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UC · Unidade de Competência · UC05431

Sebenta · Projetar placas molde para fundição (UC05431)

Do desenho técnico da peça ao sistema de gitagem e alimentação, passando pela linha de apartação, saídas, contrações e machos
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Projeto de Moldes e Mod ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a projetar placas molde para fundição em areia, a etapa que transforma o desenho de uma peça na ferramenta física que a oficina usa para a produzir em série. É um trabalho de precisão: cada decisão do projetista, uma linha de apartação, um ângulo de saída, uma percentagem de contração, condiciona diretamente a qualidade da peça fundida.

O percurso é o de um técnico de projeto de moldes e modelos real: primeiro analisa-se o desenho técnico da peça e a tecnologia de fundição envolvida, depois define-se o tipo de molde e desenha-se a placa molde com todas as correções geométricas necessárias (linha de apartação, saídas, contração, sobreespessuras), acrescentam-se os postiços e machos, projeta-se o sistema de alimentação e gitagem, valida-se tudo com simulação do enchimento, e cumprem-se sempre as normas de segurança, ambiente e qualidade.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar o desenho técnico; definir e desenhar as partes que constituem o molde; projetar o sistema de alimentação e gitagem; e cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho, de proteção individual, de gestão de resíduos, de proteção ambiental e da qualidade.

1. Analisar o desenho técnico da peça

Todo o projeto de um molde para fundição começa por analisar o desenho técnico da peça a fundir. Sem esta leitura cuidada, nenhuma decisão seguinte tem uma base sólida.

Ler o desenho técnico de uma peça fundida significa responder, de forma sistemática, a estas perguntas:

Exemplo resolvido

Uma peça de torneira de latão, com uma sede de vedação cilíndrica interna (tolerância apertada) e um corpo exterior roscado (menos crítico):

  1. Material: latão, contração ≈ 1,5%.
  2. Superfície funcional: a sede de vedação, precisa de sobreespessura de maquinação.
  3. Cavidade interna: exige um macho para o furo passante.
  4. Orientação: vazamento com a sede de vedação virada para baixo, para minimizar defeitos de porosidade nessa zona crítica.

Cada uma destas quatro respostas alimenta diretamente um dos blocos seguintes desta sebenta.

Antes de desenhar qualquer linha do molde, faz sempre esta lista de quatro perguntas sobre a peça. É o hábito profissional que evita retrabalho.

2. Tecnologia de fundição

Fundição é o processo de obter uma peça vazando metal líquido para dentro de uma cavidade com a forma pretendida (o molde) e deixando-o solidificar. É uma das tecnologias de fabrico mais antigas, e continua a ser insubstituível para formas complexas ou peças de grande dimensão.

Existem várias famílias de processos de fundição, cada uma com moldes e economia diferentes:

Processo Tipo de molde Uso típico
Fundição em areia perdido, um por peça séries curtas e médias, peças grandes
Fundição em coquilha metálico, permanente séries médias e grandes, boa precisão
Injeção sob pressão metálico, permanente zamak e alumínio, grandes séries
Cera perdida (microfusão) perdido, alta precisão geometrias complexas, pequenas séries

Esta UC centra-se na fundição em areia com placa molde, o processo mais comum na indústria portuguesa de moldes e modelos, e onde faz sentido investir numa placa molde reutilizável para produzir muitas peças iguais.

Ligas fundidas mais comuns

A liga escolhida determina não só a contração (ver capítulo 7), mas também a temperatura de vazamento, o tempo de solidificação e o próprio dimensionamento da gitagem.

3. Processos de moldação

Moldar é compactar areia (ou outro material) em torno de um modelo para reproduzir a sua forma em negativo, obtendo o molde. É um processo distinto de fundir: moldar prepara a cavidade, fundir vaza e solidifica o metal dentro dela.

Principais processos de moldação em areia

Exemplo resolvido: sequência de moldação com placa molde

  1. Fixar o modelo (ou os postiços) sobre a placa molde.
  2. Colocar a caixa de moldação do fecho inferior sobre a placa e compactar a areia.
  3. Voltar o conjunto, retirar a placa molde e repetir o processo para o fecho superior.
  4. Abrir os canais de gitagem no molde e colocar os machos necessários.
  5. Fechar as duas metades (fecho inferior e superior) e vazar o metal pela bacia de vazamento.

Numa oficina de fundição de pequena série em Portugal, é frequente ver-se areia verde a ser reutilizada dezenas de vezes: depois de a peça arrefecer, a areia é desmoronada, peneirada e volta ao circuito de moldação.

4. Tipos de molde e a placa molde

Definir o tipo de molde é uma decisão de projeto tão importante como a análise do desenho técnico: a escolha certa evita retrabalho e custo desnecessário no resto do projeto.

Tipos de molde

A escolha cruza a geometria da peça, o volume de produção previsto e o processo de moldação.

A placa molde

A placa molde é a placa, geralmente em madeira, resina ou alumínio, onde estão fixados o modelo (ou uma parte dele) e o sistema de gitagem, usada para compactar a areia de forma repetível e normalizada.

Uma placa molde mal dimensionada só se descobre depois de fabricada, quando já custou horas de oficina. Verificar o desenho e a lista de materiais antes de aprovar o fabrico é obrigatório, não opcional.

5. Normas de desenho e projeto de moldes

O desenho de moldes segue as normas gerais de desenho técnico (projeções ortogonais, cotagem, escalas, tipos de linha), acrescidas de convenções específicas da fundição.

Convenções específicas do desenho de moldes

Conjuntos e detalhes

Um projeto de molde completo representa sempre dois níveis:

Sem o desenho de detalhe, a oficina não consegue produzir cada peça isolada da placa molde: o desenho de conjunto mostra o resultado, mas não chega para fabricar.

6. A linha de apartação, saídas e sobreespessuras

Depois de definido o tipo de molde, três decisões geométricas ligadas moldam a forma final do projeto.

A linha de apartação

A linha de apartação é a linha (ou superfície) onde o molde se divide em duas metades, para permitir retirar o modelo e, mais tarde, a peça. Critérios para a escolher:

  1. Passar, sempre que possível, pela maior secção da peça.
  2. Ser plana, para facilitar o fabrico da placa molde. Apartações irregulares complicam tudo o resto.
  3. Minimizar o número de machos necessários.
  4. Evitar contra-saídas: zonas que impediriam a extração direta do modelo.

Uma linha de apartação mal escolhida é o erro que mais compromete um projeto de molde, porque condiciona todas as decisões seguintes.

As saídas de desmoldagem

As saídas (ou ângulos de saída) são a inclinação dada às paredes do modelo, paralelas à direção de extração, para que este saia da areia compactada sem a desmoronar.

Zona Ângulo típico
Paredes externas, moldação em areia 1° a 2°
Paredes internas (machos) 2° a 3°
Paredes muito curtas valores maiores
Moldação de precisão (cura a frio) valores no limite inferior

Exemplo resolvido: cálculo de uma saída

Uma nervura de 40 mm de altura, moldada em areia verde, leva uma saída de 1,5°. O desvio dimensional na base é:

40 × tan(1,5°) ≈ 40 × 0,0262 ≈ 1,05 mm

Este valor tem de caber dentro da sobreespessura de maquinação prevista para essa zona (ver capítulo seguinte), senão a saída "come" tolerância que era preciso para maquinar.

7. Contração e sobreespessuras de maquinação

Estas duas correções resolvem problemas diferentes e são, por isso, a fonte mais comum de erro em projetos de moldes iniciantes.

Contração dos materiais

Ao arrefecer, o metal líquido contrai: passa de líquido a sólido e depois arrefece até à temperatura ambiente, perdendo volume em cada uma das fases. A contração que se corrige no molde é a contração linear no estado sólido, a que ocorre depois de o metal já ter solidificado, e é essa que se compensa diretamente no modelo (e, por isso, na placa molde). A contração de solidificação, volumétrica, não se corrige no modelo: é compensada pelo massalote.

Liga Contração linear típica
Ferro fundido cinzento 1,0 %
Aço fundido 2,0 %
Alumínio e ligas 1,3 %
Bronze e latão 1,5 %

Exemplo resolvido

Uma peça em alumínio tem, no desenho final, um comprimento de 250 mm. Com uma contração de 1,3%, o modelo (e a placa molde) tem de ser construído com:

250 + (250 × 0,013) = 250 + 3,25 = 253,25 mm

É esta cota corrigida, e não os 250 mm da peça acabada, que vai para o desenho técnico da placa molde. O mesmo cálculo aplica-se a todas as direções da peça, não só ao comprimento.

Sobreespessuras de maquinação

A sobreespessura de maquinação é material extra deixado nas superfícies funcionais, com tolerâncias apertadas, que vão ser maquinadas depois de fundidas. Garante que a maquinação tem material suficiente para remover imperfeições superficiais e chegar à cota final.

Situação Sobreespessura típica
Superfícies laterais, peça pequena 2 a 3 mm
Superfícies superiores (mais defeitos) 3 a 5 mm
Peças de grande dimensão valores maiores
Fundição de precisão valores mínimos

A ordem de aplicação importa: primeiro a contração (a toda a peça), depois a sobreespessura de maquinação (só às superfícies funcionais). Trocar a ordem, ou aplicar sobreespessura a toda a peça, encarece a maquinação sem necessidade.

8. Postiços, machos e caixas de macho

Nem todas as formas de uma peça se conseguem reproduzir só com o modelo principal. Para esses casos existem postiços e machos.

Postiços

Os postiços são peças amovíveis do modelo ou da placa molde, presas por pinos ou espigas, usadas para reproduzir saliências, nervuras ou reentrâncias localizadas que criariam contra-saídas se fizessem parte fixa do modelo. O postiço fica na areia quando o modelo principal é extraído, e só depois é retirado à parte, pela cavidade já aberta, na direção que liberta a contra-saída.

Machos e caixas de macho

O macho é uma peça de areia, moldada à parte numa caixa de macho, colocada dentro do molde já aberto para criar furos, canais ou reentrâncias internas que o modelo sozinho não consegue reproduzir.

Exemplo resolvido

Uma peça em ferro fundido tem um furo passante de 30 mm de diâmetro, perpendicular à linha de apartação:

  1. Com o eixo do furo paralelo à direção de extração, o modelo até conseguia formar uma coluna de areia, mas ela seria frágil e de rigor dimensional baixo; por isso, opta-se pelo macho.
  2. Projeta-se um macho cilíndrico de 30 mm, com marcas de macho de 8 mm de cada lado, apoiadas nas duas metades do molde.
  3. A caixa de macho é desenhada com saída de 2° a 3°, para o próprio macho sair da caixa sem se partir.

Um macho mal apoiado desloca-se durante o vazamento, e a peça sai com a parede interna de espessura irregular, um dos defeitos mais frequentes em peças com furos internos.

9. Sistema de gitagem e alimentação

Depois de definidas a geometria e os machos, falta garantir que o metal chega bem à cavidade e que a peça não fica com defeitos de contração.

A gitagem

A gitagem é o conjunto de canais que conduzem o metal líquido desde o exterior até à cavidade do molde:

Elemento Função
Bacia de vazamento recebe o metal vertido pelo operador
Canal de descida (gito de vazamento) conduz o metal em queda até à base do molde
Canal de distribuição distribui o metal horizontalmente
Ataque entrada final do metal na cavidade da peça

Uma gitagem mal desenhada provoca turbulência, arrastamento de ar e de areia, e gera defeitos internos na peça fundida.

A alimentação

A alimentação garante que existe sempre metal líquido disponível para compensar a contração de solidificação, enquanto a peça arrefece. Usa massalotes, reservas de metal ligadas às zonas de maior espessura da peça, que têm de solidificar depois da própria peça para a poderem continuar a alimentar.

Sem alimentação adequada surgem rechupes: cavidades internas de contração, por falta de metal disponível na fase final de solidificação.

Dimensionar o sistema de gitagem

O dimensionamento parte da massa da peça e do tempo de vazamento pretendido, para calcular a área do canal de ataque:

A_ataque = W / (ρ · t · c · √(2 · g · h))

Onde W é a massa a vazar, ρ a densidade do metal líquido, t o tempo de vazamento, c um coeficiente de eficiência do canal, g a aceleração da gravidade e h a altura efetiva de queda.

Exemplo resolvido

Peça de alumínio, W = 3 kg, vazada em t = 12 s, com altura efetiva h = 0,2 m, coeficiente c = 0,6 e densidade do alumínio líquido ρ ≈ 2400 kg/m³:

  1. Velocidade de queda: v = √(2 × 9,81 × 0,2) ≈ 1,98 m/s
  2. Área do ataque: A = 3 / (2400 × 12 × 0,6 × 1,98) ≈ 8,8 × 10⁻⁵ m² ≈ 88 mm²
  3. Para um ataque retangular com 4 mm de altura, a largura resultante ronda os 22 mm.

O sistema de alimentação (número, tamanho e posição dos massalotes) calcula-se à parte, com base no módulo de arrefecimento de cada zona espessa da peça, mas segue sempre a mesma lógica: mais massa a alimentar exige um massalote maior.

10. Simulação do enchimento

A simulação do enchimento usa software especializado para prever, ainda no computador, como o metal líquido preenche o molde e como a peça solidifica, antes de se fundir a primeira peça real.

O que a simulação deteta

Leitura dos resultados

Uma simulação típica devolve mapas de cor sobre o modelo 3D do molde: a frente de enchimento (ordem por que o metal preenche a cavidade), a temperatura ao longo do tempo, e a porosidade prevista. Com estes resultados, ajusta-se o projeto (gitagem, alimentação, saídas) antes de cortar a placa molde física, evitando fundições de teste caras e demoradas.

Softwares deste tipo, como o MAGMASOFT, o ProCAST ou o NovaFlow&Solid, são usados na indústria de fundição portuguesa para validar peças críticas antes de investir numa placa molde definitiva.

11. Software de desenho de moldes

O projeto de placas molde faz-se hoje, sobretudo, em software de desenho 2D e 3D, o que agiliza os cálculos, a verificação de interferências e a geração dos desenhos técnicos finais.

Fluxo de trabalho típico

  1. Modelar a peça a partir do desenho técnico de origem.
  2. Aplicar a contração da liga escolhida.
  3. Desenhar o molde: linha de apartação, saídas, postiços e machos.
  4. Projetar o sistema de gitagem e alimentação.
  5. Simular o enchimento e ajustar o projeto.
  6. Verificar a conformidade do molde com o projeto e gerar os desenhos técnicos e a lista de materiais.

Verificar a conformidade do molde com o seu próprio projeto e com a peça pretendida, sobrepondo o modelo 3D final à geometria original, é a última aptidão do referencial: fecha o ciclo aberto no primeiro capítulo desta sebenta, quando se analisou o desenho técnico da peça.

12. Segurança, ambiente e qualidade

Nenhum projeto de moldes está completo sem cumprir as normas transversais que protegem quem trabalha, o ambiente e a qualidade do produto final.

Segurança e saúde no trabalho

O projeto de moldes cruza-se sempre com a oficina de fundição, um ambiente com riscos reais:

Gestão de resíduos e proteção ambiental

Normas da qualidade

Cada decisão de projeto documentada, revista e comparada com o desenho de origem torna o processo repetível e rastreável, o que é a base das normas da qualidade aplicadas à fundição.

Rigor, sentido de organização e sentido crítico não são atitudes soltas do referencial: são o que sustenta, na prática, a segurança, o ambiente e a qualidade de todo o projeto de uma placa molde.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Projetar uma placa molde para fundição começa por analisar o desenho técnico da peça e a tecnologia de fundição envolvida, e por definir o tipo de molde. Segue-se o desenho da placa molde, corrigida com linha de apartação, saídas, contração e sobreespessura de maquinação, e complementada com postiços e machos onde a geometria da peça exige. O sistema de alimentação e gitagem é depois calculado e validado por simulação do enchimento, tudo feito em software de desenho de moldes que agiliza cálculos e desenhos técnicos. Ao longo de todo o processo cumprem-se as normas de segurança e saúde no trabalho, de proteção individual, de gestão de resíduos, de proteção ambiental e da qualidade. Domina este fluxo completo e estás pronto para projetar a placa molde de qualquer peça fundida em série.

Exercícios resolvidos

1. Uma peça em ferro fundido tem um comprimento final de 300 mm. Que comprimento deve ter o modelo, sabendo que o ferro fundido cinzento contrai 1,0%?

Resolução: 300 + (300 × 0,01) = 300 + 3 = 303 mm. O modelo, e por isso a placa molde, é construído com 303 mm.

2. Explica a diferença entre um postiço e um macho.

Resolução: o postiço é uma peça amovível do próprio modelo, que fica presa na areia quando o modelo principal sai e só depois é retirada à parte, usada para saliências ou reentrâncias localizadas. O macho é uma peça de areia moldada à parte, colocada dentro do molde já aberto, para criar furos ou cavidades internas que o modelo sozinho não consegue reproduzir.

3. Uma peça mostra sinais de rechupe junto a uma zona espessa. Qual a causa mais provável e como se corrige no projeto?

Resolução: o massalote dessa zona está mal dimensionado ou mal posicionado, e solidificou antes da peça, deixando de a poder alimentar. Corrige-se aumentando o massalote ou reposicionando-o mais próximo da zona espessa, de forma a garantir que solidifica sempre depois da peça.

4. Porque é que a escala de contração tem de constar sempre na legenda do desenho da placa molde?

Resolução: porque quem fabrica a placa molde a partir do desenho precisa de saber exatamente que percentagem de contração já foi aplicada, para não a aplicar novamente por engano nem esquecer de a aplicar. Sem esta informação na legenda, a peça final pode sair sistematicamente com uma cota errada.

5. Um ataque de gitagem foi desenhado demasiado estreito para a massa e o tempo de vazamento pretendidos. Que defeito é mais provável aparecer na peça, e porquê?

Resolução: turbulência e arrastamento de ar e areia para dentro da cavidade, porque o metal é forçado por uma secção pequena a uma velocidade superior à prevista, criando um jato turbulento em vez de um enchimento calmo e contínuo.