Sebenta · Executar a identificação, marcação e o registo de animais (UC05207)
- Introdução
- 1. O sistema oficial de identificação animal: o SNIRA
- 2. Enquadramento legal e entidades responsáveis
- 3. Identificação visual dos animais
- 4. Identificação eletrónica dos animais
- 5. Identificação por espécie
- 6. Livros genealógicos e registo genealógico
- 7. Técnicas de contenção animal
- 8. Bem-estar animal: princípios e as cinco liberdades
- 9. Comportamento animal
- 10. Sinais de stress e desconforto
- 11. Registar e comunicar a identificação
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a identificar, marcar e registar animais de produção de acordo com o sistema oficial português, o SNIRA, e com a legislação nacional e comunitária em vigor. É um trabalho que combina três componentes: a técnica de marcação em si (visual e eletrónica), a contenção do animal com respeito pelo seu bem-estar, e o registo e a comunicação da informação às entidades competentes.
O percurso segue a ordem natural do trabalho: primeiro avaliamos o sistema oficial de identificação e os seus requisitos legais; depois analisamos os livros genealógicos das espécies; a seguir aprendemos a implementar técnicas de contenção animal com base em princípios de bem-estar; e terminamos a registar e comunicar a identificação dos animais às entidades competentes, sempre com segurança, EPI e normas de qualidade presentes em cada etapa.
Objetivos de aprendizagem: avaliar o sistema oficial de identificação e marcação dos animais e os requisitos legais nacionais e comunitários; analisar os livros genealógicos das espécies animais; implementar técnicas de contenção animal; registar e comunicar a identificação dos animais às entidades competentes.
1. O sistema oficial de identificação animal: o SNIRA
O Sistema Nacional de Informação e Registo Animal (SNIRA) é o sistema oficial onde se regista a identificação, os movimentos e os efetivos das explorações pecuárias portuguesas. Foi criado pelo Decreto-Lei n.º 142/2006, de 27 de julho, e reparte-se por duas entidades:
- a DGAV (Direção-Geral de Alimentação e Veterinária), autoridade veterinária nacional, define a informação necessária ao funcionamento do SNIRA, as regras de identificação e fiscaliza o seu cumprimento;
- o IFAP (Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas) é responsável pela gestão informática da base de dados. As comunicações fazem-se na área reservada do portal do IFAP (plataforma iDigital), pelo produtor ou por uma entidade reconhecida, como uma organização de produtores pecuários (OPP) ou uma associação de criadores.
O SNIRA junta, num só sistema, o que antes vivia disperso por livros de registo em papel. Conhecer este sistema e os requisitos legais nacionais e europeus que o sustentam é o ponto de partida de todo o trabalho de identificação.
Para que serve a rastreabilidade
A rastreabilidade é a capacidade de seguir um animal "do prado ao prato", do nascimento ao consumo:
- Permite localizar rapidamente animais expostos a uma doença e conter o foco de infeção.
- Sustenta a segurança alimentar, ligando cada produto de origem animal à exploração de onde veio.
- É a base do controlo dos apoios à produção pecuária, geridos pelo IFAP.
- Reforça a confiança do consumidor na origem e nas condições de produção do que come.
Quem faz o quê
| Entidade | Papel |
|---|---|
| DGAV | autoridade veterinária nacional; define as regras e a informação do SNIRA e fiscaliza o seu cumprimento |
| IFAP | gere a base de dados do SNIRA (portal iDigital) e usa os mesmos dados no controlo das ajudas à produção pecuária |
| Associações de criadores | gerem os livros genealógicos das respetivas raças |
| Produtor / técnico | identifica, marca e comunica cada animal dentro do prazo legal |
Exemplo resolvido · Localizar um foco de doença
Uma exploração de bovinos deteta um caso suspeito de doença contagiosa. Como é que a identificação e o registo ajudam a conter o foco?
- Perante a suspeita, o veterinário comunica de imediato aos serviços veterinários da DGAV, sem esperar pela confirmação, que é feita por análise laboratorial.
- A DGAV consulta o SNIRA e obtém, em minutos, a lista de todos os animais dessa exploração e os movimentos recentes (entradas e saídas).
- As explorações que receberam ou enviaram animais nos últimos dias são identificadas e podem ser inspecionadas ou colocadas sob vigilância.
- Sem um registo fiável e atualizado, este passo demoraria dias em vez de horas, e o foco poderia alastrar-se.
A rastreabilidade só funciona se cada identificação e cada movimento estiverem corretamente registados, no momento certo.
2. Enquadramento legal e entidades responsáveis
A identificação, marcação e registo de animais são obrigações definidas na legislação nacional e comunitária, que define os prazos para identificar, os tipos de marca aceites por espécie e a obrigatoriedade de identificação eletrónica.
Os diplomas principais
| Diploma | O que regula |
|---|---|
| Regulamento (UE) 2016/429 (Lei da Saúde Animal) | quadro europeu da saúde animal, incluindo a obrigação de identificar e registar os animais |
| Regulamento Delegado (UE) 2019/2035 | regras de identificação, rastreabilidade e registo dos animais terrestres |
| Regulamento de Execução (UE) 2021/520 | meios de identificação, prazos máximos e comunicação às bases de dados |
| Regulamento de Execução (UE) 2021/963 | identificação e registo dos equídeos |
| Decreto-Lei n.º 142/2006 | cria o SNIRA em Portugal e reparte funções entre DGAV e IFAP (com alterações posteriores) |
Prazos essenciais em Portugal
| Espécie | Identificar até | Comunicar ao SNIRA |
|---|---|---|
| Bovinos | 20 dias após o nascimento, sempre antes de sair da exploração | até 7 dias após a identificação |
| Ovinos e caprinos | 6 meses após o nascimento (9 meses em regime extensivo), sempre antes de sair da exploração | até 7 dias após a identificação |
| Suínos | antes de sair da exploração | no prazo legal, confirmar na DGAV/IFAP |
| Equídeos | no prazo fixado pelo Estado-Membro, nunca mais de 12 meses após o nascimento | no prazo legal, confirmar na DGAV/IFAP |
Nos bovinos, ovinos e caprinos, os movimentos e as mortes também se comunicam no prazo máximo de 7 dias. Como a legislação se atualiza com regularidade, o princípio de trabalho correto é: na dúvida sobre um prazo ou uma obrigação concreta, confirma-se sempre junto da DGAV ou do IFAP, nunca se assume "o que era antes".
Responsabilidades e requisitos
- Cumprir os requisitos legais e as normas de segurança, de proteção individual, ambientais, da qualidade e de biossegurança faz parte de qualquer operação de identificação.
- Selecionar o processo de marcação de acordo com a espécie e a obrigatoriedade legal em vigor é a primeira decisão técnica.
- A responsabilidade pela identificação, marcação e registo é, em última instância, do produtor, apoiado pelo técnico que executa o procedimento.
3. Identificação visual dos animais
A identificação visual é o tipo de marcação mais antigo e ainda hoje o mais comum:
| Tipo de marca visual | Descrição | Uso típico |
|---|---|---|
| Brinco / etiqueta auricular | marca na orelha, com código único | bovinos, ovinos, caprinos |
| Tatuagem | marca fixa na pele ou orelha | suínos, coelhos |
| Ferro (marca a fogo ou a frio, com azoto líquido) | marca permanente de criador ou de raça, não é meio oficial de identificação | equinos de raça, bovinos extensivos |
| Tinta | marca temporária | identificação de curto prazo |
| Anéis, pulseiras, coleiras | marca amovível | conforme espécie e finalidade |
Vantagens e limites
A marcação visual é fácil de ler à distância e barata, mas pode perder-se, desgastar-se com o tempo ou ser fraudada (trocada ou apagada). Por isso, a legislação define caso a caso quantos meios são exigidos: a dupla identificação convencional + eletrónica é obrigatória em ovinos e caprinos; nos bovinos exigem-se dois brincos auriculares com o mesmo código, podendo um deles ser eletrónico; nos suínos basta a marca da exploração; nos equídeos, microchip e documento de identificação. A marca a ferro tem impacto no bem-estar e não substitui a identificação oficial.
A aplicação de qualquer marca visual tem de ser feita com material e local adequados à espécie, minimizando dor e stress ao animal, respeitando as normas de proteção individual e de bem-estar animal.
Exemplo resolvido · Escolher a marca certa
Nasceu uma vintena de cordeiros numa exploração de ovinos. Que combinação de identificação aplicar?
- Consultar a legislação em vigor para ovinos: exige identificação individual, com brinco convencional e um segundo meio eletrónico (em Portugal, de preferência bolo ruminal com o mesmo código), até 6 meses após o nascimento (9 meses em extensivo) e sempre antes de saírem da exploração.
- Verificar se os cordeiros vão para abate em Portugal antes dos 12 meses: nesse caso podem seguir o regime simplificado, com um brinco com a marca da exploração de nascimento.
- Escolher o material adequado ao tamanho da orelha do cordeiro, evitando ferir cartilagem ou vasos sanguíneos.
- Registar o código de cada brinco no livro de registo da exploração no momento da aplicação e comunicar ao SNIRA até 7 dias após a identificação.
4. Identificação eletrónica dos animais
A identificação eletrónica usa um transponder que um leitor RFID interpreta sem contacto:
- Microchip (transponder subcutâneo): injetado sob a pele, lido por um leitor de proximidade.
- Bolo ruminal: cápsula administrada por via oral que fica no retículo dos ruminantes, praticamente inamovível, lida por um leitor a curta distância.
- Brinco RFID: combina a marca visual do brinco convencional com um chip eletrónico.
A obrigatoriedade de identificação eletrónica varia por espécie e segue sempre a legislação em vigor. Traz vantagens claras: leitura automática em explorações, feiras, mercados e matadouros, sem erro de transcrição manual, e maior rapidez na comunicação ao SNIRA.
Boa prática: o equipamento de leitura (leitor RFID) tem de estar calibrado e testado regularmente. Um leitor descalibrado gera leituras erradas ou falhadas, comprometendo todo o registo seguinte.
5. Identificação por espécie
Cada espécie tem um regime próprio de identificação, definido na legislação em vigor. A tabela seguinte resume os traços gerais:
| Espécie | Marca principal | Traço distintivo |
|---|---|---|
| Bovinos | dois brincos, um por orelha, mesmo código | identificação individual, até 20 dias após o nascimento |
| Equídeos | microchip + documento de identificação | documento acompanha o animal a vida toda |
| Ovinos / caprinos | brinco convencional + meio eletrónico (bolo ruminal) | até 6 meses (9 em extensivo); regime simplificado para abate antes dos 12 meses |
| Suínos | tatuagem ou brinco com o código da exploração | identificação normalmente ao nível da exploração, antes de sair |
Bovinos
A identificação é individual, com dois brincos (um em cada orelha), com o mesmo código, aplicados até 20 dias após o nascimento e sempre antes de o animal sair da exploração. Os dois brincos podem ser convencionais; a marcação eletrónica é facultativa. O nascimento comunica-se ao SNIRA até 7 dias após a identificação, e o mesmo prazo aplica-se aos movimentos e mortes. A pedido do produtor, a base de dados emite o documento de identificação do bovino (passaporte).
Equídeos
A identificação faz-se por microchip, acompanhada de um documento de identificação único e vitalício emitido por entidade competente, uma espécie de "passaporte" que acompanha o animal a vida toda. Este documento regista se o animal está, ou não, destinado a consumo humano, informação essencial para controlar quais medicamentos lhe podem ser administrados. O equídeo tem de ser identificado no prazo fixado pelo Estado-Membro, nunca mais de 12 meses após o nascimento (Regulamento de Execução (UE) 2021/963). Quando um equídeo muda de exploração, o novo detentor verifica se o microchip coincide com o documento.
Ovinos e caprinos
A identificação é individual, com um brinco convencional e um meio eletrónico com o mesmo código (em Portugal, de preferência o bolo ruminal), obrigatória para os animais nascidos desde 2010. Aplica-se até 6 meses após o nascimento (9 meses em regime extensivo), sempre antes de sair da exploração, e comunica-se ao SNIRA até 7 dias após a identificação. Os animais abatidos em Portugal antes dos 12 meses podem seguir um regime simplificado, com um brinco com a marca da exploração de nascimento. A rastreabilidade nestas espécies é particularmente relevante no controlo de doenças de disseminação rápida em rebanho.
Suínos
A identificação faz-se normalmente ao nível da exploração (tatuagem ou brinco com o código da exploração de origem), não sempre individual. O essencial é saber, com precisão, de onde vem e para onde vai cada lote. O registo de movimentos é tão importante como a marca aplicada ao animal.
6. Livros genealógicos e registo genealógico
Um livro genealógico é o registo oficial de uma raça, mantido por uma associação de criadores reconhecida pela DGAV. Saber analisá-lo é essencial para quem trabalha com animais de raça pura.
- Organiza os animais de raça pura por secções, conforme os critérios de inscrição.
- Documenta a ascendência de cada animal (pais, avós, linhagem).
- É a base da seleção genética e da valorização comercial da raça.
- É diferente do SNIRA: o SNIRA identifica e rastreia; o livro genealógico certifica raça e ascendência.
Principais raças autóctones portuguesas
| Espécie | Exemplos de raças com livro genealógico |
|---|---|
| Bovinos | Mertolenga, Alentejana, Barrosã, Arouquesa, Maronesa |
| Ovinos | Merino Branco, Churra Galega Bragançana, Serra da Estrela |
| Caprinos | Serrana, Charnequeira, Bravia |
| Suínos | Alentejano, Bísaro |
| Equinos | Puro Sangue Lusitano, Garrano, Sorraia |
Controlo de raças puras e rastreabilidade
- Testes de ADN (filiação): confirmam que os pais declarados são mesmo os pais do animal.
- Correspondência com o SNIRA: o código oficial do animal tem de coincidir com o do livro.
- Registo de coberições e partos: sustenta a ascendência declarada.
- Contraste funcional (controlo de desempenho): pesagens, produção de leite ou crescimento, usados na seleção de reprodutores.
Analisar e preencher registos genealógicos
- Analisar a estrutura do livro: as secções existentes, os requisitos de inscrição, os documentos exigidos.
- Verificar os dados de identificação, ascendência e desempenho de cada animal, antes de os aceitar.
- Preencher e manter atualizado o registo individual e o registo genealógico.
- Confirmar que a identificação oficial do animal (SNIRA) bate certo com o registo genealógico da associação.
Um erro no registo genealógico tem impacto direto na seleção de reprodutores e no valor comercial dos animais.
7. Técnicas de contenção animal
Nenhuma marca se aplica com segurança sem uma boa contenção animal. As técnicas mais usadas:
| Técnica | Descrição | Uso típico |
|---|---|---|
| Manual | posicionamento do corpo, ajuda de outra pessoa | animais pequenos ou dóceis; no coelho, segurar a pele do dorso junto à nuca e apoiar os quartos traseiros, nunca levantar pelas orelhas |
| Cabrestos | fixação pela cabeça | bovinos, equídeos |
| Baias e troncos de contenção | estruturas fixas que limitam o movimento | bovinos em procedimentos de rotina |
| Gaiolas e caixas de contenção | estruturas que limitam o movimento durante o maneio ou o transporte | aves, pequenos ruminantes em corredores de maneio |
| Correntes e cordas | fixação flexível | várias espécies |
| Sedação e anestesia | contenção química, decidida e administrada por médico veterinário | procedimentos invasivos ou animais muito agitados |
Implementar a contenção certa
- Escolher a técnica conforme a espécie, a idade e o temperamento do animal.
- Usar equipamento dimensionado e em bom estado de conservação.
- Minimizar o tempo de contenção e a força aplicada.
- Parar ou ajustar de imediato se o animal mostrar sinais claros de sofrimento.
Exemplo resolvido · Escolher a técnica de contenção
Um bezerro tem de ser identificado (aplicação de brincos) numa exploração de bovinos. Que técnica de contenção usar?
- Avaliar o porte e a idade: um bezerro é geralmente contido manualmente, com ajuda de outra pessoa a segurá-lo pela cabeça e pelo corpo.
- Se o efetivo for grande ou os animais mais agitados, usar um tronco de contenção dimensionado à raça.
- Aplicar os brincos com rapidez, evitando prolongar a contenção mais do que o necessário.
- Observar o animal durante e após o procedimento, confirmando que não há sinais de stress prolongado.
- Registar de imediato o código dos brincos aplicados.
8. Bem-estar animal: princípios e as cinco liberdades
O bem-estar animal na contenção e na marcação obedece a princípios simples: adequar sempre os procedimentos à espécie e à idade do animal; manusear com calma, evitando gritos e movimentos bruscos; e reconhecer que a formação e a experiência de quem contém reduzem diretamente o stress do animal. O bem-estar do animal e a segurança do trabalhador andam de mãos dadas: um animal calmo é também mais seguro para manusear.
As cinco liberdades
Um enquadramento internacional de referência para avaliar o bem-estar animal:
- Livre de fome e sede: acesso a água fresca e alimentação adequada.
- Livre de desconforto: abrigo e área de descanso apropriados.
- Livre de dor, lesão ou doença: prevenção e tratamento rápido.
- Livre para expressar comportamento normal: espaço e companhia da própria espécie.
- Livre de medo e angústia: condições que evitem sofrimento mental.
As cinco liberdades servem de checklist prática antes, durante e depois de qualquer procedimento de contenção ou marcação.
9. Comportamento animal
A etologia é o estudo do comportamento animal, essencial para prever reações e reduzir o stress na marcação e na contenção.
- Ciclo de vida e desenvolvimento: cada fase (cria, jovem, adulto) tem necessidades e reações próprias.
- Comportamento alimentar e comportamento reprodutivo, próprios de cada espécie.
- Comportamento social: hierarquias e dinâmicas de grupo (rebanho, manada, bando).
- Adaptação ao ambiente e enriquecimento ambiental (espaço, estímulos, companhia), que reduzem o stress crónico.
Avaliar o comportamento de um animal é uma aptidão prática: observar o comportamento normal da espécie antes de qualquer intervenção, reconhecer hierarquias e dinâmicas de grupo, e desconfiar de um animal que se comporta "fora do padrão", pois pode estar doente ou stressado.
10. Sinais de stress e desconforto
Reconhecer sinais de stress e desconforto é essencial para agir a tempo:
| Sinal | O que indica |
|---|---|
| Mudança na postura, vocalização ou respiração | desconforto agudo |
| Recusa de alimento ou água | stress ou doença |
| Comportamentos repetitivos (estereotipias) | stress crónico |
| Tentativa de fuga ou agressividade fora do habitual | medo ou dor |
Agir perante o stress
- Interromper ou adaptar o procedimento assim que se reconhece o sinal.
- Reduzir estímulos: ruído, luz intensa, número de pessoas à volta do animal.
- Dar tempo de recuperação ao animal antes de retomar.
- Registar o incidente, para rever o procedimento no futuro e evitar repeti-lo.
11. Registar e comunicar a identificação
O ciclo fecha-se com o último passo, sem o qual o trabalho não está completo: registar e comunicar a identificação dos animais às entidades competentes.
Livros de registo
Os livros de registo podem ser individuais (um animal) ou coletivos (um lote ou toda a exploração). Registam nascimento, identificação, movimentos e mortes. Podem existir em papel ou em suporte informático, mas têm sempre de estar atualizados.
Comunicar ao SNIRA
Registar e comunicar a identificação dos animais às entidades competentes tem de acontecer dentro do prazo legal: nos bovinos, ovinos e caprinos, até 7 dias após a identificação, o movimento ou a morte. A comunicação faz-se na área reservada do portal do IFAP (iDigital), que gere a base de dados do SNIRA e usa os mesmos dados no controlo das ajudas. Quando entram animais vindos de outra exploração, estes já têm de vir identificados: cabe a quem os recebe verificar as marcas e os documentos e comunicar a entrada. Um atraso ou uma omissão é uma não conformidade, com impacto direto nos apoios e na rastreabilidade nacional.
Segurança, EPI, resíduos e qualidade
Todo este processo, do primeiro brinco à comunicação final, tem de respeitar:
- Equipamentos de proteção individual (EPI): luvas resistentes, calçado apropriado e antiderrapante, fato ou bata de trabalho e, quando o procedimento o exige, proteção ocular. O EPI escolhe-se em função da espécie e da tarefa.
- Biossegurança: higienizar mãos e equipamento entre explorações, para não espalhar doenças, e conhecer os riscos de zoonoses.
- Normas de gestão de resíduos: agulhas de microchip e de tatuagem vão para um contentor de cortantes (resíduo com risco biológico); brincos retirados e outro material de marcação separam-se corretamente; tudo é entregue a um operador licenciado, nunca no lixo comum.
- Normas da qualidade: procedimentos consistentes e documentação completa, legível e atualizada.
Exemplo resolvido · Comunicar um nascimento
Nasceu um vitelo numa exploração de bovinos. Quais são os passos, do nascimento à comunicação?
- Identificar o vitelo com dois brincos, mesmo código, até 20 dias após o nascimento e sempre antes de sair da exploração.
- Registar de imediato no livro de registo da exploração: data de nascimento, código de identificação, mãe.
- Comunicar o nascimento ao SNIRA, no portal do IFAP, até 7 dias após a identificação.
- Guardar o comprovativo da comunicação, para efeitos de fiscalização e de controlo de apoios pelo IFAP.
Erros comuns
- Aplicar apenas um meio de identificação em ovinos ou caprinos, quando a legislação exige dois (convencional e eletrónico).
- Achar que o eletrónico é obrigatório em todas as espécies: nos bovinos é facultativo e nos suínos basta a marca da exploração.
- Marcar animais que chegam de outra exploração em vez de verificar a identificação com que vêm e comunicar a entrada.
- Marcar o animal e esquecer de comunicar ao SNIRA dentro do prazo.
- Confundir o SNIRA com o livro genealógico: são registos diferentes e complementares.
- Usar a mesma técnica de contenção para espécies ou idades muito diferentes.
- Prolongar a contenção mais do que o necessário, aumentando o stress sem necessidade.
- Ignorar sinais de stress por pressa em terminar o procedimento.
- Descartar agulhas e brincos usados no lixo comum, em vez de os separar como resíduo próprio.
- Aplicar prazos ou regras desatualizados, sem confirmar a legislação em vigor junto da DGAV ou do IFAP.
Glossário
- SNIRA: Sistema Nacional de Informação e Registo Animal; regras definidas pela DGAV, base de dados gerida pelo IFAP.
- DGAV: Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, autoridade veterinária nacional.
- IFAP: Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas, gestor da base de dados do SNIRA e dos apoios agrícolas e pecuários.
- OPP: organização de produtores pecuários, que pode fazer comunicações ao SNIRA em nome dos produtores.
- Rastreabilidade: capacidade de seguir um animal do nascimento ao consumo.
- Identificação eletrónica: microchip, bolo ruminal ou brinco RFID, lidos por leitor.
- Livro genealógico: registo oficial de raça pura, mantido por associação de criadores.
- Contenção animal: conjunto de técnicas que limita o movimento do animal para permitir um procedimento.
- Cinco liberdades: enquadramento internacional de referência para o bem-estar animal.
- Etologia: estudo do comportamento animal.
- Zoonose: doença transmissível do animal para a pessoa.
- EPI: equipamento de proteção individual.
Síntese
A identificação, marcação e registo de animais segue sempre a mesma lógica: avaliar o sistema oficial (SNIRA) e a legislação em vigor → escolher a marca certa, visual e/ou eletrónica, conforme a espécie → analisar os livros genealógicos quando aplicável → implementar a técnica de contenção adequada, com bem-estar e as cinco liberdades como referência → reconhecer e agir perante sinais de stress → registar e comunicar a identificação às entidades competentes, dentro do prazo, com segurança, EPI, gestão de resíduos e normas de qualidade presentes em todas as etapas. Domina este ciclo e sabes aplicá-lo a qualquer espécie de produção.
Exercícios resolvidos
1. Que sistema oficial regista a identificação, os movimentos e os efetivos das explorações em Portugal, e que entidade o gere?
Resolução: o SNIRA (Sistema Nacional de Informação e Registo Animal). A DGAV define as regras e fiscaliza; o IFAP gere a base de dados, onde se fazem as comunicações.
2. Um produtor identifica um lote de suínos com um brinco de exploração, mas não regista cada animal individualmente. Isto é um erro?
Resolução: normalmente não. A identificação de suínos é feita ao nível da exploração (código de origem), não é sempre individual como em bovinos. O essencial é saber a origem e o destino de cada lote.
3. Distingue o SNIRA de um livro genealógico.
Resolução: o SNIRA identifica e rastreia os animais a nível nacional (obrigação legal). O livro genealógico é mantido por uma associação de criadores e certifica raça pura e ascendência, para fins de seleção genética. São registos diferentes e complementares.
4. Durante a contenção de um cabrito, este começa a vocalizar de forma anormal e a debater-se fora do habitual. O que fazer?
Resolução: interromper ou adaptar o procedimento de imediato, reduzir estímulos (ruído, número de pessoas), dar tempo de recuperação ao animal e registar o incidente, para rever o procedimento no futuro.
5. Nomeia as cinco liberdades do bem-estar animal.
Resolução: livre de fome e sede; livre de desconforto; livre de dor, lesão ou doença; livre para expressar comportamento normal; livre de medo e angústia.
6. Um vitelo nasce numa exploração. Descreve a sequência correta, da identificação à comunicação oficial.
Resolução: identificar com dois brincos (mesmo código, um por orelha) até 20 dias após o nascimento e antes de sair da exploração → registar no livro de registo da exploração → comunicar ao SNIRA até 7 dias após a identificação → guardar o comprovativo da comunicação.