UC03176

Diagnosticar e reparar veículos híbridos e elétricos

Alta tensão, baterias, motores elétricos, diagnóstico e segurança

Curso profissional · 50h · Técnico de Mecatrónica Automóvel

Plano

  1. Veículos elétricos e híbridos — história e tipos
  2. Instalação elétrica de alta tensão
  3. Sistemas de propulsão e modos de operação
  4. Baterias de tração
  5. Carregamento
  6. Motores elétricos AC e DC
  7. Travagem regenerativa
  8. Inversor e controlo térmico
  9. Diagnóstico de avarias
  10. Manutenção e substituição de componentes
  11. Segurança na intervenção em AT
  12. Veículos acidentados

Bloco 1 · O que é um veículo eletrificado

História e evolução

  • Séc. XIX: primeiros elétricos a bateria; chegaram a ser maioria antes do motor a combustão vencer por autonomia e preço.
  • 1997 — Toyota Prius: primeiro híbrido produzido em massa; populariza a travagem regenerativa.
  • 2008-2012: baterias de ião-lítio tornam o elétrico moderno viável (Tesla Roadster, Nissan Leaf).
  • Hoje: eletrificação em massa por pressão ambiental (emissões, ruído) e melhoria da bateria (densidade, custo, carga rápida).

A eletrificação muda a oficina: menos peças móveis, mas alta tensão perigosa e novos métodos de diagnóstico.

Tipos de veículo eletrificado

Sigla Tipo Como funciona
HEV Híbrido Combustão + elétrico; bateria pequena; não liga à tomada
PHEV Híbrido plug-in Como o HEV mas bateria maior e carrega da rede
BEV 100% elétrico Só bateria e motor elétrico; sem motor a combustão
FCEV Célula de combustível Produz eletricidade a partir de hidrogénio

Um HEV pode ser série (combustão só gera eletricidade), paralelo (ambos movem as rodas) ou misto (série-paralelo, ex.: Prius).

Cores e níveis de tensão

  • Baixa tensão (12/48 V): rede tradicional — luzes, ECU, conforto.
  • Alta tensão (AT): ~100 a 800 V DC — tração. Perigo de morte.
  • Convenção universal: cabos e conectores de AT são LARANJA.

Nunca tocar em cablagem laranja sem seguir o procedimento de corte e verificação de ausência de tensão do fabricante.

Bloco 2 · Instalação elétrica de alta tensão

Componentes da rede AT

  • Bateria de tração (HV) — fonte de energia.
  • Cabos de AT (laranja) — blindados, secção elevada.
  • Caixa de junção / Service Disconnect — seccionador manual de segurança.
  • Contactores (relés de potência) — ligam/desligam a bateria ao resto sob comando do BMS.
  • Inversor — converte DC ↔ AC para o motor.
  • Conversor DC/DC — alimenta a rede de 12 V a partir da AT.
  • Carregador de bordo (OBC) — converte AC da rede em DC para a bateria.

Dispositivos de proteção

  • Fusíveis pirotécnicos / de potência — cortam a AT numa sobrecorrente ou colisão.
  • Contactores de potência — abrem a AT sempre que a ignição desliga (a bateria fica "isolada" em repouso).
  • Interlock (HVIL): circuito de segurança em série por todos os conectores AT; se um conector é aberto, o sistema corta a AT.
  • Monitorização de isolamento: o BMS mede continuamente a resistência entre a AT e a carroçaria (chassis); queda = fuga = avaria.

Esquemas elétricos

  • Ler sempre o esquema do fabricante antes de intervir.
  • Identificar no esquema: bateria HV, contactores, fusível principal, inversor, DC/DC, OBC, HVIL.
  • Localizar o ponto de corte de serviço (service plug) e o procedimento de shutdown.
[Bateria HV] --contactores--> [Inversor] --3 fases AC--> [Motor]
     |                                                     
     +--> [DC/DC] --> rede 12V        [OBC] <-- tomada AC (PHEV/BEV)

Bloco 3 · Propulsão e baterias

Sistemas de propulsão

  • BEV: um ou mais motores elétricos; tração dianteira, traseira ou AWD (motor por eixo).
  • HEV série: roda só o motor elétrico; a combustão é gerador.
  • HEV paralelo: motor elétrico assiste a combustão nas acelerações.
  • HEV misto (Prius): repartidor planetário distribui potência entre combustão e elétrico conforme o regime.

Modos de operação: arranque elétrico → assistência → travagem regenerativa → recarga → só combustão em autoestrada.

Baterias de tração — tipos

Química Onde Notas
Chumbo-ácido 12 V auxiliar Barata, pesada, baixa densidade
Ni-MH (hidreto metálico de níquel) HEV antigos (Prius) Robusta, segura, densidade média
Ião-lítio (Li-ion) BEV/PHEV modernos Alta densidade; requer BMS e gestão térmica

Célula → módulo → pack. A tensão do pack = soma das células em série (ex.: 96 células × 3,7 V ≈ 355 V).

BMS e arrefecimento

  • BMS (Battery Management System): equilibra células (balancing), mede tensão/temperatura, protege de sobrecarga e sobredescarga, e faz a monitorização de isolamento.
  • SOC = estado de carga (%); SOH = estado de saúde (capacidade restante).
  • Arrefecimento da bateria: por ar, por líquido (mais comum) ou por refrigerante do A/C. Manter a bateria na janela térmica (~20-40 °C) prolonga a vida e permite carga rápida.

Carregamento

Modo Corrente Onde
AC lento (Modo 2/3) monofásico/trifásico casa, poste; usa o OBC do carro
DC rápido (Modo 4) contínua direta ao pack posto rápido; ignora o OBC
  • Conectores: Type 2 (AC, Europa), CCS Combo 2 (AC+DC), CHAdeMO (DC, japonês).
  • A carga rápida aquece a bateria → o BMS limita a potência para proteger as células.

Bloco 4 · Motores, regeneração e inversor

Motor AC (assíncrono e síncrono)

  • Corrente alternada trifásica gerada pelo inversor.
  • Assíncrono (indução): robusto, barato, sem ímanes; escorregamento entre campo e rotor.
  • Síncrono de ímanes permanentes (PMSM): mais eficiente e compacto; usa ímanes de terras raras. Dominante nos BEV atuais.
  • Controlo de binário e velocidade pela frequência e amplitude das 3 fases.

Motor DC e comando

  • Motor DC: simples de controlar (tensão ↔ velocidade), mas tem escovas e coletor que se desgastam.
  • Usado em auxiliares (ventiladores, bombas, arranque) e em veículos elétricos mais antigos/pequenos.
  • Comando por PWM (modulação por largura de impulso): varia a tensão média para controlar a rotação.

Travagem regenerativa

  • Ao travar, o motor funciona como gerador: transforma a energia cinética em eletricidade e recarrega a bateria.
  • Reduz o desgaste dos travões de atrito e aumenta a autonomia.
  • Combina-se com o travão hidráulico (blending): a ECU decide quanto vem da regeneração e quanto dos calços.
  • Limitada com bateria cheia ou muito fria.

Inversor

  • Converte a DC da bateria em AC trifásica para o motor (e o inverso na regeneração).
  • Usa transístores de potência (IGBT / SiC) comutados a alta frequência.
  • Controlo de temperatura: os semicondutores aquecem muito → circuito de arrefecimento líquido dedicado; sensores cortam potência em sobreaquecimento.
  • Avaria comum: falha de um transístor → códigos de binário/potência limitados.

Bloco 5 · Diagnóstico

Ferramentas e métodos

  • Equipamento de diagnóstico (OBD/scan tool):DTC (códigos de avaria), SOC/SOH, temperaturas, tensões de módulo.
  • Multímetro CAT III/IV com pontas isoladas — medições de tensão/continuidade em AT.
  • Megóhmetro: teste de isolamento (resistência AT → chassis; deve ser ≫ MΩ).
  • Pinça amperimétrica: medir correntes sem cortar o cabo.
  • Câmara térmica: detetar pontos quentes (contactos, células).

Fluxo de diagnóstico

  1. Ler os DTC e os dados em tempo real (SOC, temperaturas, tensões de célula).
  2. Reproduzir/confirmar a avaria.
  3. Consultar o esquema e o procedimento do fabricante.
  4. Isolar a AT (procedimento de corte) antes de medir com contacto.
  5. Medir isolamento, continuidade e tensões ponto a ponto.
  6. Comparar com valores nominais → localizar o componente.
  7. Reparar/substituir e validar (limpar códigos, testar).

Avarias típicas

  • Perda de isolamento (fuga AT→chassis): humidade, cabo danificado, célula.
  • Célula/módulo degradado: SOH baixo, desequilíbrio de tensões.
  • Contactor colado ou queimado.
  • Falha do inversor (transístor) → binário limitado.
  • Sobreaquecimento por falha do circuito de arrefecimento.
  • Erros de comunicação CAN entre BMS, inversor e ECU.

Bloco 6 · Manutenção e segurança

Manutenção e substituição

  • Líquido de arrefecimento da bateria/inversor: verificar nível e estado; purgar segundo o fabricante.
  • Filtros e válvulas do circuito térmico.
  • Software/BMS: atualizações e recalibração de SOC.
  • Substituição de módulos da bateria: só com AT cortada, EPI e ferramenta isolada; respeitar binários e sequência.
  • Travões: menos desgaste (regeneração) mas vigiar corrosão por pouco uso.

Riscos e EPI

  • Riscos: eletrocussão (AT DC), arco elétrico, queimaduras, curto-circuito por ferramenta metálica, gases/eletrólito de bateria, energia armazenada mesmo com carro desligado.
  • EPI: luvas isolantes classe 0 (1000 V) verificadas, viseira/óculos, calçado isolante, ferramenta isolada VDE.
  • Nunca trabalhar sozinho em AT; sinalizar o posto.

Procedimento de corte da AT

  1. Desligar a ignição e retirar a chave; sinalizar "não ligar".
  2. Vestir EPI e usar ferramenta isolada.
  3. Retirar/acionar o service disconnect (seccionador) conforme o manual.
  4. Aguardar o tempo indicado (descarga dos condensadores do inversor).
  5. Verificar ausência de tensão com o multímetro (num ponto de teste conhecido).
  6. Só então intervir. Repor pela ordem inversa e revalidar isolamento.

Veículos acidentados/danificados

  • Tratar como energizado até prova em contrário.
  • Risco de incêndio de bateria (thermal runaway): pode reacender horas depois; grandes volumes de água / arrefecimento e vigilância.
  • Não cortar cablagem laranja; identificar pontos de corte de segurança do fabricante.
  • Seguir a ficha de resgate do modelo (localização da bateria, airbags, pontos de corte).

Síntese

  • Alta tensão = perigo de morte: corte, EPI e verificação de ausência de tensão são obrigatórios.
  • Bateria (Li-ion/Ni-MH) + BMS + gestão térmica são o coração do VE.
  • O inversor converte DC↔AC e comanda o motor; a regeneração recupera energia.
  • Diagnóstico = DTC + esquema + medições (isolamento, continuidade, corrente, temperatura).
  • Em veículo acidentado, assumir energizado e seguir a ficha de resgate.

Obrigado

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Segue para a sebenta, as fichas e o projeto.