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UC · Unidade de Competência · UC05034

Sebenta · Analisar as características e as propriedades das areias de fundição (UC05034)

Constituintes, tipos de areia, preparação de amostras, ensaios físico-químicos e controlo de qualidade em laboratório de fundição
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Fundição, T. Laboratório - Fundição ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta acompanha a unidade curricular Analisar as características e as propriedades das areias de fundição, do curso de Técnico de Fundição. Na fundição em areia, o molde não é metálico: é feito de uma mistura controlada de areia, aglomerante e aditivos, moldada à volta de um modelo e destruída depois de a peça solidificar. A qualidade dessa mistura decide, em grande parte, a qualidade da peça final.

O percurso desta UC segue sempre o mesmo ciclo de laboratório, repetido a cada lote de areia: preparar a amostra, executar os provetes normalizados, realizar os ensaios físicos e químicos e registar e analisar os resultados. Estas quatro ações são as realizações oficiais desta UC e organizam toda a matéria que se segue.

Ao longo dos próximos capítulos vamos conhecer os tipos e constituintes das areias de moldação e de macho, os procedimentos de preparação de amostras e provetes, os equipamentos de ensaio (balança, permeâmetro, máquina de três pancadas e máquina de compactibilidade), os principais ensaios físico-químicos (granulometria, perdas por ignição, matérias voláteis, bentonite ativa), a relação entre as propriedades da areia e os defeitos de fundição, a reciclagem das areias e, por fim, as normas de segurança, saúde no trabalho, gestão de resíduos, proteção ambiental e qualidade que atravessam todo o processo.

1. Areias de fundição: tipos e constituintes

Uma mistura de areia de fundição combina sempre três famílias de constituintes:

Constituinte Função
Areia base o esqueleto granular da mistura
Aglomerante liga os grãos entre si
Aditivos ajustam uma propriedade específica

Consoante a função que desempenham no molde, distinguem-se dois tipos de areia:

Distinguir estes dois tipos de areia, e identificar e selecionar os seus constituintes, é um dos critérios de desempenho centrais desta UC. A areia de macho, por ser mais exigida termicamente, quase sempre recorre a aglomerante químico (resina), enquanto a areia de moldação pode usar bentonite ou resina, consoante o processo escolhido.

2. Constituintes das areias de moldação

Areia base

A areia base é normalmente areia siliciosa (sílica, SiO₂): abundante, barata e suficientemente refratária para a maioria das ligas fundidas. Para peças de exigência térmica elevada, como secções muito espessas ou ligas especiais, usam-se areias base alternativas, mais refratárias, como cromite ou zircónio. A forma e o tamanho de grão da areia base condicionam diretamente a permeabilidade e o acabamento superficial obtido na peça.

Aglomerantes

O aglomerante transforma grãos soltos numa mistura moldável e resistente. Há duas famílias principais:

A escolha entre estas duas famílias condiciona o custo da mistura, o tempo de endurecimento, a resistência final do molde e a facilidade de desmoldação da peça.

3. Areia verde: bentonite, pó de carvão e água

A areia verde é a mistura mais usada em fundição, sobretudo em produção em série com moldação mecanizada. O nome "verde" refere-se ao facto de o molde ser usado húmido, sem secagem em estufa, não à cor da mistura.

Constituintes típicos

Exemplo resolvido · Selecionar percentagens numa mistura de areia verde

Uma mistura de areia verde para moldação mecânica segue, tipicamente, esta ordem de grandeza, calculada sobre o peso de areia base:

  1. Bentonite: cerca de 6% a 10%, consoante a resistência exigida pela peça.
  2. Pó de carvão: cerca de 2% a 4%, sobretudo em peças de ferro fundido.
  3. Água: cerca de 3% a 5%, o suficiente para ativar a bentonite sem excesso.

Resolução: estes valores são uma ordem de grandeza de referência, não uma receita fixa. O técnico ajusta a água em função da humidade ambiente e do estado da areia (nova ou reciclada), e confirma sempre a mistura por ensaio de compactibilidade e de resistência, nunca só por memória de receita.

4. Areia autosecativa: resina e catalisador

A areia autosecativa (self-setting) endurece à temperatura ambiente, por reação química entre a resina e o catalisador, sem precisar de forno nem de gás. É a escolha preferida quando se quer maior precisão dimensional, moldes de grandes dimensões ou séries pequenas e médias.

Constituintes

Exemplo resolvido · Selecionar a percentagem de resina e catalisador

Um técnico prepara uma mistura autosecativa para um molde de série pequena, com geometria complexa.

  1. Definir primeiro a resistência necessária e o tempo de trabalho disponível para acabar de moldar antes de a mistura endurecer.
  2. Dosar a resina: tipicamente 1% a 2% do peso de areia; mais resina aumenta a resistência, mas encarece a mistura.
  3. Dosar o catalisador em percentagem da resina, não da areia: mais catalisador acelera o endurecimento, mas encurta o tempo de trabalho disponível.
  4. Fazer um ensaio prévio em pequena escala antes de aplicar a mistura à produção.

Resolução: para uma peça grande e complexa, escolhe-se menos catalisador, para garantir mais tempo de trabalho até a mistura endurecer. A ordem da decisão é sempre esta: primeiro o tempo de trabalho necessário, só depois a dosagem do catalisador.

5. Areias de macho e aditivos

O macho é a peça de areia colocada dentro do molde para formar as cavidades e furos internos da peça fundida, como o interior de um bloco de motor. Por ficar rodeado de metal líquido por quase todos os lados, a sua areia tem exigências próprias:

Por estas razões, a areia de macho recorre quase sempre a aglomerante químico (resina), raramente a bentonite.

Aditivos típicos nas areias de macho

Aditivo Efeito
Óxido de ferro aumenta a refratariedade e reduz defeitos superficiais
Serragem ou material combustível cria porosidade extra que facilita a desmoldação após combustão
Silicato ou éster sistemas de endurecimento alternativos ao par resina/catalisador
Desmoldantes facilitam a extração do macho da caixa de machos

Identificar os constituintes das areias de macho, e selecionar para cada tipo a percentagem correta de aditivos, são aptidões avaliadas nesta UC.

6. Preparação e amostragem de areias

Preparar a amostra de areias é a primeira realização desta UC: sem uma amostra representativa, nenhum ensaio seguinte tem valor, por melhor que seja o laboratório.

Procedimento de amostragem

  1. Recolher a amostra em vários pontos da mistura, nunca só na superfície ou num único ponto acessível.
  2. Homogeneizar a amostra antes de a dividir para os diferentes ensaios a realizar.
  3. Respeitar as quantidades normalizadas exigidas por cada ensaio.
  4. Registar a origem e a hora de recolha da amostra.

Preparar amostras normalizadas

Preparar amostras normalizadas exige seguir sempre o procedimento operacional do laboratório: controlar a temperatura e o tempo de repouso da amostra, usar instrumentos calibrados (balança, cronómetro) e identificar cada amostra com código, data e responsável. Uma amostra normalizada é o que permite comparar resultados entre laboratórios e ao longo do tempo.

7. Execução dos provetes normalizados

Executar os provetes de areia de fundição é a segunda realização desta UC. O provete é uma amostra da mistura, compactada num molde de forma e dimensão normalizadas (um cilindro), para que os ensaios sejam reprodutíveis e comparáveis entre lotes e entre laboratórios.

Compactação na máquina de três pancadas

  1. Colocar a quantidade de areia definida dentro do tubo cilíndrico normalizado.
  2. Aplicar os golpes normalizados com o peso da máquina de três pancadas (rammer), tipicamente três golpes.
  3. Medir a altura final do provete: deve ficar dentro de uma faixa definida em procedimento.
  4. Se a altura sair fora da faixa, repetir o provete com nova quantidade de areia.

A altura final do provete é também o primeiro indicador prático da compactibilidade da mistura, antes mesmo de se avançar para os outros ensaios.

8. Equipamentos de ensaio

O laboratório de areias de fundição trabalha com um conjunto reduzido, mas específico, de equipamentos:

Equipamento O que mede
Balança a massa da areia e dos reagentes, com o rigor exigido pela receita
Permeâmetro a permeabilidade ao ar do provete já compactado
Máquina de três pancadas a compactação do provete e a sua resistência à rotura
Máquina de compactibilidade a redução de altura ao compactar a areia ainda solta

Como funciona cada equipamento

O permeâmetro força uma quantidade fixa de ar através do provete e mede o tempo ou a pressão necessários: quanto mais depressa o ar passa, maior a permeabilidade. A máquina de três pancadas compacta o provete e, muitas vezes acoplada a um dispositivo de rotura, mede também a resistência à compressão do provete húmido. A máquina de compactibilidade enche um recipiente com areia solta, mede a altura inicial, compacta com golpes normalizados e mede a nova altura: a diferença, em percentagem, é a compactibilidade da mistura.

⚠️ A compactibilidade avalia-se sobre areia solta, antes de moldar; a permeabilidade e a resistência avaliam-se sobre o provete já compactado. Confundir estes dois momentos é um erro frequente na interpretação dos resultados.

9. Ensaio de granulometria

A granulometria determina a distribuição do tamanho dos grãos de areia, por peneiração através de uma série de peneiros normalizados, com malhas decrescentes.

Procedimento

  1. Pesar uma amostra seca de areia.
  2. Empilhar os peneiros da malha maior (no topo) para a mais fina (no fundo).
  3. Agitar o conjunto durante um tempo normalizado.
  4. Pesar a areia retida em cada peneiro.
  5. Calcular a percentagem retida em cada malha e o índice de finura da mistura.

O que a granulometria diz sobre o molde

Grão Permeabilidade Acabamento superficial
Fino menor melhor
Grosso maior mais grosseiro

Quanto ao formato do grão: grãos arredondados compactam melhor e precisam de menos aglomerante; grãos angulares compactam pior e exigem mais aglomerante, ainda que por vezes ofereçam maior resistência entre partículas. Aplicar corretamente o procedimento de determinação da granulometria é uma aptidão explícita do referencial.

10. Perdas por ignição, matérias voláteis e bentonite ativa

Perdas por ignição

O ensaio de perdas por ignição (perda ao fogo) mede a percentagem de matéria que se queima quando a amostra é aquecida a alta temperatura.

  1. Pesar a amostra seca (massa inicial).
  2. Aquecer num forno a temperatura normalizada, até peso constante.
  3. Arrefecer completamente e pesar de novo (massa final).
  4. Calcular a percentagem de perda: (massa inicial − massa final) / massa inicial × 100.

Exemplo resolvido · Calcular a perda por ignição

Uma amostra de areia pesa 50,0 g antes do ensaio. Depois de aquecida e arrefecida, pesa 48,5 g.

Resolução: perda = (50,0 − 48,5) / 50,0 × 100 = 1,5 / 50,0 × 100 = 3,0%. Um valor elevado de perdas por ignição indica excesso de matéria combustível na mistura (pó de carvão, resina residual), o que pode gerar mais gás durante o vazamento do metal.

Matérias voláteis

As matérias voláteis libertam-se a temperaturas mais baixas, antes da combustão completa. São gases potenciais durante o vazamento; em excesso, aumentam o risco de defeitos gasosos na peça.

Bentonite ativa

A bentonite ativa mede quanta bentonite da mistura ainda está capaz de ligar os grãos, tipicamente por um ensaio de adsorção (azul de metileno). A bentonite degrada-se com os ciclos sucessivos de calor da fundição, tornando-se inativa ("morta"). Uma areia muitas vezes reciclada precisa, por isso, de reposição de bentonite ativa para manter a resistência do molde. O valor de bentonite ativa relaciona-se diretamente com a resistência que depois se mede na máquina de três pancadas.

11. Propriedades físicas, químicas e defeitos de fundição

Todos os ensaios anteriores convergem nestas propriedades:

Propriedade O que garante
Permeabilidade saída dos gases gerados no vazamento
Resistência (compressão, corte, tração) o molde aguenta o peso e a pressão do metal líquido
Compactibilidade previsibilidade da compactação na moldação
Refratariedade o molde não se deforma nem se vitrifica com o calor
Teor de humidade equilíbrio entre ligação e risco de gás

Relacionar estas propriedades físicas com a qualidade da peça obtida é um critério de desempenho central desta UC.

Exemplo resolvido · Da propriedade ao defeito de fundição

Um lote de peças de ferro fundido apresenta sopros (bolhas de gás junto à superfície).

  1. Hipótese: excesso de gás gerado durante o vazamento.
  2. Ensaios a rever: permeabilidade, teor de humidade, matérias voláteis.
  3. Resultado: o permeâmetro confirma permeabilidade abaixo do valor de referência e a humidade está acima do normal.
  4. Ação corretiva: reduzir ligeiramente a água da mistura e verificar se a granulometria não está demasiado fina para a peça em causa.

Resolução: o raciocínio central da UC é sempre este, relacionar o defeito observado na peça com a propriedade da areia que provavelmente falhou, confirmar por ensaio e só depois corrigir. Outro defeito típico, o molde desmoronar-se antes do vazamento, aponta antes para baixa resistência ou baixa compactibilidade, não para permeabilidade.

12. Registo, análise de resultados e ações corretivas

Registar e analisar os resultados dos ensaios é a quarta realização desta UC, e fecha o ciclo iniciado na amostragem.

Propor ações corretivas

  1. Identificar qual propriedade está fora do valor de referência.
  2. Relacionar essa propriedade com o constituinte que mais a influencia (água, bentonite, granulometria).
  3. Propor um ajuste único e mensurável (por exemplo, reduzir 1% de água).
  4. Reensaiar depois do ajuste, para confirmar que o problema foi resolvido.

O ajuste deve ser feito um de cada vez: só assim se pode atribuir a melhoria (ou a falta dela) à causa certa.

13. Reciclagem das areias de fundição

Depois de vazada e arrefecida a peça, a areia do molde é desmoldada e pode, em grande parte, regressar ao processo.

Etapas típicas da recuperação

  1. Desmoldação: separar a areia da peça já solidificada.
  2. Arrefecimento: baixar a temperatura da areia antes de manusear.
  3. Remoção de finos e impurezas: por peneiração ou recuperação pneumática, mecânica ou térmica.
  4. Reposição de aglomerante e água (ou resina e catalisador, consoante o tipo de areia).
  5. Novo ensaio das propriedades, antes de reintroduzir a areia na produção.

A reciclagem reduz o custo de matéria-prima e o volume de resíduos a tratar, mas tem um limite: a bentonite degrada-se e a areia perde qualidade progressivamente ao longo dos ciclos, exigindo renovação parcial. Prever a reciclagem e o tratamento das areias é uma aptidão explícita desta UC.

14. Segurança, EPI, resíduos, ambiente e qualidade

Cumprir as normas de segurança, saúde no trabalho, proteção individual, gestão de resíduos, proteção ambiental e qualidade é o último critério de desempenho desta UC, e atravessa todas as fases anteriores.

Riscos e equipamento de proteção individual

Resíduos, ambiente e qualidade

Erros comuns

Glossário

Síntese

O trabalho do técnico de fundição sobre areias segue sempre a mesma ordem: conhecer os tipos e constituintes (moldação, macho, verde, autosecativa) → preparar a amostraexecutar o provete normalizadorealizar os ensaios nos equipamentos certos (balança, permeâmetro, máquina de três pancadas, máquina de compactibilidade) para determinar granulometria, perdas por ignição, matérias voláteis e bentonite ativa → registar e analisar os resultados, relacionando-os com defeitos de fundição → propor ações corretivas e reensaiar → prever a reciclagem das areias → cumprir sempre as normas de segurança, resíduos, ambiente e qualidade. Domina este ciclo e serás capaz de garantir a qualidade de qualquer mistura de areia de fundição.

Exercícios resolvidos

1. Distingue areia de moldação de areia de macho, e diz qual usa quase sempre aglomerante químico.

Resolução: a areia de moldação forma o corpo do molde à volta do modelo; a areia de macho forma as cavidades e furos internos da peça. A areia de macho, por ficar rodeada de metal líquido por quase todos os lados e precisar de maior resistência e refratariedade, usa quase sempre aglomerante químico (resina).

2. Uma amostra de areia pesa 40,0 g antes do ensaio de perdas por ignição e 38,8 g depois de aquecida e arrefecida. Calcula a perda por ignição.

Resolução: perda = (40,0 − 38,8) / 40,0 × 100 = 1,2 / 40,0 × 100 = 3,0%.

3. Que equipamento usarias para medir se o ar consegue passar através de um provete já compactado?

Resolução: o permeâmetro, que força uma quantidade fixa de ar através do provete e mede o tempo ou a pressão necessários para o atravessar.

4. Um lote de moldes desmorona-se antes do vazamento. Que propriedades da areia suspeitarias primeiro, e que ação corretiva proporias?

Resolução: suspeitar primeiro de baixa resistência ou baixa compactibilidade da mistura, muitas vezes ligadas a pouca bentonite ativa. Ação corretiva: medir a bentonite ativa, repor a quantidade em falta, reensaiar o provete na máquina de três pancadas e confirmar a resistência antes de voltar a usar a mistura em produção.

5. Porque é que a areia reciclada precisa de reposição de bentonite ativa, mesmo sem se adicionar areia nova?

Resolução: porque a bentonite degrada-se com o calor de cada ciclo de fundição, tornando-se progressivamente inativa ("morta"). Mesmo que a quantidade total de areia se mantenha, a fração de bentonite ainda capaz de ligar os grãos diminui a cada ciclo, sendo necessário repor bentonite ativa para manter a resistência do molde.