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UC · Unidade de Competência · UC00187

Sebenta · Atuar de acordo com os princípios e normas militares (UC00187)

Constituição, leis e regulamentos militares, disciplina, símbolos, serviço militar, segurança e Lei do Conflito Armado
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Militar Naval, T. Militar Terrestre, T. Militar Aeroespacial ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Um militar não age por impulso nem por opinião pessoal: age dentro de um quadro legal e regulamentar construído ao longo de décadas, que define o que pode, o que deve e o que não pode fazer. Esta sebenta percorre esse quadro do topo para a base: primeiro a Constituição da República Portuguesa (CRP) e a Lei da Defesa Nacional (LDN), que dão à Defesa Nacional o seu lugar no Estado; depois o Estatuto dos Militares das Forças Armadas (EMFAR), que define a condição militar; depois a disciplina e a justiça militar (RDM e CJM); depois os símbolos, os uniformes e as honras militares; depois o serviço militar e a segurança; e por fim a igualdade de oportunidades e a Lei do Conflito Armado, que regula a conduta em operações.

Objetivos de aprendizagem (referencial): atuar de acordo com os princípios fundamentais da Constituição da República Portuguesa; atuar conforme os requisitos de conduta estabelecidos nas leis e regulamentos militares; atuar conforme os princípios da igualdade de oportunidades e da perspetiva de género das Forças Armadas; e atuar de acordo com a Lei do Conflito Armado. Tudo isto em contexto real: nas Unidades, Estabelecimentos e Órgãos das Forças Armadas e em Teatro de Operações.

Esta matéria treina, acima de tudo, atitudes: responsabilidade, autonomia, autocontrolo, disciplina, assertividade, empatia, atavio e aprumo, empenho, flexibilidade e adaptabilidade, integridade, resiliência, sentido crítico, sentido de organização, respeito pela diferença, conduta e ética militar, e respeito pelas normas, regulamentos e procedimentos instituídos. Um militar que conhece a lei mas não a interioriza como atitude falha o mais importante.

1. A profissão militar e o quadro normativo

Ser militar é exercer uma profissão diferente de qualquer outra: implica a possibilidade de arriscar a vida em defesa da Pátria, a disponibilidade permanente e a sujeição a uma hierarquia e a uma disciplina próprias. Por isso a profissão militar não se rege pelo Código do Trabalho comum, mas por um conjunto de diplomas específicos, cada um com uma função própria.

Diploma Sigla O que regula
Constituição da República Portuguesa CRP os princípios fundamentais do Estado e da Defesa Nacional
Lei da Defesa Nacional LDN a definição de defesa, a isenção partidária e a estrutura superior da Defesa Nacional e das Forças Armadas
Estatuto dos Militares das Forças Armadas EMFAR a condição militar, os direitos e os deveres
Regulamento de Disciplina Militar RDM os conceitos de disciplina, as recompensas e as punições
Código de Justiça Militar CJM os crimes estritamente militares e as respetivas penas
Regulamento de Uniformes (sem sigla própria) o uso correto do uniforme
Regulamento de Continências e Honras Militares RCHM as honras aos símbolos nacionais, os postos e os distintivos
Lei do Serviço Militar LSM as formas de prestação do serviço militar
Regulamento da Lei do Serviço Militar (regulamenta a LSM) o recrutamento e as entidades intervenientes
Regulamento de Incentivos à Prestação do Serviço Militar RIPSM os incentivos a quem serve
Lei do Conflito Armado LCA a conduta em operações e a proteção de pessoas e bens

Este conjunto de diplomas aplica-se em dois contextos principais: nas Unidades, Estabelecimentos e Órgãos das Forças Armadas (o dia a dia da caserna, do quartel, da unidade) e em Teatro de Operações (missões, exercícios e cenários operacionais, em Portugal ou no estrangeiro). O que muda entre os dois contextos não é a lei, é a intensidade e o risco: as mesmas normas de conduta aplicam-se, mas em Teatro de Operações juntam-se ainda as regras do direito internacional humanitário, tratadas na Lei do Conflito Armado.

Uma boa forma de organizar mentalmente este bloco de diplomas é perguntar, para cada um: "isto define quem eu sou (estatuto), como me comporto (disciplina), o que acontece se eu falhar gravemente (justiça militar), ou como represento o país (símbolos e honras)?" Esta pergunta simples evita confundir o RDM com o CJM, o erro mais frequente nesta matéria.

2. A Constituição da República Portuguesa e a Defesa Nacional

A Constituição da República Portuguesa (CRP) é a lei fundamental do Estado português: está acima de todas as outras leis, e nenhuma norma militar pode contrariá-la. Para a profissão militar, três partes da CRP são especialmente relevantes.

A Lei da Defesa Nacional (LDN) desenvolve o que a CRP estabelece em traços gerais. Define o conceito de defesa nacional como o conjunto de medidas que garantem a soberania, a independência e a integridade territorial de Portugal, bem como a liberdade e a segurança das populações. Consagra a defesa da pátria como direito e dever fundamental de todos os portugueses, e o princípio da isenção partidária das Forças Armadas: os militares, no exercício das suas funções, não podem servir interesses de partidos ou correntes políticas. Por fim, a LDN fixa a estrutura superior de Defesa Nacional e das Forças Armadas: o Presidente da República, o Conselho Superior de Defesa Nacional, o Governo (através do Ministro da Defesa Nacional) e o Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, cada um com competências próprias e complementares.

Exemplo resolvido · aplicar o princípio da isenção partidária

Um militar recebe um convite para participar, fardado, num comício de um partido político. Como deve atuar, à luz da LDN e da CRP?

  1. Identificar o princípio em causa: a isenção partidária das Forças Armadas, que decorre da LDN e da própria função das Forças Armadas ao serviço de todo o Estado, não de uma parte política.
  2. Concluir que comparecer fardado a um comício confundiria a instituição militar com uma posição partidária, o que a lei proíbe.
  3. Atuação correta: recusar o convite nesses termos e, se quiser participar como cidadão, fazê-lo fora de serviço e sem uniforme, exercendo o direito individual sem comprometer a instituição.

3. O Estatuto dos Militares das Forças Armadas (EMFAR)

O EMFAR é o diploma central da profissão: define quem é militar, o que é a condição militar e quais são os direitos e os deveres que dela decorrem.

A condição militar caracteriza-se por um conjunto de especificidades que não existem noutras profissões: a subordinação à disciplina militar, com restrição de alguns direitos e o cumprimento de deveres especiais; a disponibilidade permanente para o serviço; a sujeição à hierarquia; e a possibilidade de arriscar a vida em cumprimento da missão. Estas especificidades justificam-se pela natureza da missão das Forças Armadas: garantir a defesa militar da República.

Entre os direitos dos militares, destacam-se o direito à progressão na carreira, à formação, à assistência na doença, e a garantias específicas de defesa em processos disciplinares. Entre os deveres, destacam-se: obediência à hierarquia legítima, dentro da lei; lealdade ao Estado e à instituição; correção de conduta, dentro e fora do serviço; sigilo sobre matérias reservadas; e assiduidade e pontualidade. Um dever central é o de obediência: o militar cumpre as ordens dos superiores hierárquicos, exceto quando estas configurem manifestamente a prática de um crime.

Categoria Exemplos de direitos Exemplos de deveres
Carreira progressão, formação, avaliação justa assiduidade, aproveitamento na formação
Disciplinares direito de defesa, direito a recurso cumprir as ordens legítimas
Sociais assistência na doença, apoio à família correção de conduta pública e privada
Institucionais liberdade de expressão fora de serviço isenção partidária em serviço

Direitos e deveres não são opostos, são complementares: quanto mais um militar cumpre os seus deveres, mais os seus direitos são reconhecidos e protegidos pela instituição. Um erro comum é ver o EMFAR só como uma lista de restrições; é também a garantia dos direitos de quem serve.

4. Disciplina militar e o Regulamento de Disciplina Militar (RDM)

A disciplina militar é o conjunto de princípios e regras de conduta destinados a garantir a eficácia da instituição militar e a coesão das unidades. Não é um fim em si mesma: existe para que uma unidade responda de forma previsível, rápida e eficaz em qualquer circunstância, incluindo as mais exigentes.

O RDM organiza-se em torno de dois mecanismos complementares:

O RDM assenta em princípios que devem ser respeitados na sua aplicação: a proporcionalidade (a punição deve ser proporcional à gravidade da infração), o contraditório (o militar tem direito a defender-se antes de ser punido) e a hierarquia de competência (só certos postos podem aplicar certas punições).

Exemplo resolvido · recompensa ou punição?

Um soldado chega sistematicamente atrasado à formatura da manhã, apesar de duas chamadas de atenção verbais. Outro soldado, na mesma unidade, socorreu um camarada ferido durante um exercício, fora do que lhe era exigido. Como qualificar cada situação à luz do RDM?

  1. O primeiro caso é uma infração disciplinar (falta reiterada de pontualidade e de correção de conduta): justifica uma punição, proporcional à reincidência, precedida do direito de defesa.
  2. O segundo caso é um comportamento exemplar, que ultrapassa o que era exigido: justifica uma recompensa (por exemplo, um louvor), que serve de exemplo à unidade.
  3. Conclusão: o RDM não é só um instrumento de repressão, é também um instrumento de reconhecimento, e um bom comandante usa os dois de forma equilibrada.

5. Crimes estritamente militares e o Código de Justiça Militar (CJM)

Nem toda a infração de um militar é disciplinar: quando a conduta atinge um grau de gravidade que afeta bens jurídicos essenciais à instituição militar (a obediência, a autoridade do comando, o serviço, o patrimóno militar), passa a ser crime estritamente militar, regulado pelo CJM.

A diferença essencial entre o RDM e o CJM é a gravidade e a natureza da infração: o RDM trata desvios de conduta e de disciplina; o CJM trata crimes, com penas que podem incluir a prisão em estabelecimento prisional, aplicadas por um tribunal, não pelo comando. Exemplos de crimes estritamente militares incluem a deserção, a desobediência grave e qualificada, e a violação de segredo militar.

RDM (disciplina) CJM (justiça militar)
Natureza da infração desvio de conduta ou de serviço crime, com gravidade elevada
Quem decide o comando, na hierarquia um tribunal
Tipo de sanção repreensão a prisão disciplinar penas previstas no Código Penal e no CJM
Exemplo atraso reiterado, negligência deserção, desobediência qualificada

Este é o erro conceptual mais comum da UC: tratar o RDM e o CJM como se fossem a mesma coisa, só com nomes diferentes. Não são: um é disciplinar e resolve-se dentro da unidade; o outro é penal e resolve-se em tribunal. Perante uma situação concreta, a primeira pergunta é sempre "isto é uma falta de conduta ou um crime?"

6. Símbolos nacionais, uniformes e honras militares

Os símbolos nacionais (a bandeira, o hino, o estandarte) representam a soberania e a identidade do país, e merecem por isso um tratamento especial por parte de quem serve nas Forças Armadas. O estandarte nacional, em particular, é a bandeira que representa uma unidade militar e o próprio país em cerimónias solenes; presta-se-lhe continência da mesma forma que se presta à bandeira nacional.

O Regulamento de Continências e Honras Militares (RCHM) define como e quando se prestam honras: às entidades (o Presidente da República, os comandantes, outras autoridades), aos símbolos nacionais, e entre militares de postos diferentes. Define também os postos (a hierarquia, do soldado ao general ou ao almirante, consoante o ramo) e os distintivos que os identificam visualmente (galões, estrelas, dragonas).

O Regulamento de Uniformes disciplina o uso correto do uniforme: que uniforme se usa em que ocasião (serviço, cerimónia, campo), como se apresentam os distintivos de posto e de especialidade, e que rigor de asseio e compostura (atavio e aprumo) é exigido. O uniforme não é apenas roupa: é a apresentação visual da instituição e transmite disciplina e profissionalismo.

Situação Norma aplicável Exemplo prático
Hastear a bandeira nacional RCHM continência de todos os militares presentes
Cruzar-se com um superior hierárquico RCHM continência individual, conforme o posto
Cerimónia com o estandarte da unidade RCHM honras equivalentes às da bandeira nacional
Uso do uniforme de cerimónia Regulamento de Uniformes verificação de distintivos e asseio pessoal

Exemplo resolvido · identificar o posto pelo distintivo

Um militar observa, numa parada, um colega com um determinado número de estrelas na farda. Como deve agir para saber que continência prestar?

  1. Consultar a tabela de postos e distintivos do ramo em causa (Exército, Marinha ou Força Aérea), que associa cada distintivo a um posto.
  2. Confirmar se o posto observado é superior, igual ou inferior ao seu.
  3. Aplicar a regra do RCHM: presta-se continência a um superior hierárquico; entre iguais, a continência é recíproca conforme a praxe da unidade.
  4. Em caso de dúvida sobre o posto, prestar sempre a continência: o erro de excesso de respeito nunca é uma infração, o de omissão pode ser.

7. O serviço militar: formas de prestação, recrutamento e incentivos

A Lei do Serviço Militar (LSM) define o conceito e a natureza do serviço militar: o dever de defesa da pátria através da prestação de serviço nas Forças Armadas, e as situações do serviço militar em que um cidadão se pode encontrar (disponibilidade, reserva, reforma).

As formas de prestação previstas na LSM incluem: o serviço efetivo em regime de contrato (o militar assina um contrato por um período determinado), o regime de voluntariado (ingresso voluntário nas Forças Armadas), e a convocação e mobilização (chamada de cidadãos ao serviço em situações excecionais, previstas na lei). A cada uma destas formas correspondem direitos e garantias próprios, e um sistema de incentivos que torna o serviço militar atrativo.

O Regulamento da Lei do Serviço Militar desce ao detalhe operacional: identifica as entidades intervenientes no recrutamento (Direção-Geral de Recursos da Defesa Nacional, Centros de Recrutamento, os próprios ramos), disciplina a reserva de disponibilidade (o período em que um cidadão pode ser chamado ao serviço após terminar o seu vínculo) e detalha os direitos e garantias de quem se candidata e presta serviço.

O Regulamento de Incentivos à Prestação do Serviço Militar (RIPSM) define os benefícios concretos atribuídos a quem serve: prioridade em concursos públicos, apoios à formação e ao emprego após o fim do contrato, e outros incentivos que reconhecem o valor do serviço prestado ao país.

Um jovem de 20 anos ingressa no regime de voluntariado por 4 anos. Ao longo do contrato, tem direito a formação certificada, remuneração e progressão; no final, pode beneficiar dos incentivos do RIPSM (por exemplo, equivalência de formação e apoio à inserção no mercado de trabalho) e entra numa reserva de disponibilidade, prevista no Regulamento da LSM, durante a qual pode ser chamado em caso de necessidade excecional.

8. Segurança militar: áreas e atividades sensíveis

A segurança, nas Forças Armadas, não se limita à segurança física de instalações: cobre também a proteção de informação, de pessoal e de meios. O referencial identifica especificamente as áreas e atividades sensíveis de segurança: zonas ou tarefas cujo acesso ou execução exige regras de segurança acrescidas, precisamente porque um incidente aí tem consequências desproporcionadas.

São exemplos de áreas sensíveis: paióis de munições, centros de comunicações, zonas de armazenamento de material classificado, e instalações de comando e controlo. São exemplos de atividades sensíveis: o manuseamento de armamento e munições, a gestão de informação classificada, e a operação de sistemas críticos.

As regras, procedimentos e comportamentos de segurança que um militar deve adotar (um dos critérios de desempenho da UC) incluem: cumprir os controlos de acesso a áreas restritas; não divulgar informação classificada, mesmo informalmente; seguir os procedimentos de manuseamento seguro de armamento; e reportar de imediato qualquer situação anómala ou suspeita.

Uma boa regra prática: perante uma dúvida sobre se uma área, uma informação ou uma tarefa é "sensível", trata-a como se fosse. O custo de um excesso de cuidado é mínimo; o custo de uma falha de segurança pode ser muito elevado, para a unidade e para o país.

9. Igualdade de oportunidades e perspetiva de género nas Forças Armadas

As Forças Armadas portuguesas assumem, como princípio institucional, que homens e mulheres têm as mesmas oportunidades de ingresso, progressão e desempenho de funções. Atuar conforme os princípios da igualdade de oportunidades e da perspetiva de género das Forças Armadas é um dos objetivos centrais desta UC, e um critério de desempenho autónomo: respeitando os requisitos de igualdade de oportunidades e perspetiva de género.

Na prática, isto significa: aplicar os mesmos critérios de avaliação, de exigência física e técnica, e de progressão na carreira a todos os militares, independentemente do género; garantir que a linguagem, o tratamento e as condições de trabalho não discriminam; e integrar a perspetiva de género no planeamento de missões e no funcionamento das unidades, por exemplo ao considerar necessidades específicas em operações e no apoio a populações locais em Teatro de Operações.

Esta matéria liga-se diretamente a duas atitudes centrais do referencial: o respeito pela diferença e a empatia. Um militar que interioriza estes valores não trata a igualdade de género como uma imposição externa, mas como uma condição de eficácia e de coesão da própria unidade.

Exemplo resolvido · aplicar a perspetiva de género numa missão

Um pelotão prepara uma missão de apoio humanitário numa comunidade onde as mulheres locais só falam com outras mulheres sobre determinados assuntos. Como se aplica a perspetiva de género no planeamento?

  1. Identificar a necessidade: sem elementos femininas na equipa, uma parte da informação essencial à missão (por exemplo, sobre vulnerabilidades da população) não seria recolhida.
  2. Decisão de planeamento: incluir militares do género feminino na equipa de contacto com a comunidade, não por simbolismo, mas por eficácia operacional.
  3. Conclusão: a perspetiva de género, bem aplicada, melhora o resultado da missão; ignorá-la é um erro de planeamento, não só uma questão de princípio.

10. A Lei do Conflito Armado

A Lei do Conflito Armado (LCA), também conhecida como Direito Internacional Humanitário, regula a conduta das partes num conflito armado, mesmo em situação de guerra. O seu princípio fundamental é simples de enunciar e exigente de cumprir: nem tudo é permitido em combate.

Os princípios gerais da LCA incluem: a distinção (distinguir sempre entre combatentes e civis, e entre objetivos militares e bens civis), a proporcionalidade (o dano colateral não pode ser excessivo face à vantagem militar concreta e direta esperada) e a necessidade militar (só se usa a força que é necessária para atingir o objetivo militar legítimo).

A aplicação da LCA cobre tanto conflitos armados internacionais como não internacionais, e vincula todas as partes, independentemente de quem iniciou as hostilidades. As proteções que a lei estabelece abrangem: pessoas (feridos, doentes, prisioneiros de guerra, civis, pessoal médico e religioso), infraestruturas (hospitais, e bens indispensáveis à sobrevivência da população civil) e património cultural e religioso (monumentos, locais de culto, obras de arte).

As principais violações da LCA incluem: atacar deliberadamente civis ou bens civis, atacar pessoal e instalações médicas devidamente identificadas, usar armas proibidas, e maltratar prisioneiros de guerra. Um militar que deteta uma violação, sua ou de terceiros, tem o dever de reportar essa violação pela via hierárquica, um dos comportamentos avaliados nesta UC.

Princípio Pergunta que orienta a decisão
Distinção isto é um objetivo militar ou um bem civil?
Proporcionalidade o dano colateral é excessivo face à vantagem militar?
Necessidade militar esta força é a mínima necessária para o objetivo?

Exemplo resolvido · aplicar o princípio da distinção

Uma unidade deteta um edifício onde, segundo informação de inteligência, pode estar escondido armamento inimigo, mas o edifício está identificado como escola e há sinais de crianças no local. Que decisão a LCA impõe?

  1. Aplicar o princípio da distinção: um edifício civil, como uma escola, não é um objetivo militar legítimo enquanto não houver confirmação clara e atual de uso militar efetivo.
  2. Ponderar a proporcionalidade: mesmo que houvesse confirmação, um ataque que colocasse em risco crianças presentes exigiria uma ponderação muito estrita entre a vantagem militar e o dano aos civis.
  3. Decisão correta: não atacar com base numa suspeita não confirmada; procurar confirmação adicional e alternativas que minimizem o risco à população civil, e reportar a situação pela via hierárquica.

Erros comuns

Glossário

Síntese

A conduta de um militar assenta numa pirâmide de normas: no topo, a CRP e a LDN, que dão à Defesa Nacional o seu lugar no Estado; a seguir, o EMFAR, que define a condição militar; depois a disciplina (RDM) e a justiça militar (CJM), que tratam desvios de conduta e crimes, respetivamente; depois os símbolos, uniformes e honras (RCHM e Regulamento de Uniformes), que dão forma visível à instituição; depois o serviço militar (LSM, seu regulamento e o RIPSM) e a segurança de áreas e atividades sensíveis; e por fim a igualdade de oportunidades e perspetiva de género e a Lei do Conflito Armado, que orientam a conduta perante as pessoas, dentro e fora de operações. Conhecer estes diplomas é o ponto de partida; aplicá-los com responsabilidade, disciplina, integridade e respeito pela diferença é o verdadeiro objetivo desta UC.

Exercícios resolvidos

1. Um militar recebe uma ordem de um superior que, se cumprida, constituiria manifestamente um crime. Deve obedecer?

Resolução: não. O dever de obediência, previsto no EMFAR, aplica-se às ordens legítimas dos superiores hierárquicos. Uma ordem que configure manifestamente um crime não é uma ordem legítima, e o militar deve recusar o seu cumprimento, reportando a situação pela via adequada.

2. Um militar falta ao serviço duas vezes sem justificação. É um crime, previsto no CJM, ou uma infração disciplinar, prevista no RDM?

Resolução: em princípio, uma infração disciplinar, prevista no RDM, salvo se a falta configurar uma situação mais grave especificamente tipificada como crime no CJM (por exemplo, um caso de deserção, com os requisitos próprios desse crime). A regra geral: a gravidade e a tipificação legal é que determinam qual dos dois regimes se aplica, não a mera repetição do comportamento.

3. Numa cerimónia, é hasteada a bandeira nacional e, ao lado, está o estandarte da unidade. Que honras se prestam?

Resolução: presta-se continência a ambos os símbolos, de acordo com o RCHM: a bandeira nacional representa o Estado, e o estandarte da unidade representa a própria unidade e, nesse contexto solene, o país. Ambos merecem o mesmo respeito formal.

4. Um cidadão termina o seu contrato de voluntariado nas Forças Armadas. Que direitos pode invocar, à luz do RIPSM e da LSM?

Resolução: pode invocar os incentivos previstos no RIPSM (por exemplo, apoio à formação e à inserção no mercado de trabalho) e entra numa reserva de disponibilidade, prevista no Regulamento da Lei do Serviço Militar, durante a qual pode ser chamado ao serviço em caso de necessidade excecional, com as garantias que a lei lhe atribui.

5. Numa operação, uma unidade tem informação não confirmada de que um armazém civil pode estar a ser usado para fins militares. Qual o procedimento correto, à luz da Lei do Conflito Armado?

Resolução: aplicar o princípio da distinção e não tratar o armazém como objetivo militar sem confirmação clara e atual de uso militar efetivo; procurar confirmação adicional, ponderar sempre a proporcionalidade do dano colateral, e só decidir com base em informação verificada, reportando qualquer dúvida ou violação observada pela via hierárquica.