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UC · Unidade de Competência · UC05050

Sebenta · Implementar técnicas de controlo de processo (UC05050)

Variáveis críticas, mapas e fichas de controlo, indicadores, monitorização, ações corretivas e relatórios de acompanhamento
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Fundição, T. Laboratório - Fundição ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta acompanha a unidade curricular Implementar técnicas de controlo de processo, do curso de Técnico de Fundição e de Técnico de Laboratório - Fundição. Depois de aprenderes a fundir, moldar, vazar, ensaiar e acabar peças, falta uma competência transversal que atravessa todas as anteriores: garantir que o processo, do início ao fim, se mantém dentro da especificação, dia após dia, lote após lote.

O percurso desta UC segue as quatro realizações oficiais do referencial: selecionar as variáveis críticas e a metodologia de análise e controlo, selecionar ensaios e análises ao controlo das variáveis do processo, monitorizar as variáveis críticas do processo de fundição e analisar os resultados de ensaios e análises e propor medidas corretivas no processo. Todo o capítulo seguinte se organiza à volta destas quatro etapas, do processo global até ao relatório final.

Ao longo dos próximos capítulos vamos conhecer o processo e o subprocesso de fabrico, aprender a selecionar variáveis críticas e a metodologia de controlo, construir mapas e fichas de controlo, definir indicadores, escolher ensaios e análises, perceber a automatização de processos, monitorizar e registar dados, analisar variáveis intrínsecas por diferentes abordagens, planear ações corretivas, elaborar relatórios de acompanhamento e, por fim, cumprir as normas de segurança, ambiente, resíduos e qualidade que atravessam todo o controlo de processo.

1. O processo e o subprocesso de fabrico

Um processo de fabrico é a sequência organizada de operações que transforma matérias-primas em produto acabado. Em fundição, esse processo divide-se em subprocessos encadeados: preparação de areias, moldação, fabrico de machos, fusão da liga, vazamento, desmoldação, acabamento e ensaios.

O fluxo de fabrico

Representar o fluxo de fabrico é o primeiro passo de qualquer controlo: sem saber por onde o material passa, não é possível saber onde medir.

Areias → Moldação/Machos → Fusão → Vazamento → Desmoldação → Acabamento → Ensaios → Expedição

Variáveis críticas e constrangimentos

Uma variável crítica é um parâmetro cuja variação afeta diretamente a qualidade, a segurança ou o custo do produto final. Um constrangimento é uma limitação do processo, seja de equipamento, de material, de tempo ou de competência, que impede ou dificulta atingir o resultado pretendido.

Subprocesso Variável crítica típica Constrangimento típico
Areias humidade, permeabilidade tempo de mistura, desgaste do misturador
Fusão composição química, temperatura capacidade do forno, tempo de espera
Vazamento temperatura de vazamento, velocidade geometria do canal, disponibilidade de mão de obra
Acabamento rugosidade, dimensões finais desgaste de ferramenta, tempo de ciclo

Identificar corretamente o subprocesso onde a variável nasce, e não apenas o subprocesso onde o defeito aparece, é essencial para que a correção atue na causa e não apenas no sintoma.

2. Selecionar as variáveis críticas e a metodologia de análise e controlo

Selecionar as variáveis críticas e a metodologia de análise e controlo é a primeira realização da UC. Nem todas as variáveis de um processo merecem o mesmo esforço de controlo: escolher as certas é uma competência tão importante como medi-las bem.

Critérios de seleção de uma variável crítica

Metodologias de análise e controlo

Depois de identificadas as variáveis, escolhe-se a metodologia mais adequada a cada uma:

Exemplo resolvido · escolher a metodologia certa

Uma fundição regista variação na dureza de peças de ferro fundido. A causa suspeita é a composição química da liga.

  1. Identificar a variável crítica: teor de carbono e silício na liga.
  2. Avaliar o impacto: alto, a dureza é um requisito de aceitação do cliente.
  3. Escolher a metodologia: análise laboratorial (espectrómetro) a cada fusão, complementada com carta de controlo para acompanhar a tendência ao longo do tempo.
  4. Definir a frequência: uma análise por corrida de fusão, antes do vazamento.

A escolha certa combina, muitas vezes, mais do que uma metodologia.

3. Instrumentação de apoio, mapas e fichas de controlo

Controlo de processos apoia-se em instrumentação e em documentos normalizados que tornam o controlo repetível e comparável entre turnos e operadores.

Instrumentação de apoio

Mapas e fichas de controlo

Um mapa de controlo organiza, de forma visual, onde e quando se mede cada variável ao longo do fluxo de fabrico: que ponto, que instrumento, que frequência, que limites.

Uma ficha de controlo regista, para cada medição concreta, o valor obtido, a data, o turno, o operador e a decisão (conforme ou não conforme).

Campo da ficha de controlo Exemplo
Variável temperatura de vazamento
Ponto de medição saída do forno
Instrumento pirómetro de imersão
Especificação 1400 a 1450 ºC
Valor medido 1420 ºC
Decisão conforme
Operador / turno J. Silva / manhã

Exemplo resolvido · construir uma ficha de controlo

Uma UC de fundição em areia auto-secativa precisa de controlar a humidade da areia.

  1. Variável: humidade da areia (%).
  2. Ponto de medição: saída do misturador, antes da moldação.
  3. Instrumento: higrómetro de areia.
  4. Especificação: 3,5% a 4,5%.
  5. Frequência: uma medição por lote de mistura.
  6. Ficha regista: valor, hora, lote, operador, decisão.

Com estes seis campos preenchidos, qualquer pessoa consegue repetir o controlo de forma idêntica.

4. Definir indicadores de controlo do processo

Um indicador é uma medida que sintetiza o desempenho de uma variável ou de um processo ao longo do tempo, permitindo comparar, acompanhar tendências e decidir.

Tipos de indicadores usados em fundição

Boas práticas na definição de indicadores

Exemplo resolvido · construir um indicador de conformidade

Num turno, foram vazadas 80 peças; 72 passaram no controlo dimensional e nos ensaios.

Indicador de conformidade = 72 ÷ 80 × 100 = 90%.

Se a meta definida for 95% e o limite de alerta 90%, este turno está mesmo no limite de alerta: é motivo para investigar a causa antes que o indicador desça abaixo da meta de forma continuada.

5. Selecionar ensaios e análises ao controlo das variáveis do processo

Selecionar ensaios e análises ao controlo das variáveis do processo é a segunda realização da UC. Escolher bem o ensaio certo para cada variável evita medir a coisa errada com precisão perfeita.

Critérios de escolha de um ensaio

Ensaios e análises comuns ao processo de fundição

Variável a controlar Ensaio/análise típica
Composição química espectrometria de emissão ótica
Dureza ensaio Brinell ou Rockwell
Resistência à tração ensaio de tração em provete
Dimensões controlo dimensional com paquímetro, calibre ou 3D
Porosidade interna radiografia ou ensaio por ultrassons
Humidade e permeabilidade da areia ensaios laboratoriais de areia

Exemplo resolvido · escolher o ensaio certo

Um cliente exige garantia de ausência de porosidade interna numa peça crítica de segurança.

  1. A variável (porosidade interna) não é visível à vista nem por controlo dimensional.
  2. Escolhe-se um ensaio não destrutivo, porque a peça tem de ser entregue: radiografia ou ultrassons.
  3. Define-se a frequência: 100% das peças críticas, dado o custo elevado de um defeito não detetado.

A escolha do ensaio depende sempre do que se quer garantir e do que a peça pode "perder" no processo de medição.

6. Automatização de processos

A automatização de processos substitui, total ou parcialmente, a intervenção humana na recolha de dados, na regulação de parâmetros ou na tomada de decisão de controlo.

Níveis de automatização no controlo de processo

Vantagens e limites

A automatização não substitui a competência de interpretar os dados: substitui apenas a tarefa de os recolher.

7. Monitorizar as variáveis críticas do processo de fundição

Monitorizar as variáveis críticas do processo de fundição é a terceira realização da UC: recolher e registar dados de forma sistemática, ao longo do tempo, para saber se o processo se mantém sob controlo.

O ciclo de monitorização

  1. Medir a variável no ponto e na frequência definidos no mapa de controlo.
  2. Registar o valor na ficha de controlo, com data, turno e operador.
  3. Comparar com a especificação e com o histórico recente.
  4. Sinalizar qualquer valor fora da especificação ou de uma tendência anómala.

Recolher e registar: papel vs sistema digital

Uma fundição pode recolher dados em papel (ficha de controlo impressa) ou em sistema digital (folha de cálculo partilhada, software de gestão da produção, sistema SCADA). O princípio é o mesmo: o dado tem de ser fidedigno, rastreável ao lote e ao operador, e acessível a quem decide.

Um dado registado sem data, sem lote ou sem operador não serve para investigar uma não conformidade mais tarde. O registo incompleto é, na prática, um registo perdido.

Exemplo resolvido · seguir uma variável ao longo de um turno

A temperatura de vazamento é registada de hora a hora, com especificação 1400 a 1450 ºC:

Hora 08h 09h 10h 11h 12h
Temperatura (ºC) 1420 1435 1448 1455 1440

Às 11h o valor (1455 ºC) está fora da especificação. A monitorização sistemática permitiu detetar o desvio no próprio turno, e não apenas quando uma peça já vazada apresentasse defeito.

8. Analisar e controlar as variáveis intrínsecas: diferentes abordagens

As variáveis intrínsecas de um processo são as que resultam das propriedades dos próprios materiais e das reações que ocorrem durante o fabrico, e não apenas de parâmetros regulados diretamente numa máquina.

Abordagens de análise

A carta de controlo, passo a passo

  1. Recolher 20 a 25 amostras da variável em condições normais de funcionamento.
  2. Calcular a média e os limites de controlo (tipicamente a três desvios-padrão da média).
  3. Traçar a carta: eixo horizontal o tempo, eixo vertical o valor da variável, com a média e os limites marcados.
  4. Marcar cada novo valor à medida que é medido.
  5. Interpretar: pontos fora dos limites, ou sequências de pontos do mesmo lado da média, indicam causa especial a investigar.

Exemplo resolvido · interpretar uma carta de controlo

Uma carta de controlo da dureza de peças mostra sete valores consecutivos acima da média, todos dentro dos limites de controlo.

Mesmo sem nenhum ponto fora dos limites, sete pontos seguidos do mesmo lado da média é um sinal de causa especial: algo mudou de forma consistente no processo (por exemplo, um novo lote de ferro-liga ou uma deriva do forno). Deve investigar-se, e não esperar que um ponto saia dos limites para agir.

9. Planeamento, acompanhamento, correção e ações corretivas

Planear, acompanhar e corrigir os indicadores-chave do processo fecha o ciclo entre detetar um desvio e resolvê-lo de forma duradoura.

O plano de ação corretiva

Uma ação corretiva elimina a causa raiz de uma não conformidade já detetada, para que não se repita. Um bom plano de ação inclui:

Campo Conteúdo
Não conformidade descrição objetiva do desvio
Causa raiz identificada com método (5 porquês, Ishikawa)
Ação corretiva o que vai mudar no processo
Responsável quem executa e quem confirma
Prazo data-limite para implementar
Verificação de eficácia como e quando se confirma que resolveu

Método dos 5 porquês

Perguntar "porquê" sucessivamente até chegar à causa raiz, e não apenas ao sintoma imediato:

  1. A peça saiu com dureza baixa. Porquê? A composição de carbono ficou abaixo do alvo.
  2. Porquê? O cálculo da carga usou um teor de tabela, não o do certificado.
  3. Porquê? O certificado do lote não estava disponível no posto de trabalho.
  4. Porquê? Não há procedimento a exigir a consulta do certificado antes do cálculo.
  5. Porquê? Essa etapa nunca foi formalizada no plano de controlo.

A causa raiz não é "o operador enganou-se", é a ausência de um procedimento formal. A ação corretiva atua aqui, não na repreensão do operador.

Identificar constrangimentos e aplicar correções aos desvios

Nem todo o desvio tem a mesma origem: pode vir de um constrangimento do processo (capacidade insuficiente, equipamento desatualizado) ou de uma falha pontual (erro de regulação, matéria-prima fora de especificação). Identificar corretamente qual dos dois está em causa evita corrigir o sintoma errado.

10. Analisar resultados e elaborar relatórios de acompanhamento

Analisar os resultados de ensaios e análises e propor medidas corretivas no processo é a quarta e última realização da UC. Todo o esforço de medir e registar só tem valor se terminar em decisão e em melhoria.

Estrutura de um relatório de acompanhamento do processo

Exemplo resolvido · redigir uma conclusão de relatório

Dados do período: conformidade de 88% (meta 95%), com 60% das não conformidades ligadas à temperatura de vazamento fora de especificação.

Conclusão do relatório: a conformidade do período ficou 7 pontos percentuais abaixo da meta, concentrada na variável temperatura de vazamento. Recomenda-se rever a calibração do pirómetro e reforçar a frequência de registo para uma medição a cada 30 minutos, com verificação de eficácia no próximo período.

Uma conclusão útil aponta a causa dominante e propõe uma ação concreta, não apenas um número.

11. Segurança, ambiente, resíduos e qualidade no controlo de processo

O controlo de processo cumpre-se sempre dentro de um enquadramento de normas que não são opcionais.

Um sistema de controlo de processo que ignore estas normas não é um sistema completo, é apenas uma parte dele. Cumprir as normas é, em si, um dos critérios de desempenho avaliados na UC.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Implementar o controlo de processo segue sempre a mesma lógica: mapear o fluxo de fabricoselecionar as variáveis críticas e a metodologia de controloconstruir mapas e fichas de controlo e definir indicadoresselecionar os ensaios e análises certosmonitorizar e registar sistematicamenteanalisar variáveis intrínsecas por diferentes abordagensplanear e aplicar ações corretivas sobre a causa raizelaborar relatórios com recomendações, tudo sob as normas de segurança, ambiente, resíduos e qualidade. Domina este ciclo e serás capaz de manter qualquer processo de fundição sob controlo, dia após dia.

Exercícios resolvidos

1. Uma peça sai fora de especificação dimensional. O defeito aparece no acabamento, mas onde deve começar a investigação?

Resolução: a investigação deve começar no fluxo de fabrico completo, não apenas no subprocesso onde o defeito foi detetado. O acabamento é onde o desvio se tornou visível, mas a causa pode nascer num subprocesso anterior, como a moldação ou o vazamento. Mapear o fluxo é o primeiro passo para não corrigir o subprocesso errado.

2. Uma fundição quer controlar a composição química da liga a cada corrida de fusão. Que metodologia de análise e controlo é mais adequada, e porquê?

Resolução: a análise laboratorial pontual (espectrometria), porque a composição química só um ensaio de laboratório consegue determinar com rigor; pode complementar-se com uma carta de controlo para acompanhar a tendência ao longo do tempo e detetar derivas antes de se tornarem não conformidade.

3. Um indicador de conformidade caiu de 96% para 91% em duas semanas, sem nenhum valor fora dos limites de controlo. Há motivo para agir?

Resolução: sim. Mesmo sem pontos fora dos limites, uma tendência sustentada de queda é um sinal de causa especial a investigar, tal como uma sequência de pontos do mesmo lado da média. Esperar por um ponto fora dos limites de controlo seria agir tarde demais.

4. Que diferença existe entre limite de controlo e limite de especificação, e porque é grave confundi-los?

Resolução: o limite de controlo é calculado a partir da variação estatística do próprio processo; o limite de especificação é definido pelo cliente ou pela norma do produto. Confundi-los é grave porque um processo pode estar sob controlo estatístico (estável) e, mesmo assim, fora de especificação (não serve o cliente), ou vice-versa: são perguntas diferentes que exigem respostas diferentes.

5. Uma ação corretiva foi implementada há um mês para resolver uma não conformidade recorrente. Que passo final não pode faltar?

Resolução: a verificação de eficácia: confirmar, com dados novos, que a não conformidade deixou de ocorrer depois da ação implementada. Sem essa verificação, a ação corretiva fica por concluir e o desvio pode repetir-se sem ninguém dar por isso.