UC00054

Atuar em situações de emergência em hotelaria e restauração

SIEM, protocolos de emergência, Suporte Básico de Vida, DAE e primeiros socorros

Curso profissional · 25h · Cozinha e Restauração

Plano

  1. Situações de emergência na hotelaria e restauração
  2. O Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM)
  3. Protocolos de atuação (doença, acidente, incêndio, evacuação)
  4. Segurança do local, da vítima e do socorrista
  5. Exame primário e exame secundário
  6. Cadeia de sobrevivência (adulto e pediátrica)
  7. Suporte Básico de Vida (SBV) adulto
  8. SBV pediátrico e desobstrução da via aérea
  9. Posição lateral de segurança
  10. SBV com Desfibrilhador Automático Externo (DAE)
  11. Primeiros socorros — doença súbita e acidente
  12. Emergências por zona do estabelecimento

Bloco 1 · Emergências e o SIEM

O que é uma situação de emergência

Uma situação de emergência é qualquer ocorrência súbita que ameaça a vida, a integridade física ou a segurança de pessoas e exige uma resposta imediata.

  • Na hotelaria e restauração são frequentes: queimaduras, cortes, quedas, engasgamentos, desmaios, enfartes, incêndios.
  • Princípio-chave: manter a calma, garantir a segurança e ativar o socorro rapidamente.
  • Distinguem-se dois âmbitos de intervenção:
    • Intervenção geral — qualquer trabalhador (leigo): dar o alerta, prestar os primeiros socorros, iniciar SBV.
    • Técnicos especializados — INEM, bombeiros, médicos: cuidados avançados.

O trabalhador não substitui os profissionais — inicia a cadeia e ganha tempo.

Tipos de emergência

Tipo Exemplos na hotelaria/restauração
Doença súbita Enfarte, AVC, crise de asma, desmaio, convulsão, hipoglicemia
Acidente Queimadura, corte, queda, fratura, eletrização, intoxicação
Engasgamento Obstrução da via aérea por comida (adulto/criança)
Incêndio Fritadeira, gás, elétrico — exige evacuação
Coletiva Intoxicação alimentar em massa, evacuação do edifício

Cada tipo tem um protocolo próprio, mas todos começam pela segurança e pelo alerta.

O Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM)

O SIEM é o conjunto de meios e entidades que garantem, em Portugal, o socorro a vítimas de doença súbita ou acidente. É coordenado pelo INEM.

Funciona como um percurso que começa no cidadão e termina no hospital:

Cidadão (deteção + alerta 112)
   → CODU (triagem médica ao telefone)
      → Meios de socorro (ambulância, VMER, SIV, motas)
         → Unidade de saúde (hospital)
  • 112 — Número Europeu de Emergência (encaminha para o CODU).
  • CODU — Centro de Orientação de Doentes Urgentes: dá instruções enquanto o socorro não chega.

Ligar 112 — o que dizer

Ao ligar 112, mantém-te calmo e responde às perguntas do operador. Nunca desligues primeiro.

  • Onde — localização exata (morada, ponto de referência, andar).
  • O quê — o que aconteceu (queda, desmaio, engasgamento…).
  • Quantas vítimas e o seu estado (consciente? respira?).
  • Quem — o teu nome e o número de telefone.
  • Riscos — fogo, gás, químicos, trânsito.

Segue as instruções do CODU e só desliga quando o operador disser. Envia alguém para receber e guiar a ambulância.

Bloco 2 · Protocolos e segurança

Protocolos de atuação — visão geral

Em qualquer emergência aplica-se sempre a mesma sequência de arranque:

  1. Proteger — garantir a segurança (do local, da vítima e de ti próprio).
  2. Examinar — avaliar rapidamente o estado da vítima.
  3. Alertar — ligar 112 (ou pedir a alguém que ligue).
  4. Socorrer — prestar os primeiros socorros até o socorro chegar.

Regra mnemónica: PEASProteger, Examinar, Alertar, Socorrer.

Protocolo · doença súbita e acidente

Doença súbita (enfarte, AVC, desmaio, convulsão):

  • Deitar/sentar a vítima confortável; não dar comida nem bebida.
  • Perguntar sintomas; observar consciência e respiração.
  • Ligar 112 e seguir instruções.

Acidente (queda, corte, queimadura):

  • Não mexer desnecessariamente a vítima (suspeita de coluna).
  • Estancar hemorragias, arrefecer queimaduras, imobilizar fraturas.
  • Ligar 112 se for grave.

Protocolo · incêndio e evacuação

Incêndio:

  1. Dar o alarme e ligar 112 / 117 (bombeiros).
  2. Cortar a energia/gás da zona, se seguro.
  3. Combater um foco pequeno com o extintor adequado (nunca água em óleo/eletricidade).
  4. Se alastra — sair e fechar portas atrás de si.

Evacuação:

  • Sair pela saída de emergência mais próxima, sem correr, sem voltar atrás.
  • Não usar elevadores.
  • Dirigir-se ao ponto de encontro e fazer a contagem de pessoas.
  • Ajudar clientes com mobilidade reduzida.

Segurança do socorrista, da vítima e do local

Antes de tocar na vítima, avalia os riscos — um socorrista ferido deixa de poder ajudar.

  • Local — fogo, gás, químicos, eletricidade, trânsito, chão molhado? Elimina ou afasta o perigo.
  • Socorrista — usa luvas, evita contacto com sangue/fluidos, cuidado com objetos cortantes.
  • Vítima — só a mover se houver perigo iminente; suspeita sempre de lesão da coluna em quedas.

Ordem de prioridade: eu → o local → a vítima. Nunca te tornes a segunda vítima.

Exame primário e exame secundário

Exame primário — deteta o que mata em minutos. Segue o ABC:

Verificar Se falha
A — Via aérea Está desobstruída? Desobstruir
B — Respiração Respira normalmente? Iniciar SBV
C — Circulação Há hemorragia grave? Estancar

Avalia primeiro a consciência ("Está a ouvir-me?") e chama ajuda.

Exame secundário — só depois de estabilizar: observar da cabeça aos pés, recolher história (o que aconteceu, alergias, medicação), sinais e sintomas. Vigiar até o socorro chegar.

Bloco 3 · Suporte Básico de Vida

Cadeia de sobrevivência

A cadeia de sobrevivência são os elos que, encadeados e rápidos, aumentam a hipótese de sobreviver a uma paragem cardiorrespiratória (PCR). Cada elo depende do anterior.

Adulto:

  1. Reconhecer e pedir ajuda cedo (112).
  2. SBV precoce — compressões torácicas de imediato.
  3. Desfibrilhação precoce (DAE).
  4. Cuidados pós-reanimação (equipa avançada).

Pediátrica: o primeiro elo é a prevenção (a maioria das PCR na criança começa por falta de oxigénio), seguido de SBV precoce, alerta e cuidados avançados.

Algoritmo de SBV — adulto

  1. Segurança do local.
  2. Avaliar consciência — abanar os ombros e perguntar em voz alta.
  3. Se não respondegritar por ajuda.
  4. Abrir a via aérea (extensão da cabeça + elevação do queixo).
  5. VER, OUVIR e SENTIR a respiração — máx. 10 segundos.
  6. Se não respira normalmenteligar 112 (alta voz) e pedir DAE.
  7. 30 compressões : 2 insuflações.

"Gasping" (respiração agónica) não é respiração normal — trata como PCR.

Compressões torácicas de qualidade

As compressões são o mais importante do SBV — mantêm sangue a chegar ao cérebro.

Parâmetro Adulto
Local Centro do tórax (metade inferior do esterno)
Profundidade 5–6 cm
Ritmo 100–120/min
Reexpansão Deixar o tórax voltar entre compressões
Interrupções Minimizar (< 10 s)

Braços esticados, ombros sobre as mãos, peso do corpo. Trocar de reanimador a cada 2 minutos para não perder qualidade.

SBV pediátrico

Na criança e no bebé a PCR resulta quase sempre de falta de oxigénio, por isso o algoritmo dá prioridade à ventilação.

  • Começar com 5 insuflações iniciais antes das compressões.
  • Depois 15 compressões : 2 insuflações.
  • Profundidade: cerca de 1/3 do diâmetro do tórax.
  • Bebé (< 1 ano): compressões com 2 dedos (ou 2 polegares).
  • Criança: 1 ou 2 mãos, conforme o tamanho.
  • Se estás sozinho, faz 1 minuto de SBV antes de ligar 112.

Desobstrução da via aérea (engasgamento)

Obstrução ligeira (tosse eficaz, fala): incentivar a tossir, não bater nas costas.

Obstrução grave (não fala, não tosse, fica cianosado):

  • Adulto/criança: 5 pancadas interescapulares + 5 compressões abdominais (manobra de Heimlich), alternadas.
  • Bebé (< 1 ano): 5 pancadas nas costas + 5 compressões torácicas (nunca abdominais).
  • Se a vítima fica inconsciente → deitar no chão, ligar 112 e iniciar SBV.

Posição lateral de segurança (PLS)

Usa-se quando a vítima está inconsciente mas respira normalmente. Mantém a via aérea aberta e evita que se engasgue com vómito ou a própria língua.

  1. Braço mais próximo em ângulo reto, palma para cima.
  2. Outro braço cruzado, mão contra a face.
  3. Dobrar a perna mais afastada e rolar a vítima para o teu lado.
  4. Ajustar a cabeça para trás, boca voltada para baixo.
  5. Vigiar a respiração e ligar 112.

Nunca usar PLS se houver suspeita de lesão da coluna (a menos que seja preciso libertar a via aérea).

Bloco 4 · DAE e primeiros socorros

O que é o DAE

O Desfibrilhador Automático Externo (DAE) é um aparelho que analisa o ritmo do coração e, se necessário, aplica um choque para o reorganizar. É seguro e guiado por voz — qualquer pessoa o pode usar.

  • Cada minuto sem desfibrilhação reduz a sobrevivência em ≈ 10%.
  • Não substitui as compressões — complementa-as.
  • Em Portugal existe o programa DAE em acesso público (aeroportos, centros comerciais, hotéis).

Algoritmo de SBV com DAE

  1. Iniciar SBV (30:2) e pedir o DAE.
  2. Ligar o DAE assim que chega e seguir as instruções de voz.
  3. Colar os elétrodos no tórax nu (esquema no aparelho).
  4. Enquanto analisaninguém toca na vítima.
  5. Se choque indicado → afastar todos ("afastem-se!") e premir o botão.
  6. Retomar de imediato as compressões durante 2 minutos, até nova análise.
  7. Continuar até a vítima recuperar, chegar o socorro ou o DAE indicar.

Regras de segurança com o DAE

  • Ninguém toca na vítima durante a análise nem no choque.
  • Tórax seco — se estiver molhado, secar antes de colar os elétrodos.
  • Afastar de superfícies metálicas e de água.
  • Remover adesivos de medicação (nitroglicerina) e afastar dos pacemakers.
  • Elétrodos pediátricos (ou modo pediátrico) para crianças < 8 anos; se não houver, usar os de adulto.
  • Não desligar o DAE nem retirar os elétrodos até a equipa assumir.

Primeiros socorros — doença súbita

Situação Sinais Atuação
Enfarte Dor no peito, suor, falta de ar Sentar, acalmar, 112, repouso
AVC Boca torta, fraqueza num lado, fala arrastada 112 urgente (teste "3 F")
Desmaio Palidez, perda breve de consciência Deitar, elevar as pernas
Convulsão Movimentos, rigidez Proteger a cabeça, não segurar, PLS depois
Hipoglicemia Tremor, confusão, suor Se consciente, dar açúcar
Asma Pieira, dificuldade em respirar Sentar, ajudar com o inalador

Primeiros socorros — acidente

Situação Atuação
Queimadura Arrefecer com água corrente 10–20 min; não rebentar bolhas; cobrir
Corte/hemorragia Compressão direta com pano limpo; elevar o membro
Fratura Imobilizar na posição encontrada; não endireitar
Queda / suspeita coluna Não mexer; estabilizar a cabeça; 112
Eletrização Cortar a corrente antes de tocar; 112; SBV se preciso
Intoxicação 112 / Centro de Informação Antivenenos; não provocar vómito

Emergências por zona do estabelecimento

  • Receção e andares — desmaios, quedas de idosos, mal-estar de hóspedes, alergias.
  • Cozinhaqueimaduras, cortes, quedas, incêndio de fritadeira, inalação de fumos.
  • Bar e restauranteengasgamentos, cortes com vidro, reações alérgicas, embriaguez.
  • Spa — desmaios com o calor, escorregadelas, reações a produtos.
  • Lazer e desporto — traumatismos, entorses, afogamento (piscina).

Conhecer os riscos de cada zona permite prevenir e reagir mais depressa.

Síntese

  • Toda a emergência segue PEAS: Proteger, Examinar, Alertar (112), Socorrer.
  • O SIEM liga o cidadão ao hospital; o CODU dá instruções ao telefone.
  • No exame primário segue o ABC; a cadeia de sobrevivência salva vidas.
  • SBV adulto: 30:2, 5–6 cm, 100–120/min. Pediátrico: 5 insuflações + 15:2.
  • O DAE desfibrila cedo — segue a voz e garante a segurança.
  • Primeiros socorros: arrefecer queimaduras, comprimir hemorragias, imobilizar fraturas, não mexer em suspeita de coluna.

Fim

UC00054 · Atuar em situações de emergência em hotelaria e restauração