UC02097

Desenhar samblagens e ligações estruturais em madeira

Furo e respiga, malhetes em cauda de andorinha, meias-madeiras, junções esvaziadas, meias-esquadrias, cavilhas, lamelas e dominós

Curso profissional · 50h · Técnico de Desenho de Produto em Madeira e Mobiliário

Plano

  1. Samblagens, nomes e critérios de escolha
  2. A madeira: fio, retração e humidade
  3. Projetos e normas de desenho técnico
  4. Segurança, saúde no trabalho e qualidade
  5. Furo e respiga: simples e dupla
  6. Respiga com talão e de fora a fora; respiga em L
  7. Malhetes em cauda de andorinha
  8. Meias-madeiras e junções esvaziadas
  9. Meia-esquadria nos topos e macho-fêmea de meia-esquadria
  10. União de peças no sentido da largura
  11. Cavilhas, lamelas e dominós
  12. Tolerâncias, simulação em CAD e desenho de pormenor

Bloco 1 · Samblagens, nomes e critérios de escolha

O que é uma samblagem

Uma samblagem é a união de peças de madeira por encaixe de formas talhadas nas próprias peças: uma parte saliente de uma entra num recorte da outra. Uma ligação estrutural transmite esforços entre peças (peso, tração, flexão, torção), por samblagem ou por peças auxiliares (cavilhas, lamelas, dominós, ferragens).

  • Um móvel falha quase sempre numa ligação, raramente na madeira.
  • A escolha depende do esforço, do movimento da madeira, da visibilidade, do material e da produção.
  • Desenhar samblagens é interpretar o projeto e detalhar cada ligação até poder ser fabricada sem perguntas.

Uma só convenção de nomes

Os nomes variam de oficina para oficina. Nesta UC seguimos a designação samblagem por furo e respiga, a mesma do referencial ("respiga com furo de fora a fora"):

Termo Significado
Respiga a parte macho, saliência retangular na ponta de uma peça
Furo a cavidade fêmea que recebe a respiga
Malhete reservado aos malhetes em cauda de andorinha (ligação de dentes)
Macho e fêmea língua e ranhura ao longo de uma aresta

Quando um desenho usar outra convenção (há quem fale em "mecha", com sentidos diferentes), quem decide é o pormenor cotado.

Analisar antes de desenhar

A primeira realização da UC é analisar desenhos e especificações técnicas de samblagens existentes.

  1. Inventário dos encontros entre peças no desenho de conjunto.
  2. Geometria de cada encontro (L, T, cruz, topo a topo, pela largura) e fio de cada peça.
  3. Família da samblagem representada (e falta de pormenor, se não houver).
  4. Verificação: adequada ao esforço, ao movimento e à visibilidade? As cotas das duas peças batem?
  5. Registo das não conformidades antes de começar o CAD.

Bloco 2 · A madeira: fio, retração e humidade

A madeira mexe, e não mexe por igual

A madeira é anisotrópica: o comportamento depende da direção em relação ao fio.

Direção Variação com a humidade
Longitudinal (ao longo do fio) praticamente desprezável
Radial moderada
Tangencial a maior, cerca do dobro da radial
  • O comprimento das peças maciças segue o fio; o fio marca-se no desenho e na lista de corte.
  • Para mobiliário de interior, madeira com teor de água na ordem dos 8 a 12 %.
  • Um tampo de 600 mm pode variar vários milímetros entre o inverno e o verão.

Consequências para o desenho de ligações

  • A cola trabalha em faces de fio, mal em topos: é por isso que a respiga cola nas faces e a meia-esquadria simples precisa de reforço.
  • Tampos maciços fixam-se com peças que deixam o movimento transversal: botões numa ranhura do aro, grampos próprios, parafusos em furos ovalizados.
  • Nunca colar maciço largo em cruz sobre maciço.
  • Painéis maciços entram na ranhura com folga no fundo e sem cola.
  • Derivados (contraplacado, aglomerado, MDF, OSB) mexem muito menos e pedem ligações próprias: cavilhas, lamelas, excêntricos; o aglomerado não aceita respigas talhadas.

Bloco 3 · Projetos e normas de desenho técnico

Os documentos de um projeto de mobiliário

Documento Para que serve
Desenho de conjunto o produto inteiro, peças numeradas
Perspetiva explodida peças afastadas no sentido de montagem
Lista de peças e de corte quantidades, material, medidas em bruto e acabadas, fio
Desenhos de fabrico cada peça isolada, com furos, recortes e rebaixos
Desenhos de pormenor a samblagem ampliada, com cortes e cotas finas
Especificações técnicas espécie, teor de água, cola, ferragens, tolerâncias gerais

Cada samblagem tem de ser coerente em todos estes documentos.

Normas de desenho técnico

  • Normas ISO (muitas publicadas como NP EN ISO): linhas e vistas (série ISO 128), projeções (ISO 5456-2), cotagem (ISO 129-1), escalas (ISO 5455), formatos (ISO 5457), legenda (ISO 7200).
  • Método europeu (1.º diedro): planta por baixo do alçado principal; vista lateral esquerda à direita do alçado.
  • Escalas normalizadas: 1:2, 1:5, 1:10, 1:20, 1:50; 2:1, 5:1, 10:1. Não são normalizadas 1:3, 1:4, 4:1.
  • Pormenores de samblagens a 1:1 ou 1:2 (2:1 se forem muito pequenos).
  • Cotas em milímetros, sem unidade, e sempre com a medida real, seja qual for a escala.

Linhas, cortes e cotagem de furos e rebaixos

  • Contínua grossa: arestas visíveis. Tracejada fina: arestas invisíveis (um furo cego visto de fora). Traço-ponto fino: eixos e planos de corte.
  • Muitas linhas tracejadas pedem um corte: fundo do furo, talão, língua, rebaixo.
  • Furos: diâmetro (Ø), profundidade, posição do eixo, cego ou passante.
  • Recortes e rebaixos: largura, profundidade, comprimento e posição.
  • As duas peças cotam-se a partir das mesmas referências (face e canto de referência).
  • Desempenar (face e canto de referência) não é desengrossar (espessura e largura finais em paralelo a eles).

Bloco 4 · Segurança, saúde no trabalho e qualidade

Segurança e saúde: no posto de CAD e na oficina

  • Posto de CAD: trabalho com equipamentos dotados de visor (Decreto-Lei n.º 349/93 e Portaria n.º 989/93): ecrã com o topo à altura dos olhos ou ligeiramente abaixo, iluminação sem reflexos, cadeira regulável, pausas.
  • Oficina: um desenho completo evita improvisos em máquina; folgas definidas evitam montar à força; peças pequenas trabalham-se em peça comprida e cortam-se no fim.
  • Pó de madeira dura: agente cancerígeno; valor-limite de 2 mg/m³ desde 17 de janeiro de 2023 (Diretiva (UE) 2017/2398). Captação na origem primeiro; máscara FFP2/FFP3 quando não chega.

Qualidade: o mesmo desenho, as mesmas peças

  • Legenda completa e índice de revisão: a oficina trabalha sempre com o desenho em vigor.
  • Lista de verificação antes de libertar o desenho: cotas, fio, folgas, vistas.
  • Peça de ensaio para confirmar em madeira a folga simulada em CAD.
  • Calibres e escantilhões para operações repetidas.
  • Registo de não conformidades: corrige-se o desenho, não só a peça.

Se o mesmo desenho produz encaixes diferentes, o problema está no desenho ou no processo.

Bloco 5 · Furo e respiga: simples e dupla

Anatomia da samblagem por furo e respiga

Elemento Descrição
Respiga saliência retangular na ponta da peça (travessa)
Faces da respiga faces largas, de fio: é aqui que a cola trabalha
Testa a ponta da respiga; cola pouco, por ser topo
Ombros encostam à peça do furo, definem o comprimento e resistem à rotação
Furo cavidade que recebe a respiga, cega ou passante

Regras práticas (não normas): espessura da respiga cerca de 1/3 da espessura da peça, arredondada a medida de ferramenta; respiga cega com cerca de 2/3 da largura da peça do furo.

Exemplo · dimensionar uma respiga cega

Travessa 22 × 90 mm a entrar num pé 45 × 45 mm.

  1. Espessura: 22 / 3 = 7,3 mm → 8 mm; paredes de (22 - 8) / 2 = 7 mm.
  2. Comprimento: 2/3 × 45 = 30 mm; furo com 31 mm de profundidade.
  3. Largura: respiga mais estreita do que a travessa (por exemplo 70 mm), para o furo não chegar ao topo do pé.
  4. Duas travessas a 90° no mesmo pé: as respigas cruzam-se. Solução desenhada: pontas a 45° ou respigas mais curtas.

Respiga simples e respiga dupla

A respiga simples é a solução habitual em travessas de largura e espessura moderadas.

A respiga dupla tem duas respigas na mesma ponta, em duas situações diferentes:

  • lado a lado na largura, em travessas largas: evita um furo muito comprido que enfraquece a peça e uma respiga larga que retrai e afrouxa a colagem;
  • paralelas na espessura, em peças espessas: mais faces coladas sem uma respiga demasiado grossa.

Em ambos os casos, as duas respigas e os dois furos cotam-se a partir das mesmas referências, com as mesmas profundidades.

Bloco 6 · Respiga com talão, de fora a fora e em L

Respiga com talão à vista e com talão escondido

Numa porta de almofada, a ranhura do painel corre de ponta a ponta do montante. A respiga tem de ser mais estreita do que a travessa, e fica um troço de ranhura vazio junto ao topo. O talão é o ressalto curto que o tapa e que trava a travessa contra a torção.

  • Talão à vista: secção retangular, chega ao topo do montante; vê-se lá um pequeno retângulo.
  • Talão escondido: em rampa ou recolhido; não aparece no topo, acabamento mais limpo, mais rigor.

Exemplo (peças 20 × 60, ranhura 6 × 10): respiga de 6 mm, 15 mm de talão com 10 de comprimento, 35 mm de respiga, 10 mm da zona da ranhura: 15 + 35 + 10 = 60.

Respiga com furo de fora a fora

O furo atravessa a peça e a testa da respiga fica à vista. Mais comprimento colado e, sobretudo, travamento mecânico:

  • Cunhas em fendas na ponta da respiga, que a abrem contra as paredes de topo do furo (nunca contra as paredes de fio, que rachariam); o furo alarga ligeiramente do lado de saída.
  • Cavilha atravessada: atravessa peça e respiga; com o furo da respiga ligeiramente desencontrado para os ombros, puxa a ligação ao ser batida.
  • Escolha estética: testa e cunhas à vista em mobiliário de linhas robustas.

O pormenor mostra fendas, alargamento do furo e sobrecomprimento a cortar rente.

A junção com respiga em L

Duas peças em canto, e uma delas termina no próprio canto: o canto de um caixilho, de um aro, de uma estrutura.

  • O furo fica junto ao topo: pouca madeira até à ponta, por isso sobrecomprimento e, muitas vezes, talão.
  • A respiga é mais estreita do que a travessa quando a aresta desta alinha com o topo do montante.
  • Em caixilharia com moldura ou rebaixo de vidro, os ombros ficam desencontrados e cotam-se separadamente.
  • Alternativa: furo aberto no topo (ligação em forquilha), mais fácil em máquina, à vista em duas faces.

Bloco 7 · Malhetes em cauda de andorinha

Anatomia e sentido de travamento

Elemento Descrição
Caudas dentes mais largos na ponta, na peça das caudas
Pinos dentes complementares, na peça dos pinos; também trapezoidais vistos no topo
Meios-pinos pinos das arestas, com um só lado inclinado
Linha de base traçada à espessura da outra peça

Trava pela forma num só sentido: ao longo do comprimento das caudas (numa gaveta, puxar a frente). Monta e desmonta no sentido perpendicular à face da peça das caudas. Inclinação prática: cerca de 1:6 em madeiras macias (≈ 9,5°) e 1:8 em madeiras duras (≈ 7,1°).

Variantes: à vista, meio-escondido, escondido

Variante O que se vê Uso
À vista (de fora a fora) caudas numa face, pinos na outra traseiras de gavetas, caixas
Meio-escondido (de pestana) só na face da peça das caudas frentes de gaveta
Escondido (à meia-esquadria) só a linha de uma meia-esquadria peças de acabamento muito cuidado
Malhete direito dentes retos caixas; não trava pela forma

No meio-escondido e no escondido, o desenho cota a profundidade dos entalhes e a espessura da pestana.

Exemplo · dividir uma largura de 140 mm

Tábuas de nogueira de 140 × 18 mm; meios-pinos de 9, pinos de 8, caudas de 18 (junto ao topo).

  1. 2 × 9 + 18n + 8(n - 1) = 140 → 10 + 26n = 140 → n = 5 caudas, 4 pinos.
  2. Eixos das caudas: 18, 44, 70, 96, 122 mm (de 26 em 26).
  3. Inclinação 1:8 em 18 mm: recuo de 2,25 mm por lado.
  4. Na linha de base: caudas de 13,5, pinos de 12,5, meios-pinos de 11,25.
  5. Verificação: 2 × 11,25 + 5 × 13,5 + 4 × 12,5 = 140 mm.

Bloco 8 · Meias-madeiras e junções esvaziadas

Junções à meia-madeira

As duas peças são rebaixadas e sobrepõem-se no mesmo plano. Com a mesma espessura, cada uma perde metade da espessura.

Variante Geometria
Em L canto; rebaixo com a largura da outra peça
Em T uma peça termina a meio da outra
Cruzada as peças atravessam-se, assentes pela face: rebaixos a meia espessura
Cruzada ao cutelo as peças atravessam-se de pé (pela aresta estreita): ranhuras a meia largura, uma por cima, outra por baixo
Em cauda de andorinha como em T, mas trava a tração

Colam em faces de fio, mas não travam pela forma: muitas vezes levam cavilha ou parafuso.

Junções esvaziadas, de prumo e de entalhes

Numa junção esvaziada, abre-se um esvaziamento (canal ou rebaixo) numa peça e a outra entra inteira.

  • Esvaziada a toda a largura: canal transversal ao fio, de orla a orla (a prateleira fixa na ilharga); muito sólida para cargas verticais, porque a peça apoia no fundo do canal. Se não se quer ver o canal na orla, pára antes dela.
  • Esvaziada de topo: o esvaziamento abre-se junto ao topo, formando um canto; uma aba exterior pode esconder o topo da outra peça.
  • De prumo: uma peça vertical liga-se a uma horizontal com apoio de madeira contra madeira; trabalha sobretudo à compressão.
  • De entalhes: recorte estreito e localizado, só onde é preciso.

Bloco 9 · Meia-esquadria nos topos e macho-fêmea de meia-esquadria

A meia-esquadria e o seu reforço

Os topos cortam-se em ângulo e a junta segue a bissetriz do canto: nenhum topo fica à vista. Num canto a 90°, 45° em cada peça; numa moldura regular de n lados, 180° / n (hexágono 30°, octógono 22,5°).

Cola topo com topo: precisa de reforço num móvel funcional:

  • cavilhas perpendiculares à junta;
  • lamelas ou dominós nas faces do corte;
  • língua postiça (fio atravessado à junta), escondida ou à vista como remate;
  • encaixe macho-fêmea dentro do corte.

Encaixe macho-fêmea de meia-esquadria

Dentro do próprio corte, uma peça leva uma língua (macho) e a outra uma ranhura (fêmea), escondidas na junta.

  • Mais área de colagem, e de fio, nas faces da língua.
  • Alinhamento durante a colagem: o canto não escorrega enquanto a cola seca.
  • O pormenor cota espessura e comprimento da língua, largura e profundidade da ranhura, a folga, e o ângulo com a referência de medida.
  • A melhor vista para o mostrar é um corte perpendicular à junta.

Bloco 10 · União de peças no sentido da largura

Unir pelas arestas longas

  • Junta viva: arestas desempenadas coladas, fio com fio; muito resistente; o problema é alinhar (daí lamelas, dominós ou cavilhas só para alinhar).
  • União macho e fêmea: língua e ranhura na aresta. Em soalhos e forros não se cola e deixa cada tábua mexer; em painéis colados serve para alinhar.
  • Encaixe à meia-esquadria (no sentido da largura): arestas a 45° formando um canto a 90° ao longo do comprimento (caixas, pés ocos).
  • Encaixe por entalhe à meia-esquadria: meia-esquadria de arestas com um entalhe que faz as peças encaixarem e não escorregarem ao apertar; fresa própria na tupia.

Não confundir com o meio-fio: rebaixo a meia espessura ao longo da aresta, num painel plano. Não é meia-esquadria.

Bloco 11 · Cavilhas, lamelas e dominós

Cavilhas

  • Cilindros de madeira (normalmente faia), estriados, pontas chanfradas; diâmetros frequentes 6, 8 e 10 mm.
  • Regra prática: diâmetro até cerca de metade da espessura da peça mais fina.
  • Profundidades dos dois furos somadas ligeiramente maiores do que a cavilha: câmara para a cola.
  • Pelo menos duas por ligação; posições cotadas a partir das mesmas referências nas duas peças.
  • Em móveis de painéis: sistema 32 (furos de 5 mm com entre-eixos de 32 mm, primeira fila a 37 mm da orla da frente).

Exemplo: prateleira de 19 mm, cavilhas Ø 8 × 35: furo de 12 na ilharga, 25 na prateleira (12 + 25 = 37 > 35); posições 37, 165, 261 mm.

Lamelas e dominós

Lamela: pastilha de faia prensada em forma de lente, em ranhuras em arco; incha com a cola; a ranhura é mais comprida e deixa ajuste lateral. Tamanhos Lamello: n.º 0 (47 × 15 × 4), n.º 10 (53 × 19 × 4), n.º 20 (56 × 23 × 4 mm). Sobretudo para alinhar e reforçar.

Dominó (espiga solta): respiga separada em dois furos alongados abertos por máquina (sistema DOMINO da Festool; o princípio genérico faz-se também em tupia ou CNC). Mais espesso e fundo do que a lamela, resiste melhor à flexão; espigas de 4 × 20 a 10 × 50 mm (espessura × comprimento). Um furo justo (referência) e o outro alongado (folga de montagem).

Ligações desmontáveis e ferragens

  • Excêntricos (tambor numa peça, perno roscado na outra): aglomerado e MDF.
  • Parafusos de ligação e porcas de embutir: peças maciças (camas, mesas desmontáveis).
  • Cavilhas a acompanhar as ferragens, para posicionar e resistir ao corte.

Regra: as cotas de furação vêm do catálogo técnico do fabricante da ferragem, e o desenho identifica a referência. Não se inventam medidas de ferragens.

Bloco 12 · Tolerâncias, simulação em CAD e desenho de pormenor

Tolerâncias e ajustes

Termo Exemplo
Cota nominal 10
Desvios +0,1 / 0
Limites 10,0 a 10,1
Tolerância 0,1 mm
  • Ajuste com folga (sempre folga): o normal nas samblagens coladas. Com aperto: raro em madeira, risco de rachar. Incerto: o que acontece quando o desenho não define nada.
  • Folgas em décimas de milímetro, não em micrómetros nem em milímetros; confirmadas com peça de ensaio.
  • A folga nunca fica implícita: diz-se qual peça a leva.

Simular em CAD 3D

  1. Cada peça é um componente, com parâmetros (espessura da respiga = espessura / 3, folga).
  2. Furos, rebaixos e recortes modelados como operações de fabrico reais.
  3. Montagem com restrições (ombros coincidentes, eixos concêntricos).
  4. Movimento de montagem: a peça entra no sentido previsto; a cauda de andorinha não sai no sentido do esforço.
  5. Deteção de interferências e medição de folgas, no caso nominal e no pior caso de tolerâncias.
  6. Só depois, vistas 2D associativas e pormenores.

Exemplos de nomes: SolidWorks, Interference Detection e Move Component com deteção de colisões; Fusion, Interference no menu Inspect.

O desenho de pormenor completo

  • Escala 1:1 ou 1:2 (2:1 se muito pequeno), indicada.
  • Vistas de cada peça isolada e da ligação montada; cortes onde o encaixe não se vê.
  • Furos, recortes e rebaixos cotados: diâmetro, profundidade, posição; cego ou passante.
  • Mesmas referências nas duas peças; folga explícita; fio marcado.
  • Materiais, ferragens, cola, teor de água; legenda com revisão.

Um bom desenho de pormenor executa-se e controla-se sem perguntas.

Recapitulando

  • Furo e respiga: simples, dupla, com talão à vista ou escondido, de fora a fora, em L; espessura cerca de 1/3.
  • Malhetes em cauda de andorinha: à vista, meio-escondidos, escondidos; travam num só sentido; 1:6 ou 1:8.
  • Meia-madeira (L, T, cruzada, ao cutelo) e junções esvaziadas (a toda a largura, de topo, de prumo, de entalhes).
  • Meia-esquadria nos topos e nas arestas, com reforço, macho-fêmea ou entalhe; união pela largura.
  • Cavilhas, lamelas e dominós; folgas em décimas, simuladas em CAD; a madeira mexe através do fio.

Próximo: fichas e projecto, desenhar samblagens completas do encaixe ao ficheiro de fabrico.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a samblagem não é decoração, é o que garante a resistência do móvel. - Erro comum: tratar todas as ligações como equivalentes. Cada família serve esforços e produções diferentes. - Exemplo: pedir à turma que diga onde falhou a última cadeira ou mesa que se estragou lá em casa.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: usar sempre os mesmos nomes em todos os documentos do projeto. - Erro comum: chamar "malhete" à cavidade da respiga e depois aos dentes de uma gaveta, confundindo a oficina. - Pergunta: numa peça física, qual é a peça que entra e qual é a que recebe? Mostrar com uma ligação desmontada.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: as duas realizações da UC são analisar e depois executar. A análise vem sempre primeiro. - Erro comum: saltar direto para o CAD sem perceber o contexto da peça. - Atividade: dar um desenho de conjunto de uma mesa e pedir o inventário de encontros (quatro pés, quatro travessas: oito encontros).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: quase todos os defeitos que aparecem meses depois (juntas abertas, tampos rachados) vêm de ignorar este quadro. - Erro comum: pensar que a madeira mexe sobretudo ao comprido. É o contrário. - Exemplo de conta (sebenta, capítulo 2): 600 mm × 4 pontos de teor de água × 0,3 %/ponto (valor de exemplo) = 7,2 mm.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a regra da cola: faces de fio sim, topos não. Explica metade das decisões da UC. - Erro comum: aparafusar um tampo maciço em furos redondos a toda a volta. - Mostrar um botão de fixação de tampo e perguntar porque é que tem folga na ranhura.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o conhecimento "projetos de produtos de mobiliário e carpintaria" é saber ler este conjunto de documentos. - Erro comum: mudar uma cota no pormenor e esquecer a lista de corte. - Atividade: mostrar um projeto real (ou do arquivo da escola) e identificar cada documento.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: este critério de desempenho (respeitar as normas) é avaliado em todos os trabalhos da UC. - Erro comum: escrever na cota a medida lida no papel num pormenor a 2:1 (16 em vez de 8). - Pergunta: uma respiga de 8 × 30 desenhada a 2:1 mede quanto no papel? E que cotas se escrevem?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: cotar a partir das faces de referência que a oficina marca ao desempenar. - Erro comum: cotar só o exterior e esquecer profundidades e folgas. - Exemplo: comparar um desenho de respiga com e sem corte e contar quantas cotas o corte permite pôr.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar que a atitude "rigor" do referencial se traduz diretamente em segurança na oficina. - Erro comum: pensar que segurança é só um capítulo à parte e não algo que o próprio desenho condiciona. - Pergunta: que acontece a um operador que tem de "adivinhar" uma cota em máquina?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a repetibilidade como medida da qualidade de um desenho. - Erro comum: corrigir a peça na bancada e deixar o desenho errado para a série seguinte. - Ligação: sistemas de gestão da qualidade (ISO 9001) exigem controlo de documentos e alterações.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar o vocabulário: respiga, faces, testa, ombros, furo, talão voltam em todas as variantes. - Erro comum: respiga demasiado fina (parte) ou demasiado grossa (as paredes do furo racham). O terço equilibra as três partes. - Conta rápida: travessa de 22 mm, respiga de 22/3 = 7,3, adota-se 8 mm.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar o passo 4: é um erro clássico que só se vê em CAD ou na oficina. - Erro comum: furo com a mesma profundidade do comprimento da respiga; a testa bate no fundo e os ombros não encostam. - Pedir à turma que refaça o exemplo para uma travessa de 24 × 70 num pé de 50 × 50 (resultado: 8 mm, 33 mm, furo de 34 mm).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar o critério de escolha: largura e espessura da peça, não preferência. - Erro comum: desenhar as duas respigas com profundidades diferentes, o que impede o encaixe simultâneo. - Exemplo: a travessa de baixo de uma porta de almofada, larga, usa respiga dupla lado a lado.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o talão resolve um problema concreto (a ranhura e a torção), não é decoração. - Erro comum: esquecer o talão e deixar um buraco à vista no topo do montante. - Mostrar também o sobrecomprimento do montante: 20 mm a mais, cortados depois de colar, para o furo não rachar a ponta.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a dupla função: estrutural (trava sem depender só da cola) e estética. - Erro comum: orientar as cunhas contra as paredes de fio da peça do furo e rachá-la. - Pergunta: em que tipo de móvel faria sentido mostrar a respiga e as cunhas?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a diferença face à respiga em T: aqui o furo está junto à ponta. - Erro comum: desenhar a respiga em L sem sobrecomprimento; o montante racha ao abrir o furo ou ao apertar. - Exemplo: o canto superior de um caixilho de porta.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: numa gaveta, caudas nas ilhargas e pinos na frente, porque o esforço é puxar a frente. - Erro comum: chamar "espiga reta" aos pinos, como se fossem retangulares; são o negativo das caudas. - Analogia: peça de puzzle com a ponta mais larga do que a entrada.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: numa gaveta de cozinha, a frente leva meio-escondido (a face da frente fica limpa) e a traseira à vista. - Erro comum: dimensionar a profundidade igual à espessura da peça e atravessar a pestana. - Pergunta: porque é que a frente de uma gaveta raramente leva malhete à vista?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a verificação: a divisão tem de fechar na largura total nas duas linhas (topo e base). - Erro comum: começar e acabar em cauda; as arestas levam meios-pinos. - Exercício: repetir para 120 mm com meios-pinos e pinos de 8 e caudas de 16 (não fecha; 4 caudas de 20).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a diferença entre cruzada à meia-madeira e cruzada ao cutelo: muda a orientação das peças E a dimensão que se corta a meio. - Erro comum: desenhar a grelha de uma garrafeira com rebaixos a meia espessura; as divisórias estão de pé, as ranhuras vão a meia largura. - Exemplo: divisórias de 18 × 120 mm de cutelo, ranhuras de 18,2 × 60 mm, entre-eixos de 118 mm para vãos de 100 mm.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: na meia-madeira as duas peças perdem espessura; na esvaziada é sobretudo uma que é trabalhada. - Erro comum: cotar a posição dos canais das duas ilhargas a partir de referências diferentes; as prateleiras ficam desniveladas. - Pergunta: qual destas escolherias para uma travessa fina a meio de um painel?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a meia-esquadria é uma solução estética (esconde os topos), não estrutural por si só. - Erro comum: cotar o ângulo sem dizer a referência (em relação à aresta ou à perpendicular), e a máquina corta o complementar. - Exemplo: moldura de 40 mm de largura: junta de 40 × √2 = 56,6 mm; a lamela n.º 20 (56 mm) não cabe.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a vantagem prática: a língua alinha as peças ao colar. - Erro comum: língua com a mesma espessura da ranhura, sem folga, e o canto não fecha. - Exemplo: caixas de qualidade com cantos em meia-esquadria usam este encaixe ou uma língua postiça.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: meia-esquadria é sempre um corte em ângulo, nos topos ou nas arestas. - Erro comum: chamar meia-esquadria a um rebaixo de sobreposição. - Exemplo: tampo de 5 tábuas em macho e fêmea com 120 mm à vista e língua de 8 mm: quatro tábuas de 128 e uma de 120 (4 × 128 + 120 - 4 × 8 = 600).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a simulação em CAD para apanhar desencontros de furos antes de furar. - Erro comum: cotar os furos das duas peças a partir de extremidades diferentes, gerando desencontro sistemático. - Pergunta: porque se deixa a soma das profundidades maior do que a cavilha?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: confirmar sempre as medidas no catálogo do fornecedor em vigor. - Erro comum: tratar lamela e dominó como equivalentes; o dominó aguenta ligações mais solicitadas. - Pergunta: numa moldura de 40 mm de largura, cabe uma lamela n.º 20? (Não: a junta tem 56,6 mm e a ranhura é mais comprida do que a lamela.)

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a ligação ao mobiliário de série em painéis, onde as samblagens talhadas quase não existem. - Erro comum: desenhar o furo do excêntrico "a olho" sem consultar o catálogo. - Atividade: dar um catálogo de ferragens e pedir que tirem as cotas de furação de um excêntrico.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a ordem de grandeza: a madeira mexe mais do que um micrómetro de um dia para o outro, e a cola não enche um milímetro. - Erro comum: aplicar a mesma folga a tudo. Painéis maciços em ranhura levam folga no fundo e não se colam. - Conta: furo 10 (+0,1/0), respiga 9,8 ± 0,05 → folga mínima 0,15 mm, máxima 0,35 mm: ajuste com folga.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar que este é um critério de desempenho central: simular ajustes e tolerâncias de acordo com as especificações técnicas. - Erro comum: modelar a respiga e o furo com a mesma cota nominal; a verificação não mostra nada e a folga fica por definir. - Exemplo: a segunda travessa a 90° colide com a primeira dentro do pé; só a deteção de interferências o apanha antes da oficina.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: este slide fecha o ciclo das duas realizações da UC, analisar e depois executar. - Erro comum: entregar um conjunto bonito sem os cortes e furos de pormenor que a oficina precisa. - Exercício de fecho: listar, de memória, as vistas e cotas mínimas de uma respiga com talão.