Sistemas de climatização e AQS (UFCD 10968)
- Introdução
- 1. Fundamentos de calor e temperatura
- Calor e temperatura não são a mesma coisa
- Calor sensível e calor latente
- Exemplo resolvido · energia para aquecer um termoacumulador
- A fórmula de oficina: potência a partir do caudal
- Exemplo resolvido · potência de um ramal de radiadores
- As três formas de transmissão de calor
- Medir temperatura na oficina
- 2. Fundamentos de hidráulica
- 3. Enquadramento regulamentar dos processos de aquecimento e arrefecimento
- 4. Sistemas de arrefecimento de expansão direta
- 5. Sistemas de arrefecimento indiretos
- 6. Sistemas de aquecimento central: alta e baixa temperatura
- 7. Equipamentos e componentes do aquecimento central
- 8. Distribuição e emissão de calor nos espaços
- 9. Fatores que influenciam o rendimento do aquecimento central
- 10. Preparação de AQS: requisitos, energia útil e acumulação
- 11. Sistemas de produção de AQS
- 12. Sistemas solares térmicos
- 13. Fluidos térmicos
- 14. Regulação e controlo
- 15. O ciclo de compressão de vapor e a bomba de calor com inversão de ciclo
- 16. Procedimentos de oficina: encher, purgar, ensaiar e entregar
- 17. Complementaridade entre sistemas de aquecimento
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Um edifício confortável tem quase sempre, escondidos numa casa das máquinas, numa cobertura ou atrás de um teto falso, três sistemas a trabalhar: um que arrefece, um que aquece e um que produz água quente sanitária (AQS). O técnico de refrigeração e climatização raramente fica só com um deles. Ao longo da carreira vai montar um split numa sala, purgar um circuito de radiadores, medir o caudal de um chiller, afinar a curva de aquecimento de uma bomba de calor e explicar a um cliente porque é que o termoacumulador não aquece. Esta sebenta dá-lhe a visão de conjunto e, em cada sistema, o lado de oficina: o que se vê, o que se mede, como se afina e o que se verifica antes de entregar.
O percurso segue o referencial da unidade. Começamos pelos fundamentos de calor, temperatura e hidráulica, porque tudo o que vem depois (caudais, potências, pressões, perdas) assenta nessas grandezas. Passamos ao enquadramento regulamentar dos processos de aquecimento e arrefecimento. Seguem-se os sistemas de arrefecimento, de expansão direta e indiretos, os sistemas de aquecimento com todos os seus componentes, a preparação de AQS com o respetivo cálculo e o contributo do solar térmico. Fechamos com os fluidos térmicos, a regulação e o controlo, o ciclo de compressão de vapor em bomba de calor com inversão de ciclo, os procedimentos de enchimento, purga e colocação em serviço e a complementaridade entre sistemas.
Objetivos de aprendizagem (referencial):
- reconhecer os conceitos fundamentais de calor, temperatura e hidráulica;
- reconhecer o enquadramento regulamentar dos processos de aquecimento;
- descrever o funcionamento dos sistemas de arrefecimento, aquecimento ambiente e produção de AQS;
- caracterizar os principais fluidos térmicos;
- descrever métodos de regulação e controlo desses sistemas;
- descrever o ciclo básico de refrigeração por compressão de vapor em sistemas do tipo bomba de calor com inversão de ciclo;
- reconhecer a complementaridade dos diferentes sistemas de aquecimento.
Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo tem a explicação, tabelas de consulta e, quando há contas, um exemplo resolvido passo a passo. Refaz as contas com a calculadora antes de ler a solução. Sempre que possível, repete na oficina: lê o manómetro de um circuito, mede a temperatura de ida e de retorno com um termómetro de contacto, abre e fecha uma válvula de purga. Esta é uma unidade de iniciação a vários sistemas; as intervenções em circuitos de fluido frigorigéneo, em instalações a gás e na rede elétrica exigem formação, certificação e supervisão próprias, e nas aulas fazem-se só as medições e operações indicadas pelo professor.
Regra de segurança que atravessa tudo. Antes de abrir, desmontar ou intervir em qualquer equipamento: desligar da rede elétrica, bloquear e sinalizar o corte, verificar a ausência de tensão com o multímetro, despressurizar e deixar arrefecer. Água a mais de 50 °C queima, um circuito pressurizado projeta água e vapor, e um quadro elétrico aberto mata.
1. Fundamentos de calor e temperatura
Calor e temperatura não são a mesma coisa
A temperatura mede o grau de agitação das partículas de um corpo, o quão quente ou frio ele está. Lê-se com termómetros, em graus Celsius (°C) ou em kelvin (K). O calor é a energia que passa de um corpo mais quente para um mais frio por haver uma diferença de temperatura. Mede-se em joule (J), em quilojoule (kJ) ou, na prática de oficina e de faturação, em quilowatt-hora (kWh).
Um balde de água a 60 °C e uma piscina a 30 °C: o balde está mais quente, mas a piscina contém muito mais calor, porque tem muito mais massa. Por isso um termoacumulador de 200 litros demora horas a aquecer e uma chaleira só minutos.
| Grandeza | Unidade SI | Unidades de oficina | Conversões úteis |
|---|---|---|---|
| Temperatura | kelvin (K) | grau Celsius (°C) | T(K) = T(°C) + 273,15; uma diferença de 1 °C é igual a uma diferença de 1 K |
| Energia (calor) | joule (J) | kJ, kWh | 1 kWh = 3 600 kJ = 3,6 MJ |
| Potência | watt (W) | kW | 1 kW = 1 kJ/s; 1 kW = 860 kcal/h (aprox.) |
| Massa | quilograma (kg) | kg | 1 litro de água ≈ 1 kg |
| Caudal | m³/s | l/s, l/h, m³/h | 1 m³/h = 1 000 l/h = 0,2778 l/s |
Nas diferenças de temperatura (ida menos retorno) escreve-se K em vez de °C: um circuito com ida a 70 °C e retorno a 55 °C tem ΔT = 15 K.
Calor sensível e calor latente
Quando um corpo recebe calor e a temperatura sobe, esse é o calor sensível: dá para o sentir e medir com um termómetro. Quando recebe calor e a temperatura não sobe porque o corpo está a mudar de estado (gelo a derreter, água a ferver, fluido frigorigéneo a evaporar), esse é o calor latente.
- Calor sensível: Q = m × c × ΔT, em que m é a massa (kg), c o calor específico (kJ/kg·K) e ΔT a variação de temperatura (K).
- Calor latente: Q = m × L, em que L é o calor latente de mudança de estado (kJ/kg). Para a água a evaporar a 100 °C à pressão atmosférica, L é cerca de 2 257 kJ/kg, mais de cinco vezes o calor necessário para aquecer o mesmo quilo de água de 0 °C a 100 °C (cerca de 418 kJ).
Esta grande diferença é a razão de ser da refrigeração por compressão de vapor: o fluido frigorigéneo evapora no evaporador, absorvendo muito calor latente com pouca massa, e condensa no condensador, libertando-o. Voltaremos a isto no capítulo 15.
O calor específico da água é cerca de 4,18 kJ/kg·K, que equivale a 1,163 Wh/kg·K. É um dos valores mais altos entre os fluidos correntes, e é por isso que a água é o fluido preferido para transportar calor.
Exemplo resolvido · energia para aquecer um termoacumulador
Quanta energia é preciso para aquecer 200 litros de água de 15 °C a 60 °C? Quanto tempo demora com uma resistência de 2 kW, ignorando perdas?
- Massa: 200 l ≈ 200 kg.
- ΔT = 60 - 15 = 45 K.
- Q = 200 × 4,18 × 45 = 37 620 kJ.
- Em kWh: 37 620 / 3 600 = 10,45 kWh.
- Tempo = energia / potência = 10,45 / 2 = 5,2 h, ou seja cerca de 5 h 14 min.
Com perdas pelas paredes do acumulador e pela resistência, o tempo real é um pouco maior. Esta conta é a base de todo o dimensionamento de AQS.
A fórmula de oficina: potência a partir do caudal
Em circuitos de água, o técnico raramente conhece a massa de água, conhece o caudal e mede as temperaturas. A potência transportada obtém-se por:
P (kW) = 0,001163 × V̇ (l/h) × ΔT (K)
ou, com o caudal em m³/h, P (kW) = 1,163 × V̇ (m³/h) × ΔT (K).
Exemplo resolvido · potência de um ramal de radiadores
Um ramal tem caudal de 600 l/h, temperatura de ida 70 °C e de retorno 55 °C. Que potência está a ser entregue?
- ΔT = 70 - 55 = 15 K.
- P = 0,001163 × 600 × 15 = 10,5 kW.
Se o técnico medir ida e retorno com o mesmo ΔT mas o caudal for metade, a potência cai para metade. É por isso que um circuito mal purgado ou mal equilibrado "não aquece": o caudal falha, e a potência com ele.
As três formas de transmissão de calor
| Forma | Como funciona | Onde se vê |
|---|---|---|
| Condução | o calor passa através de um sólido, de partícula em partícula | parede da caldeira, tubo de cobre, betonilha do piso radiante |
| Convecção | o calor é transportado por um fluido em movimento (ar ou água) | ar que sobe de um radiador, água na tubagem, ar insuflado por um fan-coil |
| Radiação | o calor passa por ondas eletromagnéticas, sem precisar de meio | calor sentido de uma superfície quente: piso radiante, radiador, janela fria |
Os radiadores têm este nome por tradição, mas transmitem a maior parte do calor por convecção; o piso radiante transmite cerca de metade por radiação e a outra metade por convecção, o que explica o conforto de ter os pés quentes e o ar mais fresco. Os isolamentos funcionam contra a condução (espuma de polietileno, lã mineral), e as superfícies brilhantes contra a radiação.
Medir temperatura na oficina
| Instrumento | Como se usa | Cuidados |
|---|---|---|
| Termómetro de contacto (sonda de superfície ou de braçadeira) | encosta-se ou prende-se à tubagem, limpa e sem tinta, e isola-se a sonda do ar | tubo oxidado dá leitura baixa; esperar a estabilização |
| Termómetro de imersão ou de mergulho | mede a água num poço ou num recipiente | sonda totalmente imersa |
| Termómetro de infravermelhos | aponta-se à superfície, sem contacto | depende da emissividade; metal brilhante dá leituras falsas (colar fita preta mate) |
| Termómetro digital de duas sondas | mede em simultâneo ida e retorno e dá o ΔT | verificar o zero com água e gelo (0 °C) |
| Termóstato de ambiente / sonda NTC | sensor integrado no equipamento | não o expor ao sol nem a correntes de ar |
Procedimento para medir ida e retorno: (1) limpar o tubo com uma lixa fina no local da medição; (2) colocar a sonda de braçadeira em contacto firme e isolá-la com um pedaço de espuma; (3) esperar 1 a 2 minutos até a leitura estabilizar; (4) ler ida e retorno com o equipamento em regime estável (pelo menos 15 minutos depois de arrancar); (5) registar com a data, a hora, a temperatura exterior e o caudal, se conhecido.
2. Fundamentos de hidráulica
Pressão, altura e caudal
Num circuito de água fechado, o técnico trabalha com três ideias: pressão, caudal e perda de carga.
A pressão exprime-se em bar (ou kPa). Uma coluna de água de 10 metros de altura exerce cerca de 1 bar na base (mais precisamente 0,98 bar). Por isso, num prédio de seis pisos com cerca de 18 m entre a casa das máquinas e o ponto mais alto, a pressão estática no ponto mais baixo é 1,8 bar mais alta do que no mais alto, mesmo com a bomba parada. As alturas de bomba e as perdas de carga exprimem-se muitas vezes em metros de coluna de água (m c.a.), com 1 m c.a. ≈ 0,1 bar.
| Termo | O que é | Unidade típica | Onde se lê |
|---|---|---|---|
| Pressão relativa (manométrica) | pressão acima da atmosférica | bar | manómetro do circuito |
| Pressão absoluta | pressão relativa + 1,013 bar | bar (abs) | cálculos do vaso de expansão |
| Pressão estática | pressão com o fluido parado, devida à altura | bar | manómetro com a bomba desligada |
| Caudal | volume que passa por unidade de tempo | l/h, m³/h | caudalímetro, debitómetro, cálculo por ΔT |
| Perda de carga | pressão perdida por atrito em tubos, curvas e válvulas | kPa, m c.a. | diferença de pressão entre dois pontos |
| Altura manométrica de uma bomba | pressão que a bomba fornece ao caudal pedido | m c.a. | curva da bomba |
O caudal relaciona-se com a velocidade: Q = A × v, em que A é a secção interior do tubo. Em instalações de aquecimento em tubo de cobre ou multicamada, convém manter a velocidade da água entre cerca de 0,5 e 1,5 m/s. Acima disso há ruído e erosão; abaixo, deposita-se lama e ficam bolsas de ar.
Exemplo resolvido · velocidade num tubo
Um tubo de cobre 22 × 1 mm (diâmetro interior 20 mm) transporta 600 l/h. Qual a velocidade?
- Caudal em m³/s: 600 l/h = 0,6 m³/h = 0,6 / 3 600 = 1,667 × 10⁻⁴ m³/s.
- Área interior: A = π × (0,010)² = 3,14 × 10⁻⁴ m².
- v = Q / A = 1,667 × 10⁻⁴ / 3,14 × 10⁻⁴ = 0,53 m/s. Está dentro do intervalo recomendado.
A bomba de circulação e a sua curva
Uma bomba de circulação não eleva a água para um reservatório, vence apenas as perdas de carga do circuito fechado. A cada bomba corresponde uma curva característica: a altura manométrica que fornece em função do caudal. O circuito tem a sua própria curva de perdas, que cresce com o quadrado do caudal. O ponto de funcionamento é a interseção das duas curvas.
- Fechar válvulas ou sujar filtros aumenta as perdas: o ponto de funcionamento desloca-se para menos caudal.
- Abrir mais ramais ou trocar tubo por outro de maior diâmetro diminui as perdas: o caudal aumenta.
- Uma bomba de velocidade variável (as de classe moderna, com eletrónica) ajusta-se em modo de pressão proporcional ou constante, para entregar apenas o caudal necessário.
Cavitação e ar. Uma bomba que aspira ar ou que trabalha com pressão de aspiração demasiado baixa faz um ruído de "areia" ou de "berlindes" e danifica-se. As causas mais comuns são circuito mal purgado, pressão de enchimento baixa e válvula de corte semi-fechada na aspiração.
Equilíbrio hidráulico e perdas de carga
Num circuito com vários emissores, a água segue sempre o caminho de menor resistência: os radiadores ou circuitos mais próximos da bomba recebem demasiado caudal, os mais afastados recebem pouco. Corrige-se com válvulas de equilíbrio (detentores nos radiadores, caudalímetros no coletor do piso radiante, válvulas de regulação com medidor de pressão diferencial), ajustadas até cada ramal receber o caudal de projeto.
Instrumentos de medição hidráulica
| Instrumento | Mede | Como se usa |
|---|---|---|
| Manómetro (de Bourdon) | pressão do circuito | ligado ao circuito; ler a frio e a quente; zona verde habitual 1 a 2,5 bar em habitação |
| Termomanómetro | pressão e temperatura | instalado à saída da caldeira |
| Caudalímetro de flutuador (rotâmetro) | caudal de cada circuito do coletor | ler a posição do flutuador na escala em l/min |
| Medidor de pressão diferencial | perda de carga entre dois pontos | ligado às tomadas de uma válvula de equilíbrio |
| Medidor de caudal por ultrassons de braçadeira | caudal sem abrir o circuito | colocar na tubagem limpa, introduzir diâmetro e material |
| Manómetro de pré-carga | pressão de ar no vaso de expansão | na válvula de ar do vaso (ver capítulo 7) |
Exemplo resolvido · caudal necessário num fan-coil
Um fan-coil de 2,5 kW de arrefecimento trabalha com água a 7 °C na ida e 12 °C no retorno. Que caudal de água precisa?
- ΔT = 12 - 7 = 5 K.
- P = 0,001163 × V̇ × ΔT, logo V̇ = P / (0,001163 × ΔT) = 2,5 / (0,001163 × 5) = 2,5 / 0,005815.
- V̇ = 430 l/h, ou seja 7,2 l/min.
Se o caudalímetro mostrar muito menos, a bateria não rende; se mostrar muito mais, o ΔT cai e o chiller perde eficiência.
3. Enquadramento regulamentar dos processos de aquecimento e arrefecimento
Porque há regras
Os sistemas de climatização e de AQS consomem energia, usam fluidos sob pressão, queimam combustíveis, produzem água que se bebe ou com a qual as pessoas se lavam e interferem com a saúde de quem respira o ar tratado. Por isso há várias áreas de regulamentação a cruzarem-se. O técnico não decora os diplomas: sabe a que área pertence cada situação e onde consultar a redação em vigor.
As áreas e as entidades
| Área | O que regula, em termos gerais | Entidade ou fonte de consulta |
|---|---|---|
| Desempenho energético dos edifícios e certificação (SCE) | requisitos mínimos para edifícios e sistemas técnicos (aquecimento, arrefecimento, AQS, ventilação), certificação energética, inspeção e manutenção de sistemas de climatização | Decreto-Lei n.º 101-D/2020, na redação em vigor, e portarias que o desenvolvem; ADENE (gestão do SCE); DGEG |
| Gases fluorados com efeito de estufa | uso, deteção de fugas, recuperação, registo de equipamentos e certificação de técnicos | regulamento europeu em vigor e legislação nacional de execução; APA |
| Segurança de sistemas de refrigeração e bombas de calor | classificação de fluidos, cargas, locais, dispositivos de segurança | norma EN 378 e regulamentação aplicável |
| Água e Legionella | prevenção e controlo da doença dos legionários em edifícios e redes de água | Lei n.º 52/2018 e portaria que a regulamenta (Portaria n.º 25/2021), com os procedimentos técnicos do Despacho n.º 1547/2022, na redação em vigor |
| Instalações a gás | projeto, execução, inspeção e manutenção de instalações e aparelhos a gás | legislação do setor do gás; técnicos e entidades credenciados; DGEG |
| Instalações elétricas | projeto e execução das ligações elétricas dos equipamentos | regras técnicas das instalações elétricas de baixa tensão; técnico responsável |
| Equipamentos sob pressão | conceção, colocação no mercado e utilização de vasos e geradores sob pressão | legislação nacional que transpõe a diretiva europeia; marcação CE |
| Rotulagem energética e conceção ecológica | etiquetas de eficiência e requisitos mínimos de produto (caldeiras, bombas de calor, acumuladores) | regulamentos europeus de rotulagem e de ecodesign |
O Sistema de Certificação Energética (SCE)
O Decreto-Lei n.º 101-D/2020, de 7 de dezembro, transpôs para a ordem jurídica nacional a diretiva europeia sobre o desempenho energético dos edifícios e regula o SCE. Integra o que antes constava de regulamentos separados para edifícios de habitação e de comércio e serviços. O diploma tem sido alterado, por isso consulta-se sempre a redação em vigor no Diário da República eletrónico ou no portal da ADENE.
O que o técnico precisa de saber, em termos práticos:
- o desempenho energético de um edifício tem em conta os sistemas de aquecimento, arrefecimento e AQS que ele tem; a classe energética do certificado depende deles;
- os edifícios têm de cumprir requisitos mínimos para os sistemas técnicos novos ou substituídos (eficiência dos geradores, isolamento das redes, regulação), e o contributo de fontes renováveis para o AQS é considerado na avaliação;
- há regras de manutenção e inspeção de sistemas de climatização, com planos de manutenção e registos; o equipamento deve ter a documentação (manual, ficha técnica, registo de intervenções) disponível;
- o certificado energético é emitido por peritos qualificados do SCE, não pelo instalador.
Água quente sanitária e Legionella
A Legionella é uma bactéria que se multiplica em água estagnada ou tépida e causa a doença dos legionários, por inalação de gotículas (chuveiros, torres de arrefecimento). O regime legal de prevenção abrange redes de água de determinados edifícios e estabelecimentos, entre eles as redes de AQS, e define classificação de risco e medidas a tomar. O técnico deve conhecer o princípio, que é geral e consensual: evitar água estagnada, evitar troços sem circulação (os braços mortos), manter a água quente suficientemente quente nos acumuladores e na rede, a água fria fria, e fazer manutenção e limpeza dos pontos de distribuição. A classificação do risco e as medidas por nível de risco estão na Portaria n.º 25/2021; a periodicidade da monitorização e as referências de temperatura (por exemplo, AQS abaixo de 50 °C no circuito, ou de 55 °C em unidades de saúde, conta como controlo inconsistente; água fria acima de 20 °C obriga a atenção especial) estão no Despacho n.º 1547/2022. Não se decoram: consultam-se na redação em vigor.
Por outro lado, a água quente queima: a temperaturas de acumulação, uma queimadura grave leva segundos, e mesmo a temperaturas mais baixas basta menos tempo nas crianças e nos idosos. A solução técnica consiste em acumular a água quente a uma temperatura mais alta e instalar uma válvula misturadora termostática antes dos pontos de uso, que limita a temperatura da água entregue. O capítulo 10 volta a isto.
Gases fluorados e o técnico de refrigeração
Os fluidos frigorigéneos de uma bomba de calor ou de um chiller são regulados. Em termos gerais:
- só técnicos com a certificação exigida pela lei podem instalar, intervir, fazer manutenção, recuperar o fluido ou verificar fugas num circuito frigorífico;
- o fluido é recuperado e nunca libertado para a atmosfera;
- os equipamentos têm de ter chapa de características com o tipo e a carga de fluido, e há registos e controlos de fugas em função da carga;
- a classificação de segurança do fluido (inflamabilidade e toxicidade) e o seu potencial de aquecimento global (GWP) constam da ficha de segurança do fluido e da etiqueta do equipamento; consultam-se aí e na legislação em vigor, não se decoram nem se citam de memória.
Para as aulas desta unidade fica a regra: o circuito frigorífico não se abre. Observa-se, mede-se por fora (temperaturas de tubagem, correntes, pressões em equipamentos que já têm manómetro) e interpreta-se. Qualquer intervenção que corte, abra ou ligue o circuito de fluido é feita por quem tem a certificação.
Exemplo resolvido · a que regulamento pertence cada situação
Para cada situação, indica a área regulamentar a consultar.
| Situação | Área |
|---|---|
| Um cliente quer trocar a caldeira a gás por uma bomba de calor e saber que classe energética vai ter | SCE (certificação energética); requisitos de sistemas técnicos |
| Um split tem uma fuga de fluido e é preciso recuperar a carga | gases fluorados e certificação do técnico |
| Um hotel quer saber com que frequência analisar a água quente dos duches | Legionella (Lei n.º 52/2018; periodicidade no Despacho n.º 1547/2022, na redação em vigor) |
| Um instalador tem de ligar uma caldeira a gás nova | legislação do gás e técnico credenciado |
| Um vaso de expansão novo é comprado a um fornecedor | equipamento sob pressão; marcação CE e manual |
A resposta correta nunca é "pergunto a um colega": é saber qual é o diploma, ir à fonte oficial e aplicar a redação em vigor.
4. Sistemas de arrefecimento de expansão direta
O princípio
Num sistema de expansão direta (DX), o fluido frigorigéneo evapora diretamente na bateria que arrefece o ar do espaço. Não há fluido intermédio: o ar passa pela bateria do evaporador e cede calor ao fluido. É o sistema mais simples e com menos perdas, e é limitado pela distância entre as unidades (o fluido tem de voltar ao compressor com o óleo).
| Família | Como se apresenta | Onde se vê |
|---|---|---|
| Unidades autónomas | um só bloco com todos os componentes | janela, parede, portátil, armário |
| Compactas ar/ar | um bloco grande, ligado ao espaço por condutas | cobertura de supermercado, pavilhão, escola |
| Split ar/ar | unidade interior e exterior ligadas por tubos | sala, quarto, escritório |
| Multi-split | uma unidade exterior para várias interiores | apartamento, moradia |
| VRF | uma ou mais exteriores com fluxo de fluido variável e muitas interiores | hotel, escritório, edifício de serviços |
4.1 Unidades autónomas
Têm todos os componentes no mesmo bloco: compressor, condensador, expansão, evaporador e ventiladores. Não há tubos de fluido a ligar na obra, o que dispensa trabalho no circuito frigorífico.
- De janela ou de parede: o bloco atravessa a parede; um lado fica no interior (evaporador) e o outro no exterior (condensador). O condensado é eliminado pela traseira.
- Portáteis: um bloco no chão com mangueira de extração do ar quente para o exterior. Muito simples, mas menos eficientes; a mangueira e o ar que entra por frestas anulam parte do efeito.
- Armários autónomos de condensação a água: usados em salas técnicas e comércio; condensam com água de um circuito ou de uma torre.
O que se mede e verifica: tensão de alimentação, corrente absorvida (comparar com a chapa), temperatura do ar à entrada e à saída da bateria interior (o diferencial típico em arrefecimento, em condições normais, é de cerca de 8 a 12 K), estado do filtro, drenagem do condensado, fuga de ar quente entre os dois lados.
4.2 Compactas ar/ar
São unidades de maior potência, em geral montadas em cobertura (rooftop) ou em casa das máquinas, que tratam o ar e o distribuem por condutas. Têm compressores (um ou vários, por estágios), condensador de ar, bateria de expansão direta, ventilador de insuflação e muitas vezes comportas de ar novo e de retorno.
Verificações de oficina: sentido de rotação dos ventiladores trifásicos (se estiver invertido o caudal é baixo e a corrente também), tensão das correias, filtros, caudal de ar (um ΔT do ar acima do normal indica pouco caudal), estado das baterias (fins amachucados), drenagem com sifão.
4.3 Split ar/ar
Duas unidades: a interior, com evaporador e ventilador, e a exterior, com compressor, condensador e válvula de expansão (ou capilar). Ligam-se por dois tubos de cobre isolados (um de líquido, mais fino, e um de aspiração, mais grosso), por um cabo de comando/alimentação e por uma tubagem de drenagem do condensado.
| Elemento | Função | O que o técnico verifica |
|---|---|---|
| Unidade interior | evaporador, ventilador, filtro, sonda | filtro limpo, bandeja sem sujidade, ventilador sem folga, sonda de ambiente |
| Unidade exterior | compressor, condensador, ventilador | grelhas desimpedidas, ruídos, vibrações, base nivelada |
| Tubo de líquido | leva líquido da exterior à interior | isolamento inteiro, sem estrangulamentos |
| Tubo de aspiração | traz vapor da interior à exterior | em arrefecimento deve estar frio e húmido ao toque |
| Drenagem | evacua o condensado | declive contínuo, sem contrapendente, a escoar |
| Cabo de ligação | alimenta e comunica | ligações apertadas e codificadas por cor/número |
Verificações de funcionamento (sem abrir o circuito): (1) arrancar em arrefecimento com o ponto de regulação a 17 °C; (2) esperar 10 a 15 minutos; (3) medir a temperatura do ar à entrada e à saída da unidade interior (diferencial de 8 a 12 K indica funcionamento normal, valor muito baixo sugere capacidade frigorífica baixa, por pouco fluido ou compressor fraco; valor muito alto sugere pouco caudal de ar, por filtro sujo ou ventilador com problema, porque a mesma potência frigorífica é entregue a menos ar); (4) medir a corrente da exterior e comparar com a chapa; (5) tocar no tubo de aspiração: frio e húmido é normal; (6) verificar que o condensado sai pela drenagem; (7) limpar filtros.
4.4 Multi-split
Uma só unidade exterior alimenta duas, três, quatro ou mais interiores, de potências diferentes. Cada interior tem a sua válvula de expansão eletrónica e o seu comando. A exterior ajusta a velocidade do compressor à procura somada. Vantagem: uma só exterior à fachada. Limites: a soma das potências interiores tem um intervalo admissível em relação à exterior, e o comprimento máximo das linhas está no manual. Algumas gamas obrigam todas as interiores a trabalhar no mesmo modo (todas a aquecer ou todas a arrefecer); a prioridade de modo está definida no manual.
4.5 Tipo VRF (fluxo de refrigerante variável)
Os sistemas VRF/VRV são multi-splits de grande escala. A unidade exterior varia a velocidade do compressor (inversor) e cada interior tem uma válvula de expansão eletrónica que regula o fluxo de fluido que lhe chega, em função da carga.
| Tipo | Tubagem | Característica |
|---|---|---|
| Bomba de calor (2 tubos) | todas as interiores no mesmo modo | mais simples, para edifícios com carga uniforme |
| Recuperação de calor (3 tubos ou 2 tubos com caixa de seleção) | interiores podem arrefecer e aquecer ao mesmo tempo | transfere calor de uma zona para outra; ideal para edifícios com zonas interiores e exteriores |
Verificações no arranque (feitas por quem tem a certificação): endereçamento das unidades, carga total de fluido registada, teste de estanquidade com azoto, vácuo, ensaio automático do fabricante. Nas aulas faz-se apenas a leitura dos parâmetros no comando e a interpretação de códigos de erro.
Exemplo resolvido · escolher entre split e multi-split
Um apartamento tem uma sala (2,5 kW de carga de arrefecimento), um quarto principal (1,8 kW) e um quarto de criança (1,5 kW). Que solução escolher?
- Soma das cargas: 2,5 + 1,8 + 1,5 = 5,8 kW.
- Três splits individuais: três unidades exteriores à fachada; custo e impacto visual maiores, instalação independente (se um avaria, os outros continuam).
- Um multi-split de três interiores com exterior de cerca de 6 a 7 kW: uma só exterior, menos furos e tubos, mas dependência de um único compressor.
- Decisão: se a fachada tem pouco espaço ou o condomínio limita unidades exteriores, multi-split; se os espaços são muito afastados e o orçamento é curto, splits individuais. O técnico regista a decisão e as distâncias.
5. Sistemas de arrefecimento indiretos
O princípio
Num sistema indireto, o fluido frigorigéneo arrefece um fluido secundário (normalmente água ou água com glicol) num equipamento central, o chiller, e esse fluido é distribuído pelo edifício até unidades terminais que arrefecem o ar: fan-coils, unidades de tratamento de ar (UTA), vigas frias.
Vantagens: o fluido frigorigéneo fica todo na sala do chiller (menos carga, menos fugas, menos regulamentação em cada espaço); permite distâncias grandes; permite regulação por zona. Inconvenientes: perdas de bombagem, necessidade de isolar bem a tubagem fria (condensação) e de proteger contra o gelo.
5.1 Chillers de compressão (geradores de água arrefecida)
Um chiller é uma máquina de refrigeração compacta que contém compressor, condensador, expansão e evaporador de placas ou de feixe tubular, onde o frigorigéneo arrefece a água.
| Tipo | Condensador | Aplicação |
|---|---|---|
| Arrefecido a ar | ventiladores, ar exterior | pequeno e médio edifício; mais comum |
| Arrefecido a água | circuito de água para torre de arrefecimento | grandes potências |
| Bomba de calor reversível ar/água | idem, com válvula de inversão | aquece e arrefece |
Condições nominais típicas de arrefecimento: água a 12 °C no retorno e 7 °C na ida (ΔT de 5 K). Estas condições são as mais usadas nas fichas técnicas, mas verifica-se sempre a ficha do equipamento.
Segurança do chiller: o fluxostato impede o arranque (e para o compressor) se não houver caudal de água no evaporador, para evitar o congelamento do evaporador e a rotura. O termostato antigelo protege contra temperatura de água demasiado baixa. O pressostato de alta e de baixa protegem o circuito frigorífico.
Exemplo resolvido · caudal de um chiller
Um chiller de 35 kW produz água a 7 °C e recebe-a a 12 °C. Que caudal tem de circular?
- ΔT = 5 K.
- V̇ = P / (0,001163 × ΔT) = 35 / (0,001163 × 5) = 35 / 0,005815 = 6 019 l/h, ou seja cerca de 6 m³/h.
Se ao medir o chiller em serviço o ΔT for de 3 K com o chiller a plena carga, o caudal é demasiado alto (a bomba sobredimensionada ou o equilíbrio errado). Se for de 9 K, o caudal é baixo (filtro sujo, ar, válvula fechada).
5.2 Sistemas a 2 tubos
Um único par de tubos, ida e retorno, serve todos os fan-coils. Em cada momento, a água que circula é fria ou quente, conforme a estação: o sistema funciona em arrefecimento no verão e em aquecimento no inverno, com mudança sazonal na central (inversão da bomba de calor ou comutação entre caldeira e chiller). Todas as zonas têm o mesmo modo ao mesmo tempo.
- Vantagem: instalação barata e simples.
- Limite: nas meias-estações, zonas diferentes podem pedir modos opostos (a zona sul quer frio, a zona norte quer calor) e o sistema não consegue servir ambos.
5.3 Sistemas a 4 tubos
Dois pares de tubos: um circuito de água fria e um circuito de água quente. Cada fan-coil tem duas baterias (ou uma bateria com válvulas de comutação), e escolhe qual usar. Permite que, no mesmo momento, uma zona arrefeça e outra aqueça. É mais caro e ocupa mais espaço, mas é o mais confortável em edifícios de escritórios e hotéis.
| Característica | 2 tubos | 4 tubos |
|---|---|---|
| Circuitos de água | 1 (fria ou quente) | 2 (frio e quente em simultâneo) |
| Tubagem | menos | quase o dobro |
| Fan-coil | 1 bateria | 2 baterias ou comutação |
| Zonas em modos opostos | não | sim |
| Custo de instalação | mais baixo | mais alto |
| Controlo de humidade e conforto | razoável | melhor |
O fan-coil na oficina
O fan-coil é o terminal mais comum. Compõe-se de ventilador (3 velocidades ou EC), bateria de água, filtro, bandeja de condensados, válvula de 2 ou 3 vias e termóstato.
Procedimento de verificação de um fan-coil: (1) cortar a alimentação e verificar a ausência de tensão; (2) retirar e limpar o filtro; (3) limpar a bandeja e a drenagem (despejar água e ver que sai); (4) verificar a válvula e o servomotor; (5) religar, selecionar a velocidade média e o ponto de regulação 5 K abaixo da temperatura ambiente; (6) esperar 10 minutos; (7) medir o ΔT da água (ida menos retorno, 4 a 6 K em condições normais) e o ΔT do ar; (8) verificar que não há gotejamento nas tubagens ou na bandeja.
6. Sistemas de aquecimento central: alta e baixa temperatura
Do que se trata
Um sistema de aquecimento central produz calor num ponto (caldeira, bomba de calor, aquecedor elétrico, permutador) e distribui-o por água quente até os emissores. O tipo de emissor determina a temperatura de ida a que o sistema pode trabalhar.
| Tipo de sistema | Temperatura de ida típica | Emissor | Tipo de gerador mais adequado |
|---|---|---|---|
| Alta temperatura | 70 a 80 °C | radiadores de aço ou ferro fundido, convectores | caldeira convencional |
| Média temperatura | 55 a 65 °C | radiadores dimensionados maiores, ventiloconvectores | caldeira de condensação, bomba de calor de alta temperatura |
| Baixa temperatura | 30 a 45 °C | piso radiante, parede radiante, teto radiante, ventiloconvectores grandes | caldeira de condensação, bomba de calor |
Estes valores são típicos de dimensionamento. Em obra, o projeto indica os valores. O princípio é: quanto mais baixa a temperatura de ida, maior o rendimento de uma caldeira de condensação ou de uma bomba de calor.
6.1 Aquecimento por radiadores (alta e média temperatura)
Radiadores ligados a uma caldeira ou a uma bomba de calor com ida a 70/55 °C ou 80/60 °C. Cada radiador tem uma válvula de regulação (termostática ou manual), um detentor de equilíbrio e um purgador no ponto alto.
6.2 Piso radiante (baixa temperatura)
O piso radiante usa tubos de plástico (PEX, PE-RT ou multicamada, em geral de 16 ou 17 mm), embebidos na betonilha sobre isolamento, por onde circula água a 30 a 45 °C. O pavimento aquece a baixa temperatura (a temperatura superficial máxima em zonas de permanência é limitada pelo projeto e pelo fabricante; em regra anda perto de 29 °C) e emite calor por radiação e convecção suave.
| Elemento | Função | Verificação de oficina |
|---|---|---|
| Isolamento térmico sob os tubos | evita perder calor para baixo | espessura e continuidade |
| Fita periférica | permite a dilatação da betonilha | sem pontes rígidas até à parede |
| Tubo | transporta a água | passo (distância) de 10 a 20 cm; comprimento por circuito em regra até cerca de 100 a 120 m; sem torções |
| Coletor de distribuição | liga cada circuito à ida e ao retorno | caudalímetros, válvulas de corte, purgador |
| Betonilha | difunde o calor | cura antes de aquecer, segundo o fabricante |
| Válvula misturadora ou grupo de regulação | baixa a temperatura de ida da caldeira | sonda de ida ajustada |
Procedimento de arranque de um piso radiante:
- Teste de pressão com água antes de a betonilha ser vertida (em regra a pressão indicada pelo fabricante, mantida durante o tempo prescrito) e mantida enquanto a betonilha é vertida.
- Esperar a cura da betonilha pelo prazo do fabricante.
- Aquecimento progressivo ("aquecimento funcional"): começar com uma temperatura de ida baixa (cerca de 20 a 25 °C), mantê-la alguns dias, subir por degraus e atingir o valor máximo de projeto, mantendo-o o tempo previsto; sem saltos bruscos, porque a betonilha fendilha.
- Purgar cada circuito e equilibrar com os caudalímetros do coletor.
Exemplo resolvido · caudal por circuito de piso radiante
Uma sala tem uma carga de aquecimento de 1,4 kW servida por um circuito de piso radiante, com ΔT de 6 K (ida 38 °C, retorno 32 °C). Que caudal deve mostrar o caudalímetro do coletor?
- V̇ = P / (0,001163 × ΔT) = 1,4 / (0,001163 × 6) = 1,4 / 0,006978.
- V̇ = 200,6 l/h, cerca de 3,3 l/min.
- Ajusta-se a válvula do coletor até o flutuador marcar 3,3 l/min.
Comparação entre alta e baixa temperatura
| Critério | Alta temperatura (radiadores) | Baixa temperatura (piso radiante) |
|---|---|---|
| Resposta térmica | rápida | lenta (inércia da betonilha) |
| Conforto | gradiente de temperatura maior | ar mais homogéneo, pés quentes |
| Rendimento do gerador | menor | maior (condensação, bomba de calor) |
| Obra | simples, adequada a reabilitação | exige obra de pavimento |
| Compatível com arrefecimento | não | possível, com cuidados de ponto de orvalho |
| Regulação | termostática por divisão | por zona; estratégia de inércia |
7. Equipamentos e componentes do aquecimento central
Cada componente tem uma função, uma forma de ser lido ou testado e um modo de falhar. Segue-se a lista do referencial, com a oficina em cada um.
7.1 Caldeira
Gera calor por combustão (gás, gasóleo, biomassa) ou resistência elétrica. A caldeira de condensação aproveita o calor latente do vapor de água dos gases de combustão: só condensa se a temperatura de retorno for suficientemente baixa (para gás natural, em regra abaixo de cerca de 55 °C). Acima disso funciona como uma caldeira convencional.
| Parâmetro | Como se mede | O que indica |
|---|---|---|
| Pressão do circuito | manómetro | fuga ou vaso com pré-carga errada |
| Temperatura de ida e retorno | sondas da caldeira, termómetro de contacto | modulação, rendimento |
| Análise de gases de combustão | analisador de combustão (CO₂ ou O₂, CO, temperatura dos gases) | qualidade da combustão; só por técnico credenciado |
| Tiragem, estanquidade da chaminé | verificação visual e instrumentos próprios | segurança, risco de monóxido de carbono |
A análise de combustão e o ajuste do queimador são feitos por técnico credenciado. Nas aulas lê-se o ecrã da caldeira e interpretam-se os valores.
7.2 Radiadores
Os radiadores (de aço, alumínio, ferro fundido) são dimensionados para uma potência a um regime de temperatura (por exemplo 70/50/20 °C: ida/retorno/ambiente). Se se baixar a temperatura de ida, a potência do radiador cai mais do que proporcionalmente, por isso a conversão para baixa temperatura exige emissores maiores.
Purgar um radiador: (1) desligar a bomba e esperar que a água pare; (2) abrir o purgador no ponto alto com a chave, com um pano por baixo; (3) deixar sair o ar até sair um fio contínuo de água; (4) fechar; (5) repor a pressão do circuito na caldeira; (6) religar e verificar que o radiador aquece por igual de cima a baixo.
7.3 Coletores
O coletor de distribuição divide o caudal por vários circuitos (radiadores ou piso radiante). Tem válvulas de corte, termómetros ou caudalímetros por circuito, purgador no topo e dreno na base. O técnico regula o caudal por circuito e verifica ausência de fugas.
Procedimento de equilíbrio por coletor: (1) calcular o caudal de cada circuito com V̇ = P / (0,001163 × ΔT); (2) abrir todos os caudalímetros e pôr a bomba na velocidade de projeto; (3) ajustar circuito a circuito, começando pelo mais desfavorecido e acabando no mais próximo da bomba; (4) dar uma segunda volta, porque cada ajuste altera os outros, e registar a posição final de cada válvula na ficha de colocação em serviço.
7.4 Termoacumulador
Reservatório isolado onde a água de AQS é aquecida e guardada. Os principais tipos são abordados no capítulo 11. Elementos: resistência elétrica ou serpentina, ânodo de magnésio, termóstato, grupo de segurança (válvula de segurança e válvula de retenção), isolamento.
7.5 Bombas de circulação
Já vistas no capítulo 2. Verificam-se: sentido do fluxo (seta no corpo), posição do veio na horizontal, purga do rotor (parafuso central), velocidade selecionada, ruído, pressão diferencial, consumo. Nunca trabalham em seco.
7.6 Válvulas
| Válvula | Função | Verificação |
|---|---|---|
| Corte (esfera) | isolar partes do circuito | abre e fecha sem esforço; sem fugas no veio |
| Retenção | impede o retorno do fluxo | bate "seco" quando fecha; sem passagem inversa |
| Segurança | abre a uma pressão de tarado para proteger o circuito | descarga encanada e visível; nunca bloquear |
| Misturadora de 3 vias | mistura ida e retorno para baixar a temperatura | servomotor, sonda de ida |
| Desviadora de 3 vias | desvia o caudal entre dois circuitos (aquecimento e AQS) | fim de curso, posição correta |
| De zona | liga ou corta um circuito | servomotor, ligação elétrica |
| Equilíbrio (detentor) | limita o caudal de um ramal | posição registada |
| Termostática de radiador | regula o caudal em função da temperatura ambiente | cabeça instalada na horizontal, sem estar tapada |
| Purgador automático | evacua o ar no ponto alto | tampa solta, válvula de isolamento aberta |
7.7 Termostatos
Dispositivos que ligam ou desligam um circuito ou um equipamento em função de uma temperatura.
- Termostato de ambiente: liga o aquecimento quando a temperatura da divisão desce abaixo do ponto de regulação menos metade do diferencial.
- Termostato de segurança (de contacto ou de imersão): corta o gerador se a temperatura de água excede o limite.
- Termostato de arranque da bomba (de contacto): arranca a bomba quando a tubagem aquece.
- Termostato antigelo: liga ou protege abaixo de uma temperatura mínima.
7.8 Fluxostatos
Contacto elétrico acionado por uma palheta que o caudal empurra. Garantem que há circulação antes de permitir o funcionamento do gerador (caldeira elétrica, chiller, bomba de calor ar/água). Teste: com o circuito em segurança, desligar a bomba e verificar que o contacto abre e a máquina para. Causas de falha: sujidade na palheta, ajuste de sensibilidade, ar no circuito.
7.9 Pressostatos
Interruptores acionados por pressão. Em circuitos de água, o pressostato de pressão mínima impede a caldeira de funcionar com pouca água. Nos circuitos frigoríficos, os pressostatos de alta (corta o compressor se a pressão de descarga for excessiva) e de baixa (corta se a aspiração for demasiado baixa) são dispositivos de segurança que só quem tem a certificação ajusta. O pressostato testa-se por simulação de pressão ou pela leitura do código de erro.
7.10 Vaso de expansão
Reservatório com membrana: de um lado a água do circuito, do outro azoto ou ar pré-comprimido. Absorve o aumento de volume da água quando aquece e devolve-o quando arrefece, mantendo a pressão do circuito dentro de limites.
Como verificar a pré-carga do vaso:
- Isolar o vaso do circuito (fechar a válvula de corte, se existir), com a instalação fria e o gerador desligado, e descarregar a água do lado da água do vaso até a pressão ser zero (o manómetro do circuito pode ficar a zero depois de isolar o vaso e abrir um dreno).
- Na válvula de ar (tipo Schrader) do vaso, ligar um manómetro de ar (como o de pneus, com resolução de 0,1 bar).
- Ler a pré-carga. Deve coincidir com o valor da chapa do vaso, em regra o valor de fábrica (por exemplo 1,0 bar para o vaso de pequena caldeira doméstica) ou o calculado pela altura estática.
- Se estiver baixa, encher com ar (bomba de pneus) ou azoto; se estiver alta, soltar um pouco.
- Fechar a válvula de ar com a tampa, reabrir a válvula de corte do vaso e repor a pressão do circuito.
Valor de referência para a pré-carga quando o manual não diz: aproximadamente a pressão estática no vaso (altura da instalação acima do vaso em metros dividida por 10) mais 0,2 a 0,3 bar, e a pressão de enchimento a frio cerca de 0,2 a 0,3 bar acima da pré-carga. O manual da caldeira prevalece.
Sintomas de um vaso com problema: pressão a subir muito quando aquece e a válvula de segurança a descarregar; pressão a descer a frio sem fuga aparente; água a sair pela válvula de ar do vaso (membrana rota).
Exemplo resolvido · dimensionar um vaso de expansão
Uma instalação tem 150 litros de água, enche a frio a 1,3 bar, funciona até 80 °C, a válvula de segurança está tarada a 3 bar, e o vaso tem pré-carga de 1,0 bar. Que volume mínimo de vaso é necessário?
- Aumento de volume da água de 20 a 80 °C: a densidade passa de 998,2 a 971,8 kg/m³, ou seja uma expansão de cerca de 2,7%.
- ΔV = 150 × 0,027 = 4,05 l.
- Pressões absolutas: pré-carga Pi = 1,0 + 1,013 ≈ 2,0 bar (abs); pressão final máxima Pf = 3 bar - 0,5 bar (margem para abertura da válvula) = 2,5 bar (relativa) = 3,5 bar (abs).
- O vaso útil é V = ΔV / (1 - Pi/Pf) = 4,05 / (1 - 2,0/3,5) = 4,05 / 0,4286 = 9,45 l.
- Escolhe-se o vaso comercial imediatamente acima, por exemplo 12 litros.
(A pressão de enchimento a frio de 1,3 bar fica acima da pré-carga de 1,0 bar, o que mantém a membrana encostada à água ao frio.)
7.11 Equipamento de medição e regulação
| Equipamento | Para que serve |
|---|---|
| Manómetro | pressão do circuito |
| Termómetro / termomanómetro | temperaturas de ida e retorno |
| Contador de energia térmica | mede caudal e ΔT e integra a energia entregue |
| Sonda exterior | alimenta a curva de aquecimento |
| Centralina de regulação | processa as sondas e comanda válvulas e bombas |
| Cronotermostato | programa horários e temperaturas |
8. Distribuição e emissão de calor nos espaços
Distribuição
A distribuição liga o gerador aos emissores.
| Esquema | Como funciona | Onde se usa |
|---|---|---|
| Bitubular com retorno direto | ida e retorno em tubos separados, cada emissor entre os dois | o mais usado em habitações |
| Bitubular com retorno invertido | o primeiro emissor da ida é o último do retorno, o que equilibra naturalmente | edifícios com muitos emissores |
| Monotubular (em série) | os radiadores ficam no mesmo anel | instalações antigas |
| Por colector | cada emissor tem o seu par de tubos desde o coletor | piso radiante, radiadores em multicamada |
Tubagem: cobre, aço, multicamada, PEX. Todos os troços de ida e retorno que passam por zonas não aquecidas levam isolamento térmico, com espessura conforme a regulamentação e o diâmetro do tubo.
Emissão
| Emissor | Posição ideal | Observação |
|---|---|---|
| Radiador | sob a janela | contrabalança a descida do ar frio |
| Convector | junto à fachada | resposta rápida |
| Ventiloconvector (fan-coil) | parede ou teto | serve frio e calor |
| Piso radiante | toda a área do pavimento | bom em espaços grandes e altos |
| Parede ou teto radiante | superfície disponível | temperatura de ida baixa |
| Toalheiro | casa de banho | AQS ou aquecimento |
Fatores que afetam a emissão: tapar o radiador com cortinas ou móveis, pintar com tinta metalizada, sujidade interior (lamas), ar na parte superior, caudal baixo. Um radiador "frio em cima e quente em baixo" tem ar; "quente em cima e frio em baixo" tem lamas.
9. Fatores que influenciam o rendimento do aquecimento central
O rendimento global de uma instalação não é o do gerador: é o de gerador, distribuição, emissão e regulação em conjunto.
| Fator | Efeito | Como atuar |
|---|---|---|
| Temperatura de retorno alta | caldeira de condensação não condensa | baixar a curva, emissores maiores, equilibrar |
| Sobredimensionamento do gerador | ciclos curtos, mais arranques, mais desgaste | escolher potência correta ou modulante |
| Isolamento da tubagem | perdas na distribuição | isolar troços em zonas não aquecidas |
| Equilíbrio hidráulico | uns quartos quentes demais, outros frios | regular detentores e caudalímetros |
| Regulação | aquece quando não é preciso | sonda exterior, termostatos, programação |
| Estado do circuito | lamas, calcário e ar reduzem a transferência | limpar, tratar, purgar |
| Manutenção do queimador | má combustão | análise e afinação periódicas |
| Isolamento do edifício | determina a carga térmica | janelas, paredes, cobertura |
| Hábitos de utilização | janelas abertas, setpoints altos | informar o utilizador |
Exemplo resolvido · efeito da temperatura de retorno
Uma caldeira de condensação foi instalada com radiadores 80/60 °C (retorno 60 °C). O cliente queixa-se de gastar tanto como antes. O que verificar?
- Retorno de 60 °C está acima do ponto de orvalho dos gases (cerca de 55 °C), logo a caldeira quase nunca condensa.
- Medir ida e retorno com o termómetro de contacto e confirmar.
- Soluções: ativar a curva climática com sonda exterior para baixar a ida nos dias amenos; equilibrar os radiadores para baixar o retorno; se possível, substituir os radiadores pequenos por maiores que funcionem a 60/45 °C.
- Resultado esperado: retorno abaixo de 55 °C na maior parte da estação e rendimento mais próximo do nominal de condensação.
10. Preparação de AQS: requisitos, energia útil e acumulação
Requisitos de um sistema de AQS
A água quente sanitária é a água potável aquecida para duche, lavatório, cozinha e limpeza. Um sistema de AQS tem de cumprir quatro grupos de requisitos.
| Requisito | O que significa na prática |
|---|---|
| Higiene e saúde | água potável; sem zonas estagnadas; evitar condições favoráveis à Legionella; materiais próprios para água de consumo |
| Segurança | proteção contra sobrepressão (válvula de segurança), contra sobreaquecimento (termostato de segurança) e contra queimaduras (misturadora termostática) |
| Conforto | temperatura estável no ponto de uso; tempo de espera curto até a água chegar quente (anel de recirculação em redes longas) |
| Eficiência | isolamento do acumulador e da rede, regulação, aproveitamento de energias renováveis, o que é verificado na regulamentação de desempenho energético dos edifícios |
Os valores regulamentares (por exemplo temperaturas mínimas de acumulação ou o contributo mínimo de renováveis) estão nos diplomas e portarias na redação em vigor e consultam-se na fonte oficial.
Cálculo da energia útil necessária
A energia útil para aquecer uma massa de água é a conhecida Q = m × c × ΔT. Para uma habitação, o cálculo faz-se com um consumo diário de referência por ocupante, uma temperatura de armazenamento e a temperatura da água fria da rede.
Neste manual usa-se, para exemplos, um consumo de 40 litros por pessoa e por dia a 60 °C, e água fria da rede a 15 °C. No projeto real, usa-se o valor e o método da regulamentação em vigor.
Exemplo resolvido · energia diária de uma habitação
Uma família de 4 pessoas. Qual a energia útil diária para AQS?
- Volume diário a 60 °C: 4 × 40 = 160 l, ou seja 160 kg.
- ΔT = 60 - 15 = 45 K.
- Q = 160 × 4,18 × 45 = 30 096 kJ.
- Em kWh: 30 096 / 3 600 = 8,36 kWh/dia.
- Por ano: 8,36 × 365 = 3 051 kWh/ano de energia útil, antes das perdas do acumulador e da rede.
Determinação de necessidades de acumulação
A acumulação serve para desfasar a produção do consumo: o gerador trabalha devagar, o consumo de ponta (de manhã e à noite) é intenso. O volume de acumulação depende do consumo de ponta, da potência do gerador e do tempo de reposição.
| Situação | Critério prático |
|---|---|
| Habitação com termoacumulador elétrico | volume próximo do consumo diário a 60 °C, com margem (160 l de consumo leva a 200 l, o tamanho comercial acima) |
| Habitação com caldeira e acumulador de serpentina | volume semelhante, mas a reposição é mais rápida pela potência da caldeira |
| Bomba de calor AQS | volume maior, porque a potência é baixa (resistência de apoio para picos) |
| Edifício de serviços ou residencial coletivo | cálculo por consumo de ponta de uma hora e simultaneidade |
Exemplo resolvido · volume do acumulador
Na habitação do exemplo anterior (160 l/dia a 60 °C), o acumulador de 200 l fica a trabalhar a 60 °C. A água de duche é misturada a 40 °C com água fria a 15 °C. Quanta água a 40 °C fornece um acumulador de 200 l a 60 °C?
- Fração de água quente na mistura: (40 - 15) / (60 - 15) = 25 / 45 = 0,556.
- Cada litro a 40 °C usa 0,556 l de água do acumulador.
- 200 l a 60 °C fornecem 200 / 0,556 = 360 l de água a 40 °C, sem contar com a reposição.
- Para 4 duches de 60 l cada (240 l a 40 °C), o consumo do acumulador é de 240 × 0,556 = 133 l, que cabe no acumulador de 200 l.
11. Sistemas de produção de AQS
11.1 Sistemas instantâneos
Aquecem a água no momento do uso, sem acumulação (ou com acumulação mínima). A água fria passa por um permutador aquecido pela chama ou pela resistência e sai quente.
Esquentador a gás. Liga-se quando abre a água quente (sensor de caudal) e a chama acende. A potência necessária depende do caudal e do ΔT.
Exemplo resolvido · potência de um esquentador
Um duche exige 8 l/min de água a 45 °C, com água fria a 15 °C. Que potência útil é necessária?
- Caudal: 8 l/min = 480 l/h.
- ΔT = 45 - 15 = 30 K.
- P = 0,001163 × 480 × 30 = 16,75 kW de potência útil.
- Um esquentador de "11 l/min" (aproximadamente 19 a 20 kW de potência nominal) satisfaz a necessidade; um de 6 l/min não.
Caldeira de aquecimento de águas diretas (caldeira mista). A mesma caldeira do aquecimento produz AQS instantânea através de um permutador de placas. A válvula desviadora dá prioridade à AQS. Requer caudal mínimo para arrancar e dá "bolsas" de água fria entre duches curtos.
Vantagens dos instantâneos: pouco espaço, sem perdas de armazenamento. Limites: caudal limitado pela potência, resposta lenta, dificuldade em servir vários pontos ao mesmo tempo.
Verificações de oficina: pressão e caudal de água fria à entrada, estado do filtro, temperatura de saída, a descarga dos gases (só por técnico credenciado).
11.2 Sistemas de acumulação
Aquecem a água e guardam-na num depósito isolado.
| Sistema | Fonte de calor | Característica |
|---|---|---|
| Termoacumulador elétrico | resistência elétrica | simples, perdas de acumulação, tempo de reposição longo |
| Caldeira a gás com acumulação | serpentina ligada à caldeira, ou acumulador separado | boa reposição, bom para vários pontos |
| Bomba de calor AQS | ciclo de refrigeração (ver capítulo 15) | COP de 2,5 a 4 em condições típicas, resistência de apoio |
Termoacumulador elétrico, componente a componente
| Componente | Função |
|---|---|
| Cuba (aço esmaltado ou inox) | guarda a água |
| Isolamento (poliuretano) | reduz as perdas térmicas |
| Resistência (blindada ou envolvente) | aquece a água |
| Termóstato | regula a temperatura, conforme o fabricante e a regulamentação em vigor |
| Termostato de segurança | corta a resistência (rearmável) |
| Ânodo de magnésio | proteção contra a corrosão; consome-se com o tempo |
| Grupo de segurança | válvula de retenção e válvula de segurança na entrada de água fria |
Instalação e manutenção na oficina:
- A válvula de segurança na entrada de água fria tem de ter descarga encanada para um ralo, com sifão aberto, sem torneira nem restrição. Pinga ao aquecer: é normal, devido à expansão.
- Instalar acumulador num local com suporte que aguente o peso cheio.
- Encher primeiro, ligar depois: abrir a água, abrir uma torneira de água quente até sair água sem ar e só então ligar a resistência. Ligar uma resistência sem água destrói-a.
- Verificar a temperatura de acumulação com termómetro de contacto no tubo de saída ao fim de 2 horas, e comparar com o valor regulado no termóstato e com o indicado no manual do aparelho; a temperatura mínima de armazenamento, quando aplicável, consulta-se na regulamentação em vigor.
- Inspecionar o ânodo periodicamente (em regra a cada 2 a 3 anos, conforme o fabricante e a dureza da água) e drenar o fundo para tirar calcário.
Bombas de calor AQS
Compactas: um acumulador com uma bomba de calor no topo. Retiram calor do ar (do local, do exterior por conduta ou de ar de extração), e transferem-no para a água. O COP de uma bomba de calor AQS é a relação entre a energia térmica entregue e a energia elétrica consumida. Para as condições do exemplo de 10,45 kWh que vimos no capítulo 1, com um COP de 3, o consumo elétrico é 10,45 / 3 = 3,5 kWh, contra 10,45 kWh de uma resistência.
Cuidados: a bomba de calor AQS arrefece o ar do local onde está; precisa de volume de ar suficiente ou de condutas; tem drenagem do condensado; para altas temperaturas (por exemplo ciclos anti-Legionella) recorre à resistência de apoio.
12. Sistemas solares térmicos
Princípio
Os coletores solares térmicos captam a radiação do sol e aquecem um fluido que transfere o calor para o acumulador de AQS. Contribuem para a produção de AQS, reduzindo o consumo de energia do sistema de apoio (resistência, caldeira, bomba de calor). O contributo de energia renovável para a AQS é considerado na regulamentação de desempenho energético dos edifícios, nas condições da redação em vigor.
Componentes
| Componente | Função | Verificação |
|---|---|---|
| Coletor (plano ou de tubos de vácuo) | absorve a radiação | vidro limpo, sem condensação interior |
| Estrutura e fixações | suporta o coletor ao vento | fixações apertadas e vedadas |
| Circuito primário | transporta o fluido (água com glicol) | pressão, concentração do glicol |
| Bomba solar | faz circular o fluido | sentido, ruído |
| Controlador diferencial | liga a bomba quando o coletor está mais quente que o acumulador | sondas, parâmetros |
| Acumulador solar com serpentina | recebe o calor | temperatura em cima e em baixo |
| Vaso de expansão solar | absorve a dilatação | pré-carga |
| Válvula de segurança | protege contra a sobrepressão | descarga encanada |
| Válvula misturadora termostática | protege contra queimaduras | temperatura de saída |
| Apoio | resistência ou caldeira | termóstato |
Circulação forçada e termossifão
- Termossifão: sem bomba; a água quente sobe naturalmente do coletor para um acumulador acima dele. Simples e robusto, usa-se em sistemas compactos de cobertura.
- Circulação forçada: bomba e controlador, acumulador em qualquer local. Permite ligar à rede de AQS de um edifício.
Regulação diferencial
O controlador mede a temperatura do coletor (Tc) e a do acumulador (Ta). Liga a bomba quando Tc - Ta ultrapassa um valor de ligação (em regra de 6 a 8 K) e desliga quando desce abaixo de um valor de desligação (cerca de 3 a 4 K). Há também uma temperatura máxima do acumulador, para evitar sobreaquecimento.
Estagnação e proteção
Num dia de sol, sem consumo e com o acumulador cheio, a bomba pára e o fluido no coletor atinge temperaturas muito altas e evapora: é a estagnação. O sistema deve ser dimensionado para aguentar isso: vaso de expansão com volume suficiente para a vaporização, glicol próprio para altas temperaturas, válvula de segurança com descarga encanada. No inverno, o glicol protege contra o gelo.
Exemplo resolvido · poupança estimada
Para a habitação de 4 pessoas (3 051 kWh/ano de energia útil, capítulo 10), um sistema solar bem dimensionado que cubra 60% da necessidade evita:
- 3 051 × 0,60 = 1 831 kWh/ano fornecidos pelo sol.
- Ao preço de 0,20 €/kWh do apoio elétrico: 1 831 × 0,20 = 366 €/ano.
(Os 60% são exemplo de cálculo; a fração solar de um projeto resulta de simulação, que depende de localização, orientação e inclinação.)
Verificação na oficina: (1) com o sol e o acumulador frio, verificar a bomba a arrancar; (2) comparar a temperatura de ida e retorno do coletor: o ΔT típico em funcionamento é de 8 a 15 K, para os caudais habituais de 30 a 50 l/(h·m²) de coletor; (3) verificar a pressão do circuito; (4) verificar a pré-carga do vaso; (5) verificar a misturadora termostática no ponto de uso.
13. Fluidos térmicos
Um fluido térmico é qualquer fluido usado para transportar ou transformar calor num sistema. Distinguem-se os fluidos secundários (água, água glicolada), que transportam calor sem mudar de estado, e os fluidos frigorigéneos, que mudam de estado no ciclo de compressão de vapor.
A água
Barata, não tóxica, calor específico elevado. Limitações: congela a 0 °C (e dilata ao congelar, rompendo tubos e permutadores), é corrosiva se tiver oxigénio dissolvido e deposita calcário se for dura.
Tratamento de circuitos fechados: encher com água de qualidade, em regra com inibidor de corrosão, e evitar entradas de ar. Em muitas regiões convém verificar a dureza da água antes de a pôr num circuito que trabalha a alta temperatura.
Água glicolada
Mistura de água com etilenoglicol ou propilenoglicol (mais seguro em aplicações em contacto com água potável), para baixar o ponto de congelação.
| Mistura de propilenoglicol (em volume) | Ponto de congelação aproximado |
|---|---|
| 20% de glicol | cerca de -8 °C |
| 30% | cerca de -14 °C |
| 40% | cerca de -22 °C |
(Valores aproximados, para concentrações em volume; seguir a ficha do fabricante do glicol, que também indica o inibidor e a temperatura máxima.)
Margem e limites da mistura: escolhe-se uma concentração cujo ponto de congelação fique com margem de segurança abaixo da temperatura mínima prevista no local, conforme a ficha técnica do fluido (o refratómetro lê o ponto de primeiros cristais, e os fluidos pré-misturados têm tolerância própria). Alguns fluidos solares não admitem diluição abaixo de 40% em volume; confirma-se na ficha do fabricante.
O glicol penaliza o circuito: menor calor específico, maior densidade e maior viscosidade. Em consequência, para a mesma potência exige mais caudal e mais potência de bombagem, e a perda de carga cresce, sobretudo a baixas temperaturas. O sistema tem de ser dimensionado para a mistura.
Medir a concentração: com um refratómetro de glicol (gota no vidro, leitura na escala) ou um densímetro. O ponto de congelação lê-se diretamente na escala do refratómetro, e o que se lê é o ponto de primeiros cristais, isto é, a temperatura a que começam a aparecer os primeiros cristais de gelo, não a de congelação total da mistura.
Exemplo resolvido · efeito do glicol no caudal
Um chiller de 35 kW com água a 7/12 °C precisa de 6 019 l/h (capítulo 5). Com 30% de propilenoglicol em volume, o calor específico baixa cerca de 8% (aprox. 3,85 kJ/kg·K). Que caudal passa a ser preciso, aproximadamente?
- O caudal necessário é inversamente proporcional ao calor específico (e à densidade, que sobe ligeiramente).
- 6 019 × (4,18 / 3,85) ≈ 6 019 × 1,086 = 6 535 l/h, cerca de 9% a mais, desprezando a diferença de densidade.
- A bomba tem de ser verificada para esse caudal e para a perda de carga maior da mistura.
Para um fluido que não é água, a potência calcula-se com a densidade e o calor específico da mistura: P (kW) = V̇ (l/h) × ρ (kg/l) × c (kJ/kg·K) × ΔT (K) / 3 600. Com 300 l/h de uma mistura com ρ = 1,03 kg/l e c = 3,70 kJ/kg·K e ΔT de 12 K: P = 300 × 1,03 × 3,70 × 12 / 3 600 = 3,81 kW, contra 4,18 kW do mesmo caudal de água pura.
Fluidos frigorigéneos
São o fluido do ciclo de compressão de vapor. Nas bombas de calor, nos chillers e nos splits, o frigorigéneo evapora a baixa pressão (absorvendo calor) e condensa a alta pressão (libertando-o). Características desejáveis: boa transferência de calor, pressões de trabalho moderadas, compatibilidade com o óleo e os materiais, segurança e baixo impacto ambiental.
- Cada fluido tem uma designação (a letra R seguida de número), uma classe de segurança (toxicidade e inflamabilidade) e um potencial de aquecimento global (GWP). Estes dados estão na chapa do equipamento, no recipiente do fluido e na ficha de segurança. Não se misturam fluidos e não se completa uma carga com um fluido diferente do da chapa.
- Os fluidos de baixo GWP em uso crescente são, em regra, inflamáveis em algum grau, o que obriga a regras de instalação, carga máxima por espaço, ventilação e cuidados com fontes de ignição, definidas na norma de segurança e na regulamentação em vigor.
- Tubos e peças em circuitos de frigorigéneo seguem as especificações do fabricante (cobre de qualidade frigorífica desidratado, pressão máxima).
Outros fluidos
| Fluido | Uso |
|---|---|
| Vapor de água | aquecimento industrial, esterilização |
| Óleo térmico | processos a alta temperatura |
| Ar | transporte de calor em sistemas todo-ar |
| Gases de combustão | trocam calor na caldeira |
14. Regulação e controlo
Para que serve
A regulação mantém uma grandeza (temperatura ambiente, temperatura de ida, caudal) próxima de um valor pretendido. O controlo automatiza a operação: horários, prioridades, proteções. Um bom sistema regulado gasta menos energia e dá mais conforto.
Tipos de ação
| Tipo | Como funciona | Exemplo |
|---|---|---|
| Tudo ou nada (on/off) | liga ou desliga ao atingir o ponto de regulação, com diferencial (histerese) | termostato de ambiente simples, termóstato de acumulador |
| Modulante | ajusta continuamente a potência ou a abertura | caldeira modulante, válvula misturadora, compressor inversor |
| Proporcional (P) | a saída é proporcional ao desvio | válvula termostática de radiador |
| PI / PID | considera também o desvio acumulado e a sua evolução | centralinas de caldeira e de bomba de calor |
| Climática (compensação pela temperatura exterior) | a temperatura de ida depende da temperatura exterior | caldeiras, bombas de calor ar/água |
Termostato de ambiente: como se afina
O termostato mede a temperatura ambiente e compara-a com o ponto de regulação.
Histerese (diferencial). Um termostato on/off com ponto de regulação a 21 °C e diferencial de 1 K liga a 20,5 °C e desliga a 21,5 °C. Diferencial demasiado estreito produz ciclos curtos, demasiado largo produz variações sentidas.
Procedimento de afinação e verificação:
- Localização: parede interior, a 1,5 m do chão, longe de janelas, radiadores, luz solar e correntes de ar. Uma má localização é a causa de metade das queixas.
- Ponto de regulação: colocar a 20 °C como valor de referência e não a 25 °C "para aquecer mais depressa" (o aquecimento não é mais rápido, só passa a temperatura desejada).
- Verificar a leitura com um termómetro de referência colocado ao lado do sensor durante 15 minutos; se diferir mais de 0,5 K, aplicar a correção (offset) prevista no menu.
- Programação: definir períodos (conforto e redução), com redução de cerca de 3 a 4 K à noite e quando não há ninguém.
- Ensaio: subir o ponto de regulação e ver o contacto fechar; baixá-lo e ver abrir.
Válvulas termostáticas de radiador
A cabeça termostática (com elemento de cera ou líquido) fecha a válvula quando a temperatura ambiente sobe. Os números da cabeça correspondem a temperaturas ambiente aproximadas (a posição intermédia anda em regra à volta de 20 °C, mas varia por fabricante). Instala-se na horizontal, longe de corrente de ar, e nunca num radiador onde o termostato de ambiente já comanda a caldeira sem uma válvula de bypass ou de pressão diferencial.
Curva de aquecimento (regulação climática)
A curva de aquecimento relaciona a temperatura de ida com a temperatura exterior: quanto mais frio lá fora, mais quente a água de ida. É definida por dois parâmetros principais:
- o declive (ou "inclinação"): quantos kelvin sobe a ida por cada kelvin que o exterior desce;
- o deslocamento paralelo (ou "offset"): sobe ou desce a curva toda.
A diferença prática está em onde cada um atua. Como a curva roda em torno do ponto de 20 °C exterior (onde a ida é a mínima), mudar o declive altera sobretudo a ida nos dias muito frios e quase nada nos dias amenos. Mudar o paralelo soma ou subtrai os mesmos kelvin à ida em todas as temperaturas exteriores.
Exemplo resolvido · construir uma curva e afiná-la
Num piso radiante pretende-se ida de 25 °C com exterior a 20 °C e 50 °C com exterior a -5 °C (aproximação linear).
- Declive: (50 - 25) / (20 - (-5)) = 25 / 25 = 1 K por K.
- Para exterior a 5 °C: ida = 25 + (20 - 5) × 1 = 40 °C.
- Para exterior a 12 °C: ida = 25 + (20 - 12) × 1 = 33 °C.
Afinação na prática (os efeitos só se veem em dias, por inércia do piso, por isso muda-se um parâmetro de cada vez e espera-se 24 a 48 horas):
| Queixa do utilizador | Diagnóstico | Ação |
|---|---|---|
| Frio nos dias muito frios, bem nos dias amenos | declive baixo | subir o declive |
| Calor nos dias muito frios, bem nos dias amenos | declive alto | baixar o declive |
| Calor nos dias amenos, bem nos dias frios | curva alta no extremo ameno | baixar o paralelo e subir o declive |
| Frio sempre, mesmo em tempo ameno | curva toda baixa | subir o paralelo |
| Calor sempre | curva toda alta | baixar o paralelo |
| Oscilações de temperatura | regulação demasiado agressiva ou termostatos a mais | rever parâmetros, usar a sonda de ambiente com peso baixo |
Proteções e segurança
| Proteção | Função | Teste |
|---|---|---|
| Termostato antigelo | liga a bomba ou o gerador abaixo de uma temperatura | simular com sonda a baixa temperatura |
| Termostato de segurança | corta o gerador acima do limite | verificar o rearme |
| Fluxostato | impede funcionamento sem caudal | simular a falta de caudal |
| Pressostato de água | impede funcionamento com pressão baixa | leitura e simulação |
| Válvula de segurança | alivia sobrepressão | levantar a alavanca (com cuidado: água quente) e ver descarregar |
Controlo em sistemas de arrefecimento
Em chillers e fan-coils: setpoint de água arrefecida (7 °C ou, com compensação, mais alto com menos carga), controlo de capacidade do compressor (por estágios ou inversor), válvulas de duas ou três vias nos fan-coils, termóstato de ambiente com velocidades do ventilador. Em VRF e multi-split, o controlo faz-se por comando individual, comando central e supervisão (BMS), com horários e limites de setpoint.
15. O ciclo de compressão de vapor e a bomba de calor com inversão de ciclo
O ciclo básico
O ciclo de refrigeração por compressão de vapor tem quatro componentes principais e quatro transformações.
| Componente | O que faz ao fluido | Estado à saída |
|---|---|---|
| Evaporador | o fluido absorve calor e evapora a baixa pressão | vapor (ligeiramente sobreaquecido) |
| Compressor | aumenta a pressão e a temperatura do vapor | vapor quente a alta pressão |
| Condensador | o fluido cede calor e condensa a alta pressão | líquido (ligeiramente subarrefecido) |
| Dispositivo de expansão | baixa a pressão do líquido | mistura de líquido e vapor frio |
O fluido absorve calor onde o ciclo o evapora e liberta-o onde o ciclo o condensa. Num aparelho de arrefecimento, interessa o evaporador (que arrefece o espaço) e o calor é rejeitado no condensador, no exterior. Numa bomba de calor, interessa o condensador (que aquece o espaço) e o evaporador retira calor ao ar exterior, à água ou ao solo.
Sobreaquecimento e subarrefecimento
- Sobreaquecimento = temperatura medida no tubo de aspiração menos a temperatura de evaporação (lida na escala do manómetro de baixa pressão). Valores típicos de funcionamento: 5 a 8 K, mas o manual manda.
- Subarrefecimento = temperatura de condensação (lida no manómetro de alta) menos a temperatura medida no tubo de líquido. Valores típicos: 4 a 8 K.
Estas medições fazem-se com manómetros de refrigeração e pinças de temperatura e só por técnico certificado. Nas aulas, interpretam-se tabelas de valores medidos pelo professor.
O COP
O COP (coeficiente de desempenho) de uma bomba de calor em aquecimento é a relação entre o calor entregue e a energia elétrica consumida: COP = Q útil / W elétrico. Um COP de 4 significa que por cada 1 kWh elétrico se entregam 4 kWh de calor, 3 dos quais vêm do ambiente exterior. O COP baixa quando a diferença entre a temperatura de origem e a de destino aumenta: uma bomba ar/água entrega mais eficientemente a 35 °C (piso radiante) do que a 55 °C (radiadores) e quando o exterior está a 7 °C do que a -5 °C.
Inversão de ciclo: a válvula de 4 vias
Uma bomba de calor reversível pode trabalhar em arrefecimento ou em aquecimento porque tem uma válvula de 4 vias que troca as funções das duas baterias. O fluido circula no mesmo sentido pelo compressor (sempre aspira pelo mesmo tubo e descarrega pelo outro); o que se inverte é o sentido do fluido nas baterias interior e exterior.
A válvula tem quatro ligações:
- D: descarga do compressor (sempre vapor quente, alta pressão);
- S: aspiração do compressor (sempre vapor frio, baixa pressão);
- E: bateria interior;
- C: bateria exterior.
(Algumas marcações usam outras letras; a lógica é a mesma, o manual do fabricante identifica as ligações.)
| Modo | Descarga (D) vai para | Bateria exterior | Bateria interior | Aspiração (S) vem de |
|---|---|---|---|---|
| Arrefecimento | bateria exterior (C) | condensador | evaporador | bateria interior (E) |
| Aquecimento | bateria interior (E) | evaporador | condensador | bateria exterior (C) |
Dentro da válvula há um êmbolo deslizante que liga D a uma das baterias e liga a outra a S. É deslocado pela diferença de pressão, comandada por uma pequena válvula piloto com bobina. Em alguns fabricantes a bobina está alimentada em aquecimento, noutros em arrefecimento; vê-se no esquema elétrico do aparelho.
Verificação da válvula de 4 vias (por fora)
- Com o aparelho em arrefecimento: o tubo D (descarga) está quente, o tubo S (aspiração) está frio, a bateria interior fria, a exterior quente.
- Mudar para aquecimento: ouve-se uma "pancada" suave (o êmbolo desloca-se) e os papéis trocam-se; a interior aquece e a exterior fica fria.
- Defeitos típicos:
- bobina sem tensão (medir com multímetro, verificar a ligação): a válvula não muda;
- êmbolo preso a meio: as duas baterias ficam mornas, o aparelho rende pouco nos dois modos;
- passagem interna (fuga entre D e S): o tubo S está mais quente do que devia, o rendimento cai; o corpo da válvula fica com temperatura demasiado uniforme.
- A substituição de uma válvula de 4 vias é uma intervenção no circuito frigorífico, feita por quem tem a certificação.
Degelo
Em aquecimento com ar exterior frio e húmido, o evaporador (exterior) forma gelo, que reduz o caudal de ar e o rendimento. O aparelho faz um degelo: inverte o ciclo para modo de arrefecimento durante alguns minutos, enviando gás quente ao exterior, e para o ventilador interior (ou usa resistência de apoio) para não soprar ar frio. É normal ver vapor sair da unidade exterior e ouvir a válvula; o condensado resultante tem de ter drenagem que não congele.
Exemplo resolvido · COP e poupança
Uma bomba de calor entrega 12 kWh de calor durante uma hora, consumindo 3 kWh elétricos. Qual o COP e quanto calor vem do exterior?
- COP = 12 / 3 = 4.
- Calor retirado do ambiente exterior = 12 - 3 = 9 kWh (em termos de balanço ideal).
- Uma resistência elétrica para entregar os mesmos 12 kWh consumiria 12 kWh, o quádruplo.
16. Procedimentos de oficina: encher, purgar, ensaiar e entregar
Este capítulo reúne a sequência de trabalho que o técnico segue num circuito hidráulico de aquecimento ou arrefecimento, com os critérios de aceitação.
16.1 Antes de começar
- Ler o esquema e o manual do equipamento.
- Desligar, bloquear e sinalizar a alimentação elétrica; verificar ausência de tensão.
- Equipamento de proteção individual: luvas, óculos, calçado de segurança; luvas térmicas para trabalhos com água quente.
- Material à mão: mangueiras, chaves, manómetro, termómetros, purgador, balde, panos, multímetro.
16.2 Lavagem, enchimento e purga
- Fechar o dreno do ponto baixo e a válvula de enchimento, e confirmar que as válvulas de corte dos ramais estão abertas.
- Lavar o circuito novo com água para retirar fluxo de soldadura, limalhas e sujidade (em instalações antigas, pode ser necessária uma lavagem química).
- Encher lentamente pela torneira de enchimento ao ponto mais baixo, com os purgadores dos pontos altos abertos.
- Purgar cada ponto alto (radiadores, coletores, bombas) por ordem do mais baixo para o mais alto, até sair um fio contínuo de água.
- Subir a pressão ao valor de enchimento a frio (por exemplo 1,3 bar numa habitação, conforme o manual).
- Ligar a bomba em baixa velocidade, purgar de novo (a circulação arrasta bolhas), e repor a pressão.
- Aquecer o circuito até à temperatura de serviço, purgar quando estiver quente e repor a pressão de novo.
16.3 Ensaio de estanquidade
- Com o circuito cheio e purgado, fechar a válvula de enchimento.
- Subir a pressão ao valor de ensaio definido no projeto ou no manual (acima da pressão de serviço, sempre abaixo da pressão máxima do componente mais fraco, nomeadamente da válvula de segurança e dos radiadores).
- Manter durante o tempo prescrito (o projeto indica; um ensaio de verificação rápida faz-se durante 30 minutos a 1 hora).
- Critério de aceitação: nenhuma queda de pressão que não seja explicável por variação de temperatura, e nenhuma fuga visível.
- Baixar a pressão ao valor de serviço, registar.
16.4 Colocação em serviço e medições
| Verificação | Valor ou critério |
|---|---|
| Pressão a frio | dentro da zona indicada pelo manual |
| Pressão a quente | abaixo da pressão de abertura da válvula de segurança, com a subida compatível com o vaso |
| Pré-carga do vaso | conforme a chapa do vaso |
| Sentido e ruído da bomba | sem cavitação, setas corretas |
| ΔT ida/retorno | conforme o projeto (por exemplo 15 K em radiadores a 70/55 e 20 K a 80/60; 5-8 K em piso radiante) |
| Radiadores | todos aquecem por igual, sem ar |
| Caudalímetros do coletor | valor de projeto de cada circuito |
| Termostatos e sondas | leituras corretas, resposta ao ensaio |
| Proteções | simuladas e a atuar |
| Válvula de segurança | descarga encanada e livre |
16.5 Entrega ao cliente
- Explicar o uso do termostato, da programação e da pressão a frio.
- Entregar manual e esquema.
- Registar na ficha de colocação em serviço os valores medidos, a data e o nome de quem interveio.
- Indicar a manutenção periódica necessária e o contacto do técnico.
Exemplo resolvido · diagnóstico "o radiador de cima está frio"
O radiador do 1.º andar fica frio na parte de cima e quente em baixo; o do rés-do-chão aquece. O que fazer?
- Sintoma "frio em cima, quente em baixo" indica ar.
- Purgar o radiador (7.2), repondo depois a pressão na caldeira.
- Se o ar voltar em poucos dias, há entrada de ar no circuito: pré-carga do vaso errada, pressão a frio demasiado baixa, purgador automático com fuga, bomba aspirando ar; verificar cada um.
- Se purgado e com pressão certa continua frio, verificar a válvula do radiador (cabeça presa, detentor fechado) e o equilíbrio do ramal.
17. Complementaridade entre sistemas de aquecimento
Nenhum sistema resolve tudo. Os sistemas de aquecimento e de AQS combinam-se para tirar partido do melhor de cada um.
| Combinação | Como se complementam | Cuidados |
|---|---|---|
| Caldeira + solar térmico | o sol produz AQS no verão, a caldeira cobre o resto | prioridade ao solar, apoio em segundo |
| Bomba de calor + caldeira (híbrido) | a bomba de calor trabalha quando o exterior é ameno; a caldeira entra no frio extremo | ponto de comutação e regulação |
| Bomba de calor + resistência de apoio | a resistência cobre picos e ciclos de desinfeção | resistência só quando necessário, para não gastar |
| Radiadores no 1.º piso + piso radiante no rés-do-chão | cada zona com o emissor mais adequado | duas temperaturas de ida: misturadora |
| Piso radiante + convector/fan-coil | piso mantém a base, o fan-coil dá resposta rápida e arrefecimento | evitar sobreposição de comandos |
| Recuperador de lenha/pellets + caldeira | calor de biomassa com acumulador ligado à rede | sistema de segurança (válvula de descarga térmica) |
| Chiller reversível + caldeira (2 ou 4 tubos) | frio no verão, calor no inverno | comutação sazonal |
Exemplo resolvido · escolher o apoio para uma moradia
Uma moradia nova tem piso radiante, 4 pessoas e telhado orientado a sul. Propõe-se uma bomba de calor ar/água com acumulador de AQS. Que complementos poderiam fazer sentido?
- Solar térmico de 2 coletores para AQS, que reduz o tempo em que a bomba de calor aquece o acumulador (reduz o consumo elétrico em cerca de metade na estação quente, segundo a fração solar do projeto).
- Resistência de apoio de poucos kW no acumulador, para ciclos de desinfeção térmica e picos.
- Lareira ou recuperador opcional como reforço nos dias muito frios, com o seu circuito separado ou integrado por um acumulador-tampão.
- Regulação: sonda exterior e curva climática com ida baixa (35 a 40 °C) para manter o COP elevado.
A regra é usar a fonte mais eficiente primeiro e a mais potente só quando for preciso, com a regulação a decidir a prioridade.
Erros comuns
- Confundir calor com temperatura.
- Usar °C em vez de K nas diferenças de temperatura, ou misturar kW com kWh.
- Não purgar depois de encher, ou purgar só uma vez e não repetir com o circuito quente.
- Encher o circuito sem lavar e deixar fluxo de soldadura e limalhas.
- Não verificar a pré-carga do vaso de expansão ao instalar, ou medi-la com a água do vaso ainda pressurizada.
- Ligar a resistência de um termoacumulador antes de o encher.
- Bloquear ou restringir a descarga da válvula de segurança.
- Pôr radiadores a trabalhar com retorno alto numa caldeira de condensação e esperar poupança.
- Pôr o termostato junto a uma janela, um radiador ou à luz do sol.
- Subir o ponto de regulação do termostato "para aquecer mais depressa".
- Alterar vários parâmetros da curva de aquecimento de uma vez, sem esperar 24 a 48 horas.
- Medir temperaturas de tubo sem limpar a superfície e sem isolar a sonda.
- Esquecer que o glicol muda o caudal e a perda de carga e dimensionar a bomba para água pura.
- Ligar um chiller sem caudal de água (sem testar o fluxostato).
- Isolar mal a tubagem de água fria e ter condensação.
- Misturar fluidos frigorigéneos ou carregar um fluido que não é o da chapa.
- Abrir um circuito frigorífico sem certificação.
- Confundir os dois sentidos da válvula de 4 vias: a descarga do compressor vai sempre para o condensador do modo, seja o exterior (arrefecimento) ou o interior (aquecimento).
- Medir ou citar de memória temperaturas e prazos legais de AQS e de Legionella em vez de consultar a portaria e o despacho em vigor.
- Não desligar, bloquear e verificar a ausência de tensão antes de intervir.
Glossário
- AQS: água quente sanitária, água potável aquecida para uso doméstico e comercial.
- Altura manométrica: pressão fornecida por uma bomba, expressa em metros de coluna de água.
- Bomba de calor: equipamento que transfere calor de uma fonte fria para um destino quente com um ciclo de compressão de vapor.
- Calor latente: calor trocado durante uma mudança de estado, sem variação de temperatura.
- Calor sensível: calor trocado com variação de temperatura.
- Caudal: volume de fluido que passa numa secção por unidade de tempo.
- Chiller: gerador de água arrefecida por compressão de vapor.
- COP: coeficiente de desempenho, relação entre o calor útil entregue e a energia elétrica consumida.
- Curva de aquecimento: relação entre a temperatura de ida e a temperatura exterior.
- Degelo: inversão temporária do ciclo para eliminar o gelo da bateria exterior.
- Detentor: válvula de regulação de caudal de um radiador.
- Expansão direta: sistema em que o fluido frigorigéneo arrefece diretamente o ar do espaço.
- Fan-coil: ventiloconvector, terminal com bateria de água e ventilador.
- Fluxostato: interruptor acionado pelo caudal de um fluido.
- GWP: potencial de aquecimento global de um gás.
- Histerese: diferencial entre a temperatura de ligação e de desligação de um termostato.
- Perda de carga: pressão perdida por atrito num circuito.
- Pré-carga: pressão de gás do lado seco de um vaso de expansão.
- Pressostato: interruptor acionado por pressão.
- Purga: remoção do ar de um circuito hidráulico.
- SCE: Sistema de Certificação Energética dos Edifícios.
- Sobreaquecimento: temperatura do vapor acima da temperatura de evaporação, medida à saída do evaporador.
- Subarrefecimento: temperatura do líquido abaixo da temperatura de condensação.
- Termoacumulador: depósito isolado com aquecimento para guardar AQS.
- Válvula de 4 vias: válvula que inverte o sentido do fluido nas baterias de uma bomba de calor reversível.
- VRF: sistema de fluxo de refrigerante variável, multi-split de grande dimensão.
- Vaso de expansão: reservatório de membrana que absorve a dilatação da água.
Síntese
Os fundamentos são o calor sensível (Q = m × c × ΔT), a potência por caudal (P = 0,001163 × V̇ × ΔT) e a hidráulica de circuitos fechados (pressão, caudal, perda de carga, ponto de funcionamento da bomba, equilíbrio). O enquadramento regulamentar reparte-se por várias áreas (desempenho energético e SCE, gases fluorados, Legionella, gás, eletricidade, equipamentos sob pressão) e consulta-se sempre na redação em vigor. Os sistemas de arrefecimento são de expansão direta (unidades autónomas, compactas, split, multi-split, VRF) ou indiretos (chillers com fan-coils a 2 ou 4 tubos). Os sistemas de aquecimento distinguem-se por alta e baixa temperatura (radiadores, piso radiante) e têm componentes que o técnico lê e testa: caldeira, radiadores, coletores, termoacumulador, bombas, válvulas, termostatos, fluxostatos, pressostatos, vaso de expansão. O rendimento depende do gerador, da distribuição, da emissão e da regulação. A AQS calcula-se pela energia útil e pela acumulação, produz-se de forma instantânea ou com acumulação e pode ser apoiada pelo solar térmico. Os fluidos térmicos são a água, a água glicolada e os frigorigéneos, cada um com cuidados próprios. A regulação usa tudo ou nada, modulação e curvas climáticas. O ciclo de compressão de vapor da bomba de calor inverte-se pela válvula de 4 vias, com a descarga sempre a ir para o condensador do modo. Os procedimentos (lavar, encher, purgar, ensaiar, medir, registar) e a complementaridade entre sistemas fecham o trabalho, sempre com segurança elétrica, térmica e de pressão.
Exercícios resolvidos
1. Quanta energia é precisa para aquecer 300 l de água de 12 °C a 55 °C? Em kWh.
Resolução: m = 300 kg; ΔT = 43 K; Q = 300 × 4,18 × 43 = 53 922 kJ; 53 922 / 3 600 = 14,98 kWh, cerca de 15 kWh.
2. Um circuito de piso radiante tem ida 40 °C, retorno 34 °C e caudal 270 l/h. Que potência entrega?
Resolução: ΔT = 6 K; P = 0,001163 × 270 × 6 = 1,88 kW.
3. Quanto vale a velocidade da água num tubo de diâmetro interior 16 mm com 0,3 m³/h?
Resolução: Q = 0,3 / 3 600 = 8,33 × 10⁻⁵ m³/s; A = π × 0,008² = 2,01 × 10⁻⁴ m²; v = 8,33 × 10⁻⁵ / 2,01 × 10⁻⁴ = 0,41 m/s.
4. Um fan-coil de 3 kW com ΔT de água de 5 K. Que caudal?
Resolução: V̇ = 3 / (0,001163 × 5) = 3 / 0,005815 = 516 l/h.
5. Calcula o volume mínimo de um vaso de expansão: instalação com 100 l, expansão de 2,7%, pré-carga 1,0 bar, pressão final máxima 2,5 bar (relativa).
Resolução: ΔV = 2,7 l; Pi = 2,0 bar abs; Pf = 3,5 bar abs; V = 2,7 / (1 - 2,0/3,5) = 2,7 / 0,4286 = 6,3 l; escolhe-se um vaso de 8 l.
6. Um esquentador tem de fornecer 10 l/min a 40 °C, com água fria a 14 °C. Qual a potência útil?
Resolução: 600 l/h; ΔT = 26 K; P = 0,001163 × 600 × 26 = 18,1 kW.
7. Uma bomba de calor entrega 9 kWh consumindo 2,5 kWh elétricos. Qual o COP?
Resolução: COP = 9 / 2,5 = 3,6.
8. Numa bomba de calor reversível em aquecimento, por que lado passa o gás quente da descarga?
Resolução: A descarga (D) é ligada, pela válvula de 4 vias, à bateria interior, que passa a ser o condensador. A bateria exterior é o evaporador e liga à aspiração (S).
9. Uma curva climática liga ida 28 °C com exterior a 20 °C e 52 °C com exterior a -4 °C. Qual a ida com exterior a 8 °C?
Resolução: declive = (52 - 28) / (20 - (-4)) = 24 / 24 = 1; ida = 28 + (20 - 8) × 1 = 40 °C.
10. Um radiador está frio em cima e quente em baixo. Causa e solução?
Resolução: Ar acumulado. Purgar o radiador, repor a pressão do circuito e, se o ar voltar, procurar a entrada de ar (vaso, pressão baixa, purgador).