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UC · Unidade de Competência · UC05185

Sebenta · Aplicar técnicas de cartografia litológica na prospeção de recursos minerais (UC05185)

Analisar o relevo nas cartas litológicas e identificar discordâncias, com cartas, curvas de nível, litologias, afloramentos, perfis e segurança de campo
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Prospeção e Pesquisa de ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina o saber-fazer da cartografia litológica, centrado nas duas realizações do referencial: analisar o relevo nas cartas litológicas (capítulo 12) e identificar e caracterizar discordâncias (capítulo 13). Para lá chegar, ensina também como ler uma carta, como identificar rochas e minerais à vista desarmada, como medir a atitude de um plano geológico com a bússola de geólogo, como descrever e registar um afloramento, como amostrar com rigor e como marcar tudo isto, com precisão, numa carta e por GNSS.

O contexto de aplicação é sempre o mesmo, em qualquer capítulo: áreas de prospeção e pesquisa, minas e pedreiras. É nesse terreno, muitas vezes acidentado, que se decide se um projeto de recursos minerais avança ou não, com base na qualidade do trabalho de campo.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar relevos em cartas litológicas; identificar discordâncias em cartas litológicas; identificar e caracterizar diferentes tipos de litologias; interpretar cartas litológicas; identificar diferentes tipos de maciços rochosos; identificar e caracterizar descontinuidades (falhas e discordâncias); utilizar equipamentos de proteção individual; e aplicar as normas de segurança e saúde no trabalho.

Esta UC é a irmã prática da unidade que trata os métodos de prospeção e pesquisa: aqui o foco não é o método em abstrato, é a técnica de campo, aquilo que as mãos e os olhos de um técnico fazem junto à rocha.

1. A cartografia litológica na prospeção de recursos minerais

A cartografia litológica é o processo de registar, numa carta, a distribuição das rochas à superfície e a forma como se organizam entre si: onde uma litologia termina e outra começa (contactos), como os planos geológicos estão orientados (atitudes) e onde há descontinuidades (falhas, discordâncias).

É um trabalho híbrido, de gabinete e de campo:

Prospeção estratégica vs prospeção tática

A prospeção de recursos minerais avança normalmente em duas fases, com escalas de trabalho diferentes:

Fase Escala O que se faz
Estratégica Regional Reconhecimento, compilação de dados existentes, modelos metalogénicos, deteção remota, seleção de áreas de interesse
Tática Local Definição de alvos concretos, geoquímica de detalhe, geofísica terrestre, trincheiras e sondagens

A cartografia litológica desta UC situa-se sobretudo na fase tática: é o trabalho de detalhe que confirma, reforça ou corrige o que os dados regionais sugeriam.

Onde se aplica

O referencial identifica três contextos de aplicação para estas técnicas: área de prospeção e pesquisa (o trabalho de campo greenfield, ainda sem infraestrutura), minas (áreas com exploração em curso ou já licenciada) e pedreiras (extração de rocha ornamental ou industrial). Em qualquer um destes contextos, a base é a mesma: ler o terreno com rigor e registá-lo de forma reconstituível por outra pessoa.

2. Cartas litológicas e cartas geológicas: tipos e escalas

Tipos de carta

Um técnico de prospeção trabalha, tipicamente, com três tipos de carta:

A carta litológica de detalhe nasce sempre por cima de uma base topográfica fiável: sem saber onde se está e a que altitude, não é possível posicionar corretamente um contacto ou uma atitude.

Escalas: numérica e gráfica

A escala numérica exprime a razão entre a distância medida na carta e a distância real no terreno. A escala gráfica é uma régua desenhada na própria carta, com a vantagem de continuar correta mesmo que a carta seja fotocopiada ou reduzida (a escala numérica, nesse caso, deixa de ser válida).

Escala 1 cm na carta 1 km no terreno mede, na carta
1:25 000 250 m 4 cm
1:50 000 500 m 2 cm
1:200 000 2 km 0,5 cm

Exemplo resolvido · converter distâncias

Numa carta 1:25 000, a distância medida entre dois afloramentos é de 6,4 cm. Qual a distância real no terreno?

  1. Na escala 1:25 000, 1 cm equivale a 250 m.
  2. Distância real = 6,4 × 250 = 1 600 m (1,6 km).

A Carta Geológica de Portugal existe, a nível nacional, nas escalas 1:50 000 (organizada em folhas, cada uma com uma notícia explicativa), 1:200 000 e 1:500 000, disponíveis no geoportal do LNEG.

3. O relevo na carta: curvas de nível e cotas

Curvas de nível

Uma curva de nível é uma linha que une, na carta, todos os pontos com a mesma altitude. É a forma de representar, em duas dimensões, um terreno com três dimensões.

Cotas

A cota é o valor de altitude de um ponto específico. Lê-se diretamente numa curva mestra ou estima-se por interpolação entre duas curvas vizinhas.

Declive

O declive, em percentagem, calcula-se assim:

Declive (%) = (desnível / distância horizontal) × 100

Exemplo resolvido · calcular o declive

Entre dois pontos, A a 340 m de cota e B a 380 m de cota, a distância horizontal medida na carta é de 100 m. Qual o declive médio entre A e B?

  1. Desnível = 380 − 340 = 40 m.
  2. Distância horizontal = 100 m.
  3. Declive (%) = (40 / 100) × 100 = 40%.

Um declive de 40% é já um terreno acentuado, a exigir cuidado redobrado no acesso e no posicionamento em segurança.

Altitude ortométrica vs altitude elipsoidal

A altitude escrita na carta topográfica é ortométrica: mede-se a partir do nível médio do mar (geoide). A altitude devolvida por um recetor GNSS é elipsoidal: mede-se a partir de um elipsoide matemático de referência. As duas não são o mesmo número, e em Portugal a diferença ronda as dezenas de metros. Nunca se comparam diretamente sem aplicar a correção adequada (um modelo de geoide).

4. Linhas de água, limites e confrontantes

Linhas de água e a regra do V

As linhas de água (talvegues) correm sempre no sentido da maior pendente, ocupando o fundo dos vales. Onde uma linha de água corta as curvas de nível, as curvas dobram-se em "V" com o vértice a apontar para montante, isto é, para a nascente. Numa crista (interflúvio) acontece o contrário: as curvas dobram-se com o vértice a apontar para jusante, para as cotas mais baixas. É a chamada regra do V dos vales, útil para distinguir rapidamente, numa carta, um vale de uma crista.

A mesma lógica geométrica aplica-se aos contactos litológicos que atravessam um vale: a forma do traço do contacto ao cruzar o vale depende da sua inclinação e permite inferir o sentido do pendor sem o medir em todos os pontos. A regra completa, com os seis casos possíveis, está no capítulo 12.

As linhas de água têm ainda um papel direto na amostragem de sedimentos de corrente: recolhem-se a montante das confluências, evitando pontos contaminados por estradas ou por aglomerados populacionais.

Aviso de segurança. Nunca ensines, nem sigas, a regra "em caso de desorientação, desce a linha de água": pode levar a ravinas, quedas de água e taludes instáveis. É uma causa reconhecida de acidentes em trabalho de campo geológico.

Limites e confrontantes

Limites são os contornos que delimitam uma propriedade privada, uma concessão mineira ou a própria área do levantamento litológico em curso. Confrontantes são as propriedades ou áreas vizinhas a essa área de trabalho.

Antes de qualquer campanha de campo, o técnico deve confirmar limites e confrontantes: por um lado, para evitar sobreposição com concessões de terceiros; por outro, para garantir que o acesso a cada parcela foi devidamente autorizado pelo respetivo proprietário. Essa autorização deve ficar registada no caderno de campo, com data e identificação de quem autorizou.

5. Legendas e simbologia

A legenda como dicionário da carta

Nenhuma carta litológica se lê sem primeiro consultar a legenda. A legenda organiza-se, tipicamente, em três blocos:

Símbolos de estruturas mais comuns

Estrutura Como aparece na carta O que indica
Atitude (direção/inclinação) "T": o traço comprido marca a direção, o traço curto aponta o sentido do pendor, com o valor da inclinação ao lado orientação de um plano de estratificação, foliação ou filão
Falha traço grosso, contínuo (observada) ou tracejado (provável/encoberta) plano de descontinuidade com deslocamento
Discordância traço próprio definido na legenda (nos cortes, muitas vezes uma linha ondulada) superfície de hiato ou erosão entre duas sequências
Dobra traço do eixo com setas divergentes (anticlinal: os flancos pendem para fora) ou convergentes (sinclinal: os flancos pendem para o eixo) eixo e tipo de dobra

A simbologia é normalizada para que qualquer geólogo a interprete da mesma forma, mas os pormenores mudam entre séries e edições: confirma sempre na legenda da folha que tens na mão.

6. Identificação macroscópica de rochas

As três grandes famílias

Toda a identificação de campo parte da classificação da rocha numa das três grandes famílias:

O que se observa numa amostra de mão

A identificação de campo é sempre macroscópica, feita a olho nu ou com a ajuda de uma lupa de bolso, sem recurso a laboratório:

Tipos de maciços rochosos

Um maciço rochoso é o corpo contínuo de rocha, com a sua rede de descontinuidades (fraturas, falhas, planos de estratificação ou de foliação), que se observa numa área alargada, para além da amostra de mão isolada. Reconhecer o tipo de maciço é o passo seguinte, depois de identificar a rocha:

A distinção entre tipos de maciço não é só académica: condiciona a estabilidade de taludes e de frentes de escavação, e influencia onde e como circulam os fluidos que, historicamente, geraram muitas das mineralizações portuguesas.

Exemplo resolvido · classificar uma amostra

Uma amostra apresenta cristais grandes e bem visíveis a olho nu, de cor clara com pontos escuros, e não mostra qualquer orientação preferencial dos minerais nem estratificação.

  1. Textura granular com cristais grandes aponta para arrefecimento lento, em profundidade.
  2. Sem estratificação nem foliação exclui, à partida, sedimentar e metamórfica foliada.
  3. Conclusão: trata-se, muito provavelmente, de uma rocha magmática plutónica, do tipo granítico.

Esta identificação de campo é uma primeira hipótese de trabalho; a confirmação definitiva, se necessária, faz-se por lâmina delgada em laboratório (ver capítulo 14).

7. Identificação macroscópica de minerais e testes de campo

A escala de Mohs

A escala de Mohs ordena 10 minerais de referência por dureza relativa, cada um capaz de riscar os anteriores e de ser riscado pelos seguintes:

Grau Mineral Grau Mineral
1 Talco 6 Feldspato (ortóclase)
2 Gesso 7 Quartzo
3 Calcite 8 Topázio
4 Fluorite 9 Corindo
5 Apatite 10 Diamante

Como não se transporta o conjunto completo de minerais de referência para o campo, usam-se ferramentas do dia a dia como termo de comparação:

Ferramenta Dureza aproximada
Unha 2,5
Cobre (fio ou peça maciça) 3,5
Lâmina de canivete 5,5
Vidro de janela 5,5
Lima de aço 6,5

Estes valores são aproximados e variam com a liga e o fabrico. Cuidado com as moedas: os cêntimos de euro de cor acobreada são de aço revestido a cobre, e o núcleo de aço é mais duro do que o revestimento. Para o teste do "cobre", usa um fio ou uma peça de cobre maciço.

Exemplo resolvido · teste de dureza

Um mineral não é riscado pela unha nem pelo cobre, é riscado pelo canivete e não risca o vidro de janela.

  1. A unha (dureza ≈ 2,5) e o cobre (≈ 3,5) não o riscam: a dureza do mineral é superior a 3,5.
  2. O canivete (≈ 5,5) risca o mineral: a dureza é inferior a 5,5.
  3. O mineral não risca o vidro (≈ 5,5): confirma que fica abaixo de 5,5.
  4. Conclusão de campo: dureza entre 3,5 e 5,5, compatível com fluorite (4) ou apatite (5). A decisão entre as duas faz-se com outras propriedades (clivagem, hábito, brilho), não com a dureza.

Repara na lógica: um mineral não pode ser riscado pelo canivete e, ao mesmo tempo, riscar o vidro, porque canivete e vidro têm dureza semelhante. Se os dois resultados aparecerem juntos, repete o teste: muitas vezes o que parece um risco é só pó do material mais mole deixado na superfície (limpa com o dedo e observa com a lupa).

Risca (streak)

A risca é a cor do pó deixado pelo mineral ao ser riscado sobre uma placa de porcelana sem esmalte (a chamada placa de risca). É um teste mais fiável do que a simples cor da amostra, porque a cor externa de um mineral pode variar muito com impurezas, enquanto a cor da risca é mais constante.

Ácido clorídrico diluído

O teste do ácido clorídrico (HCl) diluído, aplicado a frio sobre a rocha, distingue rochas carbonatadas:

Magnetismo e densidade

Alguns minerais, como a magnetite, são fortemente atraídos por um íman de bolso, o que permite um reconhecimento rápido no campo. A densidade, avaliada de forma qualitativa como "peso na mão" em relação ao volume da amostra, dá uma primeira pista sobre a presença de minerais metálicos densos, a confirmar depois com outros testes.

Segurança. O manuseio de ácido exige óculos de proteção e luvas; partir rocha com o martelo de geólogo exige sempre óculos, e capacete se houver risco de queda de material de um talude ou frente.

Tabela-resumo de minerais comuns e os seus testes de campo

Mineral Dureza (Mohs) HCl diluído Magnetismo Traço característico
Quartzo 7 sem reação não magnético vítreo, sem clivagem visível
Calcite 3 efervescência forte a frio não magnético risca branca, clivagem romboédrica
Dolomite 3,5 a 4 reação fraca, só em pó não magnético risca branca
Feldspato (ortóclase) 6 sem reação não magnético risca branca, duas clivagens
Magnetite 5,5 a 6,5 sem reação fortemente magnética risca preta
Pirite 6 a 6,5 sem reação não magnética risca preta esverdeada, brilho metálico
Talco 1 sem reação não magnético untuoso ao tato

Esta tabela não substitui a análise de laboratório, mas permite ao técnico formar uma primeira hipótese fundamentada no próprio afloramento, antes de decidir se vale a pena recolher amostra para confirmação.

Contexto de aplicação em Portugal

O território português tem várias zonas geotectónicas com histórico de mineralizações associado a litologias e estruturas específicas, um contexto útil para situar o trabalho de campo desta UC: a Zona Centro-Ibérica, a Zona de Ossa-Morena e a Zona Sul-Portuguesa. Exemplos conhecidos incluem a Faixa Piritosa Ibérica (Neves-Corvo, Aljustrel), com sulfuretos maciços de cobre, zinco e chumbo; a região da Panasqueira, com filões de quartzo com volframite (tungsténio) e cassiterite (estanho); pegmatitos litiníferos no norte do país, como em Barroso; e ocorrências históricas de ouro e de urânio noutras regiões. Estes exemplos servem para contextualizar a matéria, não para memorizar como se fossem factos a avaliar isoladamente: o que importa é o método de campo, aplicável a qualquer litologia e a qualquer contexto metalogénico.

8. Afloramentos e depósitos superficiais ("cascalhos")

Tipos de afloramento

Um afloramento é o local onde a rocha está visível à superfície, sem cobertura de solo ou de vegetação:

Depósitos superficiais

Nem tudo o que aparece à superfície é rocha em posição (in situ). Os depósitos superficiais cobrem e mascaram o substrato rochoso:

Exemplo resolvido · afloramento ou bloco solto

No terreno encontra-se um bloco de quartzo filoniano de 40 cm, sem qualquer rocha encaixante visível à volta, sobre uma encosta com declive suave e solo espesso.

  1. Não há rocha em posição visível à volta do bloco: não é um afloramento.
  2. Trata-se de um bloco solto (matacão), provavelmente deslocado por gravidade ou erosão a partir de um filão a montante.
  3. Procedimento correto: registar a posição do bloco como indício, mas não cartografar um contacto litológico nesse ponto; procurar afloramento em posição, encosta acima, para confirmar a fonte.

9. A bússola de geólogo e a medição de atitudes

O que é a atitude de um plano

A atitude descreve a orientação espacial de qualquer plano geológico: um plano de estratificação, uma foliação metamórfica, uma falha ou as paredes de um filão. Descreve-se com dois ângulos:

Notações

Há duas formas de escrever uma atitude:

O sentido do pendor não é um detalhe dispensável: sem ele, uma direção N30°E fica ambígua entre pender para SE ou para NW, duas geometrias opostas.

A bússola de geólogo (tipo Brunton ou Clar) mede diretamente sobre o plano rochoso:

  1. Encostar a face plana da bússola ao plano a medir.
  2. Nivelar a bolha, para garantir que a leitura é feita na horizontal correta.
  3. Ler a direção no limbo azimutal.
  4. Rodar o clinómetro até nivelar a bolha própria do inclinómetro e ler a inclinação.
  5. Registar de imediato, no caderno ou na ficha digital: direção, inclinação, sentido do pendor, identificador do ponto e hora.

A correção da declinação magnética

A bússola aponta sempre para o norte magnético, mas as direções geológicas registam-se em relação ao norte geográfico e desenham-se numa carta cuja quadrícula aponta para o norte cartográfico. Distinguem-se, assim, três nortes:

A declinação magnética é o ângulo entre o norte geográfico e o magnético; a convergência de meridianos é o ângulo entre o norte geográfico e o da quadrícula. Em Portugal a declinação é hoje pequena, mas varia com o tempo e com o local: lê-se na margem da própria carta (com a taxa de variação anual, que se aplica até à data do trabalho) ou num modelo atualizado, nunca se assumindo um valor fixo de memória. Muitas bússolas de geólogo permitem introduzir a declinação no limbo, fazendo a correção automaticamente; nesse caso, anota no caderno o valor usado. A convergência de meridianos é pequena no continente, em regra inferior à precisão de uma leitura de bússola, mas o técnico deve saber que existe e que cresce à medida que se afasta do meridiano central da projeção.

Exemplo resolvido · registar uma atitude medida

No afloramento AF-014, a bússola dá uma direção de N40°E e uma inclinação de 35°, com o pendor a descer para SE.

  1. Notação por quadrante: N40°E, 35° SE.
  2. Registo completo no caderno: "AF-014 · estratificação · N40°E, 35° SE · declinação local consultada na margem da carta · 10h20".
  3. Este valor transcreve-se depois para a carta, junto do ponto correspondente, com o símbolo de atitude da legenda.

10. Descrição de afloramentos e registo de campo

A descrição sistemática

Uma descrição de afloramento fiável segue sempre a mesma ordem, precisamente para que outro técnico a consiga reconstituir sem ter estado no local:

  1. Localização: coordenadas por GNSS, via de acesso, referências no terreno.
  2. Tipo de afloramento: natural ou artificial, extensão aproximada, qualidade da exposição.
  3. Litologia: rocha ou rochas presentes, cor em fratura fresca, textura, minerais identificados.
  4. Estruturas: atitudes medidas, contactos observados, falhas, dobras.
  5. Contexto: relação com afloramentos vizinhos, grau de alteração, cobertura por solo ou vegetação.
  6. Amostras e fotografias recolhidas no ponto, com o respetivo número de identificação.

Caderno de campo e formulário digital

Em projetos que o justifiquem, é boa prática duplicar o registo: caderno em papel e formulário digital em paralelo, porque um aparelho eletrónico pode falhar (bateria, quebra, perda de sinal) e o registo em papel garante a continuidade do trabalho.

Exemplo resolvido · registo completo de um afloramento

No ponto AF-021, um corte de estrada expõe cerca de 8 metros de rocha, com xisto cinzento-escuro de foliação bem marcada, em contacto com um filão de quartzo branco de cerca de 30 cm de espessura.

  1. Localização: coordenadas lidas por GNSS, no acesso à estrada municipal, cota aproximada 210 m.
  2. Tipo: afloramento artificial (corte de estrada), boa exposição, cerca de 8 m de extensão visível.
  3. Litologia: xisto cinzento-escuro, foliado, e filão de quartzo branco, cerca de 30 cm de espessura.
  4. Estruturas: foliação do xisto medida a N60°E, 50° SW; contacto do filão medido a N10°E, 80° NW.
  5. Contexto: sem outros afloramentos próximos visíveis; xisto moderadamente alterado na base do corte.
  6. Amostras/fotografias: AM-021-A (xisto), AM-021-B (quartzo filoniano); fotografia F-021 com escala (martelo de geólogo).

11. Perfis litológicos

O que é um perfil litológico

Um perfil litológico é um corte vertical do terreno que mostra a sucessão das litologias em profundidade, ou ao longo de uma linha traçada na carta. Enquanto a carta mostra a distribuição das litologias em planta (vista de cima), o perfil mostra a sua organização em profundidade.

Constrói-se a partir de:

Ler e interpretar um perfil

Exemplo resolvido · interpretar uma repetição no perfil

Um perfil construído a partir de três afloramentos alinhados mostra a mesma sequência de xisto seguido de quartzito a repetir-se duas vezes ao longo da linha do perfil.

  1. Em sequência normal, sem perturbação, cada unidade aparece uma única vez.
  2. Uma repetição pela mesma ordem (xisto, quartzito, xisto, quartzito) é típica de falha: um cavalgamento ou falha inversa duplica a sequência, mas uma falha normal também pode repetir afloramentos, conforme a relação entre o pendor da falha e o das camadas. Uma dobra repete as unidades em espelho (xisto, quartzito, quartzito, xisto), com os pendores opostos nos dois flancos.
  3. Aqui a ordem repete-se igual, o que favorece a hipótese de falha. Procedimento correto: voltar ao terreno e procurar, entre as duas repetições, indícios diretos de falha (espelho de falha, estrias, brecha) e confirmar se os pendores são do mesmo lado (falha) ou opostos (dobra), antes de fechar o modelo geológico.

Construir o perfil a partir da carta

  1. Traça na carta a linha do perfil, de preferência perpendicular à direção das camadas (assim os pendores aparecem com o valor real).
  2. Encosta uma tira de papel à linha e marca cada cruzamento com uma curva de nível (com a cota), com um contacto, uma falha e uma linha de água.
  3. Num papel quadriculado, desenha o eixo horizontal com a mesma escala da carta e escolhe a escala vertical. Passa as cotas e une-as: é o perfil topográfico.
  4. Projeta sobre o perfil os contactos e desenha-os em profundidade com o pendor adequado (real, se o perfil for perpendicular à direção; aparente, se for oblíquo).
  5. Legenda, escalas, orientação dos extremos (por exemplo, W e E) e exagero vertical escritos no próprio perfil.

Se a escala vertical for maior do que a horizontal, o perfil tem exagero vertical = denominador da escala horizontal / denominador da escala vertical. O exagero ajuda a ver o relevo suave, mas deforma os pendores: desenhados num perfil exagerado, os pendores ficam mais inclinados do que são. Em trabalho de interpretação, o ideal é perfil sem exagero; se o usares, escreve-o no perfil.

Num perfil oblíquo à direção, as camadas mostram um pendor aparente, sempre menor do que o real: tan(pendor aparente) = tan(pendor real) × sen(ângulo entre o perfil e a direção).

Exemplo resolvido · pendor aparente e exagero vertical

Uma camada tem pendor real de 40°. O perfil faz um ângulo de 30° com a direção das camadas. O perfil topográfico foi desenhado com escala horizontal 1:25 000 e escala vertical 1:5 000.

  1. Pendor aparente: tan α = tan 40° × sen 30° = 0,839 × 0,5 ≈ 0,420, logo α ≈ 22,8°. É com este valor que a camada se desenha no perfil (sem exagero).
  2. Exagero vertical: 25 000 / 5 000 = 5 vezes.
  3. Com exagero, um pendor de 20°, por exemplo, apareceria desenhado com arctan(5 × tan 20°) ≈ 61°. Conclusão: num perfil exagerado nunca se mede um pendor com o transferidor diretamente.

12. Analisar o relevo nas cartas litológicas

Esta é a primeira das duas realizações do referencial: analisar relevos nas cartas litológicas. Analisar o relevo não é descrever que "há um monte ali". É perceber porque é que o relevo tem aquela forma e usar essa forma para prever onde passam os contactos, que rocha está por baixo do solo e como estão inclinadas as camadas. Numa área com pouco afloramento, o relevo é muitas vezes a melhor pista que o técnico tem.

Erosão diferencial: porque a litologia desenha o relevo

A erosão não desgasta todas as rochas ao mesmo ritmo. Chama-se erosão diferencial ao desgaste mais rápido das rochas brandas (pouco resistentes) do que das rochas duras (resistentes). Com o tempo, as rochas duras ficam em saliência (cristas, cornijas, relevos isolados) e as brandas são escavadas em vales e depressões.

A resistência de uma rocha à erosão depende de três fatores, e não só da dureza dos minerais:

A regra prática é, portanto, relativa: uma rocha é "dura" ou "branda" em comparação com as vizinhas, naquela região e naquele clima.

Comportamento típico das litologias mais comuns

Litologia Comportamento à erosão Formas de relevo típicas Como se reconhece na carta topográfica
Quartzito, arenito bem cimentado muito resistente cristas alongadas e estreitas, escarpas, cornijas curvas apertadas e alongadas, alinhadas segundo a direção das camadas; linhas de água que atravessam a crista em gargantas
Granito são resistente, mas sensível às diáclases relevo maciço e arredondado, caos de blocos, penedos, bolas manchas extensas com curvas irregulares; drenagem em troços retilíneos com mudanças de rumo em ângulo, seguindo as diáclases
Granito muito alterado (arenizado) pouco resistente alvéolos e depressões com "saibro" zonas planas ou deprimidas dentro do maciço granítico
Xisto, grauvaque moderado a pouco resistente vertentes regulares, vales encaixados, cumeadas arredondadas rede de drenagem densa e ramificada (dendrítica); curvas regulares e paralelas
Calcário (clima húmido) dissolve-se (carso) lapiás, dolinas, algares, vales secos, polje depressões fechadas (curvas fechadas com traços para dentro); poucas linhas de água à superfície
Argila, marga muito pouco resistente colinas baixas e suaves, ravinas curvas afastadas, relevo suave; ravinamento nas encostas
Filão de quartzo muito resistente muralha ou crista estreita e linear alinhamento reto de pequenas elevações, cortando o relevo da rocha encaixante
Aluviões, depósitos de terraço material solto fundos de vale planos, patamares nas encostas curvas muito afastadas junto às linhas de água; patamares a cotas semelhantes nas duas margens

Alguns filões (por exemplo, certas rochas básicas em filão) alteram-se mais depressa do que o granito que atravessam e aparecem, ao contrário do quartzo, como depressões lineares. A regra é sempre a mesma: compara a resistência do filão com a da rocha encaixante.

Relevos estruturais: quando a atitude das camadas desenha o relevo

Quando há camadas duras intercaladas com camadas brandas, a forma do relevo passa a depender também da atitude das camadas. São os relevos estruturais:

Atitude das camadas Forma de relevo O que se vê na carta
Horizontais mesa ou planalto estrutural, rematado por uma cornija (a camada dura no topo) topo plano; contactos paralelos às curvas de nível, a contornar os vales
Pouco inclinadas (monoclinal) costeira (cuesta): frente abrupta de um lado e reverso em rampa suave do outro encosta de curvas apertadas (frente) e encosta de curvas afastadas (reverso); o reverso desce no sentido do pendor
Muito inclinadas crista monoclinal (hogback), com as duas vertentes de declive semelhante crista estreita e simétrica, alinhada com a direção das camadas
Verticais crista em muralha crista retilínea; o traço dos contactos não se deixa desviar pelo relevo
Dobradas relevo conforme (anticlinal em elevação, sinclinal em vale) ou relevo invertido (sinclinal suspenso, vale escavado no núcleo de um anticlinal) cristas que se fecham em "U" ou em "V" nas terminações das dobras

Quando uma região dobrada é arrasada pela erosão e depois volta a ser escavada, as camadas duras ficam em cristas paralelas separadas por vales nas camadas brandas: é o relevo apalachiano. Em Portugal, as cristas de quartzito do Ordovícico (por exemplo, na região de Valongo) são um exemplo clássico, e um bom guia de campo: seguir a crista é seguir a camada.

Numa costeira, a frente fica sempre do lado oposto ao pendor: se a camada dura inclina para leste, a escarpa está virada a oeste e o reverso desce suavemente para leste. É uma forma rápida de ler o sentido do pendor numa carta topográfica, antes de ir ao campo confirmar com a bússola.

Relevo e falhas

As falhas também deixam marca no relevo, mas pedem prudência:

Nenhuma destas formas prova uma falha. São hipóteses a confirmar no campo com indícios diretos (espelho de falha, estrias, brecha, deslocamento de um contacto). Para a prospeção valem muito, porque muitas mineralizações filonianas enchem precisamente essas fraturas.

O traço dos contactos e o relevo: a regra dos V completa

O traço de um contacto na carta é a linha onde o plano do contacto corta a superfície do terreno. Por isso, o mesmo contacto desenha formas diferentes consoante o relevo que atravessa e a sua própria inclinação. Nos vales, essa relação dá seis casos:

Atitude do contacto Forma do traço ao atravessar um vale
Horizontal acompanha exatamente as curvas de nível; faz um V para montante igual ao das curvas
Vertical segue em linha reta, sem se desviar com o relevo
Inclinado para montante V a apontar para montante, menos pronunciado do que o das curvas de nível
Inclinado para jusante, com pendor maior do que o declive do vale V a apontar para jusante
Inclinado para jusante, com pendor menor do que o declive do vale V a apontar para montante, mais pronunciado do que o das curvas de nível
Inclinado para jusante, com pendor igual ao declive do vale acompanha o fundo do vale, sem o atravessar

Na prática, como os declives dos fundos de vale são quase sempre pequenos (poucos graus), a leitura resume-se a isto: um V a apontar para jusante indica que o contacto inclina para jusante; um V para montante indica que inclina para montante ou que é quase horizontal. Um traço reto que ignora o relevo indica um contacto vertical ou quase. O mesmo raciocínio aplica-se ao traço de falhas e de filões.

Medir o pendor na carta: as linhas de direção

Quando o traço de um contacto cruza várias curvas de nível, pode calcular-se a sua atitude sem ir ao campo:

  1. Marca dois pontos onde o contacto corta a mesma curva de nível. A reta que os une é uma linha de direção (horizontal, contida no plano): dá a direção do contacto.
  2. Traça a linha de direção paralela que passa num ponto do contacto a outra cota.
  3. Mede, na perpendicular, a distância horizontal entre as duas linhas de direção e converte-a com a escala.
  4. Inclinação: tan(pendor) = desnível / distância horizontal entre as linhas de direção.
  5. O pendor aponta da linha de direção mais alta para a mais baixa.

Tipos de maciços rochosos na carta

A aptidão "identificar diferentes tipos de maciços rochosos nas cartas litológicas" treina-se juntando a forma das manchas na carta geológica com o relevo:

Exemplo resolvido · pendor de um contacto a partir das curvas de nível

Numa carta 1:25 000, o contacto entre quartzito e xisto corta a curva dos 300 m em dois pontos, A e B, alinhados segundo N-S, e passa num ponto C sobre a curva dos 250 m. A linha de direção dos 250 m, paralela a AB e passando por C, fica a leste de AB, a 0,4 cm de distância medida na perpendicular.

  1. Direção do contacto: a de AB, ou seja, N-S. Distância horizontal real entre as linhas de direção: 0,4 × 250 = 100 m.
  2. Desnível entre as duas linhas de direção: 300 − 250 = 50 m.
  3. tan(pendor) = 50 / 100 = 0,5, logo pendor = arctan(0,5) ≈ 26,6°, ou seja, cerca de 27°.
  4. O pendor aponta da cota mais alta para a mais baixa: o contacto inclina para leste. Atitude: N-S, 27° E (em notação por azimute, 090/27).

Exemplo resolvido · ler um relevo estrutural

Numa carta topográfica, uma crista com 3 km de comprimento, orientada NW-SE, tem a encosta virada a SW com curvas muito apertadas e a encosta virada a NE com curvas afastadas e regulares. A carta geológica mostra, ao longo da crista, uma faixa estreita de quartzito entre xistos.

  1. A crista é estreita, contínua e coincide com a faixa de quartzito: é erosão diferencial, com o quartzito resistente em saliência e os xistos brandos escavados em vales.
  2. As duas encostas são assimétricas: frente abrupta a SW, rampa suave a NE. É uma costeira.
  3. Numa costeira, o reverso desce no sentido do pendor: a camada de quartzito inclina para NE, com pendor fraco a moderado.
  4. Previsão de campo: o contacto quartzito/xisto do lado NE deve aparecer a meia encosta ou no sopé do reverso. Confirma-se com a bússola num afloramento, antes de o desenhar como certo.

Exemplo resolvido · espessura real a partir da largura do afloramento

Num terreno praticamente plano, uma camada de quartzito aflora numa faixa com 120 m de largura, medida na perpendicular à direção. O pendor medido é de 30°.

  1. Com o terreno plano e a medição feita na perpendicular à direção, a espessura real é e = largura × sen(pendor).
  2. e = 120 × sen 30° = 120 × 0,5 = 60 m.
  3. Conclusão: a faixa de 120 m na carta corresponde a uma camada com 60 m de espessura real. Uma largura de afloramento grande pode resultar de um pendor fraco, e não de uma camada espessa. Em terreno inclinado, a fórmula tem de entrar também com o declive da encosta.

13. Discordâncias e outras descontinuidades

Esta é a segunda realização do referencial: identificar discordâncias em cartas litológicas. As aptidões pedem ainda que se caracterizem as discordâncias (dizer de que tipo são e o que significam) e que se distingam das outras descontinuidades, sobretudo das falhas.

O que é uma discordância

Uma discordância é uma superfície de contacto entre duas unidades rochosas que corresponde a uma interrupção no registo geológico: durante um intervalo de tempo não houve deposição, ou houve erosão, ou ambas. Esse tempo em falta chama-se hiato (ou lacuna estratigráfica). A unidade de cima é sempre mais recente do que a de baixo, e a diferença de idade entre elas é maior do que a de um simples contacto normal.

O contrário de uma discordância é um contacto concordante (ou normal): as camadas sucedem-se sem interrupção significativa, paralelas entre si.

Uma discordância conta uma história. A mais completa é a da discordância angular:

  1. Deposição da sequência inferior, em camadas horizontais.
  2. Deformação: as camadas são inclinadas ou dobradas (e, muitas vezes, metamorfizadas, fraturadas e intruídas por granitos e filões).
  3. Levantamento e erosão: a região sobe, a erosão corta as camadas deformadas e aplana a superfície.
  4. Nova deposição: a região volta a ficar num ambiente de sedimentação e a sequência superior deposita-se, horizontal, sobre a superfície de erosão.

Os quatro tipos de discordância

Tipo Rocha abaixo Relação entre as camadas Superfície de discordância Como se reconhece
Angular sedimentar ou metassedimentar estratificada, deformada atitudes diferentes em cima e em baixo superfície de erosão que corta as camadas inferiores diferença de pendor visível no afloramento e na carta; truncatura dos contactos inferiores
Paralela com erosão (disconformidade) sedimentar camadas paralelas em cima e em baixo superfície de erosão irregular (canais, cavidades, paleorrelevo) irregularidade da superfície, conglomerado ou clastos da unidade inferior na base da superior, paleossolos
Paraconformidade sedimentar camadas paralelas superfície plana, sem erosão visível, parecida com um plano de estratificação normal só pelos fósseis ou por datações, que mostram tempo em falta; é a mais difícil de ver no campo
Não-conformidade magmática plutónica (granito) ou metamórfica sem estratificação rocha cristalina em baixo, sedimentar em cima superfície de erosão sobre a rocha cristalina sedimentos com clastos do granito ou do metamórfico na base; topo da rocha cristalina alterado; sem metamorfismo de contacto nos sedimentos

Na literatura portuguesa usa-se muitas vezes discordância paralela para englobar a disconformidade e a paraconformidade (as duas têm camadas paralelas). Quando a rocha inferior é metamórfica mas conserva estratificação ou foliação bem inclinada (xistos, grauvaques dobrados), a discordância classifica-se normalmente como angular; reserva-se "não-conformidade" para rochas cristalinas maciças.

A não-conformidade tem um significado especial: para que um granito, formado a vários quilómetros de profundidade, fique à superfície e receba sedimentos por cima, foi preciso remover pela erosão toda a rocha que o cobria. O hiato é, por isso, normalmente muito grande.

Reconhecer uma discordância no campo

Procuram-se vários indícios em conjunto, nunca um só:

Reconhecer uma discordância na carta

Na carta litológica a discordância não se "vê" diretamente: deduz-se da geometria das manchas e dos símbolos.

A carta sugere; o afloramento de contacto confirma. Uma discordância só se desenha como certa depois de observada no terreno.

Falhas: a outra descontinuidade

Uma falha é uma fratura ao longo da qual os dois blocos se deslocaram um em relação ao outro. Chama-se teto ao bloco que fica por cima do plano de falha e muro ao bloco que fica por baixo.

Tipo de falha Movimento Regime
Normal o teto desce em relação ao muro distensão
Inversa o teto sobe em relação ao muro compressão
Cavalgamento falha inversa de baixo ângulo compressão
Desligamento movimento horizontal, paralelo à direção da falha (esquerdo ou direito) cisalhamento
Oblíqua combina movimento vertical e horizontal variável

Uma diáclase é uma fratura sem deslocamento; só é falha se houver deslocamento. No campo, os indícios de falha são o espelho de falha (superfície polida), as estrias e os degraus que indicam o sentido do movimento, a brecha e a salbanda de falha (rocha triturada e argilizada) e o deslocamento de camadas ou de filões. Na carta, uma falha reconhece-se por deslocar contactos (o mesmo contacto aparece desfasado dos dois lados), por repetir ou suprimir unidades e por pôr lado a lado unidades que normalmente não se tocam.

Discordância, falha ou contacto intrusivo?

Os três são contactos "anormais" entre unidades diferentes, e o erro de confundir uns com os outros é frequente:

Critério Discordância Falha Contacto intrusivo
Natureza superfície de erosão ou não-deposição plano de deslocamento limite de um corpo de magma que se instalou na rocha encaixante
Idade relativa rocha de cima mais recente não há regra: blocos de qualquer idade a rocha intrusiva é mais recente do que a encaixante
Rocha junto ao contacto conglomerado basal, paleossolo brecha, salbanda, espelho, estrias auréola de metamorfismo de contacto (rocha encaixante "cozida", endurecida); apófises e filões do granito na encaixante; fragmentos da encaixante (encraves) no granito
Clastos clastos da rocha de baixo na rocha de cima fragmentos dos dois blocos misturados na brecha fragmentos da encaixante dentro da intrusiva
Na carta truncatura; unidade superior sobre várias inferiores; estruturas inferiores seladas contactos deslocados; repetição ou supressão de unidades; traço muitas vezes retilíneo contorno que corta as estruturas da encaixante; auréola cartografada à volta

O caso mais delicado é granito com sedimentos por cima: se os sedimentos têm clastos de granito na base e não estão "cozidos", é uma não-conformidade (os sedimentos são mais recentes); se os sedimentos estão metamorfizados junto ao granito e o granito lança filões para dentro deles, o contacto é intrusivo (o granito é mais recente).

Um exemplo português

Na Praia do Telheiro, no concelho de Vila do Bispo (Algarve), observa-se uma discordância angular clássica, classificada como geossítio: arenitos avermelhados do Triásico, quase horizontais, assentam sobre xistos e grauvaques do Carbonífero fortemente dobrados. É um bom caso de estudo para trabalhar com fotografias em aula e mostrar, numa só imagem, diferença de atitude, superfície de erosão e hiato de dezenas de milhões de anos.

Porque é que isto interessa à prospeção

Exemplo resolvido · discordância angular no afloramento

No afloramento AF-030, camadas de xisto e grauvaque com atitude N20°W, 60° NE são cortadas por uma superfície irregular, quase horizontal, sobre a qual assentam camadas de conglomerado e arenito com 5° de inclinação. O conglomerado da base tem seixos rolados de grauvaque e de quartzo.

  1. Atitudes diferentes: 60° em baixo, 5° em cima, com direções também diferentes.
  2. Superfície de erosão irregular a cortar as camadas inferiores.
  3. Conglomerado basal com seixos da unidade inferior: esta já estava consolidada e exposta à erosão quando o conglomerado se depositou.
  4. Conclusão: discordância angular. História: deposição dos xistos e grauvaques, dobramento, levantamento e erosão, deposição do conglomerado e do arenito. Assinala-se na carta com o símbolo próprio e regista-se como contacto de primeira importância.

Exemplo resolvido · caracterizar uma discordância na carta

Uma carta litológica mostra: (A) xistos com foliação N-S, 70° W; (B) quartzitos em faixas paralelas aos xistos; (C) uma mancha de arenitos e conglomerados com atitude 5° para S, cujo limite acompanha as curvas de nível e assenta ora sobre A, ora sobre B. Uma falha NE-SW desloca o contacto A/B mas termina no limite de C.

  1. O limite de C assenta sobre duas unidades diferentes e corta os seus contactos: truncatura.
  2. As atitudes são muito diferentes (70° contra 5°).
  3. O limite de C segue as curvas de nível: contacto de base quase horizontal, como a atitude de C.
  4. A falha afeta A e B mas não C: é anterior à deposição de C e está selada pela discordância.
  5. Caracterização: discordância angular de C sobre A e B. Sequência de acontecimentos: A e B depositam-se e deformam-se; a falha forma-se; erosão; deposição de C.

Exemplo resolvido · não-conformidade ou contacto intrusivo?

Num corte de estrada, arenitos grosseiros assentam sobre um granito. Na base dos arenitos há clastos de quartzo e de feldspato alterado; o topo do granito, com cerca de 1 m, está arenizado; os arenitos junto ao contacto não mostram qualquer endurecimento e não há filões de granito dentro deles.

  1. Clastos de minerais do granito na base dos arenitos: o granito já estava à superfície e a ser erodido.
  2. Topo do granito alterado, cortado pelo contacto: antiga superfície exposta.
  3. Ausência de metamorfismo de contacto e de filões do granito nos arenitos: exclui contacto intrusivo.
  4. Conclusão: não-conformidade, com os arenitos mais recentes do que o granito.

14. Amostragem, marcação em carta e GNSS

Tipos de amostra no campo

Boas práticas de amostragem

Marcação em carta e GNSS

O posicionamento moderno de campo apoia-se no GNSS (Global Navigation Satellite System), que engloba várias constelações: GPS (EUA), GLONASS (Rússia), Galileo (União Europeia) e BeiDou (China). Uma posição tridimensional exige, no mínimo, 4 satélites visíveis (três para as coordenadas, um para corrigir o erro do relógio do recetor).

Tipo de posicionamento Precisão típica
Recetor portátil de navegação alguns metros
Com correção DGNSS/SBAS (EGNOS) melhor que o anterior
RTK (apoiado na rede ReNEP da DGT) centimétrica

Regras a cumprir sempre:

Fontes de erro do GNSS

Exemplo resolvido · qual a banda UTM

Um levantamento decorre a norte de Vila Real, portanto claramente a norte do paralelo 40°N.

  1. O continente está no fuso 29.
  2. A localização é a norte do paralelo 40°N.
  3. Conclusão: a banda de latitude correta é 29T, não 29S. A coordenada norte (M) conta-se sempre a partir do equador, por isso a letra da banda é redundante com ela; mas um par incoerente (banda e coordenada que não batem) é rejeitado ou mal interpretado por alguns programas, e um "S" de banda lido como "hemisfério sul" atira o ponto para o outro lado do equador. Por isso a banda escreve-se certa e confirma-se.

15. Fotografia com escala, EPI e segurança de campo

Fotografia de campo

Toda a fotografia de afloramento, estrutura ou amostra deve incluir um objeto de escala conhecida: uma fita métrica, um cartão de referência ou o próprio martelo de geólogo, colocado junto ao elemento fotografado.

Boas práticas:

Uma fotografia sem escala e sem identificador tem valor muito limitado para reconstituir a observação mais tarde, em gabinete.

Equipamento de proteção individual

Situação EPI
Junto a taludes ou frentes de escavação capacete
Ao partir rocha com martelo de geólogo óculos de proteção
Ao manusear ácido clorídrico diluído óculos e luvas
Em qualquer deslocação de campo botas de biqueira reforçada

Normas de segurança e saúde no trabalho de campo

Em caso de desorientação

Se um técnico se desorienta no campo, o procedimento é:

  1. PARAR de imediato, sem continuar a andar às cegas.
  2. Reorientar-se com carta, bússola e GNSS, cruzando as três fontes de informação.
  3. Se, mesmo assim, a orientação não se resolver, ficar num local visível e pedir ajuda, em vez de continuar a procurar caminho.

Nunca se deve seguir uma linha de água a jusante como forma de "encontrar a civilização": é uma prática associada a acidentes reais em trabalho de campo, por levar a ravinas, quedas de água e taludes instáveis.

Este enquadramento de legislação e segurança liga-se ao regime jurídico português dos recursos geológicos, estabelecido pela Lei n.º 54/2015 e regulamentado, para os depósitos minerais, pelo Decreto-Lei n.º 30/2021, com a DGEG como entidade competente. A prospeção e a pesquisa exigem sempre direitos atribuídos por contrato, nunca trabalho de campo informal em áreas não licenciadas.

Checklist de material do técnico de campo

Antes de sair para o terreno, o técnico confirma sempre o seu equipamento:

Um técnico organizado não perde tempo de campo, que é sempre o recurso mais caro de um projeto de prospeção, a improvisar material em falta.

Erros comuns

Glossário

Síntese

O trabalho de campo em cartografia litológica segue sempre a mesma lógica: preparar em gabinete (cartas existentes, escalas, legendas) → ler o relevo (curvas de nível, cotas, linhas de água) → reconhecer rochas e minerais com testes simples (dureza, risca, HCl, magnetismo) → medir atitudes com a bússola de geólogo, sempre com correção de declinação → descrever e registar cada afloramento, em caderno e em formulário digital, com identificador único → amostrar com rigor e QA/QC → posicionar por GNSS, no datum e no fuso corretos → fotografar com escala → e, do início ao fim, trabalhar em segurança, com EPI e normas de campo respeitadas. O núcleo da UC está nos capítulos 12 e 13: analisar o relevo (erosão diferencial, relevos estruturais, regra dos V, linhas de direção) para prever litologias e atitudes, e identificar e caracterizar discordâncias (angular, paralela com erosão, paraconformidade, não-conformidade), distinguindo-as de falhas e de contactos intrusivos. Perfis litológicos juntam tudo num modelo coerente da área em profundidade.

Exercícios resolvidos

1. Uma carta está à escala 1:50 000. Que distância real corresponde a 3 cm medidos na carta?

Resolução: a 1:50 000, 1 cm equivale a 500 m. Distância real = 3 × 500 = 1 500 m (1,5 km).

2. Entre dois pontos com 60 m de desnível e 150 m de distância horizontal, qual o declive médio?

Resolução: declive (%) = (60 / 150) × 100 = 40%.

3. Um mineral risca o vidro mas não é riscado por ele; a unha e o cobre não o riscam. Qual a dureza aproximada, na escala de Mohs?

Resolução: o mineral risca o vidro (dureza ≈ 5,5), logo a sua dureza é igual ou superior a 5,5; não sendo riscado pelo vidro, situa-se acima desse valor, por exemplo na zona do feldspato (6) ou do quartzo (7).

4. Que indício de campo confirma, com mais força, uma discordância angular?

Resolução: nenhum indício isolado chega. O conjunto mais forte é a diferença de atitude entre as duas sequências (medida com a bússola dos dois lados do contacto) acompanhada de uma superfície de erosão que corta as camadas inferiores e de um conglomerado basal com clastos da unidade inferior na base da superior.

5. Um levantamento decorre perto de Bragança. Que banda UTM se deve usar?

Resolução: Bragança situa-se claramente a norte do paralelo 40°N, logo a banda correta é 29T (o continente está sempre no fuso 29; a banda muda consoante a latitude).

6. Que três medidas de segurança são obrigatórias antes de uma equipa de dois técnicos sair para o campo?

Resolução: deixar um plano de campo (rota e hora de regresso) a alguém de confiança; confirmar que levam comunicação, água e proteção solar; e garantir que nunca vão sozinhos, trabalhando sempre em pares. A estas soma-se o EPI adequado ao terreno previsto.

7. No campo encontras um bloco de rocha vulcânica com vesículas, sem qualquer afloramento visível à volta, no meio de uma zona de aluvião de um rio. Como classificas o achado e que cuidado tens ao registá-lo?

Resolução: trata-se de um bloco solto (matacão), transportado pelo rio até à posição atual, e não de um afloramento em posição. Regista-se como indício, com fotografia e coordenadas, mas não se cartografa um contacto litológico nesse ponto; procura-se depois, a montante, um afloramento real que possa ser a fonte da rocha vulcânica.

8. Um técnico mede uma atitude com a bússola mas esquece-se de corrigir a declinação magnética. Que consequência prática tem esse erro?

Resolução: a direção registada fica desviada pelo valor da declinação local, o que roda a atitude transcrita para a carta em relação ao norte geográfico, a referência das direções geológicas. Em cartografia estrutural de detalhe, esse desvio pode levar a interpretações erradas sobre a orientação de contactos e de estruturas, por isso a declinação deve consultar-se sempre na margem da carta ou num modelo atualizado antes de qualquer campanha de medições.

9. O traço de um contacto, ao atravessar um vale, forma um V com o vértice a apontar para jusante. O que concluis sobre a sua atitude?

Resolução: o contacto inclina para jusante, com pendor maior do que o declive do fundo do vale. Um V para jusante só aparece neste caso; um contacto horizontal ou inclinado para montante faria um V para montante.

10. Numa carta 1:25 000, um contacto corta a curva dos 400 m em dois pontos alinhados E-W; a linha de direção dos 380 m, que passa noutro ponto do contacto, fica a sul, a 0,32 cm da primeira. Qual a atitude do contacto?

Resolução: distância horizontal = 0,32 × 250 = 80 m; desnível = 400 − 380 = 20 m; tan(pendor) = 20 / 80 = 0,25, logo pendor ≈ 14°. O pendor aponta para a cota mais baixa, a sul: atitude E-W, 14° S (180/14 em notação por azimute).

11. Na carta, uma unidade de arenitos com 3° de pendor assenta ora sobre granito, ora sobre xistos dobrados; o contorno do granito corta as dobras dos xistos, e um filão de quartzo que corta o granito e os xistos termina no limite dos arenitos. Caracteriza a relação e ordena os acontecimentos.

Resolução: é uma discordância: não-conformidade onde os arenitos assentam no granito e discordância angular onde assentam nos xistos dobrados. Ordem: deposição e dobramento dos xistos; intrusão do granito; instalação do filão; levantamento e erosão; deposição dos arenitos. O filão é anterior aos arenitos e, se estiver mineralizado, pode continuar escondido por baixo deles.

12. Uma crista estreita e retilínea, com vertentes de declive semelhante dos dois lados, corresponde na carta geológica a uma faixa de quartzito entre xistos. Que atitude esperas para o quartzito e porquê?

Resolução: camadas muito inclinadas ou verticais. A crista é simétrica (não é uma costeira, que teria frente abrupta e reverso suave), o que é típico de uma crista monoclinal em camadas de pendor forte; se o traço dos contactos for retilíneo e ignorar o relevo, as camadas estão perto da vertical. A crista existe por erosão diferencial: o quartzito resiste mais do que os xistos.