UC03600

Planear e executar o serviço de vinhos

Carta, enologia, prova, harmonização, abertura e serviço à mesa

Curso profissional · 50h · Técnico/a de Cozinha/Restauração

Plano

  1. O vinho e o papel do escanção
  2. Enologia — princípios
  3. Regiões vitivinícolas portuguesas
  4. Vinhos estrangeiros
  5. A carta de vinhos
  6. Equipamentos e utensílios
  7. Mise en place e temperaturas
  8. Técnicas de abertura da garrafa
  9. A prova de vinho
  10. Defeitos do vinho
  11. Serviço à mesa (por tipo de vinho)
  12. Harmonização vinho + iguaria
  13. Aconselhar e vender
  14. Conservação, higiene e protocolo

Bloco 1 · O vinho e o escanção

O que faz um escanção

O escanção (sommelier) é o profissional responsável pelo serviço de vinhos numa mesa. As suas funções:

  • Organizar e manter a carta de vinhos e a garrafeira.
  • Aconselhar o cliente e harmonizar o vinho com a refeição.
  • Provar, abrir e servir o vinho com técnica e protocolo.
  • Gerir compras, stock e conservação dos vinhos.
  • Vender — o vinho é uma das margens mais altas do restaurante.

O escanção é um vendedor técnico: junta conhecimento de enologia a competências de atendimento.

Do bago à garrafa (visão geral)

Fase O que acontece
Vindima Colheita da uva no ponto de maturação
Esmagamento/desengace Separar bagos dos engaços, romper a película
Fermentação Leveduras transformam açúcar → álcool + CO₂
Maceração Contacto com películas (cor e taninos, nos tintos)
Estágio Repouso em inox, barrica ou garrafa
Engarrafamento Vinho estabilizado e clarificado

O tipo de vinho define-se sobretudo por como e quanto tempo cada fase decorre.

Bloco 2 · Enologia — princípios

Tipos de vinho

  • Branco — uvas brancas (ou tintas sem película); fermentação sem contacto com as películas.
  • Tinto — uvas tintas com maceração: a cor e os taninos vêm da película.
  • Rosé — contacto curto com películas de uvas tintas.
  • Espumante — 2.ª fermentação que retém o CO₂ (método clássico/champenoise ou charmat).
  • Generoso/fortificado — adição de aguardente vínica (Porto, Madeira, Moscatel).
  • Licoroso / colheita tardia — alto teor de açúcar residual.

Os componentes que se provam

  • Açúcar → doçura (de seco a doce).
  • Álcool → corpo e "calor"; resulta da fermentação.
  • Acidez → frescura, "faz salivar"; sustenta a longevidade.
  • Taninos → adstringência (secura na boca), sobretudo nos tintos.
  • Aromas → primários (uva), secundários (fermentação), terciários (estágio).

O equilíbrio entre estes elementos é o que distingue um bom vinho.

Bloco 3 · Regiões vitivinícolas portuguesas

Denominações e classificação

  • DOP (Denominação de Origem Protegida) — antigo DOC; regras estritas de região, castas e métodos.
  • IGP (Indicação Geográfica Protegida) — antigo Vinho Regional; mais flexível.
  • Vinho (sem indicação geográfica) — antiga designação "vinho de mesa".

Portugal tem castas autóctones únicas — Touriga Nacional, Alvarinho, Baga, Encruzado, Trincadeira, Aragonez/Tinta Roriz.

Regiões de norte a sul (I)

Região Perfil
Vinhos Verdes Brancos leves, frescos, jovens (Alvarinho, Loureiro)
Douro Tintos encorpados e o Vinho do Porto
Dão Tintos elegantes; branco Encruzado
Bairrada Baga (tintos) e espumantes de referência
Beira Interior Altitude, frescura

Regiões de norte a sul (II)

Região Perfil
Lisboa / Tejo Grande volume, variedade
Península de Setúbal Moscatel de Setúbal; tintos de Palmela
Alentejo Tintos maduros e macios; grande sucesso comercial
Algarve Vinhos de clima quente
Madeira / Açores Vinho Madeira; brancos vulcânicos atlânticos

Bloco 4 · Vinhos estrangeiros

Referências que um escanção deve conhecer

  • França — Bordeaux (tintos de guarda), Bourgogne (Pinot Noir/Chardonnay), Champagne, Vale do Loire e Rhône.
  • Itália — Chianti, Barolo (Nebbiolo), Prosecco.
  • Espanha — Rioja, Ribera del Duero, Cava.
  • Novo Mundo — Argentina (Malbec), Chile (Carménère), Califórnia, Austrália (Shiraz), África do Sul.

Conhecer o estrangeiro ajuda a comparar e a explicar o valor dos vinhos nacionais.

Bloco 5 · A carta de vinhos

Como se organiza uma carta

Uma boa carta é clara, atual e vendável. Organização típica:

  1. Por tipo: espumantes → brancos → rosés → tintos → generosos/doces.
  2. Dentro de cada tipo, por região e depois por preço crescente.
  3. Cada referência com: nome, produtor, região/DOP, casta(s), ano e preço (garrafa e, se houver, copo).

Regras: sem erros, preços atualizados, coerente com a garrafeira real, e com opções a vários níveis de preço.

A carta como ferramenta de venda

  • Ter vinhos a copo aumenta as vendas (menor compromisso do cliente).
  • Sugerir harmonizações ao lado dos pratos.
  • Rotação: destacar o que se quer escoar; retirar o que já não há.
  • Uma carta demasiado longa confunde — melhor curada do que enorme.

Bloco 6 · Equipamentos e utensílios

O material do serviço de vinhos

  • Saca-rolhas de escanção (lâmina + rosca + alavanca) — o mais versátil.
  • Saca-rolhas de orelhas/borboleta e o de Tenaz (a fogo, para rolhas frágeis).
  • Decanter — para decantar e arejar.
  • Baldes de gelo, frapé e cestos de serviço.
  • Copos próprios por tipo de vinho.
  • Guardanapo de serviço (litos), prato de rolha, termómetro.

O copo certo para cada vinho

Vinho Copo
Tinto encorpado Bojudo, boca larga (areja)
Branco / rosé Médio, tulipa
Espumante Flute (mantém a espuma)
Generoso / Porto Pequeno, tipo ISO reduzido

Segura-se sempre pelo ou pela haste — nunca pelo bojo (aquece o vinho e suja).

Bloco 7 · Mise en place e temperaturas

Preparar antes do serviço

  • Verificar stock e disponibilidade dos vinhos da carta.
  • Polir copos e utensílios; garrafas limpas e com rótulo legível.
  • Baldes com gelo + água (arrefece mais depressa que só gelo).
  • Vinhos à temperatura de serviço certa.
  • Material de abertura pronto e higienizado.

Temperaturas de serviço

Vinho Temperatura
Espumante 6–8 °C
Branco leve / rosé 8–10 °C
Branco encorpado 10–12 °C
Tinto leve 12–14 °C
Tinto encorpado 16–18 °C
Generoso (Porto) 10–16 °C

Servido frio demais, o vinho "fecha" os aromas; quente demais, sobressai o álcool.

Bloco 8 · Abertura da garrafa

Passo a passo (saca-rolhas de escanção)

  1. Cortar a cápsula abaixo do gargalo com a lâmina; limpar o bordo.
  2. Cravar a rosca no centro da rolha, sem furar até ao fundo.
  3. Apoiar a alavanca no gargalo e puxar em duas fases.
  4. Retirar a rolha com um leve movimento, sem barulho.
  5. Cheirar a rolha e limpar o interior do gargalo.

Técnicas especiais

  • Tenaz (a fogo) — aquecer o gargalo com a tenaz e provocar choque térmico; usa-se em vinhos muito velhos com rolha frágil.
  • Sabre (sabrage) — abertura cerimonial do espumante, deslizando a lâmina na costura da garrafa até partir o gargalo.
  • Espumante (normal) — segurar a rolha, rodar a garrafa (não a rolha), deixar sair com um suspiro, nunca com estrondo nem projeção.

Bloco 9 · A prova de vinho

As três fases da prova

  1. Visual — cor, intensidade, limpidez, "lágrimas" (álcool/glicerol).
  2. Olfativa — aromas a copo parado e depois de agitar (arejar).
  3. Gustativa — ataque, meio de boca, acidez, taninos, corpo e final (persistência).

Prova-se sempre num ambiente neutro (sem fumos nem perfumes fortes) e com luz adequada.

O vocabulário da prova

  • Cor: tinto — violáceo (jovem) → rubi → atijolado (velho); branco — citrino → dourado → âmbar.
  • Aromas: frutados, florais, vegetais, especiarias, tostados, minerais.
  • Boca: seco/doce, fresco/mole, tânico/macio, leve/encorpado.
  • Final: curto, médio ou longo (quanto mais longo, geralmente melhor).

Bloco 10 · Defeitos do vinho

Reconhecer um vinho com defeito

  • Rolha (TCA) — cheiro a mofo/cartão húmido; o defeito mais comum.
  • Oxidação — cor acastanhada, aroma a "maçã podre"/xerez indesejado.
  • Avinagrado (acética) — cheiro a vinagre/verniz.
  • Redução — cheiro a ovo podre/enxofre; por vezes arejar resolve.
  • Refermentação — turvação e gás indesejado num vinho tranquilo.

Perante um defeito claro, o vinho não se serve — troca-se a garrafa.

Bloco 11 · Serviço à mesa

Sequência do serviço

  1. Apresentar a garrafa ao cliente que pediu (rótulo à vista).
  2. Abrir à mesa e apresentar a rolha.
  3. Servir uma prova ao anfitrião; aguardar aprovação.
  4. Servir os restantes: senhoras primeiro, anfitrião por último.
  5. Encher ⅓ a metade do copo; rodar o gargalo no fim (não pingar).
  6. Repor sempre que necessário; decantar tintos velhos/encorpados.

Regras de ouro do serviço

  • Servir pela direita do cliente.
  • Nunca encostar o gargalo ao copo.
  • Brancos e espumantes no balde; tintos no cesto/à temperatura.
  • Decantação: separar o vinho das borras (velhos) ou arejar (jovens encorpados).

Bloco 12 · Harmonização

Princípios de harmonização

  • Por semelhança — prato delicado + vinho leve; prato intenso + vinho encorpado.
  • Por contraste — doce + salgado; gordura + acidez.
  • A acidez limpa a gordura; os taninos pedem proteína/gordura.
  • Regra clássica (com exceções): branco com peixe, tinto com carne.

Exemplos práticos

Iguaria Sugestão
Marisco, peixe grelhado Branco fresco (Verde, Alvarinho)
Bacalhau com natas Branco encorpado
Carnes vermelhas, caça Tinto do Douro/Alentejo
Queijos curados Tinto maduro ou Porto
Sobremesa / doce Moscatel, Porto, colheita tardia

Casos difíceis: espargos, alcachofra, ovo, pratos muito picantes.

Bloco 13 · Aconselhar e vender

Aconselhar o cliente

  • Ouvir primeiro: gosto, pratos escolhidos, ocasião e orçamento.
  • Fazer perguntas abertas ("prefere mais fresco ou mais encorpado?").
  • Sugerir 2–3 opções em faixas de preço diferentes — nunca só a mais cara.
  • Explicar sem arrogância; usar linguagem acessível.
  • Confirmar a escolha e valorizá-la.

Técnicas de venda e atendimento

  • Venda sugestiva: propor vinho a copo, harmonização, sobremesa+doce.
  • Upselling com bom senso — adequar ao cliente, não impor.
  • Atendimento: acolhimento, cortesia, discrição e protocolo/etiqueta.
  • Uma boa recomendação fideliza e aumenta o ticket médio.

Bloco 14 · Conservação, higiene e protocolo

Conservar e higienizar

  • Garrafas deitadas (rolha húmida), 12–15 °C, humidade ~70%, ao abrigo da luz e de vibrações.
  • Controlar o estado das matérias-primas: nível, rótulo, cápsula, ausência de vazamentos.
  • Higienizar copos, utensílios, baldes e superfícies; copos polidos sem toalha que largue pêlo.
  • Rotação de stock: FIFO (o mais antigo sai primeiro), exceto vinhos de guarda.

Protocolo e etiqueta

  • Aparência cuidada, discrição, postura correta.
  • Servir sempre pela direita, sem interromper conversas.
  • Respeitar o anfitrião e a hierarquia da mesa.
  • Comunicação clara, sem termos técnicos a mais com o cliente.

Síntese

Servir vinho é técnica + conhecimento + atendimento:
carta bem feita, temperaturas certas, abertura limpa, prova rigorosa, harmonização acertada e uma venda ao serviço do cliente.

UC03600 · Planear e executar o serviço de vinhos