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UC · Unidade de Competência · UC02117

Sebenta · Executar e aplicar folheados de madeira (UC02117)

Folha de madeira, corte, colas, máquinas de unir, prensagem e acabamento de folheados
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Marcenaria e Carpintari ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a executar e aplicar folheados de madeira: preparar e unir folhas finas de madeira natural e colá-las sobre um suporte (aglomerado, MDF, contraplacado ou madeira maciça), dando-lhe o aspeto, a cor e o desenho de uma madeira que, em maciço, seria cara, escassa ou instável. É uma competência central nas indústrias de carpintaria e mobiliário com madeira e noutras indústrias da segunda transformação da madeira (portas, painéis de revestimento, interiores de lojas, hotéis e embarcações).

O título da UC tem dois verbos e cada um corresponde a uma parte do trabalho:

O percurso segue a ordem real de trabalho de uma oficina: conhecer a matéria-prima → selecionar e preparar a folha → cortar → unir → escolher e preparar a cola → encolar → prensar → acabar → limpar e manter as máquinas. A segurança e a qualidade não são um capítulo à parte: aparecem em cada etapa.

Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar as máquinas e os materiais; operar máquinas e ferramentas; e colar folha em painel, unindo a folha de acordo com o padrão dos veios, aplicando a folha de acordo com as características técnicas do projeto e cumprindo as normas de segurança e saúde no trabalho.

Como usar esta sebenta

  1. Lê cada capítulo pela ordem: cada etapa depende da anterior.
  2. Refaz os exemplos resolvidos com papel e calculadora antes de ler a resolução.
  3. Na oficina, leva a lista de verificação do capítulo 16 e o registo de produção do capítulo 17.
  4. Sempre que a sebenta disser "consulta a ficha técnica", fá-lo mesmo: tempos, temperaturas, pressões e gramagens de cola dependem do produto concreto e não há valores universais. Os números que aparecem nos exemplos são valores de exercício, escolhidos para treinar as contas.

1. O que são folheados de madeira

Um folheado é um painel ou peça em que uma folha fina de madeira natural (a "folha") está colada sobre um suporte. Ao conjunto chama-se painel folheado; à operação chama-se folhear ou folheamento.

1.1 Porque se folheia

1.2 Limitações

1.3 Onde se aplica

Setor Exemplos
Mobiliário tampos de mesa, portas de armário, frentes de gaveta, laterais de cómoda
Carpintaria de interiores portas interiores, painéis de revestimento de paredes, tetos
Contract (hotelaria, lojas, escritórios) balcões, receções, cabeceiras, painéis de parede
Náutica e automóvel interiores de embarcações, painéis decorativos
Restauro reposição de folha em mobiliário antigo

1.4 Folheado não é laminado nem papel decorativo

Revestimento O que é a superfície Como se reconhece
Folheado de madeira madeira natural fina poros e veio reais, cada painel é diferente, aceita verniz e óleo
Melamina papel impresso impregnado de resina desenho repetido, superfície plástica, não se lixa
Laminado de alta pressão (HPL, "fórmica") várias camadas de papel e resina prensadas lâmina dura com bordo escuro visível
Folha reconstituída madeira natural desfeita em folha, tingida, colada em bloco e refaqueada desenho regular e repetível, mas é madeira

Ao longo de todo o processo o técnico exerce responsabilidade e autonomia: decide a sequência das folhas, confirma o resultado em cada etapa e assume as consequências de cada escolha. O trabalho é também de cooperação com a equipa (as mesmas guilhotinas, máquinas de unir e prensas são partilhadas) e de sentido de organização (folhas fora de ordem ou mal guardadas estragam a composição).

2. A madeira por detrás da folha

Para trabalhar bem a folha é preciso perceber a madeira de onde ela vem.

2.1 As três direções da madeira

A madeira é anisotrópica: comporta-se de forma diferente conforme a direção.

Com a variação de humidade, a retração tangencial é, em regra, cerca do dobro da radial, e a longitudinal é desprezável. É por isso que uma tábua larga empena e que uma folha colada só de um lado puxa o painel.

2.2 Secções e desenho do veio

O desenho que se vê na folha depende do plano em que a madeira foi cortada:

Plano de corte Desenho típico Nome comercial habitual
Tangencial (paralelo a uma tangente aos anéis) arcos e "chamas" em forma de catedral catedral ou flor
Radial (passa pela medula) riscas paralelas e regulares listada ou riscado
Intermédio riscas com alguma ondulação meio-listado
Desenrolado (corte a toda a volta do toro) desenho largo, ondulado, pouco regular desenrolada

2.3 O teor de humidade

O teor de água (ou teor de humidade) da madeira calcula-se em base seca:

H (%) = (massa húmida menos massa anidra) ÷ massa anidra × 100

A "massa anidra" é a massa da mesma amostra depois de seca em estufa até deixar de perder peso.

Exemplo resolvido 2.1 · calcular o teor de humidade de uma folha

Uma amostra de folha pesa 12,4 g. Depois de seca em estufa até massa constante pesa 11,2 g.

  1. Água na amostra: 12,4 menos 11,2 = 1,2 g.
  2. Divide pela massa anidra (não pela húmida): 1,2 ÷ 11,2 = 0,107.
  3. Multiplica por 100: H ≈ 10,7 %.

Erro frequente: dividir pela massa húmida (1,2 ÷ 12,4 = 9,7 %), o que dá um valor mais baixo e errado.

Na oficina usa-se sobretudo o medidor de humidade (higrómetro de agulhas ou de contacto), escolhendo a espécie correta no aparelho. O método da estufa serve para calibrar e para resolver dúvidas.

Porque interessa: a folha, o suporte e o ambiente onde a peça vai viver devem estar em humidades compatíveis. Para mobiliário e carpintaria de interior aponta-se habitualmente para valores da ordem de 8 a 12 %; a carpintaria de exterior trabalha com valores mais altos. Uma folha demasiado húmida no momento da colagem traz água a mais para a linha de cola, o que favorece bolhas, repasse e fendas quando secar; uma folha demasiado seca fica quebradiça e parte-se ao manusear.

2.4 Espécies usadas em folha

Quase todas as espécies comerciais existem em folha. Algumas frequentes nas oficinas portuguesas: carvalho, freixo, faia, nogueira (incluindo a folha de raiz de nogueira), cerejeira, bétula, ácer, sapeli e outras tropicais, e eucalipto (que um fabricante ibérico também comercializa fumado). A escolha depende do projeto: cor, desenho, preço, disponibilidade e comportamento ao acabamento.

3. A folha de madeira: características e obtenção

3.1 Características da folha

3.2 Processos de obtenção

O referencial fala em folha laminada e folha por desenrolamento. Na indústria, a folha "laminada" é a folha obtida por corte plano, também chamada faqueada.

Em qualquer dos processos, os toros ou blocos são primeiro amaciados (vaporizados ou cozidos em água quente) para que a faca corte sem rasgar. Depois do corte, as folhas passam num secador e são empilhadas pela ordem em que saíram do bloco.

Processo Como funciona Desenho Usos típicos
Faqueado (corte plano, "laminada") o bloco (meio toro, quarto de toro) é fixado e uma faca corta fatias paralelas num movimento de vaivém catedral, listado ou meio-listado, conforme a orientação do bloco folha decorativa para mobiliário e revestimentos
Desenrolamento (corte rotativo) o toro roda sobre o seu eixo num torno desenrolador e uma faca avança contra ele, tirando uma folha contínua, como se desenrolasse um rolo de papel desenho largo e irregular folhas para contraplacado, contra-faces, algumas folhas decorativas
Meio-desenrolado (variante) o bloco é montado fora do eixo do torno e cortado em arco intermédio entre catedral e desenrolado folhas decorativas de algumas espécies
Serrado a folha é serrada, com perda de serradura igual ao da tábua folhas grossas, restauro, espécies difíceis de faquear

3.3 Da fábrica à oficina: bloco e pacote

Regra de ouro: nunca baralhes as folhas de um pacote e numera-as a giz ou lápis macio num canto que vá ser aparado, antes de começar a trabalhar.

3.4 Tipos de aplicação

Aplicação Exigência Folha adequada
Face à vista de peça de destaque desenho, cor, ausência de defeitos, possibilidade de composição faqueada de primeira escolha, bloco inteiro
Face à vista corrente aspeto uniforme faqueada ou desenrolada decorativa
Contra-face (lado de trás) equilíbrio do painel, aspeto secundário folha de escolha inferior ou espécie mais barata, com comportamento semelhante
Folha técnica (camadas interiores, contraplacado) resistência e custo desenrolada
Peças curvas flexibilidade folha fina, eventualmente com reforço de papel ou velo no verso

Os painéis folheados industriais identificam a combinação de faces com letras, por exemplo A/A (face e contra-face da mesma espécie e qualidade), A/B (mesma espécie, contra-face de qualidade inferior) ou A/C (contra-face de outra espécie, não decorativa).

3.5 Exemplo resolvido · o rendimento da folha

Um bloco de nogueira tem 100 mm de espessura útil. Comparamos, de forma simplificada, serrar tábuas de 22 mm (com uma perda de 4 mm de serradura por corte) e faquear folha de 0,6 mm (sem serradura).

  1. Tábuas: cada tábua "consome" 22 + 4 = 26 mm. 100 ÷ 26 = 3,8, ou seja 3 tábuas inteiras.
  2. Folhas: 100 ÷ 0,6 = 166,7, ou seja 166 folhas.
  3. Cada tábua e cada folha cobrem a mesma área (a face do bloco). A razão de superfície é 166 ÷ 3 ≈ 55 vezes.

Na prática perde-se folha no arranque do bloco, no desbaste dos bordos e na classificação, por isso os valores reais são menores, mas a ordem de grandeza (dezenas de vezes) explica a importância económica do folheado.

3.6 Exemplo resolvido · escolher o processo certo

Uma marcenaria precisa de folha para a face à vista de um tampo de reunião e para a contra-face do mesmo tampo.

  1. Face à vista: o cliente quer riscas regulares e sóbrias. Escolhe-se folha faqueada listada (corte radial), de um único bloco.
  2. Contra-face: não se vê, mas tem de equilibrar o painel. Escolhe-se folha de espessura e comportamento semelhantes (a mesma espécie em escolha inferior ou uma folha de contra-face indicada pelo fornecedor).
  3. Regista-se na ficha de produção: espécie, número do bloco e dos pacotes, espessura, fornecedor.

4. Seleção e preparação da folha

Selecionar a folha é a primeira aptidão do referencial e condiciona tudo o resto.

4.1 Critérios de seleção

  1. Especificação do projeto: espécie, tipo de corte (catedral, listado), cor, acabamento previsto.
  2. Quantidade: área necessária mais perdas (ver exemplo 4.4). Todas as folhas de uma face à vista devem vir do mesmo bloco.
  3. Defeitos: nós soltos, fendas, bolsas de resina, manchas de fungos ou de água, furos de insetos, rasgões, ondulação excessiva, superfície arrepiada (fibras levantadas por um corte deficiente).
  4. Uniformidade de cor ao longo do pacote. Olha-se a folha molhada com um pano húmido ou com álcool para prever a cor depois do acabamento.
  5. Largura útil: a largura depois de cortados os bordos irregulares.

As folhas com pequenos defeitos não se deitam fora sem avaliação: servem para zonas que ficam tapadas, para contra-faces ou para peças pequenas.

4.2 Preparação da folha

4.3 Armazenamento

Folhas guardadas na horizontal, em local fresco, com humidade estável, ao abrigo da luz e do pó, dentro do pacote original e com a etiqueta. Nunca encostadas na vertical (deformam) nem ao sol (mudam de cor).

4.4 Exemplo resolvido · quantas folhas são precisas

Um tampo tem 1200 × 600 mm e vai ser folheado em livro aberto, com as juntas no sentido do comprimento. As folhas do pacote têm 1300 mm de comprimento e 140 mm de largura útil depois de desbastados os bordos. Deixa-se uma sobra de 10 mm a toda a volta para aparar depois de prensado.

  1. Dimensões da capa: 1200 + 2 × 10 = 1220 mm de comprimento; 600 + 2 × 10 = 620 mm de largura.
  2. Comprimento: 1300 mm chegam para 1220 mm. Uma folha por faixa.
  3. Número mínimo de faixas: 620 ÷ 140 = 4,4, arredonda-se para 5.
  4. Mas o livro aberto pede simetria. Há duas soluções:
  5. Número par, junta ao centro: 6 folhas, cada uma com 620 ÷ 6 ≈ 103,3 mm de largura.
  6. Número ímpar, folha ao centro: 5 folhas, cada uma com 620 ÷ 5 = 124 mm, com a folha central centrada no eixo.
  7. Escolhe-se a solução de 5 folhas (menos juntas e cabe na largura útil de 140 mm).
  8. Contra-face: mais 5 folhas (ou folha de contra-face já unida). Reserva-se ainda 1 ou 2 folhas para ensaios e substituições.

5. O padrão dos veios e os folheados em espinha

Unir a folha de acordo com o padrão dos veios é o primeiro critério de desempenho desta UC. O padrão decide-se no projeto, antes de cortar: depois de cortada a folha já não há volta atrás.

5.1 Ler a folha

Antes de compor, observa em cada folha:

5.2 Padrões de junção entre folhas

Padrão Como se monta Efeito Atenção
Livro aberto (book match) folhas consecutivas, virando uma sim, outra não, como as páginas de um livro aberto simetria em espelho em cada junta as folhas viradas refletem a luz ao contrário: faixas alternadamente claras e escuras
Deslizante (slip match) folhas consecutivas lado a lado, todas com a mesma face para cima desenho que se repete, cor uniforme não há simetria; bom para listados
Aleatório (random) folhas sem ordem, às vezes de blocos diferentes aspeto de tábuas soltas exige critério para não parecer um erro
Espelhado em quatro (quarter match) quatro folhas consecutivas em livro aberto nos dois sentidos simetria em cruz a partir do centro as quatro folhas têm de ser muito iguais, típico em raízes
Espinha faixas cortadas em diagonal e montadas em espelho veios em V (espinha de peixe) rigor do ângulo
Losango e estrela (radial) peças triangulares ou trapezoidais a convergir para o centro geometria radial soma dos ângulos igual a 360 graus
Xadrez quadrados com o fio alternadamente a 0 e a 90 graus efeito de tabuleiro a folha a 90 graus reflete a luz de forma diferente

5.3 Composição no painel

Além da junção entre folhas, decide-se como a composição se centra no painel:

5.4 Folheados em espinha

O folheado em espinha (também chamado espinha de peixe ou chevron) forma um desenho em V: as folhas, normalmente de desenho listado, são cortadas em faixas em diagonal em relação ao fio e montadas em espelho (as faixas de um lado da junta são viradas como no livro aberto), de modo que o veio de cada lado converge para a linha de junta.

Como se executa:

  1. Escolhem-se folhas consecutivas do mesmo pacote, de preferência listadas (as riscas tornam o V bem visível).
  2. Define-se no projeto o ângulo do fio em relação à junta. O mais comum é 45 graus, o que dá um V de 90 graus entre os dois lados.
  3. Empilham-se as folhas (alinhadas pela ordem do bloco) e cortam-se as faixas diagonais em conjunto, com régua e gabarito fixos, para que todas fiquem com o mesmo ângulo.
  4. Viram-se as faixas de um dos lados e unem-se aos pares pela junta central, confirmando a seco que as riscas se encontram na linha de junta.
  5. Unem-se os vários "V" entre si e esquadreja-se a capa com margem.

Porque é exigente: um desvio de 1 ou 2 graus de uma faixa para a outra nota-se logo, porque as riscas deixam de se encontrar na junta. Por isso usa-se gabarito e corta-se sempre em pilha.

O mesmo desenho existe em pavimentos de tacos em espinha, mas aí as peças são maciças e o assunto é outro; nesta UC falamos de composição de folha.

5.5 Exemplo resolvido · os ângulos de uma estrela

Um tampo redondo vai ser folheado em estrela de 8 raios, cada raio feito de um triângulo de folha com o fio ao longo do eixo do triângulo.

  1. Ângulo de cada setor: 360 ÷ 8 = 45 graus no vértice central.
  2. Cada triângulo é simétrico em relação ao seu eixo, por isso cada lado faz 45 ÷ 2 = 22,5 graus com o fio.
  3. Para o gabarito: traça-se uma linha de eixo e duas linhas a 22,5 graus de cada lado, a partir do vértice.
  4. Os 8 triângulos cortam-se em pilha, de folhas consecutivas, para serem iguais.
  5. Verificação: 8 × 45 = 360 graus. Se a soma a seco não fechar, há um erro de gabarito, que se corrige antes de unir.

5.6 Exemplo resolvido · verificar o livro aberto

Pacote com as folhas 1 a 6 numeradas. Vai montar-se um livro aberto com 6 folhas e junta ao centro.

  1. Dispõem-se a seco pela ordem: 1, 2, 3, 4, 5, 6.
  2. Viram-se as folhas pares (2, 4, 6) como páginas de um livro.
  3. Confirma-se que as juntas 1|2, 2|3, 3|4, 4|5 e 5|6 são todas espelhadas, e que a junta central (3|4) fica no eixo do painel.
  4. Se uma folha ficar virada ao contrário (por exemplo a 5), a junta 4|5 deixa de ser espelhada e o desenho quebra a meio da peça. Corrige-se agora: depois de colada não há correção possível.

⚠️ Dispõe sempre as folhas a seco sobre o suporte e confere sequência, faces e orientação antes de unir e antes de encolar.

6. Corte da folha: máquinas, ferramentas e procedimentos

O objetivo do corte é duplo: dar à folha a forma e a medida da composição e deixar bordos retos e limpos que, encostados, formem uma junta invisível.

6.1 A guilhotina de folha

A guilhotina de folha é a máquina de corte de folha típica das oficinas. Tem:

Há guilhotinas manuais (acionadas por alavanca ou pedal) e motorizadas (hidráulicas ou pneumáticas), com comprimentos de corte que vão de pouco mais de um metro até vários metros nas máquinas industriais.

Executar o corte de folha em guilhotina, passo a passo:

  1. Confirma que a máquina está limpa, a lâmina afiada e as proteções no lugar.
  2. Forma a pilha com as folhas consecutivas e alinhadas pela ordem do bloco (todas com a mesma face para cima). Assim, os bordos cortados de folhas vizinhas ficam praticamente iguais, o que é essencial no livro aberto.
  3. Coloca, se a máquina o pedir, uma folha de cartão ou de folha velha por baixo e por cima da pilha, para proteger as folhas de baixo e de cima.
  4. Alinha a pilha pela linha traçada (ou pelo batente) e aperta com o calcador.
  5. Corta com um movimento contínuo. Nunca coloques as mãos entre o calcador e a lâmina e nunca anules o comando a duas mãos.
  6. Retira a pilha, confirma a retidão encostando dois bordos cortados um ao outro à contraluz: não deve passar luz.
  7. Se passar luz, volta a cortar uma tira muito fina (1 a 2 mm).

Procedimentos de corte (regras gerais):

6.2 Ferramentas de corte manual

Para peças pequenas, formas irregulares, marchetaria e reparações:

Ferramenta Uso Nota
Serrote de folha (lâmina curva de dentes finos) cortes retos ao longo de régua, ao fio e através do fio não parte as fibras nos topos
Faca de folha / x-ato / bisturi recortes, contornos, acertos finos lâmina sempre afiada, várias passagens leves
Tesoura de folha cortes rápidos de desperdício não serve para juntas
Régua metálica com base antiderrapante guia do corte mais larga do que os dedos
Plaina de juntas / taco de lixa afinar um bordo de uma pilha de folhas apertada entre duas réguas aplana o bordo em vez de o cortar
Base de corte proteção da bancada e da lâmina substituir quando estiver muito marcada

Precauções no manuseamento de ferramenta de corte manual:

  1. Corta sempre para longe do corpo e com a mão que segura a régua fora da linha de corte (dedos afastados do bordo).
  2. Faz várias passagens leves, em vez de uma com força: a lâmina escorrega menos e a folha não rasga.
  3. Substitui ou afia a lâmina logo que deixa de cortar limpo; lâmina romba obriga a mais força e é a causa mais comum de cortes nas mãos.
  4. Guarda as lâminas recolhidas ou com proteção; nunca as deixes soltas na bancada ou no bolso.
  5. Deposita lâminas usadas num recipiente próprio para objetos cortantes.
  6. Usa luvas resistentes ao corte na mão que segura a régua sempre que o procedimento da oficina o preveja (atenção: estas luvas servem para ferramentas manuais, nunca para máquinas com ferramentas em rotação, onde podem ser agarradas).

6.3 Corte através do fio e cortes em ângulo

6.4 Exemplo resolvido · preparar as juntas de um livro aberto

Duas folhas consecutivas (7 e 8) vão formar a junta central de um livro aberto.

  1. Sobrepõem-se as folhas 7 e 8 tal como saíram do bloco (mesma face para cima, alinhadas).
  2. Traça-se na folha de cima a linha da junta, passando pelo ponto do desenho que deve ficar no eixo.
  3. Cortam-se as duas juntas numa só passagem na guilhotina (ou com serrote de folha e régua).
  4. Vira-se a folha 8 como a página de um livro: os dois bordos cortados encostam-se e o desenho fica espelhado.
  5. Confirma-se à contraluz que não há folga. Qualquer desvio no corte seria reproduzido nas duas folhas de forma simétrica, e é por isso que o corte em conjunto dá juntas melhores do que cortar cada folha separadamente.

7. Máquinas e técnicas de unir folha

Unir é juntar as folhas cortadas numa capa única, com as juntas fechadas e o padrão dos veios respeitado, antes de a colar ao suporte. O referencial pede duas aptidões concretas: unir a folha na máquina por cola termofusível e unir a folha com fita cola.

7.1 União com fita cola

É a técnica manual de base, usada em peças únicas, composições geométricas e reparações.

Regras:

  1. A fita vai sempre do lado que não leva cola (a face à vista). Uma fita entre a folha e o suporte fica presa na linha de cola e marca a superfície.
  2. Não usar fita de plástico ou fita com cola muito agressiva: pode arrancar fibras ao ser removida ou deixar resíduos que impedem o verniz de aderir.
  3. Retirar a fita no sentido do fio e com cuidado, para não levantar fibras.

7.2 Máquinas de unir folha e suas características

Máquina Princípio Onde fica a união Características
Máquina de unir de fio termofusível (ziguezague) um fio revestido de cola termofusível é aquecido e aplicado em ziguezague sobre a junta, enquanto rolos puxam as duas folhas uma contra a outra no verso da capa (lado que vai ser colado), o fio fica incorporado na linha de cola rápida, manual ou semiautomática, ideal para juntas longas ao fio; também há modelos portáteis
Máquina de unir com cola nos bordos (juntadora longitudinal) aplica cola nos bordos das folhas e junta-os com pressão e calor a própria junta, topo a topo, sem fio nem fita junta muito resistente e limpa, usada em produção de capas em série
Aplicadora de fita gomada dispensa e humedece a fita automaticamente na face à vista apoio à união manual em série

Características a considerar na escolha: comprimento e espessura de folha que a máquina aceita, velocidade de avanço, tipo de fio ou cola, regulação de temperatura e pressão dos rolos, e volume de produção.

7.3 Executar a união na máquina por cola termofusível

  1. Preparação: liga a máquina e espera que a cabeça atinja a temperatura indicada pelo fabricante; confirma o fio (bobina, passagem, tensão) e a limpeza dos rolos e da mesa.
  2. Ensaio: une duas tiras de desperdício da mesma espécie e verifica se a junta fecha e se o fio está bem fundido.
  3. Coloca as folhas com o verso para cima (o lado que vai ser colado), com os bordos cortados encostados na guia.
  4. Faz avançar as folhas de forma contínua, sem puxar nem travar, com as mãos afastadas dos rolos e da cabeça quente.
  5. Verifica a junta à contraluz: fechada, sem sobreposição e sem desalinhamento do desenho.
  6. Desliga ou põe em espera no fim do trabalho, limpa os resíduos de cola da cabeça e da mesa com a máquina desligada e seguindo o manual.

7.4 Cuidados na união (qualquer técnica)

7.5 Exemplo resolvido · qual a técnica de união

a) Livro aberto de 5 folhas para 20 tampos iguais, oficina com máquina de fio termofusível: máquina de fio termofusível, juntas longas ao fio, série repetida. b) Estrela de 8 raios num tampo único: fita gomada ou adesiva de papel na face à vista, porque as juntas convergem para um ponto e são curtas e em ângulo. c) Reparação de uma junta aberta numa porta já folheada: fita adesiva de papel para segurar a folha nova enquanto a cola seca.

8. Tipos de cola e suas características

8.1 Vocabulário das colas

8.2 As colas usadas em folheado

Cola Como cura Onde se usa nesta UC Pontos fortes Pontos fracos
Acetato de polivinilo (PVA, "cola branca", cola vinílica) perda de água (absorvida pelo suporte e pela folha) colagem a frio em prensa fria, prensa de membrana, folheamento manual; algumas formulações admitem prensa aquecida pronta a usar, não tóxica, limpa-se com água enquanto fresca termoplástica: com calor e carga contínua a junta pode fluir; traz água à folha (pode ondular ou repassar)
Ureia-formaldeído (UF, "cola de ureia") reação química acelerada pelo calor, com endurecedor colagem a quente em prensa de pratos aquecidos, a cola típica da produção industrial de folheados linha de cola rígida, não flui, boa resistência ao calor, adequada a interiores exige preparação (mistura), tempo de vida limitado, liberta formaldeído
Termofusível (hot-melt) arrefecimento (é aplicada fundida) fio das máquinas de unir folha; orladoras presa em segundos, sem água amolece com o calor; não serve para colar a folha à superfície do painel em prensa

Existem outras colas (de contacto, de poliuretano, colas animais usadas em restauro), mas a escolha para folheado de produção faz-se, na prática, entre PVA a frio e UF a quente. Para ambientes húmidos consulta a classe de durabilidade da cola: as colas termoplásticas para madeira classificam-se de D1 a D4 pela norma europeia EN 204, sendo D4 a mais resistente à água.

8.3 A classificação do referencial: cola fria e cola a quente

O referencial fala em cola fria, cola a quente e cola termofusível (escrito "termo fusível" no documento oficial):

Não confundir "cola a quente" (cura com calor na prensa) com "cola termofusível" (aplicada fundida). São coisas diferentes.

8.4 Exemplo resolvido · escolher a cola

a) Série de 60 portas planas para um hotel, oficina com prensa de pratos aquecidos: UF a quente, porque cura em poucos minutos com calor, a linha de cola fica rígida e a produção é repetitiva. b) Tampo único numa oficina pequena, sem prensa quente, com prensa de membrana a vácuo: PVA a frio, própria para folheado. c) Unir as folhas da capa antes da prensagem: fio termofusível na máquina de unir, ou fita. d) Tampo de balcão perto de uma fonte de calor: evita-se depender de colas termoplásticas na superfície; UF a quente é a opção mais segura das três, e a decisão confirma-se com a ficha técnica.

9. Preparar as colas

9.1 Preparar a cola a frio (PVA)

  1. Lê a ficha técnica: temperatura mínima de utilização, gramagem recomendada, tempo aberto, tempo de prensagem e de cura.
  2. Confirma a validade e que a cola não gelou (uma PVA que gelou pode ficar granulosa e sem capacidade de colagem).
  3. Mexe a cola antes de usar, sem introduzir bolhas de ar.
  4. Confirma a temperatura da oficina, da cola e do suporte: abaixo da temperatura mínima indicada a cola não forma um filme contínuo (fica esbranquiçada e sem força).
  5. Não dilui com água a não ser que a ficha técnica o permita: mais água significa mais ondulação e mais repasse.
  6. Planeia o tempo de secagem: o referencial pede especificamente que saibas quanto tempo a peça tem de ficar na prensa e quanto tempo tem de descansar antes de ser trabalhada. Regista esses valores (da ficha técnica) na ficha de produção.

9.2 Preparar a cola a quente (UF)

As colas de ureia-formaldeído fornecem-se como resina (líquida ou em pó) a que se junta um endurecedor e, muitas vezes, uma carga ou extensor (farinha), que dá corpo à mistura e reduz o repasse.

  1. Lê a ficha técnica: proporções (em massa), ordem de mistura, tempo de vida da mistura, temperatura dos pratos, tempo e pressão de prensagem.
  2. Pesa os componentes com balança, não a olho.
  3. Mistura com misturador limpo até ficar homogénea e sem grumos.
  4. Prepara só a quantidade que vais usar dentro do tempo de vida da mistura.
  5. Liga a prensa com antecedência para os pratos atingirem a temperatura de regime.
  6. Usa luvas de proteção química, óculos e ventilação ou captação local, porque a mistura e a prensagem a quente libertam formaldeído.
  7. Limpa o equipamento de mistura antes de a cola endurecer.

Também "se prepara a quente" o fio termofusível da máquina de unir: aqui preparar é regular a temperatura da cabeça conforme o manual e fazer uma união de ensaio.

9.3 Exemplo resolvido · quantidade de mistura de UF

Série de 20 tampos de 1200 × 600 mm, folheados nas duas faces. A ficha técnica (valores de exercício) indica uma gramagem de 120 g/m² por face e uma mistura de 100 partes de resina para 20 partes de endurecedor, em massa. Prevê-se 10 % de perdas.

  1. Área de uma face: 1,2 × 0,6 = 0,72 m².
  2. Área total: 0,72 × 2 faces × 20 tampos = 28,8 m².
  3. Cola necessária: 28,8 × 120 = 3456 g ≈ 3,46 kg.
  4. Com perdas: 3,46 × 1,10 ≈ 3,80 kg de mistura.
  5. A mistura tem 100 + 20 = 120 partes. Resina: 3,80 × 100 ÷ 120 ≈ 3,17 kg. Endurecedor: 3,80 × 20 ÷ 120 ≈ 0,63 kg.
  6. Verificação: 3,17 + 0,63 = 3,80 kg. ✓
  7. Se o tempo de vida da mistura não chega para os 20 tampos, divide-se em duas ou mais preparações.

10. Aplicar a cola no material de suporte

10.1 Preparar o suporte

10.2 Onde se aplica a cola

Em regra a cola aplica-se no suporte, não na folha. A folha é fina e absorve a água da cola: se a cola lhe fosse aplicada diretamente, ondularia e enrolaria antes de chegar à prensa.

Aplica-se nas duas faces do suporte quando se folheia face e contra-face na mesma prensagem.

10.3 A máquina de encolar

A máquina de encolar (encoladora de rolos) faz passar o painel entre rolos que depositam uma película de cola uniforme nas duas faces ao mesmo tempo. Os rolos doseadores regulam a gramagem.

  1. Enche o tabuleiro com a cola preparada.
  2. Regula a abertura dos rolos à espessura do painel e a folga dos doseadores à gramagem pretendida.
  3. Faz passar uma placa de ensaio, pesa-a antes e depois e calcula a gramagem (ver exemplo 10.5).
  4. Encola os painéis e coloca-os em cima das capas, dentro do tempo aberto.
  5. No fim, ou ao mudar de cola, limpa os rolos (água para PVA e UF enquanto frescas) antes de a cola endurecer.

Nunca metas as mãos junto dos rolos em movimento: há zonas de arrastamento. Para limpar, pára a máquina conforme o manual.

10.4 Aplicação manual

Em peças únicas usa-se rolo de espuma ou de borracha, espátula dentada fina ou trincha. A regra é a mesma: película fina e uniforme em toda a superfície, incluindo os bordos.

10.5 Exemplo resolvido · verificar a gramagem

Uma placa de ensaio de 500 × 500 mm pesa 3,220 kg antes de passar na máquina de encolar e 3,280 kg depois (encolada nas duas faces).

  1. Cola depositada: 3,280 menos 3,220 = 0,060 kg = 60 g.
  2. Área encolada: 0,5 × 0,5 = 0,25 m² por face, 2 faces = 0,50 m².
  3. Gramagem: 60 ÷ 0,50 = 120 g/m² por face.
  4. Compara-se com o valor da ficha técnica e ajusta-se a máquina se necessário.

10.6 Cola a mais e cola a menos

Situação O que acontece
Cola a mais a cola é empurrada pelos poros até à face à vista (repasse), manchando a folha e impedindo o tingimento e o verniz de ficarem uniformes; mais água na folha, que pode ondular e fender; desperdício
Cola a menos ou mal distribuída zonas sem aderência: bolhas (folha levantada que soa a oco ao bater com a unha) e descolagens, sobretudo junto aos bordos
Tempo aberto ultrapassado a cola já formou película, a folha não adere apesar da pressão

11. Máquinas de prensar

A prensa garante contacto íntimo e pressão uniforme entre a folha e o suporte até a cola ganhar presa.

11.1 Prensa de pratos

A prensa de pratos tem dois ou mais pratos planos, rígidos e paralelos, que se fecham sobre o painel por ação de cilindros (normalmente hidráulicos).

É adequada a peças planas: tampos, portas lisas, painéis.

Executar a prensagem em prensa de pratos, passo a passo:

  1. Confirma a temperatura dos pratos (prensa quente), a limpeza dos pratos e o funcionamento dos comandos e das proteções.
  2. Prepara o "sanduíche": placa de proteção ou papel separador, capa da contra-face, painel encolado, capa da face, papel separador. O papel impede que cola que repasse fique agarrada ao prato.
  3. Centra o conjunto nos pratos. Painéis descentrados recebem pressão desigual.
  4. Fecha a prensa dentro do tempo aberto da cola.
  5. Aplica a pressão e o tempo da ficha técnica (ver exemplo 11.4 para o cálculo da força).
  6. Abre, retira o painel com luvas (se a prensa for quente) e coloca-o deitado sobre ripas, ou em pé bem apoiado, para arrefecer e estabilizar com as duas faces ao ar.
  7. Não empilhes painéis quentes uns sobre os outros sem arrefecimento: o calor retido continua a atuar e pode provocar deformações.

Segurança: a zona entre pratos é uma zona de esmagamento. Nunca metas as mãos entre os pratos com a prensa em funcionamento, respeita os comandos a duas mãos ou as barreiras de proteção, e usa luvas contra o calor para manusear painéis de prensa quente.

11.2 Prensa de membrana (vácuo)

A prensa de membrana coloca a peça numa mesa e cobre-a com uma membrana flexível (borracha ou silicone). Uma bomba retira o ar de baixo da membrana, que é empurrada pela pressão atmosférica contra a peça, acompanhando o contorno. Algumas prensas de membrana têm também aquecimento.

Executar a prensagem em prensa de membrana:

  1. Confirma a membrana (sem furos nem cortes) e a bomba (nível de vácuo atingido no manómetro).
  2. Coloca a peça sobre ripas ou sobre uma rede de respiração, que deixa o ar sair de todos os pontos.
  3. Protege arestas vivas para não furarem a membrana.
  4. Fecha, faz vácuo, verifica no manómetro que o valor se mantém (se cair, há fuga).
  5. Mantém o tempo da ficha técnica; desliga e deixa entrar o ar antes de abrir.

11.3 Outras formas de prensar

Em oficinas pequenas e em restauro prensa-se com sargentos e travessas curvas (as travessas ligeiramente arqueadas empurram primeiro o centro e depois os bordos, expulsando a cola e o ar para fora), com placas rígidas entre a peça e os sargentos, ou com martelo de folhear e cola animal quente (técnica tradicional de restauro).

11.4 Exemplo resolvido · força de prensagem

Um tampo de 1200 × 600 mm vai à prensa de pratos. A ficha técnica da cola (valor de exercício) pede uma pressão de 0,4 N/mm².

  1. Área em mm²: 1200 × 600 = 720 000 mm².
  2. Força necessária: F = p × A = 0,4 × 720 000 = 288 000 N = 288 kN.
  3. Equivalente em massa: 288 000 ÷ 9,81 ≈ 29 358 kg, ou seja cerca de 29 toneladas de força.
  4. Conclusão: é por isto que as prensas de pratos são hidráulicas. Se o operador usar metade da área dos pratos, tem de reduzir a força para manter a mesma pressão; se meter dois tampos lado a lado, precisa do dobro da força.

Comparação: numa prensa de membrana, com vácuo quase perfeito (0,1 N/mm²), o mesmo tampo recebe 0,1 × 720 000 = 72 000 N, um quarto da pressão do exemplo. Por isso a prensa de membrana usa colas e tempos adequados a pressões mais baixas: segue a ficha técnica.

12. Painel equilibrado: contra-face e sentido do fio

12.1 Porque se usa contra-face

A folha, ao secar a cola e ao trocar humidade com o ar, retrai e dilata de forma diferente do suporte. Se só uma face estiver folheada, essa face puxa (ou empurra) o painel e ele empena, com a concavidade normalmente do lado folheado.

Por isso aplica-se sempre uma folha de contra-face na outra face, com:

A regra é a da construção simétrica: o que está de um lado do centro do painel tem de estar espelhado do outro.

12.2 Sentido do fio em relação ao suporte

Suporte Regra habitual
MDF, aglomerado não têm fio: a folha pode ir em qualquer sentido; face e contra-face no mesmo sentido
Contraplacado o fio da folha fica cruzado (perpendicular) com o fio das folhas exteriores do contraplacado
Madeira maciça a folha segue normalmente o mesmo sentido do fio do maciço, para acompanhar os seus movimentos; se o projeto pedir fio cruzado, cola-se primeiro uma folha intermédia cruzada (contrafolha) e só depois a folha decorativa

Em peças de exterior ou de ambiente húmido, estas regras são ainda mais importantes, e o suporte e a cola têm de ser próprios para esse uso.

12.3 Exemplo resolvido · diagnosticar um painel empenado

Uma porta em MDF de 19 mm foi folheada só na face à vista, com carvalho de 0,6 mm e PVA. Uma semana depois está côncava do lado folheado.

  1. Causa provável: falta de contra-face (painel desequilibrado).
  2. Mecanismo: a folha, ao perder a água que recebeu da cola, retraiu e puxou a face.
  3. Correção na produção seguinte: folhear as duas faces na mesma prensagem, com folha de espessura semelhante e fio no mesmo sentido.
  4. A porta empenada raramente se recupera por completo; em regra, refaz-se.

13. Folheamento manual, peças curvas e folha de raiz

13.1 Folheamento manual

O folheamento manual faz-se sem prensa de produção: peças únicas, pequenas séries, reparações e restauro.

Técnicas:

Em todas: trabalhar do centro para fora para expulsar o ar e a cola a mais, e confirmar no fim, batendo levemente com a unha, se há zonas ocas.

13.2 Peças de sentido curvo

As peças de sentido curvo (portas curvas, frentes de cómoda abauladas, colunas, braços de cadeira) folheiam-se:

Cuidados:

  1. Ensaiar a curvatura numa tira de desperdício: raios apertados podem fissurar a folha.
  2. Folhas com reforço de papel ou velo no verso (folha flexível) acompanham melhor curvas apertadas.
  3. As juntas devem estar bem fechadas antes de curvar, porque a curvatura tende a abri-las.
  4. Aplicar também contra-face do lado interior da curva, pela mesma razão de equilíbrio.
  5. Proteger a membrana dos bordos vivos do molde.

13.3 Folha de raiz

A folha de raiz obtém-se de nodosidades e excrescências do tronco ou da cepa junto às raízes. Tem desenho muito decorativo (olhos, ondas, remoinhos), mas:

Executar folheamentos com folha de raiz (preparação prévia do teor de humidade):

  1. Amaciar: pulverizar as duas faces com água ou, melhor, com um amaciador de folha próprio (produto que mantém a folha flexível sem a encharcar), e deixar absorver o tempo indicado pelo fabricante.
  2. Aplanar: colocar as folhas entre folhas de papel absorvente e placas planas (de MDF ou contraplacado), com peso ou numa prensa com pressão leve; com a prensa aquecida o processo é mais rápido, se o produto o permitir.
  3. Secar: trocar o papel absorvente periodicamente (no início com mais frequência) até a folha estar plana e de novo seca, com teor de humidade próximo do do suporte, medido com o medidor.
  4. Guardar entre placas até ao momento de cortar e colar: se ficar ao ar, volta a ondular.
  5. Tapar os furos com massa própria ou com a própria folha, e reforçar zonas frágeis com fita de papel na face à vista.
  6. Colar com prensa, respeitando a ficha técnica da cola; se a folha ainda estiver húmida, a água vai para a linha de cola e surgem bolhas e fendas ao secar.

Humedecer a folha é um passo temporário para a aplanar e cortar sem partir: a folha nunca se cola molhada.

13.4 Exemplo resolvido · a folha de raiz já está pronta?

Depois de aplanada e seca entre placas, uma amostra de folha de raiz pesa 8,70 g. Seca em estufa, a mesma amostra pesa 7,80 g. O suporte está a 9 %.

  1. Água: 8,70 menos 7,80 = 0,90 g.
  2. H = 0,90 ÷ 7,80 × 100 ≈ 11,5 %.
  3. Está 2,5 pontos acima do suporte. A decisão final depende do procedimento da oficina e da ficha técnica da cola, mas quanto mais próximos os valores, menor o risco: neste caso deixa-se secar mais um período entre placas e volta-se a medir com o medidor de humidade.

14. Acabamento de folheados

14.1 Da prensa ao acabamento

  1. Estabilizar: deixa o painel repousar o tempo de cura indicado pela ficha técnica, com as duas faces ao ar.
  2. Aparar as sobras: corta a folha que sobra nos bordos com a serra esquadrejadora (em painéis) ou, em peças já à medida, com faca, lima fina ou tupia com fresa de copiar, de fora para dentro para não lascar os cantos.
  3. Inspecionar: bater levemente com a unha para detetar zonas ocas; ver a superfície com luz rasante.
  4. Retirar a fita: humedecer ligeiramente a fita gomada e raspar; retirar a fita de papel no sentido do fio. Nunca lixar a fita "a seco" à força.
  5. Reparar os defeitos detetados (ver 14.3).
  6. Lixar (14.2) e aplicar o acabamento.

14.2 Executar a lixagem final da peça

A folha tem poucas décimas de milímetro: a lixagem é para alisar e preparar para o acabamento, não para desbastar.

14.3 Defeitos, causas e correções

Defeito Causa provável Correção
Bolha (zona oca) falta de cola, pressão insuficiente, tempo aberto ultrapassado, folha húmida com PVA: aquecer com ferro sobre papel e pressionar; ou abrir um corte fino ao fio, injetar cola com seringa e prensar com calço e sargento
Descolagem nos bordos cola a menos nos bordos, painel descentrado na prensa levantar ligeiramente, injetar cola, prensar
Repasse de cola (manchas) cola a mais, cola demasiado fluida, poro aberto raspar e lixar com cuidado; prevenir ajustando a gramagem e a viscosidade
Junta aberta corte deficiente, folha húmida que retraiu encher com lasca da mesma folha ou massa da cor; prevenir com corte em conjunto e humidade controlada
Junta sobreposta união mal feita não tem boa correção: prevenir verificando à contraluz
Fendas na folha folha seca demais, raiz mal preparada, suporte com humidade alta substituir a zona (remendo em losango ao fio)
Lixa atravessou a folha grão grosso, pressão excessiva remendo ou refolhear
Painel empenado falta de contra-face, humidades diferentes refazer com construção equilibrada
Marca de fita fita entre a folha e o suporte, ou fita mal removida prevenir: fita sempre na face à vista

14.4 O acabamento final

O acabamento (verniz, óleo, cera, lacas, tintas) segue a ficha técnica do produto e o projeto. No folheado há duas regras específicas:

15. Manutenção e limpeza das máquinas

A manutenção preventiva faz parte da competência: uma máquina suja ou mal afinada produz juntas abertas, bolhas e riscos, e aumenta o risco de acidente. Toda a limpeza e manutenção faz-se com a máquina parada e desligada da energia (e, quando aplicável, consignada: bloqueada e sinalizada), seguindo o manual do fabricante.

Máquina Limpeza (no fim de cada utilização) Manutenção preventiva (periódica)
Guilhotina de folha remover aparas e pó da mesa e do calcador afiar ou trocar a lâmina, verificar o paralelismo e o esquadro dos batentes, testar o comando a duas mãos e as proteções
Máquina de unir (fio termofusível) limpar resíduos de cola da cabeça e dos rolos, com a cabeça fria ou conforme o manual verificar a temperatura, os rolos de arrasto, a guia, a bobina e a passagem do fio
Máquina de encolar lavar os rolos e o tabuleiro antes de a cola endurecer verificar o estado da borracha dos rolos, a regulação dos doseadores, os raspadores
Prensa de pratos limpar os pratos de cola repassada com espátula própria, sem riscar verificar o óleo hidráulico e as fugas, os manómetros, a temperatura dos pratos, as proteções e a paragem de emergência
Prensa de membrana limpar a membrana e a mesa verificar a membrana (furos, desgaste), a bomba de vácuo e os vedantes
Lixadoras e aspiração esvaziar sacos e filtros com cuidado (pó) trocar filtros, verificar as mangueiras e a ligação à terra

Limpar também os resíduos no espaço de trabalho: aparas de folha e restos de fita em contentor próprio, cola líquida e embalagens de UF encaminhadas como resíduos conforme a ficha de dados de segurança e as regras da oficina, pó aspirado (nunca soprado com ar comprimido).

Uma ficha de manutenção por máquina (data, operação, quem fez, observações) permite provar que a manutenção foi feita e antecipar avarias.

16. Segurança e saúde no trabalho e equipamentos de proteção individual

A ordem da prevenção é sempre: eliminar o risco → proteções coletivas (proteções das máquinas, aspiração, ventilação) → organização (procedimentos, formação) → EPI. O EPI é a última barreira, não a primeira.

16.2 Riscos específicos desta UC

Operação Risco principal Medidas
Corte em guilhotina corte e esmagamento dos dedos proteções e comando a duas mãos sempre ativos, mãos fora da zona da lâmina, lâmina afiada
Corte manual cortes nas mãos cortar para longe do corpo, lâmina afiada, régua com base antiderrapante, luva anticorte na mão da régua
Máquina de unir queimadura na cabeça quente, arrastamento nos rolos mãos afastadas, não limpar em funcionamento
Preparação da UF contacto com a pele e olhos, inalação luvas de proteção química, óculos, ventilação; ler a ficha de dados de segurança
Máquina de encolar arrastamento entre rolos nunca meter as mãos com os rolos em movimento, paragem de emergência acessível
Prensa de pratos esmagamento, queimadura (prensa quente), vapores de formaldeído comandos e proteções, luvas contra o calor, captação ou ventilação
Prensa de membrana projeção se a membrana rebentar, esmagamento membrana em bom estado, arestas protegidas
Lixagem pó de madeira, ruído, vibração aspiração na origem, proteção respiratória quando a aspiração não chega, proteção auditiva
Manuseamento de painéis esforços, quedas de painéis levantar com as pernas, pedir ajuda ou usar meios mecânicos

16.3 O pó de madeira e o formaldeído

16.4 Equipamentos de proteção individual (EPI)

EPI Quando
Óculos de proteção corte, preparação de colas, lixagem, limpeza de máquinas
Luvas anticorte manuseamento de lâminas e corte manual (nunca junto de ferramentas em rotação)
Luvas de proteção química (nitrilo, por exemplo) preparação e aplicação de UF, limpeza com solventes
Luvas contra o calor retirar painéis da prensa quente, trabalho junto da cabeça da máquina de unir
Máscara FFP2 ou FFP3 lixagem e limpeza de pó quando a aspiração não chega
Proteção auditiva lixagem e máquinas ruidosas; obrigatória a partir dos valores de ação fixados na legislação do ruído (Decreto-Lei n.º 182/2006)
Calçado de segurança toda a oficina (quedas de painéis e ferramentas)
Vestuário ajustado toda a oficina: nada de roupa larga, cabelo solto, fios, pulseiras ou anéis perto de rolos e máquinas em movimento

Utilizar o EPI inclui escolher o adequado, verificar o estado antes de usar, guardá-lo limpo e substituí-lo quando danificado ou fora de prazo (os filtros das máscaras e as máscaras descartáveis têm duração limitada).

17. Normas da qualidade

Aplicar as normas da qualidade significa trabalhar segundo especificações escritas, verificar em cada etapa e registar o que se fez, para que o resultado seja repetível e rastreável. Muitas empresas organizam isto num sistema de gestão da qualidade segundo a norma NP EN ISO 9001; na oficina, isso traduz-se em fichas de produção, listas de verificação e registos.

17.1 Pontos de controlo

Etapa O que se verifica Critério
Receção da folha espécie, bloco, espessura, humidade, defeitos conforme a encomenda e o projeto
Preparação planura, humidade, sequência numerada folha plana, humidade compatível com o suporte
Corte retidão das juntas, esquadria, margem sem luz à contraluz, margem prevista
União juntas fechadas, desenho alinhado, padrão conforme o projeto
Encolagem gramagem, tempo aberto dentro dos valores da ficha técnica
Prensagem temperatura, pressão, tempo dentro dos valores da ficha técnica
Acabamento ausência de bolhas, repasse, riscos, folha atravessada inspeção com luz rasante e ao toque
Painel final planeza, medidas, face e contra-face conforme o desenho

17.2 O registo de produção

Para cada lote de peças regista-se: data, operador, espécie e número de bloco e pacotes, espessura da folha, humidade da folha e do suporte, cola (produto, lote, gramagem, mistura), prensa (temperatura, pressão, tempo), defeitos encontrados e correções.

O registo serve para:

A qualidade de um folheado não se mede só à saída da prensa: mede-se também um ano depois, quando a peça continua sem bolhas, fendas ou descolagens. Isso exige empenho e persistência em todas as etapas, sentido crítico para rejeitar uma folha ou refazer uma junta, e respeito pelas regras e normas definidas.

17.3 Exemplo resolvido · lista de verificação antes de fechar a prensa

  1. Capa unida conforme o padrão, fita na face à vista? ✓
  2. Contra-face preparada, fio no mesmo sentido da face? ✓
  3. Gramagem verificada na placa de ensaio? ✓
  4. Pratos à temperatura e tempo aberto dentro do limite? ✓
  5. Papel separador colocado, painel centrado? ✓
  6. Zona livre, mãos fora dos pratos, EPI calçado? ✓

Só com todas as respostas "sim" se fecha a prensa.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Executar e aplicar folheados segue sempre a mesma ordem:

  1. Selecionar e preparar a folha: espécie, bloco e pacotes pela ordem, defeitos, humidade, planura (folha de raiz amaciada, aplanada e seca).
  2. Cortar em pilha, na guilhotina ou à mão, com margem e juntas retas.
  3. Unir segundo o padrão dos veios (livro aberto, deslizante, espinha, estrela), com fita na face à vista ou fio termofusível no verso.
  4. Preparar a cola: PVA a frio ou UF a quente, sempre pela ficha técnica.
  5. Encolar o suporte com a gramagem certa (máquina de encolar ou à mão).
  6. Prensar: prensa de pratos para peças planas, prensa de membrana para peças curvas; face e contra-face juntas, com o fio no mesmo sentido.
  7. Acabar: estabilizar, aparar, retirar a fita, reparar, lixar com grão fino e aplicar o acabamento.
  8. Limpar e manter as máquinas e registar o que se fez.

Em todas as etapas: EPI adequado, proteções das máquinas ativas, pó e formaldeído controlados, e verificações de qualidade antes de avançar.

Exercícios resolvidos

1. Uma peça de destaque precisa de folha com riscas regulares, de um só bloco. Que processo de obtenção e que tipo de corte escolhes?

Resolução: folha faqueada (a "laminada" do referencial) cortada no plano radial, que dá o desenho listado. O desenrolamento dá um desenho largo e irregular, mais usado em contraplacados e contra-faces.

2. Uma amostra de folha pesa 15,6 g e, seca em estufa, 14,0 g. Qual é o teor de humidade?

Resolução: água = 15,6 menos 14,0 = 1,6 g. H = 1,6 ÷ 14,0 × 100 ≈ 11,4 % (em base seca: divide-se pela massa anidra).

3. Num livro aberto, uma folha foi colocada com a face errada para cima. O que acontece e como se evita?

Resolução: as juntas dessa folha deixam de ser espelhadas: o desenho quebra a meio da peça e a folha reflete a luz de forma diferente das vizinhas. Evita-se numerando as folhas, montando a composição a seco e conferindo sequência e faces antes de unir.

4. Onde se aplica a fita gomada e onde fica o fio termofusível numa capa unida?

Resolução: a fita gomada vai na face à vista (a que não leva cola) e é removida depois da prensagem; o fio termofusível fica no verso, o lado que vai ser colado, e fica incorporado na linha de cola.

5. Vais folhear 30 portas planas numa prensa de pratos aquecidos. Que cola escolhes e que cuidados tens na preparação?

Resolução: ureia-formaldeído (UF) a quente. Pesa resina, endurecedor e carga pelas proporções da ficha técnica, prepara só a quantidade que usas dentro do tempo de vida da mistura, confirma a temperatura dos pratos e usa luvas de proteção química, óculos e ventilação por causa do formaldeído.

6. Um tampo de 1000 × 500 mm vai ser prensado a 0,3 N/mm² (valor de exercício). Que força deve fazer a prensa?

Resolução: A = 1000 × 500 = 500 000 mm². F = 0,3 × 500 000 = 150 000 N = 150 kN (cerca de 15 toneladas de força).

7. Uma peça tem forma curva. Que prensa usas e que cuidados tens?

Resolução: prensa de membrana (ou saco de vácuo) sobre um molde com a curvatura da peça. Ensaiar o raio numa tira de folha, usar folha flexível se o raio for apertado, contra-face também do lado interior e proteger a membrana das arestas vivas.

8. Que preparação exige a folha de raiz e qual é o erro a evitar?

Resolução: amaciar (água ou amaciador), aplanar entre placas e papel absorvente, secar trocando o papel até a folha ficar plana e com humidade próxima da do suporte, e guardar entre placas até colar. O erro a evitar é colá-la ainda húmida: a água vai para a linha de cola e surgem bolhas e fendas.

9. Um painel de MDF folheado só de um lado empenou. Porquê e como se corrige na produção seguinte?

Resolução: o painel está desequilibrado: a folha retraiu e puxou a face. Corrige-se folheando face e contra-face na mesma prensagem, com folhas de espessura e comportamento semelhantes e com o fio no mesmo sentido.

10. Qual é o valor-limite de exposição ao pó de madeira dura em vigor e como se controla na lixagem?

Resolução: 2 mg/m³ (média de 8 horas), desde 18 de janeiro de 2023, fixado pela Diretiva (UE) 2017/2398 e transposto pelo Decreto-Lei n.º 35/2020. Controla-se com aspiração na origem (lixadora ligada ao aspirador), limpeza por aspiração e máscara FFP2 ou FFP3 quando a captação não chega.