UC02421

Efetuar desenho técnico de peças

Normas, vistas, projeções, cortes e cotagem — a linguagem gráfica da mecânica

Curso profissional · 50h · Mecatrónica Automóvel

Plano

  1. O desenho técnico como linguagem
  2. Normas, materiais e equipamento
  3. Traços, letras e escalas
  4. Construções geométricas
  5. Sistemas de representação de vistas
  6. Projeções ortogonais (1.º diedro)
  7. Vistas auxiliares e escolha de vistas
  8. Cortes e secções
  9. Cotagem — regras e normas
  10. Tolerâncias e acabamento superficial
  11. Fixadores, furação e roscas
  12. Lista de peças e legenda
  13. Acabamento, inspeção, qualidade e segurança

Bloco 1 · A linguagem gráfica

O que é o desenho técnico

Desenho técnico = linguagem gráfica normalizada para comunicar a forma, as dimensões e os requisitos de uma peça, sem ambiguidade.

  • Não é um desenho artístico: é rigoroso, medível e universal.
  • Quem projeta, quem fabrica e quem inspeciona leem o mesmo desenho.
  • Regido por normas (ISO internacional, NP em Portugal) — todos usam os mesmos símbolos.

Objetivo da UC: preparar a conceção gráfica e desenhar peças e cotagem, à mão e em CAD, segundo as normas.

Generalidades, definições e terminologia

  • Peça — elemento único, indivisível (ex.: um veio, uma chapa).
  • Conjunto — várias peças montadas (ex.: uma bomba).
  • Desenho de definição — uma peça, totalmente cotada, para fabrico.
  • Desenho de conjunto — a montagem, com lista de peças (legenda).
  • Esboço (croqui) — desenho à mão, à vista, com proporções.
  • Desenho rigoroso — à escala, com instrumentos ou CAD.

O desenho técnico responde sempre a três perguntas: que forma? que dimensões? que requisitos (material, acabamento, tolerância)?

Normas técnicas na indústria

Sigla O que é
ISO Organização Internacional de Normalização
NP Norma Portuguesa (IPQ)
DIN Norma alemã (muito usada na indústria automóvel)
EN Norma Europeia
  • ISO 128 — princípios gerais de representação (linhas, vistas).
  • ISO 129 — cotagem.
  • ISO 5455 — escalas. ISO 216 — formatos de papel (A4, A3…).
  • ISO 2768 — tolerâncias gerais.

A norma garante que um desenho feito em Lisboa é lido igual em Estugarda.

Materiais, equipamento e segurança

  • Suportes: papel normalizado (A4…A0), película, ficheiro CAD.
  • Instrumentos tradicionais: lápis (2H a HB), régua/esquadros, compasso, transferidor, escalímetro.
  • Manutenção: manter as pontas afiadas, réguas limpas e sem rebarbas, guardar sem dobrar — instrumentos danificados dão traços errados.
  • CAD — hoje o desenho é maioritariamente digital (2D/3D).

Segurança e saúde: postura correta na prancheta/PC, boa iluminação, pausas visuais, arrumação de material cortante (X-ato, compasso).

Bloco 2 · Elementos base do desenho

Tipos de traço (ISO 128)

Traço Uso
Contínuo grosso arestas e contornos visíveis
Contínuo fino linhas de cota, chamada, hachura
Traço interrompido arestas invisíveis (escondidas)
Traço-ponto fino eixos e planos de simetria
Traço-ponto grosso nas pontas plano de corte
Contínuo fino à mão limites de vistas parciais / roturas

A hierarquia de traços (grosso vs fino) é o que dá leitura imediata à peça.

Letras, escalas e formatos

  • Escrita normalizada — legível, vertical ou inclinada, altura constante (ex.: 3,5 / 5 mm).
  • Escala = relação desenho : realidade.
    • 1:1 natural · 2:1 ampliação · 1:2, 1:5, 1:10 redução.
    • A escala não muda as cotas — a cota é sempre a medida real.
  • Formatos ISO 216: A0 (≈1 m²) → A1 → A2 → A3 → A4; cada um é metade do anterior.
  • Legenda (cartela) no canto inferior direito: peça, material, escala, autor, data, norma.

Construções geométricas

Base para desenhar qualquer peça com rigor:

  • Perpendiculares e paralelas com esquadros.
  • Bissetriz e divisão de um ângulo/segmento em partes iguais.
  • Polígonos regulares inscritos (hexágono → cabeças de parafuso!).
  • Tangências — ligar reta a circunferência ou duas circunferências sem "salto".
  • Concordâncias (raios de ligação) — arredondar cantos com um arco tangente.

O rigor das concordâncias e tangências distingue um desenho profissional de um esboço.

Gabaritos, moldagem e desmoldagem

  • Gabarito (molde/template) — perfil-modelo que se copia repetidamente para garantir peças iguais.
  • Moldagem — obter a forma da peça a partir de um molde (fundição, injeção).
  • Desmoldagem — retirar a peça do molde; exige ângulos de saída (draft) para não prender.
  • No desenho, prevê-se inclinações de saída e raios nos cantos para permitir a desmoldagem.

Relevante em peças automóveis fundidas/injetadas (carcaças, suportes, plásticos).

Bloco 3 · Vistas e projeções

Sistemas de representação de vistas

Uma peça 3D representa-se por várias vistas 2D planas.

  • Imaginamos a peça dentro de uma caixa de vidro e projetamos cada face num plano.
  • As seis vistas possíveis: frente (alçado), topo (planta), lado esquerdo/direito, base, posterior.
  • Na prática usam-se as necessárias — muitas vezes só 3: alçado + planta + vista lateral.

A vista de frente (alçado principal) é a mais informativa — escolhe-se a que mostra melhor a peça.

Projeção ortogonal — 1.º diedro (Europa)

Em Portugal/Europa usa-se o 1.º diedro (first angle):

  • A vista de cima desenha-se por baixo do alçado.
  • A vista da esquerda desenha-se à direita do alçado.
  • (Nos EUA usa-se o 3.º diedro — invertido.)

O método indica-se com um símbolo na legenda (tronco de cone).

        [ planta ]           <- não!  1.º diedro:
  [lat] [alçado] [lat]
        [ planta ]  (em baixo)

As vistas alinham-se entre si — largura partilhada entre alçado e planta; altura entre alçado e lateral.

Vistas auxiliares e escolha de vistas

  • Vista auxiliar — para superfícies inclinadas, projeta-se num plano paralelo à face, para a ver em verdadeira grandeza.
  • Vista parcial — só a zona de interesse (poupa espaço).
  • Meia-vista — em peças simétricas, desenha-se metade + eixo.
  • Vista de pormenor — amplia um detalhe (ex.: 2:1).

Regra de ouro: usar o número mínimo de vistas que descreve a peça sem ambiguidade — nem a mais, nem a menos.

Bloco 4 · Cortes e cotagem

Cortes e secções

Para mostrar o interior (furos, cavidades) sem traços invisíveis a mais:

  • Corte — "serra-se" imaginariamente a peça por um plano de corte e afasta-se a parte da frente.
  • O material cortado leva hachura (tracejado fino a 45°).
  • Secção — mostra a área cortada (não o que está atrás).
  • Tipos: corte total, meio-corte (metade vista/metade corte em peças simétricas), corte desviado/quebrado, parcial.

Não se cortam (deixam-se inteiros) veios, parafusos, nervuras e esferas quando o plano os apanha ao comprido.

Cotagem — regras e normas (ISO 129)

Cotar = indicar as dimensões reais da peça.

Elementos: linha de cota (com setas), linhas de chamada (do contorno) e o valor.

  • Cotas em milímetros (unidade subentendida, não se escreve "mm").
  • Cada dimensão uma só vez; não repetir nem cotar a mais.
  • Linhas de chamada não tocam o contorno (pequena folga) e não se cruzam com cotas.
  • Cotar a partir de referências (faces/eixos funcionais), não em cadeia acumulada.

Símbolos e casos de cotagem

Símbolo Significado
diâmetro
R raio
quadrado
M rosca métrica (ex.: M8)
×45° chanfro
  • Furos — cotar ⌀ e posição do centro; furos iguais: "4× ⌀6".
  • Raios/concordâncias — R seguido do valor, seta a apontar do centro.
  • Ângulos — em graus, linha de cota em arco.

Tolerâncias e acabamento superficial

  • Tolerância — variação admissível da medida (nada se fabrica "exato").
    • Ex.: ⌀20 ±0,1 → aceita 19,9 a 20,1.
    • ISO 2768 dá tolerâncias gerais (m, f) quando não se indica valor.
  • Ajustamentos (furo/veio) — folga ou aperto entre peças (H7/g6…).
  • Acabamento superficial — rugosidade (Ra), indicada por um símbolo em "√" sobre a face; superfícies que deslizam/vedam pedem menor rugosidade.

Fundamental na mecânica automóvel: um veio e o seu apoio têm de encaixar com a folga certa.

Bloco 5 · Elementos normalizados e fecho

Fixadores, furação e roscas

  • Fixadores — parafusos, porcas, anilhas, cavilhas, rebites: são normalizados (não se cotam por inteiro, indica-se a designação: M8×30).
  • Roscas — representação convencional: linha grossa no diâmetro exterior, linha fina no interior; designação M (métrica) + diâmetro × passo.
  • Furação — furos passantes ou cegos, com/sem rosca; escareado/rebaixo para cabeça de parafuso.
  • Classes de furação — conforme o ajustamento pretendido (livre, médio, apertado).

Lista de peças e legenda

  • Desenho de conjunto → precisa de lista de peças (nomenclatura).
  • Cada peça tem um número de balão ligado por uma linha ao seu item na tabela.
  • A lista indica: n.º, designação, quantidade, material, norma/referência.
  • A legenda (cartela) identifica o desenho: título, escala, formato, autor, data, revisão, símbolo do diedro.

Sem lista de peças e legenda, um desenho de conjunto não é utilizável no fabrico.

Acabamento, inspeção e qualidade

  • Acabamento do desenho — verificar traços, cotas completas, sem duplicações, legenda preenchida.
  • Inspeção — o desenho é o critério contra o qual se mede a peça fabricada (calibres, paquímetro, micrómetro).
  • Normas da qualidade — desenho controlado, com revisão identificada; alterações datadas e aprovadas.
  • Um erro de cota num desenho propaga-se a todas as peças fabricadas → controlo é essencial.

Recapitulando

  • Desenho técnico = linguagem normalizada (ISO/NP): forma + dimensões + requisitos.
  • Traços, escalas e construções geométricas são a base.
  • Peça 3D → vistas em projeção ortogonal (1.º diedro), alinhadas.
  • Cortes e secções mostram o interior; cotagem dá as medidas reais.
  • Tolerâncias, acabamento, fixadores e furação normalizados.
  • Lista de peças + legenda + inspeção fecham o desenho.

Próximo: fichas e projeto — desenhar e cotar peças de raiz.