UC02080

Conceber programas CNC para a maquinagem de peças de mobiliário e carpintaria

Algoritmo e programa, eixos e coordenadas, código ISO, ferramentas e compensação, tabela de pontos e simulação para peças planas

Curso profissional · 50h · Técnico/a de CNC em Madeira e Mobiliário

Plano

  1. Da peça ao programa CNC
  2. Sistema de eixos e coordenadas
  3. Coordenadas absolutas e incrementais
  4. Planos de trabalho-maquinagem
  5. Preparar o programa: etapas e procedimentos
  6. Ferramentas e parâmetros de corte
  7. Dimensões das ferramentas e compensação
  8. Estrutura do programa e do bloco
  9. Sistema ISO: códigos G e M, arcos
  10. Controladores e sistemas de fabricante
  11. Instruções para as etapas de maquinagem
  12. Pontos notáveis e tabela de pontos
  13. Sequência de operações e programa completo
  14. Simulação e deteção de erros
  15. Segurança, qualidade e fecho

Bloco 1 · Da peça ao programa CNC

Algoritmo e programa

  • Algoritmo: sequência finita e ordenada de passos, sem ambiguidades, que resolve um problema. Tem ordem, precisão e fim.
  • Programa: o algoritmo escrito numa linguagem que uma máquina interpreta e executa.
  • Programa CNC: o algoritmo de maquinagem de uma peça escrito na linguagem do comando numérico, lido bloco a bloco.

A máquina faz exatamente o que o programa diz, nem mais, nem menos: o algoritmo tem de estar certo antes da primeira linha de código.

Exemplo: do algoritmo ao programa

Furo de Ø 5 mm x 12 mm em X50 Y37, Z0 na face superior:

N10 G90 G17          (absolutas, plano XY)
N20 T1 M06           (broca de 5 mm)
N30 S4500 M03        (rotação, sentido horário)
N40 G00 Z20          (altura segura)
N50 G00 X50 Y37      (por cima do furo)
N60 G00 Z2           (aproximação)
N70 G01 Z-12 F1500   (furação em avanço)
N80 G00 Z20          (saída em rápido)
N90 M05
N100 M30

Cada passo do algoritmo ("sobe", "posiciona", "aproxima", "fura", "sai") deu um ou dois blocos.

Do desenho à peça maquinada

  1. Definir geometrias, medidas e especificações técnicas da peça.
  2. Preparar: zero peça, tabela de pontos, ferramentas, sequência.
  3. Escrever o programa CNC.
  4. Simular para detetar erros antes de maquinar.
  5. Aplicar o programa na máquina e verificar o resultado.

Máquinas: fresadoras de mesa plana (nesting), multifuradoras e centros de trabalho multifunções.

Bloco 2 · Sistema de eixos e coordenadas

O sistema de eixos (ISO 841)

Sistema cartesiano de mão direita: polegar X+, indicador Y+, médio Z+.

  • Z: eixo da ferramenta (vertical nas fresadoras e centros de mobiliário). Z positivo afasta a ferramenta da peça.
  • X: em regra o eixo de maior curso, ao longo do comprimento da mesa.
  • Y: completa o triedro, ao longo da largura da mesa.
  • A, B, C: eixos rotativos em torno de X, Y e Z (cabeças de 5 eixos).

O sentido dos eixos é o do movimento da ferramenta em relação à peça.

Zero máquina e zero peça

  • Zero máquina: origem fixa do sistema de medida, definida pelo fabricante.
  • Zero peça: origem do programa, escolhida pelo programador (um canto ou o centro).
  • A distância entre os dois fica no comando como origem de peça (G54 nos comandos ISO; batentes nos centros de mobiliário).
  • Z0: na face superior (profundidades negativas) ou na face inferior/mesa. A convenção escreve-se no cabeçalho.

Zero físico diferente do programado: toda a maquinagem sai deslocada.

Bloco 3 · Coordenadas absolutas e incrementais

Coordenadas absolutas (G90)

Cada posição refere-se sempre ao zero peça.

  • O bloco indica o ponto de chegada, venha a ferramenta de onde vier.
  • Um erro numa linha não se propaga às seguintes.
  • As coordenadas leem-se diretamente do desenho cotado a partir da origem.
  • É o modo mais usado em peças planas.

X100 Y50 significa sempre "vai para o ponto 100, 50 da peça".

Coordenadas incrementais (G91)

Cada posição refere-se à posição anterior da ferramenta; Z também.

Absolutas (G90) Incrementais (G91)
Referência zero peça posição anterior
Erros não se propagam propagam-se
Uso típico peça em geral padrões repetidos

Três furos com passo de 32 mm a partir de X100: G90 → X100, X132, X164; G91 → (X100 em G90), X32, X32. Num contorno fechado, a soma dos incrementos é zero.

Bloco 4 · Planos de trabalho-maquinagem

Planos de trabalho: G17, G18, G19

O plano de trabalho é o plano da interpolação circular e da compensação de raio; o eixo perpendicular é o da ferramenta.

Código Plano Eixo da ferramenta Uso
G17 XY Z face superior: furos, ranhuras, recortes
G18 XZ Y faces laterais paralelas a X
G19 YZ X faces laterais paralelas a Y

O sentido de G02/G03 vê-se do lado positivo do eixo perpendicular: em G17, olhando de cima.

Faces da peça nos centros de trabalho

  • A face superior trabalha-se com a árvore vertical (G17).
  • Topos e bordos: unidades de furação horizontais, agregados a 90 graus ou cabeças de 5 eixos.
  • Nos softwares de fabricante, escolhe-se a face da peça e o software trata do plano.

A maioria das operações desta UC decorre no plano XY, com Z a controlar a profundidade.

Bloco 5 · Preparar o programa: etapas e procedimentos

Etapas de elaboração e organização da informação

  1. Analisar o desenho e as especificações (medidas, material, orlas, tolerâncias).
  2. Definir zero peça, convenção de Z e face de referência.
  3. Identificar pontos notáveis e montar a tabela de pontos.
  4. Escolher ferramentas e parâmetros de corte.
  5. Definir a sequência de operações.
  6. Escrever o programa, com comentários.
  7. Simular, ensaiar, verificar a primeira peça.

Documentos: desenho com versão, folha de preparação, tabela de pontos, tabela de ferramentas, programa com versão.

Procedimentos preparatórios à maquinação

  • Bruto com as medidas e o material da folha de preparação.
  • Ferramentas nas posições certas, em bom estado, com comprimento e diâmetro medidos e registados.
  • Rotação programada abaixo da máxima gravada em cada ferramenta.
  • Ventosas no sítio previsto, fora dos percursos da ferramenta; vácuo suficiente.
  • Zero peça físico igual ao do programa.
  • Aspiração ligada, EPI em uso, programa simulado.

Fixação por vácuo: F = Δp × A

Ventosa de 120 x 120 mm, depressão de 0,8 bar:

  • 0,8 bar = 80 000 Pa = 0,08 N/mm²
  • A = 120 x 120 = 14 400 mm²
  • F = 0,08 x 14 400 = 1152 N (cerca de 1150 N teóricos)

Peça pequena com ventosa de 50 x 50 mm: 0,08 x 2500 = 200 N, quase seis vezes menos. Peças pequenas pedem passagens mais leves ou pontes até ao fim.

Bloco 6 · Ferramentas e parâmetros de corte

Ferramentas para a maquinagem com CNC

Ferramenta Aplicação
Broca de ponta de centrar furos cegos de face (sistema, cavilhas, ferragens)
Broca de ponta cónica furos passantes
Broca de dobradiça (Ø 35 mm, a mais corrente) caixas de dobradiças de copa
Fresa de haste (reta ou helicoidal) contornos, ranhuras, rebaixos, caixas
Fresa de perfilar molduras, arredondados, chanfros
Disco de serra (agregado) cortes retos e ranhuras estreitas

A escolha faz-se no catálogo do fabricante da ferramenta.

Fresas helicoidais e materiais do cortante

  • Ascendente: sobe a apara, boa evacuação; pode lascar a face de cima.
  • Descendente: bom acabamento em cima; pode lascar em baixo.
  • Compressão: ascendente em baixo e descendente em cima; melamínico de duas faces.
  • HSS (aço rápido), HM (metal duro, a escolha corrente em painéis), PCD (diamante policristalino, grande duração em aglomerado e MDF melamínicos).

Cada ferramenta traz gravada a rotação máxima (n max, EN 847-1): nunca se excede.

Velocidade de corte e avanço por dente

  • vc (m/s) = π × D × n / 60 000 (D em mm, n em rpm)
  • fz (mm) = F / (n × z) e F = fz × n × z (F em mm/min)

Exemplos: Ø 12 mm a 18 000 rpm → vc = 11,3 m/s. F = 10 m/min, n = 18 000, z = 2 → fz = 10 000 / 36 000 = 0,28 mm.

fz baixo demais: a madeira queima e a ferramenta gasta-se. fz alto demais: arranque de fibras, vibração, risco de partir.

Bloco 7 · Dimensões das ferramentas e compensação

Dimensões e compensação do comprimento

Na tabela de ferramentas do comando: diâmetro, comprimento, comprimento útil de corte, rotação máxima.

  • Medem-se no banco de pré-ajuste ou com apalpador.
  • Compensação do comprimento: Z-12 é "ponta 12 mm abaixo de Z0" para qualquer ferramenta. ISO: G43 (com o corretor) e G49; em muitos centros de mobiliário é automática com T.
  • Comprimento registado 2 mm a mais: furos 2 mm menos fundos; 2 mm a menos: 2 mm mais fundos.

Compensação do raio: G40, G41, G42

  • G41: ferramenta à esquerda do percurso; G42: à direita; G40: anulada.
  • Programa-se o contorno da peça, não o centro da fresa.
  • Ativa-se e anula-se num movimento linear, fora da peça, maior do que o raio.
  • Com M03, contorno exterior no sentido horário com G41 = fresagem concordante.
  • Ranhura com largura igual ao diâmetro: G40 e programa-se o eixo da ranhura.

Exemplo: fresa montada diferente da tabela

Contorno exterior de 200 x 100 mm; na tabela está Ø 6 (raio 3), foi montada Ø 8 (raio 4).

  1. O comando afasta o centro 3 mm do contorno.
  2. A fresa corta 1 mm para dentro do contorno, em todos os lados.
  3. A peça sai com 198 x 98 mm, mais pequena.

Numa caixa interior, a caixa sairia 2 mm maior em cada dimensão.

Bloco 8 · Estrutura do programa e do bloco

As partes de um programa CNC

  1. Cabeçalho: nome, peça, versão, convenção de Z; G90 G17 G54 G40.
  2. Chamada de ferramenta: T + M06.
  3. Rotação: S + M03.
  4. Aproximação: altura segura, posicionamento em rápido, descida até perto da peça.
  5. Maquinagem: movimentos de corte em avanço.
  6. Afastamento: saída em rápido até à altura segura.
  7. Fim: M05, M30.

Os passos 2 a 6 repetem-se para cada ferramenta.

Estrutura de um bloco (ISO 6983)

N40 G01 X50 Y30 Z-5 F3000
Palavra Significado
N número do bloco (de 10 em 10)
G função preparatória
X Y Z ponto de chegada
I J / R centro ou raio de um arco
F avanço (mm/min)
S rotação (rpm)
T ferramenta
M função auxiliar

Comentários entre parênteses.

Instruções modais e não modais

  • Modais: ficam ativas até outra do mesmo grupo: G00/G01/G02/G03, G17/G18/G19, G90/G91, G40/G41/G42, F, S.
  • Não modais: só no bloco em que aparecem: G04 (pausa), M06 (troca).
N20 G00 X100 Y50
N30 Z2               (ainda G00: rápido)
N40 G01 Z-5 F1500
N50 X200             (ainda G01, ainda F1500)

Bloco 9 · Sistema ISO: códigos G e M, arcos

Principais códigos G

Código Função
G00 / G01 rápido / interpolação linear em avanço
G02 / G03 arco horário / anti-horário
G04 pausa (não modal)
G17 / G18 / G19 planos XY / XZ / YZ
G40 / G41 / G42 compensação de raio anulada / esquerda / direita
G43 / G49 compensação do comprimento ativa / anulada
G54 origem de peça
G81... ciclos fixos de furação (sintaxe varia)
G90 / G91 absolutas / incrementais

Principais códigos M

  • M03 / M04: rotação horária / anti-horária (vista da árvore para a peça).
  • M05: paragem da rotação.
  • M06: troca de ferramenta.
  • M30: fim de programa, com regresso ao início.
  • M08 / M09: no ISO, refrigerante. Em madeira não há refrigerante: aspiração, vácuo e batentes têm códigos M do fabricante.

Fresa de corte à direita roda com M03; com M04 não corta, queima e pode partir.

Arcos: G02 e G03 com I, J ou R

  • Bloco: ponto final + centro (I, J) ou raio (R).
  • I, J: distâncias do ponto inicial ao centro, na maior parte dos comandos.
  • Verificação: centro-início = centro-fim (é o raio).

Canto de raio 20, de (0, 180) a (20, 200), centro (20, 180):

G02 X20 Y200 I20 J0 (ou R20)

I = 20 - 0 = 20; J = 180 - 180 = 0. O ângulo passa de 180 para 90 graus: horário.

Bloco 10 · Controladores e sistemas de fabricante

Comandos ISO e software de fabricante

  • O ISO (código G) é a base comum; cada comando tem variantes (ciclos, parâmetros, M próprios).
  • Muitos centros de mobiliário não se programam em ISO puro: usam software próprio, gráfico e paramétrico, por exemplo woodWOP (HOMAG), bSolid (Biesse), Maestro (SCM).
  • Escolhe-se a face da peça, indicam-se as operações e o software gera o programa.
  • Programas paramétricos e macros (filas de sistema 32, dobradiças) poupam trabalho em mobiliário.

A sintaxe aprende-se no manual de cada máquina.

CAD/CAM e pós-processador

  • O CAD/CAM e os programas de nesting distribuem as peças pelo painel e geram os percursos.
  • O pós-processador traduz para o dialeto exato do comando da máquina.
  • Pós-processador errado: códigos interpretados de outra forma. Simular sempre.

Quem só sabe carregar em botões, sem ler o código gerado, não consegue corrigir um erro.

Bloco 11 · Instruções para as etapas de maquinagem

Chamada de ferramenta, rotação e entrada

  • Troca de ferramenta: T + M06, com a árvore numa posição segura.
  • Rotação: S + M03, abaixo da rotação máxima gravada.
  • Posicionamento: G00 em XY a uma altura segura (acima de ventosas e batentes).
  • Entrada: G00 até perto da peça (Z2), depois G01 em Z; nas fresas, de preferência em rampa ou fora da peça.
  • Compensação de raio: G41/G42 num movimento linear de entrada.

Movimentos, posicionamento e saída

  • Corte: G01, G02, G03 com F do catálogo.
  • Saída: G40 num movimento linear fora da peça; G00 em Z até à altura segura.
  • Só depois se desloca em XY para a operação seguinte.
  • No fim: altura segura, M05, M30.

Nunca deslocar em rápido com a ferramenta dentro do material.

Furação, multifuração e sistema 32

  • Furo cego (deixa material por baixo) e passante (sem ventosa por baixo).
  • Cabeças de furação múltiplas: várias brocas em pente, eixos a 32 mm.
  • Sistema 32: filas de furos de Ø 5 mm, passo 32 mm, primeira fila a 37 mm do bordo da frente; ferragens e suportes encaixam nelas.
  • Exemplo: 5 furos centrados numa lateral de 400 mm: 4 x 32 = 128; X136, 168, 200, 232, 264.

Bloco 12 · Pontos notáveis e tabela de pontos

Pontos notáveis para a programação

  • Vértices do contorno.
  • Pontos de tangência (reta para arco) e centros de arcos e furos.
  • Início e fim de ranhuras, caixas e percursos.
  • Pontos de entrada e de saída da ferramenta, fora da peça.
  • Mudanças de direção, de profundidade ou de ferramenta.

Peça em L: 6 vértices. Canto arredondado: 2 tangências + 1 centro.

Exemplo: tabela de pontos com arcos

Peça 300 x 200, cantos R20, zero no canto inferior esquerdo, sentido horário:

Ponto X Y Instrução
P0 -20 0 entrada, G41
P1 0 20 G01
P2 0 180 G01
P3 20 200 G02 I20 J0
P4 280 200 G01
P5 300 180 G02 I0 J-20
P6 300 20 G01
P7 280 0 G02 I-20 J0
P8 20 0 G01
P9 0 20 G02 I0 J20

Alterações à tabela de pontos

Alteração Efeito
Novo zero peça todas as coordenadas: nova = antiga - posição do novo zero
Nova medida mudam os pontos que dependem dela
Operação nova acrescentam-se pontos
Ferramenta com outro Ø com compensação, nada muda
Peça espelhada X' = comprimento - X; trocam G02/G03 e G41/G42

I e J não mudam com o zero. Cada alteração = nova versão (V1, V2...).

Bloco 13 · Sequência de operações e programa completo

Sequência de operações de maquinagem

  1. Furação (face e topos).
  2. Ranhuração: ranhuras, rebaixos, caixas.
  3. Recorte do contorno (desbaste e passagem de contorno).
  4. Molde: perfis e molduras nas arestas.
  5. Acabamento: passagem final leve.

Porquê: a peça está mais bem fixa antes do recorte; o molde precisa da aresta já feita; o acabamento no fim não é estragado por nada. Agrupa-se por ferramenta para reduzir trocas.

Ranhura e recorte em código

(RANHURA D8, 2 PASSAGENS)      (RECORTE D12, G41)
G00 X-10 Y286                  G00 X-20 Y-20
G00 Z2                         G00 Z2
G01 Z-4 F2000                  G01 Z-18.5 F2000
G01 X410 F6000                 G41 G01 X0 Y0 F9000
G01 Z-8 F2000                  Y300
G01 X-10 F6000                 X400
G00 Z20                        Y0
                               X-10
                               G40 G01 X-20 Y-20
                               G00 Z20

Ranhura: G40, programa-se o eixo (Y286 ± 4 dá 282 a 290). Recorte: sentido horário, G41, concordante.

Programa completo: verificação

Lateral 400 x 300 x 18: furos de sistema (T1 Ø 5), ranhura do fundo (T2 Ø 8), recorte (T3 Ø 12).

Verificar Como
Furos X136 a X264, passo 32, em Y37 e Y263
Troço G91 Z-14 leva de Z2 a Z-12; volta a G90 no fim
Parâmetros vc(T3) = π x 12 x 18 000 / 60 000 = 11,3 m/s; fz = 9000 / 36 000 = 0,25 mm
Compensação entrada linear de 28 mm, maior do que o raio (6 mm)
Profundidades furos cegos de 12 em 18 mm; recorte a -18,5

Bloco 14 · Simulação e deteção de erros

Simulação e ensaio do programa

  • Simulador (no comando, no software do fabricante ou no CAD/CAM): percurso, remoção de material, colisões com ventosas e batentes, limites, tempo.
  • Verificação de sintaxe: códigos inválidos, arcos impossíveis, compensação mal ativada.
  • Na máquina: bloco a bloco, avanço reduzido, ensaio em vazio (Z deslocado para cima).
  • Controlo da primeira peça antes da série.

Simula-se sempre um programa novo ou alterado.

Erros de programação e a sua deteção

Erro Sintoma
Coordenadas (X/Y trocados, sinal de Z) elemento no sítio errado, mesa furada
G91 esquecido movimentos disparatados
G00 no material colisão, ferramenta partida
G02/G03 trocados, I/J errados arco invertido ou erro de raio
G41/G42 trocados ferramenta do lado errado, a cortar a peça
Ferramenta e parâmetros diâmetros errados, queimaduras
Sequência peça solta durante a furação

Corrige-se no programa, com nova versão.

Bloco 15 · Segurança, qualidade e fecho

Segurança e saúde no trabalho

  • Nunca entrar na área de trabalho com a máquina em ciclo; proteções (tapetes, barreiras, cortinas de luz, para-choques) nunca anuladas; emergência à mão.
  • EPI: óculos, proteção auditiva, calçado de segurança, máscara quando indicada; nada de luvas soltas, adornos ou roupa larga junto de ferramentas em rotação.
  • Pó de madeira dura: cancerígeno; valor-limite 2 mg/m³ desde 18/01/2023 (Diretiva (UE) 2017/2398); aspiração na origem, FFP2/FFP3 quando não chega.
  • Legislação: DL 50/2005 (equipamentos de trabalho), DL 103/2008 (Diretiva Máquinas), Regulamento (UE) 2023/1230 a partir de 20/01/2027.

Normas da qualidade

  • Tolerâncias do desenho: décimas de milímetro nas medidas de montagem.
  • Primeira peça medida (fita métrica, paquímetro, esquadro) antes da série.
  • Controlo durante a série: o desgaste faz as medidas andar.
  • Aspeto: sem lascas, queimaduras nem arranque de fibras.
  • Rastreabilidade: programa com nome, versão, data, autor; registo de alterações.
  • Empresas certificadas pela NP EN ISO 9001: procedimentos escritos e registos.

Recapitulando

  • O programa CNC é um algoritmo de maquinagem escrito para o comando, sobre um sistema de eixos de mão direita e um zero peça.
  • G90/G91, G17/G18/G19, G02/G03 com I, J ou R, G41/G42 e G43 são a base do código ISO; o software de fabricante assenta nas mesmas ideias.
  • A tabela de pontos, as ferramentas (vc, fz, rotação máxima) e a sequência preparam o programa.
  • Simular, ensaiar e medir a primeira peça, com segurança e qualidade em todas as etapas.

Próximo: fichas e mini-projeto, elaborar e simular programas CNC de peças reais.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: programar é primeiro pensar na sequência lógica, só depois escrever código. - Erro comum: escrever o programa diretamente, sem planear a sequência no papel. - Analogia: uma receita de cozinha é um algoritmo; o programa CNC é a receita escrita na língua da máquina.

NOTAS DO PROFESSOR - Escrever primeiro o algoritmo em português no quadro, com a turma, e só depois traduzir para código. - Erro comum: posicionar em XY sem antes subir a uma altura segura. - Os valores de S e F são de exemplo: na prática vêm do catálogo da ferramenta.

NOTAS DO PROFESSOR - Fixar este fluxo desde o início; todos os blocos seguintes encaixam numa destas etapas. - Pergunta à turma: porque simular antes de maquinar? (evita desperdiçar material, ferramentas e riscos). - Estas etapas correspondem às realizações e aos critérios de desempenho da UC.

NOTAS DO PROFESSOR - Fazer a regra da mão direita com a turma, de pé, virados para a máquina. - Erro comum: pensar que Z+ é "para dentro da peça". É ao contrário: Z+ afasta-se da peça. - Exemplo: pedir as coordenadas de um canto da mesa em relação a um zero à escolha.

NOTAS DO PROFESSOR - Insistir: o zero peça coloca-se onde começam as cotas do desenho e onde a peça encosta. - Erro comum: montar a peça sem fazer coincidir o zero físico com o do programa. - Pergunta: numa peça de 18 mm, o fundo de um furo de 12 mm fica em que Z, com Z0 em cima? E em baixo? (Z-12; Z6).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a vantagem principal: erros não se propagam de linha para linha. - Erro comum: assumir que a coordenada é relativa à posição anterior quando se está em G90. - Exemplo: desenhar um percurso de 3 pontos no quadro e pedir as coordenadas absolutas.

NOTAS DO PROFESSOR - Erro grave: esquecer de voltar a G90 depois de um troço em G91. Tudo o que vem a seguir sai errado. - Mostrar que G91 Z-14 "desce 14 mm", não "vai para Z-14". - Exercício: converter para incrementais o contorno de uma peça de 300 x 200 e verificar a soma zero.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a escolha do plano não é decorativa; um arco com o plano errado sai noutro plano. - Erro comum: não escrever G17 no cabeçalho e confiar no plano "de arranque". - Exemplo: lateral com furos na face (G17), furos no topo (G19) e rebaixo no bordo da frente (G18).

NOTAS DO PROFESSOR - Mostrar na máquina da escola as unidades horizontais ou um agregado, se existirem. - Erro comum: programar uma operação de topo a pensar no plano XY. - Pergunta: porque é que a compensação da ferramenta depende do plano selecionado?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a organização da informação como etapa própria: sem ela o programa sai desordenado. - Erro comum: começar a escrever código antes de ter a tabela de pontos completa. - Exemplo: pedir à turma que preencha uma folha de preparação para uma prateleira.

NOTAS DO PROFESSOR - Ligar às atitudes do referencial: responsabilidade, autonomia e sentido de organização. - Erro comum: confiar num programa "que já correu antes" sem verificar ferramentas e fixação atuais. - Pergunta: o que acontece se o zero peça físico estiver 10 mm deslocado do programado?

NOTAS DO PROFESSOR - Fazer a conversão de unidades passo a passo: é onde os alunos se perdem. - Erro comum: esquecer que é um valor teórico; fugas e superfícies porosas baixam a força real. - O ar comprimido de rede anda tipicamente pelos 6 a 7 bar; manda o fabricante da máquina.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar que a ferramenta errada falha a operação e pode danificar a peça ou a máquina. - Erro comum: escolher a ferramenta pelo nome sem confirmar diâmetro, comprimento útil e aplicação. - Mostrar ferramentas reais da oficina e pedir à turma que as classifique.

NOTAS DO PROFESSOR - Mostrar uma fresa de compressão e o ponto de transição da hélice. - Erro comum: usar uma fresa de compressão com pouca profundidade e ficar só com a parte descendente a cortar. - Segurança: explicar a força centrífuga e o que acontece a uma ferramenta acima da rotação máxima.

NOTAS DO PROFESSOR - Fazer as contas no quadro com a turma e pedir uma terceira com outros valores. - Erro comum: baixar o avanço "por cuidado" e queimar a peça. - Erro comum: esquecer de converter m/min em mm/min antes de dividir.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar que um comprimento mal registado estraga todas as profundidades dessa ferramenta. - Erro comum: trocar uma ferramenta e não medir a nova. - Pergunta: numa peça de 18 mm, o que acontece a um furo de 12 mm se o comprimento estiver 7 mm a menos? (fica com 19 mm, atravessa).

NOTAS DO PROFESSOR - Desenhar no quadro um contorno com setas e marcar de que lado fica a ferramenta. - Erro comum: trocar G41 por G42 e cortar por dentro da peça. - Erro comum: ativar a compensação num arco ou já dentro do material.

NOTAS DO PROFESSOR - Fazer desenhar o círculo da fresa real e o da fresa registada junto à aresta. - Erro comum: achar que "fresa maior dá peça maior"; no contorno exterior é o contrário. - Vantagem da compensação: fresa afiada com menos 0,1 mm corrige-se na tabela e o programa fica igual.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar que um programa bem estruturado é meio caminho para um programa fácil de rever. - Erro comum: deixar o programa sem M30 (o comando não o dá por terminado). - Boa prática: M05 antes de M30, para a paragem da rotação ficar explícita.

NOTAS DO PROFESSOR - Fazer a turma "ler" o bloco em voz alta, palavra a palavra. - A maioria dos comandos aceita as palavras noutra ordem, mas a ordem habitual torna o programa legível para todos. - Explicar porque se numera de 10 em 10: deixa espaço para acrescentar blocos.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: perceber o que é modal evita código redundante e evita "esquecer" uma função ativa. - Erro comum: pensar que N30 desce "com cuidado"; desce em rápido porque G00 é modal. - Pergunta: se G01 não aparece nas 3 linhas seguintes, que movimento continua ativo? (G01).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar a família de cada código: G é geometria e modo; M é máquina. - Erro comum: trocar G00 (rápido, sem corte) por G01 e entrar no material em rápido. - Os ciclos fixos existem em quase todos os comandos, mas os parâmetros mudam: manual sempre.

NOTAS DO PROFESSOR - Reforçar que M03, M05, M06 e M30 são praticamente universais; os restantes M dependem da máquina. - Erro comum: assumir que M08 liga a aspiração em qualquer máquina de madeira. - Pergunta: porque é que M06 vem antes de M03? (a troca faz-se com a árvore parada).

NOTAS DO PROFESSOR - Desenhar o arco no quadro quadriculado e medir as duas distâncias ao centro. - Erro comum: calcular I e J a partir do zero peça em vez do ponto inicial. - Exercício: os outros três cantos de uma peça de 300 x 200 percorrida no sentido horário (todos G02).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o que se transfere entre máquinas é o raciocínio (zero, pontos, ferramentas, sequência). - Erro comum: assumir que todos os comandos aceitam exatamente os mesmos códigos. - Se a escola tiver software de fabricante, mostrar a mesma peça em ISO e no software.

NOTAS DO PROFESSOR - Sublinhar que o objetivo da UC é a lógica de programação, transferível entre ISO e software gráfico. - Erro comum: depender do software sem perceber o programa que ele gera. - Exemplo: abrir um programa gerado e identificar cabeçalho, trocas de ferramenta e contorno.

NOTAS DO PROFESSOR - Reforçar a sequência: trocar, rodar, subir, posicionar, aproximar, compensar, cortar. - Erro comum: descer em G00 até dentro do material e partir a ferramenta. - Confirmar no catálogo se a fresa permite mergulho vertical (corte ao centro).

NOTAS DO PROFESSOR - Insistir na regra do rápido: fora do material e acima dos obstáculos. - Erro comum: deslocar em XY sem subir e arrastar a ferramenta pela peça ou contra um batente. - Pergunta: porque é que a ferramenta sobe em Z antes de se deslocar em XY?

NOTAS DO PROFESSOR - O sistema 32 é uma convenção da indústria, não uma norma de um organismo; confirmar sempre no catálogo da ferragem. - Erro comum: espaçar os furos de forma arbitrária em vez do passo de 32 mm. - Verificação do exemplo: 200 - 64 = 136 e 400 - 264 = 136, simétrico.

NOTAS DO PROFESSOR - Ligar ao critério de desempenho: elaborar a tabela de pontos, coordenadas e movimentos de ferramenta. - Erro comum: esquecer os pontos de entrada e saída, ou os pontos de tangência dos arcos. - Exercício: contar os pontos notáveis de uma peça em L com os cantos arredondados.

NOTAS DO PROFESSOR - Mostrar como cada linha da tabela se transforma num bloco do programa. - Verificar com a turma o raio de cada arco: distância do centro ao início e ao fim, sempre 20. - Erro comum: trocar X com Y ao preencher a tabela.

NOTAS DO PROFESSOR - Ligar à atitude de sentido de organização: uma tabela sem versão é fonte garantida de erros. - Erro comum: mudar o desenho e esquecer a tabela. - Pergunta: se o zero passar para o centro de uma peça de 300 x 200, onde fica o furo central? (X0 Y0).

NOTAS DO PROFESSOR - Explicar porque o recorte vem depois da furação: a peça solta tem menos área de fixação. - Erro comum: recortar primeiro e furar uma peça mal presa. - Peças pequenas em nesting: recortar primeiro as pequenas, deixar pontes ou passagem final leve.

NOTAS DO PROFESSOR - Peça de 400 x 300 x 18 a partir de um bruto de 410 x 310; o mergulho do recorte faz-se fora do bruto. - Erro comum: descer a fresa do recorte em cima da peça em vez de fora. - Mostrar que Z-18.5 atravessa a peça com 0,5 mm de folga: as ventosas não podem estar debaixo do percurso.

NOTAS DO PROFESSOR - O programa completo está na sebenta, capítulo 14: percorrê-lo bloco a bloco com a turma. - Erro comum: esquecer G90 depois do troço incremental; mostrar o que o Z20 seguinte faria em G91. - Exercício: acrescentar uma terceira fila de furos e atualizar a tabela.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: simular faz parte do critério de desempenho da UC. - Erro comum: simular só a geometria e não ver as colisões com a fixação. - Mostrar no simulador da escola a diferença de cor entre rápidos e movimentos de corte.

NOTAS DO PROFESSOR - Pedir à turma para classificar um erro visto na simulação numa destas categorias. - Erro comum: corrigir o sintoma na máquina em vez de corrigir o bloco errado. - Exemplo: mostrar um programa com G00 Z-12 e pedir o erro e a correção (G00 Z2, depois G01 Z-12).

NOTAS DO PROFESSOR - Ligar às atitudes do referencial: responsabilidade, respeito pelas regras, sentido crítico. - Erro comum: tratar o EPI como opcional em testes rápidos. - Até 17/01/2023 o valor-limite do pó de madeira dura era de 3 mg/m³.

NOTAS DO PROFESSOR - Ligar ao critério de desempenho de verificar o funcionamento dos programas. - Erro comum: medir só a primeira peça e nunca mais. - Anunciar as fichas e o mini-projeto: elaborar, simular e verificar um programa completo.