UC03499

Efetuar o aconselhamento em farmácia de produtos para higiene oral

Afeções orais comuns, saúde oral ao longo da vida e aconselhamento de produtos e dispositivos

Curso técnico auxiliar de farmácia · 25h · Saúde

Plano

  1. Saúde oral na farmácia comunitária
  2. Anatomia e fisiologia da cavidade oral
  3. Cárie dentária
  4. Xerostomia e sensibilidade dentária
  5. Halitose
  6. Traumatismo dentário e urgências orais
  7. Candidíase oral, aftas e estomatite aftosa
  8. Doença mão-pé-boca e sinais de alarme
  9. Saúde oral no bebé e na criança
  10. Saúde oral na grávida
  11. Saúde oral nos idosos e próteses dentárias
  12. Escovagem, pastas dentífricas e flúor
  13. Fio dentário, elixires e outros dispositivos
  14. Comunicação com o utente e ética profissional
  15. Protocolo de dispensa e encaminhamento

Bloco 1 · Saúde oral na farmácia comunitária

Porque a farmácia é o primeiro contacto

A farmácia comunitária é, para muitos utentes, o local mais acessível para tirar uma dúvida sobre saúde oral, muito antes de marcarem consulta ao médico dentista.

  • O técnico auxiliar de farmácia faz a primeira triagem: ouve a queixa, observa sinais visíveis e ajuda a escolher o produto certo.
  • Não diagnostica nem prescreve: a sua função é aconselhar, dispensar corretamente e encaminhar quando a situação o exige.
  • O aconselhamento certo evita agravamentos e poupa tempo aos serviços de saúde.

Saber distinguir "aconselho um produto" de "encaminho para avaliação" é a competência central desta UC.

Os dois destinos do encaminhamento

Quando o produto de venda livre não chega, o utente é encaminhado, mas para quem depende da situação:

Situação Encaminhar para
Dúvida sobre interações, dose ou adequação do produto Farmacêutico
Sinal clínico de alarme (lesão persistente, traumatismo, febre alta) Médico dentista ou médico

Esta distinção aparece em todos os blocos seguintes: cada afeção tem os seus próprios sinais de alarme.

Bloco 2 · Anatomia e fisiologia da cavidade oral

As estruturas da boca

Para entender qualquer afeção oral é preciso conhecer as estruturas envolvidas:

  • Dentes: coroa (visível) e raiz (no osso); camadas de esmalte, dentina e polpa.
  • Gengiva: tecido mole que envolve a base dos dentes e protege o osso.
  • Mucosa oral: reveste bochechas, palato, pavimento da boca e língua.
  • Saliva: produzida pelas glândulas salivares; lubrifica, ajuda a digestão inicial e tem função protetora.

A maioria das afeções que vamos estudar resulta de um desequilíbrio numa destas estruturas.

A saliva e o papel protetor

A saliva é central para a saúde oral, e a sua falta (xerostomia) está por trás de muitas queixas frequentes na farmácia:

  • Neutraliza os ácidos produzidos pelas bactérias da placa.
  • Contém minerais que ajudam a remineralizar o esmalte.
  • Facilita a mastigação, a fala e a deglutição.
  • A sua redução aumenta o risco de cárie, halitose e desconforto.

Este mecanismo vai reaparecer nos blocos da cárie e da xerostomia.

Bloco 3 · Cárie dentária

Mecanismo da cárie

A cárie é uma doença multifatorial, dependente do açúcar e da placa bacteriana: as bactérias da placa (entre elas o Streptococcus mutans) fermentam os açúcares da dieta e libertam ácidos.

  • Os ácidos desmineralizam o esmalte, criando uma lesão que progride para dentina e, sem tratamento, para a polpa.
  • Fatores de risco: dieta rica em açúcares, higiene deficiente, xerostomia, exposição frequente ao açúcar entre refeições.
  • Sinais: mancha branca ou castanha, cavidade visível, dor ao frio, ao quente ou ao doce.

Sem intervenção, a cárie só piora: o técnico deve reconhecer os sinais precoces e orientar para prevenção.

Prevenção da cárie na prática

O aconselhamento de rotina em farmácia assenta em quatro pilares:

  1. Escovagem com pasta fluoretada, pelo menos duas vezes por dia.
  2. Redução da frequência de açúcares entre refeições, mais importante do que a quantidade total.
  3. Flúor tópico (pasta, eventualmente elixir) para remineralizar o esmalte.
  4. Consultas regulares ao médico dentista para deteção precoce.

Quando aparece dor persistente, cavidade visível ou sensibilidade que não cede, o utente é encaminhado ao médico dentista.

Bloco 4 · Xerostomia e sensibilidade dentária

Xerostomia: a boca seca

A xerostomia é a sensação de boca seca por redução do fluxo salivar. É uma das queixas mais comuns em farmácia, sobretudo em utentes polimedicados e idosos.

  • Causas frequentes: medicamentos (anti-histamínicos, antidepressivos, anti-hipertensores), desidratação, respiração pela boca, algumas doenças sistémicas, radioterapia da cabeça e pescoço.
  • Consequências: maior risco de cárie e halitose, dificuldade a mastigar e a falar, desconforto.
  • Aconselhamento: hidratação frequente, saliva artificial, pastilhas ou rebuçados sem açúcar para estimular a saliva, evitar álcool, tabaco e cafeína em excesso, usar pasta e elixir sem álcool.

Sensibilidade dentária

A sensibilidade dentária surge quando a dentina fica exposta, geralmente por recessão gengival, desgaste do esmalte ou escovagem demasiado agressiva.

  • Sintoma típico: dor aguda e breve ao frio, ao quente, ao doce ou ao ácido, que desaparece rapidamente.
  • Aconselhamento: pasta dessensibilizante de uso diário durante algumas semanas (nitrato de potássio, que acalma o nervo, ou fluoreto estanoso, que sela os túbulos da dentina), escova de cerdas macias e técnica de escovagem correta, sem pressão excessiva.
  • Encaminhar para o médico dentista se a dor for muito intensa, persistente ou associada a um dente concreto, pode indicar cárie ou fratura.

Bloco 5 · Halitose

Origem da halitose

A halitose (mau hálito) tem origem oral na grande maioria dos casos (cerca de oito a nove em cada dez).

  • Causas orais: revestimento lingual (bactérias no dorso da língua), doença periodontal, cárie, próteses mal higienizadas, xerostomia.
  • Causas extraorais, mais raras: sinusite, refluxo gastroesofágico, alguns alimentos, tabaco, certas doenças sistémicas.
  • É uma queixa sensível: exige tato e discrição no atendimento.

A avaliação começa sempre pela boca, porque é ali que está a maioria das causas.

Aconselhamento na halitose

Medidas práticas a sugerir no balcão:

  • Escovagem da língua com escova própria ou raspador lingual, focando o terço posterior.
  • Fio dentário diário para remover restos alimentares entre os dentes.
  • Elixir antibacteriano como complemento, nunca substituto, da escovagem.
  • Hidratação, e higiene rigorosa da prótese em quem a usa.

Se a halitose persistir apesar de boa higiene oral, encaminha-se para avaliação, pode haver uma causa dentária ou sistémica a tratar.

Bloco 6 · Traumatismo dentário e urgências orais

Tipos de traumatismo dentário

Os traumatismos dentários são frequentes em crianças e em contexto desportivo:

  • Fratura: perda de parte da estrutura do dente.
  • Luxação: o dente desloca-se da sua posição, mas mantém-se no alvéolo.
  • Avulsão: o dente sai completamente do alvéolo. É a situação mais urgente.

O papel do técnico auxiliar é orientar de imediato, nunca tentar tratar o traumatismo.

Avulsão dentária: a urgência máxima

Um dente permanente avulsionado (que saiu completamente) é uma urgência com prazo:

  1. Pegar no dente pela coroa, nunca pela raiz.
  2. Se estiver sujo, lavar rapidamente só com soro fisiológico ou água, sem esfregar.
  3. Se possível, reimplantar de imediato no alvéolo.
  4. Se não for possível reimplantar, conservar o dente em leite, soro fisiológico ou saliva do próprio utente.
  5. Encaminhar de imediato ao médico dentista, o prognóstico piora a cada minuto que passa.

Em dentes de leite, não se reimplanta, mas o encaminhamento continua a ser urgente.

Bloco 7 · Candidíase oral, aftas e estomatite aftosa

Candidíase oral

A candidíase oral é uma infeção fúngica, causada sobretudo por Candida albicans, mais frequente em bebés, idosos com prótese, imunodeprimidos e utentes com uso prolongado de antibióticos ou corticoides inalados.

  • Sinal característico: placas esbranquiçadas na mucosa, que se destacam ao raspar, deixando a zona avermelhada.
  • Sintomas: ardor, alteração do paladar, desconforto ao comer.
  • Aconselhamento: higiene rigorosa da prótese, enxaguar a boca com água após inaladores com corticoide.
  • O tratamento antifúngico exige avaliação, encaminha-se ao farmacêutico ou ao médico.

Aftas e estomatite aftosa

As aftas são úlceras dolorosas, arredondadas, com bordo avermelhado e centro esbranquiçado, na mucosa oral.

  • Causas multifatoriais: stress, pequenos traumatismos (morder a bochecha), défices nutricionais, alterações hormonais.
  • Evolução habitual: autolimitada, cicatriza em uma a duas semanas.
  • Aconselhamento: géis orais protetores ou analgésicos, evitar alimentos ácidos, picantes ou muito quentes, manter boa higiene.
  • Encaminhar se forem muito numerosas, muito dolorosas, recorrentes com frequência ou não cicatrizarem em duas a três semanas.

Bloco 8 · Doença mão-pé-boca e sinais de alarme

Doença mão-pé-boca

A doença mão-pé-boca é uma infeção viral, muito comum em crianças pequenas e em ambientes como creches e infantários.

  • Sintomas: febre, lesões dolorosas na boca (do tipo aftoso), e exantema (manchas ou pequenas bolhas) nas mãos e nos pés.
  • É altamente contagiosa; reforçam-se as medidas de higiene das mãos e de objetos partilhados.
  • Tratamento sintomático: analgésicos adequados à idade, hidratação, alimentos frios e moles enquanto há dor a comer.
  • Encaminhar se houver sinais de desidratação ou febre alta persistente.

Sinais de alarme: cancro oral

O cancro oral é menos frequente do que as outras afeções desta UC, mas é grave, e os seus sinais precoces passam muitas vezes pela farmácia antes de chegarem ao médico. O técnico auxiliar não diagnostica, mas deve reconhecer e encaminhar:

  • Úlcera na boca que não cicatriza há mais de duas a três semanas.
  • Mancha branca (leucoplasia) ou vermelha (eritroplasia) persistente na mucosa.
  • Nódulo ou espessamento inexplicado dos tecidos moles.
  • Dificuldade a engolir ou dormência sem causa aparente.

Fatores de risco a ter em mente: tabaco e álcool (o efeito combinado é maior do que a soma dos dois), exposição solar no lábio.

Qualquer um destes sinais implica encaminhamento ao médico dentista ou médico, sem alarmar o utente.

Bloco 9 · Saúde oral no bebé e na criança

Erupção dentária e primeiros cuidados

Os dentes de leite começam habitualmente a erupcionar por volta dos seis meses, prolongando-se até perto dos três anos (20 dentes de leite; a dentição permanente terá 32).

  • Sinais de erupção: irritabilidade, salivação abundante, gengiva inchada e sensível. Febre alta ou diarreia não se atribuem à erupção: encaminhar.
  • Aconselhamento: mordedores refrigerados, géis calmantes quando indicado e validados pelo farmacêutico.
  • Higiene desde o primeiro dente, 2 vezes por dia: escova macia própria para bebé e pasta fluoretada do tamanho de um grão de arroz.
  • Evitar açúcar no biberão ou na chupeta (nunca mel), sobretudo antes de dormir.

A primeira consulta de dentista deve acontecer cedo: com os primeiros dentes ou, no máximo, até ao primeiro ano de vida.

Saúde oral na criança em idade escolar

Depois da fase do bebé, a atenção passa para a autonomia progressiva com supervisão:

  • Escovagem supervisionada pelo adulto até a criança ter destreza manual suficiente, geralmente entre os seis e os oito anos.
  • Pasta fluoretada (1000 a 1500 ppm, orientação DGS) em quantidade adequada à idade, escovagem pelo menos duas vezes por dia, uma delas antes de deitar.
  • Reduzir a frequência de açúcares entre as refeições, o lanche escolar é um momento crítico.
  • Selantes de fissuras, aplicados pelo médico dentista, protegem os molares definitivos mais suscetíveis a cárie.

Bloco 10 · Saúde oral na grávida

Alterações orais na gravidez

As alterações hormonais da gravidez aumentam a sensibilidade da gengiva à placa bacteriana:

  • Gengivite gravídica: gengivas inflamadas, avermelhadas, que sangram com facilidade, mesmo com boa higiene.
  • As náuseas matinais expõem os dentes a ácido gástrico com maior frequência.
  • Aconselhamento nas náuseas: não escovar imediatamente após o vómito, enxaguar primeiro com água para diluir o ácido, escovar cerca de meia hora depois.
  • Manter escovagem e fio dentário rigorosos é ainda mais importante nesta fase.

Aconselhamento e consulta na grávida

  • A consulta de medicina dentária é segura durante a gravidez; procedimentos não urgentes são preferencialmente feitos a meio da gestação.
  • Reforçar a importância de tratar qualquer problema oral antes de agravar, a gengivite não tratada evolui mais facilmente para doença periodontal.
  • Escova de cerdas macias se a gengiva estiver muito sensível, sem deixar de escovar.
  • Encaminhar ao médico dentista perante sangramento persistente, dor ou lesões na gengiva.

Bloco 11 · Saúde oral nos idosos e próteses dentárias

Particularidades da saúde oral no idoso

O envelhecimento traz alterações específicas que o técnico deve reconhecer no balcão:

  • Xerostomia muito frequente, sobretudo por polimedicação.
  • Recessão gengival e cárie radicular, na raiz do dente, exposta pela recessão.
  • Maior prevalência de doença periodontal.
  • Uso frequente de próteses dentárias, totais ou parciais.

Cada um destes fatores aumenta o risco dos outros, um idoso com xerostomia e prótese acumula vários riscos ao mesmo tempo.

Cuidados com as próteses dentárias

Tipos de prótese: fixas (coroas, pontes, sobre implantes) e removíveis, que podem ser totais (substituem todos os dentes de uma arcada) ou parciais (substituem alguns dentes, apoiando-se nos remanescentes); existem ainda sobredentaduras sobre implantes ou raízes.

Aconselhamento essencial na farmácia:

  • Remover e escovar a prótese diariamente, com escova própria, fora da boca.
  • Não usar pasta dentífrica comum (é abrasiva para o material da prótese), usar produto específico.
  • Não dormir com a prótese colocada, dar descanso aos tecidos gengivais; guardá-la limpa em recipiente com água ou solução própria.
  • Imersão periódica em solução de limpeza própria para próteses.
  • Consultas regulares para ajuste, uma prótese desajustada causa feridas e dificulta a mastigação.

Bloco 12 · Escovagem, pastas dentífricas e flúor

Técnica de escovagem

A escovagem é o gesto mais repetido da prevenção em saúde oral, e por isso o mais importante de ensinar bem:

  • Escovar pelo menos duas vezes por dia, uma delas obrigatoriamente antes de deitar, durante cerca de dois minutos.
  • Usar escova de cerdas macias, em movimentos suaves, sem pressão excessiva.
  • Substituir a escova a cada três meses, ou antes se as cerdas estiverem gastas.
  • Não esquecer a língua, importante também na prevenção da halitose.
  • No fim, cuspir sem bochechar com água, para o flúor atuar mais tempo.

Escovar com força não limpa melhor, apenas desgasta o esmalte e a gengiva.

Pastas dentífricas e o papel do flúor

O flúor é o ingrediente mais importante da pasta dentífrica na prevenção da cárie:

  • Ajuda a remineralizar o esmalte enfraquecido pelos ácidos bacterianos.
  • Reduz a capacidade das bactérias de produzir ácido.
  • Concentração recomendada pela DGS: 1000 a 1500 ppm; a quantidade de pasta é adaptada à idade (grão de arroz nos mais pequenos, até uma pequena ervilha), para reduzir a ingestão.

Existem ainda pastas específicas: dessensibilizantes, para gengivas sensíveis, branqueadoras. Pastas sem flúor só se justificam em casos muito específicos, orientados por um profissional. Branqueamento: na venda livre, peróxido de hidrogénio até 0,1%; acima disso (até 6%) só através do médico dentista (Diretiva 2011/84/UE).

Bloco 13 · Fio dentário, elixires e outros dispositivos

Dispositivos complementares de higiene

A escova, sozinha, não chega a todos os espaços da boca:

  • Fio dentário: remove a placa entre os dentes, onde a escova não chega; recomenda-se o uso diário.
  • Escovilhões interdentários: úteis em espaços interdentários maiores, por exemplo em quem tem recessão gengival.
  • Irrigadores orais: jato de água que complementa a limpeza, sobretudo útil em utentes com aparelho ortodôntico ou destreza manual reduzida.
  • Raspadores ou limpadores linguais: reduzem o revestimento lingual associado à halitose.

Elixires: quando e como aconselhar

Nem todos os elixires servem para o mesmo:

Tipo de elixir Indicação típica
Com flúor reforço diário da prevenção da cárie
Antibacteriano (uso pontual) halitose, gengivas inflamadas, sob orientação
Sem álcool utentes com xerostomia ou mucosa sensível
  • O elixir é sempre complemento da escovagem e do fio dentário, nunca substituto.
  • Clorexidina: só por tempo limitado (pode pigmentar os dentes e alterar o paladar) e não logo a seguir à pasta, cujo laurilsulfato de sódio a inativa; dúvidas sobre a duração de uso encaminham-se ao farmacêutico.

Bloco 14 · Comunicação com o utente e ética profissional

Comunicar bem no balcão

A comunicação eficaz é tão parte do aconselhamento como o conhecimento técnico:

  • Escuta ativa: deixar o utente descrever a queixa por completo antes de responder.
  • Linguagem simples, sem jargão técnico desnecessário.
  • Comunicação não verbal: postura atenta, contacto visual adequado, tom de voz calmo.
  • Adaptar a mensagem ao público: uma explicação a um pai de bebé é diferente da que se dá a um idoso.
  • Confirmar que o utente compreendeu, sobretudo a posologia e o modo de utilização do produto.

Ética profissional e limites de atuação

O técnico auxiliar de farmácia atua sempre dentro de limites claros:

  • Sigilo profissional: o que se fala ao balcão não sai dali.
  • Rigor e honestidade: não inventar respostas quando há dúvida, perguntar ao farmacêutico.
  • Respeito pela privacidade, sobretudo em temas sensíveis como a halitose ou lesões orais.
  • Reconhecer os limites da função: aconselhar produtos de venda livre, sim; diagnosticar ou prescrever, não.
  • Apresentação pessoal e postura profissional transmitem confiança ao utente.

Bloco 15 · Protocolo de dispensa e encaminhamento

Passo a passo da dispensa

Um protocolo simples organiza qualquer atendimento de aconselhamento em higiene oral:

  1. Ouvir a queixa e observar sinais visíveis, sem pressa.
  2. Conferir se existe pedido concreto de produto ou apenas uma dúvida.
  3. Selecionar o produto adequado à condição do utente (idade, sintomas, historial referido).
  4. Informar a posologia, o modo de utilização e a via de administração, quando aplicável.
  5. Verificar sinais de alarme que impõem encaminhamento em vez de venda.
  6. Documentar, quando o procedimento interno da farmácia o exigir.

Síntese do protocolo de encaminhamento

Antes de fechar qualquer atendimento, o técnico responde mentalmente a três perguntas:

  • É um caso de aconselhamento simples? Dispensa o produto com a informação correta.
  • Há dúvida sobre a adequação do produto? Encaminha ao farmacêutico.
  • Há sinal de alarme clínico? Encaminha ao médico dentista ou médico, sem alarmar o utente.

Este raciocínio aplica-se a qualquer afeção estudada nesta UC, da cárie ao cancro oral.

Recapitulando

  • Distinguir os quadros de afeções orais mais comuns: cárie, xerostomia, sensibilidade dentária, halitose, traumatismo, candidíase, aftas, doença mão-pé-boca e sinais de alarme de cancro oral.
  • Saúde oral tem particularidades no bebé e criança, na grávida e no idoso, incluindo cuidados com próteses.
  • Aconselhamento de produtos: escovagem, pastas fluoretadas, fio dentário, elixires e outros dispositivos.
  • Comunicação assertiva e empatia, sempre dentro dos limites éticos da função.
  • Protocolo final: aconselhar, encaminhar ao farmacêutico ou encaminhar ao médico dentista, conforme o caso.

Próximo: fichas e mini-projeto, atendimentos simulados em farmácia comunitária.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar desde o primeiro slide o limite de atuação: aconselhar e encaminhar, nunca diagnosticar. - Erro comum: alunos que tentam "resolver" queixas que são claramente clínicas (dor intensa, febre, lesão que não cicatriza). - Exemplo: comparar com o papel de triagem de uma receção de urgência, sem fazer o diagnóstico.

NOTAS DO PROFESSOR - Fixar a tabela como referência mental para todo o resto da UC. - Pergunta à turma: um utente com sensibilidade dentária ligeira e generalizada, precisa de encaminhamento? (em regra não, é aconselhamento simples com pasta dessensibilizante; farmacêutico só se houver dúvida sobre o produto). - Erro comum: encaminhar tudo para o médico "por precaução" sem primeiro avaliar se é um caso de aconselhamento simples.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a saliva como "primeira linha de defesa": lubrifica, neutraliza ácidos, ajuda a remineralizar. - Erro comum: pensar que só o dente importa; gengiva e mucosa são igualmente relevantes (ex.: aftas, candidíase). - Analogia: a boca como um ecossistema com bactérias, saliva e tecidos em equilíbrio; quando o equilíbrio quebra, aparece a doença.

NOTAS DO PROFESSOR - Ligar diretamente ao bloco seguinte: sem saliva suficiente, o risco de cárie dispara. - Pergunta: porque é que quem toma muitos medicamentos costuma ter mais cáries em adulto? (efeito secundário de xerostomia). - Erro comum: subestimar a xerostomia como "só um incómodo".

NOTAS DO PROFESSOR - Fazer o ciclo completo no quadro: açúcar mais bactéria dá ácido, ácido desmineraliza o esmalte. - Erro comum: achar que "um dente com uma manchinha" não é nada de especial. A mancha branca é o sinal mais precoce e reversível. - Exemplo: comparar a frequência de ingestão de açúcar (beber um refrigerante ao longo da tarde) com a quantidade total, o primeiro é pior para a cárie.

NOTAS DO PROFESSOR - Sublinhar: frequência de exposição ao açúcar pesa mais do que a quantidade total ingerida de uma vez. - Erro comum: aconselhar só "escovar mais" sem falar da dieta. - Pergunta: porque é que uma criança que "belisca" doces o dia todo tem mais risco do que uma que come um doce grande ao almoço?

NOTAS DO PROFESSOR - Ligar à lista de medicamentos: pedir exemplos de classes que a turma já conhece de outras UCs. - Erro comum: aconselhar um elixir com álcool a quem já tem a boca seca, isso agrava a secura. - Exemplo: um idoso polimedicado que se queixa de "boca colada" ao acordar, é xerostomia noturna.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a diferença entre sensibilidade generalizada (aconselhamento) e dor localizada num só dente (encaminhar). - Erro comum: culpar sempre o "frio" quando pode ser um dente com cárie profunda. - Perguntar à turma: porque é que escovar com força "para limpar melhor" piora a sensibilidade? (desgasta esmalte e gengiva).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a discrição no balcão: é um tema que envergonha muitos utentes. - Erro comum: assumir logo uma causa digestiva, quando a maioria dos casos é oral. - Exemplo/analogia: a língua funciona como um "tapete" onde as bactérias se acumulam, por isso precisa de limpeza própria.

NOTAS DO PROFESSOR - Reforçar: elixir nunca substitui a escovagem, é complemento. - Erro comum: recomendar só pastilhas ou rebuçados, que mascaram sem tratar a causa. - Pergunta: um utente já escova a língua e usa fio, e a halitose mantém-se, o que fazer? (encaminhar).

NOTAS DO PROFESSOR - Distinguir claramente os três tipos com exemplos do dia a dia (queda de bicicleta, bola na cara). - Erro comum: achar que só a avulsão é urgência, a luxação também precisa de avaliação rápida. - Perguntar: qual destes três dá para "esperar até amanhã"? (nenhum, todos beneficiam de avaliação rápida, mas a avulsão é a mais urgente).

NOTAS DO PROFESSOR - Simular o cenário na sala: "chega um pai com o filho e o dente na mão", pedir aos alunos os passos por ordem. - Erro comum: guardar o dente seco num lenço de papel, a raiz morre em minutos fora de um meio húmido. - Exemplo: o leite é uma alternativa acessível e eficaz quando não há soro fisiológico à mão.

NOTAS DO PROFESSOR - Ligar aos utilizadores de inaladores: é um exemplo transversal a outras UCs de aconselhamento. - Erro comum: confundir as placas da candidíase com restos de leite num bebé, os restos de leite saem facilmente ao limpar, as placas da candidíase aderem mais à mucosa. - Exemplo: um idoso que dorme sempre com a prótese colocada tem risco muito maior de candidíase.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar o prazo de cicatrização como critério prático de encaminhamento. - Erro comum: confundir uma afta isolada com uma lesão de alarme, a maioria das aftas é banal e autolimitada. - Pergunta: que défice nutricional a turma associa a aftas de repetição? (ferro, vitamina B12, ácido fólico).

NOTAS DO PROFESSOR - Ligar ao contexto familiar: pais que perguntam se o filho pode voltar à creche. - Erro comum: confundir com varicela, os padrões de lesão e localização são diferentes. - Exemplo: reforçar que é uma doença viral, os antibióticos não têm indicação.

NOTAS DO PROFESSOR - Insistir: o técnico NUNCA diz "isto pode ser cancro" ao utente, apenas encaminha com calma para avaliação. - Erro comum: ignorar uma "afta que não sara" há mais de um mês, tratando-a sempre como afta comum. - Exemplo: perguntar sobre hábitos de tabaco e álcool ajuda a avaliar o risco, sem substituir a avaliação médica.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a quantidade reduzida de pasta nos mais pequenos, para limitar a ingestão de flúor. - Erro comum: achar que "os dentes de leite não importam, vão cair". Uma cárie de leite dói e pode afetar o dente definitivo. - Exemplo: o hábito de dormir com biberão de leite açucarado ou sumo é uma das causas mais frequentes de cárie precoce.

NOTAS DO PROFESSOR - Ligar ao bloco da cárie: a mesma lógica de prevenção, adaptada à idade. - Mencionar o cheque-dentista do SNS (Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral), que abrange crianças e jovens em determinadas idades, grávidas seguidas no SNS e idosos com complemento solidário; o utente confirma as regras no centro de saúde. - Erro comum: deixar a criança escovar sozinha demasiado cedo sem supervisão. - Pergunta: porque é que os selantes se aplicam nos molares e não nos dentes da frente? (são os dentes com mais sulcos e fissuras onde a placa se acumula).

NOTAS DO PROFESSOR - Desfazer o mito "a gravidez tira cálcio aos dentes", o que muda é a vulnerabilidade gengival hormonal, não a estrutura mineral do dente. - Erro comum: a grávida evitar ir ao dentista por achar que não é seguro. - Exemplo: comparar a gengivite gravídica com uma reação exagerada da gengiva à mesma quantidade de placa de sempre.

NOTAS DO PROFESSOR - Reforçar que "não escovar para não sangrar" é o erro mais comum, e agrava o problema. - Perguntar: porque é que a segunda parte da gravidez costuma ser preferida para procedimentos não urgentes? - Ligar ao bloco da comunicação: como tranquilizar uma grávida ansiosa sobre ir ao dentista.

NOTAS DO PROFESSOR - Ligar de volta ao bloco da xerostomia: rever a lista de medicamentos associados. - Erro comum: achar que, sem dentes naturais, a higiene oral deixa de ser importante. A prótese e a mucosa também precisam de cuidado. - Exemplo: um idoso com prótese mal ajustada e gengiva seca tem risco elevado de feridas e de candidíase.

NOTAS DO PROFESSOR - Fazer a turma listar, em conjunto, os "nunca fazer" com uma prótese (dormir com ela, usar pasta comum, água muito quente). - Erro comum: vender qualquer pasta dentífrica para limpar a prótese. - Pergunta: que afeção deste referencial está ligada a próteses mal higienizadas? (candidíase oral).

NOTAS DO PROFESSOR - Fazer uma demonstração com um modelo ou desenho da técnica correta. - Erro comum: trocar a escova só "quando está toda aberta", muito tarde para uma boa limpeza. - Ligar de volta ao bloco da sensibilidade dentária: a escovagem agressiva é uma das causas.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar o flúor como o "ingrediente ativo" que faz a diferença, não é só perfume e espuma. - Erro comum: recomendar pasta sem flúor "porque é mais natural", sem indicação para isso. - Pergunta: porque se usa menos pasta em crianças pequenas? (para reduzir a quantidade de flúor engolido).

NOTAS DO PROFESSOR - Mostrar fisicamente (ou em imagem) cada dispositivo, muitos alunos nunca usaram fio dentário. - Erro comum: achar que o irrigador substitui o fio dentário, é um complemento, não substituto. - Ligar ao bloco da halitose: reforçar o raspador lingual como medida eficaz.

NOTAS DO PROFESSOR - Fazer a turma classificar exemplos de rótulos reais (se disponíveis) segundo a tabela. - Erro comum: vender elixir com álcool a um utente que se queixa de boca seca. - Pergunta: um utente quer usar elixir com clorexidina "todos os dias, para sempre", o que respondes?

NOTAS DO PROFESSOR - Fazer um pequeno exercício de role play: explicar a um "pai" como cuidar da erupção dentária do bebé. - Erro comum: usar termos técnicos (leucoplasia, gengivite) sem explicar o que significam ao utente. - Ligar às atitudes do referencial: assertividade e empatia na comunicação.

NOTAS DO PROFESSOR - Ligar diretamente às atitudes do referencial: responsabilidade, rigor, respeito pela ética profissional. - Erro comum: dar uma opinião clínica definitiva só para "não desapontar" o utente. - Pergunta: um utente insiste que "só quer um remédio", mas a situação é claramente clínica, como responder com assertividade e empatia?

NOTAS DO PROFESSOR - Percorrer o protocolo com um caso completo (ex.: mãe com bebé a fazer erupção dentária). - Erro comum: saltar o passo de conferir sinais de alarme, indo direto à venda do produto. - Ligar ao critério de desempenho da UC: cumprir os procedimentos de conferência e dispensa.

NOTAS DO PROFESSOR - Fechar com este esquema de três perguntas como ferramenta prática para o resto do curso. - Erro comum: tratar o encaminhamento como "falha" do técnico, é precisamente o comportamento correto e seguro. - Anunciar as fichas e o mini-projeto: simulação de atendimentos reais em farmácia.