Sebenta · Executar e aplicar folheados de madeira (UC02117)
- Introdução
- 1. O que são folheados de madeira
- 2. A madeira por detrás da folha
- 3. A folha de madeira: características e obtenção
- 4. Seleção e preparação da folha
- 5. O padrão dos veios e os folheados em espinha
- 6. Corte da folha: máquinas, ferramentas e procedimentos
- 7. Máquinas e técnicas de unir folha
- 8. Tipos de cola e suas características
- 9. Preparar as colas
- 10. Aplicar a cola no material de suporte
- 11. Máquinas de prensar
- 12. Painel equilibrado: contra-face e sentido do fio
- 13. Folheamento manual, peças curvas e folha de raiz
- 14. Acabamento de folheados
- 15. Manutenção e limpeza das máquinas
- 16. Segurança e saúde no trabalho e equipamentos de proteção individual
- 17. Normas da qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a executar e aplicar folheados de madeira: preparar e unir folhas finas de madeira natural e colá-las sobre um suporte (aglomerado, MDF, contraplacado ou madeira maciça), dando-lhe o aspeto, a cor e o desenho de uma madeira que, em maciço, seria cara, escassa ou instável. É uma competência central nas indústrias de carpintaria e mobiliário com madeira e noutras indústrias da segunda transformação da madeira (portas, painéis de revestimento, interiores de lojas, hotéis e embarcações).
O título da UC tem dois verbos e cada um corresponde a uma parte do trabalho:
- Executar folheados: transformar folhas soltas numa "capa" pronta a colar. Inclui selecionar a folha, prepará-la (planura e teor de humidade), cortá-la na guilhotina ou à mão e uni-la segundo um padrão de veios (livro aberto, deslizante, espinha, losango, estrela).
- Aplicar folheados: colar essa capa no suporte. Inclui escolher e preparar a cola (a frio ou a quente), aplicá-la no suporte, prensar (prensa de pratos ou de membrana), equilibrar o painel com a contra-face e fazer o acabamento.
O percurso segue a ordem real de trabalho de uma oficina: conhecer a matéria-prima → selecionar e preparar a folha → cortar → unir → escolher e preparar a cola → encolar → prensar → acabar → limpar e manter as máquinas. A segurança e a qualidade não são um capítulo à parte: aparecem em cada etapa.
Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar as máquinas e os materiais; operar máquinas e ferramentas; e colar folha em painel, unindo a folha de acordo com o padrão dos veios, aplicando a folha de acordo com as características técnicas do projeto e cumprindo as normas de segurança e saúde no trabalho.
Como usar esta sebenta
- Lê cada capítulo pela ordem: cada etapa depende da anterior.
- Refaz os exemplos resolvidos com papel e calculadora antes de ler a resolução.
- Na oficina, leva a lista de verificação do capítulo 16 e o registo de produção do capítulo 17.
- Sempre que a sebenta disser "consulta a ficha técnica", fá-lo mesmo: tempos, temperaturas, pressões e gramagens de cola dependem do produto concreto e não há valores universais. Os números que aparecem nos exemplos são valores de exercício, escolhidos para treinar as contas.
1. O que são folheados de madeira
Um folheado é um painel ou peça em que uma folha fina de madeira natural (a "folha") está colada sobre um suporte. Ao conjunto chama-se painel folheado; à operação chama-se folhear ou folheamento.
1.1 Porque se folheia
- Aproveitamento da matéria-prima nobre: de um bloco de madeira obtém-se muito mais superfície em folha do que em tábua, porque a folha é fina e o corte a faca não produz serradura. Um fabricante ibérico de painéis folheados fala em aproveitamento "até 40 vezes" superior ao da madeira maciça (o valor exato depende das espessuras, ver o exemplo 3.5).
- Estabilidade dimensional: o suporte (MDF, aglomerado, contraplacado) mexe muito menos com a humidade do que uma tábua larga de madeira maciça, que empena, fende e retrai.
- Composições decorativas: com folhas consecutivas do mesmo bloco é possível criar simetrias (livro aberto, espelhado em quatro, espinha, estrela) impossíveis ou caríssimas em maciço.
- Uso de madeiras de figura: raízes, ondeados e madeiras com fio revesso são quebradiços e instáveis em maciço, mas usáveis em folha.
1.2 Limitações
- A folha é fina: não admite lixagens profundas nem reparações por desbaste; um risco fundo ou uma lixagem mal feita podem atravessá-la.
- Os bordos do suporte ficam à vista e têm de ser orlados (com orla de madeira maciça, orla de folha ou fita de orla).
- O painel tem de ser equilibrado (folha dos dois lados), senão empena (capítulo 12).
- A qualidade final depende muito da mão de obra: uma junta aberta, uma bolha ou uma cola que repassa desvalorizam a peça inteira.
1.3 Onde se aplica
| Setor | Exemplos |
|---|---|
| Mobiliário | tampos de mesa, portas de armário, frentes de gaveta, laterais de cómoda |
| Carpintaria de interiores | portas interiores, painéis de revestimento de paredes, tetos |
| Contract (hotelaria, lojas, escritórios) | balcões, receções, cabeceiras, painéis de parede |
| Náutica e automóvel | interiores de embarcações, painéis decorativos |
| Restauro | reposição de folha em mobiliário antigo |
1.4 Folheado não é laminado nem papel decorativo
| Revestimento | O que é a superfície | Como se reconhece |
|---|---|---|
| Folheado de madeira | madeira natural fina | poros e veio reais, cada painel é diferente, aceita verniz e óleo |
| Melamina | papel impresso impregnado de resina | desenho repetido, superfície plástica, não se lixa |
| Laminado de alta pressão (HPL, "fórmica") | várias camadas de papel e resina prensadas | lâmina dura com bordo escuro visível |
| Folha reconstituída | madeira natural desfeita em folha, tingida, colada em bloco e refaqueada | desenho regular e repetível, mas é madeira |
Ao longo de todo o processo o técnico exerce responsabilidade e autonomia: decide a sequência das folhas, confirma o resultado em cada etapa e assume as consequências de cada escolha. O trabalho é também de cooperação com a equipa (as mesmas guilhotinas, máquinas de unir e prensas são partilhadas) e de sentido de organização (folhas fora de ordem ou mal guardadas estragam a composição).
2. A madeira por detrás da folha
Para trabalhar bem a folha é preciso perceber a madeira de onde ela vem.
2.1 As três direções da madeira
A madeira é anisotrópica: comporta-se de forma diferente conforme a direção.
- Longitudinal (ao fio): ao longo do tronco. É a direção em que a madeira quase não retrai.
- Radial: do centro (medula) para a casca, atravessando os anéis de crescimento.
- Tangencial: tangente aos anéis de crescimento.
Com a variação de humidade, a retração tangencial é, em regra, cerca do dobro da radial, e a longitudinal é desprezável. É por isso que uma tábua larga empena e que uma folha colada só de um lado puxa o painel.
2.2 Secções e desenho do veio
O desenho que se vê na folha depende do plano em que a madeira foi cortada:
| Plano de corte | Desenho típico | Nome comercial habitual |
|---|---|---|
| Tangencial (paralelo a uma tangente aos anéis) | arcos e "chamas" em forma de catedral | catedral ou flor |
| Radial (passa pela medula) | riscas paralelas e regulares | listada ou riscado |
| Intermédio | riscas com alguma ondulação | meio-listado |
| Desenrolado (corte a toda a volta do toro) | desenho largo, ondulado, pouco regular | desenrolada |
2.3 O teor de humidade
O teor de água (ou teor de humidade) da madeira calcula-se em base seca:
H (%) = (massa húmida menos massa anidra) ÷ massa anidra × 100
A "massa anidra" é a massa da mesma amostra depois de seca em estufa até deixar de perder peso.
Exemplo resolvido 2.1 · calcular o teor de humidade de uma folha
Uma amostra de folha pesa 12,4 g. Depois de seca em estufa até massa constante pesa 11,2 g.
- Água na amostra: 12,4 menos 11,2 = 1,2 g.
- Divide pela massa anidra (não pela húmida): 1,2 ÷ 11,2 = 0,107.
- Multiplica por 100: H ≈ 10,7 %.
Erro frequente: dividir pela massa húmida (1,2 ÷ 12,4 = 9,7 %), o que dá um valor mais baixo e errado.
Na oficina usa-se sobretudo o medidor de humidade (higrómetro de agulhas ou de contacto), escolhendo a espécie correta no aparelho. O método da estufa serve para calibrar e para resolver dúvidas.
Porque interessa: a folha, o suporte e o ambiente onde a peça vai viver devem estar em humidades compatíveis. Para mobiliário e carpintaria de interior aponta-se habitualmente para valores da ordem de 8 a 12 %; a carpintaria de exterior trabalha com valores mais altos. Uma folha demasiado húmida no momento da colagem traz água a mais para a linha de cola, o que favorece bolhas, repasse e fendas quando secar; uma folha demasiado seca fica quebradiça e parte-se ao manusear.
2.4 Espécies usadas em folha
Quase todas as espécies comerciais existem em folha. Algumas frequentes nas oficinas portuguesas: carvalho, freixo, faia, nogueira (incluindo a folha de raiz de nogueira), cerejeira, bétula, ácer, sapeli e outras tropicais, e eucalipto (que um fabricante ibérico também comercializa fumado). A escolha depende do projeto: cor, desenho, preço, disponibilidade e comportamento ao acabamento.
3. A folha de madeira: características e obtenção
3.1 Características da folha
- Espessura: a folha decorativa corrente tem menos de 1 mm. Os fornecedores portugueses indicam espessuras nominais da ordem de 0,5 a 0,6 mm, e há fabricantes que trabalham com 0,6 a 0,8 mm. Folhas de desenrolamento para contraplacado e folhas serradas são mais grossas. Confirma sempre a espessura na etiqueta do pacote.
- Largura: limitada pelo tamanho do bloco ou do toro. Por isso as superfícies largas fazem-se unindo várias folhas.
- Comprimento: segue o comprimento do toro ou do bloco; o fio corre no sentido do comprimento da folha (exceto em raízes, onde o fio é irregular).
- Fragilidade: a folha rasga com facilidade ao longo do fio e parte nas pontas. Transporta-se enrolada com cuidado ou apoiada numa placa, nunca pela ponta.
- Porosidade: a cola pode atravessar os poros até à face à vista (o repasse, capítulo 10), sobretudo em espécies de poro aberto como o carvalho e o freixo.
- Cor e fotossensibilidade: a cor muda com a luz (cerejeira escurece, algumas tropicais clareiam). Guarda as folhas ao abrigo da luz direta.
3.2 Processos de obtenção
O referencial fala em folha laminada e folha por desenrolamento. Na indústria, a folha "laminada" é a folha obtida por corte plano, também chamada faqueada.
Em qualquer dos processos, os toros ou blocos são primeiro amaciados (vaporizados ou cozidos em água quente) para que a faca corte sem rasgar. Depois do corte, as folhas passam num secador e são empilhadas pela ordem em que saíram do bloco.
| Processo | Como funciona | Desenho | Usos típicos |
|---|---|---|---|
| Faqueado (corte plano, "laminada") | o bloco (meio toro, quarto de toro) é fixado e uma faca corta fatias paralelas num movimento de vaivém | catedral, listado ou meio-listado, conforme a orientação do bloco | folha decorativa para mobiliário e revestimentos |
| Desenrolamento (corte rotativo) | o toro roda sobre o seu eixo num torno desenrolador e uma faca avança contra ele, tirando uma folha contínua, como se desenrolasse um rolo de papel | desenho largo e irregular | folhas para contraplacado, contra-faces, algumas folhas decorativas |
| Meio-desenrolado (variante) | o bloco é montado fora do eixo do torno e cortado em arco | intermédio entre catedral e desenrolado | folhas decorativas de algumas espécies |
| Serrado | a folha é serrada, com perda de serradura | igual ao da tábua | folhas grossas, restauro, espécies difíceis de faquear |
3.3 Da fábrica à oficina: bloco e pacote
- Bloco (ou lote): conjunto de todas as folhas cortadas do mesmo toro ou meio toro, mantidas pela ordem de corte. Folhas consecutivas são quase iguais, o que permite composições simétricas.
- Pacote: subdivisão do bloco, com um número fixo de folhas consecutivas, identificado por etiqueta (espécie, número do bloco, número do pacote, dimensões, área).
Regra de ouro: nunca baralhes as folhas de um pacote e numera-as a giz ou lápis macio num canto que vá ser aparado, antes de começar a trabalhar.
3.4 Tipos de aplicação
| Aplicação | Exigência | Folha adequada |
|---|---|---|
| Face à vista de peça de destaque | desenho, cor, ausência de defeitos, possibilidade de composição | faqueada de primeira escolha, bloco inteiro |
| Face à vista corrente | aspeto uniforme | faqueada ou desenrolada decorativa |
| Contra-face (lado de trás) | equilíbrio do painel, aspeto secundário | folha de escolha inferior ou espécie mais barata, com comportamento semelhante |
| Folha técnica (camadas interiores, contraplacado) | resistência e custo | desenrolada |
| Peças curvas | flexibilidade | folha fina, eventualmente com reforço de papel ou velo no verso |
Os painéis folheados industriais identificam a combinação de faces com letras, por exemplo A/A (face e contra-face da mesma espécie e qualidade), A/B (mesma espécie, contra-face de qualidade inferior) ou A/C (contra-face de outra espécie, não decorativa).
3.5 Exemplo resolvido · o rendimento da folha
Um bloco de nogueira tem 100 mm de espessura útil. Comparamos, de forma simplificada, serrar tábuas de 22 mm (com uma perda de 4 mm de serradura por corte) e faquear folha de 0,6 mm (sem serradura).
- Tábuas: cada tábua "consome" 22 + 4 = 26 mm. 100 ÷ 26 = 3,8, ou seja 3 tábuas inteiras.
- Folhas: 100 ÷ 0,6 = 166,7, ou seja 166 folhas.
- Cada tábua e cada folha cobrem a mesma área (a face do bloco). A razão de superfície é 166 ÷ 3 ≈ 55 vezes.
Na prática perde-se folha no arranque do bloco, no desbaste dos bordos e na classificação, por isso os valores reais são menores, mas a ordem de grandeza (dezenas de vezes) explica a importância económica do folheado.
3.6 Exemplo resolvido · escolher o processo certo
Uma marcenaria precisa de folha para a face à vista de um tampo de reunião e para a contra-face do mesmo tampo.
- Face à vista: o cliente quer riscas regulares e sóbrias. Escolhe-se folha faqueada listada (corte radial), de um único bloco.
- Contra-face: não se vê, mas tem de equilibrar o painel. Escolhe-se folha de espessura e comportamento semelhantes (a mesma espécie em escolha inferior ou uma folha de contra-face indicada pelo fornecedor).
- Regista-se na ficha de produção: espécie, número do bloco e dos pacotes, espessura, fornecedor.
4. Seleção e preparação da folha
Selecionar a folha é a primeira aptidão do referencial e condiciona tudo o resto.
4.1 Critérios de seleção
- Especificação do projeto: espécie, tipo de corte (catedral, listado), cor, acabamento previsto.
- Quantidade: área necessária mais perdas (ver exemplo 4.4). Todas as folhas de uma face à vista devem vir do mesmo bloco.
- Defeitos: nós soltos, fendas, bolsas de resina, manchas de fungos ou de água, furos de insetos, rasgões, ondulação excessiva, superfície arrepiada (fibras levantadas por um corte deficiente).
- Uniformidade de cor ao longo do pacote. Olha-se a folha molhada com um pano húmido ou com álcool para prever a cor depois do acabamento.
- Largura útil: a largura depois de cortados os bordos irregulares.
As folhas com pequenos defeitos não se deitam fora sem avaliação: servem para zonas que ficam tapadas, para contra-faces ou para peças pequenas.
4.2 Preparação da folha
- Aclimatação: deixar os pacotes na oficina, fechados e deitados, para equilibrarem com o ambiente antes do corte.
- Controlo do teor de humidade com o medidor, comparando com o do suporte.
- Planura: folhas ligeiramente onduladas aplanam-se entre placas planas, com peso, depois de humedecidas com um pulverizador fino ou com um produto amaciador próprio. Folhas muito onduladas (raízes, ondeados) seguem o procedimento do capítulo 13.
- Numeração e ordenação das folhas pela sequência do bloco.
- Traçagem da composição sobre a folha (a giz ou lápis macio), com margem.
4.3 Armazenamento
Folhas guardadas na horizontal, em local fresco, com humidade estável, ao abrigo da luz e do pó, dentro do pacote original e com a etiqueta. Nunca encostadas na vertical (deformam) nem ao sol (mudam de cor).
4.4 Exemplo resolvido · quantas folhas são precisas
Um tampo tem 1200 × 600 mm e vai ser folheado em livro aberto, com as juntas no sentido do comprimento. As folhas do pacote têm 1300 mm de comprimento e 140 mm de largura útil depois de desbastados os bordos. Deixa-se uma sobra de 10 mm a toda a volta para aparar depois de prensado.
- Dimensões da capa: 1200 + 2 × 10 = 1220 mm de comprimento; 600 + 2 × 10 = 620 mm de largura.
- Comprimento: 1300 mm chegam para 1220 mm. Uma folha por faixa.
- Número mínimo de faixas: 620 ÷ 140 = 4,4, arredonda-se para 5.
- Mas o livro aberto pede simetria. Há duas soluções:
- Número par, junta ao centro: 6 folhas, cada uma com 620 ÷ 6 ≈ 103,3 mm de largura.
- Número ímpar, folha ao centro: 5 folhas, cada uma com 620 ÷ 5 = 124 mm, com a folha central centrada no eixo.
- Escolhe-se a solução de 5 folhas (menos juntas e cabe na largura útil de 140 mm).
- Contra-face: mais 5 folhas (ou folha de contra-face já unida). Reserva-se ainda 1 ou 2 folhas para ensaios e substituições.
5. O padrão dos veios e os folheados em espinha
Unir a folha de acordo com o padrão dos veios é o primeiro critério de desempenho desta UC. O padrão decide-se no projeto, antes de cortar: depois de cortada a folha já não há volta atrás.
5.1 Ler a folha
Antes de compor, observa em cada folha:
- O sentido do fio (a direção das fibras), que corre normalmente ao longo do comprimento da folha.
- O tipo de desenho (catedral, listado, raiz).
- A face "aberta" e a face "fechada". Ao faquear, a faca dobra a folha e provoca pequenas fissuras numa das faces (a face aberta, que ficou do lado da faca); a outra (face fechada) fica mais lisa. As fissuras podem notar-se ao acabamento, por isso convém saber de que lado está cada face.
- O reflexo: a mesma folha vista de lados opostos ou com a luz a incidir de sentidos opostos parece mais clara ou mais escura, porque as fibras refletem a luz de forma diferente. É isto que faz o livro aberto parecer "claro, escuro, claro, escuro".
5.2 Padrões de junção entre folhas
| Padrão | Como se monta | Efeito | Atenção |
|---|---|---|---|
| Livro aberto (book match) | folhas consecutivas, virando uma sim, outra não, como as páginas de um livro aberto | simetria em espelho em cada junta | as folhas viradas refletem a luz ao contrário: faixas alternadamente claras e escuras |
| Deslizante (slip match) | folhas consecutivas lado a lado, todas com a mesma face para cima | desenho que se repete, cor uniforme | não há simetria; bom para listados |
| Aleatório (random) | folhas sem ordem, às vezes de blocos diferentes | aspeto de tábuas soltas | exige critério para não parecer um erro |
| Espelhado em quatro (quarter match) | quatro folhas consecutivas em livro aberto nos dois sentidos | simetria em cruz a partir do centro | as quatro folhas têm de ser muito iguais, típico em raízes |
| Espinha | faixas cortadas em diagonal e montadas em espelho | veios em V (espinha de peixe) | rigor do ângulo |
| Losango e estrela (radial) | peças triangulares ou trapezoidais a convergir para o centro | geometria radial | soma dos ângulos igual a 360 graus |
| Xadrez | quadrados com o fio alternadamente a 0 e a 90 graus | efeito de tabuleiro | a folha a 90 graus reflete a luz de forma diferente |
5.3 Composição no painel
Além da junção entre folhas, decide-se como a composição se centra no painel:
- Junta ao centro (número par de folhas): a junta central fica no eixo do painel.
- Folha ao centro (número ímpar): uma folha fica centrada no eixo e as restantes distribuem-se simetricamente.
- Folhas de largura igual ("equilibrado"): todas as folhas cortadas à mesma largura, mesmo que se perca material.
- Sequência contínua num conjunto de portas: as portas de um roupeiro são folheadas com folhas seguidas do mesmo bloco, para que o desenho continue de uma porta para a outra.
5.4 Folheados em espinha
O folheado em espinha (também chamado espinha de peixe ou chevron) forma um desenho em V: as folhas, normalmente de desenho listado, são cortadas em faixas em diagonal em relação ao fio e montadas em espelho (as faixas de um lado da junta são viradas como no livro aberto), de modo que o veio de cada lado converge para a linha de junta.
Como se executa:
- Escolhem-se folhas consecutivas do mesmo pacote, de preferência listadas (as riscas tornam o V bem visível).
- Define-se no projeto o ângulo do fio em relação à junta. O mais comum é 45 graus, o que dá um V de 90 graus entre os dois lados.
- Empilham-se as folhas (alinhadas pela ordem do bloco) e cortam-se as faixas diagonais em conjunto, com régua e gabarito fixos, para que todas fiquem com o mesmo ângulo.
- Viram-se as faixas de um dos lados e unem-se aos pares pela junta central, confirmando a seco que as riscas se encontram na linha de junta.
- Unem-se os vários "V" entre si e esquadreja-se a capa com margem.
Porque é exigente: um desvio de 1 ou 2 graus de uma faixa para a outra nota-se logo, porque as riscas deixam de se encontrar na junta. Por isso usa-se gabarito e corta-se sempre em pilha.
O mesmo desenho existe em pavimentos de tacos em espinha, mas aí as peças são maciças e o assunto é outro; nesta UC falamos de composição de folha.
5.5 Exemplo resolvido · os ângulos de uma estrela
Um tampo redondo vai ser folheado em estrela de 8 raios, cada raio feito de um triângulo de folha com o fio ao longo do eixo do triângulo.
- Ângulo de cada setor: 360 ÷ 8 = 45 graus no vértice central.
- Cada triângulo é simétrico em relação ao seu eixo, por isso cada lado faz 45 ÷ 2 = 22,5 graus com o fio.
- Para o gabarito: traça-se uma linha de eixo e duas linhas a 22,5 graus de cada lado, a partir do vértice.
- Os 8 triângulos cortam-se em pilha, de folhas consecutivas, para serem iguais.
- Verificação: 8 × 45 = 360 graus. Se a soma a seco não fechar, há um erro de gabarito, que se corrige antes de unir.
5.6 Exemplo resolvido · verificar o livro aberto
Pacote com as folhas 1 a 6 numeradas. Vai montar-se um livro aberto com 6 folhas e junta ao centro.
- Dispõem-se a seco pela ordem: 1, 2, 3, 4, 5, 6.
- Viram-se as folhas pares (2, 4, 6) como páginas de um livro.
- Confirma-se que as juntas 1|2, 2|3, 3|4, 4|5 e 5|6 são todas espelhadas, e que a junta central (3|4) fica no eixo do painel.
- Se uma folha ficar virada ao contrário (por exemplo a 5), a junta 4|5 deixa de ser espelhada e o desenho quebra a meio da peça. Corrige-se agora: depois de colada não há correção possível.
⚠️ Dispõe sempre as folhas a seco sobre o suporte e confere sequência, faces e orientação antes de unir e antes de encolar.
6. Corte da folha: máquinas, ferramentas e procedimentos
O objetivo do corte é duplo: dar à folha a forma e a medida da composição e deixar bordos retos e limpos que, encostados, formem uma junta invisível.
6.1 A guilhotina de folha
A guilhotina de folha é a máquina de corte de folha típica das oficinas. Tem:
- uma mesa onde se apoia a pilha de folhas;
- um calcador (barra de pressão) que aperta a pilha antes do corte;
- uma lâmina longa, que desce em diagonal ou a direito e corta a pilha toda de uma vez;
- batentes ou esquadros de referência;
- nas máquinas motorizadas, comando a duas mãos e proteções que impedem que as mãos estejam na zona da lâmina durante o corte.
Há guilhotinas manuais (acionadas por alavanca ou pedal) e motorizadas (hidráulicas ou pneumáticas), com comprimentos de corte que vão de pouco mais de um metro até vários metros nas máquinas industriais.
Executar o corte de folha em guilhotina, passo a passo:
- Confirma que a máquina está limpa, a lâmina afiada e as proteções no lugar.
- Forma a pilha com as folhas consecutivas e alinhadas pela ordem do bloco (todas com a mesma face para cima). Assim, os bordos cortados de folhas vizinhas ficam praticamente iguais, o que é essencial no livro aberto.
- Coloca, se a máquina o pedir, uma folha de cartão ou de folha velha por baixo e por cima da pilha, para proteger as folhas de baixo e de cima.
- Alinha a pilha pela linha traçada (ou pelo batente) e aperta com o calcador.
- Corta com um movimento contínuo. Nunca coloques as mãos entre o calcador e a lâmina e nunca anules o comando a duas mãos.
- Retira a pilha, confirma a retidão encostando dois bordos cortados um ao outro à contraluz: não deve passar luz.
- Se passar luz, volta a cortar uma tira muito fina (1 a 2 mm).
Procedimentos de corte (regras gerais):
- Cortar sempre com margem: a medida final só se acerta depois de prensado.
- Cortar as folhas que vão formar uma junta em conjunto (em pilha), nunca uma de cada vez.
- Cortar primeiro os bordos longos (ao fio), que serão as juntas; os topos acertam-se depois.
- Folhas quebradiças (raiz) cortam-se já amaciadas e aplanadas.
- Não cortar pilhas mais altas do que a capacidade indicada pelo fabricante da máquina.
6.2 Ferramentas de corte manual
Para peças pequenas, formas irregulares, marchetaria e reparações:
| Ferramenta | Uso | Nota |
|---|---|---|
| Serrote de folha (lâmina curva de dentes finos) | cortes retos ao longo de régua, ao fio e através do fio | não parte as fibras nos topos |
| Faca de folha / x-ato / bisturi | recortes, contornos, acertos finos | lâmina sempre afiada, várias passagens leves |
| Tesoura de folha | cortes rápidos de desperdício | não serve para juntas |
| Régua metálica com base antiderrapante | guia do corte | mais larga do que os dedos |
| Plaina de juntas / taco de lixa | afinar um bordo de uma pilha de folhas apertada entre duas réguas | aplana o bordo em vez de o cortar |
| Base de corte | proteção da bancada e da lâmina | substituir quando estiver muito marcada |
Precauções no manuseamento de ferramenta de corte manual:
- Corta sempre para longe do corpo e com a mão que segura a régua fora da linha de corte (dedos afastados do bordo).
- Faz várias passagens leves, em vez de uma com força: a lâmina escorrega menos e a folha não rasga.
- Substitui ou afia a lâmina logo que deixa de cortar limpo; lâmina romba obriga a mais força e é a causa mais comum de cortes nas mãos.
- Guarda as lâminas recolhidas ou com proteção; nunca as deixes soltas na bancada ou no bolso.
- Deposita lâminas usadas num recipiente próprio para objetos cortantes.
- Usa luvas resistentes ao corte na mão que segura a régua sempre que o procedimento da oficina o preveja (atenção: estas luvas servem para ferramentas manuais, nunca para máquinas com ferramentas em rotação, onde podem ser agarradas).
6.3 Corte através do fio e cortes em ângulo
- Nos cortes através do fio (topos), a folha tende a lascar no fim do corte. Corta-se de fora para dentro, ou com fita de papel colada sobre a linha de corte.
- Nos cortes em ângulo (espinha, losango, estrela) usa-se um gabarito (em MDF fino ou acrílico) com o ângulo marcado e fixa-se a pilha para que não deslize.
6.4 Exemplo resolvido · preparar as juntas de um livro aberto
Duas folhas consecutivas (7 e 8) vão formar a junta central de um livro aberto.
- Sobrepõem-se as folhas 7 e 8 tal como saíram do bloco (mesma face para cima, alinhadas).
- Traça-se na folha de cima a linha da junta, passando pelo ponto do desenho que deve ficar no eixo.
- Cortam-se as duas juntas numa só passagem na guilhotina (ou com serrote de folha e régua).
- Vira-se a folha 8 como a página de um livro: os dois bordos cortados encostam-se e o desenho fica espelhado.
- Confirma-se à contraluz que não há folga. Qualquer desvio no corte seria reproduzido nas duas folhas de forma simétrica, e é por isso que o corte em conjunto dá juntas melhores do que cortar cada folha separadamente.
7. Máquinas e técnicas de unir folha
Unir é juntar as folhas cortadas numa capa única, com as juntas fechadas e o padrão dos veios respeitado, antes de a colar ao suporte. O referencial pede duas aptidões concretas: unir a folha na máquina por cola termofusível e unir a folha com fita cola.
7.1 União com fita cola
É a técnica manual de base, usada em peças únicas, composições geométricas e reparações.
- Fita gomada (fita de papel com cola que se ativa com água): humedece-se, aplica-se sobre a face à vista, atravessando a junta; ao secar, o papel encolhe ligeiramente e aperta a junta. Depois da prensagem remove-se humedecendo levemente e raspando, e o resto sai na lixagem.
- Fita adesiva de papel (fita de pintor): aplicam-se pedaços curtos atravessados à junta, puxando uma folha contra a outra, e uma tira ao longo da junta. Também vai na face à vista.
Regras:
- A fita vai sempre do lado que não leva cola (a face à vista). Uma fita entre a folha e o suporte fica presa na linha de cola e marca a superfície.
- Não usar fita de plástico ou fita com cola muito agressiva: pode arrancar fibras ao ser removida ou deixar resíduos que impedem o verniz de aderir.
- Retirar a fita no sentido do fio e com cuidado, para não levantar fibras.
7.2 Máquinas de unir folha e suas características
| Máquina | Princípio | Onde fica a união | Características |
|---|---|---|---|
| Máquina de unir de fio termofusível (ziguezague) | um fio revestido de cola termofusível é aquecido e aplicado em ziguezague sobre a junta, enquanto rolos puxam as duas folhas uma contra a outra | no verso da capa (lado que vai ser colado), o fio fica incorporado na linha de cola | rápida, manual ou semiautomática, ideal para juntas longas ao fio; também há modelos portáteis |
| Máquina de unir com cola nos bordos (juntadora longitudinal) | aplica cola nos bordos das folhas e junta-os com pressão e calor | a própria junta, topo a topo, sem fio nem fita | junta muito resistente e limpa, usada em produção de capas em série |
| Aplicadora de fita gomada | dispensa e humedece a fita automaticamente | na face à vista | apoio à união manual em série |
Características a considerar na escolha: comprimento e espessura de folha que a máquina aceita, velocidade de avanço, tipo de fio ou cola, regulação de temperatura e pressão dos rolos, e volume de produção.
7.3 Executar a união na máquina por cola termofusível
- Preparação: liga a máquina e espera que a cabeça atinja a temperatura indicada pelo fabricante; confirma o fio (bobina, passagem, tensão) e a limpeza dos rolos e da mesa.
- Ensaio: une duas tiras de desperdício da mesma espécie e verifica se a junta fecha e se o fio está bem fundido.
- Coloca as folhas com o verso para cima (o lado que vai ser colado), com os bordos cortados encostados na guia.
- Faz avançar as folhas de forma contínua, sem puxar nem travar, com as mãos afastadas dos rolos e da cabeça quente.
- Verifica a junta à contraluz: fechada, sem sobreposição e sem desalinhamento do desenho.
- Desliga ou põe em espera no fim do trabalho, limpa os resíduos de cola da cabeça e da mesa com a máquina desligada e seguindo o manual.
7.4 Cuidados na união (qualquer técnica)
- Confirmar o padrão a seco antes de unir; a união fixa a composição.
- Juntas fechadas, sem folgas nem sobreposições.
- Desenho alinhado na junta (riscas que se encontram, catedrais simétricas).
- Capa manuseada apoiada numa placa, porque as juntas acabadas de fazer são frágeis.
7.5 Exemplo resolvido · qual a técnica de união
a) Livro aberto de 5 folhas para 20 tampos iguais, oficina com máquina de fio termofusível: máquina de fio termofusível, juntas longas ao fio, série repetida. b) Estrela de 8 raios num tampo único: fita gomada ou adesiva de papel na face à vista, porque as juntas convergem para um ponto e são curtas e em ângulo. c) Reparação de uma junta aberta numa porta já folheada: fita adesiva de papel para segurar a folha nova enquanto a cola seca.
8. Tipos de cola e suas características
8.1 Vocabulário das colas
- Tempo aberto: tempo máximo entre aplicar a cola e fechar a prensa. Se for ultrapassado, a cola começa a formar película e perde capacidade de colar.
- Tempo de prensagem: tempo mínimo que a peça tem de ficar sob pressão.
- Tempo de cura (ou de estabilização): tempo depois de sair da prensa até a cola atingir a resistência final e a peça poder ser maquinada, lixada ou empilhada.
- Tempo de vida da mistura (pot life): nas colas com endurecedor, tempo durante o qual a mistura preparada ainda é utilizável.
- Gramagem: quantidade de cola aplicada por metro quadrado (g/m²).
- Cola termoplástica: amolece com o calor e volta a endurecer ao arrefecer (PVA, termofusíveis).
- Cola termoendurecível: endurece por reação química e depois não volta a amolecer (ureia-formaldeído).
8.2 As colas usadas em folheado
| Cola | Como cura | Onde se usa nesta UC | Pontos fortes | Pontos fracos |
|---|---|---|---|---|
| Acetato de polivinilo (PVA, "cola branca", cola vinílica) | perda de água (absorvida pelo suporte e pela folha) | colagem a frio em prensa fria, prensa de membrana, folheamento manual; algumas formulações admitem prensa aquecida | pronta a usar, não tóxica, limpa-se com água enquanto fresca | termoplástica: com calor e carga contínua a junta pode fluir; traz água à folha (pode ondular ou repassar) |
| Ureia-formaldeído (UF, "cola de ureia") | reação química acelerada pelo calor, com endurecedor | colagem a quente em prensa de pratos aquecidos, a cola típica da produção industrial de folheados | linha de cola rígida, não flui, boa resistência ao calor, adequada a interiores | exige preparação (mistura), tempo de vida limitado, liberta formaldeído |
| Termofusível (hot-melt) | arrefecimento (é aplicada fundida) | fio das máquinas de unir folha; orladoras | presa em segundos, sem água | amolece com o calor; não serve para colar a folha à superfície do painel em prensa |
Existem outras colas (de contacto, de poliuretano, colas animais usadas em restauro), mas a escolha para folheado de produção faz-se, na prática, entre PVA a frio e UF a quente. Para ambientes húmidos consulta a classe de durabilidade da cola: as colas termoplásticas para madeira classificam-se de D1 a D4 pela norma europeia EN 204, sendo D4 a mais resistente à água.
8.3 A classificação do referencial: cola fria e cola a quente
O referencial fala em cola fria, cola a quente e cola termofusível (escrito "termo fusível" no documento oficial):
- Cola fria: a que cura à temperatura ambiente, tipicamente a PVA.
- Cola a quente: a que precisa de calor para curar na prensa, tipicamente a UF (e algumas PVA próprias para prensa quente).
- Cola termofusível: a que se aplica fundida e endurece ao arrefecer; nesta UC aparece no fio de unir folha.
Não confundir "cola a quente" (cura com calor na prensa) com "cola termofusível" (aplicada fundida). São coisas diferentes.
8.4 Exemplo resolvido · escolher a cola
a) Série de 60 portas planas para um hotel, oficina com prensa de pratos aquecidos: UF a quente, porque cura em poucos minutos com calor, a linha de cola fica rígida e a produção é repetitiva. b) Tampo único numa oficina pequena, sem prensa quente, com prensa de membrana a vácuo: PVA a frio, própria para folheado. c) Unir as folhas da capa antes da prensagem: fio termofusível na máquina de unir, ou fita. d) Tampo de balcão perto de uma fonte de calor: evita-se depender de colas termoplásticas na superfície; UF a quente é a opção mais segura das três, e a decisão confirma-se com a ficha técnica.
9. Preparar as colas
9.1 Preparar a cola a frio (PVA)
- Lê a ficha técnica: temperatura mínima de utilização, gramagem recomendada, tempo aberto, tempo de prensagem e de cura.
- Confirma a validade e que a cola não gelou (uma PVA que gelou pode ficar granulosa e sem capacidade de colagem).
- Mexe a cola antes de usar, sem introduzir bolhas de ar.
- Confirma a temperatura da oficina, da cola e do suporte: abaixo da temperatura mínima indicada a cola não forma um filme contínuo (fica esbranquiçada e sem força).
- Não dilui com água a não ser que a ficha técnica o permita: mais água significa mais ondulação e mais repasse.
- Planeia o tempo de secagem: o referencial pede especificamente que saibas quanto tempo a peça tem de ficar na prensa e quanto tempo tem de descansar antes de ser trabalhada. Regista esses valores (da ficha técnica) na ficha de produção.
9.2 Preparar a cola a quente (UF)
As colas de ureia-formaldeído fornecem-se como resina (líquida ou em pó) a que se junta um endurecedor e, muitas vezes, uma carga ou extensor (farinha), que dá corpo à mistura e reduz o repasse.
- Lê a ficha técnica: proporções (em massa), ordem de mistura, tempo de vida da mistura, temperatura dos pratos, tempo e pressão de prensagem.
- Pesa os componentes com balança, não a olho.
- Mistura com misturador limpo até ficar homogénea e sem grumos.
- Prepara só a quantidade que vais usar dentro do tempo de vida da mistura.
- Liga a prensa com antecedência para os pratos atingirem a temperatura de regime.
- Usa luvas de proteção química, óculos e ventilação ou captação local, porque a mistura e a prensagem a quente libertam formaldeído.
- Limpa o equipamento de mistura antes de a cola endurecer.
Também "se prepara a quente" o fio termofusível da máquina de unir: aqui preparar é regular a temperatura da cabeça conforme o manual e fazer uma união de ensaio.
9.3 Exemplo resolvido · quantidade de mistura de UF
Série de 20 tampos de 1200 × 600 mm, folheados nas duas faces. A ficha técnica (valores de exercício) indica uma gramagem de 120 g/m² por face e uma mistura de 100 partes de resina para 20 partes de endurecedor, em massa. Prevê-se 10 % de perdas.
- Área de uma face: 1,2 × 0,6 = 0,72 m².
- Área total: 0,72 × 2 faces × 20 tampos = 28,8 m².
- Cola necessária: 28,8 × 120 = 3456 g ≈ 3,46 kg.
- Com perdas: 3,46 × 1,10 ≈ 3,80 kg de mistura.
- A mistura tem 100 + 20 = 120 partes. Resina: 3,80 × 100 ÷ 120 ≈ 3,17 kg. Endurecedor: 3,80 × 20 ÷ 120 ≈ 0,63 kg.
- Verificação: 3,17 + 0,63 = 3,80 kg. ✓
- Se o tempo de vida da mistura não chega para os 20 tampos, divide-se em duas ou mais preparações.
10. Aplicar a cola no material de suporte
10.1 Preparar o suporte
- Suporte adequado ao projeto: MDF (superfície lisa e homogénea, ideal para folha fina), aglomerado de partículas finas na superfície, contraplacado, ou madeira maciça bem seca e estável.
- Calibrado e plano: as irregularidades do suporte "desenham-se" através da folha.
- Limpo e sem pó: o pó impede a cola de aderir.
- Teor de humidade compatível com o da folha e com o ambiente de serviço.
- Em maciço: sem nós soltos nem bolsas de resina à superfície.
10.2 Onde se aplica a cola
Em regra a cola aplica-se no suporte, não na folha. A folha é fina e absorve a água da cola: se a cola lhe fosse aplicada diretamente, ondularia e enrolaria antes de chegar à prensa.
Aplica-se nas duas faces do suporte quando se folheia face e contra-face na mesma prensagem.
10.3 A máquina de encolar
A máquina de encolar (encoladora de rolos) faz passar o painel entre rolos que depositam uma película de cola uniforme nas duas faces ao mesmo tempo. Os rolos doseadores regulam a gramagem.
- Enche o tabuleiro com a cola preparada.
- Regula a abertura dos rolos à espessura do painel e a folga dos doseadores à gramagem pretendida.
- Faz passar uma placa de ensaio, pesa-a antes e depois e calcula a gramagem (ver exemplo 10.5).
- Encola os painéis e coloca-os em cima das capas, dentro do tempo aberto.
- No fim, ou ao mudar de cola, limpa os rolos (água para PVA e UF enquanto frescas) antes de a cola endurecer.
Nunca metas as mãos junto dos rolos em movimento: há zonas de arrastamento. Para limpar, pára a máquina conforme o manual.
10.4 Aplicação manual
Em peças únicas usa-se rolo de espuma ou de borracha, espátula dentada fina ou trincha. A regra é a mesma: película fina e uniforme em toda a superfície, incluindo os bordos.
10.5 Exemplo resolvido · verificar a gramagem
Uma placa de ensaio de 500 × 500 mm pesa 3,220 kg antes de passar na máquina de encolar e 3,280 kg depois (encolada nas duas faces).
- Cola depositada: 3,280 menos 3,220 = 0,060 kg = 60 g.
- Área encolada: 0,5 × 0,5 = 0,25 m² por face, 2 faces = 0,50 m².
- Gramagem: 60 ÷ 0,50 = 120 g/m² por face.
- Compara-se com o valor da ficha técnica e ajusta-se a máquina se necessário.
10.6 Cola a mais e cola a menos
| Situação | O que acontece |
|---|---|
| Cola a mais | a cola é empurrada pelos poros até à face à vista (repasse), manchando a folha e impedindo o tingimento e o verniz de ficarem uniformes; mais água na folha, que pode ondular e fender; desperdício |
| Cola a menos ou mal distribuída | zonas sem aderência: bolhas (folha levantada que soa a oco ao bater com a unha) e descolagens, sobretudo junto aos bordos |
| Tempo aberto ultrapassado | a cola já formou película, a folha não adere apesar da pressão |
11. Máquinas de prensar
A prensa garante contacto íntimo e pressão uniforme entre a folha e o suporte até a cola ganhar presa.
11.1 Prensa de pratos
A prensa de pratos tem dois ou mais pratos planos, rígidos e paralelos, que se fecham sobre o painel por ação de cilindros (normalmente hidráulicos).
- Prensa fria: pratos à temperatura ambiente; usada com PVA; tempos de prensagem maiores.
- Prensa quente: pratos aquecidos (por óleo térmico, água quente ou resistências elétricas); usada com UF ou com PVA próprias; tempos de prensagem curtos.
- Prensa de vários pisos: vários pratos sobrepostos, para prensar vários painéis ao mesmo tempo.
É adequada a peças planas: tampos, portas lisas, painéis.
Executar a prensagem em prensa de pratos, passo a passo:
- Confirma a temperatura dos pratos (prensa quente), a limpeza dos pratos e o funcionamento dos comandos e das proteções.
- Prepara o "sanduíche": placa de proteção ou papel separador, capa da contra-face, painel encolado, capa da face, papel separador. O papel impede que cola que repasse fique agarrada ao prato.
- Centra o conjunto nos pratos. Painéis descentrados recebem pressão desigual.
- Fecha a prensa dentro do tempo aberto da cola.
- Aplica a pressão e o tempo da ficha técnica (ver exemplo 11.4 para o cálculo da força).
- Abre, retira o painel com luvas (se a prensa for quente) e coloca-o deitado sobre ripas, ou em pé bem apoiado, para arrefecer e estabilizar com as duas faces ao ar.
- Não empilhes painéis quentes uns sobre os outros sem arrefecimento: o calor retido continua a atuar e pode provocar deformações.
Segurança: a zona entre pratos é uma zona de esmagamento. Nunca metas as mãos entre os pratos com a prensa em funcionamento, respeita os comandos a duas mãos ou as barreiras de proteção, e usa luvas contra o calor para manusear painéis de prensa quente.
11.2 Prensa de membrana (vácuo)
A prensa de membrana coloca a peça numa mesa e cobre-a com uma membrana flexível (borracha ou silicone). Uma bomba retira o ar de baixo da membrana, que é empurrada pela pressão atmosférica contra a peça, acompanhando o contorno. Algumas prensas de membrana têm também aquecimento.
- É a solução para peças curvas, perfis, portas com relevo ou fresadas e peças com rebordos.
- A pressão máxima possível com vácuo nunca passa da pressão atmosférica, cerca de 0,1 N/mm² (1 bar); na prática fica um pouco abaixo.
- Uma versão simples é o saco de vácuo: a peça e o molde entram num saco estanque ligado a uma bomba.
Executar a prensagem em prensa de membrana:
- Confirma a membrana (sem furos nem cortes) e a bomba (nível de vácuo atingido no manómetro).
- Coloca a peça sobre ripas ou sobre uma rede de respiração, que deixa o ar sair de todos os pontos.
- Protege arestas vivas para não furarem a membrana.
- Fecha, faz vácuo, verifica no manómetro que o valor se mantém (se cair, há fuga).
- Mantém o tempo da ficha técnica; desliga e deixa entrar o ar antes de abrir.
11.3 Outras formas de prensar
Em oficinas pequenas e em restauro prensa-se com sargentos e travessas curvas (as travessas ligeiramente arqueadas empurram primeiro o centro e depois os bordos, expulsando a cola e o ar para fora), com placas rígidas entre a peça e os sargentos, ou com martelo de folhear e cola animal quente (técnica tradicional de restauro).
11.4 Exemplo resolvido · força de prensagem
Um tampo de 1200 × 600 mm vai à prensa de pratos. A ficha técnica da cola (valor de exercício) pede uma pressão de 0,4 N/mm².
- Área em mm²: 1200 × 600 = 720 000 mm².
- Força necessária: F = p × A = 0,4 × 720 000 = 288 000 N = 288 kN.
- Equivalente em massa: 288 000 ÷ 9,81 ≈ 29 358 kg, ou seja cerca de 29 toneladas de força.
- Conclusão: é por isto que as prensas de pratos são hidráulicas. Se o operador usar metade da área dos pratos, tem de reduzir a força para manter a mesma pressão; se meter dois tampos lado a lado, precisa do dobro da força.
Comparação: numa prensa de membrana, com vácuo quase perfeito (0,1 N/mm²), o mesmo tampo recebe 0,1 × 720 000 = 72 000 N, um quarto da pressão do exemplo. Por isso a prensa de membrana usa colas e tempos adequados a pressões mais baixas: segue a ficha técnica.
12. Painel equilibrado: contra-face e sentido do fio
12.1 Porque se usa contra-face
A folha, ao secar a cola e ao trocar humidade com o ar, retrai e dilata de forma diferente do suporte. Se só uma face estiver folheada, essa face puxa (ou empurra) o painel e ele empena, com a concavidade normalmente do lado folheado.
Por isso aplica-se sempre uma folha de contra-face na outra face, com:
- espessura semelhante à da face;
- espécie ou comportamento semelhante (densidade e retração parecidas);
- o fio no mesmo sentido que o fio da face;
- a mesma cola e a mesma prensagem (de preferência na mesma prensagem).
A regra é a da construção simétrica: o que está de um lado do centro do painel tem de estar espelhado do outro.
12.2 Sentido do fio em relação ao suporte
| Suporte | Regra habitual |
|---|---|
| MDF, aglomerado | não têm fio: a folha pode ir em qualquer sentido; face e contra-face no mesmo sentido |
| Contraplacado | o fio da folha fica cruzado (perpendicular) com o fio das folhas exteriores do contraplacado |
| Madeira maciça | a folha segue normalmente o mesmo sentido do fio do maciço, para acompanhar os seus movimentos; se o projeto pedir fio cruzado, cola-se primeiro uma folha intermédia cruzada (contrafolha) e só depois a folha decorativa |
Em peças de exterior ou de ambiente húmido, estas regras são ainda mais importantes, e o suporte e a cola têm de ser próprios para esse uso.
12.3 Exemplo resolvido · diagnosticar um painel empenado
Uma porta em MDF de 19 mm foi folheada só na face à vista, com carvalho de 0,6 mm e PVA. Uma semana depois está côncava do lado folheado.
- Causa provável: falta de contra-face (painel desequilibrado).
- Mecanismo: a folha, ao perder a água que recebeu da cola, retraiu e puxou a face.
- Correção na produção seguinte: folhear as duas faces na mesma prensagem, com folha de espessura semelhante e fio no mesmo sentido.
- A porta empenada raramente se recupera por completo; em regra, refaz-se.
13. Folheamento manual, peças curvas e folha de raiz
13.1 Folheamento manual
O folheamento manual faz-se sem prensa de produção: peças únicas, pequenas séries, reparações e restauro.
Técnicas:
- Com PVA e sargentos: encolar o suporte, colocar a capa, cobrir com papel separador e placa rígida ou travessas curvas, apertar do centro para os bordos.
- Com PVA e ferro de passar (técnica de reativação): aplicar PVA no suporte e na folha, deixar secar até ficar transparente, colocar a folha e passar um ferro quente sobre papel, do centro para fora; o calor amolece a película de cola e une as duas camadas. Serve para peças pequenas e reparações; confirma na ficha técnica se a cola o permite.
- Com cola animal quente e martelo de folhear: técnica tradicional usada em restauro de mobiliário antigo; a cola aquece-se em banho-maria e a folha é pressionada com o martelo de folhear, do centro para os bordos.
Em todas: trabalhar do centro para fora para expulsar o ar e a cola a mais, e confirmar no fim, batendo levemente com a unha, se há zonas ocas.
13.2 Peças de sentido curvo
As peças de sentido curvo (portas curvas, frentes de cómoda abauladas, colunas, braços de cadeira) folheiam-se:
- com prensa de membrana ou saco de vácuo sobre moldes (formas em MDF ou contraplacado com a curvatura da peça);
- ou com moldes macho e fêmea apertados numa prensa ou com sargentos.
Cuidados:
- Ensaiar a curvatura numa tira de desperdício: raios apertados podem fissurar a folha.
- Folhas com reforço de papel ou velo no verso (folha flexível) acompanham melhor curvas apertadas.
- As juntas devem estar bem fechadas antes de curvar, porque a curvatura tende a abri-las.
- Aplicar também contra-face do lado interior da curva, pela mesma razão de equilíbrio.
- Proteger a membrana dos bordos vivos do molde.
13.3 Folha de raiz
A folha de raiz obtém-se de nodosidades e excrescências do tronco ou da cepa junto às raízes. Tem desenho muito decorativo (olhos, ondas, remoinhos), mas:
- é ondulada e raramente fica plana;
- é quebradiça, porque as fibras correm em todas as direções;
- tem muitas vezes pequenos furos e zonas de casca inclusa;
- as folhas são pequenas, por isso compõe-se em livro aberto ou espelhado em quatro.
Executar folheamentos com folha de raiz (preparação prévia do teor de humidade):
- Amaciar: pulverizar as duas faces com água ou, melhor, com um amaciador de folha próprio (produto que mantém a folha flexível sem a encharcar), e deixar absorver o tempo indicado pelo fabricante.
- Aplanar: colocar as folhas entre folhas de papel absorvente e placas planas (de MDF ou contraplacado), com peso ou numa prensa com pressão leve; com a prensa aquecida o processo é mais rápido, se o produto o permitir.
- Secar: trocar o papel absorvente periodicamente (no início com mais frequência) até a folha estar plana e de novo seca, com teor de humidade próximo do do suporte, medido com o medidor.
- Guardar entre placas até ao momento de cortar e colar: se ficar ao ar, volta a ondular.
- Tapar os furos com massa própria ou com a própria folha, e reforçar zonas frágeis com fita de papel na face à vista.
- Colar com prensa, respeitando a ficha técnica da cola; se a folha ainda estiver húmida, a água vai para a linha de cola e surgem bolhas e fendas ao secar.
Humedecer a folha é um passo temporário para a aplanar e cortar sem partir: a folha nunca se cola molhada.
13.4 Exemplo resolvido · a folha de raiz já está pronta?
Depois de aplanada e seca entre placas, uma amostra de folha de raiz pesa 8,70 g. Seca em estufa, a mesma amostra pesa 7,80 g. O suporte está a 9 %.
- Água: 8,70 menos 7,80 = 0,90 g.
- H = 0,90 ÷ 7,80 × 100 ≈ 11,5 %.
- Está 2,5 pontos acima do suporte. A decisão final depende do procedimento da oficina e da ficha técnica da cola, mas quanto mais próximos os valores, menor o risco: neste caso deixa-se secar mais um período entre placas e volta-se a medir com o medidor de humidade.
14. Acabamento de folheados
14.1 Da prensa ao acabamento
- Estabilizar: deixa o painel repousar o tempo de cura indicado pela ficha técnica, com as duas faces ao ar.
- Aparar as sobras: corta a folha que sobra nos bordos com a serra esquadrejadora (em painéis) ou, em peças já à medida, com faca, lima fina ou tupia com fresa de copiar, de fora para dentro para não lascar os cantos.
- Inspecionar: bater levemente com a unha para detetar zonas ocas; ver a superfície com luz rasante.
- Retirar a fita: humedecer ligeiramente a fita gomada e raspar; retirar a fita de papel no sentido do fio. Nunca lixar a fita "a seco" à força.
- Reparar os defeitos detetados (ver 14.3).
- Lixar (14.2) e aplicar o acabamento.
14.2 Executar a lixagem final da peça
A folha tem poucas décimas de milímetro: a lixagem é para alisar e preparar para o acabamento, não para desbastar.
- Começa com um grão médio-fino (por exemplo P120 ou P150) e nunca com grão grosso; termina no grão pedido pelo sistema de acabamento (é habitual acabar entre P180 e P240, conforme a espécie e o produto).
- Não saltes mais de um grão de cada vez: cada grão tem de apagar os riscos do anterior.
- Lixa no sentido do fio. Nos padrões com fio em várias direções (espinha, estrela, xadrez), lixa cada zona no seu sentido ou usa lixadora orbital excêntrica com pressão leve e grão fino.
- Com lixadora, pressão leve e movimento constante; parar a lixadora num ponto fura a folha.
- Atenção redobrada nos bordos e nas juntas, onde a lixa corta mais depressa.
- Usa lixadora com aspiração ligada e remove o pó com aspirador e pano antiestático antes do acabamento.
- Uma folha atravessada pela lixa (vê-se o suporte ou a linha de cola) não tem correção: é preciso substituir a zona ou refolhear.
14.3 Defeitos, causas e correções
| Defeito | Causa provável | Correção |
|---|---|---|
| Bolha (zona oca) | falta de cola, pressão insuficiente, tempo aberto ultrapassado, folha húmida | com PVA: aquecer com ferro sobre papel e pressionar; ou abrir um corte fino ao fio, injetar cola com seringa e prensar com calço e sargento |
| Descolagem nos bordos | cola a menos nos bordos, painel descentrado na prensa | levantar ligeiramente, injetar cola, prensar |
| Repasse de cola (manchas) | cola a mais, cola demasiado fluida, poro aberto | raspar e lixar com cuidado; prevenir ajustando a gramagem e a viscosidade |
| Junta aberta | corte deficiente, folha húmida que retraiu | encher com lasca da mesma folha ou massa da cor; prevenir com corte em conjunto e humidade controlada |
| Junta sobreposta | união mal feita | não tem boa correção: prevenir verificando à contraluz |
| Fendas na folha | folha seca demais, raiz mal preparada, suporte com humidade alta | substituir a zona (remendo em losango ao fio) |
| Lixa atravessou a folha | grão grosso, pressão excessiva | remendo ou refolhear |
| Painel empenado | falta de contra-face, humidades diferentes | refazer com construção equilibrada |
| Marca de fita | fita entre a folha e o suporte, ou fita mal removida | prevenir: fita sempre na face à vista |
14.4 O acabamento final
O acabamento (verniz, óleo, cera, lacas, tintas) segue a ficha técnica do produto e o projeto. No folheado há duas regras específicas:
- Não molhar em excesso: acabamentos muito aquosos podem levantar o fio e, se a cola for sensível à água, favorecer bolhas. Faz um ensaio numa sobra do mesmo painel.
- O repasse de cola não aceita tingimento: se for tingir, a superfície tem de estar completamente livre de cola, senão ficam manchas claras.
15. Manutenção e limpeza das máquinas
A manutenção preventiva faz parte da competência: uma máquina suja ou mal afinada produz juntas abertas, bolhas e riscos, e aumenta o risco de acidente. Toda a limpeza e manutenção faz-se com a máquina parada e desligada da energia (e, quando aplicável, consignada: bloqueada e sinalizada), seguindo o manual do fabricante.
| Máquina | Limpeza (no fim de cada utilização) | Manutenção preventiva (periódica) |
|---|---|---|
| Guilhotina de folha | remover aparas e pó da mesa e do calcador | afiar ou trocar a lâmina, verificar o paralelismo e o esquadro dos batentes, testar o comando a duas mãos e as proteções |
| Máquina de unir (fio termofusível) | limpar resíduos de cola da cabeça e dos rolos, com a cabeça fria ou conforme o manual | verificar a temperatura, os rolos de arrasto, a guia, a bobina e a passagem do fio |
| Máquina de encolar | lavar os rolos e o tabuleiro antes de a cola endurecer | verificar o estado da borracha dos rolos, a regulação dos doseadores, os raspadores |
| Prensa de pratos | limpar os pratos de cola repassada com espátula própria, sem riscar | verificar o óleo hidráulico e as fugas, os manómetros, a temperatura dos pratos, as proteções e a paragem de emergência |
| Prensa de membrana | limpar a membrana e a mesa | verificar a membrana (furos, desgaste), a bomba de vácuo e os vedantes |
| Lixadoras e aspiração | esvaziar sacos e filtros com cuidado (pó) | trocar filtros, verificar as mangueiras e a ligação à terra |
Limpar também os resíduos no espaço de trabalho: aparas de folha e restos de fita em contentor próprio, cola líquida e embalagens de UF encaminhadas como resíduos conforme a ficha de dados de segurança e as regras da oficina, pó aspirado (nunca soprado com ar comprimido).
Uma ficha de manutenção por máquina (data, operação, quem fez, observações) permite provar que a manutenção foi feita e antecipar avarias.
16. Segurança e saúde no trabalho e equipamentos de proteção individual
16.1 O enquadramento legal (princípios)
- Lei n.º 102/2009: regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho. O empregador avalia os riscos e organiza a prevenção; o trabalhador cumpre as instruções, usa corretamente os equipamentos e comunica as situações de perigo.
- Decreto-Lei n.º 50/2005: requisitos mínimos de segurança na utilização de equipamentos de trabalho (proteções, comandos, paragem de emergência, manutenção, formação dos operadores).
- Decreto-Lei n.º 348/93 e Portaria n.º 988/93: prescrições mínimas de utilização dos EPI.
- Decreto-Lei n.º 35/2020: transpõe, entre outras, a Diretiva (UE) 2017/2398 e atualiza a proteção dos trabalhadores contra agentes cancerígenos, incluindo as poeiras de madeira de folhosas e o formaldeído.
- Na colocação das máquinas no mercado aplica-se a Diretiva Máquinas (transposta pelo Decreto-Lei n.º 103/2008); o novo Regulamento (UE) 2023/1230 aplica-se a partir de 20 de janeiro de 2027.
A ordem da prevenção é sempre: eliminar o risco → proteções coletivas (proteções das máquinas, aspiração, ventilação) → organização (procedimentos, formação) → EPI. O EPI é a última barreira, não a primeira.
16.2 Riscos específicos desta UC
| Operação | Risco principal | Medidas |
|---|---|---|
| Corte em guilhotina | corte e esmagamento dos dedos | proteções e comando a duas mãos sempre ativos, mãos fora da zona da lâmina, lâmina afiada |
| Corte manual | cortes nas mãos | cortar para longe do corpo, lâmina afiada, régua com base antiderrapante, luva anticorte na mão da régua |
| Máquina de unir | queimadura na cabeça quente, arrastamento nos rolos | mãos afastadas, não limpar em funcionamento |
| Preparação da UF | contacto com a pele e olhos, inalação | luvas de proteção química, óculos, ventilação; ler a ficha de dados de segurança |
| Máquina de encolar | arrastamento entre rolos | nunca meter as mãos com os rolos em movimento, paragem de emergência acessível |
| Prensa de pratos | esmagamento, queimadura (prensa quente), vapores de formaldeído | comandos e proteções, luvas contra o calor, captação ou ventilação |
| Prensa de membrana | projeção se a membrana rebentar, esmagamento | membrana em bom estado, arestas protegidas |
| Lixagem | pó de madeira, ruído, vibração | aspiração na origem, proteção respiratória quando a aspiração não chega, proteção auditiva |
| Manuseamento de painéis | esforços, quedas de painéis | levantar com as pernas, pedir ajuda ou usar meios mecânicos |
16.3 O pó de madeira e o formaldeído
- O pó de madeiras duras (folhosas) é um agente cancerígeno reconhecido (está associado a cancro das fossas nasais e dos seios perinasais). A Diretiva (UE) 2017/2398 fixou-lhe um valor-limite de exposição profissional de 2 mg/m³ (média de 8 horas), aplicável desde 18 de janeiro de 2023 (antes vigorava, transitoriamente, 3 mg/m³). A resposta é captar o pó na origem (lixadoras com aspiração, aspiração ligada às máquinas), limpar por aspiração e usar máscara FFP2 ou FFP3 quando a captação não chega.
- O formaldeído libertado pelas colas UF (sobretudo na mistura e na prensagem a quente) está classificado como cancerígeno e é irritante para os olhos e as vias respiratórias. Controla-se com ventilação e captação junto à prensa, com colas e painéis de baixa emissão e seguindo a ficha de dados de segurança.
16.4 Equipamentos de proteção individual (EPI)
| EPI | Quando |
|---|---|
| Óculos de proteção | corte, preparação de colas, lixagem, limpeza de máquinas |
| Luvas anticorte | manuseamento de lâminas e corte manual (nunca junto de ferramentas em rotação) |
| Luvas de proteção química (nitrilo, por exemplo) | preparação e aplicação de UF, limpeza com solventes |
| Luvas contra o calor | retirar painéis da prensa quente, trabalho junto da cabeça da máquina de unir |
| Máscara FFP2 ou FFP3 | lixagem e limpeza de pó quando a aspiração não chega |
| Proteção auditiva | lixagem e máquinas ruidosas; obrigatória a partir dos valores de ação fixados na legislação do ruído (Decreto-Lei n.º 182/2006) |
| Calçado de segurança | toda a oficina (quedas de painéis e ferramentas) |
| Vestuário ajustado | toda a oficina: nada de roupa larga, cabelo solto, fios, pulseiras ou anéis perto de rolos e máquinas em movimento |
Utilizar o EPI inclui escolher o adequado, verificar o estado antes de usar, guardá-lo limpo e substituí-lo quando danificado ou fora de prazo (os filtros das máscaras e as máscaras descartáveis têm duração limitada).
17. Normas da qualidade
Aplicar as normas da qualidade significa trabalhar segundo especificações escritas, verificar em cada etapa e registar o que se fez, para que o resultado seja repetível e rastreável. Muitas empresas organizam isto num sistema de gestão da qualidade segundo a norma NP EN ISO 9001; na oficina, isso traduz-se em fichas de produção, listas de verificação e registos.
17.1 Pontos de controlo
| Etapa | O que se verifica | Critério |
|---|---|---|
| Receção da folha | espécie, bloco, espessura, humidade, defeitos | conforme a encomenda e o projeto |
| Preparação | planura, humidade, sequência numerada | folha plana, humidade compatível com o suporte |
| Corte | retidão das juntas, esquadria, margem | sem luz à contraluz, margem prevista |
| União | juntas fechadas, desenho alinhado, padrão | conforme o projeto |
| Encolagem | gramagem, tempo aberto | dentro dos valores da ficha técnica |
| Prensagem | temperatura, pressão, tempo | dentro dos valores da ficha técnica |
| Acabamento | ausência de bolhas, repasse, riscos, folha atravessada | inspeção com luz rasante e ao toque |
| Painel final | planeza, medidas, face e contra-face | conforme o desenho |
17.2 O registo de produção
Para cada lote de peças regista-se: data, operador, espécie e número de bloco e pacotes, espessura da folha, humidade da folha e do suporte, cola (produto, lote, gramagem, mistura), prensa (temperatura, pressão, tempo), defeitos encontrados e correções.
O registo serve para:
- diagnosticar um defeito que apareça semanas depois (qual a cola, qual o tempo?);
- repetir um bom resultado;
- cooperar com a equipa: quem pega no trabalho a seguir sabe exatamente o que foi feito;
- comprovar perante o cliente o que foi entregue.
A qualidade de um folheado não se mede só à saída da prensa: mede-se também um ano depois, quando a peça continua sem bolhas, fendas ou descolagens. Isso exige empenho e persistência em todas as etapas, sentido crítico para rejeitar uma folha ou refazer uma junta, e respeito pelas regras e normas definidas.
17.3 Exemplo resolvido · lista de verificação antes de fechar a prensa
- Capa unida conforme o padrão, fita na face à vista? ✓
- Contra-face preparada, fio no mesmo sentido da face? ✓
- Gramagem verificada na placa de ensaio? ✓
- Pratos à temperatura e tempo aberto dentro do limite? ✓
- Papel separador colocado, painel centrado? ✓
- Zona livre, mãos fora dos pratos, EPI calçado? ✓
Só com todas as respostas "sim" se fecha a prensa.
Erros comuns
- Baralhar as folhas do pacote ou misturar blocos diferentes na mesma face à vista.
- Cortar sem margem para aparar depois da prensagem.
- Cortar as folhas de uma junta separadamente, em vez de as cortar em conjunto.
- Colocar fita entre a folha e o suporte: a fita vai sempre na face à vista.
- Aplicar a cola na folha em vez de no suporte, fazendo-a ondular.
- Cola a mais (repasse) ou cola a menos (bolhas e descolagens).
- Confundir cola a quente com cola termofusível: o termofusível serve para unir folhas, não para colar a capa ao painel na prensa.
- Ultrapassar o tempo aberto ou o tempo de vida da mistura.
- Retirar a peça da prensa antes do tempo ou empilhar painéis quentes.
- Esquecer a contra-face, obtendo painéis empenados.
- Colar folha de raiz ainda húmida depois de a amaciar.
- Lixar com grão grosso ou parar a lixadora num ponto, atravessando a folha.
- Lixar sem aspiração nem proteção respiratória.
- Limpar máquinas em movimento ou anular proteções "para ir mais depressa".
Glossário
- Amaciador de folha: produto aplicado na folha de raiz para a tornar flexível antes de a aplanar.
- Bloco (lote): conjunto das folhas cortadas do mesmo toro ou meio toro, mantidas pela ordem de corte.
- Capa: conjunto de folhas já unidas, pronto a colar no suporte.
- Catedral: desenho em arcos da folha faqueada no plano tangencial.
- Contra-face: folha colada na face oposta à face à vista, para equilibrar o painel.
- Desenrolamento: obtenção de folha contínua fazendo rodar o toro contra uma faca.
- Deslizante (slip match): folhas consecutivas lado a lado, com a mesma face para cima.
- Espinha: composição em V com faixas de folha cortadas em diagonal e montadas em espelho.
- Faqueado: obtenção de folha por corte plano de um bloco (a folha "laminada" do referencial).
- Fio termofusível: fio revestido de cola que funde com o calor, usado nas máquinas de unir folha.
- Gramagem: quantidade de cola por metro quadrado (g/m²).
- Guilhotina de folha: máquina de corte de folha em pilha, com calcador e lâmina.
- Listado: desenho em riscas paralelas da folha cortada no plano radial.
- Livro aberto (book match): folhas consecutivas viradas alternadamente, formando simetria em espelho.
- Máquina de encolar: máquina de rolos que aplica cola uniforme no suporte.
- Pacote: subdivisão de um bloco de folha, com etiqueta.
- Prensa de membrana: prensa que usa uma membrana flexível e vácuo para prensar peças curvas ou com relevo.
- Prensa de pratos: prensa com pratos planos, frios ou aquecidos, para peças planas.
- Repasse: cola que atravessa os poros da folha e aparece na face à vista.
- Suporte: painel ou peça sobre a qual se cola a folha.
- Tempo aberto: tempo máximo entre encolar e fechar a prensa.
- Tempo de vida da mistura: tempo de utilização de uma cola depois de misturada com o endurecedor.
- Teor de humidade: massa de água a dividir pela massa anidra da madeira, vezes 100.
- Ureia-formaldeído (UF): cola termoendurecível, curada a quente com endurecedor, típica da prensagem de folheados.
- Veio: desenho visível da madeira, resultante dos anéis, dos raios e da orientação das fibras.
Síntese
Executar e aplicar folheados segue sempre a mesma ordem:
- Selecionar e preparar a folha: espécie, bloco e pacotes pela ordem, defeitos, humidade, planura (folha de raiz amaciada, aplanada e seca).
- Cortar em pilha, na guilhotina ou à mão, com margem e juntas retas.
- Unir segundo o padrão dos veios (livro aberto, deslizante, espinha, estrela), com fita na face à vista ou fio termofusível no verso.
- Preparar a cola: PVA a frio ou UF a quente, sempre pela ficha técnica.
- Encolar o suporte com a gramagem certa (máquina de encolar ou à mão).
- Prensar: prensa de pratos para peças planas, prensa de membrana para peças curvas; face e contra-face juntas, com o fio no mesmo sentido.
- Acabar: estabilizar, aparar, retirar a fita, reparar, lixar com grão fino e aplicar o acabamento.
- Limpar e manter as máquinas e registar o que se fez.
Em todas as etapas: EPI adequado, proteções das máquinas ativas, pó e formaldeído controlados, e verificações de qualidade antes de avançar.
Exercícios resolvidos
1. Uma peça de destaque precisa de folha com riscas regulares, de um só bloco. Que processo de obtenção e que tipo de corte escolhes?
Resolução: folha faqueada (a "laminada" do referencial) cortada no plano radial, que dá o desenho listado. O desenrolamento dá um desenho largo e irregular, mais usado em contraplacados e contra-faces.
2. Uma amostra de folha pesa 15,6 g e, seca em estufa, 14,0 g. Qual é o teor de humidade?
Resolução: água = 15,6 menos 14,0 = 1,6 g. H = 1,6 ÷ 14,0 × 100 ≈ 11,4 % (em base seca: divide-se pela massa anidra).
3. Num livro aberto, uma folha foi colocada com a face errada para cima. O que acontece e como se evita?
Resolução: as juntas dessa folha deixam de ser espelhadas: o desenho quebra a meio da peça e a folha reflete a luz de forma diferente das vizinhas. Evita-se numerando as folhas, montando a composição a seco e conferindo sequência e faces antes de unir.
4. Onde se aplica a fita gomada e onde fica o fio termofusível numa capa unida?
Resolução: a fita gomada vai na face à vista (a que não leva cola) e é removida depois da prensagem; o fio termofusível fica no verso, o lado que vai ser colado, e fica incorporado na linha de cola.
5. Vais folhear 30 portas planas numa prensa de pratos aquecidos. Que cola escolhes e que cuidados tens na preparação?
Resolução: ureia-formaldeído (UF) a quente. Pesa resina, endurecedor e carga pelas proporções da ficha técnica, prepara só a quantidade que usas dentro do tempo de vida da mistura, confirma a temperatura dos pratos e usa luvas de proteção química, óculos e ventilação por causa do formaldeído.
6. Um tampo de 1000 × 500 mm vai ser prensado a 0,3 N/mm² (valor de exercício). Que força deve fazer a prensa?
Resolução: A = 1000 × 500 = 500 000 mm². F = 0,3 × 500 000 = 150 000 N = 150 kN (cerca de 15 toneladas de força).
7. Uma peça tem forma curva. Que prensa usas e que cuidados tens?
Resolução: prensa de membrana (ou saco de vácuo) sobre um molde com a curvatura da peça. Ensaiar o raio numa tira de folha, usar folha flexível se o raio for apertado, contra-face também do lado interior e proteger a membrana das arestas vivas.
8. Que preparação exige a folha de raiz e qual é o erro a evitar?
Resolução: amaciar (água ou amaciador), aplanar entre placas e papel absorvente, secar trocando o papel até a folha ficar plana e com humidade próxima da do suporte, e guardar entre placas até colar. O erro a evitar é colá-la ainda húmida: a água vai para a linha de cola e surgem bolhas e fendas.
9. Um painel de MDF folheado só de um lado empenou. Porquê e como se corrige na produção seguinte?
Resolução: o painel está desequilibrado: a folha retraiu e puxou a face. Corrige-se folheando face e contra-face na mesma prensagem, com folhas de espessura e comportamento semelhantes e com o fio no mesmo sentido.
10. Qual é o valor-limite de exposição ao pó de madeira dura em vigor e como se controla na lixagem?
Resolução: 2 mg/m³ (média de 8 horas), desde 18 de janeiro de 2023, fixado pela Diretiva (UE) 2017/2398 e transposto pelo Decreto-Lei n.º 35/2020. Controla-se com aspiração na origem (lixadora ligada ao aspirador), limpeza por aspiração e máscara FFP2 ou FFP3 quando a captação não chega.