Sebenta · Implementar técnicas de produção hortofrutícola e florícolas (UC05206)
- Introdução
- 1. Planeamento das atividades agrícolas
- 2. Enquadramento legal e organismos do setor
- 3. Modos de produção agrícola
- 4. Agricultura de conservação
- 5. Culturas frutícolas, hortícolas e florícolas
- 6. Instalação de culturas: preparação e correção do solo
- 7. Instalação de culturas: sementeira, plantação, drenagem e erosão
- 8. Manutenção das culturas: rega, fertilização e manutenção dos solos
- 9. Proteção integrada da cultura
- 10. Técnicas culturais: poda e enxertia
- 11. Técnicas culturais: condução, desbaste e outras operações
- 12. Polinização assistida e monda
- 13. Colheita e pós-colheita
- 14. Máquinas agrícolas
- 15. Registos e caderno de campo
- 16. Segurança, equipamento de proteção individual e ambiente
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta prepara o técnico de produção agropecuária para instalar, conduzir e colher culturas frutícolas, hortícolas e florícolas, em três tipos de contexto de trabalho: associações e cooperativas agrícolas, empresas agrícolas e empresas de prestação de serviços agrícolas.
O trabalho organiza-se em três tarefas centrais, que estruturam todo o percurso:
- Planear e efetuar a instalação de culturas frutícolas, hortícolas e florícolas.
- Monitorizar e executar as operações de manutenção e colheita dessas culturas.
- Registar e avaliar os dados técnicos e operacionais de produção.
À volta destas três tarefas organizam-se o enquadramento legal, os modos de produção, as técnicas culturais, as máquinas, a segurança e o ambiente. No fim desta sebenta deves saber planear uma campanha, instalar e conduzir uma cultura do início ao fim, e documentar tudo de forma rastreável.
1. Planeamento das atividades agrícolas
Planear é decidir, antes de ir para o campo, o quê fazer, quando, com que recursos e com que equipa. O planeamento assenta em quatro elementos:
- Métodos e técnicas de trabalho: a sequência de operações certa para a cultura e a época do ano.
- Períodos e prazos: janelas de sementeira, plantação, tratamentos e colheita, ligadas ao ciclo vegetativo de cada espécie.
- Recursos necessários: mão de obra, maquinaria, alfaias, produtos, equipamento de proteção individual e primeiros socorros.
- Comunicação à equipa: o plano só funciona se quem o vai executar o conhecer.
Na prática, o técnico tem de assegurar os recursos humanos, materiais, equipamentos e produtos necessários para o desempenho de cada operação, ou integrar equipas de execução.
Métodos de organização e monitorização do trabalho
Um plano não termina quando é escrito, acompanha-se:
- Calendário de campo: lista de operações por talhão e por semana, com responsável e recursos previstos.
- Ponto de situação regular: comparar o que estava previsto com o que foi feito, e ajustar.
- Determinação de recursos e duração: para cada operação, quantas pessoas, que máquina, quanto tempo.
Exemplo resolvido · calendário de uma campanha de morango
Uma exploração vai instalar 2 hectares de morango de cultura protegida. O plano inclui:
| Semana | Operação | Recursos |
|---|---|---|
| 1 | Preparação e correção do solo | trator, grade, análise de solo |
| 2 | Instalação de rega gota a gota e cobertura de solo | 2 operadores, mangueiras, plástico |
| 3 a 4 | Plantação (cerca de 110 000 plantas) | 10 a 12 operadores, plantas de viveiro |
| 5 a 14 | Manutenção: rega, fertirrega, monitorização, desfolha, corte de estolhos | 2 operadores a tempo inteiro |
| 15 a 24 | Colheita escalonada, de 2 em 2 ou de 3 em 3 dias | 15 a 20 apanhadores, caixas de colheita |
O plano identifica, para cada fase, quem faz o quê e com que meios. Repara na ordem de grandeza: a colheita manual do morango é a fase que mais mão de obra exige.
2. Enquadramento legal e organismos do setor
A produção destas culturas está sujeita a legislação, regulamentos e normas em vigor, que variam consoante o modo de produção.
Organismos de referência:
- DGAV (Direção-Geral de Alimentação e Veterinária): fitossanidade, autorização e venda de produtos fitofarmacêuticos, segurança alimentar.
- DGADR (Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural): enquadramento da produção integrada (PRODI) e do modo de produção biológico, regadio.
- DRAP (Direções Regionais de Agricultura e Pescas): serviço regional de apoio e controlo mais próximo do produtor.
- IFAP (Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas): pagamento e controlo das ajudas.
- ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas): espaços florestais e conservação da natureza.
- APA (Agência Portuguesa do Ambiente): recursos hídricos, incluindo a captação de água para rega.
A legislação agrícola muda com frequência. Perante um diploma concreto que não tenhas a certeza de estar atualizado, descreve o princípio geral (o que a norma pretende) e confirma o número exato junto da fonte oficial antes de o citar como definitivo.
Além da legislação específica das culturas, aplicam-se normas transversais:
| Área | O que regula |
|---|---|
| Código da Estrada | condução de máquinas agrícolas na via pública |
| Segurança e Saúde no Trabalho (SST) | prevenção de acidentes e doenças profissionais |
| Proteção ambiental | uso de recursos naturais, gestão de resíduos |
| Qualidade alimentar | segurança e conformidade do produto final |
3. Modos de produção agrícola
A escolha do modo de produção condiciona a fertilização, a proteção da cultura, os registos exigidos e a possibilidade de certificação:
| Modo | Característica central | Uso de produtos fitofarmacêuticos |
|---|---|---|
| Convencional | maximiza a produtividade com todas as técnicas disponíveis | sem restrição própria, além da legal |
| Integrado | combina métodos e minimiza o impacto ambiental | racional, com limiares de intervenção |
| Biológico | exclui produtos de síntese química | só substâncias autorizadas para modo biológico |
Um erro frequente é achar que "integrado" é o mesmo que "biológico": a produção integrada continua a poder usar produtos de síntese, de forma racional e com registo, enquanto a biológica os exclui por definição.
4. Agricultura de conservação
A agricultura de conservação é um sistema de gestão do solo assente em três princípios fundamentais:
- Mobilização mínima ou nula do solo, para preservar a estrutura física e a matéria orgânica.
- Cobertura permanente do solo, com resíduos da cultura anterior ou culturas de cobertura.
- Rotação e diversificação de culturas, que quebra ciclos de pragas, doenças e infestantes.
O objetivo central é reduzir a erosão, aumentar a matéria orgânica e a infiltração de água, e baixar os custos de mobilização ao longo dos anos. É uma boa prática que se cruza com o controlo da erosão tratado no capítulo seguinte, sem ser sinónimo de produção biológica: uma exploração convencional pode praticar agricultura de conservação.
5. Culturas frutícolas, hortícolas e florícolas
As culturas abrangidas por esta UC dividem-se em três grupos:
- Frutícolas: espécies produtoras de fruta, de árvore ou arbusto.
- Hortícolas: espécies produtoras de partes comestíveis (raiz, folha, fruto, flor ou bolbo), normalmente de ciclo mais curto.
- Florícolas: espécies ornamentais, para flor de corte, planta em vaso ou jardinagem.
Classificam-se ainda pelo modo de condução: ao ar livre ou em cultura protegida (estufa, túnel), consoante a espécie e a época do ano.
Ciclo de vida e fenologia
Cada espécie tem um ciclo vegetativo próprio:
- Anuais: completam o ciclo (nascença a semente) numa só estação, típico de muitas hortícolas.
- Bianuais: crescimento vegetativo no primeiro ano, floração e frutificação no segundo.
- Perenes: vivem vários anos, alternando fases anuais de repouso e de atividade, como frutícolas e muitas florícolas de jardim.
Dentro do ciclo distinguem-se fases fenológicas: repouso, abrolhamento, floração, frutificação, maturação. É a estas fases que se ajustam a rega, a fertilização e as técnicas culturais: um bom técnico seleciona e aplica as técnicas de produção tendo em conta o ciclo vegetativo de cada espécie.
6. Instalação de culturas: preparação e correção do solo
Instalar uma cultura começa por preparar o terreno que a vai receber:
- Mobilização primária: lavoura ou ripagem, descompacta e enterra restos culturais.
- Mobilização secundária: gradagem e fresagem, afina a superfície e prepara o leito de sementeira.
- Em agricultura de conservação, estas operações reduzem-se ao mínimo indispensável.
Correção do solo
A correção ajusta o pH e a disponibilidade de nutrientes:
- Análise de solo: primeiro passo, determina pH, matéria orgânica e nutrientes disponíveis.
- Calagem: corrige solos ácidos, elevando o pH com calcário.
- Fertilização de fundo: incorpora fósforo, potássio e matéria orgânica antes da sementeira ou plantação.
Em solos com calcário livre (alcalinos), o carbonato de cálcio tampona o pH e dificulta a absorção de ferro pela planta; nesses casos usa-se um quelato de ferro (Fe-EDDHA) e escolhem-se espécies e porta-enxertos tolerantes ao calcário, em vez de tentar corrigir o pH com enxofre.
Exemplo resolvido · plano de correção de um solo ácido
Uma análise de solo, feita antes da instalação de um pomar, revela pH 5,3 (ácido) e baixo teor de fósforo.
- Calcular a quantidade de corretivo calcário a aplicar, segundo o resultado da análise e a textura do solo.
- Distribuir o corretivo e incorporá-lo na mobilização do solo, de preferência alguns meses antes da plantação.
- Complementar com fertilização de fundo, para repor o fósforo em falta.
- Repetir a análise de solo após alguns meses, para confirmar que o pH subiu para o intervalo adequado à cultura.
Corrigir o solo antes da instalação evita ter de compensar o problema, ano após ano, já com a cultura no terreno.
7. Instalação de culturas: sementeira, plantação, drenagem e erosão
- Sementeira: distribuição de sementes no solo, a lanço ou em linha, à profundidade e densidade próprias da espécie.
- Plantação: colocação de plantas já desenvolvidas, vindas de viveiro, no local definitivo.
- Transplantação: mudança de uma planta jovem de um local (alfobre, vaso) para o local definitivo.
Em todos os casos respeitam-se a época, o compasso (espaçamento) e a profundidade recomendados para a espécie.
Drenagem e controlo da erosão
- Drenagem: encaminha o excesso de água (valas, drenos), evita a asfixia radicular e podridões.
- Controlo da erosão: cobertura do solo, culturas em curvas de nível, sebes vivas e faixas de retenção.
Ambas as práticas fazem parte da instalação, tal como a mobilização e a correção do solo, e ligam-se à agricultura de conservação: manter o solo coberto é, ao mesmo tempo, medida de conservação e de controlo de erosão.
8. Manutenção das culturas: rega, fertilização e manutenção dos solos
Sistemas de rega
| Sistema | Uso típico | Eficiência |
|---|---|---|
| Gravidade (rego, alagamento) | grandes áreas, solos planos | baixa |
| Aspersão | hortícolas e prados | média |
| Gota a gota (localizada) | pomares, hortícolas em linha, estufas | alta |
Aplicar sistemas de rega implica escolher o sistema certo, definir o turno de rega ajustado à fase fenológica e ao clima, e verificar o seu funcionamento no terreno.
Fertilização de manutenção e Zonas Vulneráveis a nitratos
A fertilização de manutenção repõe os nutrientes exportados pela cultura, por via sólida ou por fertirrega, e distingue-se da fertilização de fundo do capítulo 6 por acompanhar a cultura já instalada, ajustada à fase fenológica. Numa Zona Vulnerável a nitratos, o limite de 170 kg de azoto por hectare e por ano aplica-se apenas ao azoto de efluentes pecuários (estrume, chorume, digerido), não ao adubo mineral. Isso não deixa o adubo mineral sem limite: o programa de ação das Zonas Vulneráveis (Portaria n.º 259/2012) fixa também quantidades máximas de azoto total por cultura, somando todas as origens.
Manter os solos em boas condições (estrutura, matéria orgânica, pH) é parte integrante da manutenção, ao lado da rega e da proteção fitossanitária.
9. Proteção integrada da cultura
A proteção da cultura começa pela monitorização, não pelo tratamento: observação regular do estado sanitário, uso de armadilhas (feromonas, cromotrópicas) para deteção precoce, e registo do que se observa.
A proteção integrada combina vários métodos, por ordem de prioridade:
- Cultural: rotação de culturas, variedades resistentes, higiene da cultura.
- Biológico: inimigos naturais e auxiliares.
- Físico: barreiras, armadilhas.
- Químico: produto fitofarmacêutico, só quando necessário, com o produto e a dose corretos.
O uso de máquinas de aplicação de produtos fitofarmacêuticos exige equipamento de proteção individual, respeito pelo intervalo de segurança e registo obrigatório no caderno de campo.
Em Portugal, só um aplicador habilitado (Lei n.º 26/2013) pode aplicar produtos fitofarmacêuticos de uso profissional. As embalagens vazias são lavadas três vezes, com a água de lavagem deitada no depósito do pulverizador, e entregues num ponto de retoma VALORFITO.
10. Técnicas culturais: poda e enxertia
Tipos de poda e utensílios
A poda remove ou reduz partes da planta com um objetivo definido:
- Poda de transplantação: equilibra a parte aérea com o sistema radicular, no momento da plantação.
- Poda de formação: constrói a estrutura da planta nos primeiros anos.
- Poda de frutificação: regula a quantidade e a qualidade da produção.
- Poda de rejuvenescimento: renova plantas envelhecidas ou pouco produtivas.
Cada corte usa a ferramenta certa para o diâmetro do ramo:
| Utensílio | Uso |
|---|---|
| Tesoura de poda | cortes finos, ramos de pequeno diâmetro |
| Serrote de poda | ramos grossos, corte manual |
O corte faz-se sempre junto ao colar do ramo (a zona um pouco mais grossa onde o ramo nasce), nunca a meio, deixando um coto: um coto mal cortado cicatriza mal e é porta de entrada para doenças.
Enxertia
A enxertia une um garfo ou borbulha (a variedade que se quer produzir) a um porta-enxerto (que dá raiz e vigor), formando uma só planta. Serve para multiplicar variedades que não se reproduzem fielmente por semente, e para ganhar vigor ou resistência a doenças do solo através do porta-enxerto escolhido.
A condição essencial é a compatibilidade entre garfo e porta-enxerto, e o contacto correto entre os câmbios das duas partes: sem esse contacto, o enxerto não solda.
Exemplo resolvido · escolha de porta-enxerto por objetivo
Uma exploração vai instalar um pomar novo e tem de escolher, para a mesma variedade de macieira, entre três porta-enxertos disponíveis.
- Definir o objetivo: árvore compacta e precoce, ou árvore vigorosa e de vida mais longa.
- Comparar os porta-enxertos disponíveis quanto a vigor, precocidade de entrada em produção e resistência a doenças do solo.
- Confirmar a compatibilidade do porta-enxerto escolhido com a variedade (garfo) a enxertar.
- Encomendar as plantas já enxertadas ao viveiro, ou proceder à enxertia na exploração, na época própria.
O porta-enxerto certo é decidido na fase de instalação, porque condiciona o desenvolvimento da árvore durante toda a sua vida produtiva.
11. Técnicas culturais: condução, desbaste e outras operações
- Tutoragem: suporte artificial (tutor, arame, espaldeira) que guia o crescimento e sustenta a produção.
- Retancha: substituição de plantas falhadas por novas, para manter a densidade planeada.
- Sacha: mobilização superficial do solo em redor da planta, controla infestantes e areja o solo.
- Amontoa: acumular terra junto ao colo da planta, protege raízes e favorece a tuberização.
- Desbaste: eliminação de plantas ou frutos em excesso, para que os restantes se desenvolvam melhor.
- Branqueamento: impede a luz de chegar a uma parte da planta, para reduzir amargor ou clorofila.
- Desfolha: remoção seletiva de folhas, melhora a exposição do fruto à luz e ao arejamento.
- Floreamento: técnica que estimula ou regula a floração.
- Retrancha: eliminação de rebentos laterais (netos) que competem com o crescimento principal.
- Empa: atar as varas ou ramos ao arame ou ao tutor, depois da poda, para os fixar na forma de condução pretendida (típica da vinha e das fruteiras em espaldeira).
- Desramação: eliminação de ramos, melhora a forma e a qualidade da madeira ou do fruto.
O que une todas estas técnicas é o mesmo princípio: concentrar a energia da planta onde o produtor decide, seja num fruto maior, numa forma mais equilibrada ou numa floração mais regular.
12. Polinização assistida e monda
Polinização assistida
A polinização assistida e o incremento da polinização aumentam a taxa de vingamento de flor em fruto, especialmente em espécies com baixa presença natural de polinizadores:
- Introdução de colmeias na parcela, na época de floração.
- Polinização manual ou mecânica, em culturas protegidas onde os insetos têm acesso limitado.
- Escolha de variedades polinizadoras compatíveis, quando a espécie exige polinização cruzada.
Monda de flores e de frutos
A monda elimina flores ou frutos em excesso:
- Monda de flores: reduz a carga logo na floração, antes de a planta gastar energia a vingar fruto a mais.
- Monda de frutos: reduz a carga depois do pegamento, quando já se vê melhor o vingamento real.
13. Colheita e pós-colheita
Colheita
A colheita faz-se no ponto certo de maturação para o destino do produto (mercado fresco, indústria, exportação): técnica de colheita manual ou mecânica, adaptada à fragilidade do produto; seleção por calibre, cor e estado sanitário; normalização segundo categorias e calibres normalizados.
Monitorizar e executar as operações de colheita, de acordo com as normas de segurança e o código de boas práticas, é uma das três tarefas centrais do técnico.
Pós-colheita
- Acondicionamento: colocação em caixas ou tabuleiros que protegem o produto de esmagamento e choque.
- Conservação: controlo de temperatura e humidade, retarda a deterioração (câmara fria, atmosfera controlada).
- Embalagem: unidade final de venda, com rotulagem que identifica origem, calibre e categoria.
- Transporte: em condições que mantenham a cadeia de frio quando aplicável, e minimizem danos mecânicos.
Todo este percurso segue o modo de produção da cultura: um produto biológico exige separação física e documental de um produto convencional em todas as etapas de pós-colheita.
14. Máquinas agrícolas
| Operação | Máquinas e alfaias |
|---|---|
| Preparação do solo | arados, grades, fresas |
| Fertilização e correção | cisternas, distribuidores de adubo |
| Sementeira | semeadoras |
| Rega | motobombas, sistemas de gota a gota e aspersão, programadores |
| Proteção da cultura | pulverizadores |
| Colheita e acondicionamento | máquinas de colheita mecânica, linhas de calibragem e embalamento |
Estas máquinas exigem regulação (profundidade, dose, espaçamento) adequada à cultura e ao talhão, e seguem sempre os manuais de instruções sobre limpeza, manutenção e operação. Não limpar um pulverizador entre produtos diferentes arrisca contaminação cruzada e dano à cultura seguinte.
15. Registos e caderno de campo
Todas as operações desta UC terminam no mesmo sítio: o caderno de campo.
- Estrutura: identificação do talhão e da cultura, data, operação, produto e dose (quando aplicável), operador.
- Procedimento: registar no momento da operação, não de memória no fim da semana.
- Rastreabilidade: permite reconstituir o historial completo de uma cultura, do plantio à colheita.
Registar e avaliar os dados técnicos e operacionais no caderno de campo garante rastreabilidade, conformidade legal e os requisitos para certificação, como o PRODI (Produção Integrada). É a terceira tarefa central do técnico, e fecha o ciclo aberto no planeamento do capítulo 1.
16. Segurança, equipamento de proteção individual e ambiente
Os equipamentos de proteção individual (EPI) escolhem-se em função do risco real de cada operação:
| Operação | EPI |
|---|---|
| Aplicação de fitofármacos | fato de proteção química, luvas de nitrilo, botas de borracha, óculos ou viseira, máscara com o filtro indicado no rótulo |
| Motosserra e motorroçadora | capacete com viseira, protetores auditivos, luvas, calças e botas anticorte |
| Mobilização com trator | calçado de proteção, proteção auditiva |
| Poda com ferramenta manual | luvas de proteção, óculos de proteção, calçado de proteção |
O EPI certo é o que corresponde ao risco real de cada operação, escolhido antes de a iniciar, nunca "o que houver mais à mão".
Primeiros socorros
Todas as equipas de campo levam uma caixa de primeiros socorros e sabem o número de emergência (112). Perante uma intoxicação com fitofármaco, afasta-se a vítima da exposição, retira-se a roupa contaminada, lava-se a pele com muita água e liga-se para o Centro de Informação Antivenenos (CIAV, 800 250 250), com o rótulo do produto à mão. Cortes de ferramenta comprimem-se com compressa limpa até parar a hemorragia.
Resíduos, ambiente e qualidade
- Gestão de resíduos: embalagens de fitofármacos para o VALORFITO, plásticos de cobertura e de estufa para operador de resíduos licenciado, restos vegetais compostados ou incorporados no solo, nunca queimados sem autorização.
- Proteção ambiental: preparar a calda longe de poços e linhas de água, não aplicar com vento forte, respeitar as regras de fertilização em Zona Vulnerável.
- Qualidade: cumprir intervalos de segurança, higiene na colheita e no acondicionamento, e manter o caderno de campo que prova tudo isto a um cliente ou a uma entidade certificadora.
Estas normas aplicam-se a todas as operações descritas nesta sebenta.
Erros comuns
- Podar na época errada para a espécie. Nas fruteiras de folha caduca, a poda de inverno faz-se em repouso vegetativo, não em plena floração. Há exceções planeadas, como a poda em verde ou a poda dos citrinos, que se faz depois da colheita e antes da rebentação.
- Deixar um coto ao podar, em vez de cortar junto ao colar do ramo. O coto cicatriza mal e é porta de entrada para doenças.
- Instalar a cultura sem análise de solo prévia. Sem ela não se sabe se é preciso corrigir o pH ou repor nutrientes antes da sementeira ou plantação.
- Escolher o EPI depois de iniciar a operação, ou usar o que houver mais à mão. O EPI certo depende do risco real de cada operação e escolhe-se antes de começar.
- Confundir sacha com amontoa. A sacha areja e limpa, a amontoa acumula terra junto ao colo da planta.
- Preencher o caderno de campo em atraso. Introduz erros de data e de dose, e compromete a rastreabilidade.
- Citar de cor números de diplomas desatualizados. Descrever o princípio e confirmar a versão em vigor antes de citar.
Glossário
- Agricultura de conservação: sistema que protege o solo, mobilização mínima, cobertura permanente e rotação de culturas.
- Amontoa: acumular terra junto ao colo da planta.
- Branqueamento: impedir a luz de chegar a parte da planta.
- Caderno de campo: registo de todas as operações de uma cultura, base da rastreabilidade.
- Colar do ramo: zona onde o ramo nasce de outro ramo ou do tronco; local correto do corte de poda.
- Desbaste: eliminação de plantas ou frutos em excesso.
- Desramação: eliminação de ramos.
- Empa: atar as varas ou ramos ao arame ou ao tutor, depois da poda.
- Enxertia: união de garfo e porta-enxerto numa só planta.
- Monda: eliminação de flores ou frutos em excesso.
- Porta-enxerto: planta que dá raiz e vigor a um enxerto.
- PRODI: Produção Integrada, modo de produção certificado que obriga a proteção integrada, fertilização racional e caderno de campo.
- Proteção integrada: combinação de métodos culturais, biológicos, físicos e químicos na proteção da cultura.
- Retancha: substituição de plantas falhadas por novas.
- Retrancha: eliminação de rebentos laterais numa planta.
- Sacha: mobilização superficial do solo em redor da planta.
- Tutoragem: suporte artificial que guia o crescimento da planta.
- Zona Vulnerável a nitratos: área com limite legal de azoto de efluentes pecuários por hectare.
Síntese
O percurso desta UC segue sempre a mesma lógica: planear (recursos, prazos, equipa) → enquadrar no modo de produção e na legislação em vigor → instalar a cultura (preparar e corrigir o solo, semear ou plantar, drenar) → manter (regar, fertilizar, proteger da praga e da doença) → aplicar as técnicas culturais próprias de cada fase do ciclo (poda, enxertia, tutoragem, sachas, desbaste, monda, polinização assistida) → colher e conservar no ponto e nas condições certas → registar tudo no caderno de campo, com segurança e respeito pelo ambiente. Domina este fluxo e sabes conduzir qualquer cultura frutícola, hortícola ou florícola.
Exercícios resolvidos
1. Uma análise de solo, feita antes da instalação de uma cultura, revela pH 5,3 (ácido). Que operação de correção se aplica, e em que fase deve ocorrer?
Resolução: aplica-se a calagem, que corrige a acidez elevando o pH com um corretivo calcário. Deve ocorrer na fase de preparação e correção do solo, antes da sementeira ou plantação, incorporada na mobilização secundária, e não depois de a cultura já estar instalada.
2. Distingue fertilização de fundo e fertilização de manutenção quanto ao momento em que se aplicam.
Resolução: a fertilização de fundo aplica-se na fase de instalação, antes da sementeira ou plantação, para preparar o solo que vai receber a cultura. A fertilização de manutenção aplica-se já com a cultura instalada, ao longo do ciclo, repondo os nutrientes exportados e ajustada à fase fenológica.
3. Distingue poda de formação e poda de frutificação, e indica em que fase do ciclo de vida se aplica cada uma.
Resolução: a poda de formação aplica-se nos primeiros anos da planta, para construir a estrutura; a poda de frutificação aplica-se em plantas já formadas, todos os anos, para regular a quantidade e a qualidade da produção. Nas fruteiras de folha caduca, ambas se fazem tipicamente em repouso vegetativo.
4. Porque é que se usa a tesoura de poda para um ramo fino e o serrote de poda para um ramo grosso, em vez da mesma ferramenta para os dois casos?
Resolução: a tesoura de poda dá um corte limpo em ramos finos, mas esmaga ou rasga um ramo grosso. O serrote de poda corta ramos grossos sem os esmagar. Usar a ferramenta errada para o diâmetro do ramo dá um corte mal feito, que cicatriza pior e facilita a entrada de doenças.
5. Um aluno poda um ramo deixando um coto (um pedaço saliente), em vez de cortar junto ao colar do ramo. Que problema é que isso causa?
Resolução: o coto não cicatriza bem: fica uma zona de tecido morto que não fecha e que é porta de entrada para doenças e pragas. O corte correto faz-se junto ao colar do ramo, o que permite à planta cicatrizar a ferida de forma natural.
6. Explica a diferença entre monda de flores e monda de frutos, e porque a monda de flores pode ser mais vantajosa em termos de energia da planta.
Resolução: a monda de flores faz-se na floração, antes de a planta gastar recursos a vingar fruto a mais; a monda de frutos faz-se depois do pegamento, com o vingamento já visível. A monda de flores é mais vantajosa energeticamente porque evita que a planta invista recursos em frutos que, de qualquer forma, seriam eliminados mais tarde.
7. Porque é que o caderno de campo tem de ser preenchido no momento da operação, e não no fim da semana?
Resolução: preencher em atraso introduz erros de data e de dose, e compromete a rastreabilidade exigida para conformidade legal e certificação (como a Produção Integrada, PRODI). O registo no momento é a única forma de garantir que o histórico da cultura é fiável.