UC03175

Localizar falhas e substituir componentes em sistemas multiplexados

Redes CAN, LIN e FlexRay · diagnóstico com OBD · leitura de DTC · substituição de UCE

Curso profissional · 25h · Mecatrónica Automóvel

Plano

  1. Porque é que os automóveis são multiplexados
  2. Do cablagem ponto-a-ponto à rede
  3. Barramento CAN — como funciona
  4. Barramento LIN e FlexRay
  5. Unidades eletrónicas de comando (UCE)
  6. Sensores e atuadores na rede
  7. Documentação técnica e esquemas
  8. Equipamento de diagnóstico
  9. Ler e interpretar códigos de avaria (DTC)
  10. Método de diagnóstico passo-a-passo
  11. Medições com multímetro e osciloscópio
  12. Substituir e codificar componentes
  13. Registo da intervenção
  14. Segurança e EPI

Bloco 1 · Do fio à rede

Porque multiplexar?

Um automóvel moderno tem dezenas de módulos (motor, ABS, airbags, climatização, luzes, painel...) que precisam de partilhar informação.

  • Ligar tudo ponto-a-ponto (um fio por sinal) daria quilómetros de cablagem, pesada e cara.
  • Multiplexar = fazer vários módulos partilharem um mesmo par de fios (o barramento), comunicando por mensagens digitais.

Vantagens: menos peso e cobre, menos fichas, diagnóstico centralizado, novas funções por software.
Desvantagem: uma falha na rede pode afetar vários sistemas ao mesmo tempo.

Ponto-a-ponto vs multiplexado

Cablagem clássica Sistema multiplexado
Fios 1 por sinal 2 partilhados (barramento)
Peso/custo Alto Baixo
Diagnóstico Manual, fio a fio Centralizado (OBD)
Nova função Novo fio Novo software
Falha típica Local Pode ser em rede

A mesma informação (ex.: rotação do motor) circula uma vez no barramento e é lida por todos os módulos que precisam dela.

Bloco 2 · O barramento CAN

CAN — a espinha dorsal

CAN (Controller Area Network) é a rede mais usada no automóvel.

  • Dois fios entrançados: CAN-H e CAN-L.
  • Comunicação diferencial: o valor lê-se pela diferença entre os dois fios → grande imunidade ao ruído.
  • Duas resistências de 120 Ω nas pontas → ~60 Ω medidos aos terminais (teste rápido!).
  • Sem endereço de destino: cada mensagem tem um identificador; cada módulo decide se lhe interessa.
CAN-H ─────┬───────────┬───────────┬─────
          UCE1        UCE2        UCE3
CAN-L ─────┴───────────┴───────────┴─────
   120Ω                              120Ω

Níveis e velocidades

  • Recessivo (1): CAN-H ≈ CAN-L ≈ 2,5 V (diferença ~0 V).
  • Dominante (0): CAN-H ≈ 3,5 V, CAN-L ≈ 1,5 V (diferença ~2 V).
Rede Velocidade típica Uso
CAN High-Speed 500 kbit/s Motor, ABS, caixa
CAN Low-Speed 125 kbit/s Conforto, painel
CAN FD até 5 Mbit/s Redes modernas

O nó com identificador de menor valor ganha o barramento em caso de conflito → arbitragem sem colisões.

LIN e FlexRay

  • LIN (Local Interconnect Network)

    • 1 fio + massa, lento (~20 kbit/s), barato.
    • Arquitetura mestre-escravo (um mestre gere vários escravos).
    • Subsistemas simples: espelhos, vidros, sensores de chuva, ventilação.
  • FlexRay

    • Rápido (~10 Mbit/s), determinístico e redundante.
    • Sistemas críticos: direção, suspensão ativa, x-by-wire.
  • MOST / Ethernet automóvel — multimédia e assistência à condução (grandes volumes de dados).

O carro tem várias redes interligadas por um módulo gateway.

Bloco 3 · Componentes da rede

Unidade eletrónica de comando (UCE)

A UCE (ECU) é um computador dedicado a uma função.

  • sensores, decide, comanda atuadores.
  • Comunica no barramento e guarda códigos de avaria.
  • Exemplos: UCE do motor, ABS/ESP, airbags, BCM (carroçaria), painel.
  • O gateway liga as diferentes redes e faz a ponte com a ficha de diagnóstico.

Codificação: muitas UCE novas precisam de ser configuradas/codificadas ao veículo (VIN, equipamento, país) antes de funcionarem.

Sensores e atuadores

  • Sensores (entradas) — convertem uma grandeza física em sinal elétrico:
    • Rotação/posição (indutivos, efeito Hall), temperatura (NTC), pressão, oxigénio (sonda lambda), caudal de ar.
  • Atuadores (saídas) — convertem sinal em ação:
    • Injetores, bobinas, relés, motores passo-a-passo, eletroválvulas, lâmpadas.

Muitos ligam diretamente à UCE (não ao barramento). A UCE é que coloca essa informação na rede.

Distinguir sempre: falha do sensor/atuador vs falha da rede vs falha da UCE.

Bloco 4 · Documentação e equipamento

Documentação técnica

Nunca se diagnostica "de cabeça". Antes de tudo, consultar o fabricante:

  • Esquemas elétricos — fios, cores, pinos, fichas, massas.
  • Topologia da rede — que módulos existem e como estão ligados.
  • Localização de componentes e vias de acesso.
  • Valores de referência (resistências, tensões, formas de onda).
  • Boletins técnicos (TSB) e procedimentos de substituição/codificação.

Fontes: manual de oficina, plataformas do fabricante, bases técnicas (ex.: Autodata, Haynes Pro).

Equipamento de diagnóstico

  • Máquina de diagnóstico (scan tool / OBD):
    • Lê e apaga DTC, mostra parâmetros em tempo real (live data), faz testes de atuadores, codifica módulos.
  • Multímetro — tensão, resistência, continuidade, massas.
  • Osciloscópio — ver a forma de onda do CAN e de sensores (o que o multímetro não mostra).
  • Fonte/alimentador, caixa de ruptura (breakout box), lâmpada de teste LED (nunca de filamento em eletrónica).

Bloco 5 · Diagnóstico

Códigos de avaria (DTC)

Formato OBD-II: uma letra + 4 dígitos, ex.: P0341, U0100.

Letra Sistema
P Powertrain (motor/caixa)
B Body (carroçaria)
C Chassis (travões, suspensão)
U Rede / comunicação
  • Códigos U (ex.: U0100 — perda de comunicação com a UCE do motor) apontam para problema de rede.
  • Distinguir ativo (presente agora) de memorizado/histórico.
  • Ler o freeze frame (condições no momento da falha).

Método passo-a-passo

  1. Entrevistar o cliente e reproduzir o sintoma.
  2. Inspeção visual — fichas, cablagem, corrosão, massas, fusíveis.
  3. Ligar o scan tool → ler DTC em todos os módulos.
  4. Ver live data e freeze frame; interpretar com o esquema.
  5. Isolar: sensor/atuador? cablagem? UCE? rede?
  6. Medir (multímetro/osciloscópio) e comparar com a referência.
  7. Reparar/substituir e, se preciso, codificar.
  8. Apagar DTC, testar em estrada, confirmar.

Nunca substituir por "tentativa". Confirmar a causa antes de trocar.

Medir a rede CAN

Teste rápido de terminação (chave off, bateria desligada):

  • Medir resistência entre CAN-H e CAN-L → deve dar ~60 Ω.
    • 120 Ω → falta uma resistência de terminação (rede aberta).
    • ∞ / muito alto → barramento cortado.
    • ~0 Ωcurto entre os dois fios.

Com osciloscópio (chave on): ver os dois traços a comutar entre ~1,5 V e ~3,5 V, espelhados. Um traço "morto" ou fora de nível revela o fio/nó em falha.

Erros comuns de diagnóstico

  • Trocar a UCE quando o problema era massa ou ficha oxidada.
  • Ignorar vários DTC U que apontam todos para o mesmo nó (o gateway).
  • Apagar os códigos antes de os registar.
  • Usar lâmpada de filamento em circuitos eletrónicos → picos que danificam módulos.
  • Não desligar a bateria antes de mexer em airbags/eletrónica.

Bloco 6 · Substituir e registar

Substituir um componente em rede

  1. Confirmar a avaria e a referência da peça (esquema + VIN).
  2. Segurança: chave off, desligar a bateria (esperar o tempo do fabricante nos airbags).
  3. Substituir com a peça correta (nova ou compatível codificável).
  4. Codificar/configurar a UCE ao veículo se necessário.
  5. Fazer adaptações/calibrações (ex.: ângulo de direção, TPS).
  6. Apagar DTC e testar o sistema completo.

Uma UCE trocada mas não codificada dá novos DTC e o sistema não funciona.

Registar a intervenção

O registo é obrigatório e protege oficina e cliente:

  • Veículo: marca, modelo, VIN, matrícula, km.
  • Sintoma relatado e DTC lidos (com descrição).
  • Testes feitos e valores medidos.
  • Causa identificada.
  • Peças substituídas (referência) e codificações.
  • Resultado do teste final (DTC apagados, sem retorno).

Bom registo = histórico, garantia e diagnóstico mais rápido no futuro.

Segurança e EPI

  • Sistemas de alta tensão (híbridos/elétricos): só com formação e EPI específico — luvas isolantes, ferramentas isoladas.
  • Desligar a bateria e respeitar o tempo de descarga (airbags/condensadores).
  • EPI: óculos, luvas, calçado de segurança; extração de gases em teste com motor.
  • Nunca forçar fichas; usar as ferramentas de extração corretas.
  • Cumprir os procedimentos de SST e de gestão de resíduos (peças eletrónicas).

Síntese

  • Multiplexar = módulos que partilham um barramento (CAN, LIN, FlexRay).
  • CAN é diferencial, 2 fios, ~60 Ω de terminação, arbitragem por identificador.
  • DTC U → problema de rede; distinguir sensor/atuador/UCE/cablagem.
  • Diagnosticar com método: visual → DTC → live data → medir → confirmar.
  • Substituir com a peça certa e codificar; registar sempre.
  • Segurança primeiro: bateria, tempos de descarga, EPI.

UC03175

Localizar falhas e substituir componentes em sistemas multiplexados

Bom diagnóstico. Confirma a causa antes de trocar.