UC02849

Operações de serralharia de bancada

Cortar, limar, furar, roscar à mão

Técnico de Manutenção Industrial / Mecatrónica · 25h

Plano da unidade

  1. A bancada e o torno de bancada
  2. Marcar antes de cortar
  3. Serrar
  4. Limar
  5. Furar (berbequim de bancada)
  6. Roscar (macho + tarraxa)
  7. Rebitar, soldar (suave), unir
  8. Acabamento manual

Bloco 1 · Bancada e ferramentas

A bancada

  • Tampo robusto, superfície plana, com prensa (torno de bancada) atarrachada.
  • Altura aos cotovelos (~ 0,9-1 m). Se muito baixa → coluna sofre.
  • Iluminação ≥ 500 lux, idealmente lateral + frontal.
  • Acesso aos 4 lados quando possível.
  • Suporte de ferramentas próximo, organizado.

Torno de bancada (prensa)

  • Maxilas com mordentes (revestir com cobre/alumínio para não marcar).
  • Aperto firme mas sem deformar — uma mão na manivela, não as duas.
  • Peça ligeiramente acima das maxilas (evitar trabalhar dentro do torno).
  • Eixo vertical se possível; rotativo é versátil.

Caixa de ferramentas básica

  • Serrote de arco com lâminas (24-32 TPI conforme material).
  • Limas (gross/médio/fino; chata/triangular/redonda/meia-cana).
  • Martelo 500 g + bordas de 2 lados.
  • Berbequim de bancada + brocas HSS 1-13 mm.
  • Machos e tarraxas M3-M12.
  • Riscador, granitas, compasso, esquadro, paquímetro.
  • Escova de aço, escarrear, lima de afinar.

Bloco 2 · Marcar antes de cortar

Sequência clássica

1. Limpar peça   → desengordurar, sem óleo.
2. Azul de marcar→ camada uniforme, pincelar.
3. Riscar        → linha fina com riscador (de aço duro).
4. Granitas      → ponto a cada interseção / centro de furo.
5. Verificar     → paquímetro/régua/esquadro.
6. Cortar        → seguir a linha do lado certo.

"Medir 2 vezes, cortar 1." — provérbio que paga.

Marcar furos

  1. Marcar centro com granitas.
  2. Centerpunch (ponteado) com pancada firme — broca não desliza.
  3. Verificar distância entre furos com paquímetro.
  4. Marcar a profundidade na broca (fita ou colar) se necessário.

Bloco 3 · Serrar

Lâminas — TPI (dentes por polegada)

  • 14-18 TPI — secções grossas (vergas, perfis).
  • 24 TPI — geral, chapa de 4-6 mm.
  • 32 TPI — chapa fina (< 3 mm), tubo.

Regra: sempre ≥ 3 dentes em contacto com a peça (senão a lâmina engata).

Como serrar

  1. Apertar peça no torno perto do corte.
  2. Lâmina montada com dentes a avançar (corte na ida).
  3. Posição corpo direito, braço a empurrar; outro a guiar.
  4. Pressão na ida, alívio na volta.
  5. Curso longo — usar a lâmina inteira.
  6. Final do corte — segurar peça para não cair.

Tipos de corte

  • Recto — a maioria. Seguir linha.
  • Em ângulo — marcar dos dois lados.
  • Curvo — serra de chacota ou serra eléctrica.
  • Em tubo — lâmina fina; rodar tubo após cada empurrão para corte uniforme.

Bloco 4 · Limar

Anatomia da lima

[espigão] [cabo (madeira)] [virola] [garganta] [corpo] [ponta]
  • Corpo com picado (gross/médio/fino/bastardo).
  • Cabo com virola que evita rachar.
  • Sem cabo = não usar (espigão pode ferir a mão).

Tipos de lima

  • Chata — superfícies planas.
  • Meia-cana — superfícies côncavas/convexas.
  • Triangular — cantos, dentes de engrenagem.
  • Redonda — furos.
  • Quadrada — rasgos, ranhuras.
  • Faca — entalhes finos.

Como limar

  1. Apertar peça ao nível do torno (90° à lima).
  2. Posição: pé esquerdo à frente, pé direito atrás (canhotos invertem).
  3. Mão dominante no cabo, outra na ponta.
  4. Avançar com pressão (corte da lima é só na ida).
  5. Recuar sem pressão (não desgastar dentes).
  6. Curso longo + ritmo lento — força com corpo, não com braço.
  7. Verificar com esquadro e régua a cada minuto.

Limpar a lima

  • A lima entope com limalha — escarrear com escova de aço (cardas).
  • Periodicamente, bater suavemente (não no aço — usa madeira).
  • Limar giz ajuda em alumínio (evita entupir).

Bloco 5 · Furar

Berbequim de bancada vs manual

  • Bancada (coluna) — preciso, perpendicular, controlo de profundidade.
  • Manual — para furos em obra; menos preciso.

Para qualidade: bancada sempre que possível.

Velocidade (rpm)

Depende do material e do diâmetro:

V = π × D × N    →     N = (1000 × Vc) / (π × D)

Vc (m/min) típicos:
- Aço carbono:    20-30
- Aço inox:       10-15
- Alumínio:       60-80
- Latão:          40-60

Broca pequena → rpm alta. Broca grande → rpm baixa. Tabela na máquina ajuda.

Refrigeração

  • Aço: óleo de corte (taladrina) — refrigera + lubrifica.
  • Alumínio: álcool ou seco (com pausa).
  • Latão: seco.
  • Inox: óleo + avanço baixo + rpm baixo — atrito frio.

Sem refrigeração → broca queima, perde corte, peça aquece.

Sequência de furo

  1. Apertar peça com grampo/mordaças (NUNCA segurar à mão).
  2. Marcar centro com granitas.
  3. Broca pequena (Ø 3 mm) primeiro — broca-guia.
  4. Broca final com rpm certo + óleo.
  5. Avançar com firmeza mas sem forçar.
  6. Aliviar quase a sair (chapa fina entala).
  7. Escarrear a saída — tirar rebarba com broca + Ø.

Bloco 6 · Roscar à mão

Identificação de rosca

  • Métrica (M) — padrão SI; M8 = diâmetro nominal 8 mm.
  • Métrica fina (Mf) — passo menor que padrão.
  • UNC / UNF — americana, polegadas.
  • Whitworth (BSW/BSF) — antiga, polegadas.

Identificar pelo calibre de roscas ou tabela passo/diâmetro.

Macho e tarraxa

  • Macho — talha rosca dentro de furo (rosca fêmea).
  • Tarraxa (cossinete) — talha rosca fora de veio (rosca macho).

Cada um tem conjunto de 3 machos:

  1. Cónico — começa a rosca.
  2. Intermediário — aprofunda.
  3. Em forma final — termina, com calibre.

Furo de pré-roscagem

Antes de roscar com macho, furar com broca certa:

Rosca métrica:  furo = D - passo
Ex.: M6 (passo 1)  → furo Ø 5 mm
Ex.: M8 (passo 1,25) → furo Ø 6,8 mm
Ex.: M10 (passo 1,5) → furo Ø 8,5 mm

Tabela na parede da oficina. Furar mal = rosca não pega ou parte o macho.

Roscar bem

  1. Macho na manivela, perpendicular ao furo (verificar com esquadro).
  2. Avançar 1 volta + recuar 1/2 volta — quebra a apara.
  3. Refrigerar com óleo de corte.
  4. Verificar profundidade se rosca não passa.
  5. Mudar para macho intermediário + final.
  6. Testar com parafuso correspondente.

Parar se sentes resistência súbita — macho parte facilmente.

Bloco 7 · Outras técnicas

Rebitar

  • Rebites cegos (pop-rivets) — alicate de rebitar, alumínio/aço.
  • Rebites maciços — para uniões pesadas, montagem com punção.

Aplicação: união permanente, chapas finas, painéis.

Soldar suave

  • Estanho-chumbo (ou sem chumbo) — ferro de soldar 30-60 W.
  • Para uniões eléctricas, chapa fina (latão, cobre).
  • Não para esforço mecânico.

Soldadura por arco (eléctrodo) é outra UC (UC02921).

Colagem

  • Anaeróbica (Loctite) — fixar parafusos, vedar.
  • Cianoacrilato — pequenas montagens.
  • Epoxi — alta resistência.
  • Adesivo estrutural — substitui rebites em alguns casos.

Bloco 8 · Acabamento

Sequência de acabamento

  1. Limpar rebarbas com lima + escarear.
  2. Polir progressivamente: 80 → 120 → 240 → 400 → 600 grit.
  3. Lavar com solvente.
  4. Proteger — desengordurar + tinta primária + pintura, ou óleo, ou tratamento (zincagem, anodização).

Erros comuns

  • Saltar grit (de 80 para 400) — riscos grosseiros permanecem.
  • Polir sem limpar — partícula riscia.
  • Pintar sem desengordurar — tinta não pega.
  • Esfregar com aço sobre alumínio — risca.

UC02849 · resumo

  • Bancada + torno + ferramentas básicas = serralharia.
  • Marcar bem antes de cortar = poupa material.
  • Serrar com lâmina certa + 3 dentes em contacto.
  • Limar com força do corpo, na ida só.
  • Furar com velocidade do material + refrigeração + broca-guia.
  • Roscar com furo correto (D − passo) + macho perpendicular.
  • Acabamento progressivo + proteção.
  • EPI sempre: óculos, luvas anti-corte (não em rotativos), calçado S3.