UC02937

Planeamento e gestão da manutenção

CMMS, KPIs, RCM, TPM, segurança

Técnico de Manutenção Industrial / Mecatrónica · 50h

Plano da unidade

  1. Estratégias de manutenção
  2. Planeamento e programação
  3. CMMS — gestão informática
  4. KPIs e indicadores
  5. RCM — Reliability Centered Maintenance
  6. TPM — Total Productive Maintenance
  7. Stock de peças e fornecedores
  8. Segurança e regulamentação

Bloco 1 · Estratégias

4 tipos de manutenção

  • Correctiva: reparar após falha. Cara em paragem, simples em peças.
  • Preventiva: programada por tempo/horas. Standard tradicional.
  • Preditiva (condicionada): baseada em medições. Standard moderno.
  • Proactiva: ataca causas-raiz. Filosofia "Lean".

Estratégia óptima: mix consoante criticidade.

Matriz criticidade

Classificar equipamentos:

Classe Criticidade Estratégia
A Alta (paragem custa muito; sem redundância) Preditiva + Proactiva
B Média Preventiva + ocasional preditiva
C Baixa Preventiva ligeira ou correctiva

20% dos equipamentos absorvem 80% do esforço (Pareto).

Custo total (TCO)

TCO = Custo aquisição + Custo operação + Custo manutenção + Custo paragem

Decisão de manter vs substituir baseada em TCO ao longo da vida útil.

Manutenção bem feita: 5-10% do TCO.
Sem manutenção: 30-50% do TCO em reparações + perdas.

Bloco 2 · Planeamento

Hierarquia documentos

  • Política de manutenção (alta direcção): filosofia, objectivos, recursos.
  • Plano anual (gestor manutenção): orçamento, recursos, prioridades.
  • Plano mensal (chefes equipa): ordens programadas.
  • Ordem de trabalho (OT) (técnico): tarefa específica.

Ordem de trabalho (OT)

Documento que descreve uma intervenção:

  • Cabeçalho: número, equipamento, prioridade, data.
  • Descrição: o que fazer.
  • Materiais: peças necessárias.
  • Ferramentas: específicas.
  • EPI: obrigatório.
  • Tempo estimado: para planeamento.
  • Procedimento: passos numerados.
  • Análise de segurança: riscos.
  • Validação: assinaturas.

Backlog

Backlog = trabalho pendente acumulado.

  • Backlog saudável: 1-2 semanas (margem para imprevistos).
  • Backlog excessivo (> 4 semanas): equipa subdimensionada ou má priorização.
  • Backlog vazio: equipa subutilizada ou planeamento insuficiente.

Gerir com prioridade: A (crítico, < 24h), B (importante, < semana), C (rotina, < mês).

Programação

Distribuir OTs por equipa e tempo:

  • Gantt: linhas de tempo por técnico.
  • Kanban: cartões em colunas (a fazer / em curso / feito).
  • Calendarização: software CMMS automatiza.

Considerar: disponibilidade da máquina, peças, técnico, prioridade.

Bloco 3 · CMMS

O que é

Computerized Maintenance Management System: software que centraliza gestão de manutenção.

Substitui:

  • Papel (fichas, OTs em formulário impresso).
  • Excel (tabelas espalhadas, sem actualizações em tempo real).
  • Memória do técnico ("eu sei como funciona...").

Funcionalidades

  • Cadastro de equipamentos (hierarquia, fotos, manuais).
  • Planos preventivos automatizados.
  • Ordens de trabalho (criação, atribuição, fecho).
  • Stock de peças (inventário, mínimos, reposição).
  • KPIs calculados automaticamente.
  • Mobile (técnicos consultam no smartphone).
  • Integração ERP, SCADA, IoT.

Opções de software

Grande empresa:

  • SAP PM.
  • IBM Maximo.
  • Infor EAM.
  • Oracle.

PME:

  • UpKeep (mobile-first).
  • Fiix.
  • eMaint (Fluke).
  • MaintainX.

Open source:

  • OpenMAINT.
  • GMAO.

Implementação

Tempo: 3-12 meses (depende complexidade).

Fases:

  1. Análise: requisitos, equipamentos.
  2. Configuração: cadastros, planos.
  3. Formação: utilizadores.
  4. Piloto: 1-2 áreas.
  5. Roll-out: empresa inteira.
  6. Optimização contínua.

Sucesso depende de: apoio da direcção, adesão da equipa, dados de qualidade.

Bloco 4 · KPIs

OEE — overall effectiveness

OEE = Disponibilidade × Desempenho × Qualidade

Benchmark:

  • < 60%: má.
  • 60-85%: boa.
  • 85%: world-class.

MTBF e MTTR

MTBF (Mean Time Between Failures):

MTBF = Tempo total operação / Número de falhas

Maior = melhor.

MTTR (Mean Time To Repair):

MTTR = Tempo total reparações / Número de falhas

Menor = melhor.

Disponibilidade:

A = MTBF / (MTBF + MTTR)

Outros KPIs

  • % Manutenção planeada vs reactiva (objectivo > 75%).
  • Custo de manutenção / valor produzido (~3-5% típico).
  • Cumprimento do plano preventivo (> 90%).
  • Taxa de retrabalho (avarias recorrentes).
  • % disponibilidade de peças (em stock quando necessárias).
  • Custo médio de OT.
  • Satisfação do cliente interno (produção).

Bloco 5 · RCM

Reliability Centered Maintenance

Metodologia para definir qual a manutenção certa para cada equipamento.

7 perguntas-chave (norma SAE JA1011):

  1. Quais são as funções do equipamento?
  2. Que falhas funcionais podem ocorrer?
  3. Quais as causas de cada falha?
  4. Quais as consequências de cada falha?
  5. Como detectar a falha (sintomas)?
  6. Que tarefa preventiva/preditiva evita?
  7. Quando executar?

Resultados

  • FMEA (Failure Modes and Effects Analysis): tabela de cada modo de falha.
  • Decision diagram: qual a estratégia (P/Pred/Cor) para cada modo.
  • Tarefas optimizadas: o mínimo de manutenção que entrega o máximo de fiabilidade.

Aplicação: indústria pesada (oil&gas, aviação, nuclear, ferroviária). Adopção em PMEs é parcial (RCM "lite").

Bloco 6 · TPM

Total Productive Maintenance

Filosofia japonesa (Seiichi Nakajima, anos 1970):

  • Manutenção autónoma: operadores fazem inspecções e pequenas reparações.
  • Manutenção planeada: rotina pelo técnico.
  • Melhoria contínua (kaizen): equipa procura optimizações.
  • Educação e formação: contínuas.
  • Manutenção de qualidade: integrar qualidade no processo.
  • Manutenção inicial: incorporar fiabilidade no projecto.
  • TPM no escritório: filosofia em toda a organização.
  • Segurança e ambiente.

5S

Filosofia complementar:

  • Seiri (Separar): remover desnecessário.
  • Seiton (Organizar): cada coisa no seu lugar.
  • Seiso (Limpar): manter limpo.
  • Seiketsu (Standardizar): regras claras.
  • Shitsuke (Disciplina): manter no tempo.

Aplicado em oficinas de manutenção, melhora produtividade 20-40%.

Bloco 7 · Peças e fornecedores

Stock estratégico

Categorias:

  • Críticas: paragem se faltar, sem alternativa, longo prazo de entrega. Manter em stock.
  • Importantes: paragem mas com alternativas. Stock moderado.
  • Standard: facilmente comprável. Stock mínimo.
  • Não-críticas: sem urgência. Comprar quando necessário.

ABC analysis: 20% das peças (críticas) = 80% do valor do stock.

Gestão de stock

KPIs:

  • Cobertura: dias de operação que o stock cobre.
  • Rotação: quantas vezes/ano o stock é renovado.
  • % peças críticas em stock: > 95% objectivo.
  • Custo do stock (capital imobilizado).

Ferramentas: ERP, CMMS com módulo de stock, código de barras / RFID.

Fornecedores

Selecção:

  • Qualidade (certificações ISO 9001).
  • Tempo de entrega.
  • Preço competitivo.
  • Disponibilidade de stock.
  • Suporte técnico (não só vender, ajudar a escolher).
  • Garantias.

Manter relações com 2-3 fornecedores por categoria para concorrência saudável e backup.

Bloco 8 · Segurança e regulamentação

LOTO

Já tratado em UCs anteriores. Lembretes:

  • Cadeado pessoal com chave única.
  • Etiqueta com nome, data, motivo.
  • Verificação de ausência de energia.
  • Cada técnico remove apenas o seu cadeado.

Causa #1 de fatalidades em manutenção: sem LOTO.

Regulamentação

Portugal:

  • Código do Trabalho: SST geral.
  • DGS: directrizes médicas.
  • ACT: fiscalização.
  • RTIEBT: instalações eléctricas.
  • Habilitações eléctricas (BTC, BTC AT).
  • PED: equipamentos sob pressão.
  • Directiva Máquinas (2006/42/CE): CE.

Internacional:

  • ISO 55000: gestão de activos.
  • ISO 14001: ambiente.
  • ISO 45001: SST.

Auditoria

Periódica (anual ou semestral):

  • Verificação de planos cumpridos.
  • KPIs analisados.
  • Conformidade legal.
  • Avaliação da equipa.
  • Plano de melhoria.

Pode ser interna ou externa (auditoria certificada).

Documentação obrigatória

  • Plano de manutenção por equipamento.
  • Histórico de intervenções.
  • Certificações (eléctricas, pressão, etc.).
  • Relatórios de ensaios (megger, isolamento, etc.).
  • Análises de risco (JSA, FMEA).
  • Permissões de trabalho em tarefas perigosas.

Em CMMS: tudo digital, rastreável, auditável.

UC02937 · resumo

  • Estratégias mistas: correctiva, preventiva, preditiva, proactiva.
  • Planeamento: política, planos, OTs, backlog gerido.
  • CMMS centraliza tudo.
  • KPIs medem eficácia: OEE, MTBF, MTTR.
  • RCM define manutenção óptima por equipamento.
  • TPM integra operadores; 5S organiza.
  • Stock estratégico + fornecedores parceiros.
  • Segurança sempre primeiro; conformidade legal obrigatória.