Mini-Projecto · Uma fornada real, do diagnóstico à entrega
Contexto
O Atelier Barro Vivo recebeu uma encomenda de um pequeno grupo de artesãos residentes: peças em diferentes estados, algumas cruas e prontas para a primeira cozedura, outras já biscoitadas e decoradas com vidrado. O atelier confiou-te a responsabilidade completa desta produção: desde confirmar se cada peça está pronta, até entregar as peças cozidas, inspecionadas e prontas a devolver aos artesãos.
Como as peças estão em ciclos diferentes, e ciclos diferentes não se misturam na mesma programação de forno, vais planear duas fornadas separadas: uma de chacota (biscoito), só com as peças cruas, e uma de vidrado, só com as peças já biscoitadas e decoradas.
Trabalhas individualmente ou em pequeno grupo, na área dos fornos do atelier, com as peças, o mobiliário de enforna disponível e o Equipamento de Proteção Individual (EPI) da oficina. O resultado final inclui as duas fornadas cozidas e um pequeno relatório do processo. Uma cozedura real demora entre 8 a 12 horas a subir até à temperatura final, mais um arrefecimento de várias horas ou de uma noite inteira dentro do forno fechado: esse tempo decorre sempre fora da aula, com o forno a trabalhar sozinho, e é isso que separa as fases feitas em aula das fases que só se retomam na aula seguinte.
Requisitos
Funcionais
- Classificar cada peça da encomenda (crua/seca, decorada com engobe, vidrada, ou já biscoitada), confirmar que está pronta para a cozedura correspondente e separá-la na fornada certa.
- Planear duas fornadas separadas, uma de chacota e uma de vidrado, sem misturar peças de ciclos diferentes na mesma programação.
- Escolher o tipo de forno disponível e justificar a escolha para cada fornada.
- Preparar o mobiliário de enforna (placas, suportes, espaçadores, trempes conforme necessário) e verificar o seu estado.
- Posicionar as peças de cada fornada no forno, respeitando a circulação do calor e a distância de segurança entre peças vidradas.
- Programar cada fornada: definir temperatura final, tempo e velocidade de aquecimento, considerando pasta, espessura, acabamento e o ciclo dessa fornada (chacota ou vidrado).
- Acompanhar cada cozedura, registando as etapas (pré-aquecimento, aquecimento, patamar) e o controlo de temperatura ao longo do processo.
- Arrefecer e desenfornar cada fornada com segurança, usando EPI e a técnica correta, pela ordem inversa da enforna.
- Controlar a qualidade de cada peça à saída de cada fornada, identificando defeitos (se existirem) e as respetivas causas prováveis.
Não-funcionais
- Cumprir, em todas as fases, as normas de segurança e saúde no trabalho da oficina: EPI térmico, proteção ocular, proteção respiratória a poeiras de sílica e extração ou ventilação da zona do forno.
- Documentar as decisões tomadas em cada fornada (classificação das peças, escolha do forno, parâmetros de programação) num pequeno relatório.
- Organização do espaço de trabalho durante todo o processo, com identificação clara de cada peça.
- Trabalho realizado com autonomia, rigor e responsabilidade pelas próprias decisões.
Fases
Fase 1 · Diagnóstico e planeamento das duas fornadas (1h) Inspecionar todas as peças da encomenda: verificar secagem e humidade das peças cruas, identificar o tipo de decoração de cada peça já biscoitada (vidrado, tinta) e separá-las em dois grupos, o da fornada de chacota e o da fornada de vidrado. Escolher o tipo de forno e justificar.
Fase 2 · Fornada de chacota: mobiliário, enforna e programação (1h30) Preparar e verificar o mobiliário de enforna (placas, colunas, espaçadores, trempes), limpando-o de restos de fornadas anteriores. Posicionar só as peças cruas, da base para o topo, com espaço para o calor circular. Programar a curva de biscoito (temperatura, tempo, velocidade), considerando pasta e espessura de cada peça, e iniciar a cozedura.
A partir daqui, o forno fica a trabalhar sozinho: a subida até à temperatura final demora tipicamente 8 a 12 horas, seguida de um arrefecimento de várias horas ou de uma noite inteira dentro do forno fechado. Este tempo decorre fora da aula.
Fase 3 · Fornada de chacota: desenfornar e inspecionar (1h) Na aula seguinte, confirmar no controlador ou no pirómetro que o forno arrefeceu para uma temperatura segura, desenfornar com EPI pela ordem inversa da enforna e inspecionar cada peça biscoitada, registando eventuais defeitos e causas prováveis.
Fase 4 · Fornada de vidrado: mobiliário, enforna e programação (1h30) Verificar de novo o mobiliário de enforna. Posicionar as peças já biscoitadas e vidradas (as desta encomenda e, se aplicável, as que a turma decorou entretanto), com espaço mínimo de segurança entre peças vidradas para não colarem. Programar a curva de vidrado, considerando pasta, espessura e o facto de o vidrado impor a sua própria temperatura de fusão, e iniciar a cozedura.
Tal como na fornada anterior, a subida e o arrefecimento demoram, no total, cerca de um dia; este tempo decorre outra vez fora da aula.
Fase 5 · Fornada de vidrado: desenfornar e controlo de qualidade (1h30) Confirmar a temperatura segura antes de abrir o forno, desenfornar com EPI pela ordem inversa da enforna e inspecionar cada peça vidrada, identificando defeitos (fissuras, bolhas, deformações) e as respetivas causas prováveis, nas duas fornadas.
Fase 6 · Relatório e apresentação (1h30) Escrever o relatório com as decisões tomadas em cada fornada (classificação das peças, escolha do forno, parâmetros de programação, defeitos e causas). Apresentar as duas fornadas concluídas e as decisões técnicas tomadas, como se fosse a entrega ao cliente do atelier.
Critérios de avaliação
| Critério | Peso |
|---|---|
| Diagnóstico, preparação e separação das peças nas duas fornadas | 15% |
| Escolha do forno, mobiliário de enforna e posicionamento | 15% |
| Programação de cada fornada (pasta, espessura, acabamento, ciclo) | 20% |
| Controlo da temperatura e das etapas de cozedura | 20% |
| Desenforna em segurança (EPI, ventilação, proteção ocular e respiratória) | 15% |
| Controlo de qualidade, causas identificadas e relatório | 15% |
Erros comuns
- Misturar peças de ciclos diferentes (biscoito e vidrado) na mesma programação de forno.
- Encostar peças vidradas entre si ou às paredes do forno por falta de espaço planeado.
- Programar sem considerar a peça mais exigente da fornada, arriscando toda a fornada por uma peça isolada.
- Abrir a porta cedo demais, no arrefecimento, "só para ver" como está a correr.
- Confiar só na mão aproximada para decidir se o forno já arrefeceu, em vez de ler o controlador ou o pirómetro.
- Desenfornar sem uma superfície livre preparada para pousar cada peça, ou sem extração e proteção ocular ligadas.
- Identificar um defeito sem procurar a causa que o originou.
Bónus (opcional)
- Repetir a fornada com uma peça de teste igual, alterando apenas um parâmetro (por exemplo, a velocidade da rampa), e comparar os resultados.
- Propor uma melhoria escrita ao procedimento da oficina, a partir de um defeito real observado nesta fornada.
- Construir uma tabela de referência própria, com os parâmetros de cozedura usados para cada tipo de pasta e acabamento testado.
Reflexão
No relatório final, responde: qual foi a decisão mais difícil de tomar ao longo desta fornada, e porquê? E se encontraste algum defeito numa peça, explica que causa concreta do processo (não da peça em si) mais provavelmente lhe deu origem, e o que mudarias numa próxima fornada semelhante.