UC02877

Desenho de peças e componentes mecânicos

Vistas, cotagem, tolerâncias, leitura de desenho

Técnico de Manutenção Industrial / Mecatrónica · 50h

Plano da unidade

  1. Para que serve o desenho técnico
  2. Materiais, formatos, escalas
  3. Projecções ortogonais (3 vistas)
  4. Cortes e secções
  5. Cotagem e cota
  6. Tolerâncias dimensionais
  7. Estados de superfície (rugosidade)
  8. Tolerâncias geométricas (GD&T)
  9. Símbolos e indicações
  10. Ler e produzir um desenho

Bloco 1 · Para que serve

A linguagem comum

Quem desenha (engenheiro), quem produz (operador), quem mede (qualidade) e quem monta (técnico) usam o mesmo desenho. Sem ele, comunicação falha.

O desenho técnico é a factura técnica entre quem encomenda e quem produz.

Normas: ISO 128, 129, 1101, 286, 1302, 5455, 5456... + EN + DIN.

O que tem de ter

Um desenho técnico completo tem:

  1. Vistas suficientes para definir a peça.
  2. Cotagem completa (sem ambiguidade).
  3. Tolerâncias dimensionais e geométricas.
  4. Estado de superfície (Ra).
  5. Material e tratamentos.
  6. Quantidade + escala + número.
  7. Caixa de legenda (cartouche) preenchida.

Falta um? Operador adivinha → peça errada.

Bloco 2 · Materiais, formatos, escalas

Formatos ISO 216

Formato Dimensões (mm) Uso típico
A0 841 × 1189 Conjunto grande
A1 594 × 841 Conjunto médio
A2 420 × 594 Peça grande / conjunto pequeno
A3 297 × 420 Peça média
A4 210 × 297 Peça pequena, detalhe

Em CAD, formato + margem + cartouche estão standard nos templates.

Escalas

ESCALA  SIGNIFICADO
1:1     Tamanho real
1:2     Metade do real
1:5     1/5 do real (peça grande)
1:10    1/10
2:1     Dobro do real (detalhes)
5:1     5× (peça pequena)
10:1    10× (micropeça)

Anotar uma única escala por vista; usar DETALHE A com escala diferente para zoom.

Linhas (ISO 128)

Tipo Espessura Significado
Contínua grossa 0,5-0,7 mm Arestas visíveis
Contínua fina 0,25-0,35 mm Cotas, ajudas
Tracejada 0,25-0,35 Arestas escondidas
Mista (traço-ponto) fina 0,25 Eixos, simetria
Mista grossa 0,5 Cortes (limite)

Não confundir; cada linha diz uma coisa diferente.

Bloco 3 · Projecções ortogonais

3 vistas

O método europeu (1º diedro) coloca a peça entre o observador e o plano:

       VISTA SUPERIOR (ou de cima)
                  ↓
    VISTA          VISTA          VISTA
    LATERAL E ← VISTA FRONTAL → LATERAL D
                  ↓
       VISTA INFERIOR (raro)

Cada vista mostra 2 dimensões da peça. Combinando 3 vistas, peça fica totalmente definida.

1º vs 3º diedro

  • 1º diedro (Europa, ISO) — peça entre observador e plano.
  • 3º diedro (EUA) — plano entre observador e peça.

Símbolo no cartouche indica qual:

  • ⊙─⌬ → 1º diedro (cone com base esquerda)
  • ⌬─⊙ → 3º diedro (cone com base direita)

Confundir = peça com vistas trocadas.

Quantas vistas?

  • Peças simples (cilindro, paralelepípedo) — 1 ou 2 vistas chegam.
  • Maior parte3 vistas (frontal + superior + lateral).
  • Peças complexas6 vistas + cortes + detalhes.

Princípio da economia: o mínimo que define a peça sem ambiguidade. Vistas redundantes confundem.

Bloco 4 · Cortes e secções

Para que servem

Quando a peça tem detalhes interiores (furos, cavidades), vistas com tracejado não chegam. Corte mostra o interior como se fatiasses a peça.

Tipos

  • Corte total — atravessa toda a peça (mais comum).
  • Meio corte — metade em corte, metade em vista (peças simétricas).
  • Corte parcial (rompido) — só uma zona.
  • Corte em degrau — atravessa em vários planos.
  • Secção — corte fino, mostra só a "fatia".

Convenções

  • Hachura a 45° no material cortado.
  • Densidade da hachura = tipo de material (aço, alumínio, plástico têm padrões diferentes).
  • Letras maiúsculas (A-A) identificam o plano de corte na vista principal.
  • Não cortar veios, parafusos, nervuras no corte longitudinal — convenção (não acrescentaria informação).

Bloco 5 · Cotagem

Princípios

  • Cotar cada dimensão uma vez (não repetir).
  • Cotar a partir de superfícies funcionais ou referências.
  • Não esquecer cota — peça incompleta.
  • Não acumular cotas numa só vista — distribuir.
  • Cotagem em cadeia acumula tolerâncias; cotagem a partir de origem controla.

Anatomia da cota

     ↑ texto da cota
     |
─────|─────  linha de cota
     |
     ↓ setas nas extremidades
   |         |
   |         |  linhas auxiliares de cota
   |         |

Texto acima da linha (se horizontal) ou à esquerda (se vertical). Setas com 30° de ângulo.

Tipos de cota

  • Linear — comprimento entre 2 pontos/arestas.
  • Angular — ângulo entre 2 arestas.
  • Diâmetro — Ø antes do número.
  • Raio — R antes do número.
  • Esférica — SØ ou SR.
  • Quadrada — □ antes do número (lado).
  • Chanfre — 1×45° ou 1×30°.

Cotagem funcional

Cotar a partir de superfícies importantes para a função (referência, encosto, eixo).

Exemplo: peça monta-se contra uma base. Cotar os furos a partir da base, não do canto. Assim a tolerância vai para a face funcional.

Bloco 6 · Tolerâncias dimensionais

Notação

  • Ø 20 ±0,1 — variação simétrica.
  • Ø 20⁺⁰·²₀ — variação só para cima.
  • Ø 20 H7 — sistema ISO (furo).
  • Ø 20 h7 — sistema ISO (veio).

Sistema ISO 286

Letra indica posição do campo de tolerância:

  • Maiúscula → furo (A, B, ... H, ... Z).
  • Minúscula → veio (a, b, ... h, ... z).

Número indica qualidade (IT01 a IT16):

  • Mais pequeno = mais apertado.

Comum em mecânica:

  • H7/g6 — folga (livre).
  • H7/h6 — sem folga teórica.
  • H7/k6 — leve aperto.
  • H7/p6 — aperto.

Posições do campo de tolerância

         |       furo H7
─────────|──── linha zero (cota nominal)
     g6  | h6  k6  p6
   ↓     |  ↓     ↑     ↑↑
─────────|───
     veio

Cada letra é uma posição relativa à linha zero (cota nominal).

Bloco 7 · Rugosidade

Símbolo na peça

     /─\
    /   \
   /Ra  X\
  /‾‾‾‾‾‾‾\

X = valor em µm de Ra. Posicionado sobre a aresta ou com seta apontando à superfície.

Símbolos especiais

  • — superfície sem requisito específico.
  • ▽▽ — maquinada.
  • ▽▽▽ — rectificada.
  • ▽▽▽▽ — polida/lapidada.

ISO 1302 substituiu por símbolo único + Ra numérico.

Valores típicos

Operação Ra (µm)
Fundição em areia 12-25
Maquinado grosso 6,3-12,5
Maquinado normal 1,6-6,3
Maquinado fino 0,4-1,6
Rectificado 0,1-0,4
Polido / lapidado < 0,1

Bloco 8 · Tolerâncias geométricas (GD&T)

Símbolos principais

Símbolo Tipo
Rectitude
Planicidade
Circularidade
Cilindricidade
Paralelismo
Perpendicularidade
Inclinação
Posição
Concentricidade
Batimento radial
Forma de linha
Forma de superfície

Anatomia do quadro

[symbol|tolerance|datum A|datum B|datum C]
   ⊥      0.05      A

→ Perpendicularidade de 0.05 mm relativamente ao datum A

Datum = referência (face, eixo, ponto).

Exemplo prático

Peça: face superior paralela à inferior (datum A) com tolerância de 0,02 mm.

Indicação:

[⫽ | 0.02 | A]    ← na face superior
       A         ← na face inferior (datum)

Significado: a face superior tem de estar entre dois planos paralelos distantes 0,02 mm, ambos paralelos a A.

Bloco 9 · Símbolos e indicações

Tratamentos térmicos

  • HRC — dureza Rockwell C (aço temperado).
  • Cementar HRC 58-62 — endurecer só superfície.
  • Nitrurar — endurecer químico.

Indicação em nota junto à cotagem ou em local específico.

Revestimentos

  • Zincar 8 µm.
  • Niquelar / Cromar / Anodizar.
  • Pintar conforme especificação.

Roscas

  • M8 — métrica padrão.
  • M8 × 1 — métrica fina.
  • 2× M6 — dois furos roscados M6.
  • M8 × 20 prof. — rosca M8, profundidade 20 mm.

Furo pré-roscagem normalmente não cotado (implícito por tabela).

Bloco 10 · Ler e produzir

Sequência para ler um desenho

  1. Identificar peça (nome, número, escala).
  2. Material + tratamento.
  3. Quantas vistas e qual é a principal.
  4. Cotas funcionais primeiro (apoios, eixos, furos).
  5. Tolerâncias críticas (apertadas) — onde está o "preço" da peça.
  6. Estado de superfície — onde precisa ser fino.
  7. Notas — alertas, restrições.

Lê o cartouche antes de olhar o desenho — poupa tempo.

Sequência para produzir um desenho

  1. Peça em mente / modelo 3D definido.
  2. Vista principal que melhor mostra a peça.
  3. Vistas auxiliares mínimas necessárias.
  4. Cortes onde houver interior.
  5. Cotas das vistas para a peça toda.
  6. Tolerâncias nas críticas, gerais nas restantes.
  7. Estado de superfície onde importa.
  8. Notas + cartouche.

Iteração: rever, simplificar, verificar legibilidade.

UC02877 · resumo

  • Desenho técnico é a linguagem comum entre quem desenha, produz, mede, monta.
  • Vistas ortogonais (1º diedro em PT/EU) + cortes para interior.
  • Cotagem funcional, sem ambiguidade, cada dimensão uma vez.
  • Tolerâncias ISO (H7/g6) + dimensionais ± + geométricas (GD&T).
  • Rugosidade Ra onde importa.
  • Cartouche, escala, material sempre preenchidos.
  • Lê e verifica antes de produzir.