UC02088

Modelar peças e componentes com superfícies tridimensionais, para maquinagem CNC

Sketch, sólidos, superfícies e elementos facilitadores da maquinagem, em CAD-CAM

Curso profissional · 50h · Técnico de CNC em Madeira e Mobiliário

Plano

  1. Da peça à máquina: o papel do CAD-CAM
  2. Exequibilidade técnica da maquinagem CNC
  3. O ambiente gráfico do software de modelação
  4. Tipos de ficheiros de sólidos
  5. Arames, malhas e superfícies
  6. Eixos, coordenadas e planos
  7. A geometria-base: o sketch
  8. Sólidos por extrusão, rotação e varrimento
  9. Operações de subtração
  10. Bolear, chanfrar e perfilar
  11. Superfícies tridimensionais
  12. Componentes, conjuntos e isolamento
  13. Elementos facilitadores da maquinagem CNC
  14. Moldes e dispositivos de fixação
  15. Segurança, qualidade e fecho

Bloco 1 · Da peça à máquina

O papel do CAD-CAM na maquinagem CNC

Antes de uma peça chegar ao centro de trabalho CNC, passa por um modelo digital. É esse modelo, não o desenho em papel, que a máquina vai maquinar.

  • CAD (Computer Aided Design): modelação da peça em 3D.
  • CAM (Computer Aided Manufacturing): a partir do modelo, define trajetórias de ferramenta e gera o programa CNC.
  • O fluxo: desenho técnico → modelo 3D (CAD) → programação (CAM) → maquinagem (CNC).
  • Um modelo mal construído propaga erros até à peça final.

Onde entra esta UC no processo

Nesta UC o foco é a etapa CAD: construir modelos digitais de peças e componentes com superfícies tridimensionais, prontos para seguir para o CAM.

  • Ponto de partida: desenhos e especificações técnicas da peça a fabricar.
  • Ponto de chegada: um modelo 3D correto, com todos os elementos que a maquinagem CNC exige.
  • Pelo caminho: verificar a exequibilidade técnica e aplicar as ferramentas CAD-CAM certas.

O rigor do modelo determina a qualidade da peça maquinada.

Bloco 2 · Exequibilidade técnica

Ler o desenho e avaliar a exequibilidade

Antes de modelar, analisa-se o desenho técnico: cotas, tolerâncias, material, acabamentos e vistas. É aqui que se descobre se a peça é exequível em CNC.

  • Analisar desenhos e especificações técnicas da peça a fabricar.
  • Avaliar constrangimentos: geometrias impossíveis para a ferramenta, cavidades inacessíveis, espessuras insuficientes.
  • Desenvolver soluções para os constrangimentos encontrados, sem alterar a função da peça.
  • Verificar a exequibilidade técnica da maquinagem com CNC é uma das três realizações centrais da UC.

Constrangimentos típicos da maquinagem CNC

Constrangimento Problema Solução comum
Cantos interiores verticais vivos a fresa é redonda raio de canto igual ou um pouco maior que o raio da fresa
Contrassaídas (zonas por baixo de saliências) a ferramenta vertical de 3 eixos não lá chega 5 eixos, agregado, fresa especial ou dividir a peça
Cavidades mais fundas que o comprimento útil a fresa não chega ao fundo ou o suporte bate rever profundidade, maquinar por duas faces
Paredes muito finas vibração, quebra aumentar espessura ou reforçar
Peças muito pequenas pouca área para fixar pontes, maquinar dentro de um painel maior

Cada constrangimento identificado a tempo poupa retrabalho e material.

Superfícies 3D: fresa esférica e altura de crista

O acabamento de superfícies curvas faz-se com fresa esférica, em passagens paralelas. Entre passagens fica uma ondulação, a altura de crista h:

h = R - √(R² - (p/2)²) (R raio da esfera, p passo lateral)

  • Fresa de 12 mm (R = 6), passo 1 mm: h = 6 - √35,75 ≈ 0,021 mm.
  • Mesma fresa, passo 2 mm: h = 6 - √35 ≈ 0,084 mm (cerca de 4 vezes mais, em metade do tempo).
  • Uma concavidade com raio menor que o da esfera não pode ser copiada: fica com o raio da esfera.

Bloco 3 · O ambiente gráfico

O ambiente gráfico do software de modelação sólida

Todo o software de modelação sólida partilha uma estrutura semelhante, mesmo mudando o nome do programa.

  • Área de desenho: onde o modelo 3D é construído e visualizado.
  • Árvore de construção (feature tree): regista, por ordem, cada operação aplicada ao modelo.
  • Barras de ferramentas: comandos organizados por função (esboço, sólidos, superfícies).
  • Navegação 3D: rodar, aproximar e deslocar a vista sem alterar o modelo.

Organizar-se no software é a primeira aptidão a dominar.

Organizar as ferramentas de modelação

  • As ferramentas dividem-se por famílias: esboço, sólidos, superfícies, conjuntos.
  • Cada família tem os seus comandos próprios, agrupados num separador ou painel.
  • Organizar no software as ferramentas de modelação é uma aptidão avaliada: saber onde procurar cada comando.
  • Personalizar os painéis (mostrar só o que se usa) acelera o trabalho.

Um ambiente arrumado poupa tempo em modelos complexos.

Bloco 4 · Tipos de ficheiros

Tipos de ficheiros de sólidos

Um modelo 3D pode ser guardado em formatos diferentes, consoante o objetivo.

  • Ficheiros nativos: do próprio software (contêm a árvore de construção, editáveis).
  • Ficheiros neutros de troca: STEP (sólidos e superfícies exatos, formato normalizado) e IGES (mais antigo, sobretudo superfícies).
  • Ficheiros de malha: STL e OBJ, usados sobretudo em impressão 3D, visualização e relevos 3D em alguns CAM.
  • DXF: geometria sobretudo 2D, para contornos e furações.
  • Identificar corretamente o tipo de ficheiro evita perder informação ao exportar.

Escolher o ficheiro certo para cada etapa

Ficheiro Guarda Usar quando
Nativo (ex.: .sldprt) árvore de construção continuar a editar o modelo
STEP sólidos e superfícies exatos, sem histórico partilhar com outro CAD ou enviar ao CAM
IGES sobretudo superfícies, sem histórico trocar superfícies com sistemas mais antigos
STL malha triangulada, sem unidades impressão 3D, visualização, relevos em alguns CAM

O tipo de ficheiro escolhido depende do destino do modelo, não é uma opção indiferente.

Importar: unidades e escala

  • O STL não guarda unidades; outros formatos guardam, mas convém confirmar.
  • 1 polegada = 25,4 mm. Um tampo que aparece com 23,62 x 15,75 x 1,18 "mm" é, na verdade, 600 x 400 x 30 mm.
  • Regra: ao importar, mede sempre uma cota conhecida.
  • Depois, pôr a peça na posição de maquinagem: rodar (espessura segundo Z) e mover (canto de referência na origem).

Bloco 5 · Arames, malhas e superfícies

Os três modelos de representação de um sólido

Um objeto 3D pode ser descrito de três formas diferentes no computador.

  • Arame (wireframe): só arestas e vértices, sem faces; leve, mas ambíguo.
  • Malha (mesh): superfície aproximada por triângulos ou polígonos; boa para visualização e scanner 3D.
  • Superfície: face exata sem espessura (muitas vezes NURBS).
  • Sólido: superfícies exatas fechadas que delimitam um volume; o modelo certo para maquinar com rigor.

Distinguir modelos de arames, malhas e superfícies de sólidos é uma aptidão explícita do referencial.

Quando usar cada modelo

  • Arame: esboços rápidos, referência geométrica auxiliar.
  • Malha: ficheiros vindos de scanner 3D, pré-visualização, relevos em alguns CAM (aceitando a aproximação).
  • Sólido/superfície: o modelo final para maquinar, com precisão dimensional garantida.

Nesta UC, o modelo entregue ao CAM é sempre sólido com superfícies bem definidas.

Bloco 6 · Eixos, coordenadas e planos

Eixos e coordenadas do espaço de modelação

Todo o espaço 3D do software assenta num sistema de eixos X, Y e Z, com origem no ponto (0, 0, 0).

  • Identificar eixos e coordenadas do espaço de modelação orienta qualquer operação.
  • Cada ponto do modelo tem uma posição única (x, y, z) relativa à origem.
  • Trabalhar com coordenadas conhecidas evita geometria "à vista".

A origem e os eixos são a referência fixa de todo o modelo.

Z no CAD e Z na máquina

  • Sistema cartesiano de mão direita: polegar X, indicador Y, médio Z.
  • Na CNC, Z é o eixo da ferramenta: vertical nos centros de mobiliário, Z positivo a afastar-se da peça.
  • No CAD, o "para cima" pode ser Y ou Z, conforme o programa.
  • Ao passar para o CAM: espessura segundo Z, face a maquinar virada para Z positivo, origem de peça num ponto fácil de encontrar na máquina.

Planos predefinidos e planos auxiliares

  • Planos predefinidos do espaço de modelação: normalmente três, perpendiculares entre si, cruzando-se na origem.
  • Identificar os planos predefinidos é o ponto de partida para qualquer esboço.
  • Criar planos auxiliares: quando nenhum plano predefinido serve, por exemplo numa face inclinada.
  • Selecionar planos de modelação adequados a cada operação é uma aptidão avaliada.

Escolher bem o plano evita retrabalho no esboço seguinte.

Bloco 7 · A geometria-base

O sketch: geometria-base de uma peça

O sketch (esboço 2D) é a geometria-base de uma peça: um conjunto de linhas, arcos e curvas desenhado sobre um plano, que depois dá origem a um sólido.

  • Executar a geometria-base de uma peça (sketch) é o primeiro passo prático de qualquer modelo.
  • Elementos comuns: linha, retângulo, círculo, arco, spline.
  • Restrições geométricas: paralelismo, perpendicularidade, coincidência, simetria.
  • Cotas: fixam as dimensões exatas do esboço.

Boas práticas no sketch

  • Usar restrições, não só arrastar geometria "a olho".
  • Cotar o essencial: dimensões que vêm do desenho técnico da peça.
  • Manter o sketch simples: geometria complexa a mais dificulta a edição futura.
  • Verificar se o esboço está fechado, quando a operação seguinte (ex.: extrusão) o exige.

Um bom sketch é a base de um modelo fácil de corrigir mais tarde.

Bloco 8 · Sólidos por extrusão, rotação e varrimento

Criar um sólido por extrusão ou rotação

A partir do sketch, criam-se sólidos com operações de adição de material.

  • Extrusão: o sketch "cresce" em linha reta ao longo de uma direção e distância.
  • Rotação: o sketch roda em torno de um eixo, gerando peças de simetria circular.
  • Ambas exigem um sketch fechado e uma direção ou eixo bem definidos.

Criar um sólido por extrusão, rotação ou varrimento é uma aptidão central do referencial.

Sólidos por varrimento (sweep)

  • O varrimento faz um perfil (sketch) percorrer uma trajetória, gerando um sólido de secção constante ou variável.
  • Útil para molduras, perfis de guarnição e peças com percurso curvo.
  • Exige dois elementos: o perfil a varrer e a trajetória a seguir.
  • Combina-se muitas vezes com as outras operações no mesmo modelo.

Sólidos por loft (secções)

  • O loft cria um sólido que passa por várias secções diferentes, em planos diferentes.
  • Exemplo: pé de cadeira que passa de um quadrado de 40 x 40 mm no topo para um círculo de 25 mm na base.
  • Se a transição torcer, alinham-se os pontos de ligação ou acrescentam-se curvas-guia.
  • Extrusão, rotação, varrimento e loft cobrem a maioria das peças de mobiliário.

Bloco 9 · Operações de subtração

Aplicar operações de subtração

Depois de criado o sólido base, removem-se volumes para gerar furos, rasgos e cavidades.

  • Aplicar operações de subtração retira material a partir de um novo sketch ou de um volume auxiliar.
  • Casos típicos: furos passantes, rasgos de encaixe, cavidades de alojamento.
  • A subtração usa a mesma lógica da extrusão, mas em sentido inverso: remove em vez de adicionar.

Cada subtração fica registada na árvore de construção, e pode ser editada depois.

Planear a sequência de operações

  • A ordem das operações (extrudir, subtrair, chanfrar) altera o resultado final.
  • Discriminar as operações e a sua sequência para criar e manipular componentes e superfícies tridimensionais é uma aptidão avaliada.
  • Boa prática: deixar acabamentos (boleados, chanfros) para o fim da árvore de construção.
  • Rever a árvore de construção permite perceber, e corrigir, cada passo do raciocínio de modelação.

Bloco 10 · Bolear, chanfrar e perfilar

Aplicar operações de bolear, chanfrar e perfilar

Estas operações trabalham as arestas e os contornos do sólido, sem alterar a sua forma geral.

  • Bolear (fillet): arredonda uma aresta com um raio definido.
  • Chanfrar (chamfer): corta a aresta num ângulo, criando uma face plana inclinada.
  • Perfilar: aplica um perfil decorativo ou funcional a um contorno (comum em mobiliário).

Atenção: o raio num canto interior vertical é um elemento facilitador; o boleado de uma aresta exterior acrescenta uma operação e exige uma fresa de perfil com esse raio.

Onde aplicar cada acabamento

Operação Efeito Uso típico em mobiliário
Bolear aresta arredondada cantos de tampos, pegas, bordas de segurança
Chanfrar face inclinada plana quebrar aresta viva, guiar encaixes
Perfilar contorno decorativo molduras, rebordos, frisos

Estes acabamentos ficam quase sempre para o fim da modelação, depois do sólido estar definido.

Bloco 11 · Superfícies tridimensionais

Criar e manipular superfícies 3D

Quando a forma da peça não se obtém por extrusão, rotação ou varrimento simples, recorre-se a superfícies.

  • Uma superfície define uma face sem espessura; várias superfícies podem depois fechar-se num sólido.
  • Criar e manipular superfícies 3D é necessário para formas orgânicas ou curvas complexas.
  • Manipular: aparar, prolongar, coser (fechar em sólido), espessar, desfasar.
  • Ferramentas comuns: superfície por perfis (loft), por varrimento, por preenchimento de um contorno.

Do sólido às superfícies tridimensionais

  • Componentes e superfícies tridimensionais com software CAD-CAM juntam-se para peças de geometria complexa.
  • Uma superfície pode cortar ou substituir uma face de um sólido existente.
  • Depois de fechadas, as superfícies convertem-se em sólido, pronto para as etapas seguintes.
  • Verificar sempre a continuidade entre superfícies adjacentes, para não deixar arestas soltas.

Continuidade entre superfícies

Nível O que garante Aspeto
G0 (posição) as superfícies tocam-se vinco visível
G1 (tangência) mesma direção na junção suave, o reflexo quebra
G2 (curvatura) mesma curvatura perfeitamente fluido
  • G1 chega na maioria das peças lixadas; G2 pede-se em lacados de alto brilho.
  • Análise zebra e análise de curvatura mostram as junções no ecrã.

Bloco 12 · Componentes, conjuntos e isolamento

Importar e posicionar componentes num conjunto

Peças de mobiliário raramente existem isoladas: fazem parte de um conjunto (assembly).

  • Importar para o ambiente CAD-CAM e posicionar componentes e conjuntos de sólidos e superfícies.
  • Cada componente entra no conjunto com a sua posição e orientação relativa aos outros.
  • Relações de posicionamento (coincidência, distância, ângulo) mantêm o conjunto coerente se algo mudar.

Isolar ou separar um componente

  • Isolar ou separar um componente de um conjunto permite trabalhar nele sem a interferência visual dos restantes.
  • Útil para aplicar operações adicionais só a essa peça, antes de a devolver ao conjunto.
  • Desenvolver componentes por manipulação de sólidos e superfícies tridimensionais aplica-se tanto à peça isolada como ao conjunto completo.

Isolar não é apagar: a peça mantém a sua posição quando volta a ser mostrada no conjunto.

Manipular geometrias 3D

Transformação Exemplo
Mover encostar uma peça importada à origem
Rodar deitar a peça para a espessura ficar segundo Z
Espelhar lateral esquerda a partir da direita
Matriz linear / circular furos de 32 em 32 mm; ranhuras à volta de uma tampa
Escala corrigir um ficheiro em polegadas (fator 25,4)
Alinhar pôr o bloco de material sobre o plano da mesa

Bloco 13 · Elementos facilitadores da maquinagem CNC

Integrar elementos facilitadores da maquinagem

Um modelo tecnicamente correto pode ainda assim ser difícil, ou impossível, de maquinar. É por isso que se integram elementos facilitadores logo na modelação.

  • Raios de canto interior iguais ou maiores que o raio da ferramenta disponível.
  • Espessuras mínimas que resistam às forças de corte sem vibrar ou partir.
  • Sobrematerial e zonas de fixação a eliminar depois; pontes em peças pequenas.
  • Furos de referência e faces planas de apoio para fixar e virar a peça.
  • Raios e ângulos de arestas iguais às fresas de perfil existentes.

Integrar na modelação elementos facilitadores é uma das três realizações centrais da UC.

Soluções para constrangimentos da peça

  • Quando um canto vivo é inevitável no desenho, propor um raio mínimo compatível com a ferramenta, e validar com quem projetou a peça.
  • Dividir uma peça complexa em componentes maquináveis separadamente, e montá-los depois.
  • Prever sobre-espessura em zonas a acabar manualmente, quando a CNC não alcança o detalhe final.
  • Documentar cada solução aplicada, para que a decisão fique registada e possa ser revista.

Volume de trabalho e origem de peça

  • O volume de trabalho é o sólido do material em bruto: o CAM precisa dele para saber quanto remover.
  • Exemplo: assento 400 x 350 x 40 mm, 5 mm por lado e maciço desengrossado a 42 mm: bloco de 410 x 360 x 42 mm.
  • A origem de peça fica num ponto que o operador encontra na máquina: canto do bloco, furo de referência, batente.
  • Modelo, volume de trabalho e CAM têm de partilhar a mesma origem.

Pontes e furos de referência

  • Pontes (tabs): pequenas ligações que seguram peças pequenas ao painel no corte de contorno; lixam-se no fim, em arestas retas.
  • Furos de referência: dois furos simétricos fora da peça, com pinos na base, permitem virar o bloco e maquinar a outra face na mesma posição.
  • Faces planas de apoio e zonas de fixação a eliminar depois.

Bloco 14 · Moldes e dispositivos de fixação

Moldes para fixação dos componentes a maquinar

A peça tem de ficar imóvel durante a maquinagem CNC. Isso exige um molde, ou dispositivo, de fixação pensado desde a modelação.

  • Desenvolver moldes para fixação dos componentes a maquinar é uma aptidão do referencial.
  • O molde tem de segurar a peça sem interferir com a zona a maquinar.
  • Considerar pontos de apoio, grampos ou vácuo, consoante o material e a geometria.

Fixação e geometria da peça

  • Peças com superfícies curvas exigem moldes com apoios adaptados à forma, não apoios planos genéricos.
  • Deixar, sempre que possível, margens de aperto fora da zona útil da peça.
  • Verificar que o molde não colide com o percurso previsto da ferramenta.
  • Um bom dispositivo de fixação reduz vibração e melhora o acabamento final.

Força de fixação por vácuo

F = Δp x A (Δp em Pa, A em m², F em N)

  • Ventosa 120 x 120 mm, 0,8 bar (80 000 Pa): 80 000 x 0,0144 = 1152 N teóricos.
  • Peça de 80 x 60 mm (0,0048 m²) com a mesma depressão: 384 N, três vezes menos.
  • A força real é menor (fugas, porosidade); peças pequenas têm pouca área e pouca força.
  • Peça curva: berço (molde negativo) em MDF, obtido por subtração da peça ou de uma superfície desfasada, com batentes ou pinos.

Bloco 15 · Segurança, qualidade e fecho

Segurança e normas de qualidade

A modelação para CNC não dispensa as regras de segurança e de qualidade que atravessam todo o curso.

  • Equipamentos de proteção individual (EPI): usar sempre os adequados à oficina e à máquina.
  • Normas de segurança e saúde no trabalho: aplicam-se também ao trabalho ao computador e à preparação de fixações.
  • Normas da qualidade: o modelo é o primeiro ponto de controlo de qualidade da peça final.
  • Atitudes da UC: responsabilidade, autonomia, organização, sentido crítico, respeito pelas normas.

Segurança junto da CNC

  • Máquinas: requisitos mínimos do DL 50/2005 (equipamentos de trabalho); Diretiva Máquinas transposta pelo DL 103/2008; o Regulamento (UE) 2023/1230 aplica-se a partir de 20 de janeiro de 2027.
  • Proteções: tapetes e barreiras, cortinas de luz, paragem de emergência; nunca entrar na área de trabalho com a máquina em ciclo.
  • Pó de madeira dura: cancerígeno; valor-limite de 2 mg/m³ desde janeiro de 2023 (Diretiva (UE) 2017/2398, DL 35/2020). Captação na origem e FFP2/FFP3.
  • Ferramentas com a rotação máxima marcada (EN 847-1). Sem adornos nem roupa larga junto de ferramentas em rotação.

Do modelo à peça: o fecho do processo

  • Fluxo completo: ler o desenho → avaliar exequibilidade → modelar com sketch, sólidos e superfícies → integrar elementos facilitadores → prever a fixação → seguir para o CAM.
  • Cada etapa depende da anterior estar correta; corrigir no fim custa mais do que corrigir a tempo.
  • O modelo digital com superfícies tridimensionais é o entregável central desta UC.

Um modelo bem feito é a diferença entre uma peça maquinada à primeira e uma peça reprogramada várias vezes.

Recapitulando

  • O fluxo CAD → CAM → CNC começa no modelo digital; nesta UC constrói-se a etapa CAD.
  • Exequibilidade técnica avalia-se antes de modelar; elementos facilitadores integram-se durante a modelação.
  • Ambiente gráfico, tipos de ficheiro, arames/malhas/superfícies, eixos e planos: a base do software.
  • Sketch → sólidos (extrusão, rotação, varrimento) → subtração → bolear/chanfrar → superfícies.
  • Conjuntos, isolamento de componentes e moldes de fixação fecham o modelo, pronto para maquinar.

Próximo: fichas e projeto, modelar uma peça completa para maquinagem CNC.

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: o modelo 3D é o elo entre o projeto e a máquina, não um desenho bonito - erro comum: pensar que o CAM "arranja" um modelo mal feito; não arranja - exemplo: comparar um modelo 2D técnico (cotas) com o modelo 3D sólido que se vai maquinar

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar a ligação direta ao referencial: as três realizações da UC (verificar exequibilidade, integrar elementos facilitadores, aplicar CAD-CAM) organizam todo o programa - pergunta: o que acontece a uma peça se o modelo tiver uma cota errada? - analogia: o modelo 3D é a "receita" que a máquina segue à letra

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: exequibilidade avalia-se antes de modelar, não depois de a peça falhar na máquina - erro comum: modelar tudo à letra do desenho sem confirmar se a ferramenta consegue lá chegar - exemplo: um canto interior perfeitamente vivo (90 graus) não existe numa peça fresada, porque a fresa é redonda

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que esta tabela é ponto de partida, não lista fechada; cada peça tem os seus constrangimentos - erro comum: só perceber o problema depois de a peça estar programada no CAM - pergunta: que outras limitações físicas tem uma fresa, além do raio? (comprimento útil, flexão das fresas longas e finas, forma da ponta) - lembrar que o problema do raio é dos cantos interiores verticais; o canto entre parede e fundo depende da ponta da fresa (plana, esférica, tórica)

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: quem modela decide o custo em tempo de máquina; superfícies grandes e curvaturas apertadas pedem passos pequenos - refazer a conta no quadro com a turma, passo a passo - erro comum: desenhar uma concavidade com raio de 3 mm para acabar com uma esférica de 12 mm

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar a árvore de construção: é o histórico editável do modelo, cada passo pode ser revisto depois - erro comum: confundir rodar a vista com rodar a peça; a vista muda, o modelo não - exemplo: mostrar a árvore de construção a crescer enquanto se aplicam operações

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que a organização do ambiente é uma competência transferível entre programas - erro comum: procurar um comando por tentativa, sem conhecer a família a que pertence - exercício rápido: pedir à turma para localizar o comando de extrusão e o de chanfro

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: só o ficheiro nativo mantém a árvore de construção editável; os neutros são geometria "congelada" - erro comum: exportar para STL e depois tentar editar features que já não existem no ficheiro - pergunta: porque é que se envia STEP a um fornecedor, e não o ficheiro nativo?

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que o CAM lê muitas vezes STEP ou STL a partir do CAD; confirmar o formato pedido antes de exportar - erro comum: enviar o ficheiro nativo a quem não tem o mesmo software instalado - exemplo: mostrar o mesmo sólido exportado em STEP e em STL e comparar

NOTAS DO PROFESSOR - exercício rápido: 31,50 x 19,69 x 0,98 em polegadas; pedir as medidas em mm (800 x 500 x 25) - erro comum: escalar "a olho" até parecer bem, em vez de aplicar o fator 25,4 - ligar ao bloco 6: orientação da peça e origem

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: a maquinagem CNC de precisão parte de geometria de sólido, não de arame - erro comum: confundir "malha" com "superfície"; a malha é uma aproximação poligonal, a superfície é exata - analogia: o arame é o "esqueleto", a malha é uma "pele em facetas", a superfície de sólido é a "pele exata"

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que um modelo de malha não tem a precisão dimensional de um sólido paramétrico - erro comum: aceitar um ficheiro de malha como se fosse editável como um sólido - exercício rápido: mostrar o mesmo objeto em arame, malha e sólido, lado a lado

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que mudar a origem do modelo depois de o construir pode desalinhar tudo o que vier a seguir, incluindo o CAM - erro comum: desenhar sem olhar para os eixos e perder a noção da orientação da peça - exemplo: mostrar a tríade XYZ no canto do ecrã e pedir para identificar cada eixo

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: modelar a peça já deitada, como vai ficar na mesa, poupa confusões - demonstrar a regra da mão direita com a turma - exemplo: coordenadas de uma fila de furos a 37 mm da frente, de 32 em 32 mm (37,96), (37,128), (37,160)...

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que um plano auxiliar pode ser criado a partir de uma face, uma aresta ou um ângulo - erro comum: esboçar no plano errado e só perceber o erro depois de extrudir - exercício rápido: identificar, num modelo simples, em que plano foi feito cada esboço

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: um sketch "totalmente definido" (sem graus de liberdade soltos) é o objetivo; o software costuma sinalizar a cor - erro comum: extrudir um sketch subdefinido, que se deforma se algo mudar a montante - analogia: o sketch é a "planta" 2D antes de erguer a "construção" 3D

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que corrigir um sketch bem construído propaga a correção a todo o modelo automaticamente - erro comum: sketch com contornos abertos, que impede a extrusão de um sólido fechado - exercício rápido: identificar, num sketch com erro, a linha que falta para o fechar

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar a lógica: extrusão para formas prismáticas, rotação para formas de revolução (pernas torneadas, por exemplo) - erro comum: escolher a direção errada da extrusão e obter o sólido do lado oposto ao pretendido - exemplo: modelar um pé de mesa cilíndrico por rotação de um perfil - exequibilidade: um pé de revolução completo não se maquina numa CNC de 3 eixos numa só fixação; torno, eixo rotativo ou duas metades

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar a diferença de propósito: extrusão para retas, rotação para revoluções, varrimento para trajetórias curvas - erro comum: trajetória com descontinuidades, que gera um sólido com falhas - exemplo: uma moldura decorativa de mobiliário, com perfil constante ao longo de um contorno

NOTAS DO PROFESSOR - demonstrar: plano auxiliar a 450 mm, dois sketches, loft - erro comum: secções com número de vértices muito diferente sem pontos de ligação, dando uma superfície torcida - ligar ao bloco 11: o loft também existe como superfície

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que a profundidade da subtração tem de respeitar a espessura da peça, sob risco de a perfurar sem querer - erro comum: subtrair na direção errada e esvaziar o sólido todo - exemplo: modelar o rasgo de um encaixe de cauda de andorinha por subtração, e discutir a exequibilidade: é uma contrassaída, só se faz com fresa em cauda de andorinha, com o ângulo dessa fresa

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que "pensar a sequência" antes de modelar poupa reconstruções inteiras - erro comum: chanfrar uma aresta e só depois subtrair um furo que a atravessa, obrigando a refazer o chanfro - pergunta: porque se deixam os boleados e chanfros quase sempre para as últimas operações?

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar a diferença: raio de canto interior (facilitador, feito pela própria fresa de topo) versus boleado de aresta exterior (operação extra, fresa de boleado com o raio exato ou acabamento 3D) - erro comum: desenhar um raio de canto interior menor que o raio da fresa, ou um boleado exterior com um raio para o qual não há fresa de perfil - exemplo: comparar visualmente um canto vivo e o mesmo canto boleado ao raio da fresa

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que estas operações têm impacto direto na segurança do utilizador final da peça (arestas vivas cortam) - erro comum: aplicar um chanfro antes de a geometria estar estável, obrigando a repeti-lo várias vezes - exercício rápido: identificar num móvel real onde foram usados boleados, chanfros e perfis

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que superfícies e sólidos coexistem no mesmo modelo: usam-se superfícies para o que os sólidos simples não conseguem - erro comum: deixar buracos entre superfícies e não conseguir depois converter em sólido fechado - exemplo: um tampo com uma face curva que não é nem plana nem cilíndrica

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar o critério de desempenho "desenvolver os modelos digitais com superfícies tridimensionais"; é central à UC - erro comum: assumir que duas superfícies estão coincidentes sem verificar a continuidade - pergunta: que tipo de peça de mobiliário exige mesmo superfícies em vez de sólidos simples?

NOTAS DO PROFESSOR - mostrar a análise zebra num assento com concavidade - erro comum: juntar superfícies só em G0 e ver o vinco depois de lacar - exemplo resolvido na sebenta: assento de 400 x 350 x 40 com concavidade de 12 mm, espessura mínima 28 mm

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que um conjunto bem posicionado permite detetar colisões entre peças antes de fabricar - erro comum: posicionar componentes "a olho", sem relações, o que os desalinha à mínima alteração - exemplo: um conjunto de gaveta com corpo, frente e calhas posicionados uns em relação aos outros

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que isolar um componente é reversível e não altera o ficheiro do conjunto - erro comum: editar geometria de um componente isolado sem confirmar depois o efeito no conjunto todo - exercício rápido: isolar uma peça de um conjunto simples, aplicar um chanfro e voltar a mostrar o conjunto

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: matrizes e espelhos poupam trabalho e garantem simetria exata - exercício rápido: fila de 5 furos por matriz linear - erro comum: copiar e colar "a olho" em vez de usar matriz

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que este bloco fecha o ciclo com o Bloco 2: exequibilidade avalia-se antes, elementos facilitadores aplicam-se durante a modelação - erro comum: só pensar nos elementos facilitadores depois de o modelo estar "pronto" - exemplo: comparar dois cantos interiores no mesmo modelo, um com raio suficiente e outro sem, e discutir qual falha no CAM

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que "desenvolver soluções para os constrangimentos" é uma aptidão avaliada, não uma opção - erro comum: alterar a peça sem comunicar a alteração a quem a projetou ou a quem vai maquinar - pergunta: que outras soluções existem quando um canto interior não pode ter o raio da ferramenta?

NOTAS DO PROFESSOR - refazer a conta: 400 + 2 x 5 = 410; 350 + 2 x 5 = 360 - "criar volumes de trabalho" é uma aptidão do referencial; não é tarefa só do CAM - erro comum: bloco modelado desalinhado da peça, com a origem num ponto que não existe na peça real

NOTAS DO PROFESSOR - exemplo: tábua de servir com concavidade de um lado e pega do outro, virada sobre dois pinos - erro comum: pontes em zonas curvas à vista, difíceis de lixar - ligar ao bloco 14: pontes e furos de referência são parte da fixação

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que a fixação é parte do modelo, não um detalhe de oficina resolvido no momento - erro comum: desenhar a peça sem deixar zonas livres para os grampos de fixação - exemplo: um molde simples com batentes e grampos para uma peça plana

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar a ligação entre fixação e qualidade do acabamento: uma peça que vibra não sai com o acabamento previsto - erro comum: esquecer o molde na fase de modelação e só o resolver já no chão de fábrica - pergunta: como se fixaria uma peça com uma face toda curva, sem apoios planos disponíveis?

NOTAS DO PROFESSOR - refazer a conta com a turma, com atenção às unidades (mm² para m²) - erro comum: esquecer que a ventosa só segura numa zona plana da peça - pergunta: como seguras vinte peças pequenas cortadas de um painel? (pontes)

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que segurança e qualidade não são um capítulo à parte, atravessam todo o processo desde o desenho até à peça - erro comum: tratar as normas como burocracia e não como parte do trabalho técnico - pergunta: em que momento da modelação já se está a decidir a qualidade da peça final?

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar: um molde mal pensado é um risco de projeção; a fixação é uma questão de segurança - o MDF maquinado em 3D produz muito pó fino - ligar à qualidade: modelo com nome, versão e lista de controlo antes de ir para o CAM

NOTAS DO PROFESSOR - enfatizar que este slide recapitula o fluxo completo antes do fecho da apresentação - erro comum: tratar cada bloco da UC como independente, sem ver a sequência lógica entre eles - anunciar as fichas e o projeto: modelar uma peça completa de raiz, da exequibilidade à fixação