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UC · Unidade de Competência · UC05427

Sebenta · Elaborar o desenho de moldes para fundição (UC05427)

Desenho técnico da peça, tipos de molde, contrações, apartação, prensos, machos e sistema de gitagem e alimentação
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Projeto de Moldes e Mod ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a elaborar o desenho de um molde para fundição, desde a leitura do desenho técnico da peça até ao desenho final do molde, pronto para seguir para a oficina de moldação. É trabalho aplicável a diferentes contextos da indústria metalomecânica, sempre que uma peça se produz por fundição de uma liga metálica.

O percurso é o de um projetista real: interpretar a peça a fundir, escolher o tipo de molde, calcular as contrações e as espessuras de maquinação, definir a linha de apartação e a posição de moldação, dimensionar prensos e machos, projetar o sistema de gitagem e alimentação, e por fim reunir tudo no desenho completo do molde, com segurança, ambiente e qualidade sempre presentes.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar o desenho técnico da peça a fundir; definir o plano de apartação e a posição de moldação; projetar o sistema de gitagem e alimentação; e desenhar o molde e as caixas de macho, cumprindo as normas de segurança, ambiente e qualidade.

1. O desenho técnico da peça a fundir

Nenhuma decisão de projeto se toma sem primeiro ler corretamente o desenho técnico da peça que se vai fundir. O desenho técnico segue normas próprias:

Ler estas quatro camadas de informação é a primeira competência exigida nesta UC: sem uma leitura completa e correta, todas as decisões seguintes (tipo de molde, apartação, machos) partem de uma base errada.

Exemplo resolvido · identificar cavidades interiores

Uma peça em forma de tubo é apresentada em duas vistas (frente e corte lateral). Na vista de frente, a peça parece um cilindro maciço. É só no corte que aparece um furo passante ao centro.

  1. Ler a vista de frente: forma cilíndrica exterior.
  2. Ler o corte: revela o furo interior, com o seu diâmetro cotado.
  3. Concluir: esta peça vai precisar de um macho para formar o furo, porque o modelo sozinho não consegue deixar uma cavidade fechada.

Esta leitura, feita ainda antes de qualquer desenho de molde, condiciona logo a escolha de precisar ou não de macho.

2. Cotagem, toleranciamento, legendas e listas

Cotagem nominal versus cotagem de fabrico

A cotagem nominal é a dimensão que a peça deve ter, já acabada. A cotagem de fabrico é a dimensão que o modelo e o molde têm de ter para, depois da contração do metal e da maquinação, chegar exatamente à cota nominal.

Cota de fabrico = Cota nominal × (1 + contração) + espessura de maquinação

A cota de fabrico é sempre maior do que a nominal. É este cálculo, aplicado cota a cota, que ocupa boa parte do trabalho de desenho desta UC (ver capítulos 6 e 7).

Simbologia e anotações específicas de fundição

Além da simbologia geral do desenho técnico, o desenho de moldes acrescenta anotações próprias:

Anotação Indica
Linha de apartação onde o molde se divide em duas partes
Zona de prenso onde o macho encaixa e apoia
Zona a maquinar superfície com espessura extra a remover
Balão numerado identificação de cada componente do conjunto

Legendas, balões de identificação e lista de peças

A legenda (cartucho) regista título, escala, material, data, autor e número de revisão do desenho. Os balões de identificação numeram cada componente do molde (caixa de moldação superior, caixa de moldação inferior, machos, caixas de macho), e a lista de peças é a tabela associada, com designação, material e quantidade de cada um. Num molde com vários elementos, é esta correspondência entre balão e lista que evita erros de montagem na oficina.

3. Tipos de molde e critérios de seleção

Existem várias famílias de molde para fundição, com características muito diferentes:

Tipo de molde Características Indicado para
Areia verde areia húmida com argila, sem aditivos químicos séries pequenas, custo baixo
Areia seca / autoendurecível maior estabilidade dimensional e melhor acabamento peças de maior exigência dimensional
Moldação permanente (coquilha) molde metálico reutilizável grandes séries, boa repetibilidade
Cera perdida grande liberdade geométrica, elevada precisão peças de geometria complexa ou de precisão

Critérios de seleção

A escolha do tipo de molde fundamenta-se em vários fatores, ponderados em conjunto:

Exemplo resolvido · escolher o tipo de molde

Uma oficina vai produzir 1 peça única, em ferro fundido, com geometria simples (um suporte maciço, sem cavidades internas).

  1. Quantidade: uma só peça, não justifica investimento num molde permanente.
  2. Geometria: simples, sem necessidade de macho.
  3. Conclusão: moldação em areia verde, de baixo custo e adequada a uma peça única.

Se a mesma peça fosse produzida em série de 10.000 unidades, a conclusão seria diferente: a moldação permanente amortizaria o investimento inicial e reduziria o custo por peça.

4. Técnicas de moldação e de execução de moldes

A sequência da moldação em areia

  1. Colocar o modelo na caixa de moldação inferior.
  2. Compactar a areia de moldação à volta do modelo, por apiloamento ou vibração.
  3. Retirar o modelo com cuidado, deixando a cavidade com a forma exata da peça.
  4. Repetir o processo para a caixa de moldação superior, alinhando pela linha de apartação.
  5. Colocar os machos, se existirem, encaixados pelos seus prensos.
  6. Fechar o molde e prepará-lo para o vazamento.

Decisões de execução do molde

Para além da sequência de moldação, a execução do molde exige decisões de projeto que se fixam no desenho:

Um molde bem executado reduz defeitos como rebarbas, desalinhamentos ou colapsos de areia durante o vazamento.

5. Equipamentos e materiais do desenho do molde

Instrumentos de desenho

O desenho de moldes assenta em instrumentos clássicos de desenho técnico, usados com rigor:

Instrumento Função
Estiradores mesa de desenho inclinável com régua paralela
Réguas e esquadros linhas retas e ângulos precisos (45°, 30°/60°)
Transferidores e sutas medir e traçar ângulos não normalizados
Compassos circunferências, arcos e raios de concordância
Máquina de calcular cálculo de contrações, espessuras e cotas de fabrico

Materiais e equipamento de construção do modelo

Os modelos e caixas de macho são muitas vezes construídos em madeira, e o desenho tem de considerar o material de execução:

O desenhador escolhe cotas e tolerâncias compatíveis com o que a máquina e o material de execução do modelo conseguem realmente cumprir.

6. Contração dos diferentes materiais

Porque contrai o metal

Ao arrefecer, o metal fundido contrai: passa do estado líquido para sólido e continua a encolher até à temperatura ambiente. Se o molde tivesse exatamente a dimensão final desejada, a peça sairia mais pequena do que o previsto. Por isso, o modelo e o molde são desenhados maiores do que a peça final, na proporção da contração da liga usada.

Valores de contração por liga

Liga Contração linear aproximada
Ferro fundido cinzento ≈ 1,0%
Aço fundido ≈ 2,0%
Ligas de alumínio ≈ 1,2% a 1,3%
Bronze (Cu-Sn) ≈ 1,3% a 1,5%
Latão ≈ 1,5% a 2,0%

Estes valores são de referência: variam com a composição exata da liga e a espessura da peça, e confirmam-se sempre em tabelas técnicas específicas do material.

Exemplo resolvido · calcular a cota com contração

Uma peça em aço fundido (contração ≈ 2,0%) tem uma cota nominal de 180 mm.

  1. Fator de contração: 1 + 2,0/100 = 1,02.
  2. Cota já com contração: 180 × 1,02 = 183,6 mm.
  3. Esta é a cota a usar no modelo, antes de somar ainda a espessura de maquinação (capítulo seguinte).

Se a mesma peça fosse em ligas de alumínio (contração ≈ 1,2%), a cota com contração seria 180 × 1,012 = 182,16 mm: uma liga diferente muda sempre o resultado.

7. Espessuras de maquinação

A espessura de maquinação é o material extra deixado nas superfícies que, depois de fundidas em bruto, vão ser maquinadas (torneadas, fresadas, retificadas) até à cota e ao acabamento final.

Não se confunde com a contração: a contração compensa o encolhimento do metal ao arrefecer; a espessura de maquinação compensa a imprecisão da fundição em bruto, e aplica-se às superfícies que serão maquinadas.

Fatores que determinam a espessura

Exemplo resolvido · a cota de fabrico completa

Retomando a peça em aço fundido do capítulo anterior (cota nominal 180 mm, já com contração 183,6 mm), a superfície em causa vai ser retificada, e o processo (areia verde) exige uma espessura de maquinação de 3 mm.

Cota de fabrico = 183,6 + 3 = 186,6 mm

É este o valor final a desenhar e a cotar no modelo e no molde para esta superfície.

8. Linha de apartação e posição de moldação

A linha de apartação

A linha de apartação é a linha (ou superfície) por onde o molde se divide em duas ou mais partes, permitindo retirar o modelo e depois desmoldar a peça. Separa a caixa de moldação superior da inferior. Fica visível na peça final como uma pequena rebarba, removida no acabamento.

Ao escolher a linha de apartação, o desenhador procura:

A posição de moldação

A posição de moldação é a orientação da peça dentro do molde durante o vazamento, decidida em conjunto com a linha de apartação:

Definir o plano de apartação e a posição de moldação, em conjunto, é uma das quatro realizações centrais desta UC.

Exemplo resolvido · escolher a linha de apartação

Uma peça em forma de "L", vazada e sem cavidades internas, tem de ser desmoldada sem contra-saídas.

  1. Analisar a forma: o "L" tem um ângulo reto entre os dois braços.
  2. Testar uma linha de apartação a meio da altura de um dos braços: o modelo ficaria preso pelo outro braço (contra-saída).
  3. Testar uma linha de apartação que segue o plano exterior do "L", coincidindo com a face plana maior: o modelo sai livremente para os dois lados.
  4. Conclusão: a linha de apartação escolhe-se pela face plana maior do "L", que permite a extração sem contra-saídas nem machos adicionais.

9. Prensos

Os prensos são os prolongamentos do macho (e as cavidades correspondentes no molde, os assentos de prenso) que servem para posicionar e apoiar o macho dentro da cavidade, sem outro suporte.

Dimensionar os prensos

Um prenso mal dimensionado desloca o macho durante o vazamento, desviando a cavidade interior e comprometendo a peça final. "Definindo os prensos e machos" é, textualmente, um dos critérios de desempenho desta UC.

10. Machos e caixas de macho

O que são machos

Os machos são elementos colocados dentro da cavidade do molde para formar cavidades interiores ou contra-saídas na peça (furos, canais, reentrâncias) que o modelo, sozinho, não consegue reproduzir. São normalmente feitos de areia aglomerada, moldada à parte numa caixa de macho.

Depois de secos ou endurecidos, os machos são colocados dentro do molde, encaixados pelos seus prensos, antes do fecho. Após o vazamento e o arrefecimento, o macho é destruído e removido de dentro da peça sólida, deixando a cavidade que formava.

A caixa de macho

A caixa de macho é o molde onde se fabrica o macho, tal como a caixa de moldação é o molde onde se fabrica o molde da peça:

Exemplo resolvido · identificar a necessidade de macho

Retomando a peça em forma de tubo do capítulo 1 (furo passante central):

  1. O modelo, ao ser retirado do molde, deixa a cavidade exterior da peça, mas não consegue deixar um furo interior fechado.
  2. É por isso necessário um macho cilíndrico, com o diâmetro do furo, colocado dentro da cavidade antes do fecho do molde.
  3. O macho tem prensos nas duas extremidades, que encaixam nos assentos correspondentes do molde, mantendo-o centrado durante o vazamento.
  4. A caixa de macho para este macho cilíndrico é, ela própria, bipartida ao longo do eixo do cilindro.

11. Sistema de gitagem e alimentação

O percurso do metal líquido: a gitagem

O sistema de gitagem é o conjunto de canais por onde o metal líquido entra no molde até preencher a cavidade da peça:

Bacia de vazamento → Gito de descida → Canal de distribuição → Ataques → Cavidade da peça
Elemento Função
Bacia de vazamento recebe o metal vertido da colher ou panela
Gito de descida canal vertical que conduz o metal para baixo
Canal de distribuição reparte o metal pelas várias entradas
Ataques pontos finais de entrada do metal na cavidade

Um sistema de gitagem mal dimensionado provoca turbulência no enchimento, com defeitos como inclusões de ar ou erosão da areia do molde.

O sistema de alimentação: massalotes e respiros

Encher a cavidade não basta: é preciso garantir que a peça solidifica sem defeitos:

Os massalotes colocam-se sobre as zonas de maior espessura da peça, que solidificam por último, garantindo que o metal líquido do massalote alimenta essas zonas antes de o próprio massalote solidificar.

Projetar o sistema de gitagem e alimentação é uma das quatro realizações centrais desta UC.

Exemplo resolvido · posicionar o massalote

Uma peça tem uma zona fina (5 mm) e uma zona espessa (30 mm), ligadas entre si.

  1. A zona fina solidifica primeiro, por ter menos massa a arrefecer.
  2. A zona espessa solidifica por último, e é aí que ocorre a maior contração de solidificação.
  3. Conclusão: o massalote coloca-se sobre a zona espessa, para continuar a fornecer metal líquido a essa zona até ela solidificar por completo, evitando um vazio (rechupe) no interior da peça.

12. Desenhar o molde com todos os elementos

Chegado a este ponto, o desenho do molde reúne, de forma coerente, todos os elementos estudados:

  1. Cotas de fabrico (nominal + contração + espessura de maquinação, capítulos 6 e 7).
  2. Linha de apartação e posição de moldação definidas (capítulo 8).
  3. Prensos e machos desenhados e cotados, com as respetivas caixas de macho (capítulos 9 e 10).
  4. Sistema de gitagem e alimentação completo (bacia, gito, canais, ataques, massalotes, respiros, capítulo 11).
  5. Legenda, balões de identificação e lista de peças de todo o conjunto (capítulo 2).

Desenhar o molde com todos os elementos é a última das quatro realizações centrais desta UC, e reúne todas as anteriores.

Checklist de verificação final

Antes de dar o desenho por concluído, confere-se sistematicamente:

13. Segurança, saúde, ambiente e qualidade

O trabalho de desenho e o acompanhamento em oficina de fundição exigem o cumprimento rigoroso de normas transversais:

Estas normas expressam-se nas atitudes avaliadas nesta UC: responsabilidade pelas próprias ações, autonomia, rigor, sentido de organização, sentido crítico, iniciativa e proatividade, cooperação com a equipa, e respeito pelas regras e normas definidas.

Erros comuns

Glossário

Síntese

O trabalho desta UC segue sempre a mesma sequência lógica: interpretar o desenho técnico da peça a fundir, escolher o tipo de molde com base em critérios técnicos, calcular a contração e a espessura de maquinação para obter a cota de fabrico, definir a linha de apartação e a posição de moldação, dimensionar prensos e machos com as suas caixas, projetar o sistema de gitagem e alimentação, e reunir tudo no desenho completo do molde, com segurança, ambiente e qualidade sempre presentes. Domina este fluxo e serás capaz de desenhar o molde de qualquer peça a fundir, em qualquer contexto da indústria metalomecânica.

Exercícios resolvidos

1. Uma peça em ferro fundido cinzento (contração ≈ 1,0%) tem cota nominal de 250 mm. Qual a cota já com contração?

Resolução: fator de contração = 1 + 1,0/100 = 1,01. Cota com contração = 250 × 1,01 = 252,5 mm.

2. À cota anterior falta ainda somar uma espessura de maquinação de 2,5 mm nessa superfície. Qual é a cota de fabrico final?

Resolução: cota de fabrico = 252,5 + 2,5 = 255 mm. É este o valor a desenhar no modelo e no molde.

3. Uma peça vai ser produzida numa série de 50.000 unidades, com geometria simples e exigência de boa repetibilidade dimensional. Que tipo de molde se justifica e porquê?

Resolução: a moldação permanente (coquilha): o investimento inicial no molde metálico amortiza-se pela grande quantidade de peças, e garante repetibilidade dimensional muito superior à moldação em areia, que se destrói a cada peça.

4. Um macho cilíndrico, colocado dentro do molde, desloca-se durante o vazamento. Que elemento do desenho falhou, mais provavelmente, e porquê?

Resolução: os prensos, provavelmente mal dimensionados ou com folga excessiva no assento. Os prensos são o que resiste ao empuxo do metal líquido sobre o macho e o mantém centrado; sem eles corretamente dimensionados, o macho flutua e desvia a cavidade interior da peça.

5. Uma peça tem uma zona espessa de 40 mm ligada a duas zonas finas de 6 mm. Onde deve ser colocado o massalote e porquê?

Resolução: o massalote coloca-se sobre a zona espessa (40 mm), porque é essa que solidifica por último e sofre a maior contração de solidificação. O massalote fornece metal líquido a essa zona até ela solidificar completamente, evitando um vazio interior (rechupe).