Partilhar: Classroom Teams WhatsApp
aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · 10971

Inspeções em refrigeração, climatização e aquecimento (UFCD 10971)

Da preparação da visita ao relatório, inspecionar sistemas de frio, de ar e de calor com método, instrumentos e registos
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Refrigeração e Climatização ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Quem instala um sistema de refrigeração, de climatização ou de aquecimento sabe pô-lo a funcionar. Quem inspeciona tem de responder a outra pergunta: o que está aqui está completo, seguro, bem mantido e a trabalhar como devia? E tem de responder com provas: documentos lidos, componentes observados, grandezas medidas, registos conferidos e um relatório que o dono da instalação consiga usar.

Esta sebenta ensina a fazer isso em oficina e em obra. Começa pelo que é uma inspeção e pelas suas classes, passa pela documentação e pelo plano de manutenção, segue para a inspeção visual, o ensaio de funcionamento, os instrumentos de medição, os consumos e o controlo de fugas, e fecha com a metodologia completa, as não conformidades, o relatório e a leitura de relatórios feitos por outros.

Objetivos de aprendizagem (referencial): distinguir classes de inspeção de refrigeração, climatização e aquecimento; identificar a documentação exigível em sede de inspeção; identificar nos equipamentos informação que permita avaliar a qualidade da manutenção; reconhecer os tipos de anomalias e fatores críticos a considerar em inspeções e ensaios; utilizar e verificar instrumentos de medida próprios de processos de inspeção; descrever a metodologia de uma inspeção; elaborar relatórios de inspeção e propor correções e/ou melhorias.

Uma nota sobre regulamentação. Em Portugal, as inspeções periódicas aos sistemas técnicos dos edifícios e o controlo de fugas de gases fluorados estão fixados em diplomas que são alterados com o tempo. Os valores aqui apresentados provêm do Sistema de Certificação Energética dos Edifícios (ADENE), do Diário da República e do regulamento europeu dos gases fluorados. Em qualquer caso concreto, consulta o diploma na redação em vigor antes de decidir periodicidades, limiares ou prazos.

Como estudar. Cada capítulo tem explicação, tabelas de consulta e, quase sempre, um exemplo resolvido passo a passo. Refaz as contas sem olhar para a solução. Sempre que puderes, treina na oficina da escola: abre uma ficha de equipamento, lê uma chapa, mede uma corrente, regista, escreve uma frase de recomendação.

1. Inspeção e manutenção: o que são e em que diferem

Uma inspeção é um exame independente e documentado do estado de uma instalação, feito para verificar a conformidade com requisitos (do projeto, do fabricante, da lei, do contrato) e avaliar o desempenho. Termina num relatório com conclusões e recomendações. Quem inspeciona não repara: observa, mede, compara, classifica, recomenda.

Uma manutenção é o conjunto de ações que mantêm ou repõem a instalação em bom estado: limpar, substituir, afinar, reparar, lubrificar, recarregar. Quem mantém intervém no equipamento.

Aspeto Inspeção Manutenção
Objetivo verificar e avaliar; produzir conclusões manter ou repor o bom estado; produzir equipamento a funcionar
Resultado relatório com classificação e recomendações equipamento intervencionado e registo da intervenção
Postura observa, mede, compara com um critério atua, repara, substitui, afina
Referência requisitos legais, projeto, fabricante, plano de manutenção plano de manutenção, instruções do fabricante
Quem de preferência alguém com independência face a quem mantém o mantenedor contratado ou a equipa interna
Periodicidade fixada por regulamento ou contrato definida no plano de manutenção

As duas atividades alimentam-se uma à outra. A inspeção avalia a qualidade da manutenção (os registos existem? o plano é cumprido? o equipamento mostra sinais de ser cuidado?). A manutenção resolve o que a inspeção encontrou (a recomendação "substituir os filtros colmatados" só se cumpre com uma intervenção).

Onde a fronteira se esbate

Na oficina, o mesmo técnico faz as duas coisas, e convém não as misturar na cabeça. Quando medes pressões e temperaturas para avaliar o funcionamento, estás a inspecionar. Quando, a seguir, ajustas um termóstato ou recarregas fluido, estás a manter. Se o objetivo é um relatório de inspeção, regista o estado tal como o encontraste, antes de qualquer afinação. Corrigir primeiro e relatar depois apaga a prova da anomalia.

Exemplo resolvido · inspecionar ou manter?

Classifica cada ação como inspeção (I) ou manutenção (M):

  1. Medir a corrente absorvida pelo compressor e compará-la com a da chapa de características.
  2. Substituir um filtro de ar colmatado.
  3. Verificar se o livro de registo tem a data da última limpeza da bateria do condensador.
  4. Apertar bornes soltos num quadro elétrico.
  5. Registar a temperatura de ar insuflado e de ar de retorno com a unidade estabilizada.

Resolução: 1 é I (mede e compara); 2 é M (substitui); 3 é I (verifica documentação); 4 é M (intervém); 5 é I (mede e regista). Se durante a inspeção encontras os bornes soltos (ação 4), registas como anomalia; o aperto pertence a uma intervenção de manutenção posterior, que o relatório recomenda.

Porquê inspecionar

2. Classes de inspeção

O referencial pede que se distingam classes de inspeção de refrigeração, climatização e aquecimento. Não existe uma classificação única fixada em lei para todas as situações, por isso nesta sebenta organizam-se as classes por três eixos que se cruzam e que, juntos, descrevem qualquer inspeção que vás encontrar.

Eixo 1 · Por tipo de sistema

Classe O que cobre Componentes típicos Preocupações dominantes
Refrigeração produção de frio para conservar produtos ou processos câmaras frigoríficas, vitrinas, armários e balcões, centrais, evaporadores, condensadores, compressores temperatura de conservação, degelo, fugas de fluido, isolamento, portas e juntas
Climatização conforto térmico e qualidade do ar nos espaços splits, multi-splits, sistemas de caudal variável de fluido frigorigéneo (VRF), chillers, unidades de tratamento de ar, ventiloconvectores, condutas, torres de arrefecimento temperatura e humidade, caudais de ar, filtragem, condensados, higiene das unidades, controlo
Aquecimento produção e distribuição de calor caldeiras, bombas de calor, circuitos de água, radiadores e pavimento radiante, depósitos, solar térmico combustão e evacuação de gases, segurança hidráulica, isolamento, rendimento

Muitos sistemas misturam classes: uma bomba de calor ar-água é, ao mesmo tempo, um ciclo frigorífico (refrigeração), um gerador de calor (aquecimento) e, no verão, um produtor de frio (climatização). A inspeção deve percorrer todas as partes que o sistema tem.

Eixo 2 · Por finalidade

Classe Quando acontece Pergunta que responde
Inspeção periódica regulamentar de tempos a tempos, fixada por regulamento, para sistemas acima de determinada potência o sistema está completo, bem conservado e com eficiência real aceitável?
Inspeção de receção ou de colocação em serviço no fim da instalação, antes de entregar o que foi instalado corresponde ao projeto e funciona nas condições previstas?
Inspeção de manutenção integrada no plano de manutenção, a cada visita os parâmetros estão dentro do normal e há sinais de degradação?
Inspeção de controlo de fugas em periodicidade fixada por regulamento, para equipamentos com fluidos fluorados há fugas? Os registos estão completos?
Inspeção a pedido do proprietário antes de uma compra, de um arrendamento, de uma obra ou após uma queixa em que estado está isto e o que custa pô-lo em ordem?
Inspeção pós-ocorrência depois de uma avaria grave, de um incidente ou de uma intervenção importante qual foi a causa e o equipamento pode voltar a funcionar com segurança?

Eixo 3 · Por profundidade

Nível Conteúdo Instrumentos
Documental e visual leitura de documentos e observação sensorial (ver, ouvir, cheirar, tocar com segurança) lanterna, máquina fotográfica, espelho de inspeção, fita métrica
Funcional arranque e observação do funcionamento, verificação de comandos e de segurança termómetros, pinça amperimétrica, manómetros
Com medição de desempenho medições estabilizadas para calcular eficiência, caudais, consumos analisador de combustão, caudalímetros, anemómetro, analisador de energia, registadores

Uma inspeção periódica regulamentar sobe aos três níveis. Uma visita de rotina a um pequeno split pode ficar-se pelos dois primeiros.

Exemplo resolvido · classificar três inspeções

  1. Uma loja pede uma verificação antes de renovar o contrato de manutenção das suas vitrinas frigoríficas. Sistema: refrigeração. Finalidade: a pedido do proprietário. Profundidade: documental, visual e funcional.
  2. Um edifício de escritórios tem uma central de produção de água refrigerada com potência elevada e a inspeção periódica chegou ao prazo. Sistema: climatização. Finalidade: periódica regulamentar. Profundidade: com medição de desempenho.
  3. Uma caldeira de um pavilhão desportivo é visitada depois de ter parado duas vezes por falha de chama. Sistema: aquecimento. Finalidade: pós-ocorrência. Profundidade: funcional, com análise de gases de combustão.

3. O enquadramento regulamentar em Portugal

Esta secção dá o mapa. Os valores concretos citados vêm do regime e das orientações da entidade gestora do sistema de certificação energética; antes de usares um número num relatório real, confirma-o na redação em vigor.

3.1. Inspeções periódicas aos sistemas técnicos dos edifícios

O Sistema de Certificação Energética dos Edifícios (SCE) é gerido pela ADENE, Agência para a Energia, e a sua base legal é o Decreto-Lei n.º 101-D/2020, de 7 de dezembro, na redação em vigor. O artigo 15.º desse decreto-lei sujeita os sistemas técnicos instalados em edifícios de habitação ou de comércio e serviços em funcionamento a um regime de inspeções periódicas, para otimizar o seu desempenho em condições típicas de funcionamento. Os sistemas abrangidos e as regras de execução constam do anexo II do Despacho n.º 6476-C/2021, de 1 de julho. A atividade dos técnicos que inspecionam está prevista na Portaria n.º 138-H/2021, de 1 de julho, e o exercício da atividade no Decreto-Lei n.º 102/2021, de 19 de novembro. A ADENE publica notas técnicas de orientação metodológica; a NT-SCE-05 trata das inspeções a sistemas técnicos.

Resumo do que essas fontes estabelecem:

Tema Regra
Objeto sistemas de aquecimento, de ar condicionado, combinados com ventilação e de produção de água quente, com potência nominal superior a 70 kW
Como se aplica o limiar a cada equipamento gerador de energia térmica; basta um equipamento acima do limiar para a inspeção incidir sobre todos os componentes do sistema técnico
Periodicidade 4 anos para potência superior a 70 kW e inferior a 250 kW; 2 anos para potência igual ou superior a 250 kW
Sistemas de automatização e controlo de edifícios (SACE) inspeção com periodicidade de 4 anos
Primeira inspeção no prazo de 3 anos a contar da data de instalação, em edifícios novos ou renovados nesse sistema; para edifícios existentes, o prazo fixado terminou em 1 de julho de 2024
Quem inspeciona Técnico de Inspeção de Sistemas Técnicos (TIS) do SCE
Resultado Relatório de Inspeção (RI), submetido no Portal SCE e disponibilizado ao proprietário
Instrumentos portáteis calibrados com periodicidade não superior a 12 meses

Repara no que não está nesta tabela: sistemas abaixo do limiar de potência não estão sujeitos a este regime periódico. Isso não os dispensa de manutenção, de verificações e de inspeções contratadas ou pedidas pelo proprietário. Como técnico de refrigeração e climatização, vais sobretudo (a) apoiar o TIS em sistemas grandes, ligando manómetros e intervindo quando é exigida certificação em gases fluorados, e (b) fazer inspeções de rotina ou de diagnóstico em sistemas mais pequenos, usando a mesma metodologia.

O proprietário tem deveres para que a inspeção se faça: facultar documentação e informação, garantir acessos aos sistemas e aos espaços, assegurar a presença dos técnicos que o TIS indique como necessários, garantir condições de segurança e assegurar que a inspeção decorre com o edifício e os sistemas em condições típicas de funcionamento.

3.2. Gases fluorados com efeito de estufa

O Regulamento (UE) 2024/573 regula os gases fluorados com efeito de estufa (os fluidos frigorigéneos HFC, por exemplo). Em Portugal, a autoridade competente e o diploma nacional de execução são os da legislação em vigor; consulta-os sempre antes de comunicar dados ou de pedir uma certificação. Para a inspeção interessam três blocos de regras: verificação de fugas com periodicidade fixada pela carga, registos do equipamento e certificação de quem intervém. Os valores estão no capítulo 12 desta sebenta.

As substâncias que empobrecem a camada de ozono têm regulamento próprio da União Europeia (Regulamento (UE) 2024/590). Se encontrares numa inspeção um equipamento com um fluido dessa família, trata-se de uma situação a registar com destaque e a reportar ao dono, com recomendação de plano de substituição.

3.3. Outros regimes que podem aparecer

Dependendo do equipamento, a inspeção cruza-se com outros regimes: instalações de gás e equipamentos de combustão, equipamentos sob pressão, prevenção da legionelose em torres de arrefecimento e condensadores evaporativos, segurança elétrica e qualidade do ar interior. O técnico de inspeção não substitui as entidades e os profissionais habilitados para cada um: assinala o que observa e recomenda a intervenção de quem tem competência e habilitação, indicando o regime aplicável na redação em vigor.

Exemplo resolvido · este sistema entra na inspeção periódica?

Um centro de saúde tem uma bomba de calor com potência nominal de aquecimento de 120 kW e duas caldeiras de apoio de 20 kW cada, num único sistema técnico. O edifício foi construído em 2016.

  1. Aplica-se o limiar a cada equipamento gerador: a bomba de calor tem 120 kW (acima de 70 kW) e cada caldeira tem 20 kW (abaixo).
  2. Basta um equipamento acima do limiar: a inspeção incide sobre todo o sistema técnico, incluindo as duas caldeiras de 20 kW.
  3. Periodicidade: a NT aplica o limiar a cada gerador, mas não indica como escolher o escalão quando há vários geradores, e nesse caso deve confirmar-se o escalão com a ADENE. Aqui a dúvida não se põe: o gerador de maior potência (120 kW) e a soma das potências (160 kW) estão ambos entre 70 e 250 kW, logo 4 anos.
  4. Primeira inspeção: como o edifício e o sistema são anteriores a 2021 e não foram renovados, o prazo fixado para a primeira inspeção foi 1 de julho de 2024; as seguintes seguem de 4 em 4 anos a partir da data registada no último relatório.

4. Documentação exigível em sede de inspeção

Antes de ires ao local, pede os documentos. A inspeção apoia-se em documentação do sistema técnico, que deve ser solicitada e avaliada antes da visita. O que falta é, por si, um resultado.

Documento Para que serve na inspeção
Projeto atualizado, com peças desenhadas e esquemas de princípio saber o que deveria existir, onde, e com que dimensionamento
Instruções de instalação, operação e manutenção saber como o fabricante manda operar e manter
Relatórios de testes e ajustamentos após a instalação (colocação em serviço) ter o ponto de partida: pressões, caudais, temperaturas de arranque
Catálogos e fichas técnicas conhecer os valores nominais e as curvas
Relatórios de inspeções anteriores comparar e ver o que ficou por corrigir
Certificado energético conhecer a classe e as medidas de melhoria propostas
Plano de manutenção e registo de manutenção avaliar o cumprimento
Registos do sistema de automatização e controlo consultar parâmetros, alarmes e históricos
Relatórios de auditorias energéticas cruzar consumos e medidas já identificadas
Faturas e registos de contagens de energia verificar consumos reais
Registo de verificações de fugas e de intervenções em fluidos verificar o cumprimento do controlo de fugas

O que fazer quando o documento não existe

  1. Anota o que foi pedido, quando e a quem.
  2. Anota o que não foi facultado.
  3. Segue com a inspeção usando o que há: chapas, etiquetas, observação, medições.
  4. No relatório, inclui na secção de notas a informação solicitada e não disponibilizada, porque isso condiciona as conclusões e é informação útil para o proprietário.

Exemplo resolvido · lista de pedido de documentos

Vais inspecionar o sistema de climatização de uma biblioteca municipal: um chiller com duas unidades de tratamento de ar. Escreve o pedido ao proprietário:

Para a inspeção do dia 14, agradeço que disponibilize: projeto de AVAC atualizado e esquema de princípio; manuais e fichas técnicas do chiller e das unidades de tratamento de ar; relatório de arranque e ajustamento; relatórios de inspeções e de manutenções dos últimos três anos; registo de verificações de fugas e de intervenções no circuito frigorífico; faturas de eletricidade dos últimos doze meses; acesso à casa das máquinas, à cobertura e aos quadros elétricos; presença do técnico de manutenção responsável.

Repara que o pedido junta documentos, acessos e pessoas. Qualquer um dos três em falta bloqueia o trabalho.

5. Identificação de equipamentos: chapas de características

A chapa de características (placa de identificação) é o documento mais fiável que está no próprio equipamento. Diz o que ele é e do que é capaz, e permite pedir ao fabricante o manual certo. Fotografa sempre a chapa, com a data, e transcreve os dados para a ficha de inspeção.

O que costuma constar

Campo O que te diz Para que serve
Fabricante, modelo, número de série identificação única pedir manual, peças, histórico
Ano ou data de fabrico idade do equipamento contar vida útil, aplicar tabelas por idade
Fluido frigorigéneo e carga tipo e massa de fluido controlo de fugas, cálculo da carga em toneladas de CO2 equivalente
Pressões máximas admissíveis (lado de alta e de baixa) limites de projeto verificar válvulas e pressostatos de segurança
Alimentação elétrica (tensão, fases, frequência) como é alimentado verificar quadro e proteções
Potência elétrica absorvida e corrente nominal consumo nominal comparar com medição
Potência de arrefecimento e de aquecimento capacidade nominal avaliar desempenho e dimensionamento
Classe de proteção e grau de proteção (IP) proteção elétrica e contra poeiras e água adequação ao local
Peso carga estrutural verificar apoios e fixações
Marcação de conformidade e normas conformidade do produto confirmar origem e legalidade

Nos geradores de calor, a chapa traz ainda potência térmica nominal, combustível, pressão e temperatura máximas de serviço e, nos queimadores, a capacidade térmica do queimador. Nas bombas e ventiladores, traz potência do motor, corrente, velocidade e, às vezes, caudal e pressão.

Rótulos e etiquetas complementares

Além da chapa, procura:

Quando a chapa não está legível ou não existe

Chapa apagada, pintada por cima, arrancada ou ausente é uma não conformidade de identificação. Procedimento: fotografa o estado, tenta ler com luz rasante e ângulo, procura o número de série noutros pontos (carcaça do compressor, caixa de bornes, embalagem original), pede o dado ao fabricante pela referência do modelo e anota no relatório que o dado foi obtido por via indireta.

Exemplo resolvido · ler uma chapa e verificar as proteções

Chapa de um grupo condensador: alimentação trifásica 400 V, corrente nominal 24 A, fluido com carga de 8,5 kg. No quadro encontras disjuntor de 20 A e cabo de secção adequada a 32 A.

  1. Corrente nominal 24 A, disjuntor 20 A: o disjuntor está subdimensionado para a corrente nominal, e vai disparar em regime normal ou, pior, foi provavelmente substituído por outro sem critério. Anota como anomalia.
  2. A secção do cabo está acima do necessário, o que não é perigoso, mas não compensa o disjuntor errado.
  3. Confirma no manual do fabricante a proteção máxima recomendada antes de recomendar a troca.
  4. Carga de 8,5 kg: usa-a, com o valor do GWP do rótulo do fluido, para calcular a carga em toneladas de CO2 equivalente e saber que regime de verificação de fugas se aplica (capítulo 12).

6. Manuais, catálogos de fabricantes e outros elementos específicos

Manuais

O manual de instalação, operação e manutenção é o critério de aceitação do fabricante. Numa inspeção serve para três coisas: saber como o equipamento deve estar (distâncias de montagem, ligações, proteções), saber como deve ser mantido (tarefas e periodicidades) e saber o que é normal (valores de funcionamento, códigos de avaria). Quando o manual não existe em papel, procura-se no sítio do fabricante pelo modelo e número de série da chapa.

Pontos a procurar no manual:

Secção do manual O que retirar para a inspeção
Dados técnicos capacidades nominais, correntes, caudais, pressões, fluido e carga
Instalação espaços livres, apoios, ligação elétrica, drenagem de condensados
Colocação em serviço valores de arranque: sobreaquecimento, pressões, temperaturas, regulações
Manutenção tarefas e periodicidades de fabricante
Códigos de avaria significado de alarmes lidos no visor ou no histórico
Segurança proteções obrigatórias, riscos, EPI

Catálogos e fichas técnicas

Os catálogos dão o desempenho nominal em condições normalizadas de ensaio e, muitas vezes, curvas ou tabelas com o desempenho para outras condições (temperatura exterior, temperatura da água). Para comparar a medição com o catálogo, é preciso saber em que condições o catálogo foi obtido: a mesma unidade rende de maneira diferente a 35 °C exteriores e a 28 °C. Comparar sem corrigir a condição é o erro mais comum.

Outros elementos específicos

Conforme o sistema, reúne ainda:

Uma unidade de tratamento de ar tem, na ficha técnica, um caudal de 8 000 m³/h a uma pressão disponível indicada. Medes 6 400 m³/h.

  1. Desvio = (8 000 - 6 400) ÷ 8 000 = 0,20, isto é, 20 % abaixo.
  2. Antes de concluir, confirma as condições: filtros limpos? Registos abertos? Velocidade do ventilador igual à da ficha? Sentido de rotação correto?
  3. Encontras filtros colmatados. Regista o valor encontrado, pede ao mantenedor que os troque e só depois repete a medição, registando o antes e o depois: se o caudal voltar para perto do nominal, a causa estava identificada; se não, passa à correia, ao ventilador e às condutas.
  4. No relatório: valor medido, valor de ficha, condição de medição, causa provável e recomendação.

7. O plano de manutenção e a qualidade da manutenção

7.1. Existência e qualidade de um plano de manutenção

Ter um plano é o primeiro critério. Um bom plano responde a cinco perguntas: o quê (tarefas por equipamento), quando (periodicidade), quem (responsável), como (procedimento ou referência ao manual) e como se prova (registo). Se falta alguma, o plano é fraco.

Critério de qualidade Bom sinal Sinal de alerta
Cobertura todos os equipamentos do sistema estão no plano equipamentos fora do plano (esquecidos)
Tarefas derivadas do manual do fabricante e da regulamentação frase genérica "revisão geral"
Periodicidades coerentes com o uso (filtros mais frequentes em ambientes poeirentos) mesma periodicidade para tudo
Responsáveis nomeados, com a habilitação necessária sem nomes
Registo cada tarefa deixa registo datado e assinado registos em branco ou preenchidos de uma só vez
Controlo de fugas calendário e registo de verificações de fugas, quando aplicável ausente em equipamentos com fluidos fluorados
Revisão plano atualizado após alterações ou anomalias igual desde a instalação

Tarefas típicas por tipo de equipamento

Equipamento Tarefas frequentes do plano
Split e multi-split limpeza de filtros e de bateria interior, limpeza do condensador exterior, verificação de condensados, verificação elétrica e de fugas
Câmara e vitrina frigorífica limpeza do condensador, verificação de degelo, juntas das portas, resistências, termóstatos, fugas
Chiller e bomba de calor verificação de fluido pelo visor, fugas, limpeza das baterias, pressão e qualidade da água, óleo, apertos elétricos, antivibráticos
Unidade de tratamento de ar filtros, correias, rolamentos, tabuleiro de condensados, humidificação, registos e servomotores
Caldeira limpeza de queimador e câmara de combustão, análise de gases de combustão, válvula de segurança, vaso de expansão, tratamento de água
Torre de arrefecimento tratamento da água, limpeza, pulverizadores, enchimento, plano de prevenção da legionelose
Solar térmico estado dos coletores, pressão do circuito, estado do fluido térmico, válvulas de segurança

7.2. Avaliar a qualidade da manutenção pelo próprio equipamento

O referencial pede que identifiques no equipamento informação que permita avaliar a qualidade da manutenção, porque nem sempre há papéis. O equipamento fala:

O que observas O que sugere
Etiqueta de intervenção recente, legível, com data e empresa manutenção feita e identificável
Filtros limpos, bem encaixados, do tipo certo manutenção em dia na parte do ar
Filtros colmatados, deformados ou ausentes manutenção falhada ou inexistente
Baterias de permuta limpas, alhetas direitas limpeza regular
Baterias cobertas de pó, gordura, folhas ou com alhetas amachucadas limpeza em falta; perda de capacidade
Tabuleiro de condensados limpo e escoamento livre atenção à higiene e à drenagem
Tabuleiro com lodo, manchas, mau cheiro risco de contaminação e de transbordo
Visor de líquido limpo, sem bolhas em regime estável carga adequada
Nódoas de óleo em ligações, válvulas ou tubagem fuga de fluido com arrastamento de óleo
Isolamento da tubagem contínuo, bem colado boa conservação
Isolamento rasgado, em falta ou molhado perdas e condensação
Parafusos de bornes com sinais de sobreaquecimento (descoloração) apertos elétricos descuidados
Registo de contagem de horas ou de arranques consistente acompanhamento do equipamento
Remendos improvisados (fita adesiva, cabo emendado, fusível substituído por ponte) intervenções sem critério
Parâmetros de comando alterados (setpoint extremo, sensores desligados) desvio do comissionamento

Estes sinais não são prova por si; são indícios que se cruzam com os registos. Um equipamento com todos os papéis em ordem e filtros colmatados tem um problema: ou os papéis não refletem o que se fez, ou a periodicidade do plano é errada.

Exemplo resolvido · cruzar registo e equipamento

O livro de registo de uma vitrina frigorífica indica "limpeza do condensador" há três semanas. À chegada, encontras o condensador com uma camada espessa de pó e fios; a pressão de condensação está elevada.

  1. Há contradição entre registo e estado.
  2. Não acuses ninguém. Regista o facto: "condensador com sujidade acentuada à data da inspeção, apesar de registo de limpeza há três semanas".
  3. Classifica o componente como Suficiente ou Mau conforme o impacto (aqui, pressão elevada e risco de disparo do pressostato de segurança sugerem Mau no estado de funcionamento).
  4. Recomendação: rever a periodicidade de limpeza do condensador para a realidade do local (por exemplo, cozinha com gordura) e verificar a eficácia da limpeza feita.

8. Preparar a visita: acessos, segurança e ambiente

Uma boa inspeção decide-se antes de chegar ao local. A preparação junta documentação (capítulo 4), acessos, pessoas, equipamentos de medição e segurança.

Lista de preparação

Passo Pergunta Registo
1 Que sistema, que potência, que fluido, que combustível? ficha de identificação
2 Que documentos tenho e quais faltam? lista de documentos
3 Que acessos preciso (casa das máquinas, cobertura, quadros, tetos falsos)? pedido ao proprietário
4 Que técnicos tenho de ter presentes (manutenção, gás, fluidos fluorados)? lista de contactos
5 Em que condições devo medir (estação do ano, horário, carga)? plano de medições
6 Que instrumentos levo e estão verificados e dentro da calibração? lista de instrumentos
7 Que riscos encontro e que EPI levo? plano de segurança
8 Que impacto tem a inspeção na atividade do local (paragens, ruído)? aviso prévio

Condições típicas de funcionamento

As medições só valem se o sistema trabalhar em condições típicas. A orientação metodológica do sistema de certificação energética pede que se meça nos períodos em que previsivelmente há maior consumo de energia, com o sistema em condições normais, e que se considere um tempo de estabilização de pelo menos 30 minutos desde o arranque. Em sistemas com função dupla (aquecer e arrefecer), mede-se na função que representa o maior consumo anual; em sistemas com funções simultâneas, mede-se com todas ativas.

Medir uma bomba de calor num dia ameno de primavera, com a carga quase nula, só diz que a bomba funciona quase em vazio. Escolhe o dia e a hora que representem a utilização real, ou regista com clareza que a medição foi feita fora de condições típicas e porquê.

Segurança integrada na inspeção

A segurança faz-se antes, durante e depois.

Risco Onde aparece Medida
Elétrico quadros, ligações de compressores e ventiladores, medições com pinça EPI isolante, ferramentas isoladas, não abrir equipamentos sob tensão sem competência para tal, usar instrumentos com categoria de medição adequada
Mecânico ventiladores, correias, polias nunca tocar em partes móveis; paragem e bloqueio quando for preciso abrir
Pressão circuito frigorífico, circuito de água quente, vasos manómetros e mangueiras adequados à pressão; não desapertar ligações sob pressão
Térmico gases de combustão, tubagens de água quente e de vapor, compressores luvas, distância, aguardar arrefecimento
Frio câmaras frigoríficas verificar se há abertura interior das portas; não trabalhar sozinho
Fluido frigorigéneo fugas em casas de máquinas ventilação, deteção, atenção à inflamabilidade e à asfixia em espaços fechados
Combustão casas de caldeiras monóxido de carbono: medir antes de permanecer, ventilar, nunca trabalhar sozinho
Biológico torres de arrefecimento, tabuleiros, humidificadores máscara adequada, evitar aerossóis, seguir o plano de prevenção da legionelose
Altura coberturas, plataformas proteção coletiva, linha de vida, não subir sozinho
Espaço confinado casas de máquinas pequenas, caves avaliar atmosfera, ventilar, vigilância exterior

Bloqueio e sinalização

Quando for necessário parar um equipamento para o abrir, aplica o procedimento de desligar, bloquear, sinalizar e verificar a ausência de tensão antes de qualquer intervenção. Numa inspeção, em regra, não se abrem equipamentos sob tensão; se for necessário (por exemplo, medir a corrente no cabo de um compressor num quadro), isso só é feito por quem tem habilitação elétrica adequada para trabalhos em instalações em tensão, com instrumentos de categoria de medição adequada e com autorização do proprietário; em aula, só com o professor ou um eletricista habilitado presente.

Ambiente

Exemplo resolvido · plano de segurança de uma visita a uma casa de caldeiras

Caldeira a gasóleo em cave com um acesso. Plano:

  1. Avisar o responsável do local da hora e da duração; combinar quem sabe onde está o corte geral de combustível e de eletricidade.
  2. Ao chegar, ventilar o espaço e medir o monóxido de carbono ambiente à entrada com o analisador antes de entrar.
  3. EPI: calçado de segurança, luvas térmicas e de proteção, óculos, proteção auditiva se houver ruído, lanterna.
  4. Não trabalhar sozinho; combinar contacto a cada 30 minutos.
  5. Medir os gases de combustão com sonda no ponto previsto, prestando atenção à temperatura da chaminé.
  6. No fim, vedar o orifício de medição com material resistente à temperatura e deixar tudo como estava.

9. Equipamentos de medição e controlo

O referencial pede que se utilizem os instrumentos próprios de um processo de inspeção. Esta secção descreve os principais, o que medem, como se usam e como se interpreta a leitura.

9.1. Quadro geral

Instrumento Grandeza Uso na inspeção Cuidados
Multímetro tensão, resistência, continuidade verificar alimentação, bobinas, sensores, ligação à terra categoria de medição adequada; pontas isoladas
Pinça amperimétrica corrente corrente de compressor, ventilador, resistência, bomba medir num só condutor; comparar com a chapa
Analisador de energia portátil tensão, corrente, potência, fator de potência, energia potência absorvida e energia durante o período de medição ligações corretas; registo em intervalos curtos
Termómetro de contacto (sonda) temperatura de superfície e de tubagem sobreaquecimento, subarrefecimento, temperatura de água bom contacto térmico; isolar a sonda do ar
Termómetro de imagem térmica (câmara termográfica) distribuição de temperaturas pontos quentes elétricos, pontes térmicas, fugas de isolamento, obstruções emissividade; não medir superfícies brilhantes sem correção
Termo-higrómetro temperatura e humidade do ar condições do espaço, ar insuflado e de retorno estabilizar; afastar de fontes de calor
Anemómetro (de hélice ou de fio quente) velocidade do ar caudal em grelhas e condutas respeitar distâncias das singularidades; múltiplos pontos
Hotte de medição de caudal (balómetro) caudal de ar em difusores caudal por difusor boa vedação à volta do difusor
Manómetro diferencial diferença de pressão perda de carga em filtros e baterias tubos sem dobras
Manifold digital ou analógico pressões do circuito frigorífico pressão de baixa e de alta; calcular saturações ligação por técnico certificado; mangueiras de baixa perda
Detetor de fugas de fluido frigorigéneo presença de fluido verificar ligações e juntas verificar o detetor com fuga de teste; ventilar entre pontos
Bomba de vácuo e vacuómetro vácuo no circuito após abertura do circuito só na manutenção, não é instrumento de inspeção, mas importa saber o que o registo deve indicar
Balança de carga massa de fluido fluido adicionado ou recuperado calibrada; superfície plana
Analisador de gases de combustão O2, CO2, CO, temperatura dos gases, excesso de ar, rendimento caldeiras e geradores de ar quente sonda no ponto adequado; zero em ar limpo
Caudalímetro de ultrassons de pinça caudal de água caudal no circuito primário, balanços térmicos tubagem limpa e cheia; distâncias retas
Manómetros e termómetros de água pressão e temperatura circuito hidráulico ligação a pontos de medição existentes
Registador de dados (data logger) temperatura, humidade, outros tendência ao longo de horas ou dias tempo de amostragem coerente
Sonómetro nível de pressão sonora ruído de equipamentos afastado de superfícies refletoras
Luxímetro, medidor de radiação iluminância, radiação solar solar térmico e iluminação orientação segundo o plano dos coletores
Lanterna, espelho, endoscópio visualização ver o que não se vê a olho nu cuidado em locais energizados

9.2. Como se lê um manómetro de fluido frigorigéneo

Um manifold tem manómetros de baixa e de alta, normalmente graduados em pressão relativa, e escalas auxiliares de temperatura de saturação para vários fluidos. Para inspecionar:

  1. Confirma o fluido pela chapa e escolhe a escala correta.
  2. Lê a pressão de baixa e a de alta com o sistema estabilizado.
  3. Converte cada pressão em temperatura de saturação (na escala, ou numa tabela do fabricante do fluido; se o instrumento é digital, a conversão é feita pelo aparelho).
  4. Mede as temperaturas reais nos pontos correspondentes.
  5. Calcula o sobreaquecimento e o subarrefecimento (capítulo 13).

Recorda que a pressão lida nos manómetros é relativa, e as tabelas de saturação são geralmente dadas em pressão absoluta ou relativa conforme o fabricante: confirma qual.

9.3. Como se mede a corrente e se calcula a potência absorvida

A pinça amperimétrica abraça um condutor de fase, nunca o cabo inteiro (a soma das correntes anula-se). Para um equipamento trifásico equilibrado, mede a corrente numa fase (ou nas três e calcula a média) e calcula a potência elétrica absorvida:

P (kW) = √3 × U × I × cos φ ÷ 1 000

com U em volts (tensão composta), I em amperes e cos φ o fator de potência. O fator de potência obtém-se do instrumento (analisador) ou da chapa do motor; na ausência de qualquer informação, as orientações metodológicas do sistema de certificação energética aceitam o valor de 0,8 para o cos φ.

9.4. Medir caudal de ar com anemómetro

  1. Num troço reto da conduta, longe de curvas e registos, escolhe vários pontos de medição na secção (a malha de pontos que o fabricante do instrumento recomende).
  2. Mede a velocidade em cada ponto.
  3. Calcula a velocidade média.
  4. Calcula o caudal: Q (m³/h) = v (m/s) × A (m²) × 3 600.

Exemplo: conduta retangular de 0,50 m × 0,40 m (A = 0,20 m²) com velocidade média de 4,2 m/s: Q = 4,2 × 0,20 × 3 600 = 3 024 m³/h.

9.5. Medir caudal de água

O caudal no circuito primário obtém-se por caudalímetro fixo (se existir e estiver verificado) ou por caudalímetro portátil não intrusivo, com capacidade de registo. A potência térmica transportada pela água calcula-se com:

P (kW) = Q (m³/h) × ρ × cp × ΔT ÷ 3 600

com ρ = 1 000 kg/m³ e cp = 4,187 kJ/(kg·K) na ausência de melhor informação, e ΔT a diferença entre a temperatura de ida e a de retorno.

Exemplo: Q = 12 m³/h e ΔT = 5 K dão P = 12 × 1 000 × 4,187 × 5 ÷ 3 600 = 69,8 kW.

9.6. Controlo e comando

Não esqueças os dispositivos de controlo do sistema: termóstatos, sondas, controladores, válvulas de regulação, pressostatos, sistemas de gestão. Na inspeção verifica a sua existência, a localização das sondas (longe de correntes de ar e de fontes de calor), a parametrização (setpoints, horários, histereses) e o estado das ligações de comando.

10. Verificação e calibração dos instrumentos

Um instrumento sem controlo dá números que parecem rigorosos e não o são. Há duas coisas diferentes:

As orientações metodológicas para inspeção a sistemas técnicos exigem que os equipamentos de medição portáteis estejam calibrados com periodicidade não superior a 12 meses, e que os certificados de calibração, emitidos por entidade qualificada, façam parte do relatório. Se o certificado está fora de prazo, a medição não vale para a inspeção periódica regulamentar.

Verificações de bancada antes da visita

Instrumento Verificação Critério
Termómetro de contacto mergulhar a sonda em gelo fundente bem mexido (aprox. 0 °C) e, se possível, em água fervente à pressão local leitura dentro da incerteza do certificado; registar o desvio
Termo-higrómetro comparar com um padrão de referência na mesma sala desvio dentro da especificação
Pinça amperimétrica zero sem corrente; comparar com outra pinça verificada no mesmo condutor diferença dentro da especificação
Multímetro continuidade em curto; tensão num ponto conhecido leitura esperada
Manifold zero ao ar livre (manómetros analógicos) agulha em zero
Detetor de fugas verificação com fonte de fuga de teste resposta a sinal, bateria carregada
Analisador de combustão aquecer, fazer o zero em ar limpo, verificar sondas e filtros de condensados zero concluído sem erro
Anemómetro verificar hélice livre, bateria sem folga, sem sujidade
Balança zero e uma massa padrão desvio dentro da especificação

Registo

Cada instrumento tem uma ficha: identificação, data da última calibração, validade, desvios conhecidos, verificações efetuadas. Na ficha de inspeção anota quais usaste, com número de série.

Exemplo resolvido · o termómetro que está 0,8 K acima

Verificas uma sonda no gelo fundente e lês 0,8 °C, em vez de 0,0 °C. O certificado diz incerteza de ±0,3 K.

  1. O desvio observado (0,8 K) é maior do que a incerteza declarada (0,3 K): a sonda está fora da especificação.
  2. Não uses a sonda para medidas que dependam de décimas (sobreaquecimento de poucos kelvin).
  3. Se a medição tiver de ser feita, usa outra sonda verificada. Se não houver, regista a medição com a nota "sonda com desvio de +0,8 K verificado em gelo" e a correção aplicada, deixando claro que a incerteza é maior.
  4. Envia a sonda para calibração ou substituição.

Exemplo resolvido · calibração em prazo ou não?

Uma pinça foi calibrada em 12 de março do ano passado. A inspeção está marcada para 3 de abril deste ano.

  1. De 12 de março a 3 de abril do ano seguinte passaram mais de 12 meses (12 meses completos acabaram a 12 de março).
  2. A calibração não está em prazo. O instrumento não deve ser usado numa inspeção periódica regulamentar sem nova calibração.
  3. Solução: usar outra pinça com certificado válido ou calibrar antes.

11. Inspeção visual

A inspeção visual identifica se existem todos os equipamentos e dispositivos necessários ao correto funcionamento e em que estado de conservação estão. Usa os sentidos todos, com segurança: ver (corrosão, sujidade, fugas, isolamento), ouvir (ruídos anómalos, rolamentos, vibração), cheirar (gás, queimado, bolor, óleo) e tocar quando seguro (vibração, temperatura relativa, folgas). A orientação metodológica do sistema de certificação energética trata a inspeção visual como avaliação sensorial, completada por documentação e medições.

Método de uma volta de inspeção visual

  1. Percurso lógico: segue o fluido ou o ar, do gerador ao consumidor e ao retorno. Evita saltar de um lado para o outro.
  2. Do geral para o particular: primeiro a sala ou o local (ventilação, acessos, limpeza, humidade), depois o equipamento, depois os pormenores.
  3. Fotografia: cada anomalia com foto geral e foto de pormenor, com a chapa ou etiqueta visível quando possível.
  4. Lista de verificação: usa sempre uma, em papel ou no tablet, para não esquecer nada.
  5. Classifica cada equipamento (Bom, Suficiente, Mau) no fim da volta.

Classificação do estado de conservação e de funcionamento

A orientação metodológica do sistema de certificação energética classifica cada equipamento ou dispositivo da seguinte forma:

Classificação Critério
Mau situações que impliquem não funcionamento ou incorreto funcionamento do sistema; situações que coloquem em risco o sistema, a segurança ou a saúde pública; falhas de instalação ou incumprimento das regras da boa arte
Suficiente situações que podem ser otimizadas para melhorar o desempenho energético, a operação, a manutenção ou prolongar a vida útil
Bom nenhuma situação classificada como Mau ou Suficiente

Usa esta escala em todas as tuas fichas, mesmo fora do regime periódico: é clara, curta e dá um critério objetivo.

Elementos a verificar, por tipo de equipamento

As listas abaixo seguem a estrutura das orientações do sistema de certificação energética e completam-na com verificações próprias de oficina de frio.

Circuito frigorífico: compressores, condensadores, evaporadores

Componente Verificar Instrumento ou método
Compressor fugas de óleo, ruído anómalo, vibração, temperatura da carcaça, fixação, antivibráticos visão, audição, tato com cuidado, termómetro de contacto
Visor de líquido estado do fluido (limpo, sem bolhas em regime estável), indicador de humidade visão, comparação com a cor do indicador
Condensador sujidade, deformação das alhetas, obstruções ao ar, estado do ventilador visão, lanterna, pente de alhetas
Evaporador gelo, sujidade, estado do tabuleiro, degelo, escoamento visão, termómetro
Tubagem frigorífica isolamento contínuo, vibração, suportes, pontos de óleo, corrosão visão, detetor de fugas
Válvula de expansão bolbo bem fixo e isolado, formação de gelo anormal visão, tato
Válvulas de serviço tampas colocadas e vedadas visão
Dispositivos de segurança pressostatos presentes, ligados e com setpoints coerentes leitura de regulação
Isolamento do equipamento e de câmaras juntas de portas, painéis, cortinas, condensação visão, câmara termográfica
Quadro elétrico terminais, descoloração, proteção, ligação à terra, identificação visão, câmara termográfica, multímetro

Equipamentos geradores de frio e de calor com água: chiller, bomba de calor, VRF

A orientação metodológica indica, no mínimo, avaliar: fugas de óleo; interrupção ou deterioração do isolamento térmico; estado do fluido pelo visor; sujidade ou deformação das superfícies de permuta; existência e estado dos apoios antivibráticos; ruídos anómalos.

Unidades de tratamento de ar, rooftops e termoventilação

Avaliar, no mínimo: estado das secções de mistura, filtragem, permuta térmica e ventilação; colmatação, degradação, posicionamento e fixação dos filtros; estado das baterias de humidificação, se existirem; tabuleiro de condensados e drenagem; limpeza das superfícies interiores; estado dos pressostatos diferenciais; potenciais zonas de contaminação junto às admissões de ar novo; ruídos anómalos.

Ventiladores

Estado das secções, estado e ajustamento dos filtros, limpeza interior, pressostatos diferenciais, zonas de contaminação junto das admissões de ar novo, ruídos anómalos.

Condutas

Estado de conservação, fugas, corrosão e interrupção ou deterioração do isolamento térmico.

Torres de arrefecimento e condensadores evaporativos

Ausência de sistema de tratamento da água, fugas, corrosão, obstruções ao fluxo de ar, entupimento dos pulverizadores, ruídos anómalos. Estes equipamentos exigem atenção especial à higiene e à prevenção da legionelose, cujo regime tem de ser consultado na redação em vigor.

Caldeiras

Estado de conservação; fugas de combustível; falhas ou deterioração de isolamento; fuligem ou sujidade em queimadores, câmara de combustão e superfícies de permuta quando acessíveis; fugas na conduta de gases de combustão; ruídos anómalos; inexistência de ligação à terra.

Vaso de expansão, tubagem de água e tratamento de água

Vaso de expansão: estado, fugas de gás, rotura de membrana. Tubagem de distribuição: estado, fugas, corrosão, isolamento, proteção mecânica quando aplicável. Tratamento de água: existência e correto funcionamento.

Segurança hidráulica

Estado de conservação, pressão inadequada na válvula de segurança, localização e posicionamento inadequado da válvula antirretorno.

Controlo e monitorização

Inexistência das sondas e sensores adequados, incorreta localização, setpoints inadequados, períodos de funcionamento desajustados, estado das ligações elétricas de comando e controlo.

Depósitos de acumulação, permutadores e biomassa

Depósitos: estado, isolamento térmico, temperatura de acumulação desajustada à utilização. Permutadores: estado e isolamento. Armazenamento de biomassa: estado e medição da humidade relativa.

Solar térmico

Limpeza e conservação dos coletores, sombreamento, fixação do campo de coletores, estado das válvulas, purgadores e grupo hidráulico, equilíbrio hidráulico e térmico, grupo de enchimento, pressão do circuito primário, posição da sonda de temperatura, prioridade do solar no depósito, estado do fluido térmico.

Exemplo resolvido · volta visual a um chiller de cobertura

Chegas à cobertura e observas: nódoas de óleo na ligação de um dos compressores; isolamento da tubagem de água rasgado em dois metros; alhetas do condensador amachucadas numa zona e com folhas; apoios antivibráticos achatados; visor de líquido com bolhas.

Item Anomalia Classificação Razão
Ligação do compressor óleo sugere fuga de fluido Mau risco ambiental e de falha; obriga a verificação de fugas
Isolamento da tubagem rasgado em 2 m Suficiente perda de energia e condensação, sem risco imediato
Condensador alhetas amachucadas e folhas Suficiente perda de permuta, otimizável com limpeza
Antivibráticos achatados Suficiente vibração e fadiga, a substituir em manutenção
Visor de líquido bolhas em regime estável Mau pode indicar falta de carga ou outra causa; afeta o funcionamento

No relatório, cada linha leva foto e localização, e as linhas "Mau" originam recomendações do tipo II (reparação ou substituição), enquanto o isolamento e a limpeza correspondem a ações do tipo I (ajustes, limpeza ou adaptações).

12. Controlo de fugas e registos de intervenção

12.1. Porque se controlam as fugas

Os fluidos frigorigéneos fluorados têm efeito de estufa e, ao saírem do circuito, o equipamento perde desempenho e pode avariar. Perder fluido custa dinheiro, energia e ambiente. O Regulamento (UE) 2024/573 obriga os operadores a evitar fugas e a verificar os equipamentos com periodicidade que depende da carga.

12.2. A carga em toneladas de CO2 equivalente

O limiar e a periodicidade dependem da carga expressa em toneladas de CO2 equivalente:

carga (t CO2 eq) = massa de fluido (kg) × GWP ÷ 1 000

O GWP (potencial de aquecimento global) vem do rótulo ou da ficha do fluido. Nunca o escrevas de memória num relatório: lê-o do rótulo do equipamento ou da ficha do fabricante do fluido. Os valores de GWP dos exemplos desta sebenta são hipotéticos; num caso real lê-se o do rótulo ou da ficha do fluido.

12.3. Quando é obrigatória a verificação e com que periodicidade

Os operadores e os fabricantes de equipamento que contenha 5 toneladas de CO2 equivalente ou mais de gases fluorados com efeito de estufa têm de assegurar que o equipamento é verificado para deteção de fugas. Para certos gases, o regulamento fixa ainda um critério próprio em massa, que se consulta na redação em vigor: não dês um equipamento como dispensado só porque a conta em CO2 equivalente ficou abaixo de 5 t. As periodicidades mínimas são:

Carga do equipamento (t CO2 eq, gases do anexo I) Sem sistema de deteção de fugas Com sistema de deteção de fugas
a partir de 5 e abaixo de 50 de 12 em 12 meses de 24 em 24 meses
a partir de 50 e abaixo de 500 de 6 em 6 meses de 12 em 12 meses
500 ou mais de 3 em 3 meses de 6 em 6 meses

Regras complementares:

Num caso real, consulta o regulamento na redação em vigor e as regras nacionais que o executam antes de fixar uma periodicidade num relatório.

12.4. Registos obrigatórios

Para os equipamentos sujeitos a verificação, o operador mantém registos com, pelo menos:

Os registos são conservados durante, pelo menos, cinco anos. Os dados anuais são comunicados à autoridade competente nos termos da lei nacional, pelos canais por ela indicados.

12.5. Como se verifica uma fuga

Os métodos dividem-se em diretos (localizam a fuga) e indiretos (indicam que há perda de fluido).

Método Tipo Como se usa Limitação
Detetor eletrónico direto percorrer ligações, válvulas e soldaduras com a sonda a 5 a 10 mm das superfícies, a velocidade lenta correntes de ar e outros gases perturbam; sensibilidade varia
Solução espumante (líquido de bolhas) direto pincelar ligações; bolhas indicam fuga só em ligações acessíveis e sem gelo
Corante fluorescente com lâmpada UV direto adicionado por técnico habilitado; luz UV revela o ponto de fuga exige intervenção e funcionamento prévio
Câmara de deteção por infravermelhos direto varre áreas grandes custo e formação
Ensaio de pressão com azoto direto só em manutenção ou instalação, com circuito aberto não é método de inspeção
Balanço de carga indireto comparar fluido adicionado com a carga indica perda, não localiza
Análise de parâmetros (sobreaquecimento, subarrefecimento, visor, pressões) indireto ver capítulo 13 outros fatores dão sintomas parecidos
Sistema fixo de deteção indireto alarme de concentração no local depende de manutenção e de posicionamento

12.6. Pontos críticos onde as fugas se escondem

12.7. A taxa de fuga

Uma indicação útil, que não substitui a verificação regulamentar, é a taxa de fuga anual, calculada pelas adições registadas:

taxa de fuga (%) = fluido adicionado no ano (kg) ÷ carga total (kg) × 100

Se uma instalação com 30 kg de carga recebeu 4,5 kg de fluido durante o ano, a taxa é 4,5 ÷ 30 × 100 = 15 %. Uma taxa elevada ou crescente é uma não conformidade crítica a investigar. Atenção: é preciso saber se as adições foram feitas depois de reparar a fuga ou apenas para repor o fluido, porque repor sem reparar é uma prática a corrigir.

Exemplo resolvido · que periodicidade se aplica?

Um supermercado tem uma central frigorífica com 52 kg de um fluido cujo rótulo indica GWP de 2 000 e sem sistema de deteção de fugas.

  1. Carga em t CO2 eq: 52 × 2 000 ÷ 1 000 = 104 t CO2 eq.
  2. 104 está entre 50 e 500: periodicidade de 6 em 6 meses sem sistema de deteção; seria 12 em 12 meses se existisse um sistema de deteção de fugas.
  3. O equipamento não é hermeticamente fechado: a dispensa não se aplica.
  4. Recomendação ao dono: manter registo atualizado, calendário de verificações semestrais e avaliar a instalação de um sistema de deteção de fugas, que alarga o intervalo.

Exemplo resolvido · verificação de eficácia depois de uma reparação

Uma fuga numa ligação foi reparada na segunda-feira, às 09:00, e o equipamento arrancou às 10:00 desse dia.

  1. A verificação de eficácia só pode fazer-se depois de 24 horas de funcionamento: no mínimo, na terça-feira às 10:00 (se funcionou sem interrupção).
  2. O prazo máximo é um mês após a reparação.
  3. Quem faz: técnico certificado.
  4. Regista no livro do equipamento: data da reparação, causa, data e resultado da verificação.

Exemplo resolvido · ler um livro de registo

Livro de registo de uma câmara frigorífica com 14 kg de carga (GWP do rótulo: 1 500):

Data Intervenção Fluido adicionado Técnico Verificação de fugas
14 jan manutenção 0 A sim, sem fugas
21 mai falta de frio 2,0 kg A não registada
3 jul falta de frio 2,5 kg B não registada
12 out manutenção 0 A sim, sem fugas
  1. Carga: 14 × 1 500 ÷ 1 000 = 21 t CO2 eq: periodicidade 12 em 12 meses sem sistema de deteção (24 meses com).
  2. Fluido adicionado no ano: 4,5 kg; taxa de fuga = 4,5 ÷ 14 × 100 = 32 %.
  3. Anomalias: duas adições sem verificação de fugas registada, dois técnicos diferentes sem articulação, taxa de fuga elevada.
  4. Classificação do "controlo de fugas": Mau (adições repetidas sem reparação nem verificação). Recomendação do tipo II: localizar e reparar a fuga e fazer verificação de eficácia; do tipo I: normalizar o registo.

13. Ensaio de funcionamento: refrigeração

O ensaio de funcionamento observa o sistema a trabalhar e mede o que a observação visual não dá. Em refrigeração, o ensaio avalia se o ciclo está bem carregado e equilibrado, se o frio chega onde é preciso e se as proteções atuam.

13.1. Antes de medir

  1. Confirma o fluido, a carga e as condições nominais (chapa e ficha).
  2. Confirma que o equipamento está estabilizado: as orientações metodológicas pedem um período mínimo de 30 minutos desde o arranque com necessidade efetiva de frio.
  3. Regista a temperatura exterior, a temperatura do espaço e o estado de degelo.
  4. Verifica a segurança elétrica (por quem tem habilitação elétrica) e a ligação de manómetros (por técnico certificado).

13.2. Grandezas a medir

Grandeza Onde Para quê
Pressão de aspiração (baixa) válvula de serviço de aspiração temperatura de evaporação (saturação)
Pressão de descarga (alta) válvula de serviço de descarga temperatura de condensação
Temperatura da linha de aspiração próximo do bolbo da válvula de expansão ou à entrada do compressor sobreaquecimento
Temperatura da linha de líquido à saída do condensador subarrefecimento
Temperatura de descarga tubo de descarga proteção do compressor, condições anómalas
Corrente elétrica compressor, ventiladores comparar com chapa
Temperatura do ar ou do produto espaço refrigerado, ar à entrada e à saída do evaporador desempenho
Temperatura do ar à entrada do condensador exterior perceber a diferença entre condensação e ambiente

13.3. Sobreaquecimento e subarrefecimento

São diferenças de temperatura, em kelvin. Servem para diagnosticar: o sobreaquecimento diz se o evaporador está bem alimentado; o subarrefecimento diz se há líquido suficiente à entrada da válvula de expansão.

Observação Sintoma provável Causas habituais
Sobreaquecimento alto, subarrefecimento baixo pouco fluido no circuito fuga, carga insuficiente
Sobreaquecimento alto, subarrefecimento alto restrição à entrada do evaporador filtro obstruído, válvula de expansão subalimentada
Sobreaquecimento baixo, subarrefecimento alto excesso de fluido ou compressor pouco eficaz sobrecarga, válvula sobrealimentada
Pressão de alta elevada condensação deficiente condensador sujo, ventilador parado, ar recirculado, incondensáveis
Pressão de baixa baixa evaporação deficiente falta de fluido, falta de ar no evaporador, gelo, filtro obstruído
Corrente acima da chapa compressor ou motor sobrecarregado alta pressão excessiva, tensão baixa, defeito mecânico

Os valores aceitáveis de sobreaquecimento e subarrefecimento dependem do fabricante e da aplicação; o critério de aceitação é o do manual e do relatório de arranque. Os valores dos exemplos desta sebenta são didáticos.

13.4. Procedimento de ensaio, passo a passo

  1. Fotografa a chapa e anota o fluido.
  2. Arranca (ou confirma que já está em funcionamento) e deixa estabilizar 30 minutos.
  3. Liga os manómetros (por técnico certificado), com mangueiras de baixa perda, sem libertar fluido.
  4. Lê pressões de baixa e de alta; converte em saturações.
  5. Mede as temperaturas nas linhas de aspiração e de líquido, com sondas bem fixas e isoladas.
  6. Calcula sobreaquecimento e subarrefecimento.
  7. Mede corrente e tensão (e, se necessário, potência).
  8. Mede temperatura do espaço, ar de retorno e ar insuflado (se aplicável).
  9. Observa o degelo: arranque, duração, fim, escoamento.
  10. Testa as proteções: confirma, sem forçar o equipamento a risco, que alarmes e pressostatos existem, estão ativos e que os valores de regulação são coerentes com os do fabricante.
  11. Regista tudo, desliga os manómetros e verifica que não houve perda de fluido.
  12. Verifica a ausência de fugas nas ligações dos manómetros com detetor.

Exemplo resolvido · diagnóstico a partir das leituras

Câmara de conservação de produtos refrigerados com fluido cujo manómetro dá, em regime estável: pressão de baixa a que corresponde saturação de -9 °C; temperatura da linha de aspiração +2 °C; pressão de alta a que corresponde saturação de 42 °C; temperatura da linha de líquido +41 °C. (Os valores são didáticos; o manual do fabricante indica os de referência.)

  1. Sobreaquecimento = 2 - (-9) = 11 K.
  2. Subarrefecimento = 42 - 41 = 1 K.
  3. Subarrefecimento muito baixo e sobreaquecimento alto apontam para pouco fluido.
  4. Confirma com o visor (bolhas) e com o histórico (adições anteriores).
  5. Recomendação: verificação de fugas completa, reparação, verificação de eficácia e só depois reposição da carga pela massa indicada na chapa.

Exemplo resolvido · corrente acima da chapa

Compressor trifásico com corrente nominal 12 A. Medes 15,5 A em regime estável.

  1. Desvio = (15,5 - 12) ÷ 12 = 0,29, isto é, +29 %.
  2. Antes de culpar o compressor, verifica a pressão de alta e a temperatura exterior: se a condensação está alta por condensador sujo, a corrente sobe.
  3. Verifica a tensão de alimentação e o equilíbrio entre fases.
  4. Conclusão provável: sobrecarga por condensação deficiente. Recomendação: limpeza do condensador (tipo I) e nova medição; se a corrente se mantiver alta, avaliar o compressor (tipo II).

14. Ensaio de funcionamento: climatização

Em climatização, avalia-se se o sistema entrega o caudal, a temperatura e a humidade previstos, com a eficiência esperada e com o controlo certo.

14.1. Grandezas a medir

Grandeza Instrumento Interpretação
Temperatura e humidade do ar de retorno e de insuflação termo-higrómetro, sondas diferença de temperatura (ΔT) através da bateria
Caudal de ar anemómetro, balómetro comparar com projeto e ficha
Queda de pressão em filtros manómetro diferencial estado de colmatação
Corrente e potência de ventiladores e compressores pinça, analisador comparar com chapa e catálogo
Temperatura de ida e retorno de água sondas em poços ou de superfície ΔT, potência transportada
Caudal de água caudalímetro de ultrassons potência térmica
Ruído e vibração sonómetro, tato conforto e desgaste
Condensados observação escoamento livre
Qualidade do ar interior (parâmetros disponíveis) instrumentos próprios controlo da ventilação

14.2. A diferença de temperatura do ar

Num split em arrefecimento estabilizado, a diferença entre o ar de retorno e o ar de insuflação é um indicador rápido do bom funcionamento. O valor esperado depende do fabricante e das condições, e deves compará-lo com a ficha. A direção do desvio diz coisas diferentes: com a mesma potência frigorífica e menos ar, cada metro cúbico cede mais calor, por isso caudal de ar a menos faz o ΔT subir (filtros colmatados, bateria suja, correia solta, registo fechado, ventilador em velocidade baixa), com risco de a bateria gelar; um ΔT baixo aponta para pouca capacidade (falta de fluido, restrição, compressor pouco eficaz), para caudal de ar a mais ou para muita carga latente. Antes de concluir, cruza o ΔT com o caudal medido, com a queda de pressão nos filtros e com o sobreaquecimento.

14.3. Potência térmica do lado do ar

Q (kW) = caudal de ar (m³/h) × ρ × Δh ÷ 3 600

com ρ do ar (na ausência de melhor informação, as orientações metodológicas usam 1,2 kg/m³) e Δh a diferença de entalpia do ar entre retorno e insuflação (kJ/kg), obtida da temperatura e da humidade pela carta psicrométrica. Para uma estimativa sensível (só temperatura), podes usar Q ≈ 0,34 × caudal (m³/h) × ΔT (K) ÷ 1 000, em kW, sabendo que despreza a desumidificação.

14.4. Verificações específicas

Exemplo resolvido · potência de arrefecimento de um circuito de água

Um chiller tem, no circuito primário, temperatura de ida de 7 °C e de retorno de 12 °C, com caudal medido de 36 m³/h.

  1. ΔT = 12 - 7 = 5 K.
  2. P = 36 × 1 000 × 4,187 × 5 ÷ 3 600 = 209,4 kW.
  3. Compara com a potência de arrefecimento da chapa nas condições medidas. Se a unidade é de 250 kW nominais, o rácio é 84 %, o que pode ser normal a carga parcial ou indicar perda de capacidade; para decidir, é preciso saber o estado de carga e comparar com a curva do fabricante.

Exemplo resolvido · caudal de ar num difusor

Medes 410 m³/h num difusor com o balómetro; o projeto indicava 500 m³/h.

  1. Desvio = (500 - 410) ÷ 500 = 18 % abaixo.
  2. Causas prováveis: registo parcialmente fechado, filtros colmatados, perda de carga a mais, ventilador com velocidade baixa.
  3. Antes de concluir, repete a medição noutros difusores do mesmo ramal; se todos estão abaixo, a causa é a montante.

15. Ensaio de funcionamento: aquecimento e combustão

15.1. Caldeiras e geradores com combustão

A análise de gases de combustão com analisador próprio dá o rendimento de combustão e outros parâmetros úteis à avaliação. Segundo as orientações metodológicas do sistema de certificação energética, registam-se também: concentração de dióxido de carbono nos gases; concentração de oxigénio; concentração de monóxido de carbono; excesso de ar; temperatura dos gases de combustão; temperatura ambiente; concentração de oxigénio ambiente; concentração de monóxido de carbono ambiente.

Procedimento

  1. Antes de permanecer no local, ventila e mede o CO ambiente à entrada (capítulo 8). A medição do CO ambiente do passo 7, com a caldeira em regime, é o parâmetro que se regista no relatório e não substitui esta.
  2. Verifica o analisador: ligado, sonda e filtro de condensados limpos, zero feito em ar limpo, fora da chaminé.
  3. Estabiliza a caldeira em regime (as orientações metodológicas pedem pelo menos 30 minutos desde o arranque com necessidade efetiva de calor).
  4. Introduz a sonda no orifício de medição previsto. Se não existir, a abertura do ponto de medição na conduta é feita por quem tem habilitação para intervir na instalação de queima, nos termos da legislação aplicável, e nunca pelo aluno por iniciativa própria; se não és essa pessoa, assinala a falta do ponto de medição e recomenda a sua execução. Quando é aberto, o orifício tem diâmetro adequado ao instrumento, fica a 15 cm de qualquer união, curva ou ligação semelhante e é vedado depois com material resistente a pelo menos 200 °C.
  5. Nos sistemas com recuperador de calor na conduta, mede depois do recuperador.
  6. Regista as grandezas atrás listadas, deixando estabilizar a leitura.
  7. Mede o CO ambiente na casa da caldeira, com a caldeira em regime.
  8. Retira a sonda e veda o orifício.

Leitura

Observação Sugere
Oxigénio muito alto e temperatura dos gases baixa excesso de ar, perda por ventilação da chama
Oxigénio baixo, monóxido de carbono alto falta de ar, combustão incompleta, risco
Temperatura dos gases muito alta superfícies de permuta sujas, regulação errada
Monóxido de carbono ambiente elevado fuga de gases de combustão para o local: perigo imediato
Rendimento de combustão decrescente entre inspeções degradação, sujidade, desafinação

Valores-limite de monóxido de carbono, de oxigénio e de rendimento mínimo dependem do combustível, do equipamento e da norma aplicável. Usa os da norma, do manual e do regime em vigor; a regra operacional é: parâmetros fora do que o fabricante e a norma indicam obrigam a registo e a intervenção, e CO ambiente elevado (qualquer subida sustentada acima do valor de fundo medido à entrada, o alarme do próprio analisador, ou o valor fixado nas regras de segurança do local) obriga a evacuar o espaço, parar o equipamento se for seguro fazê-lo, ventilar a partir do exterior, levar para o ar livre quem tenha sintomas e ligar 112 se estes persistirem.

15.2. Bombas de calor e circuitos hidráulicos

Aplicam-se as medições do capítulo 13 (circuito frigorífico) e do capítulo 14 (água), com atenção ao degelo da bateria exterior em ciclo de aquecimento, ao ΔT da água e à pressão do circuito.

15.3. Equilíbrio hidráulico

Verifica a pressão de enchimento do circuito, a pressão de pré-carga do vaso de expansão (com o circuito despressurizado e por pessoa habilitada), a ausência de ar (purgadores), o ΔT de ida e retorno nas colunas e nos ramais e o estado dos filtros de linha.

15.4. Segurança de combustão

Se houver gás, combustível líquido ou sólido, a verificação das proteções, do corte de combustível, da ventilação do local e da evacuação de gases é feita pelas entidades e profissionais com habilitação para o efeito, em conformidade com o regime em vigor. O técnico de inspeção observa e regista; quando encontra sinais de risco (cheiro a gás, fuligem, condutas soltas, grelhas de ventilação tapadas), comunica de imediato ao responsável e recomenda intervenção urgente por entidade habilitada.

Exemplo resolvido · ler uma análise de combustão

Caldeira a gasóleo com análise estabilizada: O2 = 8,5 %; CO2 = 9,2 %; CO = 18 ppm; temperatura dos gases = 240 °C; CO ambiente = 2 ppm.

  1. O oxigénio elevado e o CO2 baixo indicam excesso de ar considerável.
  2. Temperatura dos gases alta, associada a excesso de ar, aponta para desperdício de calor pela chaminé.
  3. O monóxido de carbono está baixo (não há combustão incompleta nem fuga para o local).
  4. Recomendação do tipo I: afinar o queimador (ar de combustão) e limpar as superfícies de permuta; repetir a análise e comparar com os valores de referência do fabricante e da norma.
  5. Classificação do queimador: Suficiente (otimizável sem risco imediato).

16. Verificação de consumos e de eficiência

O consumo é a fatura do desempenho. Duas instalações iguais no papel podem gastar o dobro por causa da operação, da manutenção ou do dimensionamento. A verificação de consumos faz-se a dois níveis: consumo real ao longo do tempo (faturas, contadores, registos) e eficiência instantânea (medições durante a inspeção).

16.1. Consumo ao longo do tempo

Fonte O que dá Cuidado
Faturas de eletricidade, gás, gasóleo consumo mensal e custo separar o consumo do sistema do resto do edifício
Contadores parciais consumo do sistema verificar se estão calibrados e ligados
Registos do sistema de automatização e controlo consumo e horas de funcionamento validar com medições
Horas de funcionamento do equipamento utilização cruzar com horários do edifício

Compara com o ano anterior, com o período de referência e com o que a ficha técnica sugere. Uma subida sem explicação (mais ocupação, mais horas, clima diferente) é indício de degradação.

16.2. Eficiência de um sistema de ar condicionado ou de bomba de calor

As orientações metodológicas do sistema de certificação energética descrevem dois métodos para determinar a eficiência de um sistema de ar condicionado. Em ambos, a eficiência resulta do quociente entre a potência térmica absorvida (arrefecimento) ou cedida (aquecimento) e a potência elétrica absorvida.

Método Como se obtém a potência térmica Quando usar
Direto pelo ciclo frigorífico: caudal mássico de fluido × diferença de entalpias, a partir de pressões e temperaturas medidas, e do diagrama pressão-entalpia quando há acesso ao circuito frigorífico
Indireto pelo lado do fluido secundário: água (caudal × ρ × cp × ΔT) ou ar (caudal × ρ × diferença de entalpia) quando há circuito de água ou ar mensurável

Aspetos a respeitar:

16.3. Eficiência de um sistema de combustão

Segundo as mesmas orientações:

η_sist = η_comb - (1 ÷ FC - 1) × P_ch - (1 ÷ FC) × P_env

onde η_comb é o rendimento de combustão medido com o analisador, FC o fator de carga (que traduz a utilização real do sistema), P_ch as perdas pela chaminé com o queimador desligado e P_env as perdas pela envolvente. Os valores de P_ch e P_env obtêm-se de tabelas das orientações, conforme a configuração da caldeira, a altura da chaminé e o estado do isolamento. O fator de carga calcula-se a partir do consumo de combustível durante um período de, no mínimo, dois meses consecutivos (ou o ano de funcionamento, quando possível):

FC = (V_comb × PCI) ÷ (Φ_cmb × t_func × 3,6)

com V_comb o consumo (kg ou m³N), PCI o poder calorífico inferior (MJ/kg ou MJ/m³N), Φ_cmb a capacidade térmica nominal do queimador (kW) e t_func as horas de funcionamento.

16.4. Quando a diferença deve ser explicada

As orientações pedem recomendações sempre que, sem justificação aparente, a eficiência medida se afasta 30 % dos valores de referência dos equipamentos ou dos valores apurados em inspeções anteriores.

Exemplo resolvido · eficiência de um chiller pelo método indireto

Chiller de 250 kW nominais, circuito de água: ida 7 °C, retorno 12 °C, caudal 36 m³/h. Medição elétrica na alimentação geral da unidade (compressores e ventiladores): tensão composta 400 V, corrente 105 A por fase, cos φ medido 0,85.

  1. Potência elétrica: P_abs = √3 × 400 × 105 × 0,85 ÷ 1 000 = 61,8 kW.
  2. Potência térmica: P = 36 × 1 000 × 4,187 × 5 ÷ 3 600 = 209,4 kW.
  3. Eficiência: ε = 209,4 ÷ 61,8 = 3,39.
  4. Valor de referência do fabricante para as condições medidas: 4,6. Desvio = (4,6 - 3,39) ÷ 4,6 = 26,3 %.
  5. Está abaixo de 30 %, por isso, só por esta regra, não obriga a recomendação, mas é um valor a registar e a acompanhar. Se na inspeção anterior a eficiência era 4,8, o desvio face à anterior é (4,8 - 3,39) ÷ 4,8 = 29,4 %: também abaixo do limiar, mas muito perto. Regista a tendência e investiga as causas prováveis (condensação, caudal, carga parcial).
  6. Validação com bom senso: uma eficiência de arrefecimento por água entre 3 e 6 é plausível; um valor de 11 ou de 0,8 indicaria medida errada (por exemplo, corrente lida só numa parte do equipamento).

Exemplo resolvido · eficiência de uma caldeira (sistema de combustão)

Caldeira a gasóleo, capacidade térmica nominal do queimador 300 kW, consumo medido de 7 570 kg de gasóleo em 1 000 horas de funcionamento, PCI da ficha do fornecedor 42,8 MJ/kg, rendimento de combustão medido 92 %. Caldeira com ventilador antes da câmara de combustão, sem fecho do ar de entrada, chaminé com menos de 10 m (P_ch = 0,010); caldeira com manutenção periódica e isolamento em todas as faces (P_env = 0,02).

  1. Fator de carga: FC = (7 570 × 42,8) ÷ (300 × 1 000 × 3,6) = 323 996 ÷ 1 080 000 = 0,300.
  2. 1 ÷ FC = 3,333; (1 ÷ FC - 1) = 2,333.
  3. η_sist = 0,92 - 2,333 × 0,010 - 3,333 × 0,02 = 0,92 - 0,0233 - 0,0667 = 0,830, isto é, 83,0 %.
  4. Se a potência nominal da caldeira (a potência fornecida, indicada na chapa da caldeira) for igual ou superior a 250 kW, a periodicidade de inspeção é de 2 anos (se o sistema estiver abrangido pelo regime periódico); confirma o valor na chapa da caldeira e não na do queimador, cujos 300 kW são a capacidade térmica de entrada em combustível.
  5. Este rendimento do sistema é muito inferior ao de combustão: a diferença vem do baixo fator de carga (caldeira sobredimensionada que trabalha a 30 % da capacidade) e das perdas em paragem. Recomendação: avaliar o dimensionamento (ver capítulos 18 e 20).

Exemplo resolvido · consumo anormal

Um armazém frigorífico consumiu, em março, 18 400 kWh de eletricidade, contra 13 900 kWh em março do ano anterior, sem aumento de produtos armazenados.

  1. Variação = (18 400 - 13 900) ÷ 13 900 = +32 %.
  2. Hipóteses: condensador sujo, degelo mal regulado, portas a ficar abertas, juntas degradadas, fuga de fluido, controlo desajustado.
  3. Plano: verificar o registo de degelos, medir a pressão de condensação e a corrente, inspecionar as juntas e o estado das portas, verificar o registo de fugas.
  4. Se se identificar a causa, quantifica a poupança da correção no relatório (por exemplo, kWh por ano).

17. Anomalias, fatores críticos e classificação das não conformidades

17.1. O que é uma não conformidade

Uma não conformidade é o não cumprimento de um requisito: do projeto, do fabricante, da lei, do plano de manutenção, do contrato. Uma anomalia é qualquer desvio ao funcionamento ou ao estado esperado; pode não corresponder a um requisito escrito. Na prática, regista-se tudo e depois separa-se.

17.2. Famílias de anomalias

Família Exemplos Impacto principal
Documental falta de manual, de projeto, de plano, de registos, chapa ilegível rastreabilidade e capacidade de avaliar
Segurança falta de ligação à terra, válvula de segurança com pressão errada, fuga de combustível, CO no local, proteções desligadas pessoas e bens
Funcionamento não arranca, dispara, ciclos curtos, não atinge temperatura serviço
Fugas óleo em ligações, bolhas no visor, perdas de carga repetidas ambiente e desempenho
Conservação corrosão, isolamento rasgado, apoios gastos, sujidade durabilidade e eficiência
Eficiência rendimento abaixo da referência, consumo anormal, horários desajustados energia e custos
Controlo sondas mal colocadas, setpoints extremos, sensores desligados conforto e consumo
Higiene e qualidade do ar filtros inadequados, tabuleiros sujos, ar novo mal captado saúde
Dimensionamento equipamento sobredimensionado ou subdimensionado face às necessidades atuais eficiência e conforto
Operação uso contrário às instruções, intervenções sem critério tudo o resto

17.3. Fatores críticos

Em cada inspeção, há fatores que mudam o resultado se estiverem errados:

  1. Condições de medição (carga, estabilização, estação do ano).
  2. Estado dos instrumentos (zero, calibração, sondas bem posicionadas).
  3. Carga de fluido correta (avaliada pela massa e não só pelas pressões).
  4. Limpeza das superfícies de permuta (condensador, evaporador, baterias).
  5. Caudais de ar e de água (filtros, correias, válvulas, bombas).
  6. Controlo (sondas e setpoints).
  7. Estanquidade do circuito de fluido, de combustível e do circuito de gases.
  8. Segurança elétrica (terra, proteções, apertos).
  9. Qualidade da manutenção (registo e estado visível).
  10. Alterações do uso do edifício que mudam as necessidades.

17.4. Classificação do estado: Bom, Suficiente, Mau

É a escala oficial para o estado de conservação e de funcionamento (ver capítulo 11). Aplica-se a cada equipamento ou dispositivo.

17.5. Classificação da urgência (critério de oficina)

Além do estado, o dono da instalação quer saber quando agir. Para isso podes acrescentar, no teu relatório, um critério de prazo de atuação, claramente identificado como critério do inspetor:

Prazo de atuação Quando se aplica Exemplos
Imediato risco para pessoas, para o ambiente ou para o próprio equipamento CO ambiente elevado, cheiro a gás, fuga grande de fluido, falta de ligação à terra
Curto prazo pode provocar avaria ou perda significativa de desempenho filtros colmatados, condensador sujo, válvula de segurança mal regulada
Médio prazo otimização e substituição programada isolamento degradado, antivibráticos gastos, controlo desajustado
Acompanhamento situação estável a vigiar pequeno desvio de eficiência, equipamento com 10 anos

17.6. Tipo de ação: I e II

As recomendações agrupam-se, nas orientações metodológicas, em dois tipos:

Combina os três critérios para cada anomalia: Estado (Bom, Suficiente, Mau), Prazo (imediato, curto, médio, acompanhamento) e Tipo (I ou II).

Exemplo resolvido · classificar cinco anomalias

Anomalia Estado Prazo Tipo
Ligação à terra ausente numa caldeira Mau imediato II
Filtros da unidade de tratamento de ar colmatados Suficiente (ou Mau se o caudal já está comprometido) curto I
Setpoint de arrefecimento a 18 °C num escritório Suficiente curto I
Isolamento rasgado em 3 m de tubagem de água fria Suficiente médio II (reparação)
Falta de registo da última verificação de fugas Mau se o equipamento está sujeito a verificação e esta não foi feita no prazo; Suficiente se a falha é só de registo e a verificação foi feita; Bom se o equipamento está abaixo do limiar de verificação curto, nos dois primeiros casos I (regularização)

Fundamenta sempre a classificação com o critério: "Mau" porque coloca em risco a segurança; "Suficiente" porque se pode otimizar sem risco imediato.

Exemplo resolvido · distinguir anomalia de não conformidade

Numa sala de máquinas, encontras (a) um extintor com a validade expirada, (b) um manual guardado numa gaveta e rasgado, (c) um compressor que arranca com ruído anómalo, (d) uma válvula de segurança com pressão de abertura acima da pressão máxima admissível da instalação.

  1. (a) é não conformidade (requisito de segurança); não é do sistema técnico, mas deve ser registada.
  2. (b) é anomalia documental; só é não conformidade se o plano exigir manual legível e acessível.
  3. (c) é anomalia de funcionamento a investigar; ainda não se conhece o requisito violado.
  4. (d) é não conformidade grave: Mau, prazo imediato, tipo II.

18. Metodologia de uma inspeção

A metodologia é a sequência pela qual se faz uma inspeção completa. Segue o seguinte esquema, em oito fases.

Fase O que se faz Produto
1. Pedido e âmbito clarificar o que se inspeciona, para que fim, que sistemas e que limites acordo escrito
2. Recolha de documentação pedir e analisar documentos (capítulo 4) lista de documentos recebidos e em falta
3. Preparação acessos, pessoas, instrumentos verificados, segurança plano de visita
4. Reunião inicial confirmar com o responsável o que vai acontecer, condições típicas, riscos registo
5. Inspeção visual volta ao sistema, fotografia, listas de verificação lista preenchida e fotos
6. Ensaio de funcionamento e medições estabilizar, medir, registar folha de medições
7. Análise calcular, comparar, classificar, identificar causas quadro de resultados
8. Relatório e reunião final redigir, rever, entregar, explicar relatório entregue

Os seis elementos que uma inspeção deve aferir

Em todos os casos, a inspeção afere:

  1. A existência de todos os equipamentos e dispositivos necessários ao correto funcionamento.
  2. O estado de conservação e de funcionamento.
  3. A parametrização dos sistemas de controlo.
  4. A eficiência energética real.
  5. O dimensionamento adequado face às necessidades dos espaços servidos.
  6. O ajustamento adequado da operação e da manutenção.

Dimensionamento adequado

A avaliação do dimensionamento compara a capacidade instalada com as necessidades atuais do edifício. Pode apoiar-se no projeto (ocupação, equipamentos, iluminação, mobiliário, setpoints, atividades), numa simulação dinâmica, na análise do consumo à carga máxima ou num inquérito aos utilizadores. Após a primeira inspeção, pode ser dispensada se, desde a última, não houve renovações no sistema e as necessidades de energia útil não mudaram (ocupação, tipo de utilização, envolvente, iluminação, equipamentos, setpoints). Ações de restauro, conservação ou limpeza decorrentes da manutenção não contam como renovação.

Regras de ouro da metodologia

Isenção por sistema de automatização e controlo (SACE)

Em edifícios com um sistema de automatização e controlo que abranja os sistemas técnicos, a inspeção pode ser dispensada quando o SACE: tem capacidade de monitorização e registo dos parâmetros necessários à eficiência, com periodicidade mínima de 15 minutos durante pelo menos quatro anos; permite a comunicação e a interoperabilidade com os sistemas e equipamentos; determina a eficiência ou fornece os parâmetros; e identifica sistemas em avaria ou com perda de eficiência, informando o responsável pela operação. Nesse caso é o próprio SACE que passa a ser inspecionado, com periodicidade de quatro anos.

Exemplo resolvido · planear uma inspeção de rotina a uma câmara frigorífica

Câmara de conservação de produtos frescos, restaurante, equipamento com 6,8 kg de carga.

  1. Âmbito: inspeção de manutenção com verificação de fugas; classe refrigeração; profundidade funcional.
  2. Documentos: ficha técnica, livro de registo, última verificação de fugas.
  3. Preparação: manifold com mangueiras de baixa perda, detetor de fugas verificado, termómetros, pinça, câmara termográfica, lanterna; EPI; aviso ao restaurante de que a câmara será observada durante 1 hora.
  4. Visual: portas e juntas, isolamento, evaporador (gelo e sujidade), condensador, tubagem, escoamento, quadro.
  5. Ensaio: estabilizar 30 minutos; pressões, sobreaquecimento, subarrefecimento, corrente; temperatura do ar e do produto; degelo.
  6. Fugas: detetor em todas as ligações; carga em t CO2 eq para decidir a periodicidade; verificar registos.
  7. Análise e relatório: classificar, recomendar, entregar, explicar ao responsável.

19. O relatório de inspeção

O relatório é o produto da inspeção. É ele que o proprietário guarda, que o próximo inspetor lê, que a entidade vê. Se não estiver no relatório, não aconteceu.

19.1. Estrutura mínima

Para os sistemas técnicos sujeitos ao regime periódico, as orientações do sistema de certificação energética indicam que o Relatório de Inspeção (RI) contém, pelo menos:

Bloco Conteúdo
Identificação morada do edifício, coordenadas geográficas, identificação e contactos do técnico responsável, data da inspeção, data limite da inspeção seguinte
Caracterização do sistema componentes, localização no edifício, potência nominal, funções, espaços servidos (tipo de utilização, ocupantes, setpoints)
Resultados registo fotográfico, medições e cálculos de eficiência, certificados de calibração dos instrumentos, ocorrências verificadas, análise do ajustamento da operação e da manutenção, análise do dimensionamento (ou justificação da dispensa)
Recomendações agrupadas por tipo (I e II)
Notas e observações situações que possam comprometer a segurança e a qualidade do ar interior, constrangimentos de acesso, informação pedida e não disponibilizada, outras observações

Em edifícios com vários sistemas técnicos sujeitos ao regime, faz-se um relatório por sistema. O relatório é submetido no Portal SCE, onde lhe é atribuído um identificador, e entregue ao proprietário.

Fora do regime periódico, usa a mesma estrutura, adaptada: é um modelo provado e o cliente reconhece-o.

19.2. Como se escreve

Regra Porquê
Frases curtas, verbos concretos o dono não é técnico
Um facto por frase evita ambiguidade
Valores com unidade e condição de medição permite repetir e comparar
Localização exata (edifício, piso, sala, equipamento, componente) quem repara tem de encontrar
Foto por anomalia prova
Linguagem neutra, sem acusações o relatório é técnico, não punitivo
Siglas explicadas à primeira ocorrência o leitor pode não conhecê-las
Classificação e prazo em cada ocorrência permite priorizar

19.3. Modelo de linha de ocorrência

N.º Local Equipamento Observação Prova Estado Prazo Recomendação
07 Cobertura, zona B Chiller 1 Nódoas de óleo na ligação do compressor 2; visor com bolhas em regime estável Fotos 12 e 13; leituras do quadro 4 Mau Imediato Verificação de fugas por técnico certificado, reparação e verificação de eficácia (tipo II)

19.4. Conclusões do relatório

As conclusões são a parte que o dono lê primeiro. Seguem esta fórmula:

  1. Estado geral em uma frase.
  2. Principais problemas, por ordem de urgência.
  3. Ações recomendadas e sua ordem.
  4. O que fica por avaliar e porquê.
  5. Quando voltar a inspecionar.

Exemplo de conclusões bem escritas:

O sistema de climatização do edifício encontra-se, no conjunto, em estado Suficiente. Foram identificadas duas situações que exigem atuação imediata: ausência de ligação à terra na caldeira 2 e presença de monóxido de carbono na casa das máquinas durante o ensaio (35 ppm). Recomenda-se a intervenção de entidade habilitada antes de nova utilização do equipamento. Há ainda quatro ações de curto prazo (substituição dos filtros da unidade 3, limpeza dos condensadores, correção do setpoint de verão e reposição do isolamento da tubagem de água fria) e duas de médio prazo (substituição dos antivibráticos e revisão do plano de manutenção). Não foi possível avaliar o dimensionamento por falta do projeto atualizado. A próxima inspeção deve ocorrer no prazo fixado no regime aplicável.

20. Recomendações úteis ao dono da instalação

Uma recomendação é útil quando o dono consegue decidir com ela. As orientações do sistema de certificação energética pedem que as recomendações sejam tecnicamente viáveis, privilegiem as melhores práticas existentes, prevejam interações entre as ações, sejam claras e de linguagem acessível e evidenciem, sempre que aplicável, de forma quantitativa as melhorias alcançadas.

Quando redigir recomendações

Os seis ingredientes de uma boa recomendação

Ingrediente Pergunta Exemplo
O quê que ação concreta? substituir os filtros F7 da UTA 2 por filtros da classe indicada pelo fabricante
Onde em que equipamento e local? UTA 2, casa das máquinas, piso 3
Porquê que anomalia a justifica? queda de pressão de 310 Pa, superior ao limite do fabricante
Quem que perfil faz? técnico de manutenção do edifício
Quando que prazo? curto prazo
Ganho que benefício, em números? redução de cerca de 12 % da potência do ventilador (estimativa) e recuperação do caudal de projeto

Má e boa recomendação

Má Boa
"Melhorar a manutenção." "Incluir no plano a limpeza trimestral do condensador do chiller 1 e registar a pressão de condensação antes e depois."
"Verificar o isolamento." "Repor o isolamento térmico em 8 m de tubagem de água fria no teto do piso 2, com material de barreira de vapor contínua."
"Trocar a caldeira." "Avaliar a substituição da caldeira atual por uma solução de potência ajustada à carga máxima medida (fator de carga de 30 %), após confirmação das necessidades atuais do edifício."
"Corrigir fugas." "Localizar e reparar a fuga na ligação do compressor 2 e fazer verificação de eficácia após 24 horas de funcionamento; atualizar o livro de registo."

Interação entre ações

Recomendar a limpeza do condensador antes de recomendar a troca do compressor evita gastar dinheiro à toa. Recomendar mais ventilação sem avaliar o impacto na carga térmica pode subir o consumo. No texto, indica a ordem e as dependências: "executar primeiro a ação 2; só depois avaliar a ação 5".

Estimar o ganho

Quando possível, quantifica. Exemplo de método:

  1. Mede a potência elétrica antes da correção (P1) e depois (P2) em condições comparáveis.
  2. Estima as horas de funcionamento por ano (h).
  3. Poupança de energia = (P1 - P2) × h.
  4. Poupança em euros = poupança de energia × preço da energia.
  5. Declara os pressupostos.

Exemplo: após limpeza dos condensadores a potência medida passa de 18,8 kW para 17,0 kW, em 3 000 horas por ano: poupança = (18,8 - 17,0) × 3 000 = 5 400 kWh por ano.

Exemplo resolvido · transformar uma observação em recomendação

Observação: "As sondas de temperatura ambiente dos fan coils do piso 1 estão atrás de cortinas e junto a um aquecedor elétrico. Os setpoints de verão estão a 19 °C."

Recomendação (tipo I, curto prazo):

Reposicionar as sondas de temperatura ambiente dos fan coils do piso 1 para parede interior, a cerca de 1,5 m de altura, afastadas de cortinas e de fontes de calor, e ajustar o setpoint de arrefecimento para o valor de projeto do espaço. O desajuste atual faz o sistema arrefecer em excesso e consumir mais. Estima-se uma redução do consumo de arrefecimento a validar na inspeção seguinte.

21. Interpretar relatórios de inspeção emitidos por outros e ações corretivas

Receberás relatórios de outros: do inspetor de sistemas técnicos, de um mantenedor anterior, de uma seguradora. O teu trabalho é ler com sentido crítico, perceber o que dizem e transformar em trabalho.

Como ler um relatório

  1. Quem, quando, para quê: identificação do inspetor, data, âmbito.
  2. O que foi e não foi inspecionado: limites e constrangimentos de acesso.
  3. As condições da medição: estação do ano, carga, estabilização, instrumentos e calibrações.
  4. Os resultados: valores, classificações, fotos.
  5. As recomendações: tipo (I ou II), prazo, quantificação.
  6. As notas e observações: informação que faltou, riscos para a segurança e o ar interior.
  7. A data da próxima inspeção.

Perguntas críticas

Pergunta Se a resposta for "não"
Os instrumentos tinham certificado em prazo? os valores medidos têm de ser confirmados
As condições eram típicas? os valores de eficiência não são comparáveis
Cada recomendação tem anomalia e prova associadas? pedir esclarecimento
As recomendações têm prazo e responsável? não são acionáveis
Há recomendações a que o dono já respondeu? verificar o que ficou por corrigir
O relatório identifica situações de segurança? atuação imediata, sem esperar pelo calendário

Transformar o relatório em plano de ações corretivas

Passo Ação
1 Extrair todas as recomendações para uma tabela
2 Ordenar por prazo e por tipo (primeiro o imediato e os riscos)
3 Identificar dependências entre ações
4 Atribuir responsável (quem faz), orçamento (quanto custa) e data
5 Executar e registar a intervenção, com evidência
6 Verificar a eficácia (nova medição ou inspeção parcial)
7 Atualizar o plano de manutenção e o livro de registo
8 Arquivar o relatório e o comprovativo das correções, para a próxima inspeção

Quando as correções não se fazem

Se o dono não executa as ações de risco, regista por escrito que foi informado, em que data e de que forma, e comunica às entidades competentes nos casos em que a lei o exija.

Exemplo resolvido · de relatório a plano

Relatório de terceiros com cinco recomendações. Constróis o plano:

N.º Recomendação Tipo Prazo Responsável Custo estimado Estado
1 Reparar a fuga de fluido na ligação do compressor 2 e verificar a eficácia II Imediato Empresa de refrigeração certificada a orçamentar em curso
2 Substituir filtros da UTA 2 I Curto Manutenção do edifício baixo feito
3 Limpar condensadores do chiller I Curto Manutenção baixo feito
4 Repor isolamento de 8 m de tubagem II Médio Isolador médio agendado
5 Rever o plano de manutenção I Médio Gestor técnico baixo pendente

Depois de 1 a 3 executadas, mede de novo a pressão de condensação, a corrente do compressor e o caudal da UTA 2, e regista a melhoria. Esse registo é a prova de que a ação foi eficaz.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Uma inspeção verifica e avalia; uma manutenção mantém e repara. As classes de inspeção organizam-se pelo tipo de sistema (refrigeração, climatização, aquecimento), pela finalidade (periódica regulamentar, de receção, de manutenção, de fugas, a pedido, pós-ocorrência) e pela profundidade (documental e visual, funcional, com medição de desempenho). Em Portugal, as inspeções periódicas aos sistemas técnicos de edifícios acima de 70 kW têm periodicidade de 4 anos (abaixo de 250 kW) ou de 2 anos (a partir de 250 kW), e fazem-se por Técnicos de Inspeção de Sistemas Técnicos do SCE, com relatório submetido no Portal SCE. O controlo de fugas de gases fluorados depende da carga em toneladas de CO2 equivalente, e exige registos conservados durante, pelo menos, cinco anos e verificação de eficácia depois de cada reparação.

A inspeção começa nos documentos (projeto, manuais, fichas, relatórios anteriores, plano e registos de manutenção) e na chapa de características. Avalia-se a qualidade da manutenção pelo plano, pelos registos e pelo estado visível do equipamento. A inspeção visual classifica cada componente em Bom, Suficiente ou Mau. O ensaio de funcionamento exige condições típicas, estabilização de pelo menos 30 minutos e instrumentos verificados e calibrados (periodicidade não superior a 12 meses). Em refrigeração, mede-se sobreaquecimento, subarrefecimento, corrente e temperaturas; em climatização, caudais de ar e de água e diferenças de temperatura; em aquecimento, os gases de combustão e o equilíbrio hidráulico. Os consumos e a eficiência calculam-se pelos métodos direto e indireto (ar condicionado) e pelo método de combustão (caldeiras), e um afastamento de 30 % sem justificação obriga a recomendação.

As anomalias classificam-se por estado, por prazo e por tipo de ação (I: ajuste, limpeza, adaptação; II: reparação ou substituição). O relatório tem estrutura fixa (identificação, caracterização, resultados, recomendações, notas) e linguagem para o dono, não para o técnico. Uma recomendação útil diz o quê, onde, porquê, quem, quando e que ganho. Ao ler relatórios de outros, avalia as condições de medição e os instrumentos, e transforma as recomendações num plano de ações com responsáveis, prazos e verificação de eficácia. Tudo isto com segurança (elétrica, combustão, pressão, fluido) integrada no procedimento e com respeito pela competência de cada profissional.

Exercícios resolvidos

1. Classifica como inspeção (I) ou manutenção (M): (a) comparar a corrente de um ventilador com a chapa; (b) apertar bornes; (c) ler o livro de registo de fugas; (d) substituir uma correia.

Resolução: (a) I; (b) M; (c) I; (d) M. Quem inspeciona mede, lê e compara; quem mantém intervém.

2. Um sistema tem um gerador de 260 kW e outro de 90 kW. Está sujeito à inspeção periódica? Com que periodicidade? E se só tivesse um gerador de 60 kW?

Resolução: o limiar aplica-se a cada gerador; o de 260 kW está acima de 70 kW, logo a inspeção incide sobre o sistema técnico todo. Como 260 kW é igual ou superior a 250 kW (e a soma, 350 kW, também), a periodicidade é de 2 anos, qualquer que seja o critério de escolha do escalão. Com um só gerador de 60 kW, está abaixo do limiar: não está sujeito a este regime periódico (mantém, porém, a manutenção e as verificações aplicáveis, como a verificação de fugas).

3. Um equipamento tem 18 kg de um fluido com GWP de 1 800 (valor do rótulo) e não tem sistema de deteção de fugas. Que periodicidade de verificação de fugas se aplica?

Resolução: 18 × 1 800 ÷ 1 000 = 32,4 t CO2 eq. Está entre 5 e 50: verificação de 12 em 12 meses (24 em 24 meses se existisse sistema de deteção de fugas).

4. Calcula a potência elétrica absorvida por um equipamento trifásico de 400 V, com 20 A por fase e cos φ de 0,8.

Resolução: P = √3 × 400 × 20 × 0,8 ÷ 1 000 = 1,732 × 400 × 20 × 0,8 ÷ 1 000 = 11,1 kW.

5. Num circuito de água, o caudal é 20 m³/h e a diferença entre ida e retorno é de 6 K. Qual a potência térmica transportada?

Resolução: P = 20 × 1 000 × 4,187 × 6 ÷ 3 600 = 139,6 kW.

6. Conduta de 0,60 m × 0,50 m com velocidade média do ar de 3,5 m/s. Qual o caudal em m³/h?

Resolução: A = 0,30 m²; Q = 3,5 × 0,30 × 3 600 = 3 780 m³/h.

7. A pressão de baixa corresponde a uma saturação de +1 °C e a linha de aspiração está a +7 °C; a pressão de alta corresponde a uma saturação de 50 °C e a linha de líquido está a 44 °C. Calcula sobreaquecimento e subarrefecimento.

Resolução: sobreaquecimento = 7 - 1 = 6 K; subarrefecimento = 50 - 44 = 6 K. A interpretação depende dos valores de referência do fabricante.

8. Uma bomba de calor mede eficiência de 2,9 no aquecimento; o valor de referência do fabricante nas mesmas condições é 4,3. É obrigatório recomendar?

Resolução: desvio = (4,3 - 2,9) ÷ 4,3 = 32,6 %, acima de 30 %: sim, é de redigir recomendação (e investigar causas: fluido, degelo, caudal, controlo).

9. Uma instalação com 40 kg de carga recebeu 6 kg de fluido num ano. Qual a taxa de fuga? Que conclusão tiras?

Resolução: 6 ÷ 40 × 100 = 15 %. Perdas desta ordem exigem localizar a fuga, repará-la, verificar a eficácia da reparação (depois de 24 horas de funcionamento e no máximo um mês) e registar. Repor sem reparar é uma má prática.

10. Classifica (Bom, Suficiente, Mau) e dá o prazo e o tipo: (a) caldeira sem ligação à terra; (b) isolamento rasgado em 2 m de tubagem de água quente; (c) filtros ligeiramente sujos, mas com caudal dentro do projeto.

Resolução: (a) Mau, imediato, tipo II; (b) Suficiente, médio prazo, tipo II (repor o isolamento); (c) Suficiente, curto prazo, tipo I (limpar ou substituir).

11. Uma pinça foi calibrada em 5 de novembro de 2025. A inspeção é a 20 de outubro de 2026. Pode usá-la numa inspeção periódica regulamentar?

Resolução: passaram menos de 12 meses (os 12 meses terminam em 5 de novembro de 2026): a calibração está em prazo. Anexa o certificado ao relatório.

12. Reescreve a observação "A UTA 1 tem filtros sujos" como recomendação útil.

Resolução: "Substituir os filtros da UTA 1 (casa das máquinas, piso 2) por filtros da classe indicada no manual do fabricante, porque a queda de pressão medida está acima do limite do fabricante e o caudal medido é 18 % inferior ao do projeto. Ação de tipo I, de curto prazo, a cargo da manutenção do edifício. Após a substituição, repetir a medição do caudal e registar a queda de pressão para validar o ganho."