UC02428

Executar circuitos simples de eletrónica

Componentes, esquemas, medições e montagem de circuitos analógicos e digitais

Curso profissional · 25h · Mecatrónica Automóvel

Plano

  1. Eletricidade e eletrónica — princípios
  2. Grandezas: tensão, corrente e resistência
  3. Sinais analógicos e digitais
  4. Simbologia e esquemas de circuitos
  5. Resistência, capacitância e indutância
  6. Teoremas: Ohm, Kirchhoff, Thévenin e Norton
  7. Semicondutores e díodos
  8. Transístores (TJB) e relés
  9. Circuitos integrados, temporizador e oscilador
  10. Instrumentos de medida e ferramentas
  11. Segurança, EPI e ambiente
  12. Processo de execução de um circuito

Bloco 1 · Princípios da eletrónica

Eletricidade e eletrónica

  • Eletricidade — estuda a produção, transporte e uso da energia elétrica (potência, instalações).
  • Eletrónica — estuda o controlo de pequenas correntes para processar sinais e informação (amplificar, comutar, temporizar).
  • No automóvel, a eletrónica está em todo o lado: ECU, sensores, atuadores, iluminação LED, sistemas de conforto.
  • O eletrão tem carga negativa; a corrente convencional flui do + para o (sentido oposto ao dos eletrões).
Conceito Símbolo Unidade (SI)
Tensão U (V) volt (V)
Corrente I ampere (A)
Resistência R ohm (Ω)
Potência P watt (W)

Grandezas fundamentais

  • Tensão (U) — "pressão" elétrica; diferença de potencial entre dois pontos.
  • Corrente (I) — fluxo de carga por segundo; 1 A = 1 C/s.
  • Resistência (R) — oposição à passagem de corrente.
  • Potência (P) — energia por unidade de tempo: P = U × I.

Múltiplos e submúltiplos (essenciais em eletrónica):

Prefixo Símbolo Fator
mega M 10⁶
kilo k 10³
mili m 10⁻³
micro µ 10⁻⁶
nano n 10⁻⁹
pico p 10⁻¹²

Sinais analógicos e digitais

  • Analógico — varia de forma contínua no tempo (ex.: som, tensão de um sensor de temperatura). Infinitos valores possíveis.
  • Digital — assume apenas níveis discretos, tipicamente 0 e 1 (LOW/HIGH). Robusto ao ruído.
  • Espectro de frequência — um sinal pode decompor-se em frequências (Hz); a frequência mede quantos ciclos por segundo.
Analógico  ~~~∿∿∿~~~   (onda contínua)
Digital     ___|‾‾|___|‾‾|__  (níveis 0/1)
  • Conversão entre mundos: ADC (analógico→digital) e DAC (digital→analógico).

Bloco 2 · Esquemas e componentes passivos

Simbologia e esquemas

  • Um esquema elétrico representa o circuito com símbolos normalizados, não com o aspeto físico.
  • Ler um esquema é ler um "mapa": onde estão os componentes e como se ligam.
Componente Símbolo (descrição)
Resistência retângulo ou zig-zag
Condensador duas linhas paralelas
Bobina/indutância espiras
Díodo triângulo + barra
LED díodo com setas a sair
Transístor círculo com 3 terminais
Pilha/fonte linhas longa/curta
  • Nós = pontos de ligação; um ponto cheio indica junção elétrica.

Resistência, capacitância e indutância

  • Resistência (R) — limita a corrente; dissipa energia em calor. Código de cores (bandas) dá o valor.
  • Condensador (C) — armazena carga num campo elétrico; unidade farad (F). Bloqueia DC, deixa passar AC.
  • Indutância/Bobina (L) — armazena energia num campo magnético; unidade henry (H). Opõe-se a variações de corrente.
Elemento Armazena Bloqueia Deixa passar
R — (dissipa) tudo (limita)
C campo elétrico DC AC
L campo magnético AC DC
  • Relés — interruptor eletromecânico: uma pequena corrente na bobina fecha contactos que controlam uma corrente maior. Muito usado no automóvel (buzina, faróis, ventoinha).

Código de cores das resistências

Ler as bandas da esquerda para a direita (4 bandas):

Cor Dígito Multiplicador
Preto 0 ×1
Castanho 1 ×10
Vermelho 2 ×100
Laranja 3 ×1k
Amarelo 4 ×10k
Verde 5 ×100k
Azul 6 ×1M
  • 4.ª banda = tolerância (ouro ±5%, prata ±10%).
  • Exemplo: Castanho-Preto-Vermelho-Ouro → 1, 0, ×100 = 1000 Ω = 1 kΩ ±5%.

Bloco 3 · Teoremas de circuitos

Lei de Ohm e potência

  • Lei de Ohm: U = R × I — base de todos os cálculos.
  • Reordenando: I = U / R e R = U / I.
  • Potência: P = U × I = R × I² = U² / R.

Exemplo resolvido:
Resistência de 220 Ω ligada a 5 V.

I = U / R = 5 / 220 = 0,0227 A = 22,7 mA
P = U × I = 5 × 0,0227 = 0,114 W → usar resistência de 1/4 W
  • Verificar sempre se a potência dissipada não excede a da resistência (¼ W, ½ W…).

Associação de resistências

Em série (mesma corrente, tensões somam):

R_total = R1 + R2 + R3 + …

Em paralelo (mesma tensão, correntes somam):

1/R_total = 1/R1 + 1/R2 + …   (para duas: R1·R2/(R1+R2))

Leis de Kirchhoff:

  • KCL (nós): a soma das correntes que entram = soma das que saem.
  • KVL (malhas): a soma das tensões numa malha fechada = 0.

Thévenin e Norton

  • Teorema de Thévenin — qualquer rede linear vista de dois terminais equivale a uma fonte de tensão U_th em série com uma resistência R_th.
  • Teorema de Norton — a mesma rede equivale a uma fonte de corrente I_n em paralelo com R_n.
  • Relação: U_th = I_n × R_n e R_th = R_n.

Para que servem? Simplificam a análise: substituem um bloco complicado por um modelo simples de 2 elementos para estudar a carga.

Rede complexa  ⇒  [U_th]—[R_th]—○ terminais

Bloco 4 · Semicondutores

Semicondutores e díodos

  • Semicondutor — material (silício, germânio) entre condutor e isolante; a dopagem cria zonas N (excesso de eletrões) e P (lacunas).
  • A junção P-N é a base de díodos e transístores.

Díodo — deixa passar corrente num só sentido:

  • Diretamente polarizado (ânodo +): conduz (queda ≈ 0,7 V no silício).
  • Inversamente polarizado: bloqueia.
Tipo de díodo Função
Retificador converter AC→DC
Zener regular/estabilizar tensão
LED emitir luz
Fotodíodo detetar luz

Retificação com díodos

Aplicação típica: transformar corrente alternada em contínua.

  • Meia-onda — 1 díodo; aproveita só metade da onda.
  • Onda completa (ponte) — 4 díodos; aproveita as duas metades.
  • Um condensador de filtragem alisa a tensão de saída.
AC ~  →  [ponte de díodos]  →  DC pulsante  →  [C]  →  DC alisada
  • No automóvel, o alternador usa uma ponte retificadora para carregar a bateria em DC.

Transístores (TJB)

  • Transístor — dispositivo de 3 terminais: Base (B), Coletor (C) e Emissor (E).
  • Uma pequena corrente na base controla uma corrente grande C→E: funciona como amplificador ou interruptor.
  • Ganho β (hFE): I_C = β × I_B.

Zonas de funcionamento:

Zona Estado Uso
Corte não conduz interruptor OFF
Saturação conduz ao máximo interruptor ON
Ativa conduz proporcional amplificação
  • Variantes: Darlington (dois transístores, ganho enorme), fototransístor (base ativada por luz), NPN / PNP.

Condensadores na prática

  • Tipos: cerâmico (pequenos valores, alta frequência), eletrolítico (grandes valores, polarizado — respeitar +/−), tântalo, poliéster.
  • Funções: filtragem, acoplamento/desacoplamento, temporização, armazenamento de energia.
  • Reatância capacitiva: diminui com a frequência → deixa passar melhor os sinais rápidos (AC).

⚠️ Atenção: um eletrolítico ligado ao contrário pode rebentar. Ver sempre a banda do .

Bloco 5 · Circuitos integrados

Circuitos integrados (CI)

  • Um CI reúne milhares/milhões de componentes num único chip de silício.
  • Vantagens: pequenos, baratos, fiáveis, baixo consumo.
  • Limitações: dissipação de calor limitada, potências baixas, difíceis de reparar (substituem-se).

Classificação por integração: SSI, MSI, LSI, VLSI (muito grande escala).

Tipos de cápsula: DIP (through-hole, pinos em duas filas), SMD/SOIC (montagem à superfície), QFP, BGA.

  • Exemplos: amplificadores operacionais, portas lógicas, microcontroladores, o 555.

Temporizador e oscilador (555)

  • O 555 é o CI mais usado para gerar tempos e frequências.
  • Modo monostável — gera um impulso de duração fixa t = 1,1 × R × C (temporizador).
  • Modo astável — gera uma onda quadrada contínua (oscilador), útil para piscar um LED, gerar clock, sirenes.
Astável:  frequência ≈ 1,44 / ((R1 + 2·R2) · C)
  • Oscilador = circuito que produz um sinal periódico sem entrada externa.

Bloco 6 · Medir, montar e segurança

Instrumentos e ferramentas

  • Multímetro — mede tensão (paralelo), corrente (série) e resistência (sem alimentação).
  • Osciloscópio — mostra a forma de onda no tempo (amplitude e frequência).
  • Fonte de alimentação regulável; gerador de sinais.

Ferramentas de montagem:

  • Ferro de soldar + estanho; dessoldador/malha dessoldante.
  • Alicate de corte, descarnador, pinça, breadboard (montagem sem soldar).

Boa soldadura: brilhante, cónica, sem "bolas frias". Aquecer a junta, não só o estanho.

Segurança, EPI e ambiente

  • EPI: óculos de proteção (respingos de estanho), ventilação/extração de fumos, luvas quando aplicável.
  • Segurança elétrica: trabalhar com o circuito desligado; descarregar condensadores; nunca medir resistência com tensão aplicada.
  • Riscos: queimaduras (ferro a ~350 °C), fumos de fluxo, curto-circuitos.
  • Ambiente: o estanho pode conter chumbo → resíduo perigoso; componentes eletrónicos = REEE (reciclar em pontos próprios), não no lixo comum.
  • Cumprir as normas de qualidade e a documentação técnica do fabricante.

Processo de execução de um circuito

  1. Interpretar o esquema e a documentação técnica.
  2. Selecionar os componentes (valores, tolerâncias, polaridade).
  3. Preparar ferramentas e bancada; verificar EPI.
  4. Montar primeiro na breadboard e testar.
  5. Medir tensões e correntes; comparar com o previsto.
  6. Soldar na placa definitiva (respeitar polaridades).
  7. Testar o funcionamento final e documentar.
  8. Arrumar e encaminhar resíduos corretamente.

Síntese

  • Domina as grandezas (U, I, R, P) e a Lei de Ohm.
  • Sabe ler esquemas e a simbologia; identifica R, C, L, díodos e transístores.
  • Distingue analógico/digital e o papel dos semicondutores.
  • Usa multímetro e osciloscópio com segurança; respeita EPI e REEE.
  • Segue o processo: interpretar → selecionar → montar → medir → testar.

Próximo: fichas e projeto — montar e testar circuitos reais.