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UC · Unidade de Competência · UC02056

Sebenta · Operar máquinas-ferramenta de segunda transformação (UC02056)

Da preparação da máquina ao acabamento, serrar, aparelhar, furar, moldar e fresar madeira em segurança
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. CNC em Madeira e Mobili ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a operar as máquinas-ferramenta de segunda transformação da madeira: as máquinas que transformam a tábua já serrada e seca numa peça de mobiliário ou de carpintaria pronta a montar. É o trabalho do dia a dia de uma oficina de carpintaria-marcenaria, e é também um dos trabalhos com mais risco de acidente grave se as regras de segurança não forem seguidas à letra: as ferramentas rodam a milhares de rotações por minuto, cortam madeira dura sem esforço e, por isso, cortam uma mão com a mesma facilidade.

Num curso de CNC esta UC é a base de tudo o que vem depois. Um centro de maquinagem CNC faz sozinho muitas das operações que aqui se fazem à mão, mas as regras são as mesmas: a madeira tem fio e revessos, a ferramenta tem sentido de rotação e velocidade máxima, o pó tem de ser aspirado e a peça tem de ser verificada contra o desenho. Quem percebe a máquina convencional percebe o que o programa CNC está a mandar a máquina fazer.

O percurso segue o fluxo real de uma peça na oficina: primeiro preparamos a madeira, a máquina e a ferramenta de corte; depois serramos, aparelhamos e furamos para dar forma e dimensão; a seguir moldamos e fresamos para criar perfis e encaixes; executamos as samblagens; e por fim lixamos a superfície. Em cada etapa, a segurança, os equipamentos de proteção individual, a aspiração de pó e o respeito pelas normas da qualidade e do ambiente andam sempre presentes.

Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar máquinas-ferramentas de segunda transformação; operar máquinas de serrar, aparelhar e furar; operar máquinas de moldar e fresar; substituindo as ferramentas de corte de acordo com procedimentos e especificações técnicas; cumprindo as normas de segurança e saúde no trabalho, de proteção ambiental e da qualidade.

Como usar esta sebenta: lê cada capítulo antes da aula prática da máquina correspondente, resolve os exemplos com lápis e papel e volta ao capítulo de segurança sempre que tiveres dúvidas. Nenhum texto substitui a demonstração do professor nem o manual de instruções do fabricante da máquina que tens à frente: quando o manual e esta sebenta disserem coisas diferentes sobre uma máquina concreta, manda o manual.

1. Máquinas de segunda transformação: visão geral

A indústria da madeira divide-se em duas fases. Na primeira transformação, o tronco é descascado, serrado em pranchas e tábuas na serração e seco (ao ar ou em estufa). Na segunda transformação, a tábua (ou o painel derivado, como o contraplacado, o aglomerado ou o MDF) é trabalhada até se tornar uma peça de mobiliário ou de carpintaria. É aqui que atuam as máquinas desta UC, numa oficina de carpintaria-marcenaria.

O referencial lista como recursos a serra de fita, a serra circular, a garlopa mecânica, a desengrossadeira mecânica, as máquinas de furar, a tupia, a fresadora e a respigadeira, além das lixadoras, das ferramentas manuais e das máquinas-ferramentas portáteis. Na tabela seguinte ficam agrupadas pelas três famílias de operações das realizações da UC.

Família Máquina Operação principal Órgão de corte
Serrar serra circular de bancada / esquadrejadora cortes a direito, ao fio e ao través, em madeira e painel disco de serra
Serrar serra de fita cortes curvos, recortes, desdobro de peças grossas lâmina de fita
Aparelhar garlopa (desempenadeira) acertar uma face e um canto de referência cabeçote porta-facas
Aparelhar desengrossadeira dar a espessura e a largura finais, em paralelo com a referência cabeçote porta-facas
Furar furadora de coluna, furadora múltipla furos cilíndricos (cavilhas, ferragens) brocas
Furar furadora de corrente, de bedame, oscilante furos retangulares (mortalhas) corrente, bedame oco, fresa de mortalhar
Moldar e fresar tupia perfis, rebaixos, ranhuras, cópia por molde fresas de veio
Moldar e fresar fresadora (superior ou portátil) ranhuras, rebaixos, cópia por gabarito, encaixes de ferragens fresas de haste
Moldar e fresar respigadeira respigas e ombros de respiga fresas de respigar e serra de destopo
Acabar lixadoras preparar a superfície para o acabamento abrasivo (lixa)

Todas partilham três blocos funcionais:

Bloco Função Exemplos
Motor e transmissão dá movimento ao órgão de corte e, em algumas máquinas, à peça motor elétrico, correias, polias, rolos de arrasto
Órgão de corte a ferramenta que efetivamente corta disco, lâmina, cabeçote de facas, fresa, broca
Equipamento de segurança protege o operador do contacto com a ferramenta e da projeção da peça resguardos, cutelo divisor, travão, encravamentos, paragem de emergência

Caracterizar uma máquina, uma das aptidões centrais desta UC, é identificar estes três blocos, os órgãos principais (mesa, guias, veio, sistemas de regulação), a ferramenta de corte montada, os acessórios disponíveis e a função de cada equipamento de segurança, e fazê-lo antes de a ligar.

Órgãos e acessórios comuns

Exemplo resolvido: identificar a sequência de máquinas

Uma travessa de cadeira em madeira maciça precisa de: face e canto de referência, espessura final de 20 mm e largura final de 60 mm, comprimento à esquadria, uma ranhura para encaixe de um painel e acabamento liso.

  1. Serra circular (ou serra de fita): corta a tábua em bruto, com sobremedida no comprimento e na largura.
  2. Garlopa: aplaina a face de referência e, com a guia a 90°, o canto de referência.
  3. Desengrossadeira: leva a peça à espessura de 20 mm (apoiada na face de referência) e depois à largura de 60 mm (apoiada no canto de referência), sempre com faces paralelas.
  4. Serra circular com carro ou esquadrejadora: corta a peça ao comprimento final, à esquadria.
  5. Tupia ou fresadora: abre a ranhura de encaixe do painel.
  6. Lixadora: dá o acabamento final à superfície.

A ordem importa: aplainar antes de desengrossar dá uma referência plana; cortar ao comprimento final só depois de aparelhar permite eliminar os topos marcados pelos rolos de arrasto e os pequenos defeitos das pontas; fresar só depois de cortar à medida evita trabalho numa peça que ainda vai mudar.

2. Preparar as madeiras

"Preparar as madeiras" é uma aptidão do referencial e é o primeiro passo de qualquer trabalho: uma madeira mal escolhida ou húmida demais estraga o melhor trabalho de máquina.

A madeira é um material anisotrópico

A madeira não tem as mesmas propriedades em todas as direções. Distinguem-se três direções: longitudinal (ao longo do fio, paralela ao eixo do tronco), radial (do centro para a casca) e tangencial (tangente aos anéis de crescimento). Daqui resultam três regras de oficina:

Teor de água

O teor de água (ou humidade) da madeira calcula-se em base seca, isto é, em relação à massa da madeira sem água (massa anidra):

Teor de água (%) = (massa húmida menos massa anidra) ÷ massa anidra × 100

A madeira deve ser trabalhada com um teor de água próximo daquele que vai ter em serviço, senão retrai ou incha depois de montada e as ligações abrem ou empenam. Para mobiliário e carpintaria de interior usa-se, em geral, madeira com teor de água na ordem dos 8 a 12 %; para carpintaria de exterior o valor é mais alto, porque a madeira fica em equilíbrio com um ar mais húmido. Na oficina mede-se com um higrómetro de madeira (medidor de humidade de pinos ou de contacto); no laboratório mede-se pelo método de secagem em estufa, que dá a massa anidra.

Exemplo resolvido: calcular o teor de água

Uma amostra de madeira de carvalho pesa 540 g. Depois de seca em estufa até massa constante, pesa 480 g.

  1. Água contida: 540 g menos 480 g = 60 g.
  2. Teor de água: 60 g ÷ 480 g × 100 = 12,5 %.

Atenção ao erro frequente: dividir pela massa húmida (60 ÷ 540 × 100 = 11,1 %) dá outro valor, que não é o teor de água em base seca. Com 12,5 %, esta madeira está no limite superior do intervalo usual para interior; convém deixá-la estabilizar na oficina antes de a aparelhar para um móvel.

Escolher e inspecionar a madeira

Antes de marcar os cortes, observa cada tábua e procura os defeitos que obrigam a desviar o traçado ou a rejeitar a peça:

Defeito O que é Consequência na máquina
Nó solto ou morto nó que não está ligado à madeira à volta pode saltar durante o corte e ser projetado
Fenda de topo fissura nas pontas da tábua, por secagem a peça abre ao ser serrada; destopar as pontas
Empeno (arqueado, encurvado, torcido) deformação da tábua ao secar peça instável na mesa; exige desempenar antes de desengrossar
Fio torcido ou revesso fibras que mudam de direção arranque de fibra ao aplainar e fresar
Bolsa de resina cavidade com resina (resinosas) suja a ferramenta e a lixa
Corpos estranhos pregos, agrafos, pedras, cola seca partem dentes e facas, projetam fragmentos

Madeira reutilizada (paletes, cofragem, peças antigas) exige inspeção com detetor de metais ou, pelo menos, com os olhos e com a mão: um prego escondido parte as facas da desengrossadeira e pode projetar pedaços de metal.

Derivados de madeira

Na mesma oficina trabalham-se também painéis derivados, cada um com comportamento próprio nas máquinas:

Marcar e medir

As peças marcam-se com sobremedida (alguns milímetros a mais em espessura e largura, e mais ainda no comprimento) para que o aparelhamento possa limpar os empenos e os topos. Depois de aplainadas, a face e o canto de referência marcam-se a lápis com o sinal convencional da oficina, para que todas as medições seguintes partam delas.

Instrumentos de medição usados nesta UC (a "aparelhagem de medição" do referencial): fita métrica, régua metálica, esquadro, suta (esquadro de ângulo variável), graminho, paquímetro, compasso e higrómetro de madeira. O paquímetro serve para confirmar espessuras e larguras de respigas e mortalhas ao décimo de milímetro.

Exemplo resolvido: aproveitamento de uma tábua

É preciso cortar travessas com 450 mm de comprimento final a partir de uma tábua de 2400 mm. Deixa-se uma sobremedida de 10 mm por peça para o corte final à esquadria, o disco tira 4 mm de largura de corte e destopam-se 25 mm em cada ponta por causa das fendas de topo.

  1. Comprimento aproveitável: 2400 mm menos 2 × 25 mm = 2350 mm.
  2. Comprimento consumido por peça: 450 mm + 10 mm + 4 mm = 464 mm.
  3. Número de peças: 2350 ÷ 464 = 5,06, ou seja 5 peças inteiras.
  4. Sobra: 2350 mm menos 5 × 464 mm = 2350 menos 2320 = 30 mm.
  5. Rendimento em comprimento útil: 5 × 450 mm = 2250 mm, e 2250 ÷ 2400 × 100 = 93,75 %.

Planear o corte assim é, ao mesmo tempo, uma regra de qualidade (cada peça tem sobremedida para ser acertada) e uma regra ambiental (menos desperdício de matéria-prima).

3. Segurança, EPI e normas de trabalho

Cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho é, no referencial desta UC, um critério de desempenho avaliado, não uma recomendação lateral. As máquinas de trabalhar madeira estão entre as mais perigosas da indústria: a ferramenta está muitas vezes exposta na zona de corte, a peça é conduzida à mão e o operador trabalha perto da ferramenta.

Tema Diploma O que exige, em termos simples
Equipamentos de trabalho Decreto-Lei n.º 50/2005 o empregador só disponibiliza máquinas seguras, verificadas e mantidas; o trabalhador usa-as de acordo com as instruções
Colocação de máquinas no mercado Decreto-Lei n.º 103/2008 (Diretiva Máquinas 2006/42/CE); Regulamento (UE) 2023/1230, aplicável a partir de 20 de janeiro de 2027 máquina nova com marcação CE, declaração de conformidade e manual de instruções em português
Ruído no trabalho Decreto-Lei n.º 182/2006 valores de ação de 80 e 85 dB(A) e valor-limite de 87 dB(A), para 8 horas; acima do valor de ação superior, protetores auditivos obrigatórios
Uso de EPI Decreto-Lei n.º 348/93 e Portaria n.º 988/93 o EPI é o último recurso, adequado ao risco, fornecido pelo empregador e usado pelo trabalhador
Agentes cancerígenos Decreto-Lei n.º 35/2020 (transpõe a Diretiva (UE) 2017/2398) inclui as poeiras de madeira de folhosas (madeira dura), com valor-limite de exposição de 2 mg/m³ (média de 8 horas) desde 18 de janeiro de 2023
Atmosferas explosivas Decreto-Lei n.º 236/2003 avaliar e controlar o risco de explosão de poeiras combustíveis (silos, filtros)

Ao lado da lei existem normas técnicas (EN, ISO) que os fabricantes seguem para construir as máquinas e as ferramentas, por exemplo a EN 847-1, que define as marcações obrigatórias das ferramentas de corte para madeira, incluindo a velocidade máxima admissível.

Hierarquia da prevenção

A proteção segue sempre esta ordem, e o EPI vem em último lugar:

  1. Eliminar ou reduzir o risco na origem (escolher o processo, a máquina e a ferramenta certos).
  2. Proteções coletivas e técnicas: resguardos, cutelo divisor, travões, encravamentos, aspiração localizada.
  3. Medidas de organização: procedimentos escritos, formação, sinalização, arrumação, pausas.
  4. EPI: óculos, protetores auditivos, máscara, calçado de segurança.

Antes de ligar qualquer máquina

Durante o trabalho: uma pessoa por máquina (salvo quando a máquina prevê ajudante, como a receção de peças compridas), nunca distrair um colega que está a operar, nunca retirar aparas ou retalhos com a ferramenta em rotação, e nunca abandonar a máquina com a ferramenta ainda a rodar por inércia.

Equipamentos de proteção individual (EPI)

Os EPI variam com a máquina e com a operação. O calçado de segurança e o vestuário de trabalho justo são comuns a todas.

Risco EPI Onde é mais necessário
Projeção de aparas, lascas, pó óculos de proteção ou viseira todas as máquinas, sobretudo tupia, serra circular, lixadoras
Ruído protetores auriculares (tampões ou abafadores) serra circular, garlopa, desengrossadeira, tupia, respigadeira
Poeiras finas máscara filtrante FFP2 ou FFP3 quando a aspiração não chega lixamento, fresagem de MDF, limpeza de filtros
Queda de peças e esmagamento dos pés calçado de segurança com biqueira manuseamento de tábuas e painéis
Cortes no manuseamento de ferramentas paradas luvas resistentes ao corte, só com a máquina parada e isolada troca de discos, facas e fresas
Arrastamento por ferramentas rotativas vestuário justo, cabelo preso, sem adornos, sem luvas todas as máquinas em funcionamento

Nunca usar luvas, anéis, pulseiras, relógios, fios, cachecóis ou roupa larga junto de ferramentas de corte em rotação. Uma luva pode ser agarrada pela ferramenta e puxar a mão inteira: é uma das causas de acidentes graves mais evitáveis na carpintaria mecânica. As luvas anticorte servem para manusear ferramentas com a máquina parada e isolada, nunca para operar.

Consignação: isolar antes de mexer

Qualquer intervenção dentro da zona perigosa (trocar a ferramenta, desencravar uma peça, limpar, regular por dentro dos resguardos) faz-se com a máquina consignada:

  1. Parar a máquina e esperar a paragem total da ferramenta (algumas máquinas têm travão; outras rodam por inércia durante bastante tempo).
  2. Cortar a energia no interruptor geral (seccionador) da máquina ou retirar a ficha da tomada.
  3. Bloquear o seccionador com um cadeado pessoal e sinalizar com uma etiqueta ("Não ligar, máquina em intervenção").
  4. Libertar as energias residuais: ar comprimido dos cilindros pneumáticos, molas tensionadas, peças em equilíbrio instável.
  5. Verificar que a máquina não arranca (tentar o arranque com o comando normal, sem ninguém na zona perigosa).

Só depois se intervém. No fim, retira-se o cadeado apenas quando os resguardos estão todos repostos.

Exemplo resolvido: verificação antes de ligar a serra circular

Antes de ligar a serra circular para cortar uma série de travessas, o operador verifica, por ordem: (1) o cutelo divisor está montado atrás do disco, alinhado com ele e à distância indicada pelo fabricante; (2) o resguardo superior está no lugar e ajustado à altura da peça; (3) a altura do disco é a necessária para a espessura da peça, sem excesso; (4) a guia paralela está alinhada e apertada; (5) o empurrador está à mão; (6) a aspiração está ligada; (7) não há ferramentas nem retalhos em cima da mesa; (8) a paragem de emergência está acessível e desimpedida. Só depois de confirmar os oito pontos é que liga a máquina.

Exemplo resolvido: exposição média ao pó de madeira dura

Numa oficina que trabalha carvalho e faia (folhosas), uma medição individual de pó inalável deu, para um operador num turno de 8 horas: 3 horas a 3,0 mg/m³ (lixamento sem aspiração eficaz), 2 horas a 1,5 mg/m³ e 3 horas a 0,5 mg/m³.

  1. Soma das exposições pesadas pelo tempo: 3 × 3,0 + 2 × 1,5 + 3 × 0,5 = 9,0 + 3,0 + 1,5 = 13,5 mg·h/m³.
  2. Média para 8 horas: 13,5 ÷ 8 = 1,69 mg/m³.

O valor está abaixo do valor-limite de 2 mg/m³, mas isso não chega: tratando-se de um agente cancerígeno, a lei obriga a reduzir a exposição ao nível mais baixo tecnicamente possível. A ação certa é corrigir a aspiração da lixadora, que é responsável por dois terços da dose (9,0 em 13,5).

4. Ferramentas de corte: tipologia e seleção

Cada máquina usa uma família própria de ferramentas de corte, e conhecê-las é indispensável para as caracterizar e selecionar corretamente. O referencial nomeia discos de serra, brocas, correntes, bedames, lâminas e fresas.

Ferramenta Máquina típica Função
Disco de serra serra circular, esquadrejadora, respigadeira (destopo) cortar a direito, ao fio ou ao través
Lâmina de fita serra de fita cortar curvas, recortes, desdobrar peças grossas
Facas (lâminas planas) garlopa, desengrossadeira aplainar
Fresa de veio tupia, respigadeira perfis, rebaixos, ranhuras, respigas
Fresa de haste fresadora, fresadora portátil, CNC ranhuras, rebaixos, cópia, encaixes
Broca furadoras furos cilíndricos
Bedame oco (com broca interior) furadora de bedame (mortalhadora de bedame) mortalhas de secção quadrada ou retangular
Corrente furadora de corrente mortalhas retangulares, largas e profundas, em série

Materiais de corte

Designação Material Uso típico
HSS (aço rápido) aço ligado facas de garlopa para madeira maciça, brocas simples; afia-se com facilidade, mas gasta-se depressa em painéis
HM ou TCT (metal duro) carboneto de tungsténio, em pastilhas soldadas ou reversíveis discos de serra, fresas e brocas de uso geral; dura muito mais em madeira dura e painéis
PCD (diamante policristalino) camada de diamante sintético produção em série de painéis abrasivos (aglomerado, MDF, laminados); muito caro, dura muitíssimo mais

As ferramentas de metal duro e diamante afiam-se em empresas especializadas, com mós próprias. Cada ferramenta deve ter um registo de afiação (ficha ou caderno) com as datas das afiações e o diâmetro ou a altura restante: uma fresa afiada muitas vezes perde diâmetro e muda a cota do perfil, e um disco muito afiado pode ficar abaixo do diâmetro mínimo que o cutelo divisor e o resguardo admitem.

Discos de serra: número e forma dos dentes

Característica Poucos dentes, dente grande Muitos dentes, dente pequeno
Corte típico ao fio (longitudinal) em madeira maciça ao través (transversal), painéis, acabamento
Velocidade de avanço maior menor
Acabamento mais grosseiro mais limpo
Evacuação da apara fácil (gargantas grandes) mais difícil; aquece se o avanço for demasiado lento

A forma do dente também conta: o dente plano corta bem ao fio; o dente alternado (bisel alternado para um lado e para o outro) dá um corte transversal limpo; o dente trapezoidal alternado com plano é o habitual para painéis revestidos e laminados, porque lasca menos o revestimento. A largura de corte (a espessura dos dentes) é sempre maior do que a do corpo do disco, para que o disco não roce nas paredes do corte; é por isso que o cutelo divisor tem de ser mais fino do que a largura de corte e mais grosso do que o corpo do disco.

Marcações obrigatórias

As ferramentas para madeira trazem gravadas as marcações definidas na norma EN 847-1, entre elas:

Velocidade de corte

A velocidade de corte é a velocidade a que o gume da ferramenta passa pela madeira. Calcula-se a partir do diâmetro da ferramenta e da velocidade de rotação:

v (m/s) = π × D (m) × n (rpm) ÷ 60

Exemplo resolvido: velocidade de corte de um disco e de uma fresa

Disco de serra com 300 mm de diâmetro a 4000 rpm:

  1. D = 300 mm = 0,300 m.
  2. π × 0,300 = 0,942 m por volta.
  3. 0,942 × 4000 = 3770 m/min.
  4. 3770 ÷ 60 = 62,8 m/s.

Fresa de tupia com 140 mm de diâmetro a 6000 rpm: π × 0,140 × 6000 ÷ 60 = 44,0 m/s.

Conclusão prática: para a mesma velocidade de rotação, uma ferramenta maior tem velocidade de corte maior e forças maiores no gume. Por isso, na tupia e na furadora, quanto maior o diâmetro da ferramenta, menor a rotação a escolher, sempre dentro do n max gravado na ferramenta.

Avanço por dente e qualidade de superfície

Numa ferramenta com z gumes, a rodar a n rpm, com a peça a avançar à velocidade vf (mm/min), cada gume corta uma "fatia" de comprimento:

avanço por dente (mm) = vf ÷ (n × z)

Exemplo: uma desengrossadeira com cabeçote de 3 facas a 5000 rpm e avanço de 9 m/min = 9000 mm/min. Avanço por faca: 9000 ÷ (5000 × 3) = 0,6 mm. Cada faca deixa uma pequena onda na superfície de 0,6 mm de passo. Se o avanço subir para 18 m/min, o passo dobra (1,2 mm) e a superfície fica visivelmente ondulada. Na prática: para acabamento, avanço mais lento; para desbaste, avanço mais rápido.

Selecionar a ferramenta certa

Selecionar a ferramenta depende de cinco fatores:

  1. Material: madeira maciça (resinosa ou folhosa), contraplacado, aglomerado, MDF, painel revestido; cada um pede um material de corte e um perfil de dentes diferente.
  2. Tipo de corte: ao fio, transversal, curvo, rebaixo, ranhura, perfil, furo.
  3. Acabamento pretendido: desbaste ou corte fino de acabamento.
  4. Compatibilidade com a máquina: furo ou haste iguais ao veio ou à pinça, diâmetro dentro do admitido, n max acima da rotação da máquina, marcação MAN nas máquinas de avanço manual.
  5. Estado da ferramenta: gumes afiados, sem dentes partidos nem fissuras; uma ferramenta romba obriga a forçar a peça, aquece, queima a madeira e aumenta o risco de retrocesso.

Para cortar ao través painéis de aglomerado melaminado numa esquadrejadora, escolhe-se um disco de metal duro com muitos dentes, de forma trapezoidal alternada com plano, e usa-se o disco riscador para evitar lascar a face de baixo. Para desdobrar ao fio tábuas de pinho, escolhe-se um disco com menos dentes, de garganta grande, que evacua bem a apara.

5. Substituição de ferramentas de corte

A substituição de ferramentas de corte segue sempre a mesma lógica, seja disco de serra, lâmina de fita, jogo de facas, broca, corrente ou fresa, e o procedimento correto é um critério de desempenho desta UC.

  1. Desligar a máquina e esperar a paragem total do órgão de corte.
  2. Consignar: cortar a energia no interruptor geral ou retirar a ficha, bloquear e sinalizar.
  3. Retirar a ferramenta gasta com a chave e o método próprios da máquina, protegendo as mãos com luvas anticorte.
  4. Limpar e verificar o veio, as flanges (anilhas de aperto), os casquilhos e a porca: sem resina, pó, rebarbas nem folgas.
  5. Verificar a ferramenta nova: tipo certo, dimensões, n max, sentido de rotação, gumes sem danos.
  6. Montar respeitando o sentido de rotação e apertar ao valor especificado, com a chave própria (nunca com prolongamentos nem pancadas).
  7. Repor os resguardos e reajustar o cutelo divisor, as guias e os batentes à nova ferramenta.
  8. Testar em vazio, sem peça e fora da linha da ferramenta, ouvindo e observando vibrações; depois fazer um corte de ensaio numa peça de refugo e medi-lo.
  9. Registar a troca (data, ferramenta, motivo) no registo de manutenção ou de afiação.

O passo de consignar é inegociável. Confiar só no botão de paragem da própria máquina não chega: um toque acidental, ou um colega que não sabe que estás a trabalhar, pode ligá-la com a tua mão na ferramenta.

Particularidades de cada máquina

Máquina Ferramenta Cuidados próprios na troca
Serra circular disco bloquear o veio com o dispositivo próprio; a porca do veio desaperta muitas vezes no sentido contrário ao habitual (ver manual); flanges limpas e iguais dos dois lados; reajustar o cutelo divisor ao novo diâmetro
Serra de fita lâmina abrir as portas dos volantes; aliviar a tensão; montar com os dentes virados para baixo, na zona de corte, e no sentido do movimento; tensionar ao valor indicado; centrar a lâmina nos volantes rodando-os à mão; ajustar as guias laterais e o rolamento de apoio traseiro
Garlopa e desengrossadeira facas montar as facas todas à mesma altura com o gabarito de facas do fabricante; apertar os parafusos das cunhas pela ordem indicada; facas de um jogo com a mesma massa (desequilíbrio provoca vibração); nas facas reversíveis descartáveis, virar ou substituir o jogo completo
Tupia fresa confirmar a marcação MAN e o n max; escolher a velocidade do veio adequada ao diâmetro; anéis e casquilhos limpos; fresa o mais baixa possível no veio; reajustar a guia e os resguardos
Furadoras brocas, bedame, corrente brocas bem centradas no mandril ou na pinça; na furadora múltipla, respeitar a posição das brocas de rotação à direita e à esquerda; bedame alinhado com a guia; corrente com a tensão indicada e lubrificada
Fresadora fresa de haste haste inserida na pinça até à profundidade mínima indicada; pinça do diâmetro exato da haste; nunca apertar a pinça sem fresa

Exemplo resolvido: substituir o disco da serra circular

Um disco de serra circular perdeu o corte: queima a madeira, faz mais ruído e obriga a empurrar com força. Procedimento:

  1. Parar a máquina e esperar que o disco pare.
  2. Desligar no interruptor geral, pôr o cadeado e a etiqueta.
  3. Baixar o disco ou abrir o acesso previsto, retirar o resguardo superior de acordo com o manual.
  4. Com as luvas anticorte calçadas, bloquear o veio e desapertar a porca no sentido indicado pelo fabricante.
  5. Retirar o disco gasto e o flange exterior; limpar o veio e os flanges.
  6. Confirmar no disco novo: diâmetro e furo iguais ao especificado para a máquina, n max superior à rotação da máquina, largura de corte compatível com o cutelo divisor.
  7. Montar com a seta de rotação no sentido de giro da máquina (na serra circular de bancada, os dentes da frente descem em direção à mesa).
  8. Apertar a porca com a chave própria; repor o resguardo e ajustar o cutelo divisor à distância indicada do novo disco.
  9. Retirar o cadeado, ligar e testar em vazio; fazer um corte de ensaio num retalho.
  10. Enviar o disco gasto para afiação e registar a troca.

6. Serrar: serra circular e serra de fita

A serra circular de bancada e a esquadrejadora

A serra circular de bancada usa um disco dentado montado num veio por baixo da mesa, que sai por uma ranhura: é a máquina do corte a direito. A esquadrejadora é uma serra circular com carro deslizante (mesa móvel lateral), própria para cortar painéis grandes e fazer cortes transversais precisos; muitas têm também disco riscador.

Órgãos e acessórios principais:

O retrocesso (coice)

O retrocesso (o "coice") é a projeção violenta da peça para trás, em direção ao operador. Acontece quando a madeira toca na parte de trás do disco, onde os dentes sobem: os dentes agarram a peça e atiram-na contra quem está a empurrar, arrastando por vezes a mão para o disco.

Causas mais comuns:

Prevenção:

Uma tábua com tensão interna começa a fechar sobre o disco a meio do corte. Com o cutelo divisor montado, as duas metades ficam afastadas e o corte continua em segurança. Sem ele, a madeira aperta a parte de trás do disco e a peça é projetada para trás com força.

Operar a serra circular: corte ao fio

  1. Verificar a máquina (lista do capítulo 3) e ligar a aspiração.
  2. Regular a altura do disco à espessura da peça e ajustar o resguardo.
  3. Regular a guia paralela à largura pretendida, medindo de um dente do disco (virado para a guia) até à guia.
  4. Apoiar a face de referência na mesa e o canto de referência contra a guia.
  5. Ligar e esperar que o disco atinja a velocidade.
  6. Avançar a peça com um movimento contínuo, sem forçar, com a mão que empurra atrás da peça e a outra a mantê-la contra a guia, sempre antes do disco.
  7. No fim do corte, e sempre que a largura entre o disco e a guia não deixe espaço seguro para a mão, acabar com o empurrador.
  8. Deixar a peça cortada e o retalho do lado de lá do disco; não os ir buscar com a máquina a rodar.

A serra de fita

A serra de fita usa uma lâmina contínua, soldada em anel, que corre sobre dois (por vezes três) volantes. Só a parte da lâmina que desce sobre a mesa corta, e empurra a peça contra a mesa: por isso o risco de retrocesso é muito menor do que na serra circular. Em contrapartida, a lâmina fica exposta na zona de corte e pode partir.

Órgãos e equipamento de segurança:

A largura da lâmina escolhe-se pelo trabalho: lâminas estreitas fazem curvas mais fechadas; lâminas largas fazem cortes a direito e desdobro com menos desvio. O raio mínimo que uma lâmina consegue cortar vem indicado pelo fabricante ou pelo fornecedor; forçar uma curva mais fechada torce a lâmina, aquece-a e pode parti-la.

Regras de operação:

  1. Verificar a tensão e o alinhamento da lâmina e a regulação das guias.
  2. Baixar o resguardo e as guias superiores até ficarem logo acima da peça.
  3. Marcar o traçado; em curvas apertadas, fazer primeiro cortes de alívio radiais até perto do traço.
  4. Conduzir a peça com as duas mãos, afastadas da lâmina, com avanço constante.
  5. Peças redondas (toros, cavilhas grossas) nunca se cortam soltas: rolam e arrastam a mão; usa-se um berço ou gabarito que as imobilize.
  6. Em peças curtas ou nos finais de corte, usar empurrador.
  7. Se a lâmina partir, não tocar em nada: carregar na paragem de emergência e esperar a paragem total dos volantes.

7. Aparelhar: garlopa e desengrossadeira

Aparelhar é transformar uma tábua em bruto numa peça esquadriada, com as quatro faces planas, as medidas certas e ângulos retos. Faz-se em duas máquinas diferentes, sempre por esta ordem.

A garlopa (desempenadeira)

A garlopa mecânica, também chamada desempenadeira, serve para desempenar: acertar uma face de referência plana e, com a ajuda da guia, um canto de referência a 90° com essa face. A garlopa não garante espessura nem paralelismo: só dá uma face plana e um canto em esquadria.

Órgãos principais:

Como desempenar:

  1. Observar a peça e identificar o sentido do fio (capítulo 10). Numa tábua arqueada, a face côncava vai para baixo: apoia nas duas pontas e fica estável.
  2. Regular uma passagem pequena, adequada à madeira e sempre abaixo da profundidade máxima indicada pelo fabricante.
  3. Ajustar o resguardo em ponte: por cima da peça, se aplainas a face; encostado à peça, se aplainas o canto.
  4. Avançar a peça com pressão sobre a mesa de saída logo que ela passe o cabeçote, com as mãos a passarem por cima do resguardo, nunca junto às facas.
  5. Repetir até a face ficar plana em todo o comprimento (sem zonas por aplainar).
  6. Encostar a face aplainada à guia a 90° e aplainar o canto.
  7. Marcar a face e o canto de referência.

A desengrossadeira

A desengrossadeira mecânica (também chamada garlopa de desengrosso) serve para desengrossar: dar à peça a espessura e a largura finais, com a face oposta paralela à face de referência. A peça entra apoiada na face (ou no canto) de referência sobre a mesa; rolos de arrasto puxam-na automaticamente, e o cabeçote de facas, por cima, corta o excesso.

Órgãos e equipamento de segurança:

Regras de operação:

  1. Medir a espessura da peça e regular a mesa para a primeira passagem, a partir da parte mais grossa.
  2. Confirmar que a peça não tem pregos, agrafos, cola seca nem areia.
  3. Introduzir a peça com a face de referência para baixo, no sentido do fio, e largá-la assim que os rolos a agarram; não empurrar nem puxar.
  4. Receber a peça do lado da saída, sem pôr as mãos junto aos rolos nem olhar para dentro da máquina.
  5. Uma peça de cada vez, salvo se a máquina tiver rolo de entrada seccionado e o manual o permitir.
  6. Peças mais curtas do que o comprimento mínimo indicado pelo fabricante (a distância que garante que pelo menos um rolo segura sempre a peça) não se desengrossam, ou só com um gabarito próprio.
  7. Se uma peça encravar: parar, consignar, baixar a mesa e só então retirá-la.

A ordem é sempre desempenar antes de desengrossar: a desengrossadeira copia a face de baixo. Se essa face estiver empenada, os rolos achatam-na durante a passagem e ela volta ao empeno à saída: a peça sai com espessura uniforme, mas continua empenada, ou sai em cunha.

Exemplo resolvido: número de passagens na desengrossadeira

Uma tábua sai da garlopa com 30 mm de espessura e precisa de ficar com 20 mm. Nesta madeira e nesta máquina, o professor definiu passagens de 2 mm para não arrancar fibra nem forçar o motor.

  1. Espessura a remover: 30 mm menos 20 mm = 10 mm.
  2. Número de passagens: 10 mm ÷ 2 mm = 5 passagens.
  3. A cada passagem, a distância entre a mesa e o cabeçote diminui 2 mm (sobe-se a mesa, ou desce-se o cabeçote, conforme o modelo), até aos 20 mm.

Se a divisão não der um número inteiro (por exemplo, 11 mm a remover em passagens de 2 mm = 5,5), arredonda-se para cima: 6 passagens, e a última, de acabamento, é a mais leve (5 × 2 mm + 1 mm).

A máquina combinada

Nas pequenas oficinas é comum a garlopa-desengrossadeira combinada: as mesas da garlopa levantam-se e o mesmo cabeçote serve também a desengrossadeira, por baixo. Na mudança de função é obrigatório trocar e ajustar os resguardos e a coifa de aspiração próprios de cada modo, conforme o manual.

8. Furar: máquinas de furar e mortalhas

As máquinas de furar abrem furos cilíndricos, para cavilhas, ferragens, dobradiças ou parafusos, e furos retangulares (mortalhas) para as ligações de respiga.

Máquina Ferramenta Tipo de furo Uso típico
Furadora de coluna broca cilíndrico, perpendicular à mesa cavilhas, ferragens, furos passantes
Furadora horizontal broca cilíndrico, no topo ou no canto cavilhas em topos
Furadora múltipla várias brocas em linha vários furos cilíndricos de uma vez cavilhas e ferragens em série (mobiliário de painel)
Furadora de bedame bedame oco com broca interior mortalha de fundo e cantos retos mortalhas para respigas retas
Furadora de corrente corrente cortante mortalha retangular, fundo curvo mortalhas grandes e profundas, carpintaria
Furadora oscilante (mortalhadora horizontal) fresa de mortalhar mortalha com extremos arredondados mortalhas em série em pernas e travessas

Brocas para madeira

Na furadora múltipla usada no mobiliário de painel, os furos estão normalmente espaçados de 32 mm entre eixos (o chamado sistema 32), o que permite furar numa só passagem as linhas de furos das ferragens e das prateleiras.

Regras:

Exemplo resolvido: profundidade dos furos para uma cavilha

Uma cavilha de 8 × 40 mm vai ligar duas peças topo contra canto, metade do comprimento em cada peça. Em cada furo deixa-se uma folga de 2 mm no fundo, para a cola em excesso e o ar terem para onde ir e para a cavilha não bater no fundo e impedir o fecho da junta.

  1. Comprimento da cavilha em cada peça: 40 mm ÷ 2 = 20 mm.
  2. Profundidade de cada furo: 20 mm + 2 mm = 22 mm.
  3. Soma das duas profundidades: 2 × 22 mm = 44 mm, ou seja, 4 mm a mais do que a cavilha (2 mm de folga em cada peça).

O erro frequente é regular o batente para 42 mm (comprimento da cavilha mais a folga) num só furo: a cavilha entra quase toda numa peça e fica só com uns milímetros na outra, e a ligação não segura. O diâmetro da broca é o da cavilha (8 mm), para um aperto firme.

Exemplo resolvido: dimensionar uma mortalha

Uma perna de 45 × 45 mm vai receber a respiga de uma travessa com 21 mm de espessura. Uma regra de oficina muito usada é a regra do terço: a espessura da respiga é cerca de um terço da espessura da peça que a leva.

  1. Espessura da respiga: 21 mm ÷ 3 = 7 mm.
  2. Escolhe-se um bedame (ou uma fresa, ou uma corrente) com a medida comercial mais próxima, por exemplo 8 mm, e ajusta-se a respiga à mortalha real.
  3. A mortalha abre-se centrada na espessura da travessa que vai receber, com a profundidade do desenho mais 1 a 2 mm de folga no fundo.

A regra do terço é um ponto de partida, não uma lei: o desenho do móvel e o projetista podem pedir outra medida. O que não muda é a ordem: abrir a mortalha primeiro, medi-la, e só depois cortar a respiga para ela.

9. Moldar e fresar: tupia, fresadora e respigadeira

A tupia

A tupia (fresadora de eixo vertical, também chamada fresadora de mesa) tem um veio vertical que sai da mesa, onde se monta uma fresa (ou um porta-ferramentas com facas). Serve para moldar perfis no canto ou no topo da peça, abrir rebaixos e ranhuras, arredondar cantos e, com moldes, copiar formas curvas em série. É provavelmente a máquina mais perigosa da oficina: a fresa é grande, roda depressa e fica muito perto das mãos.

Órgãos e equipamento de segurança:

Regras de ouro da tupia:

  1. Usar só ferramentas marcadas MAN em avanço manual e respeitar o n max.
  2. Escolher a rotação pelo diâmetro da fresa: fresas grandes, rotação baixa.
  3. Avançar a peça contra o sentido de rotação da fresa (em oposição). Nunca a favor: a fresa agarra a peça e arrasta-a, ou projeta-a, levando a mão atrás.
  4. Tirar o perfil em várias passagens quando for fundo.
  5. Usar premedores, empurradores e, sempre que possível, o alimentador automático.
  6. Peças estreitas ou curtas trabalham-se com gabarito de fixação, nunca à mão.
  7. Nunca remover a proteção para "ver melhor" o corte.

Utilizar moldes na execução de operações

"Utilizar moldes" é uma aptidão do referencial. Um molde (gabarito) é uma peça, normalmente de contraplacado ou MDF, com a forma exata que se quer reproduzir. A peça fixa-se ao molde (com parafusos no refugo, pontas, ou grampos de alavanca), o molde encosta a um anel de cópia montado no veio (ou ao rolamento da fresa), e a fresa corta a peça com a forma do molde.

Vantagens: todas as peças de uma série saem iguais; as mãos seguram o molde, que tem pegas, e não a peça; e a fixação é firme. Um bom molde tem:

Exemplo resolvido: velocidade da tupia e sentido de avanço

Vai montar-se uma fresa de perfil com 160 mm de diâmetro, marcada MAN e n max 7500 rpm. A tupia tem as velocidades 3000, 4500, 6000 e 9000 rpm.

  1. 9000 rpm está acima do n max: proibido.
  2. Velocidade de corte a 6000 rpm: π × 0,160 × 6000 ÷ 60 = 50,3 m/s.
  3. Velocidade de corte a 4500 rpm: π × 0,160 × 4500 ÷ 60 = 37,7 m/s.
  4. Ambas estão abaixo do n max. Escolhe-se a que o fabricante da fresa recomenda para o seu diâmetro; na falta dessa indicação, a mais baixa que dê um corte limpo, porque as forças e a energia de uma fresa grande são elevadas.

A fresa roda no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, vista de cima (o sentido habitual; confirmar sempre na máquina). Com a guia atrás da fresa e o operador à frente, a peça avança da direita para a esquerda, contra o gume que vem ao seu encontro.

A fresadora

Na oficina chama-se fresadora à máquina que usa fresas de haste, presas numa pinça, a rodar a rotações muito mais altas do que as da tupia e com diâmetros pequenos. Pode ser:

Na fresadora, a regra do sentido de avanço mantém-se: a peça (ou a máquina portátil) avança de modo a que a fresa corte em oposição, contra o avanço. Em cópia de contornos com fresadora portátil, isso significa contornar o exterior da peça no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio e o interior no sentido dos ponteiros (para uma fresa que roda no sentido dos ponteiros, vista de cima, como é habitual nas portáteis).

Ferramentas: fresas de ranhurar (retas), de rebaixo, de perfil, de arredondar, de chanfrar, de cauda de andorinha, com ou sem rolamento, em HSS, metal duro ou diamante. A haste tem de entrar na pinça pelo menos até à marca ou profundidade indicadas pelo fabricante; uma haste mal presa pode soltar-se a alta rotação.

A respigadeira

A respigadeira corta respigas (espigas): a parte saliente, no topo de uma peça, que entra na mortalha (ou furo) da outra peça. Numa só passagem do carro, a peça fixa passa por:

  1. Uma serra de destopo, que corta a peça ao comprimento exato.
  2. Fresas de respigar (cabeças superior e inferior), que tiram as faces da respiga e deixam os ombros direitos.
  3. Em algumas máquinas, fresas de contraperfil (para ligar peças molduradas) e de ranhura.

A peça fixa-se ao carro com grampos (manuais ou pneumáticos), encostada a batentes de comprimento; batentes e guias garantem que todas as respigas de uma série saem iguais. Os resguardos envolvem as cabeças de corte; as mãos nunca vão à zona das ferramentas, porque é o carro que leva a peça.

Uma respiga bem cortada tem:

Acionar elementos auxiliares móveis e pneumáticos

Muitas máquinas têm elementos auxiliares que o operador aciona: o carro deslizante da esquadrejadora e da respigadeira, a mesa móvel de algumas tupias, os alimentadores automáticos (arrastadores) da tupia e da serra circular, os premedores e grampos pneumáticos das furadoras múltiplas, respigadeiras e fresadoras.

Regras:

Antes de acionar qualquer elemento pneumático de fixação, confirmar sempre, com os olhos, que as mãos, próprias e de colegas, estão fora da zona de aperto.

10. Veios, revessos e peças curtas

Estes dois temas são conhecimentos próprios do referencial e atravessam todas as máquinas.

Precauções com veios e revessos

A madeira tem fio (ou veio): a direção das fibras. Numa peça real, as fibras raramente são perfeitamente paralelas às faces; sobem e descem ao longo da peça. Quando a ferramenta corta a favor do fio, as fibras são cortadas e deitadas, e a superfície fica lisa. Quando corta contra o fio, a ferramenta levanta as fibras à frente do gume e arranca pedaços: a superfície fica com arrancamentos e rugosa.

O revesso é uma zona onde o fio muda de sentido (junto a nós, em madeira de fio entrecruzado ou ondulado). Aí, qualquer que seja o sentido de passagem, uma parte da peça é cortada contra o fio.

Como proceder:

  1. Ler o fio antes de aplainar: observar o canto da peça, onde as fibras aparecem como riscas; a peça passa-se de modo a que a ferramenta corte "a descer" as fibras, a favor do fio.
  2. Se a peça arranca: inverter o sentido de passagem.
  3. Em zonas de revesso: reduzir a profundidade da passagem, reduzir a velocidade de avanço (mais cortes por milímetro), usar facas bem afiadas; se o arranque persistir, acabar à lixadora ou à mão com raspilha.
  4. Na tupia, em perfis de topo, a saída da fresa lasca o canto; trabalhar primeiro os topos e depois os cantos ao fio, que limpam as lascas, ou usar um calço de apoio na saída.

O arranque de fibra não é só um defeito estético: um nó que salta ou uma lasca que prende a ferramenta podem provocar um esticão ou uma projeção.

Precauções com peças curtas

Uma peça curta (ou estreita, ou fina) obriga as mãos a ficar perto da ferramenta e apoia mal nas mesas, nos rolos e nas guias. As regras gerais:

Máquina Auxiliar para peças curtas
Serra circular empurrador; carro com grampo; nunca a guia paralela como batente
Serra de fita empurrador; gabarito com pega
Garlopa empurrador de garlopa (bloco com pega); abaixo do mínimo, não se aplaina
Desengrossadeira abaixo do comprimento mínimo, não se desengrossa, ou usa-se gabarito próprio
Tupia gabarito de fixação com pegas; alimentador automático
Furadoras grampo, sargento ou premedor pneumático
Respigadeira grampo do carro e batente
Lixadora de banda gabarito ou suporte; peças pequenas podem ser arrastadas pela lixa

Quando a peça é curta, é a ferramenta auxiliar que se aproxima do corte, nunca a mão.

11. Samblagens

Samblagem é o nome geral das ligações que unem peças de madeira entre si. Algumas vivem só da geometria e da cola; outras levam cavilhas, lamelas, parafusos ou ferragens. "Executar samblagens" é uma aptidão do referencial, e é o ponto em que se vê se as máquinas foram bem reguladas: uma samblagem só fecha bem se as peças estiverem aparelhadas com rigor.

Samblagem Como é Máquinas usadas Uso típico
Respiga e mortalha (fura e respiga) a respiga de uma peça entra na mortalha (furo, mecha) da outra respigadeira; furadora de bedame, de corrente ou oscilante pernas e travessas de mesas e cadeiras, caixilhos
Cavilhas cilindros de madeira colados em furos das duas peças furadora de coluna, horizontal ou múltipla mobiliário de painel, reforço de ligações
Meia-madeira cada peça perde metade da espessura na zona da ligação e as duas ficam à face serra circular, tupia, fresadora cruzamentos e ligações de canto de peças à mesma cota
Meia-esquadria corte a 45° em cada peça, para formar um canto a 90° serra circular com guia de esquadria, esquadrejadora molduras, caixilhos à vista
Malhete (cauda de andorinha ou dentes retos) dentes em forma de cauda de andorinha, ou retos, que encaixam nos da outra peça fresadora com gabarito, tupia cantos de gavetas e caixas
Macho e fêmea língua contínua num canto que entra na ranhura do outro tupia soalhos, forros, painéis
Ranhura e lingueta solta ranhuras nas duas peças e uma lingueta colada serra circular, tupia, fresadora tampos, painéis
Rebaixo degrau ao longo do canto, onde outra peça apoia tupia, fresadora, serra circular costas de móveis, vidros, fundos

Nota de vocabulário: o malhete é a ligação em cauda de andorinha (ou em dentes retos), não o nome do furo. O furo que recebe a respiga chama-se mortalha ou mecha.

Como se executa uma samblagem em máquina

  1. Aparelhar todas as peças com rigor: esquadria e medidas certas.
  2. Marcar as faces e cantos de referência; todas as regulações partem deles.
  3. Regular a máquina e fazer uma peça de ensaio em refugo com a mesma espessura.
  4. Medir a peça de ensaio (paquímetro) e corrigir a regulação.
  5. Produzir a série sem mexer nas regulações.
  6. Montar a seco (sem cola) para verificar o ajuste e a esquadria.
  7. Colar e apertar com sargentos, verificando as diagonais.

Uma ligação bem ajustada fecha com uma pressão firme da mão, nunca à martelada nem a abanar. À martelada, a respiga rebenta a mortalha ou tira a cola toda; a abanar, a cola não enche a folga e a ligação solta-se com o uso.

Exemplo resolvido: meia-madeira e verificação por diagonais

Dois barrotes de 40 mm de espessura cruzam-se em meia-madeira.

  1. Profundidade do entalhe em cada peça: 40 mm ÷ 2 = 20 mm.
  2. Largura do entalhe: igual à largura real da outra peça (medir, não confiar no desenho).
  3. Depois de montado um caixilho retangular de 600 × 450 mm, mede-se a esquadria pelas diagonais: num retângulo perfeito, as duas diagonais são iguais e valem √(600² + 450²) = √(360 000 + 202 500) = √562 500 = 750 mm. Se uma diagonal medir mais do que a outra, o caixilho está fora de esquadro e corrige-se, com o sargento em diagonal, antes de a cola secar.

12. Lixar: lixadoras e abrasivos

As lixadoras preparam a superfície da peça para o acabamento (verniz, óleo, tinta, laca), já depois das operações de corte e moldagem. Não servem para corrigir medidas: uma peça fora de cota não se "acerta" à lixa.

Lixadora Como trabalha Uso típico
Lixadora de banda estreita (de cinta) lixa sem fim a correr sobre dois rolos, com mesa ou patim desbastar, lixar faces e cantos, curvas convexas
Lixadora de banda larga (calibradora) banda larga com rolo de contacto e avanço automático calibrar a espessura e lixar painéis e peças planas em série
Lixadora de disco (fixa) disco rotativo com lixa e mesa de apoio topos, esquadrias, curvas convexas; é agressiva, desbasta depressa
Lixadora de rolo ou de fuso (oscilante) cilindro com lixa, por vezes oscilante curvas côncavas
Lixadora orbital e roto-orbital (portáteis) patim com movimento orbital acabamento fino de faces

Grão e sequência

O grão é o número que indica a finura da lixa: quanto maior o número, mais fino o grão. A sequência vai sempre do grão mais grosso para o mais fino, e não se saltam mais do que um ou dois números da série de cada vez, porque o grão fino não consegue apagar os riscos fundos do grão grosso. Uma sequência corrente em madeira maciça para envernizar é 80, 120, 180 (e 220 quando o acabamento o pede). O grão de partida depende do estado da superfície: uma face bem aplainada pode começar em 120.

Regras:

13. Aspiração e despoeiramento

Todas as máquinas desta oficina produzem aparas e pó, que têm de ser recolhidos na origem, no ponto onde são produzidos, pelo sistema de aspiração e despoeiramento. É a principal medida coletiva contra o pó de madeira, que é irritante, sensibilizante (alergias, asma) e, no caso das madeiras de folhosas, cancerígeno reconhecido.

Componentes

Princípios de funcionamento

Exemplo resolvido: velocidade do ar numa conduta

Uma conduta de 120 mm de diâmetro transporta um caudal de 800 m³/h.

  1. Área da secção: π × (0,120 m)² ÷ 4 = π × 0,0144 ÷ 4 = 0,0113 m².
  2. Caudal em m³/s: 800 ÷ 3600 = 0,222 m³/s.
  3. Velocidade: 0,222 ÷ 0,0113 = 19,7 m/s, praticamente os 20 m/s do princípio acima.

Se a mesma conduta receber só 500 m³/h, a velocidade desce para 500 ÷ 3600 ÷ 0,0113 = 12,3 m/s: as aparas mais pesadas começam a assentar e a conduta entope com o tempo.

Operar o sistema de aspiração

"Operar o sistema de aspiração e despoeiramento" é uma aptidão do referencial. No dia a dia significa:

  1. Ligar a aspiração antes da máquina e desligá-la depois de a ferramenta parar (para limpar a conduta).
  2. Abrir o registo da máquina que vais usar e fechar os das máquinas paradas.
  3. Posicionar as coifas e os resguardos com captação (por exemplo, o resguardo superior da serra circular) junto à peça.
  4. Vigiar sinais de mau funcionamento: pó a sair pela máquina, aparas acumuladas na mesa, ruído diferente no ventilador, indicador de colmatação do filtro.
  5. Esvaziar os contentores e sacos de aparas antes de ficarem cheios, com máscara, sem espalhar pó.
  6. Limpar a oficina com aspirador, nunca com ar comprimido nem com vassoura a seco, que levantam o pó fino.

Pó de madeira, incêndio e explosão (ATEX)

O pó de madeira é combustível. Depositado em camadas, arde com facilidade; disperso no ar em nuvem, dentro de silos, filtros e condutas, pode formar uma atmosfera explosiva. É por isso que os filtros e silos das grandes instalações ficam em regra no exterior, com painéis de alívio de explosão e sistemas de deteção de faíscas, e que a lei (Decreto-Lei n.º 236/2003) obriga a avaliar estes locais e a classificá-los em zonas.

Para o operador isto traduz-se em regras simples:

14. Qualidade e ambiente

Normas da qualidade

A qualidade, neste contexto, é fazer a peça conforme a especificação (desenho, lista de peças, ordem de fabrico), à primeira, sem desperdício. As empresas organizam isto num sistema de gestão da qualidade, muitas vezes segundo a norma ISO 9001, mas o essencial para o operador é:

Verificação Instrumento Exemplo de critério
Espessura e largura paquímetro dentro da tolerância do desenho
Comprimento fita métrica, régua dentro da tolerância do desenho
Esquadria esquadro, diagonais diagonais iguais
Planeza régua sobre a face sem fresta visível
Superfície vista à luz rasante, tato sem arrancamentos, queimaduras nem riscos de lixa
Ajuste das samblagens montagem a seco fecha com pressão firme, sem frestas

Normas de proteção ambiental

As normas ambientais aplicadas a esta oficina dizem sobretudo respeito aos resíduos e às emissões:

Ao planear o corte de várias travessas a partir de uma só tábua, o operador organiza as medidas de forma a aproveitar o comprimento total, deixando o menor desperdício possível nas pontas. Os retalhos que servem guardam-se para peças pequenas e gabaritos; a serradura segue para valorização. Esta atitude de organização e sentido crítico está prevista no referencial da UC.

Erros comuns

Glossário

Síntese

O trabalho na oficina de segunda transformação segue sempre a mesma lógica. Primeiro prepara-se: escolhe-se e inspeciona-se a madeira, com o teor de água certo e o fio no comprimento das peças; caracteriza-se a máquina (motor, órgão de corte, segurança); seleciona-se a ferramenta pelo material, pelo corte e pelas marcações; e substitui-se com a máquina consignada. Depois serra-se (circular para o direito, de fita para as curvas), aparelha-se (desempenar na garlopa, desengrossar na desengrossadeira, por esta ordem) e fura-se (brocas para furos redondos, bedame, corrente ou fresa para mortalhas). A seguir molda-se e fresa-se (tupia, fresadora, respigadeira), com moldes para as séries e o avanço sempre contra a rotação, e executam-se as samblagens, ajustadas a seco antes de colar. Por fim lixa-se, do grão grosso ao fino.

Ao longo de todo o percurso: os resguardos no lugar, o EPI certo e nada solto junto das ferramentas; atenção ao fio, aos revessos e às peças curtas; a aspiração ligada; a primeira peça medida; os resíduos separados. Um operador competente não é o que trabalha mais depressa; é o que faz a peça certa à primeira e chega ao fim do dia com as duas mãos.

Exercícios resolvidos

1. Uma peça sai da garlopa com a face e o canto de referência. Porque não se vai diretamente cortar a espessura final na serra circular?

Resolução: a serra circular pode cortar ao fio com a face de referência contra a guia, mas deixa uma superfície serrada, com marcas dos dentes, e com uma precisão de espessura que depende do disco e da condução à mão. A desengrossadeira, apoiada na face de referência, dá uma espessura uniforme em todo o comprimento, com a face oposta aplainada e paralela à referência. Por isso a serra corta em bruto (com sobremedida) e a desengrossadeira dá a medida final.

2. Que dispositivo da serra circular mais reduz o risco de retrocesso, e onde fica?

Resolução: o cutelo divisor, colocado atrás do disco e alinhado com ele. Se a madeira tender a fechar sobre o disco por tensões internas, o cutelo mantém as duas partes afastadas e impede que a madeira aperte a parte de trás do disco, onde os dentes sobem e projetariam a peça para trás.

3. Um aluno quer abrir o furo de 35 mm de uma dobradiça de copo com uma broca de fundo plano à rotação mais alta da furadora, "para ser mais rápido". Está correto?

Resolução: não. Quanto maior o diâmetro da broca, menor deve ser a rotação (e nunca acima do n max da broca). Uma broca de 35 mm a rotação alta aquece, queima a madeira e aumenta o esforço sobre a peça, que tem de estar presa com grampo ou premedor, nunca segura à mão.

4. Distingue tupia de fresadora quanto à ferramenta e à operação típica.

Resolução: a tupia usa fresas de veio, de diâmetro grande, a rotação moderada, num veio vertical que sai da mesa; é a máquina dos perfis, rebaixos e ranhuras ao longo dos cantos, e da cópia de curvas com molde e anel de cópia. A fresadora usa fresas de haste, presas numa pinça, de diâmetro pequeno e rotação muito alta; é própria para ranhuras, rebaixos de ferragens, contornos interiores e cópia com gabarito e pino de cópia.

5. Porque é que uma peça curta é mais perigosa, e o que se faz?

Resolução: porque as mãos ficam perto da ferramenta e a peça apoia mal nas mesas, rolos e guias, podendo ser arrastada ou projetada. Respeita-se o comprimento mínimo indicado pelo fabricante; sempre que possível trabalha-se uma peça comprida e só no fim se corta ao comprimento; se não for possível, usam-se gabaritos de fixação, empurradores, premedores ou grampos.

6. Um colega vai fazer um rebaixo na tupia e avança a peça no mesmo sentido da rotação da fresa, "porque assim corta mais depressa". Que lhe respondes?

Resolução: que está errado e em risco. A favor da rotação, a fresa agarra a peça e arrasta-a ou projeta-a, levando a mão. O avanço correto é contra o sentido de rotação; numa tupia que roda no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, com a guia atrás da fresa, a peça avança da direita para a esquerda.

7. Uma amostra de pinho pesa 612 g húmida e 510 g depois de seca em estufa. Qual o teor de água? Pode usar-se já num móvel de interior?

Resolução: (612 menos 510) ÷ 510 × 100 = 102 ÷ 510 × 100 = 20 %. Está muito acima do intervalo usual para interior (na ordem dos 8 a 12 %): se for trabalhada agora, retrai depois de montada e as ligações abrem. Tem de secar mais antes de ser aparelhada.

8. Um disco de 250 mm roda a 4800 rpm. Qual a velocidade de corte?

Resolução: π × 0,250 × 4800 ÷ 60 = 3770 ÷ 60 = 62,8 m/s. (Curiosidade: dá o mesmo que um disco de 300 mm a 4000 rpm, porque 0,250 × 4800 = 0,300 × 4000 = 1200.)

9. Uma travessa de 24 mm de espessura vai ligar-se a uma perna por cavilhas de 8 × 30 mm, metade em cada peça, com 1,5 mm de folga no fundo de cada furo. A que profundidade se regula o batente?

Resolução: 30 mm ÷ 2 = 15 mm em cada peça; 15 mm + 1,5 mm = 16,5 mm de profundidade em cada furo, em ambas as peças.

10. Que três verificações fazes ao sistema de aspiração antes de ligar a tupia?

Resolução: (1) o registo da tupia está aberto (e os das máquinas paradas fechados); (2) a coifa está ligada ao resguardo e posicionada junto à fresa; (3) o contentor de aparas não está cheio e o filtro não indica colmatação. Depois liga-se a aspiração antes da tupia.