UC02355

Gerir bases de dados de unidades estratigráficas, peças, desenhos e fotografias em Arqueologia

Modelo relacional, normalização, consultas e inventário do património arqueológico

Curso profissional · 25h · Assistente de Arqueólogo/a

Plano

  1. Gerir dados em Arqueologia
  2. Conceitos e princípios de bases de dados
  3. Metodologia: pesquisa, recolha e organização
  4. Analisar necessidades e planear a estrutura
  5. O modelo relacional: entidades e atributos
  6. Chaves primárias e chaves estrangeiras
  7. Cardinalidade um para muitos
  8. Relações muitos para muitos e tabelas de ligação
  9. Normalização de dados
  10. Tipos de dados dos campos
  11. As quatro bases: UE, peças, desenhos e fotografias
  12. Referenciar imagens: inventário e localização do original
  13. Criar consultas
  14. Software de gestão de bases de dados
  15. Implementar, manter e fechar

Bloco 1 · Gerir dados em Arqueologia

Porque precisamos de uma base de dados

Uma escavação gera, em poucas semanas, centenas de registos: unidades estratigráficas, peças recolhidas, desenhos e fotografias. Sem uma base de dados, essa informação fica em cadernos de campo e pastas soltas, difícil de cruzar e impossível de pesquisar depressa.

  • Uma base de dados estrutura a informação em tabelas, com campos definidos.
  • Permite cruzar dados: que peças vieram de que unidade, que fotografias documentam que objeto.
  • É o suporte do inventário do património arqueológico, exigido por entidades públicas e museus.

Sem inventário normalizado, não há gestão de coleção nem relatório de escavação credível.

Onde se usa esta competência

  • Entidades públicas: DGPC, autarquias, universidades, museus de arqueologia.
  • Empresas de arqueologia, de conservação e restauro, de recuperação de património.
  • Empresas de turismo cultural que valorizam sítios arqueológicos.
  • Organizações sem fins lucrativos que intervêm em sítios ou património arqueológico.
  • Trabalho de campo (registo no momento da escavação) e de gabinete (tratamento e consulta posterior).

O assistente de arqueólogo/a regista em campo e organiza em gabinete: a mesma base de dados serve os dois momentos.

Bloco 2 · Conceitos e princípios de bases de dados

Tabela, registo e campo

Uma base de dados organiza informação em tabelas. Cada tabela tem:

  • Registos (linhas): cada um é uma ocorrência concreta, por exemplo uma peça específica.
  • Campos (colunas): cada um é um atributo, por exemplo o material da peça.
  • Um valor por campo, do tipo certo (texto, número, data).
Conceito Exemplo em arqueologia
Tabela pecas
Registo a peça CV.2025.0087
Campo material, cronologia, numero_inventario

Estes três conceitos são a base de tudo o resto nesta UC: princípios de bases de dados, na origem do conhecimento do referencial.

Princípios de uma boa base de dados

  • Consistência: o mesmo tipo de informação escreve-se sempre da mesma forma.
  • Não duplicação: cada facto vive num só sítio, não é repetido em várias tabelas.
  • Integridade: as relações entre tabelas mantêm-se corretas quando os dados mudam.
  • Unicidade: cada registo tem um identificador que não se repete.

Estes princípios preparam o que vem a seguir: sem eles não há normalização nem consultas fiáveis.

Bloco 3 · Metodologia: pesquisa, recolha e organização

Pesquisa e recolha de informação

Antes de desenhar a base de dados, há um trabalho metodológico de pesquisa, recolha e organização da informação de campo.

  • Pesquisa: consultar cartas arqueológicas, relatórios anteriores, bibliografia do sítio.
  • Recolha: registar em campo, no momento, com fichas normalizadas e fotografia sistemática.
  • Organização: agrupar por unidade estratigráfica, por tipo de material, por cronologia.

Um dado mal recolhido em campo nunca se corrige depois: a base de dados só é tão boa quanto o registo de origem.

Organizar a informação recolhida

  • Agrupar por proveniência: tudo o que sai da mesma unidade estratigráfica fica ligado a ela.
  • Classificar por tipo: unidade estratigráfica, peça, desenho, fotografia são categorias distintas.
  • Ordenar cronologicamente: por data de registo e, quando possível, por cronologia atribuída ao contexto.
  • Rever antes de introduzir: uma segunda leitura evita erros de transcrição do caderno de campo para a base de dados.

A organização metódica da informação é o que permite, mais tarde, planear a estrutura da base de dados sem surpresas.

Bloco 4 · Analisar necessidades e planear a estrutura

Analisar as necessidades

Antes de desenhar tabelas, pergunta se: que perguntas a base de dados tem de responder?

  • Que peças vieram de uma determinada unidade estratigráfica?
  • Que fotografias e desenhos documentam uma peça específica?
  • Onde está guardado o original de uma imagem, ou de que bibliografia foi retirada?
  • Quantas peças de cerâmica foram recolhidas num sítio?

Cada pergunta aponta para campos e relações que a base de dados vai precisar de ter. É a primeira realização da UC: analisar as necessidades para a criação da base de dados.

Planear e conceber a estrutura

Com as necessidades claras, planeia se a estrutura:

  1. Identificar as entidades (o que vai ter tabela própria): unidade estratigráfica, peça, desenho, fotografia.
  2. Definir os atributos (campos) de cada entidade.
  3. Definir as relações entre entidades.
  4. Rever com um diagrama antes de criar qualquer tabela no software.
[Unidade Estratigráfica] ──1:N── [Peça] ──N:M── [Desenho]
                                      └──N:M── [Fotografia]

Este diagrama é o mapa que se segue nos blocos seguintes: chaves, cardinalidade e normalização.

Bloco 5 · O modelo relacional: entidades e atributos

O modelo relacional

O modelo relacional organiza os dados em tabelas ligadas entre si, em vez de uma única tabela gigante. Cada entidade do mundo real vira uma tabela.

Entidade Tabela Exemplos de atributos
Unidade estratigráfica unidades_estratigraficas numero_ue, sitio, tipo, descricao
Peça pecas numero_inventario, designacao, material
Desenho desenhos numero_desenho, autor, escala
Fotografia fotografias numero_fotografico, formato, data_captura

Cada atributo guarda um valor, de um tipo, para um registo. É o princípio da atomicidade dos dados.

Diagrama entidade-relação

O diagrama entidade-relação (ER) representa as entidades, os seus atributos e as ligações entre elas, antes de qualquer linha de código SQL.

UNIDADES_ESTRATIGRAFICAS          PECAS
  id (PK)                          id (PK)
  numero_ue                        numero_inventario
  sitio                            ue_id (FK)
  tipo                             designacao
  descricao                        material
  • PK identifica de forma única o registo (chave primária, bloco seguinte).
  • FK liga uma tabela a outra (chave estrangeira, bloco seguinte).

Desenhar o ER antes do software é o que separa uma base de dados robusta de uma feita "a martelo".

Bloco 6 · Chaves primárias e chaves estrangeiras

Chave primária

A chave primária (PK) identifica cada registo de forma única e nunca se repete nem fica vazia numa tabela.

  • Pode ser um número sequencial automático (id), o mais comum em software de bases de dados.
  • Pode ser um código natural único, como o número de inventário da peça, desde que garantidamente não se repita.
  • Sem chave primária, não é possível referenciar um registo específico a partir de outra tabela.

Exemplo: pecas.id = 1 identifica de forma inequívoca a peça CV.2025.0087, mesmo que a designação mude no futuro.

Chave estrangeira

A chave estrangeira (FK) é um campo numa tabela que aponta para a chave primária de outra tabela, criando a relação entre elas.

CREATE TABLE pecas (
    id INTEGER PRIMARY KEY,
    numero_inventario TEXT NOT NULL UNIQUE,
    ue_id INTEGER NOT NULL REFERENCES unidades_estratigraficas(id),
    designacao TEXT NOT NULL,
    material TEXT NOT NULL
);
  • ue_id na tabela pecas é uma chave estrangeira: aponta para unidades_estratigraficas.id.
  • Garante integridade referencial: não é possível registar uma peça ligada a uma unidade estratigráfica que não existe.

A chave estrangeira é o que torna o modelo relacional relacional de facto: liga as tabelas em vez de as repetir.

Bloco 7 · Cardinalidade um para muitos

O que é cardinalidade

Cardinalidade descreve quantos registos de uma tabela se podem ligar a quantos registos de outra.

  • 1:N (um para muitos): um registo de A liga se a vários de B, mas cada registo de B liga se só a um de A.
  • Exemplo nesta UC: uma unidade estratigráfica tem muitas peças, mas cada peça pertence a uma só unidade estratigráfica.
UE 1042  ──┬── CV.2025.0087
           └── CV.2025.0088
UE 1043  ──── CV.2025.0102

Esta é a relação mais simples de representar: basta a chave estrangeira ue_id na tabela do lado "muitos" (pecas).

Ler a cardinalidade num diagrama

Notação Significado
1 exatamente um
N ou * zero, um ou muitos
1:N um regista muitos
N:M muitos registam muitos

No exemplo da UE 1042 com duas peças (CV.2025.0087 e CV.2025.0088), a cardinalidade lê se assim: uma UE relaciona se com N peças, cada peça relaciona se com 1 UE.

Confirmar a cardinalidade de cada relação é passo obrigatório antes de implementar a base de dados.

Bloco 8 · Relações muitos para muitos e tabelas de ligação

Quando surge o muitos para muitos

Em arqueologia, um único desenho ou fotografia (uma prancha, um enquadramento) documenta muitas vezes várias peças ao mesmo tempo, e uma peça pode ter vários desenhos (vistas diferentes).

  • Uma peça pode aparecer em vários desenhos e várias fotografias.
  • Um desenho ou uma fotografia pode documentar várias peças.
  • Isto é uma relação N:M: não cabe numa única chave estrangeira.

Resolve se sempre com uma tabela de ligação (também chamada tabela associativa).

A tabela de ligação

CREATE TABLE peca_desenho (
    peca_id     INTEGER NOT NULL REFERENCES pecas(id),
    desenho_id  INTEGER NOT NULL REFERENCES desenhos(id),
    PRIMARY KEY (peca_id, desenho_id)
);
  • Tem duas chaves estrangeiras, uma para cada tabela que liga.
  • A chave primária é composta pelas duas: garante que o mesmo par peça e desenho não se repete.
  • O mesmo padrão serve para peca_fotografia.
CV.2025.0087 ──┐
CV.2025.0088 ──┼── D.2025.014

Uma tabela de ligação por cada relação N:M é o padrão que se usa em qualquer base de dados relacional, não só em arqueologia.

Bloco 9 · Normalização de dados

Porque normalizar

Normalizar é organizar os dados por fases, para eliminar duplicação e garantir que cada facto vive num só sítio. É um dos critérios de desempenho da UC: cumprir as diferentes fases de normalização de dados para o inventário.

Tabela não normalizada (má prática):

numero_inventario sitio ue desenhos
CV.2025.0087 Cerro da Vila UE 1042 D.2025.014, D.2025.015

Dois problemas: o sítio repete se em cada peça da mesma UE, e o campo desenhos guarda vários valores separados por vírgula, o que impede consultar um desenho de cada vez.

As fases de normalização

  1. Primeira forma normal (1FN): cada campo guarda um único valor, nunca uma lista. Sem grupos repetidos.
  2. Segunda forma normal (2FN): cada campo depende da chave primária inteira, não só de parte dela.
  3. Terceira forma normal (3FN): nenhum campo depende de outro campo que não seja a chave primária.

Aplicado ao exemplo anterior: separa se desenhos numa tabela peca_desenho (1FN), e retira se sitio da tabela pecas porque já vive em unidades_estratigraficas, acessível pela chave estrangeira ue_id (3FN).

Uma base de dados normalizada para o inventário é a terceira realização desta UC: implementar uma base de dados normalizada.

Bloco 10 · Tipos de dados dos campos

Definir o tipo de dados de cada campo

Cada campo tem um tipo de dados, que define o que pode guardar e como pode ser tratado nas consultas. É um dos critérios de desempenho: utilizar ferramentas informáticas para definir o tipo de dados dos campos.

Tipo Uso em arqueologia Exemplo
Texto curto códigos, designações numero_inventario
Texto longo descrições descricao da UE
Número inteiro contagens, chaves id, quantidade
Data registo, captura data_registo
Categoria/enumerado valores fixos material: ceramica, metal, vidro, osso, litico

Escolher bem o tipo evita erros: um campo data mal definido como texto livre permite escrever "10 de maio" numa peça e "2025-05-10" noutra, impossibilitando ordenar por data.

Manusear os campos para criar consultas

Depois de os tipos estarem definidos, manuseiam se os campos existentes para criar consultas: filtrar, ordenar, agrupar e cruzar tabelas.

  • Filtrar: mostrar só as peças de um material (WHERE material = 'ceramica').
  • Ordenar: por data de registo ou por número de inventário.
  • Agrupar: contar quantas peças saíram de cada unidade estratigráfica.
  • Cruzar: juntar peças com os desenhos e fotografias que as documentam.

Manusear os campos existentes para criar consultas é, no referencial, o segundo critério de desempenho da UC, logo a seguir a definir os tipos de dados.

Bloco 11 · As quatro bases: UE, peças, desenhos e fotografias

Unidades estratigráficas e peças

  • Unidade estratigráfica (UE): a unidade mínima de escavação, camada, corte, estrutura ou enchimento identificado no terreno. Tem número, sítio, tipo e descrição.
  • Peça: um objeto recolhido, ligado a uma UE por chave estrangeira. Tem número de inventário, material, cronologia e estado de conservação.
SELECT ue.numero_ue, COUNT(p.id) AS total_pecas
FROM unidades_estratigraficas ue
LEFT JOIN pecas p ON p.ue_id = ue.id
GROUP BY ue.numero_ue;

Resultado real desta consulta: UE 1042 → 2 peças, UE 1043 → 1 peça, UE 2010 → 1 peça.

Desenhos e fotografias

  • Desenho: registo gráfico rigoroso, com número, autor, escala e data de execução.
  • Fotografia: registo visual, com número, formato (digital ou analógico) e data de captura.
  • Ambos se ligam a peças (e podem ligar se a UE) através de tabelas de ligação N:M, porque um único desenho ou fotografia documenta muitas vezes várias peças.
Entidade Atributo específico
Desenho escala (ex.: 1:1, 1:2)
Fotografia formato (digital, analógico)

São as quatro entidades do referencial desta UC: diferentes tipos de bases de dados, unidades estratigráficas, peças, desenhos e fotografias.

Bloco 12 · Referenciar imagens: inventário e localização do original

Atribuir número de inventário

Cada desenho e cada fotografia recebe um número de inventário próprio, único e sequencial, que o identifica para sempre.

  • Convenção usada nesta UC: D.ANO.SEQUENCIAL para desenhos (ex.: D.2025.014) e F.ANO.SEQUENCIAL para fotografias (ex.: F.2025.221).
  • O número acompanha a peça em qualquer citação, relatório ou publicação futura.
  • Atribuir número de inventário fotográfico e de desenho é uma aptidão explícita do referencial.

Sem número de inventário único, uma imagem não pode ser citada de forma inequívoca num relatório de escavação.

Registar o local do original ou a bibliografia

Para cada desenho e fotografia regista se onde está o original, ou, quando a imagem vem de uma publicação, a bibliografia de onde foi retirada.

SELECT numero_desenho, autor, bibliografia
FROM desenhos
WHERE localizacao_original IS NULL;

Resultado real: D.2025.028, João Aveiro, "Aveiro, J. (2024). Metalurgia do Cerro da Vila, p. 45, fig. 12". Este desenho não tem original no arquivo próprio, foi reproduzido de uma publicação.

Registar o local ou a bibliografia é a terceira aptidão do referencial ligada às imagens, essencial para a rastreabilidade científica do inventário.

Bloco 13 · Criar consultas

A instrução SELECT

Uma consulta (query) pede à base de dados um subconjunto de dados, filtrado, ordenado ou cruzado entre tabelas.

SELECT p.numero_inventario, p.designacao, ue.sitio
FROM pecas p
JOIN unidades_estratigraficas ue ON ue.id = p.ue_id
WHERE p.material = 'ceramica'
ORDER BY p.numero_inventario;

Resultado real (3 peças): AL.2025.0031 · Castelo de Alcácer, CV.2025.0087 · Cerro da Vila, CV.2025.0088 · Cerro da Vila.

  • SELECT escolhe os campos, FROM a tabela principal, JOIN cruza com outra tabela, WHERE filtra, ORDER BY ordena.

Consultas com relações N:M

Para consultar através de uma tabela de ligação, são precisos dois JOIN: um até à tabela de ligação, outro até à tabela final.

SELECT p.numero_inventario, d.numero_desenho, d.autor, d.escala
FROM pecas p
JOIN peca_desenho pd ON pd.peca_id = p.id
JOIN desenhos d ON d.id = pd.desenho_id
WHERE p.numero_inventario = 'CV.2025.0087';

Resultado real: CV.2025.0087 → D.2025.014, Marta Pinheiro, escala 1:1.

Esta consulta responde exatamente à pergunta de partida do bloco 4: que desenhos documentam esta peça?

Bloco 14 · Software de gestão de bases de dados

Aplicações informáticas de gestão de bases de dados

O referencial pede o domínio de aplicações informáticas: sistemas de gestão de bases de dados. As mais comuns no contexto profissional:

Software Uso típico
Microsoft Access pequenas equipas, formulários fáceis de montar
SQLite base de dados leve, um único ficheiro, ideal para projetos de escavação
FileMaker interfaces personalizadas para inventário de museu
Endovélico (DGPC) inventário nacional do património arqueológico português

Escolher a ferramenta certa depende da escala do projeto e de quem vai consultar os dados depois.

Fluxo comum a qualquer software

Independentemente da ferramenta, o fluxo de trabalho é sempre o mesmo:

  1. Criar as tabelas com os campos e tipos definidos (blocos 5 e 10).
  2. Definir as chaves primárias e estrangeiras (bloco 6).
  3. Introduzir os dados, um registo de cada vez, com rigor.
  4. Verificar a integridade: nenhuma chave estrangeira aponta para um registo inexistente.
  5. Consultar com filtros, ordenações e cruzamentos (bloco 13).

A competência transfere se entre softwares: o que se aprende no modelo relacional serve em qualquer ferramenta.

Bloco 15 · Implementar, manter e fechar

Implementar a base de dados normalizada

Implementar a base de dados normalizada para o inventário é a terceira realização do referencial. Reúne tudo o que foi visto:

  • Tabelas por entidade (UE, peças, desenhos, fotografias).
  • Chaves primárias e estrangeiras corretas.
  • Relações 1:N diretas e relações N:M com tabela de ligação.
  • Campos com o tipo de dados certo, normalizados até à 3FN.
  • Consultas testadas que respondem às perguntas do inventário.

Uma base de dados implementada, mas nunca consultada nem mantida, não serve o património que devia proteger.

Manutenção, backups e RGPD

  • Backups regulares da base de dados, em local diferente do computador de campo.
  • Cópias de segurança antes de qualquer alteração estrutural às tabelas.
  • RGPD: quando a base de dados regista nomes de escavadores, proprietários de terrenos ou colaboradores, aplicam se as regras de proteção de dados pessoais.
  • Documentar decisões de estrutura para quem continuar o trabalho.

Atitudes do referencial em jogo aqui: responsabilidade, autonomia, sentido de organização e respeito pelas normas e regras definidas.

Recapitulando

  • O modelo relacional organiza a informação em tabelas por entidade: unidades estratigráficas, peças, desenhos e fotografias.
  • Chaves primárias e estrangeiras ligam as tabelas; 1:N direto, N:M com tabela de ligação.
  • A normalização (1FN, 2FN, 3FN) elimina duplicação e garante integridade do inventário.
  • Tipos de dados corretos tornam as consultas fiáveis: filtrar, ordenar, agrupar, cruzar.
  • Cada desenho e fotografia leva número de inventário e localização do original ou bibliografia.

Próximo: fichas e projeto, planear e implementar uma base de dados de raiz.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: a base de dados não é um extra informático, é o registo científico da escavação. Perder dados é perder informação irrecuperável, porque escavar destrói o contexto. - erro comum: alunos pensam que uma folha de cálculo por si só resolve. Serve para pouco tempo, mas não impede duplicação de números nem garante relações entre tabelas. - exemplo: a DGPC (Direção-Geral do Património Cultural) mantém o Endovélico, a base de dados nacional do património arqueológico português, onde os sítios e as intervenções ficam registados.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que o contexto profissional real é misto: campo e gabinete, muitas vezes no mesmo dia. - pergunta à turma: porque é que uma empresa de conservação e restauro também precisa desta base de dados? (para saber a proveniência exata de cada peça antes de intervencionar). - analogia: a base de dados é o "livro de bordo" digital da escavação, sem ele o navio perde-se.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar o vocabulário: tabela, registo, campo. Vai aparecer em toda a UC e é preciso fixar cedo. - erro comum: confundir campo com valor. O campo é o "rótulo" (material), o valor é o conteúdo (ceramica). - exemplo/analogia: uma tabela é como um ficheiro de fichas de cartão, cada ficha é um registo, cada linha preenchida na ficha é um campo.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que estes quatro princípios vão reaparecer, com nome técnico, no bloco da normalização. - erro comum: achar que "duplicar para garantir" é seguro. É o oposto: duplicar cria inconsistências quando só uma cópia é corrigida. - pergunta: o que acontece se o nome de um sítio arqueológico estiver escrito de duas formas diferentes em duas tabelas? (as consultas deixam de cruzar os dados corretamente).

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: metodologia vem antes de qualquer software. A ferramenta informática só formaliza um processo que já tem de estar certo em papel. - erro comum: deixar o registo "para logo", confiando na memória. Em campo, o que não se escreve no momento perde-se. - exemplo: a ficha de unidade estratigráfica (ficha de UE) é preenchida na própria trincheira, antes de a camada ser retirada.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar a ligação direta com a realização "analisar as necessidades para a criação da base de dados": sem organizar primeiro, não se sabe o que a base de dados precisa de guardar. - erro comum: misturar unidades estratigráficas com peças na mesma lista de registo, "porque saíram juntas". São entidades diferentes e vivem em tabelas diferentes. - pergunta à turma: se encontraram três fragmentos de cerâmica na mesma camada, são um registo ou três? (três, cada peça é um registo próprio, todos ligados à mesma UE).

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: desenhar a estrutura sem saber as perguntas de partida é a causa mais comum de bases de dados mal feitas. - erro comum: começar a criar campos "porque parecem úteis", sem validar se respondem a uma necessidade real do inventário. - exemplo: uma equipa que só regista "descrição da peça" em texto livre não consegue depois filtrar por material, porque a informação não está num campo próprio.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que planear no papel ou num diagrama antes do software poupa retrabalho: mudar a estrutura depois de ter dados introduzidos é caro. - erro comum: saltar direto para o software (Access, SQLite) sem desenhar primeiro o diagrama de entidades e relações. - exemplo/analogia: o diagrama é como a planta de uma casa antes de a construir; ninguém assenta tijolo sem planta.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: uma tabela por entidade é a decisão estrutural mais importante da UC. Tudo o resto (chaves, normalização) decorre daqui. - erro comum: querer meter "tudo numa tabela só" para simplificar. É exatamente o oposto do modelo relacional e gera duplicação. - pergunta: porque é que "desenho" e "fotografia" são entidades diferentes, mesmo sendo ambas "imagens"? (têm atributos próprios, como escala no desenho e formato na fotografia, e ciclos de produção diferentes).

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: o diagrama ER é uma ferramenta de comunicação com a equipa, não só um exercício académico. - erro comum: desenhar o ER só com nomes de tabelas, sem os atributos principais. Sem atributos, não dá para validar se responde às necessidades do bloco 4. - exemplo: pedir à turma para desenhar o ER de `desenhos` e `fotografias` com os atributos próprios de cada uma.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: a chave primária não muda depois de criada. Se o id de uma peça mudasse, todas as ligações a desenhos e fotografias partiam. - erro comum: usar um campo que pode repetir-se (como o nome do sítio) como chave primária. - exemplo: numa turma de 30 alunos, o número de aluno é chave primária, o nome próprio não é, porque pode haver dois "João".

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar a diferença de vocabulário: PK identifica "a mim próprio", FK aponta "para outro". - erro comum: escrever o número da UE por extenso dentro da tabela `pecas` (ex.: repetir "UE 1042" como texto) em vez de usar o id como chave estrangeira. Isso reintroduz duplicação. - exemplo: mostrar no software como o campo ue_id aparece como uma lista de escolha ligada à tabela das unidades estratigráficas, não como texto livre.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: a chave estrangeira vai sempre no lado "muitos" da relação. É um erro comum colocá-la do lado errado. - erro comum: pensar que cardinalidade 1:N precisa de tabela de ligação. Não precisa, chega a chave estrangeira direta. - pergunta: se uma peça pudesse pertencer a duas unidades estratigráficas ao mesmo tempo, a relação continuaria a ser 1:N? (não, passaria a N:M, próximo bloco).

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que a cardinalidade se lê nos dois sentidos da relação, um de cada vez. - erro comum: só olhar para um lado da relação e esquecer o outro. - exemplo: pedir à turma para verbalizar a cardinalidade entre `unidades_estratigraficas` e `pecas` nos dois sentidos, em voz alta.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: N:M não se resolve nunca com uma chave estrangeira simples de um lado só. É preciso uma terceira tabela. - erro comum: tentar meter uma lista de números de desenho num único campo de texto da tabela `pecas`. Quebra a atomicidade e impede consultas fiáveis. - exemplo: uma fotografia de uma prancha com cinco fragmentos de cerâmica documenta cinco peças diferentes, a mesma fotografia.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que a chave primária composta (peca_id + desenho_id) é o que impede o mesmo par de se repetir por engano. - erro comum: esquecer a chave primária composta na tabela de ligação e acabar com pares duplicados. - exemplo: mostrar a consulta que devolve todos os desenhos de uma peça através da tabela `peca_desenho`, usando dois JOIN.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: normalizar não é burocracia, é o que evita que uma correção tenha de ser feita em dez sítios diferentes. - erro comum: guardar listas separadas por vírgula num único campo, como "D.2025.014, D.2025.015". É o sinal mais claro de falta de normalização. - exemplo: perguntar à turma o que acontece se o nome do sítio "Cerro da Vila" estiver mal escrito em 30 peças diferentes, todas copiadas à mão.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar as três fases por ordem: primeiro tirar as listas (1FN), depois garantir dependência da chave inteira (2FN), por fim eliminar dependências indiretas (3FN). - erro comum: achar que normalizar é "criar muitas tabelas pequenas por criar". Cada tabela nova resolve um problema concreto de duplicação, não é um fim em si. - exemplo/analogia: normalizar é como arrumar uma casa por categorias, roupa na gaveta da roupa, livros na estante, em vez de tudo numa caixa só.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que o tipo de dados é uma decisão técnica com consequência direta nas consultas: não se filtra nem ordena bem um campo mal tipado. - erro comum: usar texto livre para tudo "para não complicar". Complica depois, nas consultas. - exemplo: mostrar como um campo `material` como categoria fixa evita "cerâmica", "Ceramica" e "CERAMICA" coexistirem na mesma tabela.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar a sequência: primeiro tipos de dados corretos, só depois consultas fiáveis. Uma coisa depende da outra. - erro comum: tentar filtrar por material quando o campo foi criado como texto livre, com variações de maiúsculas e minúsculas. - exemplo: mostrar a mesma consulta a falhar com dados mal tipados e a funcionar depois de corrigido o tipo do campo.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: a UE regista se mesmo quando não tem peças associadas, porque documenta a estratigrafia do sítio, não só os achados. - erro comum: só criar registo de UE quando há peças para lhe associar. A UE tem valor próprio, mesmo vazia de achados. - exemplo: percorrer a consulta LEFT JOIN em conjunto e explicar porque LEFT JOIN mantém a UE 2010 mesmo que só tenha uma peça.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que desenho e fotografia, apesar de ambos serem "imagens", justificam tabelas próprias por terem atributos distintos e processos de produção diferentes. - erro comum: tratar desenho e fotografia como a mesma entidade "documentação visual". Perde se informação específica, como a escala. - pergunta: porque é que a escala só faz sentido no desenho e não na fotografia? (o desenho é traçado a uma escala definida; a fotografia depende da distância e da lente, não tem escala fixa embutida).

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que o número de inventário é atribuído uma única vez e nunca reutilizado, mesmo que a imagem seja descartada. - erro comum: numerar desenhos e fotografias com o mesmo número da peça que documentam. São entidades diferentes, com séries de numeração próprias. - exemplo: mostrar como dois desenhos da mesma peça (CV.2025.0087) têm dois números de desenho distintos, D.2025.014 e D.2025.015.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que localizacao_original e bibliografia são complementares: uma imagem tem uma ou outra, raramente as duas. - erro comum: deixar os dois campos vazios "para preencher depois". Sem esta informação, a proveniência da imagem perde-se. - exemplo: percorrer com a turma a consulta WHERE localizacao_original IS NULL e discutir porque é uma consulta útil de auditoria.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar a ordem de leitura da instrução: SELECT o quê, FROM de onde, JOIN com o quê, WHERE com que condição, ORDER BY em que ordem. - erro comum: esquecer a condição do JOIN (ON ue.id = p.ue_id) e obter um produto cartesiano, com muito mais linhas do que devia. - exemplo: correr a consulta sem o WHERE e mostrar que aparecem peças de todos os materiais, não só cerâmica.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que uma relação N:M exige sempre dois JOIN na consulta, nunca um só, porque há uma tabela intermédia. - erro comum: tentar ligar `pecas` diretamente a `desenhos` sem passar por `peca_desenho`. Não há chave estrangeira direta entre as duas. - exemplo: pedir à turma para escrever a consulta equivalente para `peca_fotografia`, substituindo só os nomes das tabelas.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que o Endovélico é o sistema oficial português, mantido pela DGPC, e que qualquer inventário de campo pode vir a alimentar dados que lá entram. - erro comum: escolher a ferramenta pela moda em vez de pela necessidade: uma pequena escavação não precisa de um sistema empresarial complexo. - exemplo: mostrar a mesma tabela `pecas` aberta em SQLite e como se relaciona com o que foi desenhado no diagrama ER do bloco 5.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que o fluxo é conceptual, independente do botão específico de cada programa. - erro comum: aprender "onde clicar" num software sem perceber porque a ação corresponde a um passo do modelo relacional. - exemplo: mostrar o mesmo fluxo em Access e em SQLite, com nomes de menu diferentes mas a mesma lógica.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que "implementar" não termina quando as tabelas estão criadas: só está feito quando responde de facto às perguntas do inventário. - erro comum: dar a base de dados por terminada sem testar nenhuma consulta real. - exemplo: percorrer com a turma o percurso completo desde a necessidade (bloco 4) até à consulta que a resolve (bloco 13).

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que a responsabilidade pelo inventário não acaba na introdução dos dados, continua na manutenção. - erro comum: guardar o único backup no mesmo disco da base de dados de trabalho. - exemplo: perguntar à turma o que aconteceria a um projeto de três anos de escavação se o computador de campo se perdesse sem backup.