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UC · Unidade de Competência · UC04889

Sebenta · Executar peças de mobiliário em ferro forjado (UC04889)

Do desenho técnico à peça acabada: tipos de ferro, forjas, forjamento a quente e a frio, moldagem, soldadura, montagem e acabamento
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Artesão/ã das Artes do ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta acompanha o percurso completo de quem produz mobiliário em ferro forjado: mesas, cadeiras, bancos, candeeiros e outras peças que combinam robustez estrutural com valor estético. O ferro forjado tem tradição de séculos, mas continua muito procurado hoje em oficinas e ateliês, galerias de arte, estúdios de design e arquitetura, espaços públicos e feiras de artesanato.

O processo aprende-se por etapas, e cada etapa tem os seus próprios critérios de qualidade: interpretar o desenho técnico, preparar materiais e ferramentas, forjar a peça (a quente e a frio, com moldes e matrizes) e, por fim, montar e acabar a peça, com soldadura, lixamento, polimento, pintura e proteção contra corrosão. Em todas as etapas aplicam-se normas de segurança, saúde no trabalho e qualidade.

Objetivos de aprendizagem (referencial): interpretar desenhos técnicos de peças de mobiliário em ferro forjado; preparar materiais e ferramentas; forjar peças de mobiliário aplicando técnicas de forjamento a quente e a frio, moldagem, moldes e matrizes; montar e realizar o acabamento das peças forjadas, incluindo soldadura, lixamento, polimento, pintura, revestimento e proteção contra corrosão, sempre em conformidade com as normas de segurança e de qualidade.

1. O ofício do forjador de mobiliário

Chama-se ferro forjado às peças de ferro trabalhadas à forja, isto é, aquecidas e deformadas no estado sólido com martelo, bigorna e ferramentas, por oposição às peças fundidas (metal vazado em estado líquido num molde) e às peças laminadas ou estampadas em série na indústria. No mobiliário, o ferro forjado combina uma estrutura funcional (a peça tem de suportar peso e uso) com um valor decorativo (volutas, torções, motivos vegetalistas) que a distingue do mobiliário puramente industrial.

Trabalha em oficinas e ateliês (encomendas, catálogo, peças à medida), para galerias e exposições (peças de autor), com estúdios de design e arquitetura (mobiliário integrado num projeto), para espaços públicos e parques (bancos e elementos urbanos sujeitos a uso intensivo, vandalismo e intempérie) e em feiras de artesanato (peças pequenas, venda direta). O saber técnico é o mesmo; mudam a escala, a personalização e as exigências de durabilidade.

2. Tipos de ferro e a sua escolha

Não existe "um só ferro": o teor de carbono e a estrutura interna do material determinam se uma peça se forja com facilidade, se solda bem e se aceita tratamento térmico.

Propriedades a considerar

Material Teor de carbono (aproximado) Comportamento na forja
Ferro forjado histórico (pudelado) muito baixo, com fibras de escória forjava-se e caldeava-se muito bem; já não se produz industrialmente, só aparece em peças antigas e em recuperação
Aço macio / ferro doce (ex.: S235JR) baixo (no S235JR, no máximo cerca de 0,17% até 16 mm de espessura) muito maleável a quente, solda bem, não ganha dureza útil com têmpera; é o material corrente do mobiliário forjado atual
Aço de médio carbono cerca de 0,3 a 0,6% mais duro e resistente, menos maleável; aceita têmpera; usado em ferramentas de forja (punções, talhadeiras), não em estruturas de mobiliário
Aço de alto carbono acima de cerca de 0,6% duro e resistente ao desgaste, exige controlo apertado da temperatura; difícil de soldar
Ferro fundido cerca de 2 a 4% frágil; não se forja, parte em vez de deformar

Três propriedades orientam a escolha: a maleabilidade (mudar de forma sob o martelo sem fissurar, máxima no aço macio a quente), a soldabilidade (nos aços de mais carbono a zona soldada pode endurecer e fissurar) e a resposta ao tratamento térmico: a têmpera (aquecer e arrefecer bruscamente para endurecer) só faz sentido em aço de médio ou alto carbono; no aço macio o efeito é desprezável, por isso o mobiliário não se tempera.

O "ferro" que se compra hoje

O ferro forjado histórico, obtido por pudelagem e com fibras de escória no interior, deixou de ser fabricado em escala industrial no século XX. O que hoje se chama "ferro" na oficina é, quase sempre, aço macio de construção, fornecido laminado a quente segundo a norma EN 10025-2 (designações S235JR, S275JR). Na prática do ofício diz-se "ferro doce" ou "ferro forjado", mas o material é aço de baixo carbono. É este o tipo de ferro adequado à generalidade das peças de mobiliário: deforma-se bem a quente, solda-se com facilidade e mantém boa resistência mecânica depois de trabalhado.

Ao receber material, confirma-se:

Formatos disponíveis

As barras laminadas vendem-se habitualmente em comprimentos de 6 m, ao quilo ou ao metro, o que torna importante saber calcular massas e comprimentos (ver capítulo 5).

Porque se escolhe uma secção e não outra

Para a mesma medida nominal (lado do quadrado igual ao diâmetro do redondo), a barra quadrada tem cerca de 27% mais secção (a razão entre as áreas é 4/π) e é cerca de 1,7 vezes mais rígida à flexão. As faces planas facilitam a traçagem, o esquadro e a soldadura de travessas. Por isso se prefere o quadrado nos pés de mesas e bancos. Nas peças que trabalham à flexão, como os suportes de assento, a forma da secção conta mais do que a quantidade de material: uma barra plana deitada dobra com facilidade, a mesma barra ao alto é muito mais rígida, e uma cantoneira junta as duas vantagens (aba horizontal para apoiar, aba vertical para dar rigidez).

Exemplo resolvido · Escolher o material para um banco de jardim

Um banco de jardim exterior precisa de pés robustos, de um apoio para ripas de madeira e de um toque decorativo. Análise da escolha:

  1. Pés: barra quadrada de 20 mm, rígida à flexão e fácil de esquadrar e soldar.
  2. Suporte do assento: cantoneira 40x40x4 mm, com a aba horizontal por cima para aparafusar as ripas e a aba vertical a dar rigidez; uma barra plana 40x8 deitada seria mais de 20 vezes menos rígida à flexão.
  3. Travessas de ligação: barra quadrada, que triangula e impede que a estrutura "abra" quando alguém se senta ou se levanta.
  4. Elemento decorativo: voluta em barra quadrada de 12 mm, que se enrola bem na forja escolar.
  5. Tipo de ferro: aço macio S235JR em toda a estrutura, por forjar e soldar bem; nenhuma peça galvanizada entra na forja.
  6. Acabamento previsto: sistema de proteção para exterior (ver capítulo 10), não cera.

3. Ler e interpretar desenhos técnicos

Antes de qualquer trabalho na forja, o forjador interpreta o desenho técnico da peça de mobiliário. É o primeiro critério de desempenho avaliado nesta UC: interpretar corretamente os desenhos, assegurando que todas as dimensões, especificações e detalhes do projeto sejam aplicados com precisão durante a execução.

O que contém um desenho técnico de mobiliário forjado

Método de leitura

  1. Identificar todos os componentes da peça (pés, travessas, tampo, ligações, elementos decorativos).
  2. Confirmar dimensões e ângulos de cada componente, comparando vistas diferentes entre si.
  3. Verificar as especificações de material indicadas (tipo de ferro, secção).
  4. Somar a cadeia de cotas: as alturas de componentes empilhados (sapata, pé, suporte, tampo ou assento) têm de dar a cota total do desenho.
  5. Planear a sequência de fabrico: que componentes se forjam primeiro, que ligações se soldam depois, que elementos decorativos se acrescentam por último.
  6. Confirmar os acabamentos previstos (pintura, verniz, cera) e o ambiente de utilização da peça (interior ou exterior).

Dimensões de referência e ergonomia

O desenho técnico manda, mas o forjador deve reconhecer uma cota que não serve o corpo humano e questioná-la antes de forjar. Valores de referência correntes em mobiliário para adultos:

Peça Cota de referência
Altura do assento de cadeira cerca de 430 a 460 mm
Altura do assento de banco de exterior cerca de 400 a 450 mm
Profundidade útil do assento cerca de 400 a 450 mm
Largura de assento por pessoa num banco cerca de 550 a 600 mm
Altura de mesa de refeição ou trabalho cerca de 720 a 760 mm
Diferença entre assento e tampo da mesa cerca de 270 a 300 mm
Altura de mesa de centro cerca de 400 a 450 mm
Inclinação do encosto em relação ao assento cerca de 100 a 110°

As cotas medem-se até à superfície de uso: a altura do assento é a do topo das ripas, não a do topo da estrutura metálica; a altura da mesa é a do topo do tampo. Por isso a cadeia de cotas é tão importante.

Estabilidade

Uma peça de mobiliário é estável quando o peso (da peça e de quem a usa) cai sempre dentro do polígono de apoio, a figura formada pelos pontos onde os pés tocam o chão.

Exemplo resolvido · Interpretar o desenho de um pé de mesa com voluta

Desenho técnico: barra redonda Ø16 mm; altura do pé 710 mm, voluta incluída; tampo de 30 mm assente no topo dos pés; voluta com duas voltas e diâmetro exterior de 80 mm (medido pela linha média) no topo do pé, enrolada para fora, a servir de consola sob o tampo; travessa soldada a 150 mm da base.

  1. Componente: pé de mesa em redondo de 16 mm, aço macio.
  2. Cadeia de cotas: 710 mm de pé + 30 mm de tampo = 740 mm de altura da mesa, dentro do intervalo de referência para mesa de refeição.
  3. Comprimento de material para a voluta (ver capítulo 5): cerca de π x 2 x (80 + 20) / 2 ≈ 314 mm, admitindo que a espiral começa num diâmetro interior de 20 mm.
  4. Sequência: forjar a voluta primeiro, com a barra ainda comprida (o excedente serve de pega); depois cortar ao comprimento; por fim soldar a travessa a 150 mm da base.
  5. Verificação: comparar a voluta com o desenho à escala 1:1 (usado como gabarito), confirmar a altura total com fita métrica ou régua de aço e o prumo com esquadro.

4. Ferramentas manuais e equipamentos de forja

Ferramentas manuais

Ferramenta Função
Martelos de forja dar forma ao ferro incandescente; o martelo de pena (cabeça com uma face plana e uma pena em cunha) de cerca de 1 a 1,5 kg é o mais usado
Marretas golpes de maior força, a duas mãos, geralmente dados por um ajudante sobre uma ferramenta segurada pelo forjador
Bigorna apoio para martelar: mesa (face plana endurecida), bico ou corno (cónico, para curvar), furo quadrado (encaixe de ferramentas de bigorna) e furo redondo (para puncionar e furar por cima do vazio)
Tenazes seguram o ferro quente; a boca tem de corresponder à secção (plana, quadrada, redonda), senão a peça roda ou salta
Torno de bancada fixa peças durante o trabalho de bancada e nas torções

Ferramentas complementares de forja:

Preparar as ferramentas manuais faz parte da aptidão desta UC: cabos de martelo bem encunhados e sem fissuras, faces sem rebarbas ("cogumelos" nas cabeças de punções e talhadeiras rebarbam e projetam lascas), tenazes com a boca ajustada à peça do dia e bigorna firme sobre um cepo à altura correta (a mesa da bigorna à altura do nó dos dedos com o braço estendido ao longo do corpo).

Ferramentas de medição, traçagem, corte e fixação

Paquímetros, micrómetros, réguas de aço e fitas métricas medem; riscadores, compassos, esquadros e punção de marcar traçam (capítulo 6); serras manuais e elétricas, tesouras de corte para metal e rebarbadora cortam; grampos, alicates de pressão, torno de bancada, dispositivos de fixação e gabaritos de montagem seguram a peça na posição certa durante a forja e a soldadura.

Equipamentos de forja

A escolha entre carvão, gás e eletricidade depende da tradição da oficina, do volume de produção e do investimento disponível. Todas exigem boa ventilação, porque a combustão produz monóxido de carbono (ver capítulo 11).

5. Preparar materiais e ferramentas

A segunda realização desta UC é preparar materiais e ferramentas, etapa indispensável antes de qualquer aquecimento.

Sequência de preparação

  1. Confirmar as dimensões e o tipo de ferro indicados no desenho técnico.
  2. Fazer a lista de corte: comprimento de cada peça, incluindo o material para dobras e volutas.
  3. Selecionar as barras e chapas corretas no stock (formato e secção conforme especificado) e cortá-las, identificando cada troço.
  4. Verificar o estado das ferramentas manuais: martelos, tenazes e bigornas limpos, sem folgas nem danos.
  5. Preparar e acender a forja, com a ventilação da oficina ligada.
  6. Reunir os equipamentos de proteção individual (EPI) necessários para a tarefa.
  7. Organizar o posto de trabalho: área livre de obstáculos e materiais inflamáveis, iluminação suficiente, balde de água para as tenazes, ferramentas de traçagem acessíveis.

Calcular massa e comprimento de material

A massa de uma barra calcula-se pela secção vezes o comprimento vezes a densidade do aço, cerca de 7850 kg/m³.

Secção Área Massa por metro
Quadrado 12 mm 0,012 x 0,012 = 0,000144 m² 0,000144 x 7850 ≈ 1,13 kg/m
Quadrado 20 mm 0,0004 m² ≈ 3,14 kg/m
Redondo Ø16 mm π x 0,008² ≈ 0,000201 m² ≈ 1,58 kg/m
Plana 30x8 mm 0,00024 m² ≈ 1,88 kg/m

O comprimento desenvolvido de uma peça dobrada mede-se pela linha média da secção, que é a que não estica nem encolhe ao dobrar (o lado de fora estica, o de dentro encolhe).

Na forja o material também se perde e se desloca: a carepa (óxido que salta da superfície) come material a cada aquecimento, a afinação de uma ponta alonga a barra e o recalque encurta-a. Por isso se faz uma peça de ensaio: marca-se a barra com punção a intervalos conhecidos, forja-se a primeira peça e mede-se quanto material consumiu. As peças seguintes cortam-se com esse valor.

Exemplo resolvido · Lista de corte de um suporte em L

Um suporte em L, em barra quadrada de 20 mm, tem lados exteriores de 300 mm e 200 mm e uma dobra a 90° com raio interior de 20 mm.

  1. Raio da linha média: 20 + 20/2 = 30 mm.
  2. Arco da dobra: π/2 x 30 ≈ 47,1 mm.
  3. Troços retos: cada lado exterior perde o raio interior mais a espessura, 20 + 20 = 40 mm. Ficam 300 - 40 = 260 mm e 200 - 40 = 160 mm.
  4. Comprimento desenvolvido: 260 + 160 + 47,1 ≈ 467 mm.
  5. Massa: 0,467 m x 3,14 kg/m ≈ 1,47 kg.

Uma dobra a quente em canto vivo (sem raio) comporta-se de outra maneira, porque o forjador recalca o canto antes de dobrar; nesse caso vale a medida tirada na peça de ensaio.

Preparar e operar a forja a carvão

  1. Limpar o fogão da forja: retirar o clínquer (escória vítrea do carvão) e a cinza, desobstruir o algaraviz (a entrada de ar no fundo).
  2. Acender papel e lenha miúda sobre o algaraviz com pouco ar; cobrir com carvão de forja humedecido à volta, que coqueifica e forma o coração do fogo.
  3. Aquecer a peça dentro do coração do fogo, coberta de brasas, e não diretamente à frente da entrada de ar (zona com excesso de ar, que oxida o ferro e aumenta a carepa).
  4. Controlar a temperatura pelo ar: mais ar, mais calor. Manter o fogo compacto, acrescentando carvão pela periferia.
  5. No fim, cortar o ar e deixar o fogo apagar-se sob vigilância, sem brasas ao abandono.

Preparar e operar a forja a gás

  1. Verificar mangueira, regulador e ligações; procurar fugas com água e sabão, nunca com chama. O propano é mais pesado do que o ar e acumula-se junto ao chão.
  2. Garrafa na vertical, afastada da forja e protegida do calor.
  3. Acender com a chama de ignição já pronta na boca da forja e só então abrir o gás, sem deixar acumular gás na câmara.
  4. Regular a pressão e o ar para uma chama estável; uma mistura ligeiramente rica em gás reduz a carepa, mas produz mais monóxido de carbono, por isso a ventilação é indispensável.
  5. Para desligar: fechar primeiro a válvula da garrafa, deixar queimar o gás que ficou na mangueira e só depois fechar o regulador.

Uma preparação incompleta obriga a interromper o forjamento com o ferro quente e a reaquecer: perde-se tempo e combustível, e cada aquecimento extra aumenta a carepa e o risco de queimar o material.

6. Traçagem e processos de aquecimento

Técnicas de traçagem no ferro

Traçar é marcar no ferro, antes de cortar ou dobrar, as linhas e pontos que orientam a execução:

Boas práticas: traçar sempre com a peça fixa (torno de bancada ou grampos), confirmar cada medida duas vezes antes de cortar (um corte não se desfaz) e manter as ferramentas de traçagem afiadas e calibradas. Nas peças repetidas (os quatro pés de uma mesa), traçam-se todas juntas, lado a lado, para que as marcas fiquem alinhadas.

Processos de aquecimento

O aço muda de cor à medida que aquece, e essa cor indica a temperatura aproximada. As cores dependem muito da luz: à luz do sol o ferro parece mais frio do que está, por isso se forja à sombra ou com luz controlada.

Cor do aço macio Temperatura aproximada Uso
Vermelho escuro cerca de 650 a 750 °C limite inferior: deixar de martelar e reaquecer
Vermelho cereja cerca de 800 a 900 °C trabalho ligeiro, acertos finais, assentar e aplanar
Laranja cerca de 950 a 1050 °C dobrar, torcer, enrolar volutas
Amarelo cerca de 1100 a 1200 °C estirar, recalcar, puncionar: deformação forte
Amarelo-esbranquiçado, quase branco cerca de 1250 a 1300 °C caldeamento, com fundente; acima disto o aço queima

Exemplo resolvido · Ler a cor certa antes de martelar

Um aluno retira uma barra da forja já escurecida (a arrefecer) e começa a martelar para estirar a ponta. O que está errado e como corrigir:

  1. Diagnóstico: a barra está abaixo do vermelho escuro, fora da gama de trabalho; resiste ao martelo em vez de deformar.
  2. Risco: martelar abaixo do vermelho escuro pode fissurar o material, deixa marcas duras de martelo e desgasta a ferramenta sem produzir a deformação desejada.
  3. Correção: devolver a peça à forja e reaquecer até ao amarelo, a cor indicada para estirar.
  4. Prevenção: observar continuamente a cor, trabalhar em séries curtas de golpes e voltar à forja ao chegar ao vermelho, antes de o ferro "morrer".

7. Forjamento a quente

A terceira realização desta UC, forjar peças de mobiliário, começa pelo forjamento a quente: dar forma ao ferro incandescente por martelamento, dobragem e torção.

Operações de martelamento

Operação O que faz Como
Estirar (adelgaçar) alonga a barra e reduz a secção golpes sobre a mesa ou o bico, rodando a peça 90° entre séries; em redondo, passar por quadrado e octógono antes de voltar ao redondo
Afinar faz uma ponta cónica ou em pirâmide estirar progressivamente para a extremidade
Recalcar (encalcar) engrossa uma zona e encurta a barra aquecer só essa zona e martelar de topo, ou bater a barra na bigorna
Degolar marca um estrangulamento que define um ombro degoladeiras superior e inferior
Fender abre a barra ao comprido talhadeira a quente, sobre uma placa de sacrifício para não danificar a mesa
Puncionar abre furos sem arrancar material punção a quente, terminar por cima do furo redondo da bigorna
Assentar (aplanar) alisa e acerta faces golpes leves e sobrepostos, ao vermelho cereja

Dobragem

Dobrar é curvar a barra em torno de um ponto, do bico da bigorna, de um garfo de dobrar ou de um molde. A dobra faz-se no sítio certo aquecendo só esse troço, ou arrefecendo com água a parte que não deve dobrar. O lado de fora da dobra estica e adelgaça; o de dentro engrossa. Uma dobra em canto vivo exige recalcar o canto antes de dobrar, para não ficar mais fino do que o resto.

Torção

Torcer é rodar a barra sobre o próprio eixo, a quente, criando o efeito de espiral típico do mobiliário em ferro forjado. Só se vê em barras com arestas (quadrado, plano); a torção encurta ligeiramente o troço torcido, pelo que a barra se corta com margem e se acerta depois. A regularidade depende de aquecer o troço todo à mesma cor: onde está mais quente, torce mais.

Exemplo resolvido · Voluta decorativa num pé de mesa

Sequência de forjamento a quente de uma voluta numa barra redonda:

  1. Aquecer a extremidade da barra ao amarelo.
  2. Afinar a ponta, reduzindo a secção gradualmente numa extensão de 3 a 4 vezes a espessura, para que a voluta comece fina e engrosse.
  3. Enrolar o arranque (o "olho" da voluta) sobre o bico ou a aresta da bigorna, ao laranja.
  4. Continuar o enrolamento sobre um molde de voluta ou com o garfo de dobrar, reaquecendo sempre que a cor desça ao vermelho.
  5. Verificar a voluta sobre o desenho 1:1 e, se for o caso, com as restantes volutas do mesmo conjunto (por exemplo, os quatro pés de uma mesa); acertar ao vermelho cereja.

O resultado deve corresponder ao diâmetro e ao número de voltas especificados no desenho técnico.

Exemplo resolvido · Torção decorativa de uma barra

Sequência para torcer uma barra quadrada de 12 mm, criando um troço em espiral de 200 mm:

  1. Marcar com punção os dois limites do troço a torcer.
  2. Aquecer o troço ao laranja, de forma uniforme em todo o comprimento; arrefecer rapidamente com água um ou dois centímetros para lá de cada marca, para confinar a torção.
  3. Prender uma extremidade no torno de bancada, com o limite do troço junto às mordentes, e a outra numa chave de torção.
  4. Rodar de forma contínua e uniforme, sem paragens a meio, contando as voltas (ex.: duas voltas completas); acertar o alinhamento da barra antes de arrefecer, rolando-a sobre a mesa da bigorna com golpes leves de madeira ou latão.
  5. Verificar o passo da espiral (deve ser constante) e medir o encurtamento, para corrigir o corte das barras seguintes.
  6. Deixar arrefecer ao ar, num local sinalizado.

8. Forjamento a frio, moldagem e matrizes

Técnicas de forjamento a frio

O forjamento a frio dá forma ao aço sem aquecimento, recorrendo a força mecânica:

A frio, o aço encrua: fica mais duro e menos dúctil a cada deformação. Por isso as deformações a frio são limitadas, há um raio mínimo de dobragem abaixo do qual a face exterior fissura, e a peça tem retorno elástico (volta um pouco atrás quando se liberta a força), o que obriga a dobrar ligeiramente para além do ângulo pretendido. Secções grossas dobram-se a quente.

Critério Forjamento a quente Forjamento a frio
Deformação possível grande: estirar, recalcar, dobras apertadas limitada: dobras de raio moderado, volutas, estampagem ligeira
Força necessária baixa, o aço quente cede elevada, exige prensa ou ferramenta com alavanca
Repetibilidade entre peças depende da destreza do forjador elevada, com ferramenta mecânica
Efeito no material não encrua encrua; retorno elástico
Riscos principais queimaduras, fumos, monóxido de carbono esmagamento de mãos na prensa ou na dobradora

Moldagem, moldes e matrizes

Moldar uma peça de ferro forjado é dar-lhe uma forma definida e repetível, sempre no estado sólido. Não confundir com fundição: o ferro nunca passa a líquido.

Exemplo resolvido · Produzir quatro folhas decorativas iguais com matriz

Um espelho de mobiliário precisa de quatro folhas decorativas idênticas nos cantos:

  1. Selecionar a matriz correspondente ao motivo de folha do desenho técnico e fixá-la no furo quadrado da bigorna.
  2. Preparar quatro troços de chapa ou barra com o mesmo volume de material (mesma secção e comprimento).
  3. Aquecer o primeiro troço ao amarelo e posicioná-lo sobre a matriz; aplicar o martelamento ou a estampa superior.
  4. Verificar a fidelidade do motivo obtido, comparando com o desenho e com as folhas anteriores.
  5. Limpar a carepa da matriz entre repetições, para não distorcer o motivo seguinte.
  6. Repetir para as quatro folhas, com a mesma cor de aquecimento e o mesmo número de golpes.

Moldes e matrizes bem conservados, sem folgas nem desgaste, são essenciais para a consistência do resultado entre peças.

9. Soldadura e montagem de estruturas

Técnicas de soldadura para união de perfilados

A quarta realização desta UC, montar e realizar o acabamento das peças forjadas, começa muitas vezes pela soldadura dos componentes:

Cuidados na soldadura:

Métodos de montagem de perfilados

Depois de forjados os componentes, a montagem organiza-os na estrutura final:

Para estruturas complexas monta-se sobre uma mesa plana (de preferência de aço, com furos para grampos), usando gabaritos e batentes que seguram cada peça na posição do desenho. O esquadro de um quadro retangular confirma-se medindo as duas diagonais: se forem iguais, os cantos estão a 90°.

Exemplo resolvido · Montar a estrutura de uma mesa

Sequência de montagem de uma mesa com quatro pés forjados, travessas e tampo:

  1. Montar as duas cabeceiras (dois pés e uma travessa cada) sobre a mesa plana, fixas com grampos contra batentes; pontear.
  2. Medir as diagonais de cada cabeceira; se forem diferentes, corrigir antes de soldar.
  3. Colocar as cabeceiras de pé, ligar com as travessas longitudinais e pontear; verificar diagonais do conjunto e prumo dos pés.
  4. Soldar em contínuo, alternando os lados.
  5. Verificar sobre a mesa plana que os quatro pés tocam em simultâneo (sem balanço) e confirmar altura, largura e profundidade contra o desenho técnico, incluindo a cadeia de cotas com o tampo.
  6. Retirar rebarbas e arestas vivas nas juntas; só depois montar o suporte do tampo.

Uma estrutura instável não se corrige no acabamento: o problema tem de ser resolvido nesta fase.

10. Acabamento e proteção contra corrosão

Lixamento e polimento

Planeia-se o lixamento por zonas: acabamento impecável nas visíveis, função nas escondidas.

Preparação da superfície

A durabilidade de qualquer revestimento depende sobretudo da preparação. A norma EN ISO 8501-1 define graus de limpeza: St 2 e St 3 para limpeza manual e mecânica (escova, disco), Sa 2½ para decapagem por projeção abrasiva. A projeção faz-se com granalha ou abrasivos minerais isentos de sílica; a areia siliciosa não se usa, pelo risco de silicose. Depois da limpeza: desengordurar e aplicar o primário no mesmo dia, antes de a superfície voltar a oxidar.

Pintura, revestimento e proteção contra corrosão

Sistema Onde se usa Notas
Cera (de abelha ou microcristalina) aplicada a morno interior seco acabamento tradicional, escuro e acetinado; proteção ligeira, a renovar
Óleo (ex.: linhaça) interior penetra e escurece; os panos com óleo secativo podem autoinflamar-se: estendem-se abertos a secar ou guardam-se em recipiente metálico fechado
Verniz para metal interior, exterior abrigado película transparente que mantém o aspeto do metal
Primário anticorrosivo + tinta de acabamento exterior sistema corrente de oficina; espessura e número de demãos segundo a ficha técnica do produto
Galvanização por imersão a quente (EN ISO 1461) + pintura (sistema duplex) espaço público, zonas costeiras a peça, já soldada e acabada, é mergulhada em zinco fundido a cerca de 450 °C; não é um processo eletroquímico. Depois de galvanizada, a peça nunca volta à forja nem se solda sem remover o zinco
Lacagem a pó (pintura eletrostática) exterior e interior acabamento duro e uniforme, cozido em estufa; sobre peças galvanizadas ou com primário adequado

Para escolher o sistema de pintura de estruturas de aço, a norma EN ISO 12944 classifica a agressividade do ambiente (de C1, interior seco, a C5 e CX, ambientes industriais e marítimos muito agressivos). Um banco num jardim à beira-mar está numa categoria bem mais exigente do que um candeeiro de sala.

A manutenção periódica (limpeza, retoques de tinta, renovação de cera ou óleo) faz parte do sistema e deve ser explicada ao cliente.

Exemplo resolvido · Escolher o acabamento de um candeeiro de interior vs. um banco de exterior

  1. Candeeiro de interior: ambiente seco, sem chuva. Escolha razoável: escovar a carepa, polir arestas, aplicar cera a morno ou verniz; sem primário anticorrosivo pesado.
  2. Banco de exterior: chuva, sol, variações de temperatura, uso intensivo. Escolha necessária: remoção completa da carepa (idealmente decapagem por projeção), primário anticorrosivo e tinta de exterior; em espaço público ou perto do mar, galvanização a quente mais pintura. Manutenção periódica prevista.
  3. Conclusão: o ambiente de utilização, indicado no desenho técnico ou no pedido do cliente, determina o sistema de proteção, não apenas a estética pretendida.

11. Segurança, saúde no trabalho e qualidade

Riscos da forja e medidas de proteção

Risco Onde surge Medidas
Queimaduras ferro quente, tenazes, carepa projetada tratar tudo o que sai da forja como quente; peças a arrefecer num local sinalizado; tenazes arrefecidas no balde
Monóxido de carbono combustão na forja a carvão e a gás exaustão por chaminé ou hotte, oficina ventilada, detetor de CO; dores de cabeça e tonturas são sinais de alarme
Febre dos fumos metálicos aquecer ou soldar aço galvanizado ou zincado nunca aquecer galvanizado na forja; remover o zinco antes de soldar, com aspiração local
Fumos de soldadura SER, MIG/MAG aspiração junto à fonte, máscara respiratória adequada
Projeções e lascas martelamento, cabeças de ferramentas rebarbadas, rebarbadora óculos ou viseira, ferramentas sem rebarbas, resguardos nas máquinas
Ruído martelamento, rebarbadora, corte protetores auriculares
Radiação do arco e do plasma soldadura, corte a plasma máscara de soldar com filtro adequado, cortinas de proteção para quem está perto
Incêndio e explosão brasas, gás, panos com óleo extintor acessível, área limpa de inflamáveis, garrafas de gás protegidas
Esmagamento prensas, dobradoras, peças pesadas mãos fora da zona de trabalho, comandos de segurança, calçado com biqueira

Equipamentos de proteção individual (EPI)

Em Portugal, o quadro geral da segurança e saúde no trabalho é a Lei n.º 102/2009; a utilização de EPI está regulada pelo Decreto-Lei n.º 348/93 e pela Portaria n.º 988/93; os equipamentos de trabalho (prensas, rebarbadoras, soldadura) pelo Decreto-Lei n.º 50/2005; a exposição ao ruído pelo Decreto-Lei n.º 182/2006. Na oficina, estas regras traduzem-se nos procedimentos, na sinalização e no EPI obrigatório de cada posto.

Normas da qualidade

Qualidade, nesta UC, é a peça cumprir o desenho, funcionar em segurança e durar. Na prática:

Exemplo resolvido · Ficha de verificação de um banco

Três linhas de uma ficha de verificação preenchida no fim da montagem:

Característica Pedido Medido Tolerância Resultado
Altura do assento (topo das ripas) 450 mm 452 mm ± 5 mm conforme
Diagonais da cabeceira esquerda iguais 571 e 575 mm diferença ≤ 3 mm não conforme: corrigir antes do acabamento
Assentamento dos quatro pés sem balanço sem balanço · conforme

A não conformidade corrige-se antes do acabamento, quando ainda custa minutos.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Interpretar o desenho com rigor (cadeia de cotas, ergonomia, estabilidade); preparar o material certo (aço macio, nunca galvanizado na forja), a lista de corte e a forja; forjar a quente na cor certa, a frio dentro dos limites do encruamento e com moldes e matrizes; montar e acabar com soldadura controlada, verificação da estabilidade, remoção da carepa e um sistema de proteção adequado ao ambiente. Segurança, saúde no trabalho e qualidade acompanham todas as etapas.

Exercícios resolvidos

1. Um pé de mesa vai suportar carga estrutural significativa. Entre barra quadrada de 20 mm e redonda de Ø20 mm, qual escolhes e porquê?

Resolução: barra quadrada. Para a mesma medida nominal tem cerca de 27% mais secção e é cerca de 1,7 vezes mais rígida à flexão; as faces planas facilitam a traçagem, o esquadro e a soldadura das travessas.

2. Um aluno tenta estirar uma barra já escurecida (a arrefecer). O que está errado?

Resolução: a barra está abaixo do vermelho escuro, fora da gama de trabalho; martelar assim pode fissurar o material em vez de o deformar. Estirar faz-se ao amarelo: a correção é reaquecer antes de continuar.

3. Precisas de quatro folhas decorativas idênticas nos cantos de um espelho de mobiliário. Que técnica garante essa consistência?

Resolução: usar uma matriz com o motivo da folha, partindo de troços com o mesmo volume de material, aquecidos à mesma cor; o ferro é martelado ou prensado sobre a matriz, limpa de carepa entre repetições.

4. Que diferença existe entre soldadura por forjamento e soldadura MIG/MAG?

Resolução: na soldadura por forjamento (caldeamento) as duas peças são aquecidas perto do branco, com fundente, e unidas à martelada; na MIG/MAG o arco elétrico funde localmente as peças e um fio de adição, com proteção gasosa, sem aquecer as peças na forja. A MIG/MAG é mais rápida e reprodutível na união de perfilados.

5. Uma peça de mobiliário forjado vai ficar exposta ao exterior. Que cuidados de acabamento são diferentes dos de uma peça de interior?

Resolução: remoção completa da carepa e preparação rigorosa da superfície, primário anticorrosivo e tinta de exterior (a cera é insuficiente contra a chuva), ou galvanização a quente mais pintura em ambiente agressivo, e manutenção periódica prevista.

6. Quanto pesam 2,4 m de barra quadrada de 20 mm?

Resolução: área = 0,02 x 0,02 = 0,0004 m²; massa por metro = 0,0004 x 7850 = 3,14 kg/m; massa = 2,4 x 3,14 ≈ 7,54 kg.

7. Um banco tem ripas de 30 mm assentes numa cantoneira com aba de 4 mm, e os pés levam sapatas de chapa de 6 mm. Para um assento a 450 mm do chão, que comprimento têm os pés?

Resolução: 450 - 30 - 4 - 6 = 410 mm. As cotas empilhadas somam-se sempre até à superfície de uso, que é o topo das ripas.