UC00234

Reparar sistemas de carga e arranque

Bateria, alternador, motor de arranque e a eletrónica que os comanda — diagnóstico, reparação e ensaio

Curso profissional · 25h · Técnico/a de Mecatrónica Automóvel

Plano

  1. Papel do sistema elétrico no automóvel
  2. A bateria: química, grandezas e estados
  3. Ensaios à bateria (tensão, densidade, carga)
  4. O sistema de carga: alternador e regulador
  5. Dentro do alternador: estator, rotor, díodos
  6. Regulação de tensão e alternadores "inteligentes"
  7. O sistema de arranque: motor e relé/solenoide
  8. Circuitos elétricos e eletrónicos automóvel
  9. Medição: multímetro, pinça amperimétrica, osciloscópio
  10. Diagnóstico de avarias de carga e arranque
  11. Ensaios de funcionamento e valores de referência
  12. Segurança, reparação e registo

1 · Papel do sistema elétrico

  • Sem energia elétrica, o carro não arranca nem funciona: gestão do motor, luzes, conforto e segurança dependem dela.
  • Três blocos ligados entre si:
    • Armazenamento → a bateria (fonte com o motor parado).
    • Geração → o alternador (repõe a energia com o motor a trabalhar).
    • Consumo/arranque → o motor de arranque (o maior consumidor pontual) e todos os recetores.
  • Regra de ouro: a bateria arranca o carro; o alternador mantém o carro e recarrega a bateria.
  • Uma avaria "elétrica" costuma ser de carga, de arranque ou de ligações/massas — o método distingue-as.

2 · A bateria (I): o que é

  • Bateria de chumbo-ácido: 6 células em série × 2,1 V ≈ 12,6 V (bateria "de 12 V").
  • Guarda energia por reação química reversível:
    • Descarga: placas + eletrólito → sulfato de chumbo + água (tensão desce).
    • Carga: o alternador inverte a reação e restaura as placas.
  • Tipos: líquida (flooded), EFB e AGM (start-stop, mais resistentes a ciclos).
  • Nunca misturar tecnologias nem codificação: uma AGM exige registo/codificação da bateria na gestão de carga.

2 · A bateria (II): grandezas

Grandeza Significa Onde se lê
Tensão nominal 12 V (12,6 V em repouso, carregada) multímetro
Capacidade (Ah) energia armazenada rótulo
CCA / A(EN) corrente de arranque a frio rótulo
Estado de carga (SoC) % de carga atual tensão/densidade
Estado de saúde (SoH) "saúde" vs. bateria nova tester de carga
  • Tensão em repouso (≥ 30 min sem carga) diz o SoC; a prova de carga diz o SoH.

3 · Ensaios à bateria

  • Tensão em repouso (multímetro): 12,6 V ≈ 100%, 12,2 V ≈ 50%, < 12,0 V descarregada.
  • Densidade do eletrólito (só nas líquidas, densímetro): 1,28 kg/L carregada; queda uniforme = descarregada; uma célula em baixo = célula em curto (bateria morta).
  • Prova de carga (tester eletrónico ou de descarga): aplica CCA e vê se a tensão se mantém; melhor teste do SoH.
  • Teste de arranque real: durante o arranque a tensão não deve cair abaixo de ~9,6 V (a 20 °C).

4 · O sistema de carga

  • Enquanto o motor trabalha, o alternador gera eletricidade e alimenta tudo + recarrega a bateria.
  • Ligações típicas:
    • B+ → borne grosso à bateria (corrente de carga).
    • D+ / L → luz de avaria da bateria no quadro.
    • Terminal de controlo (LIN/COM) nos alternadores inteligentes, comandados pela UCE.
  • Sinal de carga saudável (motor a trabalhar): 13,8 – 14,8 V aos bornes da bateria.
  • Luz da bateria acesa em andamento = suspeita imediata de falha de carga.

5 · Dentro do alternador

  • Rotor (indutor): eletroíman alimentado pelas escovas e anéis coletores → cria o campo.
  • Estator (induzido): 3 enrolamentos onde se gera corrente alternada trifásica.
  • Ponte retificadora (6+ díodos): converte AC → DC para o carro.
  • Regulador de tensão: controla a corrente do rotor para manter a tensão estável.
  • Polia (muitas com roda livre / OAP) e ventilação.
  • Avarias típicas: escovas gastas, díodo em curto/aberto, regulador avariado, rolamentos.

6 · Regulação de tensão

  • O alternador gera mais quanto mais depressa roda e mais campo tem no rotor.
  • O regulador ajusta a corrente do rotor para manter a saída ~14,4 V, independentemente das rotações e da carga.
  • Alternador inteligente (charge management): a UCE manda o alvo de tensão por LIN/BSS:
    • travagem/desaceleração → carrega mais (recuperação de energia);
    • aceleração → alivia o alternador (menos consumo, menos gasóleo).
  • Por isso, num carro moderno, a tensão de carga varia de propósito — é preciso ler o sensor de bateria (IBS/BMS) com scanner.

7 · O sistema de arranque

  • Ao rodar a chave/premir Start:
    1. A UCE/interruptor alimenta o solenoide do motor de arranque.
    2. O solenoide empurra o pinhão (Bendix) contra a cremalheira do volante e fecha o contacto de potência.
    3. O motor de arranque (elétrico, alto consumo, 80–300 A) faz girar o motor até pegar.
  • Componentes: motor de arranque, solenoide/relé, cabo grosso B+, massa do motor, imobilizador e condições de segurança (embraiagem/ponto morto).
  • Sintomas: "clique" sem rodar, roda devagar, não faz nada, ruído metálico (pinhão/cremalheira).

8 · Circuitos elétricos e eletrónicos

  • Lei de Ohm: U = R × I. Uma resistência parasita (ligação suja, massa má) cria queda de tensão e "come" corrente ao arranque.
  • Série vs. paralelo; fusíveis e relés protegem e comandam.
  • Queda de tensão é a medição-rainha: mede-se com o circuito a funcionar (não em vazio).
  • Massas (GND) são causa nº 1 de avarias intermitentes: uma massa má simula "mil avarias".
  • Redes LIN/CAN ligam sensor de bateria, alternador e UCE — sem elas, a gestão de carga "cega".

9 · Medição: as ferramentas

Ferramenta Mede Uso típico
Multímetro V, Ω, continuidade tensão de repouso, carga, quedas
Pinça amperimétrica DC corrente sem cortar o fio consumo de arranque, fuga parasita
Tester de bateria CCA/SoH saúde da bateria
Osciloscópio forma de onda ripple dos díodos, sinais
Scanner/EOBD DTC, live data IBS, alvo de carga, codificação
  • Ripple AC alto na saída do alternador = díodo avariado.

10 · Diagnóstico (método)

  1. Ouvir o cliente e reproduzir o sintoma (não arranca? luz acesa? bateria descarrega?).
  2. Ver o óbvio: bornes, tensão da correia, fusíveis, cabos e massas.
  3. Medir a bateria (repouso + carga) — sem bateria sã não se diagnostica o resto.
  4. Medir a carga (13,8–14,8 V a trabalhar; ripple).
  5. Medir o arranque (queda no B+, na massa, consumo com pinça).
  6. Ler DTC/live data (IBS, alvo de tensão, imobilizador).
  7. Concluir com dados e comparar com a referência do fabricante.

11 · Ensaios e valores de referência

Ensaio Como Referência típica
Repouso da bateria multímetro, ≥ 30 min parada 12,6 V ≈ 100%
Carga (motor a trabalhar) bornes, ~2000 rpm 13,8 – 14,8 V
Arranque (tensão) bornes durante o arranque ≥ 9,6 V
Queda no positivo ponta a ponta com corrente < 0,5 V
Queda na massa motor↔carroçaria/− bateria < 0,2 V
Fuga parasita pinça/mA, tudo a dormir < 30–50 mA
Ripple do alternador osciloscópio/AC < ~0,1 V AC

12 · Segurança e reparação

  • Ordem ao desligar a bateria: primeiro o negativo (−), depois o positivo; ao ligar, inverso.
  • A bateria liberta hidrogénio (explosivo) e contém ácido: EPI, sem chamas/faíscas.
  • Curto-circuito do B+ à massa = arco e queimaduras — cuidado com ferramentas.
  • Registar/codificar a bateria nova (AGM/EFB, start-stop) para a gestão de carga funcionar.
  • Binários corretos nos bornes e ligações; massas limpas e apertadas.
  • Registo: medições, peças, codificação e resultado do ensaio.

Síntese

  • Bateria guarda, alternador gera e recarrega, motor de arranque roda o motor.
  • Diagnóstico com método e medição: repouso → carga → arranque → quedas → DTC.
  • Valores-chave: 12,6 V repouso, 13,8–14,8 V carga, ≥ 9,6 V no arranque, quedas < 0,5/0,2 V.
  • Nos carros modernos a UCE gere a carga (alternador inteligente + IBS) — é preciso scanner.
  • Segurança e registo/codificação fazem parte da reparação, não são opcionais.

Fim

UC00234 · Reparar sistemas de carga e arranque

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