Sebenta · Elaborar o desenho de moldes para fundição (UC05427)
- Introdução
- 1. O desenho técnico da peça a fundir
- 2. Cotagem, toleranciamento, legendas e listas
- 3. Tipos de molde e critérios de seleção
- 4. Técnicas de moldação e de execução de moldes
- 5. Equipamentos e materiais do desenho do molde
- 6. Contração dos diferentes materiais
- 7. Espessuras de maquinação
- 8. Linha de apartação e posição de moldação
- 9. Prensos
- 10. Machos e caixas de macho
- 11. Sistema de gitagem e alimentação
- 12. Desenhar o molde com todos os elementos
- 13. Segurança, saúde, ambiente e qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a elaborar o desenho de um molde para fundição, desde a leitura do desenho técnico da peça até ao desenho final do molde, pronto para seguir para a oficina de moldação. É trabalho aplicável a diferentes contextos da indústria metalomecânica, sempre que uma peça se produz por fundição de uma liga metálica.
O percurso é o de um projetista real: interpretar a peça a fundir, escolher o tipo de molde, calcular as contrações e as espessuras de maquinação, definir a linha de apartação e a posição de moldação, dimensionar prensos e machos, projetar o sistema de gitagem e alimentação, e por fim reunir tudo no desenho completo do molde, com segurança, ambiente e qualidade sempre presentes.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar o desenho técnico da peça a fundir; definir o plano de apartação e a posição de moldação; projetar o sistema de gitagem e alimentação; e desenhar o molde e as caixas de macho, cumprindo as normas de segurança, ambiente e qualidade.
1. O desenho técnico da peça a fundir
Nenhuma decisão de projeto se toma sem primeiro ler corretamente o desenho técnico da peça que se vai fundir. O desenho técnico segue normas próprias:
- Projeções ortogonais: as vistas de frente, topo e perfil, coerentes entre si, que dão a forma tridimensional da peça.
- Cortes e secções: revelam furos, cavidades e nervuras que não seriam visíveis numa vista exterior.
- Simbologia e anotações: rugosidade, soldadura, tratamento térmico e outras indicações normalizadas.
- Toleranciamento geral: a classe de tolerância que se aplica quando uma cota não tem tolerância própria indicada.
Ler estas quatro camadas de informação é a primeira competência exigida nesta UC: sem uma leitura completa e correta, todas as decisões seguintes (tipo de molde, apartação, machos) partem de uma base errada.
Exemplo resolvido · identificar cavidades interiores
Uma peça em forma de tubo é apresentada em duas vistas (frente e corte lateral). Na vista de frente, a peça parece um cilindro maciço. É só no corte que aparece um furo passante ao centro.
- Ler a vista de frente: forma cilíndrica exterior.
- Ler o corte: revela o furo interior, com o seu diâmetro cotado.
- Concluir: esta peça vai precisar de um macho para formar o furo, porque o modelo sozinho não consegue deixar uma cavidade fechada.
Esta leitura, feita ainda antes de qualquer desenho de molde, condiciona logo a escolha de precisar ou não de macho.
2. Cotagem, toleranciamento, legendas e listas
Cotagem nominal versus cotagem de fabrico
A cotagem nominal é a dimensão que a peça deve ter, já acabada. A cotagem de fabrico é a dimensão que o modelo e o molde têm de ter para, depois da contração do metal e da maquinação, chegar exatamente à cota nominal.
Cota de fabrico = Cota nominal × (1 + contração) + espessura de maquinação
A cota de fabrico é sempre maior do que a nominal. É este cálculo, aplicado cota a cota, que ocupa boa parte do trabalho de desenho desta UC (ver capítulos 6 e 7).
Simbologia e anotações específicas de fundição
Além da simbologia geral do desenho técnico, o desenho de moldes acrescenta anotações próprias:
| Anotação | Indica |
|---|---|
| Linha de apartação | onde o molde se divide em duas partes |
| Zona de prenso | onde o macho encaixa e apoia |
| Zona a maquinar | superfície com espessura extra a remover |
| Balão numerado | identificação de cada componente do conjunto |
Legendas, balões de identificação e lista de peças
A legenda (cartucho) regista título, escala, material, data, autor e número de revisão do desenho. Os balões de identificação numeram cada componente do molde (caixa de moldação superior, caixa de moldação inferior, machos, caixas de macho), e a lista de peças é a tabela associada, com designação, material e quantidade de cada um. Num molde com vários elementos, é esta correspondência entre balão e lista que evita erros de montagem na oficina.
3. Tipos de molde e critérios de seleção
Existem várias famílias de molde para fundição, com características muito diferentes:
| Tipo de molde | Características | Indicado para |
|---|---|---|
| Areia verde | areia húmida com argila, sem aditivos químicos | séries pequenas, custo baixo |
| Areia seca / autoendurecível | maior estabilidade dimensional e melhor acabamento | peças de maior exigência dimensional |
| Moldação permanente (coquilha) | molde metálico reutilizável | grandes séries, boa repetibilidade |
| Cera perdida | grande liberdade geométrica, elevada precisão | peças de geometria complexa ou de precisão |
Critérios de seleção
A escolha do tipo de molde fundamenta-se em vários fatores, ponderados em conjunto:
- Quantidade a produzir: séries pequenas favorecem a areia; séries grandes favorecem moldes permanentes, apesar do custo inicial maior.
- Complexidade geométrica: cavidades internas complexas podem exigir machos ou processos como a cera perdida.
- Liga metálica: o ponto de fusão e o comportamento térmico da liga condicionam o material do molde.
- Acabamento e precisão exigidos: peças de precisão apontam para areia fina, coquilha ou cera perdida.
- Custo e prazo: um molde permanente é caro no arranque, mas mais barato por peça produzida em grandes séries.
Exemplo resolvido · escolher o tipo de molde
Uma oficina vai produzir 1 peça única, em ferro fundido, com geometria simples (um suporte maciço, sem cavidades internas).
- Quantidade: uma só peça, não justifica investimento num molde permanente.
- Geometria: simples, sem necessidade de macho.
- Conclusão: moldação em areia verde, de baixo custo e adequada a uma peça única.
Se a mesma peça fosse produzida em série de 10.000 unidades, a conclusão seria diferente: a moldação permanente amortizaria o investimento inicial e reduziria o custo por peça.
4. Técnicas de moldação e de execução de moldes
A sequência da moldação em areia
- Colocar o modelo na caixa de moldação inferior.
- Compactar a areia de moldação à volta do modelo, por apiloamento ou vibração.
- Retirar o modelo com cuidado, deixando a cavidade com a forma exata da peça.
- Repetir o processo para a caixa de moldação superior, alinhando pela linha de apartação.
- Colocar os machos, se existirem, encaixados pelos seus prensos.
- Fechar o molde e prepará-lo para o vazamento.
Decisões de execução do molde
Para além da sequência de moldação, a execução do molde exige decisões de projeto que se fixam no desenho:
- Número de moldações por caixa: uma ou várias peças no mesmo molde.
- Inclinações de saída: ângulos que facilitam a extração do modelo sem danificar a cavidade.
- Reforços nas zonas frágeis da cavidade, para evitar colapsos de areia.
- Alinhamento das duas metades do molde, para fecharem sem desvio.
Um molde bem executado reduz defeitos como rebarbas, desalinhamentos ou colapsos de areia durante o vazamento.
5. Equipamentos e materiais do desenho do molde
Instrumentos de desenho
O desenho de moldes assenta em instrumentos clássicos de desenho técnico, usados com rigor:
| Instrumento | Função |
|---|---|
| Estiradores | mesa de desenho inclinável com régua paralela |
| Réguas e esquadros | linhas retas e ângulos precisos (45°, 30°/60°) |
| Transferidores e sutas | medir e traçar ângulos não normalizados |
| Compassos | circunferências, arcos e raios de concordância |
| Máquina de calcular | cálculo de contrações, espessuras e cotas de fabrico |
Materiais e equipamento de construção do modelo
Os modelos e caixas de macho são muitas vezes construídos em madeira, e o desenho tem de considerar o material de execução:
- Máquinas para trabalhar madeira: corte, aplainamento e acabamento do modelo.
- Papel ou madeira: suportes de desenho e de construção do modelo, consoante a fase do trabalho.
- Materiais de escrita (lápis e borrachas): esboçar e anotar informação nos desenhos.
- Lápis de cor: destacar zonas de apartação, prensos ou maquinação diretamente no desenho.
O desenhador escolhe cotas e tolerâncias compatíveis com o que a máquina e o material de execução do modelo conseguem realmente cumprir.
6. Contração dos diferentes materiais
Porque contrai o metal
Ao arrefecer, o metal fundido contrai: passa do estado líquido para sólido e continua a encolher até à temperatura ambiente. Se o molde tivesse exatamente a dimensão final desejada, a peça sairia mais pequena do que o previsto. Por isso, o modelo e o molde são desenhados maiores do que a peça final, na proporção da contração da liga usada.
Valores de contração por liga
| Liga | Contração linear aproximada |
|---|---|
| Ferro fundido cinzento | ≈ 1,0% |
| Aço fundido | ≈ 2,0% |
| Ligas de alumínio | ≈ 1,2% a 1,3% |
| Bronze (Cu-Sn) | ≈ 1,3% a 1,5% |
| Latão | ≈ 1,5% a 2,0% |
Estes valores são de referência: variam com a composição exata da liga e a espessura da peça, e confirmam-se sempre em tabelas técnicas específicas do material.
Exemplo resolvido · calcular a cota com contração
Uma peça em aço fundido (contração ≈ 2,0%) tem uma cota nominal de 180 mm.
- Fator de contração: 1 + 2,0/100 = 1,02.
- Cota já com contração: 180 × 1,02 = 183,6 mm.
- Esta é a cota a usar no modelo, antes de somar ainda a espessura de maquinação (capítulo seguinte).
Se a mesma peça fosse em ligas de alumínio (contração ≈ 1,2%), a cota com contração seria 180 × 1,012 = 182,16 mm: uma liga diferente muda sempre o resultado.
7. Espessuras de maquinação
A espessura de maquinação é o material extra deixado nas superfícies que, depois de fundidas em bruto, vão ser maquinadas (torneadas, fresadas, retificadas) até à cota e ao acabamento final.
Não se confunde com a contração: a contração compensa o encolhimento do metal ao arrefecer; a espessura de maquinação compensa a imprecisão da fundição em bruto, e aplica-se só às superfícies que serão maquinadas.
Fatores que determinam a espessura
- Dimensão da peça: peças maiores toleram desvios de fundição maiores, e pedem espessuras maiores.
- Posição da superfície no molde: as escórias, as inclusões e os gases sobem durante a solidificação, por isso é a superfície virada para cima (na caixa superior) que acumula mais defeitos e pede mais espessura. É esta a razão para virar as superfícies críticas para baixo.
- Tipo de molde: a moldação em areia tem tolerâncias maiores do que a coquilha ou a cera perdida, exigindo mais espessura de maquinação.
- Processo de maquinação previsto e o acabamento final exigido na peça.
Exemplo resolvido · a cota de fabrico completa
Retomando a peça em aço fundido do capítulo anterior (cota nominal 180 mm, já com contração 183,6 mm), a superfície em causa vai ser retificada, e o processo (areia verde) exige uma espessura de maquinação de 3 mm.
Cota de fabrico = 183,6 + 3 = 186,6 mm
É este o valor final a desenhar e a cotar no modelo e no molde para esta superfície.
8. Linha de apartação e posição de moldação
A linha de apartação
A linha de apartação é a linha (ou superfície) por onde o molde se divide em duas ou mais partes, permitindo retirar o modelo e depois desmoldar a peça. Separa a caixa de moldação superior da inferior. Fica visível na peça final como uma pequena rebarba, removida no acabamento.
Ao escolher a linha de apartação, o desenhador procura:
- Facilitar a extração do modelo, sem contra-saídas que o impeçam de sair.
- Reduzir o número de machos necessários, sempre que possível.
- Manter as superfícies mais exigentes da peça numa posição favorável à qualidade da fundição.
A posição de moldação
A posição de moldação é a orientação da peça dentro do molde durante o vazamento, decidida em conjunto com a linha de apartação:
- Zonas críticas da peça devem ficar viradas para baixo ou lateralmente, onde há menos defeitos.
- A posição influencia diretamente o percurso do metal líquido e a eficácia do sistema de gitagem e alimentação (capítulo 10).
- Deve permitir que os gases escapem durante o vazamento, sem ficarem retidos na cavidade.
Definir o plano de apartação e a posição de moldação, em conjunto, é uma das quatro realizações centrais desta UC.
Exemplo resolvido · escolher a linha de apartação
Uma peça em forma de "L", vazada e sem cavidades internas, tem de ser desmoldada sem contra-saídas.
- Analisar a forma: o "L" tem um ângulo reto entre os dois braços.
- Testar uma linha de apartação a meio da altura de um dos braços: o modelo ficaria preso pelo outro braço (contra-saída).
- Testar uma linha de apartação que segue o plano exterior do "L", coincidindo com a face plana maior: o modelo sai livremente para os dois lados.
- Conclusão: a linha de apartação escolhe-se pela face plana maior do "L", que permite a extração sem contra-saídas nem machos adicionais.
9. Prensos
Os prensos são os prolongamentos do macho (e as cavidades correspondentes no molde, os assentos de prenso) que servem para posicionar e apoiar o macho dentro da cavidade, sem outro suporte.
- O macho tem prensos nas extremidades; o molde tem as cavidades correspondentes onde esses prensos encaixam.
- Garantem que o macho fica centrado e estável durante o vazamento, resistindo ao empuxo que o metal líquido exerce sobre ele.
- O seu dimensionamento entra na cota de fabrico, tal como qualquer outra zona do molde.
Dimensionar os prensos
- Considerar o peso do macho e o empuxo do metal líquido (tende a fazê-lo flutuar dentro da cavidade).
- Prever a folga necessária entre o prenso e o assento: suficiente para montar sem forçar, mas sem folga excessiva que desloque o macho.
- Escolher a forma do prenso (cilíndrica ou cónica) em função da orientação de montagem do macho no molde.
Um prenso mal dimensionado desloca o macho durante o vazamento, desviando a cavidade interior e comprometendo a peça final. "Definindo os prensos e machos" é, textualmente, um dos critérios de desempenho desta UC.
10. Machos e caixas de macho
O que são machos
Os machos são elementos colocados dentro da cavidade do molde para formar cavidades interiores ou contra-saídas na peça (furos, canais, reentrâncias) que o modelo, sozinho, não consegue reproduzir. São normalmente feitos de areia aglomerada, moldada à parte numa caixa de macho.
Depois de secos ou endurecidos, os machos são colocados dentro do molde, encaixados pelos seus prensos, antes do fecho. Após o vazamento e o arrefecimento, o macho é destruído e removido de dentro da peça sólida, deixando a cavidade que formava.
A caixa de macho
A caixa de macho é o molde onde se fabrica o macho, tal como a caixa de moldação é o molde onde se fabrica o molde da peça:
- Geralmente feita em duas partes, que se montam e desmontam para permitir retirar o macho já formado.
- Desenha-se com as mesmas regras de contração e cotagem de todo o projeto.
- Deve incluir os prensos do macho já na sua forma, para que saiam corretos ao desmoldar.
Exemplo resolvido · identificar a necessidade de macho
Retomando a peça em forma de tubo do capítulo 1 (furo passante central):
- O modelo, ao ser retirado do molde, deixa a cavidade exterior da peça, mas não consegue deixar um furo interior fechado.
- É por isso necessário um macho cilíndrico, com o diâmetro do furo, colocado dentro da cavidade antes do fecho do molde.
- O macho tem prensos nas duas extremidades, que encaixam nos assentos correspondentes do molde, mantendo-o centrado durante o vazamento.
- A caixa de macho para este macho cilíndrico é, ela própria, bipartida ao longo do eixo do cilindro.
11. Sistema de gitagem e alimentação
O percurso do metal líquido: a gitagem
O sistema de gitagem é o conjunto de canais por onde o metal líquido entra no molde até preencher a cavidade da peça:
Bacia de vazamento → Gito de descida → Canal de distribuição → Ataques → Cavidade da peça
| Elemento | Função |
|---|---|
| Bacia de vazamento | recebe o metal vertido da colher ou panela |
| Gito de descida | canal vertical que conduz o metal para baixo |
| Canal de distribuição | reparte o metal pelas várias entradas |
| Ataques | pontos finais de entrada do metal na cavidade |
Um sistema de gitagem mal dimensionado provoca turbulência no enchimento, com defeitos como inclusões de ar ou erosão da areia do molde.
O sistema de alimentação: massalotes e respiros
Encher a cavidade não basta: é preciso garantir que a peça solidifica sem defeitos:
- Massalote (ou montante): reserva de metal líquido que compensa a contração de solidificação, alimentando as zonas que arrefecem por último.
- Respiro: canal fino que permite aos gases escaparem do molde durante o vazamento, evitando bolhas na peça.
Os massalotes colocam-se sobre as zonas de maior espessura da peça, que solidificam por último, garantindo que o metal líquido do massalote alimenta essas zonas antes de o próprio massalote solidificar.
Projetar o sistema de gitagem e alimentação é uma das quatro realizações centrais desta UC.
Exemplo resolvido · posicionar o massalote
Uma peça tem uma zona fina (5 mm) e uma zona espessa (30 mm), ligadas entre si.
- A zona fina solidifica primeiro, por ter menos massa a arrefecer.
- A zona espessa solidifica por último, e é aí que ocorre a maior contração de solidificação.
- Conclusão: o massalote coloca-se sobre a zona espessa, para continuar a fornecer metal líquido a essa zona até ela solidificar por completo, evitando um vazio (rechupe) no interior da peça.
12. Desenhar o molde com todos os elementos
Chegado a este ponto, o desenho do molde reúne, de forma coerente, todos os elementos estudados:
- Cotas de fabrico (nominal + contração + espessura de maquinação, capítulos 6 e 7).
- Linha de apartação e posição de moldação definidas (capítulo 8).
- Prensos e machos desenhados e cotados, com as respetivas caixas de macho (capítulos 9 e 10).
- Sistema de gitagem e alimentação completo (bacia, gito, canais, ataques, massalotes, respiros, capítulo 11).
- Legenda, balões de identificação e lista de peças de todo o conjunto (capítulo 2).
Desenhar o molde com todos os elementos é a última das quatro realizações centrais desta UC, e reúne todas as anteriores.
Checklist de verificação final
Antes de dar o desenho por concluído, confere-se sistematicamente:
- Todas as cotas estão em cota de fabrico, não em cota nominal.
- A linha de apartação está assinalada e coerente com a posição de moldação.
- Cada macho tem os seus prensos e a correspondente caixa de macho.
- O sistema de gitagem e alimentação está completo, sem ataques nem massalotes esquecidos.
- Legenda, balões e lista de peças preenchidos e coerentes entre si.
13. Segurança, saúde, ambiente e qualidade
O trabalho de desenho e o acompanhamento em oficina de fundição exigem o cumprimento rigoroso de normas transversais:
- Equipamento de proteção individual (EPI): usado sempre que há contacto com máquinas, materiais ou zonas de fundição.
- Normas de segurança e saúde no trabalho: aplicadas às máquinas de trabalhar madeira e a todo o equipamento usado.
- Normas de segurança dos materiais e das máquinas: verificação de que o equipamento está em condições seguras de utilização.
- Normas de gestão de resíduos: separação e destino correto de aparas de madeira, areias usadas e outros resíduos do processo.
- Normas de proteção ambiental: minimizar o impacto do processo de moldação e fundição.
- Normas da qualidade: rigor, verificação sistemática e cumprimento de especificações em todo o desenho.
Estas normas expressam-se nas atitudes avaliadas nesta UC: responsabilidade pelas próprias ações, autonomia, rigor, sentido de organização, sentido crítico, iniciativa e proatividade, cooperação com a equipa, e respeito pelas regras e normas definidas.
Erros comuns
- Avançar para o desenho do molde sem ler bem o corte da peça, esquecendo cavidades interiores que exigem macho.
- Cotar o molde com cotas nominais, esquecendo de somar a contração e a espessura de maquinação.
- Aplicar a mesma percentagem de contração a ligas diferentes, sem consultar a tabela da liga em causa.
- Confundir contração (encolhimento ao arrefecer) com espessura de maquinação (material extra para maquinar).
- Escolher uma linha de apartação que obriga a mais machos do que o necessário.
- Desenhar o macho sem prensos, deixando-o sem apoio e sujeito a deslocar-se com o empuxo do metal.
- Colocar o massalote na zona errada, numa zona fina que já solidificou antes da zona espessa que precisava de ser alimentada.
- Esquecer respiros, provocando bolhas de gás retidas na peça.
- Entregar o desenho sem legenda, balões ou lista de peças, dificultando a montagem na oficina.
Glossário
- Cota nominal · dimensão final da peça já acabada.
- Cota de fabrico · dimensão a desenhar no modelo e no molde, já com contração e espessura de maquinação.
- Contração · encolhimento do metal ao arrefecer do estado líquido até à temperatura ambiente.
- Espessura de maquinação · material extra deixado numa superfície para ser removido na maquinação final.
- Linha de apartação · linha por onde o molde se divide em duas partes.
- Posição de moldação · orientação da peça dentro do molde durante o vazamento.
- Prenso · prolongamento do macho (e cavidade correspondente no molde) que o posiciona e apoia.
- Macho · elemento de areia colocado no molde para formar cavidades interiores da peça.
- Caixa de macho · molde onde se fabrica o macho.
- Gitagem · sistema de canais por onde o metal líquido entra no molde.
- Ataque · ponto final de entrada do metal na cavidade da peça.
- Massalote (montante) · reserva de metal líquido que alimenta a contração de solidificação.
- Respiro · canal fino que permite a saída de gases durante o vazamento.
- Moldação em areia verde · moldação com areia húmida e argila, sem aditivos químicos.
- Coquilha · molde metálico permanente e reutilizável.
- Balão de identificação · marca numerada que identifica um componente no desenho de conjunto.
Síntese
O trabalho desta UC segue sempre a mesma sequência lógica: interpretar o desenho técnico da peça a fundir, escolher o tipo de molde com base em critérios técnicos, calcular a contração e a espessura de maquinação para obter a cota de fabrico, definir a linha de apartação e a posição de moldação, dimensionar prensos e machos com as suas caixas, projetar o sistema de gitagem e alimentação, e reunir tudo no desenho completo do molde, com segurança, ambiente e qualidade sempre presentes. Domina este fluxo e serás capaz de desenhar o molde de qualquer peça a fundir, em qualquer contexto da indústria metalomecânica.
Exercícios resolvidos
1. Uma peça em ferro fundido cinzento (contração ≈ 1,0%) tem cota nominal de 250 mm. Qual a cota já com contração?
Resolução: fator de contração = 1 + 1,0/100 = 1,01. Cota com contração = 250 × 1,01 = 252,5 mm.
2. À cota anterior falta ainda somar uma espessura de maquinação de 2,5 mm nessa superfície. Qual é a cota de fabrico final?
Resolução: cota de fabrico = 252,5 + 2,5 = 255 mm. É este o valor a desenhar no modelo e no molde.
3. Uma peça vai ser produzida numa série de 50.000 unidades, com geometria simples e exigência de boa repetibilidade dimensional. Que tipo de molde se justifica e porquê?
Resolução: a moldação permanente (coquilha): o investimento inicial no molde metálico amortiza-se pela grande quantidade de peças, e garante repetibilidade dimensional muito superior à moldação em areia, que se destrói a cada peça.
4. Um macho cilíndrico, colocado dentro do molde, desloca-se durante o vazamento. Que elemento do desenho falhou, mais provavelmente, e porquê?
Resolução: os prensos, provavelmente mal dimensionados ou com folga excessiva no assento. Os prensos são o que resiste ao empuxo do metal líquido sobre o macho e o mantém centrado; sem eles corretamente dimensionados, o macho flutua e desvia a cavidade interior da peça.
5. Uma peça tem uma zona espessa de 40 mm ligada a duas zonas finas de 6 mm. Onde deve ser colocado o massalote e porquê?
Resolução: o massalote coloca-se sobre a zona espessa (40 mm), porque é essa que solidifica por último e sofre a maior contração de solidificação. O massalote fornece metal líquido a essa zona até ela solidificar completamente, evitando um vazio interior (rechupe).