UC00883

Implementar o código de contas e normas contabilísticas

SNC, código de contas, débito/crédito, partidas dobradas e mapas contabilísticos

Curso profissional · 25h · Informática de Gestão

Plano

  1. O que é a Contabilidade e para que serve
  2. O Sistema de Normalização Contabilística (SNC)
  3. Normas contabilísticas e relato financeiro
  4. Balanço, património e a equação fundamental
  5. O código de contas — as 8 classes
  6. Débito e crédito — a lógica das contas
  7. O método das partidas dobradas
  8. Lançamentos contabilísticos passo-a-passo
  9. Documentos, diário e razão
  10. Balancete de verificação
  11. Demonstração de resultados
  12. Erros comuns e normas aplicáveis

Bloco 1 · Contabilidade e SNC

O que é a Contabilidade

A Contabilidade regista, de forma organizada, todos os factos económicos de uma empresa (compras, vendas, pagamentos, recebimentos) para produzir informação fiável.

  • Para quem? Gestores, sócios, Estado (impostos), bancos, fornecedores.
  • Objetivo: saber quanto a empresa tem (património), quanto deve, e se ganha ou perde dinheiro.
  • É obrigatória por lei para quase todas as empresas.

Regra de ouro: nada se regista sem documento (fatura, recibo, extrato).

O Sistema de Normalização Contabilística (SNC)

O SNC é o conjunto de regras que todas as empresas em Portugal usam para fazer contabilidade. Foi aprovado pelo Decreto-Lei n.º 158/2009 e baseia-se nas normas internacionais (IAS/IFRS).

Componentes principais:

Componente O que define
Estrutura Conceptual conceitos-base (ativo, passivo, gasto…)
NCRF normas de relato financeiro
Código de Contas a lista numerada de todas as contas
Modelos Balanço, Demonstração de Resultados

Porquê normalizar? Para que as contas de qualquer empresa sejam comparáveis e compreensíveis.

Relato financeiro e as NCRF

O relato financeiro é a comunicação da situação da empresa através das demonstrações financeiras.

As NCRF (Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro) dizem como reconhecer e medir cada facto. Princípios que herdamos delas:

  • Regime do acréscimo — regista-se quando o facto acontece, não quando se paga.
  • Continuidade — a empresa vai continuar a operar.
  • Prudência — não sobreavaliar ativos nem esconder gastos.
  • Materialidade, fiabilidade e comparabilidade.

Bloco 2 · Património e código de contas

O património e a equação fundamental

O património é tudo o que a empresa tem e deve, em três blocos:

  • Ativo — bens e direitos (caixa, clientes, equipamento, inventário).
  • Passivo — obrigações (fornecedores, empréstimos, impostos a pagar).
  • Capital Próprio — o que "sobra" para os donos.

ó

Esta igualdade nunca se quebra — é a base de tudo. Se um lado muda, o outro acompanha.

As 8 classes do código de contas

Cada conta tem um código numérico. O 1.º dígito indica a classe:

Classe Nome Exemplos
1 Meios financeiros líquidos Caixa, Depósitos
2 Contas a receber e a pagar Clientes, Fornecedores, Estado
3 Inventários e ativos biológicos Mercadorias, Matérias-primas
4 Investimentos Ativos fixos tangíveis
5 Capital, reservas, res. transitados Capital, Reservas
6 Gastos Compras, Salários, Rendas
7 Rendimentos Vendas, Prestação de serviços
8 Resultados Resultado líquido

Contas desdobradas (o zoom)

As contas desdobram-se por níveis, acrescentando dígitos — do geral para o particular:

2      Contas a receber e a pagar
 21    Clientes
  211  Clientes c/c (conta-corrente)
   2111  Cliente "Padaria Sol, Lda."
  • Quanto mais dígitos, mais detalhe.
  • Códigos-chave a memorizar: 11 Caixa · 12 Depósitos · 21 Clientes · 22 Fornecedores · 31 Compras/Mercadorias · 43 Ativos fixos tangíveis · 51 Capital · 61 CMVMC · 71 Vendas.

Bloco 3 · Débito, crédito e partidas dobradas

Débito e crédito — a razão-T

Cada conta tem dois lados: débito (esquerda) e crédito (direita). Representamos por um T:

        21 · Clientes
   Débito  |  Crédito
   ---------|---------
    1 000   |

Não confundir com "positivo/negativo". Débito e crédito são apenas lados. O que muda é qual lado faz a conta aumentar, e isso depende da natureza da conta.

A regra de ouro do débito/crédito

Tipo de conta Aumenta a… Diminui a…
Ativo (classes 1,2*,3,4) Débito Crédito
Passivo (classe 2*) Crédito Débito
Capital Próprio (classe 5) Crédito Débito
Gastos (classe 6) Débito Crédito
Rendimentos (classe 7) Crédito Débito

*A classe 2 tem contas de ativo (Clientes) e de passivo (Fornecedores).

Truque: "A GA D"Ativos e GAstos aumentam a Débito.

Método das partidas dobradas

O princípio central da contabilidade:

Todo o lançamento tem, no mínimo, uma conta a débito e outra a crédito, e o total dos débitos é sempre igual ao total dos créditos.

  • Reflete que cada facto tem duas faces: uma origem e uma aplicação de recursos.
  • Exemplo: pagar uma renda → sai dinheiro (crédito na Caixa) e nasce um gasto (débito em Rendas).
  • Se débitos ≠ créditos, há erro — garantido.

Bloco 4 · Lançamentos

Lançar em 4 passos

Para cada documento, pergunta sempre:

  1. Que contas mexem? (identifica-as)
  2. Que natureza têm? (ativo, passivo, gasto…)
  3. Aumentam ou diminuem?
  4. Logo, débito ou crédito? (aplica a regra de ouro)

O resultado é um lançamento com valores iguais dos dois lados.

Exemplo resolvido · Venda a dinheiro

Facto: vendemos mercadoria por 500 €, recebidos em caixa.

Passo Análise
Contas Caixa (11) e Vendas (71)
Natureza Caixa = ativo · Vendas = rendimento
Movimento Caixa aumenta · Vendas aumenta
Lado Ativo↑ = Débito · Rendimento↑ = Crédito
Débito:  11 Caixa .............. 500
Crédito:   71 Vendas ............... 500

Exemplo resolvido · Compra a crédito

Facto: compramos mercadoria por 300 €, a pagar a 30 dias.

  • Compras (31) — gasto/inventário → aumentaDébito
  • Fornecedores (22) — passivo → aumenta (passámos a dever) → Crédito
Débito:  31 Compras ........... 300
Crédito:   22 Fornecedores ........ 300

Repara: não houve saída de dinheiro. O regime do acréscimo regista já a compra e a dívida.

Bloco 5 · Livros e mapas contabilísticos

Livro Diário e Livro Razão

Todos os lançamentos vivem em dois livros obrigatórios:

  • Diário — regista os factos por ordem cronológica (lançamento a lançamento, com data e documento).
  • Razão — organiza os mesmos movimentos por conta (a "razão-T" de cada conta), para ver o saldo de cada uma.

Do Diário → passa-se ao Razão. O Razão dá o saldo de cada conta.

O Balancete de verificação

O balancete lista todas as contas com os totais de débito, crédito e o saldo. Serve para confirmar que a contabilidade está equilibrada.

Conta Déb. Créd. Saldo Dev. Saldo Cred.
11 Caixa 500 300 200
22 Fornec. 300 300
Totais X X Y Y

Somas iguais = partidas dobradas respeitadas. Diferentes = há erro.

Balanço e Demonstração de Resultados

Dois mapas finais, feitos a partir dos saldos:

  • Balanço — "fotografia" do património numa data: Ativo = Passivo + Capital Próprio.
  • Demonstração de Resultados (DR) — o "filme" de um período: Rendimentos − Gastos = Resultado.
Resultado Líquido = Rendimentos (classe 7) − Gastos (classe 6)

Resultado positivo = lucro · negativo = prejuízo.

Normas e boas práticas

  • Registar sempre com documento e por ordem de data.
  • Respeitar o plano de contas (não inventar códigos).
  • Conservar os documentos e livros pelo prazo legal (regra: 10 anos).
  • A informação deve ser fiável, relevante e comparável.
  • O software (ex.: um ERP) automatiza, mas quem lança tem de perceber a lógica.

Erros comuns

  • Trocar débito com crédito (esquecer a regra de ouro).
  • Lançamento não equilibrado (débitos ≠ créditos).
  • Confundir classe 6 (gastos) com classe 2 (dívidas).
  • Registar pela data do pagamento em vez da data do facto.
  • Usar códigos fora do plano de contas.

Síntese

  • O SNC normaliza a contabilidade em Portugal (DL 158/2009, base IAS/IFRS).
  • O código de contas tem 8 classes; o 1.º dígito dá a classe.
  • Ativo = Passivo + Capital Próprio — nunca se quebra.
  • Partidas dobradas: débitos = créditos, sempre.
  • Do Diário/RazãoBalanceteBalanço e DR.

UC00883 · concluída

Já consegues: movimentar contas do SNC, fazer lançamentos e elaborar mapas contabilísticos.