UC02953

Realizar a programação e a configuração de sistemas de automação industrial

Curso profissional · 25h · TMIM

Índice

  1. Automação Industrial — níveis (campo, controlo, supervisão, ERP), pirâmide de automação, Industry 4.0
  2. Programação PLC Avançada — IEC 61131-3 completo (LD, FBD, ST, IL, SFC), blocos de função, estruturas de dados
  3. HMI — design de ecrãs, alarmes, tendências, comunicação PLC-HMI (Siemens, Schneider)
  4. SCADA — arquitectura, OPC UA, tags, historiador, relatórios (Ignition, WinCC)
  5. Comunicação Industrial — PROFIBUS, PROFINET, Modbus TCP/RTU, EtherNet/IP, OPC DA/UA
  6. Comissionamento e Diagnóstico — download de programa, forçar I/O, diagnóstico de rede, cibersegurança IEC 62443

Bloco 1

Automação Industrial e Pirâmide ISA-95

Níveis da Automação Industrial

NÍVEL 4: ERP (SAP, Oracle)
  ├─ Planeamento, finanças, RH
  │  (comunicação: APIs, OPC UA)
NÍVEL 3: MES / SCADA
  ├─ Execução da produção, historiadores, relatórios
  │  (comunicação: OPC DA/UA, SQL, REST)
NÍVEL 2: Supervisão
  ├─ HMI, SCADA de processo, displays
  │  (comunicação: OPC DA, Modbus TCP)
NÍVEL 1: Controlo
  ├─ PLC, DCS, PAC
  │  (comunicação: PROFIBUS, PROFINET, DeviceNet)
NÍVEL 0: Campo
  └─ Sensores, actuadores, drives
     (comunicação: 4-20mA, HART, IO-Link)

Industry 4.0 e IoT Industrial

Pilares do Industry 4.0:

  • Cyber-Physical Systems (CPS): integração de sistemas físicos com computação
  • Industrial IoT (IIoT): sensores conectados, dados em tempo real
  • Big Data e Analytics: análise de dados de produção para optimização
  • Digital Twin: modelo digital do equipamento real para simulação e previsão
  • Cloud Computing: processamento e armazenamento de dados na nuvem
  • Edge Computing: processamento local dos dados antes de enviar para a nuvem
  • Cibersegurança: protecção de sistemas industriais (IEC 62443, NIST CSF)

Bloco 2

IEC 61131-3 — Linguagens PLC

5 Linguagens IEC 61131-3

LD (Ladder Diagram): representação visual de circuitos de relés — mais intuitiva para electricistas

FBD (Function Block Diagram): blocos funcionais ligados por linhas — ideal para controlo de processos

ST (Structured Text): linguagem de alto nível semelhante a Pascal — loops, condicionais, funções matemáticas

IL (Instruction List): linguagem de baixo nível semelhante a assembler — obsoleta mas ainda em uso

SFC (Sequential Function Chart): controlo sequencial de estados — ideal para sequências de automação complexas

Exemplo ST — Controlo de Temperatura com PID

(* Controlo de Temperatura por PID *)
VAR
  error, integral, derivative: REAL;
  last_error: REAL := 0.0;
  setpoint: REAL := 80.0; (* graus C *)
  Kp: REAL := 2.0;
  Ti: REAL := 10.0; (* s *)
  Td: REAL := 0.5; (* s *)
  dt: REAL := 0.1; (* s ciclo *)
  output: REAL;
END_VAR

error := setpoint - temp_actual;
integral := integral + error * dt;
derivative := (error - last_error) / dt;
output := Kp * (error + (1/Ti)*integral + Td*derivative);
output := MIN(100.0, MAX(0.0, output));
heating_output := output;
last_error := error;

Blocos de Função Standard (IEC 61131-3)

Bloco Tipo Descrição Parâmetros
TON Timer On-delay (atraso na subida) IN, PT → Q, ET
TOF Timer Off-delay (atraso na descida) IN, PT → Q, ET
TP Timer Pulse timer (tempo fixo) IN, PT → Q, ET
CTU Counter Up counter CU, R, PV → Q, CV
CTD Counter Down counter CD, LD, PV → Q, CV
CTUD Counter Up/Down counter CU, CD, R, LD, PV → QU, QD, CV
SR Bistable Set dominante S1, R → Q1
RS Bistable Reset dominante S, R1 → Q1

Diagrama SFC — Exemplo

┌──────────────────┐
│   S0: INACTIVO   │ ← Estado inicial
└────────┬─────────┘
         │ T0: START_BUTTON
┌────────┴─────────┐
│   S1: AQUECER    │ ← Activar aquecedor
└────────┬─────────┘
         │ T1: TEMP >= SETPOINT
┌────────┴─────────┐
│   S2: MANTER     │ ← Manter temperatura
└────────┬─────────┘
         │ T2: STOP_BUTTON
┌────────┴─────────┐
│   S3: ARREFECER  │
└────────┬─────────┘
         │ T3: TEMP < 40°C
         └──────────────────────── volta a S0

Bloco 3 e 4

HMI e SCADA

Design de HMI — Boas Práticas

Princípios de design de ecrãs HMI:

  1. Hierarquia: ecrã de overview global → ecrãs de processo específico → detalhe de equipamento
  2. Cores normalizadas: verde = ok/em marcha; amarelo = aviso; vermelho = avaria/emergência; cinzento = inactivo
  3. Alarmes: classificar por severidade (Critical, Warning, Info); área de alarmes sempre visível
  4. Tendências: histórico de variáveis analógicas com zoom temporal
  5. Informação mínima por ecrã: evitar sobrecarga de informação

Arquitectura de comunicação PLC–HMI:

  • Siemens: S7 Communication Protocol (TSAP); S7-1200/1500 com PROFINET
  • Schneider: Modbus TCP (integração directa); Unity (protocolo proprietário)
  • OPC UA: standard aberto para comunicação multi-fabricante

SCADA — Arquitectura

NÍVEL DE CAMPO:
  Sensores → PLC → RTU

NÍVEL SCADA:
  ┌───────────────────────────────────────────────────────┐
  │  SCADA SERVER                                         │
  │  ┌──────────┐  ┌──────────┐  ┌───────────────────┐   │
  │  │Tag Server│  │Historian │  │Alarm Server       │   │
  │  │(OPC UA)  │  │(SQL DB)  │  │(Evento + Estado)  │   │
  │  └──────────┘  └──────────┘  └───────────────────┘   │
  └───────────────────────────────────────────────────────┘
           │                │
  ┌────────┴──┐    ┌────────┴──────┐
  │ HMI Thin  │    │ Web Browser   │
  │ Clients   │    │ Reports       │
  └───────────┘    └───────────────┘

Bloco 5 e 6

Comunicação e Diagnóstico

Protocolos de Comunicação Industrial

Protocolo Topologia Velocidade Aplicação típica
PROFIBUS DP Master/Slave bus 9,6 k–12 Mbps Dispositivos de campo (legacy)
PROFINET Ethernet 100 Mbps–1 Gbps Siemens, IO distribuído
Modbus RTU Master/Slave RS-485 9,6k–115 kbps Drives, instrumentação (legacy)
Modbus TCP Master/Slave TCP/IP 100 Mbps Drives, instrumentação, IoT
EtherNet/IP Producer/Consumer 100 Mbps Rockwell/Allen-Bradley
OPC UA Client/Server (Pub/Sub) variável Integração vertical (MES, SCADA)

Diagnóstico e Cibersegurança IEC 62443

Diagnóstico de rede industrial:

  • Verificar LEDs de estado nos módulos I/O
  • Ferramentas de diagnóstico no TIA Portal (Siemens): Device view, Network view
  • Ping entre controlador e dispositivos de campo
  • Análise de tráfego com Wireshark (captura de pacotes Ethernet)

Cibersegurança Industrial (IEC 62443):

Zona Protecção
Nível 0–1 (campo) Separação física; portas USB bloqueadas
Nível 2 (controlo) Firewall industrial; patch management
Nível 3 (SCADA) DMZ; autenticação forte
Demilitarized Zone (DMZ) Zona tampão entre OT e IT

Princípios de defesa em profundidade:

  1. Separação de redes OT e IT (air gap ou DMZ)
  2. Gestão de patches e actualizações
  3. Controlo de acesso (RBAC)
  4. Monitorização de anomalias (IDS/IPS)

Resumo da UC02953

Competências adquiridas:

  • Descrever a pirâmide de automação e os protocolos de cada nível
  • Programar em ST e SFC para controlo de processos
  • Configurar comunicação Modbus TCP entre PLC e inversor
  • Criar ecrãs HMI com alarmes e tendências
  • Diagnosticar problemas de comunicação industrial
  • Aplicar princípios de cibersegurança industrial (IEC 62443)

Avaliação: Ficha 1 (ST/SFC + Modbus TCP) + Ficha 2 (HMI + análise de comunicação) + Projecto (célula automação completa 10h)

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Pirâmide de automação ISA-95 Esta pirâmide é o mapa mental de toda a UC: cada nível fala com o de cima e o de baixo, e os protocolos mudam à medida que se sobe — de 4-20mA no campo a OPC UA e APIs na gestão. Perceber onde se situa um equipamento explica logo com quem comunica e que rede usar. É a base para diagnosticar problemas de integração vertical entre chão de fábrica e sistemas de gestão. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Como a informação se transforma ao subir do nível 0 ao nível 4 • Porque é que os protocolos de campo são determinísticos e os de topo não precisam de o ser • Onde o PLC se encaixa e o que comunica para cima e para baixo

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Industry 4.0 na prática da manutenção Industry 4.0 não é só um chavão: para o técnico significa sensores que reportam estado em tempo real, gémeos digitais que simulam avarias e edge computing que processa dados na máquina antes de subir à nuvem. O impacto direto é a manutenção preditiva tornar-se possível à escala. Mas mais conectividade significa mais superfície de ataque — daí a cibersegurança entrar como pilar e não como acessório. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Diferença prática entre edge e cloud computing numa fábrica • Como um digital twin ajuda a prever avarias antes de acontecerem • Porque é que conectar tudo aumenta o risco de cibersegurança

NOTAS DO PROFESSOR 📖 As cinco linguagens da norma IEC 61131-3 A norma garante que o mesmo programador trabalha em PLCs de fabricantes diferentes com as mesmas linguagens. A regra prática é escolher a linguagem certa para o problema: Ladder para lógica de relés e segurança, ST para cálculo e algoritmos, SFC para sequências de estados. IL está em desuso mas ainda aparece em código antigo. Não é "qual é melhor", é "qual encaixa nesta tarefa". 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Porque é que o Ladder continua a dominar a manutenção elétrica • Quando o ST resolve em três linhas o que o Ladder faria em vinte • Vantagem do SFC para descrever sequências passo a passo de uma máquina

NOTAS DO PROFESSOR 📖 PID implementado em Structured Text Este exemplo mostra o PID a sair da teoria para o código real que corre num PLC a cada ciclo de scan. Reparar em três detalhes práticos: o integral acumula ao longo do tempo, o derivativo usa a diferença entre ciclos, e a saída é limitada com MIN/MAX para não saturar o atuador. O dt tem de corresponder ao tempo real de ciclo, senão os ganhos perdem sentido. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Porque é que a saída tem de ser limitada (anti-windup do integral) • O papel do dt e a sua relação com o tempo de ciclo do PLC • Como guardar o last_error entre ciclos para calcular o derivativo

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Blocos de função normalizados Estes blocos são as peças de Lego da programação industrial: temporizadores, contadores e biestáveis que estão em qualquer projeto. A confusão clássica é entre TON (atraso a ligar) e TOF (atraso a desligar) — vale a pena desenhar o cronograma de cada um. Nos biestáveis, perceber qual entrada é dominante (SR vs RS) evita comportamentos inesperados em lógica de segurança. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Diferença de cronograma entre TON, TOF e TP • Quando usar SR (set dominante) e quando usar RS (reset dominante) • Como combinar contadores e temporizadores numa sequência simples

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Modelação de sequências com SFC O SFC obriga a pensar a máquina como estados e transições: em cada momento só um estado está ativo, e só se avança quando a condição de transição é verdadeira. Isto torna o programa legível e fácil de diagnosticar — basta ver em que passo a sequência ficou bloqueada. É o método natural para automatizar processos por etapas, como aquecer, manter e arrefecer neste exemplo. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • A regra de que só se muda de passo quando a transição é satisfeita • Como o SFC facilita encontrar onde uma sequência ficou presa • Traduzir um processo real da fábrica em passos e transições

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Boas práticas de design de HMI Um HMI mal desenhado provoca erros de operação e acidentes: por isso há regras objetivas como a hierarquia de ecrãs e o código de cores normalizado, onde o vermelho é sempre avaria e o verde sempre marcha. O princípio do "menos é mais" combate a sobrecarga de informação — o operador tem de perceber o estado num relance. A área de alarmes sempre visível é uma exigência de segurança, não estética. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Porque é que o código de cores tem de ser consistente em todos os ecrãs • Riscos de um ecrã sobrecarregado de informação para o operador • Como a hierarquia overview → processo → detalhe ajuda no diagnóstico

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Arquitetura de um sistema SCADA O SCADA é a camada que recolhe dados de campo, guarda histórico e dá visibilidade ao processo a partir de vários postos. As três peças centrais são o servidor de tags (estado atual via OPC UA), o historiador (base de dados que permite tendências) e o servidor de alarmes. Perceber esta separação ajuda a localizar problemas: se faltam dados históricos, o problema é o historiador, não a comunicação de campo. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • A função distinta do servidor de tags e do historiador • Como clientes thin e relatórios web acedem aos mesmos dados • Papel do OPC UA como ponte entre o SCADA e os PLCs de vários fabricantes

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Protocolos de comunicação industrial Cada fabricante e cada época trouxeram o seu protocolo, e o técnico tem de saber reconhecê-los pela topologia e pelo meio físico. PROFIBUS e Modbus RTU são o legado em RS-485; PROFINET e EtherNet/IP são o presente em Ethernet; OPC UA é a cola que liga o chão de fábrica aos sistemas de gestão. Saber a velocidade e a aplicação típica orienta logo o diagnóstico de uma rede. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Diferença entre Modbus RTU (RS-485) e Modbus TCP (Ethernet) • Porque é que o OPC UA é a escolha para integração vertical multi-fabricante • Como a topologia (master/slave vs producer/consumer) afeta o diagnóstico

NOTAS DO PROFESSOR 📖 Diagnóstico de rede e cibersegurança IEC 62443 Diagnosticar uma rede industrial começa pelo simples — LEDs de estado, ping, ferramentas do TIA Portal — antes de partir para o Wireshark. A cibersegurança industrial segue a defesa em profundidade da IEC 62443: separar OT de IT, criar zonas com DMZ e controlar acessos. O técnico de manutenção é muitas vezes quem liga um portátil à rede, e por isso é também a primeira linha de defesa ou de risco. 🗣️ Pontos a desenvolver oralmente • Sequência lógica de diagnóstico: do LED ao analisador de pacotes • Porque é que a separação OT/IT (air gap ou DMZ) é o pilar da segurança • O risco de portas USB e portáteis não controlados no chão de fábrica