Sebenta · Preparar, executar e monitorizar a alimentação animal (UC05208)
- Introdução
- 1. Nutrição animal, os grandes grupos de nutrientes
- 2. Tipos de alimentos em pecuária
- 3. Sistema digestivo, digestão e metabolismo
- 4. Água na alimentação animal
- 5. Dieta, ração e formulação
- 6. Plano de alimentação por fase do ciclo de vida
- 7. Modo e sistema de produção
- 8. Preparar, processar e administrar o alimento
- 9. Monitorização, registos e ajustes
- 10. Higiene, segurança alimentar e bem-estar animal
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina o ciclo completo da alimentação animal numa exploração pecuária: avaliar as necessidades nutricionais de cada espécie e fase, implementar o plano de alimentação e de abeberamento, e monitorizar, registar e ajustar os consumos ao longo do tempo. É um dos processos mais críticos da produção agropecuária, uma alimentação mal feita compromete o crescimento, a reprodução, a saúde e, em última análise, o rendimento da exploração.
O percurso segue a lógica de um técnico no terreno: primeiro os fundamentos da nutrição (o que é um nutriente, como o sistema digestivo o aproveita), depois os tipos de alimento disponíveis em Portugal, a formulação de dietas e rações, o plano de alimentação ajustado a cada fase do ciclo produtivo, as técnicas e equipamentos de preparação e distribuição, e por fim a monitorização, os registos e as regras de higiene, segurança, bem-estar animal e biossegurança que atravessam toda a atividade.
Objetivos de aprendizagem (referencial): avaliar as necessidades alimentares e de nutrição animal; implementar o plano de alimentação e abeberamento; monitorizar, registar e ajustar os consumos e a distribuição de alimentos, cumprindo sempre os requisitos legais e as normas de segurança, proteção individual, bem-estar animal, biossegurança e qualidade.
1. Nutrição animal, os grandes grupos de nutrientes
Todo o plano de alimentação parte da mesma base: conhecer os nutrientes e a função de cada um no organismo animal.
- Proteínas: constituídas por aminoácidos, essenciais ao crescimento muscular, à reprodução e à produção de leite. Alguns aminoácidos são "essenciais", o animal não os consegue sintetizar e tem de os obter pela dieta.
- Hidratos de carbono: a principal fonte de energia. Distinguem-se os açúcares e amidos, facilmente digeríveis por todas as espécies, da fibra, digerível sobretudo pelos ruminantes através da fermentação microbiana do rúmen.
- Lípidos: fonte de energia concentrada, fornecem mais do dobro da energia dos hidratos de carbono por grama, e veiculam as vitaminas lipossolúveis.
- Vitaminas: lipossolúveis (A, D, E, K), armazenadas no tecido adiposo, e hidrossolúveis (complexo B e vitamina C), que precisam de reposição mais regular na dieta.
- Minerais: macrominerais em maior quantidade (cálcio, fósforo, sódio, cloro, potássio, magnésio, enxofre) e oligoelementos ou microminerais em quantidades vestigiais mas indispensáveis (ferro, cobre, zinco, manganês, iodo, selénio, cobalto).
Necessidades por espécie
As necessidades nutricionais não são universais. Um suíno em crescimento precisa de proteína de alto valor biológico para desenvolver músculo; uma vaca leiteira em lactação precisa sobretudo de energia e cálcio, para sustentar a produção de leite sem descalcificar o esqueleto; uma poedeira precisa de níveis elevados de cálcio para formar a casca do ovo; um coelho precisa de fibra em quantidade suficiente para manter o trânsito digestivo saudável.
Exemplo resolvido · Interpretar uma tabela nutricional
Uma tabela de composição de alimentos indica, por quilograma de alimento tal como é fornecido (matéria fresca, com cerca de 88% de matéria seca): milho, 9% de proteína bruta e cerca de 3.300 kcal de energia metabolizável para aves; bagaço de soja 44, 44% de proteína bruta e cerca de 2.300 kcal. Antes de comparar alimentos, confirma sempre se os valores da tabela estão expressos em matéria fresca (MF) ou em matéria seca (MS), porque misturar as duas bases falseia qualquer cálculo. Um técnico precisa de escolher a matéria-prima dominante para elevar a proteína de uma ração de crescimento sem baixar demasiado a energia disponível.
- Comparar proteína: o bagaço de soja tem quase cinco vezes mais proteína do que o milho.
- Comparar energia: o milho tem mais energia por quilograma do que o bagaço de soja.
- Conclusão: o milho é a base energética da ração, o bagaço de soja é o corretor de proteína, adicionado na proporção necessária para atingir o valor-alvo (ver capítulo 5, quadrado nutricional).
Interpretar corretamente uma tabela nutricional é a base de qualquer formulação, sem isso não é possível calcular nada com rigor.
2. Tipos de alimentos em pecuária
Os alimentos usados em pecuária dividem-se em dois grandes grupos: naturais e compostos.
Alimentos naturais
- Pastagens e forragens: erva e plantas forrageiras consumidas em verde, diretamente no terreno.
- Feno: forragem cortada e seca (ao sol ou em secador), conservando-se durante meses, para usar fora da época de crescimento da erva.
- Palha: subproduto da colheita de cereais, pobre em valor nutritivo, usado sobretudo como fonte de fibra estrutural e como cama.
- Silagem: forragem conservada por fermentação anaeróbia num silo ou fardo envolvido em plástico, conserva melhor o valor energético do que o feno, mas exige boa compactação e vedação para evitar bolores.
Alimentos compostos
- Concentrados energéticos: cereais como o milho, a cevada e o trigo, ricos em amido.
- Concentrados proteicos: bagaço de soja, de girassol ou de colza, e outras farinhas e subprodutos ricos em proteína.
- Suplementos e aditivos: complexos vitamínico-minerais e aditivos zootécnicos, adicionados em pequena quantidade mas indispensáveis ao equilíbrio final da dieta. Só podem ser usados aditivos autorizados ao abrigo do Regulamento (CE) n.º 1831/2003, e os antibióticos como promotores de crescimento estão proibidos na União Europeia desde 2006.
Um alimento medicamentoso (alimento com medicamento veterinário incorporado) só pode ser fabricado e administrado com receita médico-veterinária, nos termos do Regulamento (UE) 2019/4. O técnico não decide nem altera o tratamento: cumpre a receita, respeita o intervalo de segurança e regista a administração.
Sistemas de pastoreio
- Pastoreio contínuo: o efetivo ocupa a mesma área durante todo o período.
- Pastoreio rotacional: a área é dividida em parcelas, com períodos de pastoreio e de descanso, permitindo à erva recuperar e sustentando mais animais por hectare.
- Extensivo versus intensivo: distinguem-se pela carga animal por unidade de área e pelo grau de complemento alimentar.
Um alimento composto complementa o forrageiro, não o substitui. A base da dieta de um ruminante deve ser, sempre que possível, forragem ou pastagem.
3. Sistema digestivo, digestão e metabolismo
O tipo de sistema digestivo de cada espécie determina que alimentos consegue aproveitar bem, e é por isso um dos conhecimentos centrais desta UC.
Monogástricos
Suínos, aves e coelhos têm um estômago simples, com digestão sobretudo enzimática.
- As aves têm um papo (armazenamento temporário do alimento ingerido) e uma moela (trituração mecânica, muitas vezes com o auxílio de pequenas pedras ingeridas).
- Os coelhos, apesar de monogástricos, praticam cecotrofia: reingerem diretamente do ânus fezes moles produzidas no ceco, ricas em nutrientes de fermentação microbiana, aproveitando assim parte da fibra que, de outra forma, se perderia.
Poligástricos ou ruminantes
Bovinos, ovinos e caprinos têm um estômago com quatro compartimentos:
| Compartimento | Função |
|---|---|
| Rúmen | fermentação microbiana da fibra, o maior compartimento |
| Retículo | seleção de partículas e formação do bolo a ruminar |
| Omaso | absorção de água e redução do volume do bolo |
| Abomaso | digestão enzimática, equivalente ao estômago dos monogástricos |
A ruminação, a remastigação do bolo alimentar regurgitado do rúmen, é exclusiva destas espécies, e é o que lhes permite aproveitar fibra que os monogástricos não digerem.
Efeito da alimentação nos sistemas vitais
Uma alimentação mal ajustada não afeta só o peso do animal, reflete-se noutros sistemas:
- Respiração: em ruminantes, mudanças bruscas para dietas ricas em concentrado ou leguminosas verdes podem causar timpanismo (acumulação de gás no rúmen), que comprime o diafragma e dificulta a respiração.
- Circulação: o ferro e a proteína são necessários à formação de hemoglobina, que transporta o oxigénio no sangue; a carência de ferro causa anemia, frequente em leitões lactentes.
- Reprodução: défices de energia ou proteína atrasam o cio, reduzem a fertilidade e comprometem a evolução de uma gestação.
4. Água na alimentação animal
A água é, com frequência, o nutriente menos valorizado e o mais crítico na prática. A sua falta reduz o consumo de alimento sólido em poucas horas.
Necessidades por espécie e tipo de alimentação
As necessidades de água variam com a espécie, o tipo de alimentação (alimento seco exige mais água de bebida do que alimento verde, que já contém água), a temperatura ambiente e o estado fisiológico. Uma vaca em lactação necessita de muito mais água do que a mesma vaca no período seco, entre lactações; em dias quentes, as necessidades de qualquer espécie podem aumentar significativamente.
Sistemas de abeberamento
- Bebedouros de chupeta: comuns em suínos e aves, fornecem água a pedido, com pouco desperdício.
- Bebedouros de taça ou de nível: usados em bovinos e pequenos ruminantes, com reservatório e boia reguladora.
- Tanques e bebedouros de campo: em pastoreio, exigem verificação frequente de limpeza e de nível de água.
Exemplo resolvido · Diagnosticar um problema de abeberamento
Um lote de leitões desmamados reduz de forma súbita o consumo de ração, apesar de o comedouro estar cheio. O técnico verifica os bebedouros de chupeta e constata caudal muito reduzido.
- Hipótese: uma chupeta parcialmente obstruída limita o acesso à água.
- Verificação: testar o caudal em várias chupetas do parque; comparar com o número de animais presentes.
- Ação: desobstruir ou substituir a chupeta, e confirmar o consumo de água e de ração nas horas seguintes.
- Registo: anotar a ocorrência e a solução na ficha de manutenção de bebedouros, para acompanhar recorrências.
Verificar o funcionamento dos bebedouros é uma tarefa diária. Um bebedouro parado passa facilmente despercebido até o consumo de ração já ter caído de forma visível.
5. Dieta, ração e formulação
Dieta versus ração
- Dieta: o conjunto de alimentos que, combinados, satisfazem as necessidades nutricionais de um animal ou grupo de animais.
- Ração: a quantidade de alimento fornecida num determinado período, normalmente por dia.
- Ração simples: um único alimento ou mistura fixa, sem cálculo individualizado da composição nutricional.
- Ração balanceada: calculada para atingir um valor-alvo de proteína, energia e minerais, combinando várias matérias-primas nas proporções corretas.
Matérias-primas alimentares
Cada matéria-prima tem um perfil nutricional próprio, disponível em tabelas de composição de alimentos: teor de proteína bruta, energia metabolizável, fibra, cálcio e fósforo, entre outros valores.
Exemplo resolvido · Formular uma ração pelo método do quadrado nutricional
Um lote de suínos em crescimento precisa de 16% de proteína bruta na ração. Dispomos de milho (9% de proteína) e bagaço de soja (44% de proteína). Quanto de cada um se deve misturar?
- Definir x como a proporção de milho e (1 - x) como a proporção de bagaço de soja.
- Escrever a equação de equilíbrio: 9x + 44(1 - x) = 16.
- Desenvolver: 9x + 44 - 44x = 16 → -35x = -28 → x = 0,80.
- Resultado: 80% de milho e 20% de bagaço de soja, em massa.
- Verificação: 9 × 0,80 + 44 × 0,20 = 7,2 + 8,8 = 16% de proteína bruta, confirma o alvo pretendido.
Este método simples, conhecido como quadrado de Pearson, resolve misturas de dois ingredientes para um único nutriente-alvo; formulações com mais nutrientes e mais ingredientes recorrem a programação linear em software especializado, mas o princípio de base é o mesmo: equilibrar o que falta com o que sobra.
Calcular a quantidade diária
Depois de definida a composição da ração, calcula-se a quantidade diária a administrar por animal, com base no seu peso vivo, na fase produtiva e nas tabelas de recomendação por espécie, expressa em regra como percentagem do peso vivo ou em quilogramas de matéria seca por dia.
Exemplo · de matéria seca para matéria fresca. Uma vaca leiteira de 600 kg ingere cerca de 3% do peso vivo em matéria seca: 600 × 0,03 = 18 kg de MS por dia. Se metade dessa MS vier de silagem de milho com 35% de MS, são 9 kg de MS de silagem, ou seja, 9 / 0,35 ≈ 25,7 kg de silagem tal como é distribuída. Esquecer esta conversão e dar 9 kg de silagem fresca deixaria a vaca com apenas 9 × 0,35 ≈ 3,2 kg de MS vindos da silagem.
6. Plano de alimentação por fase do ciclo de vida
O plano de alimentação organiza, no tempo, o que, quanto e quando alimentar cada grupo do efetivo, de acordo com a espécie e a fase do ciclo de vida ou de produção.
Ajustes por fase fisiológica
| Fase | Ajuste típico na dieta |
|---|---|
| Crescimento | mais proteína e aminoácidos essenciais, para o desenvolvimento muscular |
| Gestação | aumento gradual de energia e minerais, sobretudo no último terço da gestação |
| Lactação | pico de necessidades energéticas e proteicas, para sustentar a produção de leite |
| Reprodução | ajustes de energia e vitaminas, para sustentar a atividade reprodutiva de machos e fêmeas |
Distinguir os requisitos nutricionais entre animais gestantes, lactantes e em crescimento é uma aptidão explícita do referencial, e um erro comum é manter a mesma ração da gestação depois do parto, sem ajustar ao pico da lactação.
Disponibilizar e atualizar o plano
O plano de alimentação deve estar disponível para quem trabalha diretamente com os animais, e atualizado sempre que mudam as condições, a idade, o peso, a época do ano ou a disponibilidade de forragem. Documenta-se normalmente em fichas afixadas junto ao armazém ou ao parque, ligadas diretamente aos registos de consumo do capítulo 8.
7. Modo e sistema de produção
O tipo de alimentação depende também do modo de produção escolhido pela exploração.
- Modo de produção integrado: modo de produção certificado que procura conciliar produtividade, proteção do ambiente e segurança dos alimentos, com uso racional dos fatores de produção. Na alimentação pode recorrer a matérias-primas convencionais e a alimentos compostos comerciais, mas segue as normas técnicas do modo de produção, privilegia os recursos forrageiros da exploração e exige registos e rastreabilidade.
- Modo de produção biológico (Regulamento (UE) 2018/848): exige alimentos biológicos certificados, proíbe organismos geneticamente modificados, aminoácidos de síntese e promotores de crescimento, e restringe os aditivos a uma lista autorizada. Pelo menos 70% do alimento dos herbívoros e 30% do dos suínos e aves tem de vir da própria exploração ou da mesma região; nos ruminantes, pelo menos 60% da matéria seca da dieta deve ser forragem; os herbívoros têm acesso a pastagem sempre que as condições o permitam e as aves e os suínos a espaços ao ar livre.
A escolha do modo de produção condiciona as matérias-primas disponíveis, os fornecedores e a documentação a manter, sobretudo a certificação e a rastreabilidade.
Pastoreio e maneio das pastagens
Quando há pastoreio, o técnico participa também no maneio da pastagem, e não apenas na distribuição de alimento em cocho:
- Verificar a existência de pastoreio adequado, avaliando a quantidade e a qualidade da erva disponível face à carga animal presente.
- Realizar o maneio das pastagens: rotação de parcelas, períodos de descanso, controlo de infestantes.
- Conduzir o pastoreio do efetivo, deslocando os animais entre parcelas conforme o plano de rotação definido.
8. Preparar, processar e administrar o alimento
Técnicas e equipamentos
- Misturadoras: homogeneízam vários ingredientes numa ração balanceada.
- Carros de alimentação (unifeed): preparam e distribuem a ração total misturada, muito usados em bovinicultura leiteira.
- Moegas e silos: armazenam e dosam alimentos compostos e cereais.
- Sistemas automáticos de distribuição: comedouros e bebedouros ligados a temporizadores ou sensores, comuns em avicultura e suinicultura intensivas.
- Comedouros e bebedouros manuais: usados em explorações mais pequenas ou em pastoreio.
Procedimentos operacionais
A administração do alimento segue sempre uma sequência definida:
- Confirmar o plano de alimentação do lote (o quê, quanto, quando).
- Preparar a ração diária, pesando ou dosando conforme o plano.
- Distribuir no horário definido, respeitando o espaço de comedouro por animal.
- Verificar em simultâneo o acesso a água limpa e fresca.
- Observar o comportamento e o consumo durante e após a distribuição.
Processamento de alimentos
Antes de chegar ao comedouro, muitos alimentos passam por um processamento:
- Desidratação: remoção da água por secagem, prolonga a vida útil e reduz o peso a transportar.
- Moagem: redução do tamanho das partículas, melhora a homogeneidade da mistura e a digestão enzimática, mas em excesso pode causar problemas digestivos.
- Peletização: compactação da farinha moída em pequenos cilindros por pressão e calor moderado, reduz o desperdício e a seleção de ingredientes pelo animal.
- Extrusão: aplicação de calor e pressão mais elevados, aumenta a digestibilidade do amido e reduz fatores antinutricionais, muito usada em rações de animais de companhia e aquacultura.
9. Monitorização, registos e ajustes
Monitorizar não é opcional, é a terceira grande realização do referencial, a par de avaliar necessidades e implementar o plano.
Técnicas de controlo
- Determinar a taxa de crescimento: pesagens periódicas, comparadas com curvas de crescimento de referência para a espécie e a linha genética.
- Índice de conversão alimentar: quantidade de alimento consumida por unidade de produto obtido (quilo de peso vivo, litro de leite, dúzia de ovos), um indicador central de eficiência.
- Interpretar resultados e propor melhorias, comparando o consumo real com o previsto no plano.
Registos e comunicação
- Fichas ou formulários de registo: data, lote, quantidade distribuída, quantidade rejeitada ou sobrante, observações.
- Propor ajustes à composição ou à quantidade da ração, conforme os resultados observados.
- Atualizar o plano de alimentação sempre que um ajuste é validado.
- Comunicar os resultados e as alterações ao superior hierárquico, de forma clara e atempada.
Exemplo resolvido · Calcular o índice de conversão alimentar
Um lote de frangos de engorda consumiu, ao longo do ciclo, 3.200 kg de ração e produziu 1.600 kg de peso vivo (peso total à saída menos o peso dos pintos à entrada).
Índice de conversão = alimento consumido / peso vivo produzido = 3.200 / 1.600 = 2,0.
Isto significa que foram necessários 2 kg de ração para produzir 1 kg de peso vivo. Comparado com o valor de referência da linha genética, este resultado permite ao técnico avaliar se o desempenho está dentro do esperado ou se há uma causa a investigar, alimentar ou sanitária.
10. Higiene, segurança alimentar e bem-estar animal
Boas práticas na manipulação
Cumprir os princípios de higiene e segurança alimentar na manipulação dos alimentos a administrar é um critério de desempenho explícito do referencial.
- Armazenamento correto: local seco, arejado, protegido de pragas e roedores, respeitando prazos de validade.
- Evitar contaminações cruzadas, entre alimentos, entre lotes de idades diferentes, entre alimento e dejetos.
- Controlo de micotoxinas, resultantes de bolores em cereais mal armazenados, que prejudicam a saúde e o desempenho do animal.
- Limpeza regular de comedouros, bebedouros, silos e equipamento de preparação.
Estes princípios seguem a lógica da legislação europeia de higiene dos alimentos para animais, nomeadamente o Regulamento (CE) n.º 183/2005, e ligam-se à legislação geral de segurança alimentar, o Regulamento (CE) n.º 178/2002, que também cobre a alimentação animal como parte da cadeia alimentar. O Anexo III do Regulamento (CE) n.º 183/2005 fixa as boas práticas de alimentação animal que se aplicam diretamente aos criadores: armazenar os alimentos separados de produtos químicos e medicamentos, manter os sistemas de distribuição e de água limpos, e guardar registos que permitam saber que alimento, de que fornecedor e de que lote foi dado a cada grupo de animais.
Bem-estar animal e biossegurança
- Alimento adequado à espécie e à idade, em quantidade suficiente e a intervalos ajustados às necessidades fisiológicas, e acesso a água limpa e fresca, sem restrições que causem sofrimento.
- Respeito pelas necessidades comportamentais da espécie, incluindo o acesso a pastoreio quando aplicável.
- Espaço de comedouro suficiente para que todos os animais do lote comam sem competição excessiva.
- Biossegurança: controlo de pragas e roedores junto a silos e armazéns, separação de equipamento entre lotes quando necessário, e higienização de comedouros e bebedouros entre ciclos produtivos.
Estes princípios acompanham a lógica da legislação europeia de proteção dos animais nas explorações pecuárias, a Diretiva 98/58/CE, transposta para o direito português pelo Decreto-Lei n.º 64/2000.
Bem-estar animal não é um extra opcional. É simultaneamente uma aptidão e um critério de desempenho explícito do referencial desta UC.
Segurança, saúde no trabalho e ambiente
- EPI: luvas, máscara contra poeiras na moagem e no manuseio de farinhas, calçado de proteção, vestuário adequado.
- Riscos típicos: entalamento em misturadoras e sem-fins, quedas em silos e plataformas, esforços na movimentação manual de sacos.
- Gestão de resíduos: embalagens, sobras de alimento, efluentes, integrados no plano geral de gestão de resíduos da exploração.
- Proteção ambiental: gestão de efluentes, prevenção de contaminação de solos e linhas de água por excesso de nutrientes.
- Normas da qualidade: rastreabilidade das matérias-primas e das rações, registos que permitam identificar a origem de cada lote de alimento.
Erros comuns
- Confundir dieta (o quê) com ração (quanto e quando), tratando-os como sinónimos.
- Subestimar a água como nutriente, sobretudo em dias quentes, quando as necessidades podem aumentar de forma acentuada.
- Manter a mesma ração da gestação depois do parto, sem ajustar ao pico de necessidades da lactação.
- Assumir que uma moagem mais fina é sempre melhor, quando o excesso pode causar problemas digestivos.
- Não verificar diariamente os bebedouros, deixando passar avarias que reduzem o consumo de água e, a seguir, o de alimento.
- Não registar os consumos de forma sistemática, perdendo a capacidade de comparar desempenho ao longo do tempo.
- Ignorar a biossegurança dos silos e armazéns, tratando-os como espaços de baixo risco.
Glossário
- Cecotrofia: reingestão pelos coelhos de fezes moles produzidas no ceco, ricas em nutrientes de fermentação microbiana.
- Concentrado: alimento composto rico em energia ou em proteína, usado para complementar a forragem.
- Conversão alimentar: quantidade de alimento consumida por unidade de produto obtido.
- Desidratação: remoção da água de um alimento por secagem, para o conservar.
- Extrusão: processamento com calor e pressão elevados, que aumenta a digestibilidade do amido.
- Matéria-prima alimentar: cereal, bagaço, farinha, forragem ou suplemento usado na formulação de uma dieta.
- Moagem: redução do tamanho das partículas de um alimento sólido.
- Monogástrico: animal com estômago simples e digestão sobretudo enzimática, como o suíno, a ave e o coelho.
- Peletização: compactação de um alimento moído em pequenos cilindros, por pressão e calor moderado.
- Poligástrico ou ruminante: animal com estômago de quatro compartimentos, capaz de fermentar a fibra.
- Ração balanceada: ração calculada para atingir valores-alvo de nutrientes, combinando várias matérias-primas.
- Ruminação: remastigação do bolo alimentar regurgitado do rúmen.
- Silagem: forragem conservada por fermentação anaeróbia num silo ou fardo.
Síntese
A alimentação animal segue sempre o mesmo ciclo: avaliar as necessidades nutricionais por espécie, fase e modo de produção; formular a dieta e a ração, natural ou composta, simples ou balanceada; implementar o plano com o equipamento e os procedimentos corretos, incluindo o abeberamento; e monitorizar, registar e ajustar, comunicando resultados. Todo este processo decorre sob normas de higiene, segurança no trabalho, proteção ambiental, qualidade, biossegurança e bem-estar animal, que não são acessórias, são parte do próprio critério de desempenho técnico.
Exercícios resolvidos
1. Um lote de suínos em crescimento precisa de 16% de proteína bruta. Dispomos de milho (9%) e bagaço de soja (44%). Que proporção de cada usar?
Resolução: pelo quadrado nutricional, 9x + 44(1 - x) = 16, resolvendo obtém-se x = 0,80. Usam-se 80% de milho e 20% de bagaço de soja, verificando-se 9 × 0,80 + 44 × 0,20 = 16%.
2. Um lote de frangos consumiu 3.200 kg de ração e produziu 1.600 kg de peso vivo. Calcula o índice de conversão alimentar.
Resolução: índice = alimento consumido / peso vivo produzido = 3.200 / 1.600 = 2,0, ou seja, 2 kg de ração por cada quilo de peso vivo produzido.
3. Um lote de leitões desmamados reduz o consumo de ração apesar de o comedouro estar cheio. Qual a primeira hipótese a verificar e porquê?
Resolução: verificar primeiro os bebedouros, um caudal reduzido ou uma chupeta obstruída reduz o consumo de água e, em poucas horas, o consumo de ração cai também, mesmo com alimento disponível.
4. Explica a diferença entre monogástrico e poligástrico e o papel da ruminação.
Resolução: o monogástrico (suíno, ave, coelho) tem estômago simples e digestão sobretudo enzimática; o poligástrico ou ruminante (bovino, ovino, caprino) tem quatro compartimentos e uma população microbiana no rúmen que fermenta a fibra. A ruminação, a remastigação do bolo regurgitado, é exclusiva dos poligástricos e permite-lhes aproveitar fibra que os monogástricos não digerem.
5. Uma exploração passa de modo de produção integrado para modo de produção biológico. Que mudanças isto implica na alimentação?
Resolução: passa a exigir alimentos de produção biológica certificada, sem OGM nem aminoácidos de síntese, com aditivos limitados à lista autorizada; obriga a que uma percentagem mínima do alimento venha da própria exploração ou região (70% nos herbívoros, 30% nos suínos e aves), a pastagem para os herbívoros sempre que as condições o permitam e a espaços ao ar livre para suínos e aves, com maior exigência de rastreabilidade e documentação.