UC03579

Gerir aprovisionamentos e controlar custos

Economato, stocks, receção, inventários, custos e rácios

Técnico/a de Cozinha/Restauração · 25h

Plano

  1. Aprovisionamento e economato
  2. Gestão de stocks
  3. Receção de géneros
  4. Armazenamento e conservação
  5. Requisições e saídas
  6. Inventários
  7. Custos e rácios (food cost, CMV)
  8. Higiene e segurança alimentar
  9. Sustentabilidade e desperdício
  10. Ferramentas informáticas

Bloco 1 · Aprovisionamento e economato

O que é aprovisionar

Aprovisionar = ter os géneros certos, na quantidade e qualidade certas, ao melhor custo, no momento certo.

Cadeia de quatro elos:

  • Comprar → nota de encomenda
  • Receber → conferir e dar entrada
  • Armazenar → conservar em segurança
  • Requisitar → dar saída para a produção

Na cozinha, o dinheiro entra pela sala e sai pelo economato.

O economato e o circuito de mercadorias

O economato é o armazém (e a função) que guarda, controla e distribui géneros e materiais. Responsável: o ecónomo.

Necessidade → Encomenda → Receção → Armazenamento → Requisição → Produção
 (cozinha)   (compras)   (conferir)  (economato)     (secção)    (praça)

Cada etapa tem um documento — é o que permite saber quanto se comprou, gastou e sobra.

Objetivos: não faltar · não sobrar · qualidade · custo · rasto.

Bloco 2 · Gestão de stocks

Stock: o equilíbrio

Stock = quantidade de um género em armazém num dado momento.

Conceito O que é
Stock mínimo (segurança) abaixo dele não descer → evita ruturas
Stock máximo acima dele não subir → evita excessos
Ponto de encomenda nível que dispara nova encomenda
  • Faltar = produção pára.
  • Sobrar = dinheiro parado + validades a expirar.

Ponto de encomenda

PE = (consumo médio diário × prazo de entrega) + stock de segurança

Exemplo: 8 kg/dia de batata; entrega em 2 dias; 5 kg de segurança.

Quando o stock chegar a 21 kg, encomenda-se.

  • Consumo médio → dos registos de saída.
  • Prazo de entrega → do fornecedor.
  • Segurança → colchão para imprevistos.

Rotação: FIFO e FEFO

  • FIFOFirst In, First Out: primeiro a entrar, primeiro a sair.
  • FEFOFirst Expired, First Out: primeiro a expirar, primeiro a sair.

Na restauração domina o FEFO:

Arrumar o NOVO atrás/por baixo  →  pega-se sempre no ANTIGO à frente

É a forma mais simples de reduzir desperdício por validade.

Indicadores de stock

Indicador Fórmula Diz-nos
Rotação consumo ÷ stock médio rapidez do «giro»
Cobertura stock ÷ consumo diário dias que aguenta
Ruturas nº de faltas fiabilidade

Objetivo: ruturas ≈ 0 sem excesso de stock.

Bloco 3 · Receção de géneros

Nunca receber sem conferir

Ponto crítico: o que entra mal custa e arrisca a saúde.

Verificar sempre:

  1. Quantidade — pesar/contar vs. encomenda e guia.
  2. Qualidade — aspeto, cor, cheiro, textura, embalagem.
  3. Validade — recusar validades curtas.
  4. Temperatura — medir à chegada.
  5. Rotulagem/lote — rastreabilidade e alergénios.
  6. Transporte — viatura limpa, cadeia de frio.

Temperaturas de receção

Género Temperatura
Congelados −18 ºC
Refrigerados (carne, peixe, laticínios) 0 a 4 ºC
Peixe fresco 0 a 2 ºC
Frescos (fruta/legumes) fresco e seco
Quentes prontos 63 ºC

Não conforme → recusar (total/parcial) + nota de devolução / reclamação.

Documentos da receção

  • Guia de remessa/transporte — acompanha e lista a mercadoria.
  • Fatura — documento de valor, base do pagamento.
  • Nota de devolução — o que se recusou.
  • Reclamação — problema comunicado ao fornecedor.

Depois de conferido → entrada em stock (ficha/sistema) → armazenamento.

Bloco 4 · Armazenamento e conservação

Zonas de armazenamento

  • Despensa seca — secos e enlatados; fresco, seco, ventilado, sem luz.
  • Refrigeração (0–4 ºC) — perecíveis frescos.
  • Congelação (≤ −18 ºC) — conservação prolongada; nunca recongelar.
  • Economato de materiais — utensílios, descartáveis, químicos separados dos alimentos.

Regras: nada no chão · etiquetar · rótulos e lotes · sem quebras de frio.

Ordem na câmara de frio

Evitar contaminação cruzada (pingos de cru sobre pronto):

CIMA   →  Pronto a consumir / cozinhado
   ↓      Laticínios e sobremesas
   ↓      Peixe cru
BAIXO  →  Carne crua (a que mais «pinga»)

Separar cru de cozinhado e sinalizar alergénios.

Métodos de conservação

Método Princípio
Refrigeração frio abranda micróbios
Congelação frio intenso «suspende»
Secagem retirar água
Salga/fumagem sal e fumo inibem
Conserva calor + selagem
Vácuo retirar oxigénio
Atmosfera modificada alterar gases

Bloco 5 · Requisições e saídas

A requisição

Documento pelo qual a secção pede ao economato os géneros. É a saída do stock.

Secção precisa → requisição → economato entrega → baixa em stock → atualiza consumo

Indica: data · secção · género · quantidade · unidade · validação.

Porquê: controlo · custeio (consumo real) · reposição.

Encomendas, devoluções, reclamações

  • Nota de encomenda — pedido ao fornecedor (género, qtd, prazo, preço).
  • Nota de devolução — o que se devolve por não conformidade.
  • Reclamação — problema formalizado ao fornecedor.

Boa gestão destes documentos = circuito fiável e auditável.

Bloco 6 · Inventários

O que é inventariar

Contar fisicamente o que existe e comparar com os registos.

Tipos:

  • Permanente — sistema atualiza a cada entrada/saída.
  • Periódico — contagem de tempos a tempos.
  • Rotativo — grupos de artigos ao longo do mês.
  • De fim de exercício — geral, anual.

Contagem física, passo a passo

  1. Parar movimentos (ou registá-los à parte).
  2. Contar por zonas (folha/leitor).
  3. Registar quantidade real.
  4. Comparar com o teórico → quebras.
  5. Valorizar (qtd × custo unitário).
  6. Investigar desvios e ajustar.

Quebra = stock teórico − real. Causas: desperdício, erros, furtos, porções.

Bloco 7 · Custos e rácios

CMV — Custo de Mercadoria Vendida

CMV = Stock inicial + Compras − Stock final

Exemplo: 1 200 € + 4 800 € − 1 500 € = 4 500 €.

Foi este o valor de géneros efetivamente consumido no período.

Food cost e rácio de custo

Rácio (%) = (custo dos ingredientes ÷ preço de venda s/ IVA) × 100

Exemplo: ingredientes 3,20 €; venda 12,80 € (s/ IVA).

Food cost saudável na restauração: 25 %–35 %.

⚠️ Calcula-se sobre o preço sem IVA.

Fixar preço e margem

Preço a partir do custo:

Preço (s/ IVA) = custo ÷ food cost-alvo

Ex.: 4,00 € ÷ 0,30 = 13,33 €.

Margem bruta:

Margem = preço (s/ IVA) − custo

Ex.: 12,80 − 3,20 = 9,60 € por prato.

Custo por dose = custo total da ficha técnica ÷ nº de doses.

Rácios de gestão

Rácio Fórmula Diz-nos
Food cost % géneros ÷ vendas × 100 peso da matéria-prima
Rotação consumo ÷ stock médio «giro» do stock
Índice de quebra quebras ÷ compras × 100 perdas
Custo médio valor stock ÷ quantidade custo unitário

Bloco 8 · Higiene e segurança

HACCP e rastreabilidade

  • HACCP — analisar perigos e controlar pontos críticos. No aprovisionamento: receção, armazenamento, rastreabilidade.
  • Rastreabilidade — seguir a origem e destino de cada género (lotes, faturas, registos). Obrigatória.

Boas práticas: cadeia de frio · separação · higiene · pragas · registos.

Bloco 9 · Sustentabilidade

Economia circular na cozinha

  • Reduzir — comprar à medida, porcionar bem.
  • Reutilizar — aparas e sobras seguras (caldos, root-to-stem).
  • Reciclar — óleos, orgânico, embalagens.
  • Repensar — sazonal, local, menos embalagem.

Combater o desperdício: comprar certo · conservar (FEFO) · aproveitar · medir · doar.

Menos desperdício = melhor food cost + menos quebras.

Bloco 10 · Ferramentas informáticas

Software de gestão (ótica do utilizador)

O software faz:

  • Fichas de artigo, fornecedor e ficha técnica com custo automático.
  • Encomendas e receções ligadas ao stock.
  • Stock permanente com alertas de mínimos e validades.
  • Inventários e apuramento de quebras.
  • Relatórios de consumos, food cost e rácios.

Mesmo uma folha de cálculo resolve muito: artigos, stock, mínimos, custo e fórmulas.

Síntese

  • Fechar o circuito comprar → receber → armazenar → requisitar, com registo.
  • Não faltar e não sobrar: ponto de encomenda + FEFO.
  • Conferir na receção; conservar com cadeia de frio e separação.
  • Inventariar para achar quebras.
  • CMV, food cost e rácios dizem se há lucro.
  • Higiene/HACCP e sustentabilidade transversais.

Fim

UC03579 · Gerir aprovisionamentos e controlar custos

Tratar a matéria-prima como o que é: dinheiro.