UC02955

Efetuar a montagem e ensaio de circuitos de eletrónica de potência

Curso profissional · 25h · TMIM

Índice

  1. Dispositivos de Potência — díodo, tiristor (SCR), TRIAC, MOSFET, IGBT — características, ratings, encapsulamentos
  2. Rectificação Controlada — rectificador monofásico com SCR (meia onda, onda completa), ângulo de disparo α
  3. Controlo de Potência AC — TRIAC com DIAC, controlo de fase, dimmer, controlo de motor universal
  4. Conversores DC-DC — buck (abaixador), boost (elevador), buck-boost — operação, cálculo L e C
  5. Inversores — pontes H (full bridge), modulação PWM, driver de porta, dead time
  6. Dissipação Térmica — cálculo de temperatura de junção, resistência térmica, pasta térmica, ventilação

Bloco 1

Dispositivos de Potência

Família de Semiconductores de Potência

Dispositivo Símbolo Tensão (V) Corrente (A) Velocidade Aplicação
Díodo rectificador D 50–5000 1–3000 Média Rectificação, freewheeling
Díodo Schottky DS 20–200 1–100 Alta Conversores DC-DC
SCR (tiristor) T 200–6000 10–3000 Baixa Rectificadores controlados
TRIAC TRIAC 200–800 10–40 Baixa Dimmers, controlo AC
MOSFET potência M 20–1200 1–200 Muito alta Conversores DC-DC, inversores < 100kHz
IGBT IGBT 600–6500 10–3000 Alta Inversores industriais, tração

MOSFET vs. IGBT — Quando Usar Cada Um

MOSFET de potência:

  • Controlo por tensão (V_GS): sem corrente de gate em estado estacionário
  • R_DS(on) aumenta com a temperatura → auto-limitante
  • Excelente para altas frequências (> 100 kHz) — conversores switching
  • Aplicação: conversores DC-DC, carregadores, fontes comutadas

IGBT:

  • Tensão de condução quase constante com temperatura (0,7–2V)
  • Menor V_CE(sat) que MOSFET para correntes elevadas
  • Frequência máxima: 20–50 kHz (tempo de desbloqueo t_off)
  • Aplicação: inversores de motor (VFDs), UPS, tracção eléctrica

Encapsulamentos comuns:

  • TO-247: MOSFET/IGBT discreto (coleções de peças)
  • SOT-223, D2PAK: SMD de potência média
  • Módulo IPM/IGBT: integração de múltiplos IGBTs com driver

Bloco 2

Rectificação Controlada com SCR

Rectificador Monofásico com SCR

Meia onda controlada:

O SCR só conduz no semiciclo positivo quando o ângulo de gate α é atingido:

Onde V_m é o valor de pico da tensão e α é o ângulo de disparo (0° a 180°)

α (°) V_med / V_m
0,318 (sem controlo)
30° 0,299
60° 0,239
90° 0,159
120° 0,080
180° 0

Rectificador de Onda Completa com 4 SCRs (Ponte de Graetz)

Dois SCRs por semiciclo:

Para α = 0° e V_ef = 230 VAC: V_med = 0,9 × 230 = 207 V DC

Para α = 60°: V_med = 0,9 × 230 × cos(60°) = 207 × 0,5 = 103,5 V DC

Circuito de disparo (trigger circuit):

  • Detector de passagem por zero (zero-crossing detector)
  • Circuito RC de temporização para gerar o ângulo α
  • Circuito de isolamento (optocoupler) entre circuito de trigger (baixa tensão) e gate do SCR (alta tensão)

Bloco 3 e 4

Controlo AC e Conversores DC-DC

TRIAC e Controlo de Fase AC

Funcionamento do TRIAC:

  • Conduz em ambos os semiciclos (bilateral)
  • Disparado pelo DIAC (componente bilateral de limiar)
  • Circuito RC determina o ângulo de disparo (fase)

Aplicação — Dimmer de luz:

230V AC ─── R_potênciometro ──── C ──┬──── TRIAC ──── Carga
                                      │
                                    DIAC
                                      │
                                   Gate TRIAC

Ao girar o potenciómetro, o RC altera o ângulo de disparo → mais ou menos potência entregue à lâmpada

Limitação: Dimmers resistivos com TRIAC não funcionam com lâmpadas LED (forma de onda distorcida); usar dimmers específicos para LED.

Conversores DC-DC — Buck (Abaixador)

Princípio de operação:

  • Switch ON: corrente cresce no indutor; energia armazenada; V_out < V_in
  • Switch OFF: díodo freewheeling conduz; indutor descarrega para a carga

Equações fundamentais:

Onde D é o duty cycle (0 a 1).

Cálculo do indutor (modo contínuo):

Cálculo do condensador de saída:

Conversor Boost (Elevador)

Para D = 0,5: V_out = 2 × V_in
Para D = 0,75: V_out = 4 × V_in

Cuidado: D próximo de 1 → V_out teoricamente infinita (na prática limitada por perdas)

Tabela comparativa:

Conversor V_out vs V_in Corrente de entrada Aplicação
Buck V_out < V_in Intermitente Reguladores, carregadores
Boost V_out > V_in Contínua Power Factor Correction, Painéis solares
Buck-boost Qualquer Intermitente Sistemas de bateria
Flyback (isolado) Qualquer (isolado) Intermitente Fontes comutadas com isolamento

Bloco 5 e 6

Inversores e Térmica

Inversor Monofásico em Ponte H

Topologia: 4 IGBTs/MOSFETs em configuração de ponte H

V+ ──┬────[S1]────┬────[S3]────┐
     │            │            │
    [S2]        CARGA         [S4]
     │            │            │
V- ──┴────────────┴────────────┘

PWM (Pulse Width Modulation):

  • Comparar a forma de onda de referência (seno) com portadora triangular de alta frequência
  • Onde seno > triângulo: S1+S4 conduzem; onde seno < triângulo: S2+S3 conduzem
  • f_PWM típica: 4–20 kHz (VFDs); 100 kHz+ (audio amplifiers)

Dead time: intervalo de protecção entre o off de um switch e o on do switch oposto no mesmo braço → evita curto-circuito; tipicamente 500 ns a 5 µs

Dissipação Térmica

Cadeia térmica:

Onde:

  • T_j = temperatura de junção [°C]
  • T_a = temperatura ambiente [°C]
  • P_d = potência dissipada [W]
  • R_th,jc = resistência térmica junção-cárter [°C/W]
  • R_th,cs = resistência térmica cárter-dissipador [°C/W]
  • R_th,sa = resistência térmica dissipador-ar [°C/W]

Pasta térmica: preenche as micro-irregularidades entre o componente e o dissipador → R_th,cs diminui de ~1°C/W para ~0,1°C/W

Exemplo: IGBT com P_d=25W, R_th,jc=0,5, R_th,cs=0,2, R_th,sa=1,5 °C/W, T_a=40°C:
T_j = 40 + 25 × (0,5 + 0,2 + 1,5) = 40 + 25 × 2,2 = 95°C (limite típico 150°C → OK)

Resumo da UC02955

Competências adquiridas:

  • Identificar dispositivos de potência (SCR, TRIAC, MOSFET, IGBT) e suas características
  • Calcular a tensão média de rectificadores controlados SCR para ângulo α dado
  • Dimensionar conversores DC-DC buck e boost (indutor, condensador)
  • Descrever o princípio de um inversor com modulação PWM
  • Calcular a temperatura de junção e dimensionar o dissipador térmico

Avaliação: Ficha 1 (cálculo rectificador SCR + dimensionar IGBT) + Ficha 2 (conversor buck + térmica MOSFET) + Projecto (construir conversor buck 10h)

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Família de semicondutores de potência Toda a eletrónica de potência se constrói com este punhado de dispositivos, e a escolha entre eles depende sempre de três eixos: tensão, corrente e velocidade de comutação. O díodo é passivo, o SCR e o TRIAC comutam à frequência da rede, enquanto MOSFET e IGBT comutam milhares de vezes por segundo. Memorizar as gamas típicas ajuda a reconhecer logo que dispositivo serve cada aplicação na bancada. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • A diferença entre dispositivos passivos (díodo) e comandados (SCR, MOSFET) • Porque é que a velocidade de comutação limita a aplicação de cada um • Reconhecer o dispositivo certo a partir dos requisitos de tensão e corrente

NOTAS DO PROFESSOR 📖 MOSFET vs IGBT: critério de escolha A regra prática é simples: alta frequência e baixa/média potência pedem MOSFET; alta potência e frequência moderada pedem IGBT. O MOSFET controla-se por tensão e o seu R_DS(on) sobe com a temperatura, o que o torna auto-limitante. O IGBT mantém uma queda de tensão quase constante, vencendo em correntes elevadas. É por isso que o inversor de um VFD usa IGBT e uma fonte comutada de portátil usa MOSFET. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Porque é que o R_DS(on) crescente com a temperatura ajuda a equilibrar MOSFETs em paralelo • A fronteira prática de frequência onde o IGBT deixa de ser competitivo • Ligar cada dispositivo a equipamento real (VFD, carregador, UPS)

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Rectificação controlada de meia onda A diferença entre um díodo e um SCR é o controlo: o SCR só conduz quando recebe o impulso de gate, e atrasar esse impulso (aumentar α) reduz a tensão média entregue à carga. É assim que se regula potência sem dissipar calor num reóstato. A tabela mostra de forma concreta como a tensão média cai à medida que o ângulo de disparo aumenta, chegando a zero a 180°. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • O conceito de ângulo de disparo e o papel do impulso de gate • Porque é que controlar por fase é muito mais eficiente que um reóstato • Ler a tabela α vs tensão média para prever a saída do rectificador

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Ponte de Graetz controlada e circuito de disparo A ponte completa aproveita os dois semiciclos, duplicando a tensão média face à meia onda, e os exemplos numéricos com 230 VAC dão números que o formando reconhece. Mas o destaque prático é o circuito de disparo: precisa de detetar a passagem por zero para se sincronizar com a rede e de isolamento ótico para separar o comando de baixa tensão da potência. Sem sincronismo correto, o ângulo α perde o ponto de referência. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Porque é que a ponte completa dá o dobro da tensão da meia onda • Função do detetor de passagem por zero no sincronismo com a rede • A razão de segurança para o isolamento ótico entre trigger e gate

NOTAS DO PROFESSOR 📖 TRIAC e controlo de fase em AC O TRIAC é o irmão bidirecional do SCR: conduz nos dois semiciclos, o que o torna ideal para controlar potência em corrente alternada, como num dimmer. O DIAC dispara-o quando o condensador RC atinge o limiar, e girar o potenciómetro muda o ângulo de fase. A limitação com LEDs é um ponto muito atual — vale a pena explicar porque é que a forma de onda recortada do TRIAC dá problemas com cargas eletrónicas. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Como o circuito RC e o DIAC definem o ângulo de disparo do TRIAC • Porque é que o TRIAC serve AC mas não DC • A razão técnica de os dimmers clássicos falharem com lâmpadas LED

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Conversor buck (abaixador) O buck é o conversor comutado mais comum e a sua equação V_out = D × V_in é enganadoramente simples: regular o duty cycle regula a tensão de saída sem dissipar energia, ao contrário de um regulador linear. O indutor e o condensador não são acessórios — dimensioná-los mal causa ripple excessivo ou modo descontínuo. Destacar o papel do díodo de roda livre que mantém a corrente no indutor quando o switch abre. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Porque é que o buck é muito mais eficiente que um regulador linear • O papel do indutor, do condensador e do díodo freewheeling em cada fase • Como o duty cycle controla diretamente a tensão de saída

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Conversor boost (elevador) e topologias O boost faz o oposto do buck: eleva a tensão, e a sua equação V_out = V_in/(1−D) mostra que a saída dispara quando D se aproxima de 1. Daí o aviso prático: na realidade as perdas limitam o ganho, e operar perto de D=1 é arriscado. A tabela comparativa fecha o bloco dando ao formando o critério de seleção entre buck, boost, buck-boost e flyback consoante a relação de tensões e a necessidade de isolamento. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Porque é que a tensão não chega de facto a infinito quando D tende para 1 • Aplicações reais do boost (correção de fator de potência, painéis solares) • Quando o isolamento galvânico obriga a escolher um flyback

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Inversor em ponte H e PWM A ponte H é o que transforma DC em AC e está no coração de qualquer VFD ou UPS. A modulação PWM cria a forma de onda comparando um seno de referência com uma portadora triangular — o formando deve perceber que a saída não é um seno perfeito, mas um trem de pulsos que a carga indutiva "alisa". O dead time é o detalhe crítico de segurança: sem ele, os dois switches do mesmo braço conduzem em simultâneo e dão curto-circuito direto na fonte. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Como a comparação seno/triângulo gera a largura de pulso variável • Porque é que a carga indutiva é essencial para suavizar a saída PWM • A função vital do dead time e o que acontece se for nulo (shoot-through)

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Dissipação térmica e temperatura de junção O calor é o inimigo número um da eletrónica de potência: um dispositivo bem dimensionado eletricamente arde na mesma se a térmica falhar. A cadeia de resistências térmicas funciona como resistências em série — a junção aquece sobre o ambiente em função da potência dissipada e da soma de todas as R_th. O exemplo numérico mostra o cálculo completo até T_j e a margem face ao limite. A pasta térmica é barata mas decisiva: reduz drasticamente a resistência cárter-dissipador. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Porque é que as resistências térmicas se somam em série como num circuito elétrico • O papel da pasta térmica e o erro de a aplicar a mais ou a menos • Como verificar a margem entre T_j calculada e o limite do datasheet