UC02887

Aplicar o toleranciamento geral, individual e qualidades de fabrico

Ajustamentos ISO, cotas máximas e mínimas, toleranciamento dimensional e geométrico

Curso profissional · 50h · Técnico de Desenho e Projeto de Moldes

Plano

  1. Cotagem, normas e interdependência dimensão-geometria
  2. Toleranciamento dimensional: tolerância, cotas e IT
  3. Toleranciamento geral: ISO 2768 e normas por processo
  4. Qualidades de fabrico
  5. Sistema de furo normal e tipos de ajustamento
  6. Calcular ajustamentos com folga
  7. Ajustamento incerto e ajustamentos com aperto
  8. Toleranciamento geométrico e símbolos ISO 1101
  9. Referências (datums) e princípio de independência
  10. Exigência de envolvente e princípios de matéria
  11. Tolerância projetada e modificadores ISO/ASME
  12. Acumulação de tolerâncias
  13. Instrumentos de medida e máquina de medição por coordenadas
  14. Segurança e boas práticas
  15. Síntese

Bloco 1 · Cotagem, normas e interdependência dimensão-geometria

Porque toleranciamos

Nenhuma peça sai da máquina com a cota exata do desenho. Uma coluna-guia de Ø25 mm nunca é fabricada com exatamente 25,000 mm: há sempre uma variação, do processo, da ferramenta, da temperatura.

  • Toleranciar é definir os limites dentro dos quais essa variação é aceitável, sem comprometer a função da peça.
  • Um molde de injeção tem centenas de cotas: colunas-guia, casquilhos, macho, cavidade, extratores, postiços. Cada uma exige uma decisão de tolerância.
  • Tolerância larga a mais gera peças que não montam ou não vedam; tolerância apertada a mais encarece o fabrico sem ganho funcional.

O toleranciamento certo é o que garante a função ao menor custo de fabrico possível.

Toleranciamento individual vs toleranciamento geral

Uma cota pode receber tolerância de duas formas:

Modo Como se indica Quando se usa
Individual valor ou classe (H7, ±0,05) junto da própria cota cotas funcionais, críticas para a montagem
Geral uma nota única no desenho, tipo "ISO 2768-mK" todas as restantes cotas, sem indicação própria

Uma cota sem tolerância indicada não é uma cota livre: está sujeita à tolerância geral da norma referida na legenda. Esquecer a nota de toleranciamento geral deixa o desenho ambíguo, e uma peça correta pode ser rejeitada por falta de critério escrito.

Interdependência entre dimensão e geometria

Uma peça real nunca é perfeitamente reta, plana ou redonda. Por isso, o desenho técnico separa dois tipos de controlo:

  • Toleranciamento dimensional: controla o tamanho (comprimento, diâmetro).
  • Toleranciamento geométrico: controla a forma, a orientação, a localização e o batimento.

Por omissão, segundo a ISO 8015, estes dois controlos são independentes: cumprir a tolerância dimensional não garante a forma perfeita, e vice-versa. As normas ISO 22081 e ISO 1101 definem, respetivamente, os princípios gerais de toleranciamento e a simbologia geométrica.

Este princípio de independência é a base de todo o resto desta UC.

Bloco 2 · Toleranciamento dimensional

Cota nominal, desvios e cotas limite

A cota de uma peça é definida por quatro valores:

  • Cota nominal (N): o valor de referência do desenho (ex.: Ø25).
  • Desvio superior (ES para furos, es para veios): distância da cota nominal até à cota máxima.
  • Desvio inferior (EI para furos, ei para veios): distância da cota nominal até à cota mínima.
  • Tolerância (IT): a amplitude admissível, sempre positiva.

áí

áí

A cota média é áí: útil para centrar o processo de fabrico no meio da tolerância.

Exemplo resolvido: cotas de um furo e de um veio

Furo Ø25 H7 (ES = +0,021 mm, EI = 0) e veio Ø25 g6 (es = -0,007 mm, ei = -0,020 mm), a ligação de uma coluna-guia com o seu casquilho.

Nominal Desvios (mm) Cota máxima Cota mínima IT
Furo (casquilho) 25H7 25 ES=+0,021 / EI=0 25,021 25,000 0,021
Veio (coluna) 25g6 25 es=-0,007 / ei=-0,020 24,993 24,980 0,013

Cota média do furo: mm. Cota média do veio: mm.

Bloco 3 · Toleranciamento geral: ISO 2768 e normas por processo

ISO 2768-1: tolerâncias gerais para cotas lineares

A ISO 2768-1 define quatro classes de tolerância geral para cotas lineares e angulares, aplicáveis por uma única nota no desenho:

Intervalo (mm) f (fina) m (média) c (grosseira) v (muito grosseira)
6 a 30 ±0,10 ±0,20 ±0,50 ±1,00
30 a 120 ±0,15 ±0,30 ±0,80 ±1,50
120 a 400 ±0,20 ±0,50 ±1,20 ±2,50

Uma cota de 45 mm sem tolerância própria, num desenho com a nota "ISO 2768-m", tem cota máxima 45,30 mm e cota mínima 44,70 mm (classe m, intervalo 30-120: ±0,30 mm).

A ISO 2768-2 cobre as tolerâncias gerais de forma (retitude, planeza), em classes H, K e L.

Normas de toleranciamento geral por processo

A ISO 2768 é a norma geral de mecânica, mas cada processo de fabrico tem a sua própria norma, porque a variabilidade natural do processo é diferente:

Norma Processo Aplicação típica em moldes
ISO 2768 maquinagem em geral placas, machos, cavidades maquinados
ISO 13920 construções soldadas estruturas e bases de molde soldadas
ISO 8062 peças fundidas blocos ou placas de fundição em bruto
ISO 20457 peças moldadas em plástico a própria peça produzida pelo molde
DIN 16742 peças moldadas em plástico alternativa/complemento à ISO 20457

A ISO 20457 e a DIN 16742 existem porque o plástico encolhe ao arrefecer, de forma variável consoante a espessura, a orientação das fibras e o próprio molde: por isso as suas classes de tolerância são, em regra, mais largas do que as da mecânica em metal para a mesma dimensão nominal.

Bloco 4 · Qualidades de fabrico

O que é uma qualidade de fabrico

A qualidade de fabrico (grau IT, International Tolerance) é um número de 01 a 18 que define a amplitude da tolerância, independentemente da posição do desvio. Quanto menor o número, mais apertada a tolerância.

Grau IT Amplitude típica (Ø18-30 mm) Processos habituais
IT5-IT7 0,009 a 0,021 mm retificação, mandrilagem fina, brunimento
IT7-IT9 0,021 a 0,052 mm torneamento e fresagem de precisão
IT9-IT11 0,052 a 0,13 mm torneamento e furação correntes
IT11-IT13 0,13 a 0,33 mm laminagem, extrusão, moldação corrente
IT13-IT16 acima de 0,33 mm fundição em areia, forjamento

Escolher a qualidade de fabrico é escolher, ao mesmo tempo, quanto custa fazer a peça e que processo a consegue produzir.

Bloco 5 · Sistema de furo normal e tipos de ajustamento

Ajustamento e sistema de furo normal

Um ajustamento é a relação entre as tolerâncias de um furo e de um veio da mesma cota nominal, destinados a montar um com o outro (ex.: coluna-guia num casquilho).

No sistema de furo normal (o mais usado em mecânica e em moldes), o furo mantém sempre a letra H (EI = 0, tolerância inteiramente positiva a partir do nominal), e é o veio que muda de letra para obter o efeito pretendido. Isto reduz o número de ferramentas de furação/alargamento necessárias na oficina: um único furo H7 serve vários tipos de ajustamento, variando apenas o veio.

A letra do veio define o desvio fundamental, ou seja, a posição da sua tolerância em relação ao nominal:

Letra do veio Posição da tolerância Efeito
h tolerância termina exatamente no nominal (es=0) referência neutra
g, f abaixo do nominal folga
k ligeiramente acima do nominal, dentro do IT do furo incerto
p, s acima do nominal aperto

Os três tipos de ajustamento

  • Ajustamento com folga: em qualquer combinação de cotas dentro da tolerância, o veio é sempre mais pequeno do que o furo. Há sempre espaço, permite movimento relativo. Ex.: H7/g6, H7/f7, coluna-guia no casquilho.
  • Ajustamento incerto: consoante as cotas reais, pode haver folga ou aperto. Serve para centrar peças com montagem/desmontagem manual. Ex.: H7/k6, cavilhas de centragem.
  • Ajustamento com aperto: o veio é sempre maior do que o furo; a montagem exige força (prensa) ou dilatação térmica, e a peça fica fixa de forma permanente ou semipermanente. Ex.: H7/p6, H7/s6, casquilho-guia fixado na placa.

Definição usada nesta UC: . Se a folga sair negativa, é um aperto (). Esta é a única definição usada em todos os exemplos, fichas e no projeto.

Bloco 6 · Calcular ajustamentos com folga

Exemplo resolvido: H7/g6, coluna-guia

Coluna-guia Ø25g6 a deslizar no casquilho-guia Ø25H7 de um molde de injeção. Valores da ISO 286-1 (intervalo 18-30 mm): furo H7 (ES=+0,021, EI=0), veio g6 (es=-0,007, ei=-0,020).

áí

áí

á

í

A folga nunca é negativa: ajustamento com folga confirmado. A coluna desliza sempre livre, entre 0,007 e 0,041 mm de jogo.

Exemplo resolvido: H7/f7, folga mais larga

Um extrator (pino ejetor) Ø25f7 num furo guia Ø25H7 da placa extratora, com folga maior para permitir dilatação térmica e lubrificação. Veio f7 (es=-0,020, ei=-0,041).

áí

áí

Comparando com H7/g6 (0,007 a 0,041 mm), o H7/f7 dá quase o dobro de folga: adequado a peças que trabalham a temperatura mais alta, como os extratores junto à cavidade quente.

Bloco 7 · Ajustamento incerto e ajustamentos com aperto

Exemplo resolvido: H7/k6, ajustamento incerto

Cavilha de centragem Ø25k6 entre duas placas do molde, furo H7. Veio k6 (es=+0,015, ei=+0,002).

áí

á

íá

Consoante as peças reais que saem da produção, esta cavilha tanto pode entrar com uma folga até 0,019 mm como com um aperto até 0,015 mm: monta-se à mão, com um ligeiro esforço no pior caso, e centra bem as duas placas.

Exemplo resolvido: H7/p6 e H7/s6, ajustamentos com aperto

Casquilho-guia Ø25 fixado à pressão na placa, furo H7. Veio p6 (es=+0,035, ei=+0,022) e, para fixação mais exigente, veio s6 (es=+0,048, ei=+0,035).

Ajustamento Aperto mínimo Aperto máximo
H7/p6 25,022-25,021 = 0,001 mm 25,035-25,000 = 0,035 mm
H7/s6 25,035-25,021 = 0,014 mm 25,048-25,000 = 0,048 mm

O aperto usa-se sempre (o simétrico da folga). O H7/p6 é um aperto ligeiro, montável a prensa a frio; o H7/s6 é mais forte, usado quando a peça tem de resistir a esforços maiores sem se soltar, normalmente com o auxílio de dilatação térmica na montagem.

Bloco 8 · Toleranciamento geométrico e símbolos ISO 1101

Duas famílias de tolerância geométrica

A ISO 1101 organiza os símbolos em duas famílias, consoante precisam ou não de uma referência (datum):

Sem referência (forma) Com referência (orientação, localização, batimento)
Retitude ⏤ Paralelismo ∥
Planeza ▱ Perpendicularidade ⊥
Circularidade ○ Inclinação ∠
Cilindricidade ⌭ Localização/posição ⌖
Perfil de linha/superfície Concentricidade/coaxialidade ◎
Simetria ≡
Batimento circular/total ↗

As tolerâncias de forma avaliam a peça isolada. As de orientação, localização e batimento só fazem sentido em relação a uma referência, uma superfície ou eixo que serve de base de medição.

Ler um quadro de tolerância geométrica

Um quadro de tolerância geométrica lê-se sempre da esquerda para a direita:

┌────┬─────────┬───┐
│ ⌖  │ Ø 0,05  │ A │
└────┴─────────┴───┘
  1. Símbolo da característica (aqui, localização).
  2. Valor da tolerância (aqui, uma zona cilíndrica de Ø0,05 mm).
  3. Letra(s) de referência (aqui, a referência A), ligada por uma linha a um triângulo no elemento que serve de base.

Isto lê-se: "o eixo real do furo tem de estar contido numa zona cilíndrica de Ø0,05 mm, centrada na posição teórica definida em relação à referência A".

Bloco 9 · Referências (datums) e princípio de independência

A referência (datum)

Uma referência (datum) é um plano, eixo ou ponto teórico, derivado de uma superfície real da peça, que serve de origem para medir orientação, localização ou batimento.

  • Identifica-se por uma letra maiúscula, ligada a um triângulo apoiado na superfície de referência.
  • Um quadro pode ter uma, duas ou três referências, formando um sistema de referências: a ordem importa (a primeira restringe mais graus de liberdade do que a segunda).
  • Em moldes, as referências típicas são a face de apoio da placa e o eixo do furo de centragem, porque é assim que a peça é fixada na máquina e no controlo dimensional.

Escolher mal a referência é medir a peça de um jeito que não corresponde a como ela é usada.

Princípio de independência (ISO 8015)

O princípio de independência, definido na ISO 8015 e detalhado na ISO 22081, é a regra por omissão de todo o desenho técnico moderno:

Cada tolerância aplica-se de forma independente das restantes, salvo indicação expressa em contrário.

Isto significa que a tolerância dimensional (Bloco 2) e a tolerância geométrica (Bloco 8) de um mesmo elemento não se influenciam mutuamente, a não ser que um modificador (Bloco 11) ligue as duas.

Sem modificador Com modificador (Ⓔ, Ⓜ, Ⓛ)
dimensão e forma são controlos separados dimensão e forma passam a estar ligadas
é a regra por omissão tem de estar escrito no desenho

Bloco 10 · Exigência de envolvente e princípios de matéria

Exigência de envolvente (Ⓔ)

A exigência de envolvente, símbolo a seguir à cota, liga a tolerância dimensional à forma: obriga a que a peça real caiba dentro de um invólucro de forma perfeita, do tamanho da cota no seu limite de máxima matéria.

  • Aplica-se a um único elemento (um furo, um veio), nunca a duas peças ao mesmo tempo.
  • Garante a montabilidade: se o furo cabe sempre dentro do invólucro perfeito no seu limite de máxima matéria, um veio do mesmo limite máximo entra sempre.
  • É o oposto da independência: aqui, forma e dimensão ficam ligadas por decisão explícita do projetista.

Usa-se em elementos de encaixe crítico, como o furo de um casquilho-guia, quando a montagem não pode falhar por erro de forma escondido dentro da tolerância dimensional.

Máxima matéria (Ⓜ) e mínima matéria (Ⓛ)

  • Máxima matéria (MMC, Ⓜ): a condição em que a peça tem o máximo de material, furo no seu diâmetro mínimo ou veio no seu diâmetro máximo. É o pior caso para a montagem.
  • Mínima matéria (LMC, Ⓛ): o oposto, o mínimo de material, o pior caso para a resistência ou espessura de parede.

Quando um símbolo Ⓜ aparece no quadro geométrico junto ao elemento tolerado, a tolerância geométrica cresce à medida que a peça se afasta da máxima matéria (a chamada tolerância adicional, ou "bónus"):

ââ

Exemplo: um furo Ø10 (MMC=Ø10,00) com posição Ø0,10 Ⓜ. Se o furo real sai a Ø10,08, a tolerância adicional é mm, e a tolerância de posição efetiva sobe para mm.

Bloco 11 · Tolerância projetada e modificadores ISO/ASME

Tolerância projetada (Ⓟ)

A tolerância projetada, símbolo , desloca a zona de tolerância geométrica para fora da peça, ao longo de uma distância indicada, em vez de a aplicar apenas dentro do furo.

Caso típico em moldes: o furo de uma coluna-guia na placa é curto, mas a coluna projeta-se 40 mm para fora da placa antes de entrar no casquilho da outra placa. Se a tolerância de perpendicularidade fosse aplicada só dentro do furo curto, um pequeno desvio angular ali poderia desviar muito a ponta da coluna 40 mm mais à frente.

⌖  Ø0,02  Ⓟ 40  A

Lê-se: "a zona de tolerância de perpendicularidade de Ø0,02 mm aplica-se ao longo de 40 mm projetados para fora da face, não apenas dentro do furo."

Símbolos modificadores, ISO e ASME

Modificador Símbolo Significado
Máxima matéria Ⓜ tolerância adicional conforme a peça se afasta da máxima matéria
Mínima matéria tolerância adicional conforme a peça se afasta da mínima matéria
Tolerância projetada zona de tolerância deslocada para fora da peça
Exigência de envolvente liga dimensão e forma (só existe do lado ISO)

Os modificadores Ⓜ, e são praticamente comuns às duas normas, ISO 1101 e ASME Y14.5. A diferença maior está na exigência de envolvente: a norma ISO trata-a como opcional (símbolo Ⓔ, tem de estar escrito), enquanto a norma ASME a aplica por omissão à maioria das cotas de tamanho (a chamada "Regra nº 1"), sem precisar de símbolo.

Bloco 12 · Acumulação de tolerâncias

Cadeia de cotas e cota de fecho

Quando várias peças se empilham, a cota final do conjunto depende da soma das cotas individuais: é a cadeia de cotas. A última cota, a que fecha a cadeia, chama-se cota de fecho e é sempre uma cota auxiliar, entre parênteses, sem tolerância própria no desenho: ela resulta das outras, não se cota nem se tolera diretamente.

Regra do pior caso, a mais usada neste nível: a tolerância da cota de fecho é a soma das tolerâncias das cotas que compõem a cadeia.

Cotar a mesma medida da peça duas vezes por caminhos diferentes cria uma cadeia sobreposta e uma cota redundante: mede-se a medida real da peça uma única vez, por um só caminho de cotagem.

Exemplo resolvido: altura de um pacote de molde

Três placas empilhadas na direção de fecho, formam a altura de um pacote de molde: Placa A (40 ± 0,10 mm), Placa B (60 ± 0,15 mm), Placa C (25 ± 0,10 mm).

áí

Esta altura total, entre parênteses no desenho de conjunto, tem de ser compatível com o curso de fecho da máquina de injeção. Se a folga de 0,35 mm for excessiva para a máquina, a solução é apertar a tolerância de uma das três placas, não da cota de fecho (que não se pode tolerar diretamente).

Bloco 13 · Instrumentos de medida e máquina de medição por coordenadas

Instrumentos de medida e verificação

Instrumento Mede Resolução típica
Paquímetro comprimentos, diâmetros, profundidades 0,02 a 0,05 mm
Micrómetro diâmetros e espessuras de precisão 0,01 mm (alguns, 0,001 mm)
Comparador (relógio comparador) variações relativas, batimento, planeza 0,01 mm, ou menos
Calibre passa/não passa aceitação rápida por limites, sem valor numérico vai/não vai

O calibre passa/não passa é o instrumento da produção em série: não dá um número, só confirma se a peça está dentro da tolerância. É mais rápido e mais barato do que medir cada peça com um paquímetro, mas não serve para diagnosticar desvios de processo.

Máquina de Medição por Coordenadas (CMM)

A CMM mede uma peça em três eixos (X, Y, Z), tocando ou digitalizando a superfície com uma sonda, e calcula automaticamente cotas, formas, orientações, localizações e batimentos a partir da nuvem de pontos recolhida.

  • Verifica, numa só peça, toda a folha de tolerâncias geométricas de uma vez, algo impraticável com instrumentos manuais.
  • Essencial em moldes: verifica a posição relativa entre o macho e a cavidade, os furos de coluna-guia, e a forma real de superfícies complexas (moldadas em 3D).
  • Requer referências bem definidas no programa de medição, exatamente as mesmas do desenho (Bloco 9): medir a peça numa referência diferente da do projeto invalida o resultado.

Bloco 14 · Segurança e boas práticas

Segurança e saúde no trabalho de medição

Trabalhar com instrumentos de precisão e com a CMM implica cuidados próprios, para além dos gerais de oficina:

  • Instrumentos de medida: manusear com cuidado, nunca deixar cair; limpar antes e depois de usar, para não transportar limalha entre peças.
  • Máquinas de medição por coordenadas: nunca forçar a sonda contra a peça; respeitar os limites de curso; deixar a máquina estabilizar termicamente antes de medições de precisão (variações de temperatura da sala falseiam décimas de mícron).
  • Sala de metrologia: ambiente com temperatura controlada, normalmente perto de 20 °C; um desvio de poucos graus já muda a dimensão real de uma peça metálica o suficiente para invalidar tolerâncias apertadas.
  • Peças acabadas de máquina: podem ter arestas vivas e limalha; usar luvas adequadas ao manuseamento, não à medição fina (que exige tato direto).

Rigor na medição começa por rigor no ambiente e no manuseamento.

Recapitulando

  • Toleranciar é decidir a variação aceitável de cada cota, ligada à sua função: individual, quando crítica; geral (ISO 2768 e normas por processo), para o resto.
  • Sistema de furo normal: furo sempre H, o veio muda de letra para dar folga (g, f), incerto (k) ou aperto (p, s). Folga = furo menos veio, sempre.
  • Toleranciamento geométrico (ISO 1101) é independente do dimensional, salvo modificador (Ⓔ, Ⓜ, Ⓛ, Ⓟ) que os ligue.
  • Acumulação de tolerâncias: a cota de fecho, sempre auxiliar, soma as tolerâncias da cadeia.
  • Medir bem exige o instrumento certo, as referências certas e um ambiente controlado.

Próximo: fichas de cálculo de ajustamentos e tolerâncias, e o mini-projeto de toleranciamento de um conjunto de molde.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: tolerância não é "erro admissível", é uma decisão de engenharia ligada à função da peça. - Erro comum: os alunos pensam que "quanto mais apertado, melhor". Mostrar que IT5 custa muito mais do que IT9 sem necessidade. - Exemplo: uma coluna-guia de molde precisa de deslizar sem folga excessiva nem gripar; a tolerância certa resolve os dois problemas ao mesmo tempo.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: "sem cota tolerada" não quer dizer "sem tolerância". A norma geral cobre sempre o resto do desenho. - Erro comum: esquecer a nota de toleranciamento geral na legenda do desenho. Sem ela, a peça não tem critério de aceitação. - Pergunta à turma: porque não se tolera cada uma das centenas de cotas de um desenho de molde individualmente? (custo de desenho e de controlo, sem ganho funcional na maioria delas).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: dimensão e forma são dois controlos distintos, por norma independentes. Isto volta com detalhe no bloco 9. - Erro comum: assumir que um veio "dentro da tolerância de diâmetro" é automaticamente reto e cilíndrico. Não é, salvo indicação em contrário. - Exemplo/analogia: medir o diâmetro de um lápis em vários pontos com um paquímetro. Todos podem estar dentro da tolerância e o lápis continuar ligeiramente torto.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: IT é sempre positivo, mesmo quando os dois desvios são negativos (ex.: veio com es=-7, ei=-20; IT=-7-(-20)=13). - Erro comum: trocar ES/EI (maiúsculas, furos) com es/ei (minúsculas, veios). A convenção de maiúscula/minúscula não é decorativa, identifica o tipo de elemento. - Exemplo: um furo Ø25H7 tem ES=+0,021 mm e EI=0. Cota máxima 25,021 mm, cota mínima 25,000 mm, IT=0,021 mm.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: os valores de 0,021 mm (IT7) e 0,013 mm (IT6) vêm da tabela da ISO 286-1 para o intervalo 18-30 mm; não se inventam. - Erro comum: somar o desvio à cota mínima em vez de à cota nominal. É sempre a partir do nominal. - Este par furo/veio volta nos blocos 6 e 7 para calcular o ajustamento entre eles.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a classe (f/m/c/v) é escolhida uma vez para todo o desenho, na legenda, e aplica-se só às cotas sem tolerância própria. - Erro comum: aplicar a linha errada da tabela por engano de intervalo. Confirmar sempre em que intervalo cai a cota antes de ler o valor. - Pergunta: uma cota de 15 mm em classe m usa que intervalo? (6 a 30 mm, logo ±0,20 mm, não a linha de 30-120).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: escolher a norma pelo material e processo da peça final, não pela norma "que se conhece melhor". - Erro comum: aplicar ISO 2768 (metal maquinado) a uma peça plástica moldada. O encolhimento do plástico exige margem própria, não a de uma peça maquinada. - Ligação ao curso: quem projeta o molde tem sempre duas peças em mente, o próprio molde (metal, ISO 2768/13920/8062) e a peça que ele produz (plástico, ISO 20457/DIN 16742).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a qualidade de fabrico define só a amplitude (o "tamanho" da tolerância); a posição vem do desvio fundamental (H, h, g, k, p...), tratado no bloco seguinte. - Erro comum: pedir IT6 numa cota que vai ser fundida. Nenhum processo de fundição corrente atinge essa amplitude sem maquinagem posterior. - Pergunta: porque é que a coluna-guia (retificada) leva IT6/IT7 e uma placa de base (fresada corrente) pode levar IT9 ou mais larga? (a função de cada uma exige precisões diferentes).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: no sistema de furo normal, o furo é sempre H; muda-se o veio para obter folga, incerto ou aperto. Existe o sistema simétrico, de veio normal (h fixo no veio), menos usado em moldes. - Erro comum: pensar que "H" significa "sem tolerância". H tem tolerância como qualquer outro, só que toda ela do lado positivo (EI=0). - Exemplo: uma oficina de moldes que furma sempre H7 pode montar colunas g6 (folga), pinos k6 (incerto) ou casquilhos p6 (aperto) no mesmo furo, sem mudar de alargador.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: fixar já a definição "folga = furo menos veio" antes dos cálculos, porque troca-la a meio dá sinais errados. - Erro comum: dizer que o ajustamento incerto "tem sempre um pouco de folga e um pouco de aperto" na mesma peça. Não: cada par furo/veio real dá um resultado, folga OU aperto; é o conjunto das combinações possíveis que inclui os dois casos. - Ligar à função: escolher o tipo de ajustamento é escolher se a peça desliza, centra ou fica fixa.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: folga máxima usa a cota MAIS FAVORÁVEL à folga de cada peça (furo grande, veio pequeno); folga mínima usa a menos favorável (furo pequeno, veio grande). É sempre este cruzamento. - Erro comum: usar cota máxima do furo com cota máxima do veio. Não, cruzam-se sempre os extremos opostos. - Exemplo/pergunta: se a folga mínima fosse zero, a coluna ainda deslizaria sempre sem gripar? (não, zero é o limite; abaixo disso já seria aperto nalgumas peças).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: mudar só a letra do veio (g para f), mantendo o mesmo furo H7, muda a folga sem tocar no furo. É a vantagem do sistema de furo normal. - Erro comum: escolher f7 "só porque dá mais folga" sem justificar a função. Cada ajustamento existe por uma razão funcional (aqui, dilatação térmica do extrator). - Pergunta: porque não usar sempre f7 em vez de g6? (mais folga também é mais ruído/desalinhamento; usa-se f7 só onde a função pede).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a mesma fórmula (folga = furo menos veio) dá, aqui, um resultado positivo e outro negativo. É isso que torna o ajustamento "incerto". - Erro comum: concluir que k6 "é sempre um aperto pequeno". Pode ser folga pequena também, depende das cotas reais de cada peça fabricada. - Exemplo: dowel pins de centragem em moldes usam tipicamente H7/k6 ou H7/m6, exatamente por esta razão.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: aperto = veio menos furo = simétrico da folga definida no bloco 5. Nunca inverter a ordem a meio de um exercício. - Erro comum: montar um casquilho p6 ou s6 sem prensa, "à mão". Um aperto de décimas de milímetro em metal não entra sem força ou sem aquecer a placa. - Pergunta: qual dos dois ajustamentos escolher para um casquilho que vai ser substituído com frequência por desgaste? (H7/p6, aperto mais ligeiro, mais fácil de desmontar sem danificar a placa).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: se um símbolo aparece no quadro de tolerância COM uma letra de referência ao lado, é da segunda família; se não tem letra, é de forma. - Erro comum: aplicar perpendicularidade sem indicar a referência. Sem referência, a perpendicularidade em relação a quê não tem significado. - Exemplo: a face de apoio de um postiço leva planeza (forma, sem referência); o furo do casquilho-guia leva perpendicularidade à face de apoio (com referência).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o valor da tolerância geométrica é o diâmetro OU a largura da zona, nunca um "mais ou menos". - Erro comum: ler a tolerância geométrica como se fosse dimensional (±). É sempre uma zona de amplitude total, não um desvio para cada lado a somar. - Exemplo: comparar com o quadro de um furo de coluna-guia real de um desenho de molde, se houver um disponível na sala.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a referência tem de ser a mesma superfície pela qual a peça se apoia ou se monta na realidade, senão a medição não representa a função. - Erro comum: escolher como referência uma face que nunca serve de apoio real à peça, só porque é fácil de medir. - Pergunta: numa placa de molde, que referência faz mais sentido para o furo do casquilho-guia? (a face de encosto na prensa e, se necessário, um segundo furo de centragem).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: "independência" é a regra por omissão desde a ISO 8015; antes dela, muitos desenhos assumiam implicitamente a exigência de envolvente (regra de Taylor), o que gerava ambiguidade internacional. - Erro comum: assumir por hábito que uma peça "dentro do diâmetro" está automaticamente dentro da forma. Só está se houver um modificador a ligar as duas. - Ligar ao bloco seguinte: a exigência de envolvente é precisamente a forma de voltar a ligar dimensão e forma, quando é isso que a função exige.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: Ⓔ é uma exceção ao princípio de independência, não a regra. Só se aplica quando escrita explicitamente a seguir à cota. - Erro comum: confundir exigência de envolvente com tolerância geométrica de forma. São coisas diferentes: a envolvente deriva da PRÓPRIA cota dimensional, não é um quadro geométrico à parte. - Exemplo: um furo Ø25H7 Ⓔ garante que, mesmo no seu diâmetro mínimo (25,000), a forma real não ultrapassa o cilindro perfeito de Ø25,021, o limite de máxima matéria do furo.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o "bónus" de tolerância só existe quando o símbolo Ⓜ ou Ⓛ está explicitamente no quadro; sem ele, aplica-se a regra do pior caso (RFS), sem bónus. - Erro comum: aplicar máxima matéria ao veio quando o texto indica o furo, ou vice-versa. Verificar sempre a que elemento a tolerância geométrica se refere. - Ligar à função: MMC usa-se onde importa garantir montagem (furos de fixação com parafuso); LMC usa-se onde importa garantir espessura mínima de parede.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a tolerância projetada corrige exatamente o problema do "efeito alavanca": um pequeno erro angular dentro do furo cresce muito ao longo do comprimento projetado. - Erro comum: esquecer Ⓟ em furos que recebem colunas ou cavilhas compridas. Sem ela, a peça pode passar no controlo do furo e ainda assim não montar. - Pergunta: em que outros casos do dia a dia isto se aplica? (um parafuso comprido também sofre este efeito, daí Ⓟ ser comum em furos roscados de fixação).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: quando um desenho vem de um cliente ou fornecedor estrangeiro, verificar sempre se segue ISO ou ASME, porque a regra por omissão da envolvente muda. - Erro comum: interpretar um desenho ASME com a lógica de independência da ISO 8015. Nesses desenhos, a envolvente já está implícita. - Exemplo: um desenho americano de um molde de exportação pode não ter nenhum Ⓔ escrito e mesmo assim ter a exigência de envolvente ativa, por ser ASME.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a cota de fecho nunca leva tolerância própria; ela é a consequência aritmética das outras cotas da cadeia. - Erro comum: cotar a mesma distância de dois lados diferentes de um desenho "para garantir". Isso cria uma cadeia fechada com duas cotas de fecho, ambiguidade pura. - Exemplo: recapitular a regra de ouro da cotagem, uma medida, uma cota, um único caminho até ao fecho.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: 0,10+0,15+0,10=0,35 é uma soma direta; refazer a conta na aula, sem atalhos, para fixar o método do pior caso. - Erro comum: tentar "apertar" a tolerância da cota de fecho. Não é possível diretamente, porque ela resulta da soma; aperta-se uma das cotas componentes. - Pergunta: qual das três placas compensa mais apertar, a mais crítica ou a mais fácil de fabricar mais precisa? (normalmente a mais barata de apertar, não necessariamente a maior).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: escolher o instrumento certo é ligar a resolução do instrumento à amplitude da tolerância; medir um IT6 com um paquímetro de 0,05 mm não tem sentido. - Erro comum: usar sempre o instrumento "mais preciso disponível" sem necessidade, o que trava a produção sem ganho de qualidade. - Exemplo: numa oficina de moldes, o calibre passa/não passa controla furos de série (casquilhos), o comparador controla o batimento de um veio na rotação.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a CMM não substitui o desenho, ela verifica-o; o programa de medição tem de usar as mesmas referências (datums) do quadro de tolerâncias. - Erro comum: programar a CMM com referências "convenientes para medir" em vez das referências funcionais do desenho. - Ligar às atitudes da UC: operar a CMM exige rigor e sentido de organização, um erro de referência invalida todo o relatório de medição.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a temperatura da sala de metrologia não é um detalhe de conforto, é uma condição de medição válida em tolerâncias apertadas (IT6/IT7). - Erro comum: medir uma peça acabada de sair da máquina, ainda quente, e assumir a cota como definitiva. - Ligar às atitudes do referencial: rigor, autodisciplina e respeito pelas normas aplicam-se tanto ao desenho como à sala de metrologia.