fendas junto às couceiras.
O aro da porta
- Aro de porta interior: montantes e travessa superior, com a largura (profundidade) igual à espessura da parede acabada, ou com guarnições (alizares) que cobrem a junta entre o aro e a parede nas duas faces. O batente pode ser um rebaixo na própria peça ou uma régua de batente aplicada.
- Aro de porta exterior: mais robusto, com soleira inclinada e com escoamento, pingadeira na travessa inferior da folha e vedantes no batente.
- Portas de correr: em vez de batente, calha superior (ou inferior) e guias; na versão embutida, a caixa (estojo) dentro da parede.
Folgas: aro, folha e vão
Há três espaços que não se confundem:
- Folga de montagem entre o aro e o vão da parede: permite colocar o aro a prumo e nível e fixá-lo, mesmo que a parede não esteja perfeita.
- Folga de funcionamento entre a folha e o aro: permite abrir e fechar sem roçar, com espaço para a tinta ou o verniz e para a madeira mexer.
- Folga inferior entre a folha e o pavimento acabado (portas sem soleira): deixa passar o ar e evita que a folha roce no chão.
Os valores concretos destas folgas vêm do desenho da obra, que tem em conta o tipo de porta, o acabamento, o pavimento e as ferragens. Não se decidem a olho.
Exemplo resolvido 6 · medidas da folha de uma porta interior
Dados do desenho (valores do exemplo):
- aro com 900 mm × 2100 mm fora a fora, sem soleira (a altura é medida até ao pavimento acabado);
- montantes e travessa superior do aro com 40 mm de face vista;
- batente em rebaixo com 12 mm de profundidade;
- folga lateral e superior entre folha e aro: 2 mm; folga inferior ao pavimento: 8 mm.
Largura da folha
- Luz entre montantes: 900 - 2 × 40 = 820 mm.
- A folha entra nos rebaixos dos dois lados, por isso a medida entre fundos dos rebaixos é 820 + 2 × 12 = 844 mm.
- Tira a folga dos dois lados: 844 - 2 × 2 = 840 mm.
Altura da folha
- Luz do aro até ao pavimento: 2100 - 40 = 2060 mm.
- Soma o rebaixo de cima (a folha entra nele): 2060 + 12 = 2072 mm.
- Tira a folga superior e a inferior: 2072 - 2 - 8 = 2062 mm.
Folha: 840 mm × 2062 mm. Confirma sempre com a medição do aro já feito: se o aro saiu com 1 mm a menos, a folha acompanha.
Exemplo resolvido 7 · peças de uma folha almofadada
A folha de 840 × 2062 mm leva couceiras de 110 mm, travessa superior de 110 mm, travessa intermédia (à altura da fechadura) de 180 mm e travessa inferior de 200 mm. As travessas entram nas couceiras com respigas passantes.
- Couceiras: 2 peças com 2062 mm, mais sobras nos topos para cortar depois da colagem.
- Travessas: com respiga passante, a travessa ocupa a largura toda da folha: 840 mm (o ombro a ombro é 840 - 2 × 110 = 620 mm e cada respiga tem o comprimento da largura da couceira, 110 mm; 620 + 110 + 110 = 840 mm). Deixa-se 1 a 2 mm de sobra em cada respiga para afagar à face depois de encunhada.
- Travessa inferior (200 mm): uma respiga única tão larga obrigava a abrir na couceira uma caixa enorme, que a enfraquecia e deixava a respiga retrair muito. Faz-se respiga dupla (duas respigas lado a lado na largura da travessa, com um intervalo entre elas).
- Almofadas: medida da luz entre couceiras e travessas mais a profundidade das ranhuras, menos uma folga para a almofada mexer. Se a luz na largura for 620 mm e as ranhuras tiverem 12 mm de profundidade, a almofada terá no máximo 620 + 24 = 644 mm; tira-se uma folga (por exemplo 2 mm de cada lado) e fica 640 mm.
6. Medidas de corte: do aro à folha, às travessas e ao vidro
Esta é a conta que mais erros dá na oficina, por isso faz-se por escrito, peça a peça, e confirma-se no fim.
Exemplo resolvido 8 · janela de batente de uma folha
Retomamos o aro do exemplo 2: 800 mm × 1200 mm fora a fora, montantes e travessa superior com 60 mm de face, peitoril com 80 mm de face. Os outros dados do desenho (valores do exemplo):
- batente do aro em rebaixo com 12 mm de profundidade, nos quatro lados;
- folga de funcionamento entre folha e aro: 2 mm em todo o perímetro;
- folha com 45 mm de espessura; couceiras e travessa superior com 55 mm de largura; travessa inferior com 75 mm;
- rebaixo do vidro na folha com 12 mm de profundidade;
- respigas passantes nas travessas, com 2 mm de sobra em cada ponta para afagar;
- folga do vidro no rebaixo: 3 mm a toda a volta.
Passo 1 · medidas da folha
| Largura | Altura | |
|---|---|---|
| Medida fora a fora do aro | 800 | 1200 |
| menos as peças do aro | - 60 - 60 | - 60 - 80 |
| = luz do aro | 680 | 1060 |
| mais os dois rebaixos de batente | + 12 + 12 | + 12 + 12 |
| = medida entre fundos dos rebaixos | 704 | 1084 |
| menos a folga dos dois lados | - 2 - 2 | - 2 - 2 |
| = medida da folha | 700 | 1080 |
Passo 2 · couceiras. Têm a altura da folha: 1080 mm, mais sobras nos topos (por exemplo 20 mm em cada ponta, comprimento de corte 1120 mm), cortadas depois da colagem.
Passo 3 · travessas. Com respiga passante:
- Ombro a ombro (do lado sem rebaixo): 700 - 55 - 55 = 590 mm.
- Cada respiga atravessa a couceira: 55 mm, mais 2 mm de sobra = 57 mm.
- Comprimento de corte: 590 + 57 + 57 = 704 mm.
Verificação: sem as sobras, 590 + 55 + 55 = 700 mm, a largura da folha. Com respiga passante, a travessa tem sempre o comprimento da largura da folha mais as sobras.
Passo 4 · ombros desencontrados. A folha tem rebaixo de vidro com 12 mm de profundidade. Do lado do rebaixo, a couceira tem menos 12 mm de madeira à vista (55 - 12 = 43 mm), por isso a travessa tem de avançar mais 12 mm de cada lado para tapar o rebaixo da couceira:
- ombro a ombro do lado do rebaixo: 700 - 43 - 43 = 614 mm (ou seja, 590 + 12 + 12).
Os dois ombros da mesma travessa ficam desencontrados 12 mm em cada ponta. Se os marcares iguais, a junta fica com um buraco do lado do vidro.
Passo 5 · espessura da respiga. Regra prática do terço: cerca de 1/3 da espessura da peça, 45 ÷ 3 = 15 mm. Na prática escolhe-se a medida da ferramenta de abrir caixas mais próxima e ajusta-se a respiga a essa caixa. A respiga fica centrada na espessura, ou alinhada com o perfil quando o desenho assim o indica.
Passo 6 · vidro.
- Luz do vidro (visível): largura 700 - 55 - 55 = 590 mm; altura 1080 - 55 - 75 = 950 mm.
- Mais os rebaixos: largura 590 + 24 = 614 mm; altura 950 + 24 = 974 mm.
- Menos a folga de 3 mm a toda a volta: largura 614 - 6 = 608 mm; altura 974 - 6 = 968 mm.
O vidro encomenda-se com 608 × 968 mm, mas só depois de medir o rebaixo na folha já colada (capítulo 14).
Passo 7 · diagonal de verificação. Para verificar a esquadria da folha na colagem: √(700² + 1080²) = √(490 000 + 1 166 400) = √1 656 400 ≈ 1287 mm. As duas diagonais da folha têm de medir o mesmo, cerca de 1287 mm.
Passo 8 · peso do vidro. O vidro pesa cerca de 2,5 kg por m² e por milímetro de espessura (massa volúmica de cerca de 2500 kg/m³). Área: 0,608 × 0,968 = 0,589 m².
- Vidro simples de 4 mm: 0,589 × 2,5 × 4 ≈ 5,9 kg.
- Vidro duplo 4 + 16 + 4 (dois vidros de 4 mm): 0,589 × 2,5 × 8 ≈ 11,8 kg.
O peso do vidro conta para escolher as dobradiças e para o calçamento: o vidro duplo quase duplica a carga que a folha pendura nas dobradiças.
Lista de corte resumida da folha
| Peça | Qt. | Comprimento de corte | Largura | Espessura |
|---|---|---|---|---|
| Couceira | 2 | 1120 (acaba em 1080) | 55 | 45 |
| Travessa superior | 1 | 704 | 55 | 45 |
| Travessa inferior | 1 | 704 | 75 | 45 |
| Bites (baguetes) | conforme o perímetro | cortados à medida no fim | conforme perfil | conforme perfil |
7. Marcação e traçagem dos componentes
Marcar é passar as cotas do desenho para a madeira; traçar é riscar as linhas que as máquinas e as ferramentas vão seguir. Um erro aqui só aparece na furação ou na montagem, quando já não tem emenda sem perder a peça.
Ferramentas de marcação
| Ferramenta | Para quê |
|---|---|
| Fita métrica e régua graduada | medidas; a régua metálica é mais rigorosa do que a fita |
| Esquadro de carpinteiro | linhas a 90° a partir da face ou do canto de referência |
| Suta (esquadro de ângulo variável) | linhas a qualquer ângulo, por exemplo a 45° |
| Graminho | linhas paralelas a um canto (largura de rebaixos, posição das caixas) |
| Graminho de caixas (duas pontas) | as duas linhas da caixa e da respiga de uma só vez, com a mesma afinação |
| Lápis de carpinteiro e navalha de marcar | o lápis para marcas gerais; a navalha para linhas de corte finas e exatas |
| Paquímetro | espessuras e profundidades |
Regras de ouro
- Tudo a partir da face e do canto de referência. Se cada peça for marcada a partir de um lado diferente, as diferenças de espessura acumulam-se e as faces não ficam à face.
- Marcar as peças iguais em conjunto. As duas couceiras marcam-se lado a lado, apertadas, com as linhas passadas de uma para a outra com o esquadro: saem iguais.
- Numerar e orientar. Cada peça leva o número do conjunto e o sinal de marceneiro (um triângulo riscado sobre as peças juntas), que diz onde fica cada uma e para que lado.
- Marcar o que se tira. Riscar com uma cruz as zonas de desperdício (o material a remover), para não cortar do lado errado da linha.
- Uma cota, uma referência. Medir sempre a partir do mesmo ponto (por exemplo, o topo da folha) e não em cadeia a partir de uma marca anterior.
Couceiras, travessas e pinázios de janelas
- Marcar nas couceiras a altura da folha e, a partir dela, a posição das travessas (a largura de cada travessa define a caixa).
- Traçar com o graminho de caixas a largura da caixa nas couceiras e a espessura da respiga nas travessas, com a mesma afinação.
- Nas travessas, marcar os ombros (os do lado do rebaixo desencontrados, capítulo 6).
- Marcar a posição dos pinázios: a partir da luz do vidro, dividida em partes iguais (ou como o desenho indicar). Os pinázios entram nas couceiras e nas travessas com respiga curta; onde um pinázio horizontal cruza um vertical, faz-se meia-madeira (cada um perde metade da espessura na zona do cruzamento) ou, nas soluções com perfil, respiga com contraperfil.
- Marcar os alojamentos das ferragens (dobradiças, fechos) já nesta fase, em conjunto com o aro.
Exemplo resolvido 9 · marcar dois pinázios verticais. A luz do vidro de uma folha tem 590 mm de largura e leva 2 pinázios verticais de 25 mm, a dividir o vidro em 3 partes iguais.
- Largura ocupada pelos pinázios: 2 × 25 = 50 mm.
- Vidro que sobra: 590 - 50 = 540 mm; cada parte: 540 ÷ 3 = 180 mm.
- Posição (a partir da face interior da couceira esquerda): 1.º pinázio de 180 a 205 mm; 2.º pinázio de 385 a 410 mm (180 + 25 + 180 = 385).
- Confirmação: 410 + 180 = 590 mm. Bate.
Componentes de janela de correr com aro
- Nas peças do aro: posição e largura das calhas ou ranhuras de cada folha, a régua de separação e o escoamento do peitoril.
- Nas folhas: altura calculada a partir da distância entre o fundo da ranhura superior e a calha inferior, com folga para montar (a folha entra por cima e pousa em baixo).
- Posição da sobreposição das couceiras de encontro e do fecho de correr.
Janelas de guilhotina e basculantes com aro
- Guilhotina: nos montantes do aro, as calhas das duas folhas, a régua de separação, a posição das roldanas no alto e a tampa de acesso aos contrapesos (ou dos balanceadores); nas folhas, as travessas de encontro que se sobrepõem ao centro.
- Basculante: na travessa inferior da folha e no peitoril, o eixo e as dobradiças; nas couceiras e nos montantes do aro, a posição dos braços limitadores; na travessa superior, o fecho.
Janelas pivotantes com aro e oscilobatentes
- Pivotante: a linha do eixo (nas couceiras, se o eixo for horizontal; nas travessas, se for vertical), a posição dos pivôs no aro e na folha, e o ponto onde o batente muda de face. Marca-se a linha do eixo nas duas peças (aro e folha) em conjunto, com a folha no aro, para os pivôs coincidirem.
- Oscilobatente: a posição da caixa de manobra (altura do puxador), da dobradiça de canto inferior, do compasso na travessa superior e dos recebedores no aro. Estas posições vêm do gabarito ou da ficha técnica da ferragem, e dependem da largura e da altura da folha.
Marcação das portas
- Couceiras marcadas em conjunto: travessa superior, intermédia e inferior. A caixa da travessa intermédia e o alojamento da fechadura não podem coincidir na mesma zona da couceira do fecho, senão a couceira fica sem madeira; a travessa intermédia desenha-se acima ou abaixo da fechadura.
- Posição das dobradiças marcada na folha e no aro ao mesmo tempo, com a folha calçada no aro com as folgas finais.
8. Samblagens e componentes de janelas e portas
Samblagem é o nome genérico das ligações entre peças de madeira. Em portas e janelas, a ligação de referência é a fura e respiga: a respiga (ou espiga), um saliente talhado no topo de uma peça, entra na caixa (ou furo), um rasgo aberto na outra. Nas folhas, a respiga está normalmente nas travessas e a caixa nas couceiras.
Os nomes variam de oficina para oficina e até os dicionários divergem (o termo "mecha", por exemplo, aparece umas vezes para o saliente e outras para o rasgo). Para não haver dúvidas, nesta sebenta diz-se sempre respiga para o saliente e caixa para o rasgo.
Partes da respiga
- Face da respiga: as duas faces largas que colam contra as paredes da caixa.
- Ombros: os degraus onde a respiga começa; encostam à face da couceira e são eles que definem o comprimento útil da travessa e a esquadria da junta.
- Espessura: cerca de 1/3 da espessura da peça (regra do terço).
- Largura: não deve ser exagerada; travessas largas levam respiga dupla.
Tipos de samblagem usados
| Samblagem | Como é | Onde se usa |
|---|---|---|
| Fura e respiga passante | a respiga atravessa a couceira e vê-se na face exterior; encunha-se com palmetas | cantos de folhas e aros de janelas e portas; a mais resistente |
| Fura e respiga cega (não passante) | a caixa não atravessa a peça; a respiga não se vê | onde a face de fora fica à vista e não se quer ver a ponta da respiga; fixa-se com cola, por vezes com cavilha |
| Respiga dupla | duas respigas lado a lado na largura da travessa | travessas inferiores e intermédias largas de portas |
| Respiga com ombros desencontrados | ombros a distâncias diferentes em cada face | peças com rebaixo (vidro, batente) |
| Respiga com contraperfil | o ombro reproduz, em negativo, o perfil moldado da couceira | caixilharia com perfil decorativo ou pingadeira; fecha sem folga sobre o perfil |
| Meia-madeira | cada peça perde metade da espessura na zona da ligação | cruzamento de pinázios; cantos de aros simples |
| Cavilhas (buchas de madeira) | pinos cilíndricos colados em furos das duas peças | ligações industriais, reforço de juntas |
| Malhete (cauda de andorinha ou dentes retos) | dentes de uma peça entram nos entalhes da outra | pouco usado em caixilharia; aparece em algumas gavetas e caixas, não nas folhas |
| Meia-esquadria | corte a 45° em cada peça para formar um canto a 90° | guarnições (alizares), baguetes, molduras aplicadas |
Samblagens do aro
Nos aros, a ligação dos cantos é tipicamente de fura e respiga (passante ou cega) ou meia-madeira, conforme o desenho. Em muitos aros tradicionais a travessa superior prolonga-se para lá dos montantes, e essas pontas ajudam a prender o aro à parede. O peitoril, com a sua inclinação, liga-se aos montantes de forma a que a água não entre na junta: esta junta é das mais expostas e das que mais apodrecem se for mal feita.
Função de cada componente
- Couceiras: suportam o peso da folha e as ferragens (dobradiças de um lado, fecho do outro); são as peças mais solicitadas.
- Travessas: fecham o quadro em cima e em baixo e mantêm a esquadria; a inferior é mais larga porque aguenta mais esforço e porque recebe a pingadeira e a água.
- Pinázios: repartem o vidro sem enfraquecer o conjunto; como são finos, a respiga é curta e o encaixe tem de ser preciso.
- Aro: transmite à parede o peso e os esforços da folha; tem de ficar a prumo, a nível e sem torção, senão nenhuma folha fecha bem.
9. Máquinas-ferramentas e ferramentas manuais
A UC pede para operar máquinas e ferramentas. Cada máquina tem uma função, uma afinação e riscos próprios.
| Máquina | Operação nesta UC | Cuidados principais |
|---|---|---|
| Serra circular de bancada / esquadrejadora | serrar ao comprimento e à largura, cortes a 45° | cutelo divisor atrás da serra, alinhado com ela; resguardo superior; empurrador para peças estreitas |
| Serra de fita | cortes curvos, desbaste de peças grossas | resguardo ajustado à altura da peça |
| Desempenadeira | face e canto de referência | resguardo de ponte ajustado; empurradores; nunca passar peças muito curtas |
| Garlopa de desengrosso | espessura e largura final paralelas | nunca meter a mão na boca de entrada; respeitar o comprimento mínimo da peça |
| Furadora de corrente | caixas (retangulares) | peça bem apertada; corrente afiada e tensa |
| Furadora de formão oco | caixas de fundo quadrado, uma a uma | peça apertada; afinação da broca dentro do formão |
| Furadora horizontal (de broca oscilante) | caixas de pontas arredondadas, furos para cavilhas | peça apertada no carro |
| Respigadeira | respigas, ombros e contraperfis em série | carro com a peça apertada; ferramentas equilibradas |
| Tupia | rebaixos, perfis, ranhuras, contraperfis; respigas com carro de respigar | ferramenta certa para a rotação; resguardos e pentes de pressão; nunca trabalhar sem guia ou apoio |
| Lixadoras (de banda, orbital, excêntrica) | lixagem | aspiração ligada; peça segura |
| Berbequim, aparafusadora, fresadora manual | furos das ferragens, alojamentos de dobradiças e fechaduras (com gabarito) | brocas certas; peça apertada |
Ferramentas manuais: serrote, formões, maço, plainas (de mão, de rebaixo), graminhos, esquadros, grampos e sargentos, torno de bancada.
Operar com segurança
- Serra circular: o cutelo divisor mantém o corte aberto e evita que a madeira aperte a serra e seja projetada para trás (retrocesso). A altura da serra acerta-se para passar pouco acima da peça. Peças estreitas empurram-se com empurrador, nunca com as mãos junto da serra. Não se fica alinhado com a serra, atrás da peça.
- Desempenadeira: o resguardo cobre a parte da ferramenta que não está a trabalhar; as mãos passam por cima, nunca pela frente da ferramenta.
- Tupia: é a máquina mais perigosa da oficina. Ferramenta certa e bem apertada, rotação adequada ao diâmetro, sentido de avanço contra a rotação da ferramenta, peças pequenas presas em gabarito.
- Em todas: sem luvas soltas, sem adornos, sem roupa larga, cabelo apanhado; a máquina para por completo antes de se mexer na ferramenta; afinações com a máquina desligada e isolada.
10. Furação, respigagem e moldagem
Estas três operações produzem, na prática, as samblagens, os rebaixos e os perfis definidos no desenho.
Furação
Abre as caixas das respigas, os furos das cavilhas e os alojamentos das ferragens.
- Caixas: na furadora de corrente (rápida, para caixas grandes), na furadora de formão oco (caixas retangulares de fundo quadrado) ou na furadora horizontal de broca oscilante (caixas de pontas arredondadas; a respiga arredonda-se ou a caixa esquadra-se com formão).
- Nas caixas passantes, fura-se metade de cada face para as saídas ficarem limpas (a ferramenta rasga a madeira ao sair). Do lado de fora, as paredes da caixa alargam-se ligeiramente em cunha, com o formão, para receber as palmetas (capítulo 12).
- Nas caixas cegas, a profundidade é ligeiramente maior do que o comprimento da respiga, para a cola e o ar terem para onde ir.
- As caixas abrem-se com a peça ainda com as sobras nos topos: a madeira que fica além da caixa não abre nem racha durante a furação e o encunhamento.
Respigagem
Corta as respigas nos topos das travessas e dos pinázios.
- Na respigadeira (em série, com a peça no carro, corta as duas faces e os ombros; algumas fazem o contraperfil).
- Na tupia com carro de respigar e ferramenta de respigar.
- Na serra circular ou à mão (serrote e formão), para peças únicas.
A espessura da respiga ajusta-se à caixa já aberta: deve entrar com a mão, justa, sem ser preciso bater com força (que racha a couceira) nem cair sozinha (que deixa a junta fraca e cheia de cola).
Moldagem
Dá forma aos rebaixos (de batente e de vidro), às ranhuras (almofadas, vedantes, ferragem), às pingadeiras e aos perfis decorativos. Faz-se na tupia (ou na moldureira, em série), com a fresa própria para cada perfil. Nas janelas em série usam-se jogos de ferramentas que moldam o perfil e o contraperfil correspondente, para as juntas fecharem perfeitas.
A ordem das operações
Não há uma única ordem certa; depende das máquinas da oficina e do tipo de junta. Há, porém, regras que valem sempre:
- As peças estão aparelhadas e cortadas ao comprimento (com sobras) antes de tudo.
- As caixas abrem-se e as respigas cortam-se antes de se moldar o perfil na aresta, ou então com uma ferramenta de contraperfil que reproduz o perfil no ombro. O que não pode acontecer é cortar a respiga com ombros direitos numa peça que vai levar perfil: a junta fica com um vazio.
- Nas peças com rebaixo, os ombros marcam-se desencontrados à profundidade do rebaixo (capítulo 6).
- Quando se molda depois de respigar, protege-se a saída nos topos (tábua de apoio atrás da peça), para a ferramenta não arrancar lascas.
Exemplo resolvido 10 · sequência numa travessa de janela. Travessa com respiga passante nas duas pontas e rebaixo de vidro de 12 mm numa das arestas, sem perfil decorativo. Uma sequência possível:
- Cortar ao comprimento (704 mm, capítulo 6) com os topos a 90°.
- Marcar os ombros: 590 mm de um lado, 614 mm do lado do rebaixo.
- Respigar as duas pontas com a espessura ajustada à caixa das couceiras.
- Moldar o rebaixo ao longo da travessa, com tábua de apoio à saída.
- Armar a seco e verificar que o rebaixo da travessa fica alinhado com o das couceiras.
Se o desenho tiver perfil decorativo, a respiga faz-se com contraperfil ou o perfil corta-se à mão no ombro (em meia-esquadria de 45° no encontro dos perfis), conforme o método da oficina.
11. Armação dos elementos construtivos
Armar é montar a seco (sem cola) todas as peças de um aro ou de uma folha, para confirmar que tudo encaixa antes da colagem.
- Encaixar as respigas nas caixas, pela ordem do conjunto: numa folha, uma couceira deitada, todas as travessas e pinázios encaixados nela, depois a outra couceira por cima.
- Confirmar que todas as juntas fecham sem forçar e que os ombros encostam a toda a largura, sem luz.
- Apertar ligeiramente com sargentos (com calços de proteção) e verificar a esquadria pelas diagonais e a planeza (sem empeno).
- Verificar se as faces ficam à face e se os rebaixos estão alinhados.
- Numa folha com almofadas, confirmar que as almofadas entram nas ranhuras com folga.
- Desmontar, corrigir o que houver a corrigir, e só depois colar.
Armar a seco é o momento de apanhar um erro de corte sem desperdiçar cola nem tempo de secagem. Nunca se cola um conjunto que não foi antes armado e verificado a seco.
12. Colagem com palmetas: ajustamento e desempeno
A colagem fixa as samblagens de forma permanente. Nas folhas e aros com respigas passantes, a técnica tradicional é colar e encunhar com palmetas.
O que são palmetas
As palmetas são pequenas cunhas de madeira, finas e compridas, que se metem com cola ao lado da respiga passante, na face de saída da caixa. Ao serem batidas, apertam a respiga contra as paredes da caixa e travam a junta como uma cunha: mesmo que a cola envelheça, a respiga não sai.
- Fazem-se de madeira seca, de fio direito, da mesma espécie ou de uma mais dura, com o fio no sentido da respiga (senão partem ao bater).
- A inclinação é suave (uma cunha comprida aperta mais e parte menos).
- Metem-se de um lado e do outro da respiga, na parte alargada da caixa (capítulo 10), ou num corte de serra aberto na própria respiga, conforme o método da oficina.
Palmeta não é o calço de proteção do sargento. Os pedaços de madeira que se põem entre o sargento e a peça para não a marcar chamam-se calços (ou tacos). São úteis e obrigatórios, mas não são as palmetas.
A cola
- Interior: cola vinílica (PVA) corrente.
- Exterior: cola resistente à água. A norma EN 204 classifica as colas vinílicas para madeira de D1 a D4, sendo a D4 a mais resistente à água; para caixilharia exterior pede-se uma cola de classe alta ou outra cola indicada para exterior (poliuretano, por exemplo). A classe exata vem do caderno de encargos e da ficha técnica da cola.
- Respeitar o tempo aberto (tempo de trabalho antes de a cola começar a prender) e o tempo de prensagem da ficha técnica. Num conjunto com muitas juntas, prepara-se tudo antes de pôr cola na primeira.
Técnica passo a passo
- Preparar: bancada plana e limpa, sargentos já abertos à medida, calços de proteção, palmetas feitas (duas por respiga), maço, esquadro, fita métrica, pano húmido.
- Aplicar a cola nas faces da respiga e nas paredes da caixa, em camada fina e contínua. Os ombros levam pouca ou nenhuma (a cola a mais escorre e mancha).
- Montar o conjunto pela ordem ensaiada na armação a seco.
- Apertar com sargentos (com calços), um por junta, alinhados com as travessas, progressivamente e alternando os lados, até os ombros fecharem.
- Verificar a esquadria pelas diagonais (capítulo 13).
- Encunhar: pôr cola nas palmetas e batê-las com o maço, as duas de cada respiga de forma equilibrada, até ficarem firmes. É aqui que se faz o ajustamento.
- Verificar o desempeno (a planeza do conjunto) e corrigir.
- Limpar a cola que escorreu, com o pano húmido ou, depois de ficar elástica, com o formão.
- Deixar secar no plano, sem mexer, o tempo indicado.
- Depois de seca, cortar as sobras dos topos, as pontas das respigas e das palmetas, e afagar à face.
Ajustamento
Com as palmetas consegue-se acertar a esquadria do conjunto. Bater mais a palmeta de um lado da respiga empurra a respiga para o lado oposto dentro da caixa alargada e roda ligeiramente a travessa em relação à couceira. Assim, com as diagonais a serem medidas, ajusta-se até ficarem iguais. Depois, a outra palmeta trava a posição.
O ajustamento inclui também as pequenas correções feitas antes da colagem (com formão, plaina ou lixa) nas respigas e nos ombros que na armação a seco não fecharam bem.
Desempeno
Desempeno é garantir que o conjunto colado fica plano, sem torção (empeno). Uma folha empenada não encosta ao batente nos quatro cantos: fica a abanar ou deixa entrar ar e água.
- Colar sempre sobre bancada ou cavaletes planos e nivelados.
- Os sargentos alinhados com o plano das peças; um sargento acima ou abaixo do plano torce o conjunto.
- Verificar com réguas de empeno: duas réguas direitas pousadas atravessadas nas pontas da folha; olhando rasante por cima de uma para a outra, devem ficar paralelas. Se não ficarem, o conjunto está torcido.
- Corrigir enquanto a cola está fresca: ajustar os sargentos, calçar o canto alto, carregar com peso o canto que levanta.
Exemplo resolvido 11 · colar a folha de 700 × 1080 mm
- Diagonal teórica: 1287 mm (capítulo 6).
- Depois do aperto, as diagonais medem 1290 mm e 1284 mm. Diferença: 6 mm. A folha está "em losango": a diagonal de 1290 mm é a mais comprida.
- Correção: aliviar os sargentos, inclinar um deles ligeiramente no sentido da diagonal comprida e voltar a apertar, ou bater as palmetas do lado que faz rodar as travessas no sentido de encurtar essa diagonal.
- Medir de novo: 1287 e 1287 mm. Diferença nula, dentro da tolerância.
- Verificar o desempeno com as réguas de empeno; se um canto levantar, carregá-lo até assentar.
- Deixar secar sem mexer no conjunto.
Nota: nesta folha, uma diferença de 6 mm entre diagonais corresponde a um dos lados desviado cerca de 5 a 6 mm em relação à posição em esquadria (o desvio calcula-se com o teorema de Pitágoras, tal como a diagonal). Uma folha assim roça ou não encosta ao batente; por isso a diferença admitida vem na tolerância do desenho e é pequena.
13. Verificação de esquadrias e empenos, afagamento e lixagem
Verificar esquadrias
- Pelas diagonais: num quadro retangular, as duas diagonais são iguais se e só se todos os cantos estiverem a 90°. É a verificação mais fiável num conjunto grande, porque apanha o conjunto todo e não só um canto. Mede-se sempre entre os mesmos pontos (cantos exteriores, ou cantos interiores da luz), com fita métrica ou régua de diagonais (uma vara com ponta, onde se marca a lápis a primeira diagonal e se compara com a segunda).
- Com esquadro: confirma cada canto; serve para peças soltas e cantos pequenos, mas num quadro grande um esquadro pequeno engana.
- Pelo teorema de Pitágoras (regra 3-4-5): num canto, marca-se 300 mm num lado e 400 mm no outro; se a distância entre as marcas for 500 mm, o canto está a 90° (porque 300² + 400² = 90 000 + 160 000 = 250 000 = 500²). Usa-se muito para esquadrar aros grandes na montagem em obra.
Verificar empenos
| Tipo de empeno | Como se vê | Como se verifica |
|---|---|---|
| Torção | os quatro cantos não estão no mesmo plano | réguas de empeno; pousar o conjunto numa bancada plana e ver se abana |
| Arqueamento (curvatura ao longo da face) | a peça faz "barriga" no comprimento | régua comprida sobre a face; luz por baixo |
| Encurvamento de canto | o canto da peça não é direito | régua ou fio esticado ao longo do canto |
| Abaulamento (em largura) | a face larga fica côncava ou convexa | régua atravessada |
Ações de correção
| Desvio observado | Quando | Ação |
|---|---|---|
| Diagonais diferentes | com a cola fresca | reajustar sargentos e palmetas até as diagonais ficarem iguais |
| Conjunto torcido | com a cola fresca | corrigir o plano (sargentos no plano, calços, peso) |
| Peça torcida antes de colar | antes da montagem | substituir a peça ou, se o empeno for ligeiro, voltar a aparelhar; não se cola uma peça torcida à espera que o conjunto a endireite |
| Junta com folga | na armação a seco | ajustar ou refazer a peça; a cola não enche folgas |
| Defeito descoberto depois de seca a cola | tarde | normalmente não há correção sem desmontar ou refazer; é por isso que se verifica antes |
Afagar
Depois de seca a cola, afagar é deixar as juntas e as faces lisas, planas e à face: tirar as pontas das respigas e das palmetas, os pequenos desníveis entre couceiras e travessas e as marcas das máquinas. Faz-se com plaina de mão (bem afiada, aplainando no sentido do fio sempre que possível) ou, na indústria, com afagadora ou lixadora de banda larga.
Num canto de fura e respiga, o fio da couceira e o da travessa cruzam-se a 90°. Aplaina-se de fora para dentro, para não arrancar o fio da peça atravessada.
Lixar
Lixar prepara a superfície para o acabamento:
- Começar com um grão médio (por exemplo 100 ou 120) só se for preciso tirar marcas; se a superfície estiver bem afagada, começa-se já num grão mais fino.
- Passar por grãos progressivamente mais finos (por exemplo 120, depois 150 ou 180), sem saltar grãos: cada grão tira os riscos do anterior.
- Lixar no sentido do fio. Nos cantos das juntas, lixar primeiro a travessa e depois a couceira, com uma régua a proteger a outra peça, para não deixar riscos atravessados.
- Partir ligeiramente as arestas vivas (um pequeno arredondamento): a tinta e o verniz agarram mal a uma aresta viva e é aí que começam a estalar, sobretudo no exterior.
- Tirar o pó (aspiração e pano) antes do acabamento.
Os grãos concretos dependem da espécie e do acabamento previsto (tinta, verniz, velatura); a ficha técnica do produto de acabamento indica o grão final recomendado.
14. Ferragens para janelas e portas
As ferragens dão movimento, fecho e segurança ao conjunto. Escolhem-se pelo tipo de folha, pelo peso e pelas dimensões da folha, e aplicam-se seguindo a ficha técnica do fabricante.
Tipos de ferragem para janelas
| Ferragem | Função | Onde se usa |
|---|---|---|
| Dobradiças (de pernos, de embutir, de canto) | articulam a folha no aro | batente, basculante, oscilobatente |
| Cremona (ou espanholeta) | fecha a folha em cima e em baixo com varões comandados pelo puxador | batente de uma ou duas folhas |
| Ferrolhos | prendem a folha passiva de uma janela de duas folhas | batente de duas folhas |
| Ferragem oscilobatente | caixa de manobra, varões, pontos de fecho, compasso, dobradiça de canto, bloqueio de falsa manobra | oscilobatente |
| Braços limitadores (compassos) | seguram e limitam a abertura | basculante, projetante, oscilobatente |
| Pivôs (com travão) | eixo de rotação | pivotante |
| Roldanas, patins, calhas | deslizamento | correr |
| Cordas, roldanas e contrapesos ou balanceadores | equilibram a folha | guilhotina |
| Fecho de correr (de gancho) | fecha as folhas de correr | correr |
| Fecho de guilhotina | prende as travessas de encontro | guilhotina |
| Puxadores e conchas | manobra | todas |
| Vedantes (borracha, escova) | estanquidade | em ranhura na folha ou no aro |
Tipos de ferragem para portas
| Ferragem | Função | Notas |
|---|---|---|
| Dobradiças (de pernos, de livro, de embutir, ocultas, de mola) | suportam e articulam a folha | o número e o tamanho dependem do peso e da altura da folha |
| Fechadura de embutir | trinco (lingueta que fecha com a mola) e lingueta de trancar | embutida na couceira do fecho; a testa fica à face do canto |
| Chapa-testa (contratesta) | recebe o trinco e a lingueta no aro | alojada no montante do aro |
| Cilindro (canhão) | trancar com chave | nas fechaduras que o preveem; segurança nas portas exteriores |
| Puxadores / maçanetas e espelhos (ou rosetas) | manobra | altura cómoda, alinhada com a fechadura |
| Ferrolhos | prendem a folha passiva | portas de duas folhas |
| Fecha-portas (mola aérea ou de pavimento) | fecho automático e controlado | portas de serviço, zonas comuns |
| Batente de chão ou de parede | trava a abertura e protege a parede | quase todas |
| Calhas, roldanas e guias | deslizamento | portas de correr |
| Pivôs | eixo de rotação | portas pivotantes |
| Vedantes e soleira | estanquidade ao ar e à água | portas exteriores |
Dobradiças: quantas? Uma folha leve de interior leva normalmente três dobradiças; duas podem bastar em folhas muito leves e baixas, e folhas pesadas ou altas levam mais ou dobradiças reforçadas. A ficha técnica da dobradiça indica a carga que aguenta. A dobradiça de cima é a mais solicitada (a folha tende a descair e a puxá-la para fora), por isso a terceira dobradiça coloca-se muitas vezes mais perto da de cima do que da de baixo. As posições exatas vêm do desenho.
Técnicas de aplicação de ferragens
- Ler a ficha técnica da ferragem: medidas do alojamento, posição, parafusos, sentido (esquerda ou direita).
- Marcar a posição exata a partir do desenho (ou com o gabarito do fabricante), marcando a folha e o aro em conjunto, com a folha calçada no aro com as folgas finais. Assim as dobradiças e os fechos coincidem.
- Abrir o alojamento:
- dobradiças de embutir: traçar o contorno com a navalha, cortar os limites com o formão e rebaixar à profundidade da asa (ou fresar com fresadora manual e gabarito); a asa fica à face da madeira;
- fechadura de embutir: furar a caixa na couceira com broca (ou furadora de fechaduras), esquadrar com formão, rebaixar a testa; furar o quadrado da maçaneta e o cilindro à medida da distância ao eixo indicada na ficha;
- ferragem oscilobatente: ranhuras e furos à medida do sistema, com gabarito.
- Pré-furar os parafusos com broca mais fina do que o parafuso, sobretudo em folhosas e perto das pontas, para a madeira não rachar.
- Fixar com os parafusos próprios (comprimento e diâmetro da ficha), sem forçar nem moer a cabeça.
- Montar a folha no aro e afinar: folgas iguais em todo o perímetro, a folha não abre nem fecha sozinha (sinal de aro fora de prumo), o trinco entra sem ser preciso empurrar.
- Testar o funcionamento completo: abrir, fechar, trancar, bascular, deslizar, conforme o tipo, várias vezes.
Uma dobradiça mal alinhada torce a folha e força a fechadura. A precisão da marcação vale tanto na ferragem como em qualquer samblagem.
Exemplo resolvido 12 · dobradiças de uma porta interior
Folha de 840 × 2062 mm, 40 mm de espessura, com três dobradiças de embutir de 100 mm; o desenho manda pôr a primeira a 180 mm do topo, a última a 250 mm da base e a do meio a 400 mm abaixo da primeira.
- 1.ª dobradiça: topo a 180 mm do topo da folha (até 280 mm).
- 2.ª dobradiça: 180 + 400 = 580 mm do topo (até 680 mm): mais perto da de cima, que é a mais carregada.
- 3.ª dobradiça: fundo a 250 mm da base, portanto de 2062 - 250 - 100 = 1712 mm a 1812 mm do topo.
- Marca-se na folha e no aro ao mesmo tempo, com a folha calçada no aro (2 mm em cima). No aro, as cotas medem-se a partir do rebaixo de cima mais os 2 mm de folga: a 1.ª dobradiça começa a 182 mm do fundo do rebaixo superior.
- Profundidade do alojamento: a espessura da asa da dobradiça (vem na ficha); a asa fica à face da madeira.
15. Aplicação de vidros
O vidro fecha a luz da folha e fica alojado no rebaixo preparado na moldagem, preso pelos bites (baguetes).
Tipos de vidro
| Vidro | Características | Onde se usa |
|---|---|---|
| Simples (recozido) | uma só lâmina; parte em pedaços grandes e cortantes | interiores sem risco de impacto; reabilitação |
| Impresso ou fosco | translúcido, dá privacidade | casas de banho, portas interiores |
| Duplo (unidade de vidro isolante) | dois vidros separados por uma câmara de ar ou gás, com perfil separador e selagem periférica | janelas e portas exteriores; isola do frio, do calor e do ruído |
| Temperado | tratado termicamente; mais resistente e, se partir, desfaz-se em pequenos fragmentos pouco cortantes | zonas de risco de impacto, portas totalmente envidraçadas |
| Laminado | dois ou mais vidros colados com película plástica intercalar; se partir, os fragmentos ficam presos à película | zonas de risco de impacto e queda, segurança contra intrusão |
Nas zonas de risco (portas envidraçadas, vidros junto ao chão, vidros onde alguém pode cair ou bater) usa-se vidro de segurança, temperado ou laminado, conforme o projeto e a regulamentação aplicável. Quem escolhe o vidro é o projeto; o carpinteiro garante que o rebaixo e a fixação servem esse vidro.
Um vidro duplo designa-se pelas espessuras: 4 + 16 + 4 quer dizer vidro de 4 mm, câmara de 16 mm, vidro de 4 mm, com 24 mm de espessura total. O rebaixo da folha tem de ter altura e largura para esta espessura mais os vedantes e o bite; uma folha desenhada para vidro simples, em regra, não recebe vidro duplo sem se mudar o perfil.
Envidraçar passo a passo
- Proteger o rebaixo. A madeira do rebaixo nunca fica nua debaixo do vidro: leva pelo menos o primário ou a primeira demão do sistema de acabamento antes de envidraçar, porque é aí que a água se acumula se a vedação falhar. A lixagem faz-se toda antes de pôr o vidro.
- Medir o rebaixo na folha já colada, nas duas direções e em dois ou três sítios, e só depois confirmar a encomenda do vidro (o desenho diz o que devia ser; a folha diz o que é). Descontar a folga periférica indicada.
- Pôr os calços. O vidro assenta sobre calços de apoio (de material plástico ou madeira dura tratada) no fundo do rebaixo e é centrado com calços periféricos, de forma a nunca tocar diretamente na madeira. A folga à volta deixa a madeira mexer sem partir o vidro e deixa o vedante trabalhar. Numa folha de batente, os calços colocam-se de forma a transmitir o peso do vidro para o canto do lado das dobradiças, o que ajuda a folha a não descair; a posição exata vem das regras do fornecedor do vidro.
- Vedar. Com massa de vidraceiro (tradicional, em vidro simples), silicone ou mástique compatível com o vidro duplo, ou vedantes de borracha em perfil. Os vedantes e as massas têm de ser compatíveis com a selagem do vidro duplo e com o acabamento.
- Aplicar os bites (baguetes): réguas cortadas à medida, com os cantos em meia-esquadria (45°), pregadas com pregos finos sem cabeça ou aparafusadas. Pregam-se com o prego inclinado para a madeira da folha, nunca para o vidro, e com uma chapa ou espátula a proteger o vidro do martelo.
- Verificar: sem folgas visíveis na vedação, o vidro não bate, o bite está à face, não há pontos por onde entre a água; a água que entre no rebaixo tem por onde sair (nos sistemas com drenagem).
- Acabamento: conforme o sistema, a última demão aplica-se antes ou depois de envidraçar. Se for depois, protege-se o vidro com fita.
Nas janelas exteriores, o bite fica normalmente do lado interior (não pode ser arrancado por fora e fica protegido da chuva), mas alguns sistemas de caixilharia têm o bite exterior com vedação própria. Segue o desenho.
Exemplo resolvido 13 · verificar o vidro encomendado
O vidro da folha do capítulo 6 foi calculado com 608 × 968 mm. Medido o rebaixo da folha colada, encontras 613 mm na largura (em três pontos: 613, 614, 613) e 973 mm na altura.
- Largura mínima medida: 613 mm. Com 3 mm de folga de cada lado: 613 - 6 = 607 mm.
- Altura: 973 - 6 = 967 mm.
- O vidro de 608 × 968 mm ficaria com 2,5 mm e 2,5 mm de folga em vez de 3 mm; cabe, mas fica no limite. Se a tolerância do fornecedor for positiva (vidro com mais 1 mm), deixa de caber folga suficiente. Decisão: encomendar 607 × 967 mm, pela medida real.
16. Segurança, saúde e ambiente
Cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho é um critério de desempenho desta UC: avalia-se em todas as operações, não só no fim.
Equipamentos de proteção individual (EPI)
| EPI | Quando |
|---|---|
| Óculos ou viseira | sempre nas máquinas, no formão e no martelo, na limpeza com ar comprimido |
| Proteção auditiva (tampões ou abafadores) | nas máquinas de corte (serra, desempenadeira, garlopa, tupia, respigadeira, lixadoras) |
| Máscara de proteção respiratória FFP2 ou FFP3 | na lixagem e sempre que a captação de pó não chega; FFP3 para exposições maiores |
| Calçado de segurança | sempre na oficina e na obra (quedas de peças, pregos) |
| Luvas | só no manuseamento de madeira em bruto, vidro e produtos químicos, nunca junto de ferramentas em rotação |
| Vestuário ajustado | sempre; sem adornos, mangas presas, cabelo apanhado |
As luvas soltas, os adornos e a roupa larga são proibidos nas máquinas com ferramentas em rotação porque podem ser agarrados e puxar a mão para a ferramenta.
Riscos e prevenção
| Risco | Origem | Prevenção |
|---|---|---|
| Corte e amputação | serra, desempenadeira, tupia, respigadeira, furadoras | resguardos no sítio, empurradores, afinações com a máquina parada, nada de luvas |
| Retrocesso (peça projetada para trás) | serra circular, tupia | cutelo divisor, altura correta da serra, sentido de avanço certo, não ficar na linha da peça |
| Projeção de lascas e aparas | ferramentas mal afiadas ou mal apertadas, nós soltos | verificar a ferramenta e a peça antes; óculos |
| Pó de madeira | serrar, aparelhar, lixar | captação na origem, limpeza por aspiração (não com vassoura nem ar comprimido), máscara |
| Ruído | todas as máquinas de corte | proteção auditiva, manutenção |
| Esforço e postura | movimentar aros, folhas e vidros | ajuda de um colega ou meios mecânicos, costas direitas, carga junto ao corpo |
| Cortes com vidro | manuseamento de vidro | luvas próprias, ventosas, transporte na vertical |
| Produtos químicos | colas, vernizes, tintas, diluentes | ficha de dados de segurança, ventilação, luvas adequadas, sem chamas |
Pó de madeira: um agente cancerígeno
O pó de madeira de folhosas (madeiras duras como o carvalho) é um agente cancerígeno reconhecido (está associado ao cancro das fossas nasais). A Diretiva (UE) 2017/2398, transposta em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 35/2020, fixou para ele um valor-limite de exposição profissional de 2 mg/m³, aplicável desde 18 de janeiro de 2023 (até 17 de janeiro de 2023 vigorou um valor transitório de 3 mg/m³).
Na prática: captação de pó na origem em todas as máquinas (a aspiração ligada antes de começar), limpeza por aspiração, e máscara FFP2 ou FFP3 quando a captação não chega.
Máquinas: o que diz a lei
- As máquinas usadas na oficina são equipamentos de trabalho e têm de cumprir os requisitos mínimos de segurança do Decreto-Lei n.º 50/2005 (resguardos, comandos, paragem de emergência, manutenção, formação de quem as usa).
- Na colocação no mercado, as máquinas novas cumprem a Diretiva Máquinas, transposta pelo Decreto-Lei n.º 103/2008 (marcação CE, declaração de conformidade, manual de instruções). O novo Regulamento (UE) 2023/1230 relativo às máquinas aplica-se a partir de 20 de janeiro de 2027.
- Nunca se retira um resguardo "porque atrapalha": se atrapalha, está mal afinado ou a máquina é a errada para aquela peça.
Ambiente
- Aparas e serradura separadas e encaminhadas (aproveitamento para energia ou aglomerados), sem misturar com resíduos de tintas ou vernizes.
- Restos de colas, vernizes, tintas, diluentes e embalagens sujas são resíduos perigosos: vão para o contentor próprio, nunca para o esgoto.
- Retalhos de vidro para o contentor do vidro plano, embrulhados para não ferirem ninguém.
- Otimizar a lista de corte reduz desperdício: é também uma questão de custo.
17. Normas da qualidade
Qualidade não é o que se vê no fim: é verificar cada fase antes de passar à seguinte (autocontrolo) e registar o que se verificou.
Pontos de controlo
| Fase | O que se verifica | Com quê |
|---|---|---|
| Desenho | cotas completas, tipo de abertura, ferragem e vidro definidos | desenho, caderno de encargos |
| Madeira | espécie, teor de água, defeitos | higrómetro, inspeção visual |
| Aparelhamento | planeza, esquadria face/canto, espessura e largura | régua, esquadro, paquímetro |
| Marcação | cotas, ombros desencontrados, numeração | fita, esquadro, desenho |
| Samblagens | ajuste da respiga à caixa, ombros sem luz | armação a seco |
| Colagem | diagonais iguais, conjunto plano | fita métrica, réguas de empeno |
| Afagamento e lixagem | à face, sem riscos atravessados, arestas partidas | inspeção com luz rasante |
| Ferragens | folgas iguais, funcionamento, fecho | ensaio de manobra |
| Vidro | calçado, vedado, bite firme | inspeção |
Tolerâncias e registo
- A tolerância é o desvio admitido em relação à cota (por exemplo ± 1 mm numa medida de folha). Vem do desenho ou das especificações da empresa; se não vier, pergunta-se.
- Um registo de verificações (uma folha por conjunto, com as medidas encontradas e quem verificou) permite rastrear um problema e melhorar o processo.
- Uma peça não conforme separa-se e identifica-se: não segue para a fase seguinte "a ver se passa".
Normas de produto
As janelas e portas pedonais exteriores colocadas no mercado europeu estão abrangidas pela norma harmonizada de produto EN 14351-1, que define as características a declarar (por exemplo permeabilidade ao ar, estanquidade à água, resistência ao vento, desempenho térmico) e leva à marcação CE. Na oficina escolar não se faz a marcação CE, mas o princípio é o mesmo: o produto tem de cumprir o que se declara, e isso só se garante com processos controlados e registados.
Erros comuns
- Cortar sem ler o desenho todo, avançando por uma cota mal interpretada ou confundindo medida fora a fora, luz e medida da folha.
- Trabalhar madeira húmida de mais, que retrai depois de montada e abre as juntas.
- Saltar o desempeno e desengrossar a partir de uma face torta: a garlopa copia o empeno.
- Chamar couceira ao montante do aro (ou vice-versa) e cortar a peça errada.
- Marcar ombros iguais numa travessa com rebaixo: fica um buraco na junta do lado do vidro.
- Confundir basculante com oscilobatente e montar a ferragem errada.
- Esquecer que o batente da pivotante muda de face na linha do eixo.
- Colar sem armar a seco, descobrindo o erro depois de a cola secar.
- Confundir palmetas com calços: as palmetas são as cunhas que travam a respiga; os calços protegem a madeira do sargento.
- Colar a almofada na ranhura de uma porta almofadada.
- Não medir as diagonais nem verificar o empeno antes de a cola secar.
- Colar sobre uma bancada torta, que passa a torção para a folha.
- Lixar contra o fio ou saltar grãos, deixando riscos que o verniz realça.
- Aplicar ferragens a olho, sem ficha técnica nem gabarito, ou sem pré-furar.
- Encomendar o vidro pelo desenho sem medir a folha feita.
- Deixar a madeira do rebaixo nua debaixo do vidro.
- Usar luvas junto de ferramentas em rotação ou tirar um resguardo "porque atrapalha".
Glossário
- Aro: quadro fixo, preso ao vão da parede, que recebe a folha.
- Folha: parte móvel de uma porta ou janela (na janela, também caixilho móvel).
- Montante do aro (ou prumo): peça vertical do aro.
- Couceira: peça vertical da folha.
- Travessa: peça horizontal da folha ou do aro.
- Peitoril: travessa inferior do aro de uma janela, inclinada e com pingadeira.
- Soleira: peça inferior do vão de uma porta.
- Pinázio: peça fina que divide o vidro em partes mais pequenas.
- Almofada: painel encaixado sem cola nas ranhuras de uma porta almofadada.
- Batente: rebaixo ou régua do aro contra o qual a folha encosta ao fechar.
- Rebaixo: degrau retangular aberto ao longo de uma aresta (batente, vidro).
- Bite (baguete): régua fina que prende o vidro no rebaixo.
- Pingadeira: ressalto ou ranhura que obriga a água a pingar para fora da junta.
- Luz: espaço livre entre peças.
- Samblagem: ligação entre peças de madeira.
- Respiga (espiga): saliente talhado no topo de uma peça, que entra na caixa.
- Caixa (furo): rasgo que recebe a respiga.
- Ombro: degrau onde começa a respiga; encosta à outra peça.
- Ombros desencontrados: ombros a distâncias diferentes nas duas faces, em peças com rebaixo.
- Contraperfil: negativo do perfil, cortado no ombro da respiga.
- Meia-madeira: ligação em que cada peça perde metade da espessura na zona da ligação.
- Meia-esquadria: corte a 45° em cada peça para um canto a 90°.
- Malhete: ligação em cauda de andorinha ou em dentes retos.
- Palmeta: pequena cunha de madeira, metida com cola junto à respiga passante, que trava a junta e permite o ajustamento da esquadria.
- Calço: pedaço de madeira entre o sargento e a peça, para não a marcar; também o apoio do vidro no rebaixo.
- Desempenar: acertar uma face e um canto de referência na desempenadeira; na colagem, garantir que o conjunto fica plano.
- Desengrossar: dar a espessura final, paralela à face de referência, na garlopa de desengrosso.
- Afagar: alisar e pôr à face com plaina ou afagadora.
- Esquadria: cantos a 90°; verifica-se pelas diagonais.
- Empeno: deformação da peça ou do conjunto (torção, arqueamento, encurvamento, abaulamento).
- Retrocesso: projeção da peça para trás pela ferramenta, sobretudo na serra circular.
- Cutelo divisor: lâmina atrás da serra circular, alinhada com ela, que impede o corte de fechar sobre a serra.
- Cremona: fecho de varões comandado pelo puxador.
- Oscilobatente: janela que abre de batente e bascula, com um único puxador.
- Basculante: janela que roda em torno de um eixo horizontal, geralmente inferior.
- Pivotante: janela ou porta que roda em torno de um eixo central, horizontal ou vertical.
- Guilhotina: janela de folhas que deslizam na vertical.
- EPI: equipamentos de proteção individual.
Síntese
Executar uma porta ou uma janela com aro segue sempre a mesma lógica:
ler o desenho (alçado, cortes, pormenores; fora a fora, luz e folha) · selecionar a madeira (espécie, fio, teor de água) · serrar, desempenar e desengrossar a partir de uma face e um canto de referência · calcular a lista de corte (folgas, rebaixos, respigas, ombros desencontrados, vidro) · marcar e traçar montantes, travessas, couceiras e pinázios, com a marcação própria de cada tipo de janela · furar, respigar e moldar · armar a seco · colar e encunhar com palmetas, fazendo o ajustamento da esquadria e o desempeno · verificar esquadrias e empenos · afagar e lixar · aplicar ferragens pela ficha técnica · envidraçar com calços, vedação e bites.
A janela pode ser de batente, de correr, de guilhotina, basculante, pivotante ou oscilobatente; a porta pode ser de batente, de correr ou pivotante, almofadada, envidraçada, lisa ou de réguas. Cada tipo tem o seu aro, a sua ferragem e a sua marcação. Em tudo: EPI, máquinas com resguardos e captação de pó, e autocontrolo registado.
Exercícios resolvidos
1. Uma amostra de madeira pesa 486 g húmida e 450 g anidra. Qual é o teor de água? Serve para uma porta interior?
Resolução: (486 - 450) ÷ 450 × 100 = 36 ÷ 450 × 100 = 8,0 %. Está dentro da gama usual para interior (8 a 12 %), portanto serve.
2. Um desenho indica um montante de aro com 68 × 42 mm. Que operações preparam a peça antes da marcação, e em que ordem?
Resolução: serrar com sobra; desempenar uma face e o canto adjacente na desempenadeira; desengrossar na garlopa de desengrosso até 42 mm, com a face de referência para baixo; dar a largura de 68 mm paralela ao canto de referência; cortar ao comprimento com sobras. A desempenadeira não dá a espessura nem o paralelismo: isso é o desengrosso.
3. Aro com 1000 × 1300 mm fora a fora, montantes e travessa superior com 60 mm, peitoril com 80 mm, batente de 12 mm, folga de 2 mm. Calcula a medida da folha.
Resolução: largura: 1000 - 120 = 880; + 24 = 904; - 4 = 900 mm. Altura: 1300 - 60 - 80 = 1160; + 24 = 1184; - 4 = 1180 mm. Folha de 900 × 1180 mm.
4. Na folha do exercício 3, com couceiras de 60 mm e respigas passantes com 2 mm de sobra, qual é o comprimento de corte das travessas e o ombro a ombro do lado do rebaixo de vidro de 12 mm?
Resolução: ombro a ombro (lado sem rebaixo): 900 - 120 = 780 mm; corte: 780 + 2 × 62 = 904 mm. Do lado do rebaixo: 780 + 24 = 804 mm (ombros desencontrados 12 mm em cada ponta).
5. Qual é a diagonal de verificação da folha de 900 × 1180 mm?
Resolução: √(900² + 1180²) = √(810 000 + 1 392 400) = √2 202 400 ≈ 1484 mm. As duas diagonais têm de medir o mesmo.
6. Qual é a diferença entre uma janela basculante e uma oscilobatente?
Resolução: a basculante só roda em torno de um eixo horizontal (geralmente o inferior; o topo inclina para dentro). A oscilobatente faz esse movimento e abre de batente em torno do eixo vertical, escolhendo-se o movimento com um único puxador, graças a uma ferragem perimetral com bloqueio de falsa manobra.
7. Numa janela pivotante de eixo horizontal, o que acontece ao batente na linha do eixo?
Resolução: muda de face. A metade de cima da folha roda para um lado e a de baixo para o outro, por isso o batente (no aro e na folha) está numa face acima do eixo e na face oposta abaixo dele.
8. O que são palmetas e para que servem na colagem?
Resolução: são pequenas cunhas de madeira que se batem com cola ao lado das respigas passantes, na face de saída da caixa. Travam a junta e, batendo mais de um lado ou do outro, permitem ajustar a esquadria do conjunto enquanto a cola está fresca. Não se confundem com os calços que protegem a madeira dos sargentos.
9. Depois de apertar uma folha, as diagonais medem 1482 mm e 1488 mm. O que fazes?
Resolução: a folha não está em esquadria (6 mm de diferença) e a diagonal de 1488 mm é a mais comprida. Com a cola fresca, corrige-se: inclinar um sargento no sentido da diagonal comprida ou bater as palmetas do lado que a encurta, até as duas medirem o mesmo, próximo dos 1484 mm calculados no exercício 5. Depois verifica-se o empeno e deixa-se secar sem mexer.
10. Porque se deixa a almofada de uma porta solta na ranhura?
Resolução: porque a almofada é larga e retrai e incha na largura (sobretudo na direção tangencial) com as variações de humidade. Solta, mexe dentro da ranhura; colada, racha ou abre fendas.
11. Um vidro duplo 4 + 16 + 4 com 0,60 m × 0,95 m: qual é a espessura total e quanto pesa, aproximadamente?
Resolução: espessura 4 + 16 + 4 = 24 mm. Área 0,60 × 0,95 = 0,57 m²; vidro total 8 mm; 0,57 × 2,5 × 8 ≈ 11,4 kg. A câmara (ar ou gás) tem peso desprezável.
12. Um aluno aplica o vidro diretamente sobre a madeira nua do rebaixo, sem calços. O que lhe indicarias?
Resolução: que o rebaixo tem de levar pelo menos o primário antes de envidraçar, porque a água que passe a vedação apodrece a madeira nua; e que o vidro assenta sobre calços de apoio e é centrado com calços periféricos, para nunca tocar na madeira: assim a madeira pode mexer sem partir o vidro, e o peso do vidro é bem transmitido à folha.
13. Porque é que não se usam luvas junto da tupia ou da serra circular?
Resolução: porque a luva pode ser agarrada pela ferramenta em rotação e puxar a mão para ela. Nas máquinas usam-se empurradores e resguardos; as luvas ficam para o manuseamento de madeira em bruto, vidro e produtos químicos.
14. Que valor-limite se aplica hoje ao pó de madeira de folhosas e que medidas o respeitam na oficina?
Resolução: 2 mg/m³ (Diretiva (UE) 2017/2398, aplicável desde 18 de janeiro de 2023). Respeita-se com captação na origem em todas as máquinas, limpeza por aspiração e, quando a captação não chega, máscara FFP2 ou FFP3.