UC02015

Avaliar e controlar os custos de obra

Orçamentos, custos diretos e indiretos, fichas de preços, autos de medição e valor ganho

Curso profissional · 50h · Técnico de Obra

Plano

  1. Controlar custos de obra: o ciclo do orçamento
  2. Estrutura de custos de uma empreitada
  3. Custos diretos: mão de obra
  4. Custos diretos: materiais e fichas de preços simples
  5. Fichas de preços compostos
  6. Custos de equipamentos
  7. Custos de estaleiro
  8. Custos indiretos, lucro e risco
  9. Preços de venda unitários e mapa de quantidades
  10. Consulta ao mercado e comparação de propostas
  11. Autos de medição e faturação
  12. Desvios de custos
  13. Valor ganho (EVM)
  14. Revisão de preços em contratos públicos
  15. Segurança, ambiente e qualidade

Bloco 1 · O ciclo do orçamento

Três orçamentos, um só nome

Em obra, "orçamento" pode significar três coisas diferentes, e confundi-las é o primeiro erro:

  • Orçamento de proposta: o preço apresentado ao dono de obra em concurso, calculado a partir de um mapa de quantidades e preços unitários.
  • Orçamento de execução (interno): o custo que a empresa prevê realmente gastar, já sem a margem que foi cobrada ao cliente.
  • Custo real: o que a obra efetivamente consumiu, apurado a partir de faturas, folhas de ponto e requisições de materiais.

Controlar custos é comparar sempre o orçamento de execução com o custo real, nunca o preço de proposta com o custo.

Onde se controlam custos: os contextos da profissão

O controlo de custos de obra não acontece só na sede da empresa. Faz parte do dia a dia em:

  • Indústria da construção: empresas construtoras, de todas as dimensões.
  • Gabinetes de projetos (arquitetura e engenharia), na fase de orçamentação.
  • Autarquias, na fiscalização de empreitadas públicas e no controlo de orçamentos municipais.
  • Estaleiro, em contexto de obra, onde os dados reais nascem: medições, requisições, folhas de ponto.

Quem controla custos precisa de saber ler tanto o papel (fichas, mapas) como o terreno (o que se passa mesmo em obra).

O ciclo mensal de controlo

O controlo de custos repete-se mês a mês, do início ao fim da obra:

  1. Medir o trabalho executado, através de medições em obra.
  2. Apurar o custo real do mês, a partir de faturas, folhas de ponto e requisições.
  3. Comparar o custo real com o previsto para esse avanço.
  4. Identificar desvios, rubrica a rubrica.
  5. Corrigir o rumo, enquanto ainda há tempo de agir.

Uma obra só descobre o prejuízo no fecho porque saltou este ciclo, mês após mês.

Bloco 2 · Estrutura de custos

Os quatro blocos do preço

Todo o preço de venda de uma empreitada soma quatro blocos:

Bloco Inclui
Custos diretos mão de obra, materiais, equipamentos, subempreitadas
Custos de estaleiro instalações, vedação, segurança, direção de obra
Custos indiretos estrutura da empresa, custos industriais e gerais
Lucro e risco margem que remunera capital e cobre incerteza

Os custos diretos afetam-se a um trabalho concreto; os outros três repartem-se por toda a obra ou por toda a empresa.

Caso de estudo: pavilhão industrial

Orçamento de 250.000 €, prazo de 5 meses. Usado em toda a UC.

Rubrica Valor %
Mão de obra 70.000 € 28,0%
Materiais 90.000 € 36,0%
Equipamentos 20.000 € 8,0%
Subempreitadas 10.000 € 4,0%
Total custos diretos 190.000 € 76,0%
Estaleiro 15.000 € 6,0%
Custos indiretos 25.000 € 10,0%
Lucro e risco 20.000 € 8,0%
Total do orçamento 250.000 € 100%

Bloco 3 · Mão de obra

Custo horário e rendimento

O custo de mão de obra tem duas partes:

  • Custo horário: salário + encargos sociais, por hora útil.
  • Rendimento: horas necessárias para produzir uma unidade de trabalho.

Custo de mão de obra por unidade = custo horário × rendimento

Exemplo: equipa produz 1 m³ de betão armado em 2 h, a 11 €/h.
Custo = 2 × 11 = 22 €/m³

De onde vem o custo horário: os encargos sociais

O custo horário nunca é só o salário base. Junta-se sempre uma percentagem de encargos sociais: segurança social, seguro de acidentes de trabalho, subsídios.

Componente Valor
Salário base 8,50 €/h
Encargos sociais (TSU, seguros, subsídios) 2,50 €/h
Custo horário total 11,00 €/h

Este é o valor de 11,00 €/h usado em todos os cálculos de mão de obra desta UC. Uma empresa que orçamenta só com o salário base subestima o custo real em cerca de 29%.

Bloco 4 · Materiais e fichas simples

Ficha de preço simples

Regista o custo unitário de um único material, com perdas incluídas:

Custo do material = preço de compra × (1 + coeficiente de perdas)

Exemplo: betão pronto C25/30 a 95 €/m³, 5% de perdas.

Custo = 95 × 1,05 = 99,75 €/m³

A ficha simples é o "tijolo" de todas as fichas compostas.

O coeficiente de perdas não é igual em todo o lado

Cada família de materiais tem um coeficiente de perdas típico, definido pela experiência da empresa e pelo processo construtivo:

  • Betão pronto: perdas baixas (3% a 6%), transporte e ajustes de cofragem.
  • Aço para armaduras: perdas moderadas (5% a 8%), cortes e sobras de amarração.
  • Materiais cerâmicos (tijolo, telha): perdas mais altas (8% a 12%), quebras no transporte e no corte.
  • Acabamentos (tintas, revestimentos): perdas variáveis, muito dependentes da técnica de aplicação.

Uma ficha de preço simples desatualizada, com o coeficiente de perdas errado, distorce todas as fichas compostas que a usam como recurso.

Bloco 5 · Fichas de preços compostos

Somar recursos até ao custo direto unitário

A ficha composta junta mão de obra + materiais + equipamentos de um trabalho completo.

Exemplo: betão armado em sapatas C25/30, por m³

Recurso Cálculo Custo (€/m³)
Betão pronto (com 5% perdas) 95 × 1,05 99,75
Aço A500 80 kg × 1,15 €/kg 92,00
Cofragem 2 m² × 12 €/m² 24,00
Mão de obra 2 h × 11 €/h 22,00
Equipamento (vibrador + grua) 8,00
Custo direto unitário 245,75

Uma ficha errada propaga-se a toda a obra

Se o custo unitário de um trabalho está mal calculado, todas as quantidades que o multiplicam herdam o erro.

  • Confere sempre as unidades (€/m³, €/m², €/ml).
  • Confirma que nenhum recurso ficou de fora (mão de obra, material, equipamento).
  • Atualiza as fichas quando os preços de mercado mudam, sobretudo depois de uma consulta ao mercado (Bloco 10).

Exemplo: se a ficha do betão estivesse 5% a menos (233,46 €/m³ em vez de 245,75 €/m³), a diferença em 40 m³ seria 40 × (245,75 − 233,46) = 40 × 12,29 ≈ 491,60 € de erro no orçamento, só nesta rubrica.

Escalar a mesma ficha para outra quantidade

Uma vez calculado o custo direto e o preço de venda unitário, escalar para qualquer quantidade é uma simples multiplicação.

Preço de venda unitário do betão armado: 307,19 €/m³ (calculado no Bloco 9, a partir do custo direto de 245,75 €/m³ com 25% de indiretos e margem).

Quantidade Cálculo Preço total
40 m³ 307,19 × 40 12.287,60 €
60 m³ 307,19 × 60 18.431,40 €

O preço unitário não muda com a quantidade; só o valor total escala.

Bloco 6 · Custos de equipamentos

Comprar ou alugar?

Depende de quantas horas de utilização se preveem por ano.

Aluguer: 2.500 €/mês, 160 h/mês, + 6,50 €/h combustível + 9,00 €/h operador
Custo horário = 2.500/160 + 6,50 + 9,00 = 31,12 €/h

Compra: 65.000 €, vida útil 8 anos, residual 5.000 €, 1.600 h/ano
Depreciação = (65.000 − 5.000) / 8 / 1.600 = 4,69 €/h
Custo horário = 4,69 + 3,00 + 6,50 + 9,00 = 23,19 €/h

Ponto de equilíbrio ≈ 594 h/ano: abaixo disso, alugar compensa.

O custo do aluguer varia com a utilização mensal

O custo fixo do aluguer (2.500 €/mês) reparte-se por menos ou mais horas, conforme a utilização real da máquina nesse mês:

Utilização mensal Custo só da máquina + combustível e operador Custo horário total
100 h/mês 2.500/100 = 25,00 €/h 6,50 + 9,00 40,50 €/h
160 h/mês 2.500/160 = 15,62 €/h 6,50 + 9,00 31,12 €/h
200 h/mês 2.500/200 = 12,50 €/h 6,50 + 9,00 28,00 €/h

Uma máquina alugada e pouco usada é sempre mais cara por hora: o custo fixo do aluguer não desaparece.

Selecionar pelo custo por unidade, não por hora

O equipamento mais barato à hora pode ser o mais caro por m³.

Custo/hora Produção Custo/m³
Equipamento A 31,12 €/h 18 m³/h 1,73 €/m³
Equipamento B 40,00 €/h 30 m³/h 1,33 €/m³

Para escavar 500 m³: A custa 864,44 €, B custa 666,67 €.
B poupa cerca de 198 €, apesar de custar mais por hora.

Bloco 7 · Custos de estaleiro

O que compõe o custo de estaleiro

Exemplo: obra de 5 meses, estaleiro de 15.000 €

Componente Valor %
Instalações sociais 4.000 € 26,7%
Vedação e sinalização 2.500 € 16,7%
Energia e água 1.500 € 10,0%
Direção e fiscalização 5.500 € 36,7%
Limpeza e resíduos 1.500 € 10,0%
Total 15.000 € 100%

Custo médio por mês = 15.000 / 5 = 3.000 €/mês

Componentes fixos e componentes que crescem com o prazo

Nem todos os componentes do estaleiro escalam da mesma forma se a obra atrasar:

Componente Tipo 5 meses 8 meses
Instalações sociais fixo (montagem única) 4.000 € 4.000 €
Vedação e sinalização fixo (montagem única) 2.500 € 2.500 €
Energia e água variável com o prazo 1.500 € 2.400 €
Direção e fiscalização variável com o prazo 5.500 € 8.800 €
Limpeza e resíduos variável com o prazo 1.500 € 2.400 €
Total 15.000 € 20.100 €

Um atraso de 3 meses nesta obra encareceria o estaleiro em 5.100 €, mesmo sem nenhum trabalho a mais.

Bloco 8 · Custos indiretos e margem

Estrutura, custos gerais, lucro e risco

Não se atribuem a nenhum trabalho específico, mas têm de ser cobertos por todas as obras da empresa:

  • Custos de estrutura: escritório central, administração.
  • Custos industriais: equipamento partilhado entre obras.
  • Custos gerais imputáveis: quota da estrutura, por obra.
  • Lucro e risco: margem que remunera capital e cobre imprevistos.

Aplicam-se ao custo direto através de uma percentagem definida pela empresa.

Confirmar a percentagem no total da obra

No caso de estudo, os custos indiretos e o lucro e risco somados representam:

Indiretos + lucro = 25.000 + 20.000 = 45.000 €
Percentagem sobre os custos diretos = 45.000 / 190.000 × 100 ≈ 23,7%

Este valor é próximo dos 25% aplicados por unidade nas fichas de preços (Bloco 9): a percentagem usada rubrica a rubrica deve, no fecho da obra, aproximar-se da percentagem que a empresa definiu para o total do orçamento.

Bloco 9 · Preços de venda

Do custo direto ao preço de venda

Preço de venda unitário = custo direto unitário × (1 + % indiretos e margem)

Exemplo: custo direto do betão = 245,75 €/m³, percentagem de 25%.

Indiretos e margem = 245,75 × 0,25 = 61,44 €/m³
Preço de venda = 245,75 + 61,44 = 307,19 €/m³

Para 40 m³: preço total = 307,19 × 40 = 12.287,60 €

O preço total da empreitada soma o preço total de todas as rubricas do mapa de quantidades.

A percentagem de indiretos muda o preço final

O mesmo custo direto (245,75 €/m³) dá preços de venda diferentes conforme a política comercial da empresa:

Percentagem de indiretos e margem Preço de venda unitário
20% 294,90 €/m³
22% 299,81 €/m³
25% 307,19 €/m³

Baixar a percentagem torna a proposta mais competitiva, mas reduz a margem que cobre a estrutura da empresa e o risco. É uma decisão comercial, não só técnica.

Bloco 10 · Consulta ao mercado

Comparar propostas, não só preços

Uma consulta ao mercado só é justa se as propostas tiverem o mesmo âmbito.

Subempreiteiro Preço Prazo Garantia
A 9.200 € 3 semanas 2 anos
B 8.600 € 5 semanas 1 ano
C 9.800 € 3 semanas 3 anos

O mais barato (B) tem o prazo mais longo, o que pode gerar mais custos de estaleiro.

O preço mais baixo pode custar mais no total

O subempreiteiro B custa 600 € menos do que A, mas demora mais 2 semanas. Com um estaleiro de 3.000 €/mês (cerca de 700 €/semana):

Custo adicional de estaleiro (2 semanas) ≈ 2 × 700 = 1.400 €
Custo total real de B ≈ 8.600 + 1.400 = 10.000 €

Mesmo sem contar a garantia mais curta (1 ano, contra 2 de A), o subempreiteiro B acaba mais caro do que A quando se soma o efeito no estaleiro.

Bloco 11 · Autos de medição

Do trabalho executado ao valor a pagar

Valor do auto = Σ (quantidade executada × preço unitário contratual)

Auto de medição nº 3:

Trabalho Quantidade Preço Valor
Betão armado 40 m³ 307,19 €/m³ 12.287,60 €
Alvenaria 250 m² 28,50 €/m² 7.125,00 €
Revestimentos 180 m² 22,00 €/m² 3.960,00 €
Total do auto 23.372,60 €

Retenção de garantia e adiantamento

Ao valor do auto deduzem-se duas parcelas contratuais:

Dedução Percentagem Valor
Retenção de garantia 5% 23.372,60 × 0,05 = 1.168,63 €
Amortização do adiantamento 8% 23.372,60 × 0,08 = 1.869,81 €
Total das deduções 3.038,44 €

Valor líquido a pagar = 23.372,60 − 3.038,44 = 20.334,16 €

A retenção de garantia liberta-se só na receção da obra.

A retenção acumula-se auto a auto

A retenção de garantia não se devolve auto a auto: acumula-se ao longo da obra e só se liberta na receção definitiva.

  • Cada auto retém a sua percentagem (neste caso, 5% do valor desse auto).
  • O total retido ao longo da obra forma um fundo de garantia contra defeitos.
  • Só após a vistoria final, sem defeitos por corrigir, a retenção acumulada é devolvida à empresa construtora.

Uma empresa que não planeia esta imobilização de tesouraria pode ter problemas de liquidez, mesmo com a obra a correr bem.

Bloco 12 · Desvios de custos

Comparar o real com o previsto para o mesmo avanço

Desvio = custo real − custo previsto para o avanço atingido

Ao fim do mês 3, com 60% de avanço físico:

Rubrica Previsto (60%) Real Desvio Desvio %
Mão de obra 42.000 € 46.000 € +4.000 € +9,5%
Materiais 54.000 € 61.000 € +7.000 € +13,0%
Equipamentos 12.000 € 11.000 € −1.000 € −8,3%
Subempreitadas 6.000 € 6.000 € +0 € +0,0%
Estaleiro 9.000 € 10.500 € +1.500 € +16,7%
Total 123.000 € 134.500 € +11.500 € +9,3%

Ler o quadro: só uma rubrica é favorável

Do quadro anterior, cinco rubricas contam cinco histórias diferentes:

  • Materiais (+13,0%) e estaleiro (+16,7%): os dois maiores desvios desfavoráveis, prioridade de investigação.
  • Mão de obra (+9,5%): acima do previsto, mas menos crítico do que materiais.
  • Subempreitadas (+0,0%): exatamente conforme o previsto.
  • Equipamentos (−8,3%): a única rubrica favorável, pode significar boa negociação de aluguer.

No total, a obra está 9,3% acima do orçamentado para o avanço atingido: um sinal de alerta que exige ação imediata, sobretudo sobre materiais e estaleiro.

Cuidado: desvio 0% não é sinónimo de lucro

Se o preço de venda de uma rubrica já foi calculado abaixo do custo real, cumprir o orçamento à letra continua a dar prejuízo.

Exemplo: subempreitada vendida a 8.000 €, custo orçamentado de 10.000 €.
A obra gastou exatamente 10.000 € (desvio de execução = 0%).
Resultado da rubrica: 8.000 − 10.000 = −2.000 €.

O problema nasceu na proposta, não na execução.

Bloco 13 · Valor ganho (EVM)

Três valores, dois índices

  • PV (valor planeado): o que devia ter sido gasto até agora.
  • EV (valor ganho): valor do trabalho realmente executado.
  • AC (custo real): o que foi efetivamente gasto.

CV = EV − AC (desvio de custo)
SV = EV − PV (desvio de prazo)
CPI = EV / AC · SPI = EV / PV

Abaixo de 1: a gastar mais do que vale o trabalho, ou atrasado.

Exemplo resolvido: obra de 250.000 €

Ao mês 3: planeado 55% de avanço, medido apenas 50%. Custo real: 134.500 €.

PV = 250.000 × 0,55 = 137.500 €
EV = 250.000 × 0,50 = 125.000 €

CV = 125.000 − 134.500 = −9.500 €
SV = 125.000 − 137.500 = −12.500 €
CPI = 125.000 / 134.500 ≈ 0,929
SPI = 125.000 / 137.500 ≈ 0,909

Acima do custo e atrasada. Estimativa final: 250.000 / 0,929 ≈ 269.000 €.

Quadro-resumo do valor ganho

Indicador Fórmula Valor Leitura
PV orçamento × % planeado 137.500 € o que devia ter sido gasto
EV orçamento × % executado 125.000 € valor do trabalho feito
AC custo real apurado 134.500 € o que foi mesmo gasto
CV EV − AC −9.500 € acima do custo
SV EV − PV −12.500 € atrasada
CPI EV / AC 0,929 0,93 € de trabalho por euro gasto
SPI EV / PV 0,909 a 91% do ritmo planeado
EAC orçamento / CPI ≈ 269.000 € estimativa final, se nada mudar

Bloco 14 · Revisão de preços

Atualizar preços em contratos longos

Em empreitadas públicas de longa duração, a inflação pode desatualizar os preços contratuais.

  • Regime legal: Decreto-Lei n.º 6/2004, articulado com o Código dos Contratos Públicos.
  • Base: índices de custos de construção publicados por entidades oficiais.
  • A fórmula e os coeficientes de cada parcela constam do caderno de encargos de cada contrato.

Nunca inventes uma fórmula ou coeficientes: consulta sempre o contrato e os índices oficiais.

Como funciona, em linhas gerais

Sem inventar fórmulas nem coeficientes, o mecanismo geral da revisão de preços segue esta lógica:

  • Aplica-se apenas aos trabalhos executados em cada período, medidos no respetivo auto de medição.
  • Compara o índice do mês da proposta com o índice do mês de execução de cada parcela de custo (mão de obra, materiais, equipamentos).
  • O peso de cada parcela na fórmula reflete o quanto essa parcela pesa naquele tipo de trabalho.
  • O resultado é um valor de revisão, positivo ou negativo, que se soma ou subtrai ao valor do auto.

Consultar sempre os índices oficiais publicados e o caderno de encargos do contrato específico é obrigatório antes de qualquer cálculo real.

Bloco 15 · Segurança, ambiente, qualidade

O que não aparece na ficha de preços

O controlo de custos não pode ignorar as normas que atravessam toda a obra:

  • Segurança e saúde no trabalho e EPI (capacete, botas, luvas, arnês).
  • Normas de gestão de resíduos e de proteção ambiental.
  • Normas da qualidade dos materiais e da execução.

Ignorar isto gera custos escondidos: coimas, acidentes, retrabalho.

As atitudes do referencial, aplicadas ao dia a dia

Atitude do referencial O que significa no controlo de custos
Rigor conferir sempre unidades, fórmulas e somas antes de fechar um auto
Sentido de organização fichas de preços e mapas de quantidades atualizados e arquivados
Responsabilidade assumir o impacto das próprias decisões de compra e de aluguer
Sentido crítico questionar um desvio "0%" que pode esconder prejuízo estrutural
Cooperação com a equipa cruzar dados de obra (medições) com dados de escritório (faturas)
Respeito pelas normas definidas cumprir segurança, ambiente e qualidade mesmo sob pressão de prazo

Estas atitudes decidem, tanto quanto os cálculos, se uma obra fecha com lucro.

Recapitulando

  • Estrutura do preço: custos diretos + estaleiro + indiretos + margem.
  • Fichas de preços simples e compostas dão o custo direto unitário; a percentagem de indiretos dá o preço de venda.
  • Selecionar equipamentos pelo custo por unidade produzida, nunca só pelo custo por hora.
  • Autos de medição faturam o executado; desvios e valor ganho controlam custo e prazo.
  • Um desvio de 0% não garante lucro se a proposta já nasceu deficitária.

Próximo: fichas e mini-projeto, orçamentar e controlar uma obra do princípio ao fim.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: quem controla custos em obra usa o orçamento de execução (interno), nunca o de proposta. - Erro comum: o aluno pensa que "orçamento" é só o preço ao cliente e ignora o orçamento interno. - Pergunta à turma: porque é que uma empresa não pode controlar custos comparando com o preço que cobrou?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: os quatro contextos vêm diretamente do referencial da UC; ajuda os alunos a perceberem onde vão aplicar isto no estágio. - Erro comum: pensar que controlo de custos é só "trabalho de escritório". Nasce no estaleiro, é lá que os dados reais são recolhidos. - Pergunta: qual destes quatro contextos achas que exige mais rapidez de decisão, e porquê?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: este ciclo é mensal e cíclico, não uma tarefa de fim de obra. - Erro comum: tratar o controlo de custos como uma auditoria final, em vez de rotina mensal. - Exemplo: ligar este slide ao auto de medição mensal (Bloco 11), que é o instrumento deste ciclo.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: estes quatro blocos aparecem em toda a sebenta e no projeto; é o mapa mental da UC inteira. - Erro comum: misturar custos de estaleiro com custos indiretos. O estaleiro é físico e da própria obra; os indiretos são da estrutura da empresa. - Exemplo: pedir à turma para classificar 5 despesas (aluguer de contentor, salário do gestor financeiro, aço, seguro da empresa, vedação) nos quatro blocos.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: este caso de estudo volta em todos os blocos seguintes; vale a pena escrevê-lo num canto do quadro e ir preenchendo. - Erro comum: esquecer que custos diretos (mão de obra + materiais + equipamentos + subempreitadas) somam 76% do orçamento, é ali que se decide a maior parte da margem. - Pergunta: qual destas rubricas achas mais fácil de desviar do previsto, e porquê?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o custo horário já inclui os encargos sociais, não é só o salário líquido. - Erro comum: esquecer os encargos sociais e subestimar o custo real de mão de obra em 20 a 30%. - Exemplo/analogia: pedir à turma para calcular o custo de outra equipa com rendimento e custo horário diferentes.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: os encargos sociais não são um detalhe contabilístico, representam quase 30% do custo horário neste exemplo. - Erro comum: pedir uma cotação de mão de obra "ao subempreiteiro" e esquecer de confirmar se já inclui encargos. - Pergunta: se os encargos subissem para 35% do salário base, qual seria o novo custo horário?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: as perdas (5%, 8%, 10%) variam por material e por processo construtivo; não são um número fixo universal. - Erro comum: esquecer o coeficiente de perdas e orçamentar pelo preço de tabela do fornecedor. - Exercício rápido: calcular o custo de um material a 40 €/unidade com 10% de perdas.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o coeficiente de perdas vem da experiência de obras anteriores da empresa, não de uma tabela universal. - Erro comum: copiar o mesmo coeficiente de perdas para todos os materiais, sem distinguir a natureza de cada um. - Exemplo: comparar o efeito de errar o coeficiente de perdas do betão (impacto pequeno) com errar o do aço (impacto maior, porque o aço é mais caro por unidade).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: este valor (245,75 €/m³) volta no Bloco 9 (preço de venda) e no Bloco 11 (auto de medição); é o fio condutor da UC. - Erro comum: somar valores em unidades diferentes (€/kg com €/m²) sem converter primeiro para €/m³. - Exercício: fazer a turma somar a coluna e confirmar os 245,75 €/m³ com a calculadora.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: um erro de 5% numa ficha usada em 40 m³ é um erro de centenas de euros, não um detalhe. - Erro comum: copiar uma ficha antiga sem atualizar os preços dos materiais. - Pergunta: se a ficha do betão estivesse 10% a menos, qual o impacto no preço de venda total de 40 m³?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o preço unitário é uma constante da ficha, não varia com a quantidade executada (salvo renegociação de contrato). - Erro comum: pensar que quantidades maiores "baixam" automaticamente o preço unitário sem nenhuma renegociação. - Exercício: calcular o preço total para 25 m³ com o mesmo preço unitário.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a depreciação anual = (valor de aquisição − valor residual) / vida útil; é a base de qualquer cálculo de compra. - Erro comum: comparar só o custo/hora do aluguer com o custo/hora de compra sem incluir manutenção e combustível em ambos. - Exercício: e se a empresa só usasse a máquina 300 h/ano, compensa comprar?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o custo de combustível e de operador não muda com a utilização mensal, só a parcela fixa do aluguer se dilui. - Erro comum: negociar um aluguer sem planear a utilização real da máquina, deixando-a parada mas a pagar-se por inteiro. - Pergunta: porque é que compensa mais planear bem a agenda do equipamento alugado do que negociar só o preço do aluguer?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: este é o erro mais comum na seleção de equipamentos, escolher pelo preço à hora. - Erro comum: ignorar a produtividade e escolher sempre o aluguer mais barato. - Exercício: calcular o custo por m³ de um terceiro equipamento com 50 €/h e 45 m³/h de produção.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a direção e fiscalização é o maior peso (36,7%) porque é sobretudo tempo, não material; cresce com o prazo, não com a área. - Erro comum: tratar o estaleiro como um valor fixo, ignorando que depende diretamente da duração da obra. - Pergunta: se a obra durar 8 meses em vez de 5, o que acontece ao custo total de estaleiro?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: distinguir custos fixos (uma só vez) de custos variáveis com o prazo é essencial para prever o impacto de um atraso. - Erro comum: assumir que o estaleiro cresce sempre na mesma proporção do prazo; os componentes fixos não crescem. - Exercício: recalcular o estaleiro para uma obra de 6 meses, mantendo os mesmos valores mensais das rubricas variáveis.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: quem ignora os custos indiretos ao orçamentar está a subsidiar a obra com dinheiro da estrutura central. - Erro comum: confundir custos indiretos (da empresa) com custos de estaleiro (da própria obra). - Exemplo: pedir 3 despesas reais de uma empresa de construção e classificá-las nos dois grupos.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a percentagem aplicada em cada ficha de preço e a percentagem que resulta do orçamento total devem ser coerentes entre si. - Erro comum: aplicar 25% em todas as fichas mas depois descobrir, no fecho, que o total de indiretos e margem ficou muito abaixo disso. - Pergunta: se uma empresa aplicasse sistematicamente 25% nas fichas mas o total da obra desse só 15%, o que estaria a correr mal?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: 307,19 €/m³ é o preço que vai para a proposta ao cliente; volta no Bloco 11 no auto de medição. - Erro comum: aplicar a percentagem de indiretos sobre o preço de venda em vez de sobre o custo direto (dá um valor diferente e errado). - Exercício: recalcular o preço de venda de uma rubrica com custo direto de 100 €/m² e percentagem de 20%.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a percentagem não é um número técnico fixo, é uma decisão da gestão que equilibra competitividade e margem. - Erro comum: achar que "quanto mais baixo, melhor", esquecendo que a margem cobre risco e estrutura, não é só lucro puro. - Pergunta: em que situação faria sentido uma empresa baixar a percentagem para ganhar um concurso?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: preço, prazo e garantia têm de se avaliar em conjunto, nunca só o número mais baixo. - Erro comum: escolher automaticamente o preço mais baixo sem confirmar o mesmo âmbito de trabalho. - Pergunta: se a obra atrasar 2 semanas por causa do subempreiteiro B, quanto custa isso em estaleiro (3.000 €/mês)?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: comparar propostas exige somar o custo do prazo (via estaleiro), não só o preço da fatura do subempreiteiro. - Erro comum: aprovar a proposta mais barata sem calcular o impacto do prazo no custo total da obra. - Exercício: refazer a conta assumindo um estaleiro de 4.000 €/mês em vez de 3.000 €/mês.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o preço unitário do auto é sempre o preço de venda contratual (307,19 €/m³), o mesmo calculado no Bloco 9. - Erro comum: usar o custo direto em vez do preço de venda ao calcular o valor do auto. - Exercício: somar as três linhas com a turma e confirmar os 23.372,60 €.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: as duas percentagens (retenção e amortização) constam sempre do contrato, não são fixas por lei. - Erro comum: esquecer uma das duas deduções e faturar o valor bruto do auto. - Pergunta: se o adiantamento já estivesse todo amortizado, qual seria o valor a pagar?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a retenção é dinheiro da empresa que fica "parado" até ao fim da obra, é um custo de tesouraria, não uma perda. - Erro comum: esquecer de incluir a retenção acumulada no planeamento financeiro da empresa. - Pergunta: se uma obra tiver 8 autos com retenção de 5% cada um, aproximadamente que percentagem do valor total da obra fica retida até à receção?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: o previsto NUNCA é o orçamento total, é o orçamento multiplicado pelo avanço físico atingido (60%). - Erro comum: comparar o custo real acumulado com o orçamento total da obra, o que exagera ou esconde o desvio real. - Exercício: calcular o desvio % dos materiais passo a passo com a turma (54.000 → 61.000).

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: um desvio total moderado (+9,3%) pode esconder rubricas muito piores (+16,7% no estaleiro); nunca ficar só pelo total. - Erro comum: tranquilizar-se com o desvio total sem abrir o detalhe por rubrica. - Pergunta: se só corrigisses uma rubrica esta semana, qual escolherias primeiro, e porquê?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: este é um dos raciocínios mais avançados da UC, distinguir desvio de execução de margem estrutural negativa. - Erro comum: pressionar a equipa de obra a "poupar mais" quando o desvio já é 0%, o problema está no preço vendido, não na obra. - Pergunta: quem deve corrigir este tipo de prejuízo, a equipa de obra ou quem faz as propostas?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: EV não é o custo real, é o VALOR do trabalho feito medido pelo orçamento. É a confusão mais comum do bloco. - Erro comum: trocar EV por AC nas fórmulas de CV e SV, invertendo a conclusão. - Exemplo/analogia: PV é onde devias estar, EV é onde realmente estás fisicamente, AC é quanto gastaste para lá chegar.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: os dois índices (CPI e SPI) abaixo de 1 apontam para dois problemas diferentes, custo e prazo, que exigem ações diferentes. - Erro comum: olhar só para o SV/SPI e ignorar o CV/CPI, ou vice-versa. - Exercício: recalcular o CPI e o SPI se o custo real tivesse sido 125.000 € em vez de 134.500 €.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: ter os 8 valores lado a lado numa só tabela ajuda a turma a ver a história completa de uma vez. - Erro comum: calcular cada indicador isoladamente sem perceber a narrativa conjunta (obra cara e lenta). - Pergunta: qual destes 8 valores mudarias primeiro, se pudesses corrigir só um?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a fórmula de revisão varia de contrato para contrato, não existe uma fórmula única de memória. - Erro comum: tentar "decorar" uma fórmula de revisão de preços e aplicá-la a qualquer contrato. - Pergunta: porque é que um contrato de 3 anos precisa de revisão de preços e um de 2 meses normalmente não?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: a revisão pode ser negativa (se os índices descerem), não é sempre um acréscimo ao valor do auto. - Erro comum: assumir que a revisão de preços só serve para a empresa "ganhar mais"; é uma correção em ambos os sentidos. - Pergunta: em que tipo de contrato achas que a revisão de preços é mais relevante, obra pública ou obra particular de curta duração?

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: rigor, autonomia e respeito pelas normas são atitudes avaliadas nesta UC, tal como os cálculos. - Erro comum: tratar segurança e ambiente como burocracia à parte do "verdadeiro" controlo de custos. - Exemplo: um acidente de trabalho pode custar mais à obra do que todos os desvios de materiais somados.

NOTAS DO PROFESSOR - Enfatizar: esta tabela liga diretamente as atitudes do referencial a comportamentos concretos, não é teoria abstrata. - Erro comum: pensar que "atitudes" são avaliadas à parte da técnica, quando na prática decidem a qualidade dos cálculos. - Pergunta: qual destas atitudes achas que falha mais vezes num estaleiro real, e porquê?