UC02527

Efetuar o planeamento e controlo da obra

Fases da obra, Gantt, redes PERT/CPM, caminho crítico, equipas, recursos, riscos e segurança no estaleiro

Curso profissional · 50h · Técnico/a de Obra

Plano

  1. Planeamento e controlo de obra
  2. Requisitos técnicos do projeto
  3. Fases de execução da obra
  4. Princípios do planeamento
  5. O diagrama de Gantt
  6. Redes PERT/CPM
  7. Caminho crítico e folgas
  8. Organizar as equipas de trabalho
  9. Gerir recursos materiais e equipamentos
  10. Análise e gestão de riscos
  11. Métodos construtivos e tecnologias
  12. Controlar a obra: a curva S
  13. Segurança, saúde e ambiente no estaleiro
  14. Qualidade e enquadramento legal

Bloco 1 · Planeamento e controlo de obra

Porque planear uma obra

Uma obra envolve dezenas de atividades, várias equipas e materiais que têm de chegar na hora certa. Sem plano, o estaleiro vira caos: equipas paradas à espera de material, tarefas feitas fora de ordem, prazos furados.

  • O técnico de obra atua em empreitadas privadas, gabinetes de projeto, autarquias e diretamente no estaleiro.
  • Planear é prever: o que fazer, quando, com quem e com quê.
  • Controlar é comparar o real com o planeado e corrigir a tempo.

O bom planeamento poupa tempo e dinheiro antes de a obra começar.

O ciclo planear, executar, controlar, corrigir

O planeamento de obra não é um documento estático, é um ciclo:

  1. Planear: definir fases, prazos, recursos e equipas.
  2. Executar: a obra avança conforme o plano.
  3. Controlar: medir o progresso real e comparar com o planeado.
  4. Corrigir: identificar desvios e tomar ações corretivas.

Este ciclo repete-se ao longo de toda a obra, sempre com rigor e sentido crítico.

Bloco 2 · Requisitos técnicos do projeto

Ler as peças do projeto

Antes de planear, o técnico de obra tem de interpretar o projeto de execução, que reúne peças escritas e desenhadas:

Peça O que mostra
Planta disposição em vista de cima, a cada piso
Alçado fachadas vistas de frente
Corte secção vertical, mostra pés-direitos e cotas
Memória descritiva descreve soluções e materiais
Mapa de quantidades quantidades e itens a orçamentar
Caderno de encargos condições técnicas e contratuais

Sem dominar estas peças não é possível planear com rigor.

Coordenar as especialidades do projeto

Uma obra junta várias especialidades num único edifício: arquitetura, estruturas, águas e esgotos, eletricidade, ITED, AVAC.

  • Cada especialidade tem o seu próprio conjunto de desenhos.
  • O técnico de obra sobrepõe as plantas para detetar conflitos (ex.: uma viga a passar exatamente onde devia ir uma coluna de esgoto).
  • Analisar e interpretar projetos de diferentes especialidades é uma das aptidões centrais desta UC.
  • Os conflitos detetados em obra custam sempre mais do que os detetados no papel.

Bloco 3 · Fases de execução da obra

A sequência típica de uma obra de edifícios

Identificar as fases de execução da obra é a primeira realização desta UC. Numa construção de raiz, a sequência típica é:

  1. Estaleiro: montagem, sinalização, vedação.
  2. Movimentação de terras: limpeza do terreno, escavação.
  3. Fundações: sapatas, vigas de fundação.
  4. Estrutura: pilares, vigas, lajes.
  5. Alvenarias: paredes exteriores e interiores.
  6. Cobertura: estrutura e revestimento do telhado.
  7. Instalações: águas, esgotos, eletricidade, ITED.
  8. Revestimentos e acabamentos: rebocos, pinturas, pavimentos.
  9. Arranjos exteriores e limpeza final: entrega ao dono de obra.

Interdependências entre as fases

As fases não são blocos isolados, há interdependências: uma fase só pode começar depois de a anterior estar suficientemente avançada.

  • A estrutura só arranca depois de as fundações estarem curadas.
  • As alvenarias precisam da estrutura para se apoiarem.
  • As instalações entram nas paredes antes de estas serem revestidas.
  • A cobertura pode avançar em paralelo com as alvenarias, ambas dependem só da estrutura.

Compreender estas interdependências é o que permite planear a sequência certa, e é isso que a rede PERT/CPM (Bloco 6) representa de forma rigorosa.

Bloco 4 · Princípios do planeamento

Os objetivos do planeamento

Planear uma obra é equilibrar três objetivos que competem entre si, o triângulo do projeto:

  • Prazo: entregar a obra na data acordada.
  • Custo: cumprir o orçamento.
  • Qualidade: respeitar as especificações do projeto.

Mexer num vértice afeta os outros dois: comprimir o prazo custa dinheiro (mais equipas) ou qualidade (menos cuidado). É esse equilíbrio que os princípios base de um planeamento ensinam a gerir.

Da obra ao plano: a EDT (estrutura de decomposição do trabalho)

Antes de datar seja o que for, decompõe-se a obra em partes mais pequenas e geríveis, a EDT (ou WBS, work breakdown structure):

Moradia
├── Estaleiro
├── Fundações
│   ├── Escavação
│   └── Betonagem
├── Estrutura
├── Alvenarias
├── Cobertura
├── Instalações
├── Revestimentos
└── Acabamentos

Cada ramo final é um pacote de trabalho: mede-se, orça-se e programa-se. É a EDT que alimenta o Gantt e a rede PERT/CPM dos blocos seguintes.

Bloco 5 · O diagrama de Gantt

Ler e construir um Gantt

O diagrama de Gantt representa cada atividade como uma barra horizontal ao longo do tempo. É a técnica de planeamento mais usada por ser fácil de ler.

Excerto da obra "Moradia Vila Verde" (dias úteis, semana de 5 dias):

Atividade Duração Início Fim
A · Estaleiro 3 dias dia 1 dia 3
B · Movimentação de terras 4 dias dia 4 dia 7
C · Fundações 6 dias dia 8 dia 13
D · Estrutura 10 dias dia 14 dia 23
  • O eixo horizontal é o tempo; cada linha é uma atividade.
  • O comprimento da barra é a duração.

Vantagens e limites do Gantt

  • Vantagem: visual, fácil de mostrar ao dono de obra, mostra logo "quando é que cada coisa acontece".
  • Limite: não mostra bem porque é que uma atividade depende de outra, nem qual o efeito de um atraso numa atividade sobre as restantes.
  • Um Gantt sem as dependências marcadas é só um calendário bonito, não é uma ferramenta de decisão.

Para calcular o impacto real de um atraso e saber onde está o risco, usa-se a técnica de rede: PERT/CPM, o tema do bloco seguinte.

Bloco 6 · Redes PERT/CPM

A rede de atividades

A técnica PERT/CPM representa a obra como uma rede: cada atividade tem uma duração e depende de outras (precedência fim a início).

Rede completa da "Moradia Vila Verde" (9 atividades, dias úteis):

Atividade Duração Predecessora(s)
A · Estaleiro 3 (nenhuma)
B · Movimentação de terras 4 A
C · Fundações 6 B
D · Estrutura 10 C
E · Alvenarias 8 D
F · Cobertura 5 D
G · Instalações 7 E
H · Revestimentos 9 F, G
I · Acabamentos 6 H

Note-se que E e F partem ambas de D, e que H só arranca depois de F e G estarem concluídas.

Calcular ES e EF: a passagem à frente

ES (início mais cedo) e EF (fim mais cedo) calculam-se do início para o fim: EF = ES + duração; o ES de uma atividade é o maior EF das suas predecessoras.

Atividade Duração ES EF
A 3 dia útil 1 dia útil 3
B 4 dia útil 4 dia útil 7
C 6 dia útil 8 dia útil 13
D 10 dia útil 14 dia útil 23
E 8 dia útil 24 dia útil 31
F 5 dia útil 24 dia útil 28
G 7 dia útil 32 dia útil 38
H 9 dia útil 39 dia útil 47
I 6 dia útil 48 dia útil 53

H só arranca no dia útil 39, o dia a seguir ao maior dos dois EF que a alimentam (F termina no dia 28, G no dia 38, logo H espera pelo mais tardio: G).

Calcular LS e LF: a passagem atrás

LF (fim mais tarde) e LS (início mais tarde) calculam-se do fim para o início, sem atrasar o prazo total do projeto (53 dias úteis): LS = LF - duração; o LF de uma atividade é o menor LS das suas sucessoras.

Atividade ES EF LS LF Folga
A 1 3 1 3 0
B 4 7 4 7 0
C 8 13 8 13 0
D 14 23 14 23 0
E 24 31 24 31 0
F 24 28 34 38 10
G 32 38 32 38 0
H 39 47 39 47 0
I 48 53 48 53 0

F tem margem: pode atrasar até 10 dias úteis sem atrasar a obra.

Bloco 7 · Caminho crítico e folgas

O caminho crítico

O caminho crítico é a sequência de atividades com folga zero, a que determina a duração total da obra. Nesta rede:

A → B → C → D → E → G → H → I
3 +  4 +  6 + 10 +  8 +  7 +  9 +  6  =  53 dias úteis
  • Qualquer atraso numa atividade do caminho crítico atrasa a obra inteira, dia a dia.
  • F (cobertura) fica fora do caminho crítico: tem 10 dias úteis de folga.
  • Calcular o caminho crítico do planeamento é uma aptidão explícita desta UC, e é o que separa um plano genérico de um plano que sabe onde apertar o controlo.

Folga total e folga livre

dois tipos de folga, e confundi-los é um erro clássico:

  • Folga total: quanto uma atividade pode atrasar sem atrasar a obra inteira.
  • Folga livre: quanto uma atividade pode atrasar sem atrasar a atividade seguinte.

Para F (cobertura), ambas valem 10 dias úteis, porque F só tem um sucessor (H) e H está no caminho crítico: atrasar F até 10 dias não atrasa nem H nem a obra.

Quando uma atividade tem só um sucessor, folga total e folga livre coincidem. Quando tem vários sucessores, a folga livre pode ser menor que a folga total.

Atualizar o planeamento: exemplo de um atraso

Aptidão da UC: atualizar o planeamento durante a execução da obra. Suponhamos que C (fundações) atrasa de 6 para 8 dias úteis (mau tempo, +2 dias).

  • C está no caminho crítico (folga zero): o atraso propaga-se, dia a dia, a todas as atividades seguintes.
  • Nova duração da obra: 53 → 55 dias úteis.
  • F (cobertura) continua com 10 dias úteis de folga: o atraso em C desloca toda a rede em bloco, sem consumir a folga de F.

Regra a reter: um dia de atraso numa atividade crítica é sempre um dia de atraso na obra inteira; um atraso numa atividade com folga só é grave se ultrapassar essa folga.

Bloco 8 · Organizar as equipas de trabalho

Dimensionar uma equipa

Organizar as equipas de trabalho é a segunda realização desta UC. Para dimensionar uma equipa cruzam-se três valores: quantidade a produzir, dias disponíveis e produtividade por trabalhador.

Exemplo resolvido · Alvenarias (atividade E, 8 dias úteis)

  • Área de parede a construir: 160 m².
  • Necessário por dia: 160 m² ÷ 8 dias = 20 m²/dia.
  • Produtividade de 1 pedreiro: 4 m²/dia.
  • Pedreiros necessários: 20 ÷ 4 = 5 pedreiros.
  • Serventes de apoio (1 por cada 2 pedreiros, arredondado por cima): 3 serventes.
  • Equipa total: 8 elementos (5 pedreiros + 3 serventes).

Coordenar equipas diferentes

Numa obra trabalham várias equipas em simultâneo ou em sequência: pedreiros, eletricistas, canalizadores, subempreiteiros.

  • Reuniões de obra regulares para alinhar prazos e resolver conflitos.
  • Respeitar a sequência da rede PERT/CPM: uma equipa só entra quando a anterior liberta a frente de trabalho.
  • Coordenar as atividades de diferentes equipas é um dos critérios de desempenho avaliados nesta UC.
  • Atitudes chave: conduta profissional, cooperação com a equipa e respeito pelas regras e normas definidas.

Uma boa coordenação evita que duas equipas queiram usar o mesmo espaço ao mesmo tempo, ou que uma espere pela outra sem necessidade.

Bloco 9 · Gerir recursos materiais e equipamentos

Calcular quantidades de recursos

Calcular quantidades de recursos é uma aptidão explícita desta UC. Exemplo, betão para as fundações (sapata contínua):

  • Dimensões: comprimento 40 m × largura 0,6 m × altura 0,5 m.
  • Volume: 40 × 0,6 × 0,5 = 12 m³ de betão.
  • Camião betoneira com capacidade de 8 m³: 12 ÷ 8 = 1,5 → 2 viagens (uma de 8 m³, outra de 4 m³).
  • Produtividade da equipa de betonagem: 15 m³/dia.
  • Tempo de betonagem: 12 ÷ 15 = 0,8 dia → arredonda-se sempre por cima: 1 dia útil.

Regra de ouro: arredondar sempre para cima em recursos e prazos, uma fração de camião ou de dia não existe na prática.

Prazos de entrega e disponibilidade

O conhecimento "necessidades de mão de obra, materiais e equipamentos, considerando a disponibilidade, custos e prazos" cruza-se diretamente com a rede PERT/CPM:

  • Cada material ou equipamento tem um prazo de entrega (lead time): não chega no dia em que se precisa dele, tem de se encomendar antes.
  • Regra prática: encomendar de forma a que o material chegue antes do ES (início mais cedo) da atividade que o usa.
  • Exemplo: se a estrutura (D) arranca no dia útil 14 e o aço tem um prazo de entrega de 5 dias úteis, a encomenda tem de sair, o mais tardar, no dia útil 9.
  • Equipamentos partilhados entre atividades (uma grua, um gerador) precisam de nivelamento: verificar que não são pedidos por duas atividades ao mesmo tempo.

Bloco 10 · Análise e gestão de riscos

Identificar e avaliar riscos

Análise e gestão de riscos, para antecipar possíveis obstáculos, é um conhecimento explícito desta UC. Usa-se uma matriz de probabilidade × impacto:

Risco Probabilidade Impacto
Atraso na entrega de betão Média Alto
Condições climatéricas adversas Alta Médio
Acidente de trabalho no estaleiro Baixa Alto
Falta de mão de obra especializada Média Médio
Alteração ao projeto pelo dono de obra Média Alto
  • Risco Alta probabilidade + Alto impacto: prioridade máxima de resposta.
  • A matriz obriga a decidir onde investir tempo de prevenção primeiro.

Mitigar e responder aos riscos

Identificar o risco não chega, é preciso agir:

  • Ação preventiva: reduz a probabilidade antes de o risco acontecer (ex.: reservar o betão com antecedência junto de dois fornecedores).
  • Ação corretiva: reduz o impacto depois de o risco acontecer (ex.: ter um plano de turnos extra se chover uma semana inteira).
  • Introduzir folga de segurança no plano para os riscos de maior impacto (é por isso que F, a cobertura, com 10 dias úteis de folga, absorve bem um atraso por mau tempo).
  • Ligar sempre ao ciclo do Bloco 1: um risco que se concretiza é um desvio a controlar e corrigir.

Bloco 11 · Métodos construtivos e tecnologias

Métodos construtivos

Selecionar métodos construtivos adequados é um critério de desempenho desta UC. Três grandes famílias:

Método Características Quando escolher
Tradicional (alvenaria + betão armado in situ) flexível, mão de obra local, mais lento obra pequena, projeto irregular
Pré-fabricado (elementos feitos em fábrica) rápido, qualidade controlada, precisa de grua prazos apertados, produção em série
LSF (light steel framing) leve, seco, muito rápido a montar ampliações, obras ligeiras

A escolha do método impacta diretamente as durações do Gantt e da rede PERT/CPM: um método pré-fabricado pode reduzir a duração da estrutura de 10 para 5 dias úteis, por exemplo.

Tecnologias de apoio ao planeamento

As ferramentas informáticas tornaram o planeamento muito mais rigoroso e rápido de atualizar:

  • Software CAD: desenho e leitura de plantas, alçados e cortes.
  • Aplicações de gestão de projetos: constroem o Gantt e a rede PERT/CPM automaticamente, recalculam o caminho crítico a cada alteração.
  • BIM (building information modelling): modelo 3D único e partilhado entre especialidades, deteta conflitos entre projetos antes da obra começar.
  • Dispositivos móveis com acesso à internet, para atualizar o plano diretamente a partir do estaleiro.

A tecnologia acelera os cálculos, mas quem tem de saber interpretar o resultado continua a ser o técnico de obra.

Bloco 12 · Controlar a obra: a curva S

O que é a curva S

A curva S representa o progresso acumulado da obra (em percentagem) ao longo do tempo. Chama-se assim pela forma característica: arranca devagar, acelera no meio, e desacelera no fim.

Curva planeada da "Moradia Vila Verde" (progresso acumulado, dias úteis):

Dia útil 5 15 25 35 45 53
% planeado 5,5% 23,0% 50,8% 74,9% 91,7% 100%
  • No início (estaleiro, fundações) o progresso é lento: pouco valor construído por dia.
  • A meio (estrutura, alvenarias) a obra ganha ritmo.
  • No fim (acabamentos) volta a abrandar: são tarefas de detalhe.

Ler a curva S e calcular desvios

A curva S serve para monitorizar e supervisionar continuamente o avanço da obra, identificando desvios, um critério de desempenho central desta UC.

Exemplo resolvido · Controlo ao dia útil 30

  • Progresso planeado ao dia 30: 66,1%.
  • Progresso real, medido em obra: 58%.
  • Desvio em pontos percentuais: 58 − 66,1 = −8,1 p.p.
  • Desvio relativo ao planeado: −8,1 ÷ 66,1 × 100 ≈ −12,3%.

A obra está 12,3% atrasada em relação ao planeado para o dia 30. É um desvio a registar e a corrigir, por exemplo com reforço de equipa nas atividades críticas ainda por concluir.

Bloco 13 · Segurança, saúde e ambiente no estaleiro

EPI e normas de segurança e saúde no trabalho

Controlar o cumprimento das normas de segurança é a quinta realização desta UC.

  • EPI (equipamento de proteção individual): capacete, botas biqueira de aço, luvas, óculos, arnês em altura.
  • A Lei n.º 102/2009 estabelece o regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho em Portugal.
  • Conferir que as normas de segurança estão a ser cumpridas no estaleiro, incluindo o uso correto de EPI, é um critério de desempenho explícito.
  • Atitude central: responsabilidade pelas suas ações e pelas de terceiros, o técnico de obra responde também pela segurança de quem coordena.

O Plano de Segurança e Saúde (PSS)

O Decreto-Lei n.º 273/2003 define as regras de segurança e saúde no trabalho em estaleiros temporários ou móveis, o contexto de trabalho central desta UC.

  • Exige um Plano de Segurança e Saúde (PSS), elaborado antes da obra começar.
  • Nomeia um coordenador de segurança em obra (e, nas fases de maior risco, em projeto).
  • O PSS identifica os riscos específicos da obra (ligação direta ao Bloco 10) e as medidas de prevenção.
  • Aplica-se tanto a obras privadas como públicas, sempre que há um estaleiro de construção.

Resíduos e proteção ambiental

Normas de gestão de resíduos e normas de proteção ambiental são dois conhecimentos explícitos desta UC.

  • Os RCD (resíduos de construção e demolição) têm regime próprio, definido pelo Decreto-Lei n.º 102-D/2020 (RGGR).
  • Obrigações típicas: triagem no estaleiro (separar por tipo: betão, madeira, metais, embalagens), encaminhamento para operadores licenciados, e registo eletrónico do percurso do resíduo.
  • Aplicar as normas de gestão de resíduos é uma aptidão explícita, e uma obra desorganizada nos resíduos arrisca coima e atraso.
  • Ligar sempre ao plano: prever no Gantt o espaço e o tempo para a triagem, não é uma tarefa "à parte".

Bloco 14 · Qualidade e enquadramento legal

Controlo da qualidade

Analisar a qualidade dos materiais e a conformidade com os padrões de construção é um critério de desempenho desta UC.

  • Verificar que os materiais entregues correspondem ao mapa de quantidades e ao caderno de encargos (marca, classe, certificação).
  • Confirmar ensaios obrigatórios (ex.: resistência do betão, aos 28 dias de cura).
  • Aplicar as normas da qualidade ao longo de toda a obra, não só na receção final.
  • Rejeitar material não conforme antes de ser aplicado, é sempre mais barato do que demolir e refazer.

O controlo de qualidade cruza-se com o controlo de prazo: um material rejeitado tarde pode atrasar uma atividade crítica.

Empreitadas públicas: o Código dos Contratos Públicos

Uma das saídas do técnico de obra é trabalhar para autarquias, um dos contextos de trabalho desta UC, em empreitadas de obras públicas.

  • Regidas pelo Código dos Contratos Públicos (CCP), aprovado pelo Decreto-Lei n.º 18/2008.
  • Exigem, como parte da proposta, um plano de trabalhos detalhado, normalmente acompanhado de plano de mão de obra e plano de equipamentos.
  • É exatamente o Gantt e a rede PERT/CPM dos Blocos 5 a 7 que sustentam esse plano de trabalhos formal.
  • Numa obra pública, o plano de trabalhos aprovado é também a referência contratual para justificar prorrogações de prazo.

Recapitulando

  • Planear é prever fases, prazos, equipas e recursos; controlar é comparar o real com o planeado e corrigir desvios.
  • Gantt para visualizar, PERT/CPM para calcular ES, EF, LS, LF, o caminho crítico e as folgas total e livre.
  • Dimensionar equipas e calcular quantidades de recursos é sempre a mesma lógica: produção necessária ÷ produtividade.
  • A curva S mede o desvio do progresso real face ao planeado, sempre "em relação a quê".
  • Segurança (EPI, PSS, DL 273/2003), resíduos (DL 102-D/2020), qualidade e, em obra pública, o CCP (DL 18/2008) enquadram todo o planeamento.

Próximo: fichas e mini-projeto, planear e controlar uma obra do zero.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: planear não é burocracia, é a ferramenta que evita o prejuízo de uma equipa parada a render zero. - Erro comum: achar que planeamento é só "fazer um Gantt bonito". É sobretudo antecipar problemas. - Exemplo: perguntar à turma quanto custa um dia de equipa parada (salários + estaleiro) para sentirem o peso do atraso.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: "controlar" sem "corrigir" não serve de nada, é o passo 4 que fecha o ciclo. - Pergunta: o que acontece se uma equipa só mede o atraso no último dia da obra? (tarde demais para corrigir). - Analogia: é como conduzir olhando só para o retrovisor, sabes onde estiveste, não onde vais.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: cada peça responde a uma pergunta diferente, planta é "onde", corte é "que altura", memória descritiva é "com quê". - Erro comum: planear só a partir da planta e ignorar o corte, o que leva a erros de pé-direito e de fundações. - Exemplo: trazer (ou projetar) uma planta, um alçado e um corte da mesma casa e pedir à turma que identifique cada um.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: quanto mais cedo se apanha um conflito entre especialidades, mais barato é corrigir. - Erro comum: só descobrir o conflito quando a equipa já está a abrir a rasgo na parede. - Pergunta: quem sobrepõe hoje as plantas de todas as especialidades num software CAD, e como se chama a essa prática quando é feita num modelo único 3D? (ligar ao BIM, visto no Bloco 11).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: esta sequência não é arbitrária, cada fase cria as condições físicas para a seguinte. - Erro comum: alunos trocarem "instalações" com "revestimentos", esquecendo que os tubos e cabos passam dentro das paredes antes de se rebocar. - Exemplo: pedir à turma para imaginar o que corre mal se a cobertura só for feita depois dos revestimentos interiores (chuva a entrar, tudo estragado).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: nem todas as fases são sequenciais, há fases que correm em paralelo, isso é o que dá folga ao planeamento (Bloco 7). - Erro comum: assumir que a obra é sempre uma linha reta, uma atividade a seguir à outra. - Exemplo/analogia: como montar um puzzle, algumas peças só encaixam depois de outras estarem no lugar, mas há peças que se podem montar ao mesmo tempo.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: não existe planeamento "perfeito", existe planeamento que gere bem o compromisso entre prazo, custo e qualidade. - Erro comum: achar que basta "trabalhar mais depressa" para resolver um atraso, sem olhar ao efeito no custo ou na qualidade. - Pergunta: se o dono de obra pedir para acabar duas semanas mais cedo, que opções tem o técnico de obra? (mais equipas, turnos, rever o método construtivo).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a EDT organiza-se por produto/entregável, não por quem faz o trabalho. - Erro comum: decompor de mais (centenas de tarefas) ou de menos (3 tarefas gigantes); o nível certo é o que se consegue medir e programar. - Exercício: pedir à turma para decompor "instalações" em escavação de roços, tubagem, cablagem e testes.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: no Gantt, ler a duração é subtrair, dia de fim menos dia de início mais um (dia 1 a dia 3 são 3 dias, não 2). - Erro comum: esquecer que "dia de início" conta como o primeiro dia de trabalho, não o dia zero. - Exemplo: continuar a tabela nos blocos seguintes com a obra completa (9 atividades, 53 dias úteis).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: aplicar a técnica de planeamento mais apropriada (uma das aptidões da UC) significa saber quando um Gantt simples chega e quando é preciso uma rede. - Erro comum: usar só o Gantt numa obra complexa e não perceber que atrasar uma atividade sem folga atrasa toda a obra. - Pergunta: numa obra pequena de 3 atividades em sequência, vale a pena fazer uma rede PERT/CPM? (normalmente não, o Gantt chega).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a rede obriga a decidir explicitamente "o que precisa de estar pronto antes desta atividade poder começar". - Erro comum: esquecer uma predecessora, H depende de F E de G, não só de uma delas. - Exemplo: desenhar a rede no quadro com setas, mostrando o ramo D→E→G e o ramo D→F a convergirem em H.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: quando uma atividade tem duas predecessoras, o ES é sempre o MAIOR dos EF, nunca a média. - Erro comum: calcular H a partir só de F (que acaba primeiro) e esquecer que tem de esperar por G também. - Exercício: pedir à turma para confirmar à mão o EF de D (14+10-1=23... na prática, ES=14, dura 10 dias, logo o último dia é o dia 23).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: LF de F é 38 porque tem de estar pronta antes de H arrancar (LS de H = 39, ou seja LF de F = 38); LS de F = 38-5+1=34. - Erro comum: calcular a folga como LF-EF sem confirmar que dá o mesmo valor que LS-ES (têm de bater sempre certo). - Pergunta: porque é que só F tem folga nesta rede? (porque só F tem uma "rota alternativa" mais curta que a rota crítica que passa por E e G).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o caminho crítico é sempre o caminho MAIS LONGO da rede, não o mais curto. - Erro comum: pensar que "crítico" significa "mais difícil"; significa apenas "sem folga". - Exemplo: se a obra tivesse de ser entregue em menos tempo, é nas atividades críticas (A, B, C, D, E, G, H, I) que vale a pena investir mais recursos, nunca em F.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a folga livre nunca é maior que a folga total, é sempre igual ou menor. - Erro comum: tratar as duas folgas como sinónimos; na ficha há um exercício onde diferem, mostrar essa diferença com calma. - Pergunta: para que serve saber a folga livre, se já se sabe a folga total? (para saber se um atraso afeta já a próxima equipa, mesmo sem atrasar a obra toda).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: recalcular a rede depois de um atraso real não é opcional, é o que permite avisar a tempo o dono de obra e as equipas seguintes. - Erro comum: só atualizar o plano no papel sem avisar as equipas que dependem da atividade atrasada. - Exercício: perguntar o que acontece se em vez de C fosse F a atrasar 2 dias (nada acontece à obra, porque F tem 10 dias de folga).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: dimensionar equipa é sempre esta cadeia, produção necessária por dia ÷ produtividade individual = nº de trabalhadores. - Erro comum: esquecer os serventes (apoio a transporte de materiais e argamassa) e só contar pedreiros. - Exercício: mudar a área para 200 m² em 10 dias e recalcular (é o exercício 2 da ficha 02).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: coordenar não é só "avisar", é confirmar que a frente de trabalho está mesmo pronta antes da equipa seguinte chegar. - Erro comum: marcar duas equipas para o mesmo espaço físico no mesmo dia (ex.: eletricista e pedreiro na mesma parede). - Pergunta: quem deve liderar a reunião de obra semanal? (o técnico de obra ou o diretor de obra, que tem a visão do plano completo).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o arredondamento por cima é sistemático nestas contas, nunca se pede "0,8 dia" a uma equipa. - Erro comum: esquecer que a última viagem do camião não vai cheia (aqui, só 4 dos 8 m³) e ainda assim contar como viagem inteira, com o custo associado. - Exercício: repetir a conta para tijolo, 160 m² de parede × 13 unidades/m² = 2080, mais 10% de quebra = 2288, arredondar para 2290 tijolos.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: "prazo de entrega antes do ES" é a regra que liga este bloco à rede PERT/CPM do Bloco 6, sem essa ligação a compra é feita tarde demais. - Erro comum: encomendar só quando a atividade já devia ter arrancado, o que transforma um problema de logística num atraso real na obra. - Pergunta: e se o equipamento (por exemplo, uma grua) for necessário em duas atividades ao mesmo tempo? (é preciso negociar prioridade ou alugar uma segunda unidade).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: nem todos os riscos merecem a mesma atenção, a matriz serve para priorizar, não para listar tudo ao mesmo nível. - Erro comum: tratar "condições climatéricas" como imprevisível e por isso ignorável, quando é o risco mais frequente numa obra e o mais fácil de mitigar com folga no plano. - Exercício: pedir à turma para acrescentar um risco específico do seu concelho (ex.: cheias, vento forte) e classificá-lo.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a folga da rede PERT/CPM não é acidente, pode ser usada de propósito para absorver os riscos de maior impacto. - Erro comum: só reagir ao risco depois de ele acontecer, sem nenhuma ação preventiva planeada. - Pergunta: porque é que faz sentido que a cobertura (mais exposta ao tempo) seja precisamente a atividade com mais folga nesta rede? (coincidência conveniente, mas também podia ter sido planeada assim de propósito).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: não existe "melhor método", existe o método certo para o prazo, custo e tipo de obra em causa. - Erro comum: escolher um método por hábito sem verificar se o estaleiro tem espaço e acesso para a grua que o pré-fabricado exige. - Pergunta: se a obra "Moradia Vila Verde" mudasse a estrutura de tradicional para pré-fabricada, o que acontecia ao caminho crítico? (a duração de D encurtava e a obra toda ficava mais curta, porque D está na rota crítica).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o software recalcula ES, EF, LS, LF e o caminho crítico automaticamente, mas só é útil a quem entende o que esses valores significam (Blocos 6 e 7). - Erro comum: confiar cegamente na rede que o software desenha sem verificar se as precedências foram bem introduzidas. - Exemplo: mostrar como uma aplicação de gestão de projetos assinala a vermelho as atividades críticas.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a forma em S não é decorativa, reflete o ritmo real de qualquer obra, devagar a começar e a acabar, rápido a meio. - Erro comum: esperar progresso linear (igual todos os dias) e estranhar quando o início "parece lento". - Exemplo: mostrar a diferença de peso entre a estrutura (25% do valor da obra) e o estaleiro (só 3%), para explicar porque a curva acelera a meio.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: um desvio diz-se sempre "em relação a quê", aqui é em relação ao progresso planeado para aquele dia concreto, não em relação ao dia anterior nem ao total da obra. - Erro comum: calcular o desvio em pontos percentuais (−8,1 p.p.) e confundir com a percentagem relativa (−12,3%); são números diferentes e ambos têm uso. - Exercício: perguntar que ação corretiva faz mais sentido se o desvio for numa atividade crítica versus numa atividade com folga.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o EPI certo depende da tarefa, um capacete não substitui um arnês em trabalho em altura. - Erro comum: tolerar "só desta vez" um trabalhador sem EPI porque "está com pressa"; é precisamente aí que ocorrem os acidentes. - Pergunta: quem é responsável se um subempreiteiro não cumprir as regras de segurança dentro do estaleiro? (o dono do estaleiro e a coordenação de segurança também respondem, não só o subempreiteiro).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o PSS não é um documento genérico copiado de outra obra, tem de refletir os riscos concretos daquele estaleiro. - Erro comum: tratar o PSS como papelada para arquivar, em vez de um documento vivo, atualizado ao longo da obra. - Exemplo: ligar o PSS à matriz de riscos do Bloco 10, o PSS é onde essa matriz se torna obrigação legal.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: triagem feita desde o primeiro dia poupa tempo e dinheiro em relação a separar tudo no fim da obra. - Erro comum: misturar entulho de demolição com materiais recicláveis (metais, madeira), o que encarece o encaminhamento. - Pergunta: onde é que, no estaleiro, deve ficar a zona de triagem de resíduos? (perto do acesso de saída, sem cruzar as zonas de circulação de equipas e equipamentos).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: qualidade controla-se à entrada (material) e à saída (trabalho executado), não só no final da obra. - Erro comum: aceitar um lote de material "para não atrasar" e descobrir o problema só depois de aplicado. - Exemplo: um lote de tijolo com dimensões fora do especificado obriga a rever juntas e desperdício, um custo escondido.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: numa empreitada pública, o plano de trabalhos não é só uma boa prática, é uma peça contratual exigida pelo CCP. - Erro comum: achar que o CCP só interessa a quem gere o concurso, quando o técnico de obra é quem constrói e atualiza o plano de trabalhos que o CCP exige. - Pergunta: porque é que um plano de trabalhos bem feito protege o empreiteiro numa obra pública? (permite justificar formalmente um atraso causado por fatores fora do seu controlo, como o mau tempo).