UC03169

Reparar sistemas de transmissão automática

Caixas automáticas, robotizadas e CVT — diagnóstico, reparação e ensaios

Curso profissional · 50h · Mecatrónica Automóvel

Plano

  1. Função da transmissão e tipos
  2. Caixa automática conversora
  3. Conversor de binário
  4. Robotizadas: AMT e DCT/DSG
  5. CVT — variação contínua
  6. Sensores, solenoides e seletor eletrónico
  7. Diagnóstico: método e dados
  8. Manutenção e reparação
  9. Ensaios de funcionamento
  10. Ferramentas, registos e segurança

Bloco 1 · Tipos e funcionamento

O que faz a transmissão

A transmissão liga o motor às rodas e tem três missões:

  • Multiplicar o binário — relações de caixa para arrancar e subir.
  • Adaptar a rotação do motor à velocidade do veículo.
  • Permitir arranque, paragem e marcha-atrás.

Na manual, o condutor escolhe a relação e aciona a embraiagem.
Na automática, essas decisões passam para o sistema mecânico + hidráulico + eletrónico da caixa.

As quatro famílias

Tipo Muda de relação Arranque
AT (conversora) Trens epicicloidais + embraiagens Conversor de binário
DCT/DSG Duas árvores, engrenagens fixas Duas embraiagens
AMT (robotizada) Manual com atuadores Embraiagem simples
CVT Polias de raio variável + correia Conversor ou embraiagem

Identificar a família é o 1.º passo do diagnóstico — define sintomas, óleo, ferramentas e ensaios.

Caixa automática conversora (AT)

Quatro subsistemas a trabalhar juntos:

  1. Conversor de binário — acopla o motor por via hidráulica e multiplica binário.
  2. Trens epicicloidais — planeta + satélites + porta-satélites + coroa → geram as relações.
  3. Embraiagens/travões multidisco — prendem/libertam elementos por pressão de óleo.
  4. Valve body + bomba + TCU — a bomba cria pressão, os solenoides distribuem-na, a TCU decide.

Cada relação = uma combinação de embraiagens/travões acionados.

O fluido ATF — quatro papéis

O ATF é ao mesmo tempo:

  • Fluido hidráulico — transmite a pressão que aciona tudo.
  • Lubrificante e refrigerante.
  • Meio de fricção — define o atrito dos discos → afeta as mudanças.

Consequências práticas:

  • Usar exatamente a especificação do fabricante.
  • ATF escuro / a queimado = sobreaquecimento e desgaste.
  • "Fill for life" na teoria; substituição preventiva prolonga a vida.

Bloco 2 · Conversor de binário

Três elementos, um acoplamento hidráulico

  • Bomba (impulsor) — solidária com o motor; lança o óleo por força centrífuga.
  • Turbina — ligada à entrada da caixa; é empurrada e roda.
  • Estator — com roda-livre; redireciona o óleo e multiplica o binário.

Fases:

  1. Stall — veículo parado, motor a rodar: máxima multiplicação, muito deslize, óleo aquece.
  2. Acoplamento — turbina ≈ bomba (≈1:1).
  3. Lock-up (TCC) — embraiagem interna bloqueia e elimina o deslize.

Avarias do conversor

Sintoma Causa provável
Falta de força / deslize Roda-livre do estator; ATF baixo
Trepidação a velocidade constante Lock-up a patinar (shudder); ATF/solenoide TCC
Ruído metálico ao acelerar Rolamentos/palhetas danificados

Regra: o conversor é selado → repara-se por substituição, nunca se abre na oficina geral.

Bloco 3 · Robotizadas e CVT

AMT vs DCT/DSG

AMT (embraiagem simples)

  • Caixa manual + atuadores da embraiagem e dos garfos, comandados pela TCU.
  • Barata; mas corte de binário sentido na mudança.
  • Avarias: embraiagem gasta, atuadores/sensores descalibrados, pontos por reaprender.

DCT/DSG (dupla embraiagem)

  • Duas subcaixas: ímpares e pares, cada uma com a sua embraiagem.
  • Relação seguinte pré-selecionada → mudança quase sem corte.
  • Seca (binário menor) ou em banho de óleo (binário alto, com mecatrónica).

Avarias típicas DCT e CVT

DCT/DSG

  • Trepidação no arranque (judder) → embraiagem/ponto de embraiagem.
  • Solavancos / modo de emergência → mecatrónica ou sensores.
  • Sobreaquecimento (seca) em trânsito → uso/projeto.

CVT (polias + correia; muito sensível ao óleo)

  • Rotação sobe sem resposta → correia desliza / pressão baixa.
  • Zumbido que cresce com a velocidade → rolamentos/correia.
  • Fluido CVT específico — nunca ATF comum; enchimento a temperatura controlada + reset.

Sensores, solenoides e seletor eletrónico

Componente Falha provoca
Sensor rotação entrada/saída Mudanças erradas, DTC de relação
Sensor temperatura ATF Modo de emergência com calor
Sensor posição seletor Não arranca / marcha errada
Solenoides (pressão/mudança/TCC) Mudanças bruscas, sem lock-up

Seletor eletrónico (shift-by-wire): alavanca lida por sensores → TCU aciona a caixa.
Avarias: contactos/sensor sujo, software. Reparar exige procedimento e calibração — não desmontar às cegas.

Bloco 4 · Diagnóstico e reparação

Método de diagnóstico

  1. Ouvir o cliente e reproduzir — frio/quente? que velocidade/relação? luz acesa?
  2. Inspeção visualnível e estado do ATF, fugas, ligações.
  3. Ler a TCUDTC + live data (rotações, temp., pressão, deslize, correntes).
  4. Interpretar os DTC com o manual → árvore de diagnóstico (o código é pista, não sentença).
  5. Testes dirigidos — stall, pressão de linha, estrada com registo.
  6. Isolar a causa — mecânica / hidráulica / elétrica.

Começa pelo mais provável e barato: óleo, ligações, software.

Manutenção e reparação

Preventiva

  • Substituir ATF/fluido CVT (especificação + método corretos), nível à temperatura indicada.
  • Filtro novo, limpar cárter/íman (limalha = desgaste), verificar fugas e software.

Corretiva — princípios

  • Trabalhar limpo; seguir o esquema de montagem (mecânico + elétrico); fotografar/etiquetar.
  • Binários de aperto e sequências (chave dinamométrica); vedantes novos.
  • Substituir discos gastos/queimados; limpar/substituir valve body/solenoides.
  • Conversor → substituir. No fim: encher + calibrar/adaptar.

Ensaios de funcionamento

  • Estático — nível, estanquidade, sem DTC ativos após limpar memória.
  • Stall test (breve, do manual) — rotação de stall dentro do intervalo.
  • Pressão de linha — comparar com o manual nas várias relações.
  • Rampa/elevador — mudanças, ruídos, fugas com rodas livres.
  • Estrada com registo — mudanças suaves e no timing, lock-up a fechar, temperatura estável, sem modo de emergência.

Aceitação: suave e firme, sem ruídos/fugas/DTC ativos, temperaturas normais.

Ferramentas, registos e segurança

  • Diagnóstico (scan tool do fabricante), manómetros, termómetro, chave dinamométrica, suporte de caixa, máquina de ATF.
  • Manuais e fichas técnicas = a fonte da verdade (valores, sequências, quantidades).
  • Sistema informático da oficina — OR, sintomas, DTC, peças, fluidos, ensaios.
  • Limpeza com produtos/técnicas adequados (não atacar vedantes nem superfícies de fricção).
  • Segurança: EPI, imobilizar o veículo, cuidado com óleo quente e rotação; ATF e filtros = resíduo perigoso → operador licenciado.

Recapitulando

  • Quatro famílias (AT, DCT/DSG, AMT, CVT) — cada uma avaria e repara-se à sua maneira.
  • Conversor faz o arranque hidráulico; lock-up tira o deslize.
  • Fluido correto e o seu estado = fator n.º 1 de fiabilidade (sobretudo CVT).
  • Diagnostica com método: sintoma → óleo → DTC + live data → testes → causa.
  • Repara limpo, com manual, binários e vedantes; substitui conversores; adapta no fim.
  • Ensaia sempre e regista; EPI e resíduos fazem parte do trabalho.

Próximo: fichas e mini-projeto — do sintoma à caixa ensaiada.