UC02948

Efetuar o diagnóstico e reparação de avarias em equipamentos industriais

Curso profissional · 25h · TMIM

Índice

  1. Metodologia de Diagnóstico — FMEA, árvore de falhas, diagrama de Ishikawa, 8D
  2. Técnicas de Diagnóstico — análise de vibração (FFT, espectros), termografia, óleo, ultrassom
  3. Diagnóstico Mecânico — rolamentos (ruído, temperatura, vibração), acoplamentos, transmissões
  4. Diagnóstico Eléctrico — motor eléctrico (curvas de arranque, isolamento, desequilíbrio), variadores
  5. Diagnóstico de Sistemas Fluídicos — vazamentos, pressão, caudal, temperatura, pneumática/hidráulica
  6. Documentação e CMMS — registo de avarias, histórico, plano correctivo, KPIs de manutenção

Bloco 1

Metodologia de Diagnóstico

FMEA — Failure Mode and Effects Analysis

Estrutura FMEA:

Componente Modo de Falha Efeito Causa S O D RPN
Rolamento Pitting Vibração excessiva Lubrificação insuficiente 6 4 3 72
Correia Rotura Paragem máquina Tensão excessiva 8 3 2 48
Vedante Fuga Contaminação óleo Desgaste 5 5 4 100

RPN = S × O × D (Risk Priority Number)

  • S: Severidade (1–10)
  • O: Ocorrência (1–10)
  • D: Detectabilidade (1–10)
  • RPN > 100 → acção correctiva prioritária

8D — 8 Disciplinas

D Nome Acção
D1 Equipa Formar equipa multidisciplinar
D2 Descrição do problema O quê, quando, onde, quem, como
D3 Acção de contenção Solução imediata (provisória)
D4 Causa raíz Análise de causa raíz (5 Porquês, Ishikawa)
D5 Acções correctivas permanentes Solução definitiva
D6 Implementação Executar e validar
D7 Prevenção recorrência Actualizar FMEA, procedimentos
D8 Reconhecer a equipa Fechar o 8D, comunicar resultados

Diagrama de Ishikawa (Espinha de Peixe)

                    PROBLEMA: VIBRAÇÃO EXCESSIVA NA MÁQUINA
                                        │
          ┌─────────────────────────────┴──────────────────────────┐
     MÁQUINA                                                    MANUTENÇÃO
  ├── Desalinhamento                                          ├── Lubrif. insuficiente
  ├── Desbalanceamento                                        ├── Folga de segurança alta
  └── Desgaste rolamentos                                     └── Não respeitou torques

     MATERIAL                                                    MÉTODO
  ├── Material de rol. incorrecto                            ├── Montagem incorrecta
  └── Vedante inadequado                                     └── Alinhamento não verificado

     MÃO-DE-OBRA                                               MEDIÇÃO
  ├── Formação insuficiente                                  ├── Sensor mal posicionado
  └── Não seguiu procedimento                                └── Frequência de inspecção baixa

Bloco 2

Técnicas de Diagnóstico

Análise de Vibração — FFT

Frequências características de rolamento:

Onde:

  • n = número de elementos rolantes
  • d = diâmetro do elemento rolante
  • D = diâmetro primitivo da pista
  • α = ângulo de contacto
  • N_rot = velocidade de rotação [rpm]

Espectro de Vibração — Interpretação

Frequência dominante Causa provável
1× rpm Desbalanceamento, curvatura do veio
2× rpm Desalinhamento angular
1× + 2× rpm + sub-harmónicas Folga mecânica
BPFO Defeito na pista exterior do rolamento
BPFI Defeito na pista interior do rolamento
BSF Defeito no elemento rolante (bola/rolo)
z × rpm (z = nº dentes) Engrenagem, pass frequency
Sinais de alta frequência (kHz) Fase inicial de defeito de rolamento

Termografia e Análise de Óleo

Termografia infravermelha:

  • Câmara termográfica mede temperatura superficial sem contacto
  • ΔT > 10°C vs. componente similar → suspeita de anomalia
  • ΔT > 30°C → acção correctiva urgente
  • Aplicações: quadros eléctricos (conexões soltas), rolamentos, fricção mecânica, motores

Análise de óleo lubrificante:

Parâmetro Indicador de
Viscosidade Degradação térmica, contaminação
Teor de partículas metálicas (Fe, Cu, Al) Desgaste de componentes específicos
Água (% em volume) Condensação, fuga de arrefecedor
pH/TAN (Total Acid Number) Oxidação, degradação ácida
Partículas por ferrografia Tipo de desgaste (abrasivo, adesivo, fadiga)

Bloco 3

Diagnóstico Mecânico

Diagnóstico de Rolamentos

Sintomas e causas:

Sintoma Causa provável Diagnóstico confirmatório
Ruído constante de chiado Lubrificação insuficiente Temperatura elevada + análise de óleo
Ruído pulsante a 1× rpm Carga excessiva localizada Espectro de vibração: BPFO ou BPFI
Temperatura > 80°C (rolamento) Lubrificação excessiva ou insuficiente Verificar quantidade e tipo de massa
Vibração em alta frequência (kHz) Início de defeito na pista SEE/HFD ou envelope analysis
Vibração crescente ao longo do tempo Propagação de defeito Tendência (trend) no CMMS

Critérios de substituição ISO 10816:

Classe máquina Zone A (novo) Zone B (ok) Zone C (vigilância) Zone D (parar)
Pequenas máquinas < 2,3 mm/s 2,3–4,5 4,5–7,1 > 7,1
Médias máquinas < 3,5 mm/s 3,5–7,1 7,1–11 > 11

Diagnóstico de Acoplamentos e Transmissões

Desalinhamento angular vs. paralelo:

DESALINHAMENTO ANGULAR:           DESALINHAMENTO PARALELO:
      ┌──┐  ┌──┐                       ┌──┐
      │  │  │  │                       │  │
  ──────  ╲  ──────                ──────  ──────
            ╲                              │
        (eixos cruzam)                (eixos paralelos)
 Espectro: 2× rpm dominante        Espectro: 2× rpm

Diagnóstico de correia dentada:

  • Correia frouxa: vibração com frequência de passagem dos dentes irregular
  • Correia com defeito: pico na frequência = 1/período de defeito

Diagnóstico de engrenagem:

  • Frequência de engrenagem = z × f_rot (z = número de dentes)
  • Sidebands (bandas laterais) em torno da GMF → desgaste ou erro de passo

Bloco 4

Diagnóstico Eléctrico

Diagnóstico de Motor Eléctrico de Indução

Análise da curva de arranque (corrente vs. tempo):

Corrente (A)
    │
 6× In ─┤    ┌─┐  ← Pico de arranque (I_arranque ≈ 5–7× I_nominal)
        │   / │ \
        │  /  │  \───────────────── I nominal (operação estável)
    In ─┤ /   │
        │/    │
        └─────────────────────── Tempo
        t=0  t_arranque

Causas de arranque prolongado ou falha de arranque:

  • Tensão insuficiente (< 90% da nominal) → corrente alta, calor excessivo
  • Carga mecânica excessiva → motor não atinge velocidade nominal
  • Enrolamento em curto → assimetria de corrente, vibração a 2× f_rede

Medição de Isolamento e Desequilíbrio

Teste de isolamento (megóhmetro/Megger):

Tensão nominal motor Tensão de teste Isolamento mínimo
< 250 V 500 V DC ≥ 1 MΩ
250–1000 V 1000 V DC ≥ 1 MΩ
1–6 kV 2500 V DC ≥ 100 MΩ

Regra prática: R_isolamento [MΩ] ≥ tensão nominal [kV] + 1

Desequilíbrio de tensão e corrente:

íãáéãé

NEMA MG1: desequilíbrio de tensão > 1% → reduzir carga ou investigar alimentação

Bloco 5

Diagnóstico de Sistemas Fluídicos

Diagnóstico de Circuitos Hidráulicos

Procedimento de diagnóstico passo a passo:

SINTOMA: CILINDRO HIDRÁULICO NÃO AVANÇA

1. Verificar pressão de trabalho (manómetro)
   └─ Pressão = 0 → problema na bomba ou motor hidráulico
   └─ Pressão baixa → válvula de alívio ajustada demasiado baixa ou com fuga

2. Verificar temperatura do óleo
   └─ T > 60°C → arrefecimento insuficiente ou sobrecarga

3. Verificar nível do óleo
   └─ Nível baixo → fuga externa ou consumo excessivo pelo circuito

4. Verificar caudal da bomba
   └─ Caudal baixo → desgaste da bomba (folgas internas)

5. Verificar válvula direccional
   └─ Com multímetro: verificar tensão na solenoide (24 VDC)
   └─ Com manómetro: pressão A e B diferem do esperado → válvula bloqueada

Diagnóstico Pneumático — Fugas de Ar

Detecção de fugas:

  • Espuma de sabão: aplicar na tubagem ou conexão suspeita
  • Detector de ultrassom (40 kHz): detecta turbulência sonora de fugas de ar a distância
  • Queda de pressão em teste estático: fechar todas as saídas; medir queda de pressão em 5 min

Custo das fugas de ar comprimido:

Caudal fuga ≈ 0,9 L/min por orifício de Ø1 mm a 6 bar

Para compressor de 37 kW, eficiência 6 m³/min a 7 bar:

  • Custo energia: 0,12 €/kWh × 8 h/dia × 250 dias = 88 800 €/ano para funcionamento contínuo
  • Uma fuga de 1% do caudal = 888 €/ano de energia desperdiçada

Bloco 6

Documentação e CMMS

Registo de Avarias e CMMS

Campos obrigatórios num registo de ordem de trabalho (OT):

  • Data/hora da ocorrência
  • Equipamento (código de activo)
  • Descrição do sintoma (o técnico observou)
  • Diagnóstico (causa identificada)
  • Acção realizada (substituição, ajuste, limpeza)
  • Peças/materiais usados (referência, quantidade, custo)
  • Tempo de intervenção
  • Técnico responsável
  • Estado final (resolvido / em acompanhamento / peça em encomenda)

Sistemas CMMS comuns: SAP PM, Maximo, Infor EAM, Fracttal, eMaint, Maintenance Connection

KPIs de Manutenção

KPI Fórmula Referência
MTBF Tempo total / Número de avarias Quanto maior, melhor
MTTR Tempo em avaria / Número de avarias Quanto menor, melhor
Disponibilidade A MTBF / (MTBF + MTTR) ≥ 95% (produção)
OEE Disponibilidade × Performance × Qualidade ≥ 85% (classe mundial)
Custo manutenção / RAB Custo total manutenção / Replacement Asset Base < 3% (excelente)
% Manutenção preventiva Horas PM / Horas totais × 100 ≥ 70%
% Manutenção correctiva Horas CM / Horas totais × 100 ≤ 30%

Resumo da UC02948

Competências adquiridas:

  • Aplicar metodologias estruturadas de diagnóstico (FMEA, 8D, Ishikawa)
  • Interpretar espectros de vibração e identificar defeitos em rolamentos e engrenagens
  • Diagnosticar avarias em motores eléctricos (isolamento, desequilíbrio, arranque)
  • Diagnosticar avarias em sistemas hidráulicos e pneumáticos
  • Registar avarias em CMMS e calcular KPIs de manutenção

Avaliação: Ficha 1 (vibração + rolamentos) + Ficha 2 (motor eléctrico + 8D) + Projecto (diagnóstico completo 10h)