Sebenta · Executar peças simples em ferro forjado (UC04886)
- Introdução
- 1. Interpretar desenhos técnicos de peças forjadas
- 2. Tipos de ferro e propriedades
- 3. Ferramentas manuais e equipamentos de forja
- 4. Equipamentos de forja: preparar e operar forjas a carvão e a gás
- 5. Preparar materiais e ferramentas
- 6. Técnicas de traçagem no ferro
- 7. Aquecimento e cor do ferro
- 8. Forjamento: martelamento, dobragem e corte
- 9. Soldadura por forja
- 10. Lixamento, polimento e revestimentos protetores
- 11. Segurança, saúde e EPI
- 12. Normas da qualidade e controlo da peça
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta acompanha o percurso completo de uma peça simples em ferro forjado: desde a interpretação do desenho técnico até ao acabamento final, passando pela escolha do material, pela preparação de ferramentas, pelo aquecimento e martelamento na forja, pela dobragem, pelo corte e pela soldadura tradicional. É um dos ofícios mais antigos do trabalho em metal, e continua a ter procura em oficinas, galerias, arquitetura e mercados de artesanato.
O percurso do artesão das artes do metal segue sempre a mesma lógica: ler o desenho, preparar o material e as ferramentas, forjar a peça e, por fim, realizar o acabamento. Estas quatro etapas são as realizações centrais desta unidade curricular, e cada capítulo desta sebenta liga-se diretamente a uma ou mais delas.
Objetivos de aprendizagem (referencial): interpretar desenhos técnicos e esboços de peças simples em ferro forjado; preparar materiais e ferramentas para a forja; forjar peças através de técnicas de traçagem, aquecimento, martelamento, dobragem, corte e soldadura por forja; e realizar o acabamento das peças forjadas por lixamento, polimento e aplicação de revestimentos protetores, cumprindo sempre as normas de segurança, saúde e qualidade.
Estas quatro etapas repetem-se em qualquer peça, da mais simples à mais elaborada, e é por isso que esta sebenta as trata como o fio condutor de todos os capítulos: primeiro o desenho e o material, depois a forja propriamente dita, e por fim o acabamento que entrega a peça pronta a expor ou a vender. Os dois últimos capítulos (segurança e qualidade) não são uma etapa à parte: aplicam-se a todas as outras.
1. Interpretar desenhos técnicos de peças forjadas
Tudo começa no papel. Um desenho técnico ou esboço de uma peça simples em ferro forjado indica a forma final, as cotas (medidas), os ângulos de dobra, o tipo de secção de ferro a usar e, muitas vezes, o acabamento pretendido.
Ler corretamente este desenho é o primeiro critério de desempenho da UC: interpretar corretamente os desenhos técnicos, assegurando que todas as dimensões, especificações e detalhes do projeto sejam aplicados com precisão durante a execução das peças. Um erro de leitura no início propaga-se a toda a peça, muitas vezes só visível quando já não há forma prática de corrigir sem refazer.
O que procurar num desenho de forja
- Vistas: frente, topo e perfil, para entender a forma em três dimensões a partir de um desenho plano.
- Escala: 1:1 (tamanho real), 1:2, 1:5, 1:10. Em peças de forja é muito útil ter um desenho à escala 1:1, porque se pode pousar a peça quente ao lado (nunca por cima) do desenho traçado a giz numa chapa e comparar diretamente.
- Cotas: comprimentos, diâmetros, espessuras, raios de curvatura e distâncias entre dobras. As cotas prevalecem sempre sobre o que se mede com a régua no papel.
- Secção do ferro: redonda (Ø10), quadrada (□12) ou plana (30x6), indicada normalmente junto à cota principal ou na legenda.
- Tolerâncias: quanto a medida real pode desviar-se da cota (por exemplo, ±2 mm). Numa peça decorativa isolada a tolerância é mais larga; numa peça que encaixa noutra (uma dobradiça, um elemento de grade) é mais apertada.
- Notas de acabamento: se a peça deve ficar polida, pintada, envernizada ou soldada em determinado ponto.
Um esboço é um desenho à mão levantada, com as cotas principais, usado para combinar a ideia com o cliente. Antes de forjar, o esboço deve ser completado com todas as cotas necessárias; se faltar uma, pergunta-se, não se inventa.
Exemplo resolvido: decompor um desenho em tarefas
Desenho: um gancho decorativo em barra redonda de 10 mm, com 250 mm de comprimento, dobrado a 180 graus numa das pontas e com a outra ponta afunilada.
- Cotas: comprimento total 250 mm, diâmetro 10 mm, dobra a 180 graus a 40 mm da ponta.
- Secção: barra redonda de 10 mm, confirmada no desenho.
- Operações: cortar a 250 mm, traçar o ponto de dobra, aquecer, dobrar sobre o corno da bigorna, afunilar a ponta oposta por martelamento, lixar e envernizar.
- Acabamento: verniz de proteção, indicado na legenda do desenho.
Esta decomposição transforma um desenho estático numa sequência de tarefas concretas para a bancada de forja.
Comprimento desenvolvido: quanto ferro cortar
Quando uma peça tem curvas, o comprimento de barra a cortar não é a soma das cotas exteriores. Ao dobrar, o lado de fora da curva estica e o lado de dentro encolhe; só a linha média da secção (o eixo da barra) mantém o comprimento. Por isso, o comprimento desenvolvido calcula-se sempre pela linha média:
- Troço reto: conta a cota do troço.
- Arco de circunferência: comprimento = ângulo em graus ÷ 360 × 2 × π × raio médio, em que raio médio = raio interior + metade da espessura da barra.
- Circunferência completa (argola): comprimento = π × diâmetro médio = π × (diâmetro interior + espessura da barra).
Exemplo resolvido: gancho em redondo de 10 mm. O desenho mostra um troço reto de 150 mm, uma curva de 180 graus com raio interior de 15 mm e uma ponta reta de 25 mm depois da curva.
- Raio médio da curva: 15 + 10 ÷ 2 = 20 mm.
- Meia circunferência: π × 20 = 62,8 mm, arredondado a 63 mm.
- Comprimento desenvolvido: 150 + 63 + 25 = 238 mm.
Se se somassem as cotas exteriores, a barra ficaria com a medida errada e a ponta reta sairia mais curta ou mais comprida do que o desenho pede.
Exemplo resolvido: argola em redondo de 10 mm, com 60 mm de diâmetro interior.
- Diâmetro médio: 60 + 10 = 70 mm.
- Comprimento desenvolvido: π × 70 = 219,9 mm, cerca de 220 mm.
- Como a argola vai ser fechada por soldadura por forja (capítulo 9), acrescenta-se uma margem para recalcar e chanfrar as pontas. Essa margem acerta-se com uma peça de ensaio; se o ensaio da oficina indicar 10 mm, corta-se 230 mm.
Para volutas (espirais), usadas em grades e apliques, o comprimento aproxima-se multiplicando o número de voltas pelo perímetro médio: comprimento ≈ π × n.º de voltas × (diâmetro exterior + diâmetro interior) ÷ 2, com os diâmetros medidos pela linha média. Uma voluta de 2 voltas, com 100 mm por fora e 20 mm no centro, pede cerca de π × 2 × 60 = 377 mm de barra. Na oficina confirma-se o valor passando um arame ao longo da linha média do desenho à escala 1:1 e medindo-o depois de endireitado.
2. Tipos de ferro e propriedades
Na linguagem da oficina diz-se "ferro", mas o material que hoje se forja em quase todas as peças é aço de baixo teor de carbono (aço macio). Conhecer os vários tipos e as suas propriedades permite escolher o material certo para cada peça e evitar materiais que não se forjam ou que são perigosos de aquecer.
Os materiais que se encontram na oficina
| Material | Carbono (aprox.) | Forja-se? | Notas |
|---|---|---|---|
| Ferro pudelado (o "ferro forjado" histórico) | muito baixo, abaixo de 0,1% | sim, muito bem | contém fibras de escória; deixou de ser produzido industrialmente e só aparece em peças antigas ou de recuperação |
| Aço macio de construção (por exemplo S235JR, norma EN 10025-2) | até cerca de 0,2% | sim, é o material corrente | barato, disponível em todos os perfis, caldeia bem e solda-se bem por arco, não ganha dureza com têmpera |
| Aço de médio e alto carbono (aço de ferramentas, de molas) | de 0,4% a mais de 1% | sim, com mais cuidado | gama de temperaturas mais estreita; pode ser temperado; usado em talhadeiras, punções e ferramentas |
| Ferro fundido | 2% a 4% | não | frágil: parte-se ao martelo, a frio ou a quente |
| Aço galvanizado (revestido a zinco) | como o aço de base | nunca na forja | o zinco aquecido liberta fumos tóxicos (ver capítulo 11) |
O designativo S235JR significa aço de construção (S) com tensão de cedência mínima de 235 MPa, ensaiado ao choque à temperatura ambiente (JR). É o "ferro" que se compra em barra nos armazéns de ferro.
A têmpera (aquecer e arrefecer bruscamente em água ou óleo para endurecer) só faz sentido em aço de médio ou alto carbono. Uma peça de aço macio arrefecida em água não fica significativamente mais dura. Pelo contrário, uma ferramenta de aço de alto carbono arrefecida em água sem controlo pode fissurar.
Propriedades a considerar
- Maleabilidade a quente (plasticidade): quanto mais facilmente o ferro muda de forma quando aquecido, sem fissurar.
- Resistência e tenacidade a frio: quanto a peça aguenta depois de terminada, sem dobrar nem partir.
- Dureza: resistência ao risco e ao desgaste; baixa no aço macio, alta nos aços temperados.
- Comportamento ao aquecer: a que temperatura fica trabalhável, a que temperatura pode ser caldeado e a que temperatura começa a queimar.
- Soldabilidade: facilidade com que se une por forja ou por arco; excelente no aço macio e no ferro pudelado.
- Resistência à corrosão: baixa em todos os aços-carbono; é por isso que o acabamento protetor é obrigatório (capítulo 10).
Formatos disponíveis
| Formato | Descrição | Uso típico |
|---|---|---|
| Barra redonda | secção circular | argolas, pegas, curvas |
| Barra quadrada | secção quadrada | grades, hastes, estruturas, torcidos |
| Barra plana | secção retangular estreita | dobradiças, apliques, travessas |
| Chapa | folha de espessura variável | recortes, bases planas, folhas decorativas |
Escolher o tipo de ferro adequado para cada tipo de peça a ser forjada é uma aptidão avaliada por si só: uma barra fina demais compromete a robustez da peça, e uma barra grossa demais torna o trabalho mais lento sem necessidade.
Uma grade decorativa de janela usa tipicamente barra quadrada de 12 a 14 mm para os elementos verticais, enquanto os apliques decorativos curvos da mesma grade se fazem em barra redonda mais fina, de 6 a 8 mm.
Massa das barras
A massa de uma barra obtém-se da densidade do aço, cerca de 7850 kg/m³: massa por metro (kg/m) = área da secção (m²) × 7850. Serve para encomendar material, orçamentar e prever o peso da peça acabada.
| Perfil | Área da secção | Massa aproximada |
|---|---|---|
| Redondo Ø8 | 50,3 mm² | 0,39 kg/m |
| Redondo Ø10 | 78,5 mm² | 0,62 kg/m |
| Quadrado 12 | 144 mm² | 1,13 kg/m |
| Quadrado 16 | 256 mm² | 2,01 kg/m |
| Plana 20x4 | 80 mm² | 0,63 kg/m |
| Plana 30x6 | 180 mm² | 1,41 kg/m |
| Chapa de 3 mm | por metro quadrado | 23,6 kg/m² |
Exemplo resolvido: material para uma grade pequena. A grade leva 8 verticais em quadrado 12, com 1,10 m cada, e 2 travessas em plana 30x6, com 0,90 m cada.
- Quadrado 12: 8 × 1,10 = 8,8 m; 8,8 × 1,13 = 9,94 kg.
- Plana 30x6: 2 × 0,90 = 1,8 m; 1,8 × 1,41 = 2,54 kg.
- Total: 9,94 + 2,54 = 12,48 kg, cerca de 12,5 kg de aço, a que se soma uma margem para cortes e para a carepa que se perde em cada aquecimento.
3. Ferramentas manuais e equipamentos de forja
A bancada de um artesão das artes do metal reúne ferramentas de corte, medição, forjamento e fixação.
A bigorna
A bigorna é a ferramenta central da forja. Cada parte tem uma função:
| Parte | Função |
|---|---|
| Mesa (face) | superfície plana e endurecida onde se estira, achata e assenta |
| Bico (corno) | zona cónica para dobrar, curvar e abrir argolas |
| Arestas da mesa | uma aresta ligeiramente arredondada para dobrar sem vincar; uma aresta mais viva para ombros e degraus |
| Furo quadrado | recebe as ferramentas de encaixe: talhadeira de baixo, degoladeira de baixo, estampas, garfo de dobrar |
| Furo redondo | serve de passagem ao punção e ao bocado de ferro que sai quando se fura a quente |
| Mesa macia (degrau), quando existe | zona não endurecida entre a mesa e o bico, onde se pode cortar sem estragar a face |
A bigorna deve estar bem fixa num cepo ou base robusta, com a mesa aproximadamente à altura dos nós dos dedos com o braço estendido ao longo do corpo. Nunca se corta com a talhadeira diretamente sobre a mesa endurecida.
Ferramentas manuais
- Martelos de forja: o mais comum é o martelo de pena (uma face plana e uma pena em cunha), com 1 a 1,5 kg para trabalho de uma mão. A face achata e assenta; a pena estira o ferro na direção perpendicular à pena.
- Marretas, de 3 a 5 kg ou mais, manejadas por um ajudante em trabalho pesado, sob a direção do forjador.
- Tenazes, para segurar o ferro incandescente: de boca plana (para barra plana), de boca em V (para redondo e quadrado), de boca redonda para varão. A boca tem de abraçar a secção da barra; uma tenaz mal ajustada deixa a peça rodar ou saltar ao golpe.
- Ferramentas de mão e de encaixe: talhadeira a quente (lâmina fina e aguda, só para ferro quente), talhadeira a frio (ângulo de corte mais aberto, temperada, só para ferro frio), punção para furar a quente, degoladeiras de cima e de baixo para abrir gargantas, assentador para aplanar superfícies, estampas de cima e de baixo para dar secção redonda ou forma, garfo de dobrar e chave de torcer.
- Torno de bancada, grampos e alicates de pressão, para fixar peças durante o trabalho (torcer, dobrar em ângulo, limar).
Não se trocam as talhadeiras: a talhadeira a frio usada em ferro quente perde a têmpera e deixa de cortar; a talhadeira a quente usada em ferro frio pode lascar e projetar fragmentos.
Instrumentos de corte e medição
- Serras manuais e elétricas, tesouras de corte e máquinas de corte a plasma para cortar a frio.
- Paquímetros, micrómetros, réguas de aço e fita métrica para medições; o paquímetro mede secções e diâmetros com precisão de décimas de milímetro.
- Riscadores, compassos, esquadros, granetes e giz de esteatite para a traçagem (capítulo 6).
Preparar as ferramentas manuais
- Cabos de martelos e marretas firmes, sem fissuras, com a cunha bem cravada; um cabo com folga pode soltar a cabeça durante o golpe.
- Cabeças de talhadeiras, punções e ferramentas de encaixe sem rebarba em forma de cogumelo; quando aparece, desbasta-se na rebarbadora, porque as lascas soltam-se com o golpe.
- Faces dos martelos lisas e ligeiramente abauladas nas bordas, para não deixar marcas em meia-lua.
- Tenazes ajustadas à barra que se vai trabalhar (a boca pode ser acertada a quente sobre a própria barra).
- Balde de água junto à bigorna, para arrefecer punções e talhadeiras a quente durante o trabalho.
4. Equipamentos de forja: preparar e operar forjas a carvão e a gás
O referencial pede que o formando saiba preparar e operar forjas a carvão e a gás. As duas aquecem o ferro, mas funcionam e gerem-se de maneira diferente.
| Forja a carvão | Forja a gás (propano) | |
|---|---|---|
| Combustível | hulha de forja, que se transforma em coque, ou coque já preparado; também carvão vegetal | propano, com regulador de pressão |
| Zona de aquecimento | aberta: aquece zonas localizadas e peças de formas irregulares | câmara fechada revestida de refratário: aquecimento uniforme de uma zona mais larga |
| Controlo | pela quantidade de ar (ventilador ou fole) e pela forma do fogo | pela pressão do gás e pela abertura de ar do queimador |
| Soldadura por forja | tradicional, com fogo limpo e profundo | possível em forjas que atinjam o calor de caldear; o bórax corrói o refratário |
| Riscos próprios | fumo, monóxido de carbono, fagulhas, cinza quente | fugas de gás, monóxido de carbono, fibras do refratário |
Operar a forja a carvão
- Limpar o fogão: retirar a escória (cinza vitrificada) do fundo e verificar que o algaraviz (entrada de ar) não está entupido.
- Acender: papel ou aparas no centro, um pouco de ar, e cobrir com carvão. O carvão fresco à volta, ligeiramente humedecido, vai-se transformando em coque e alimenta o núcleo.
- Formar o fogo: um núcleo compacto de coque incandescente, com profundidade suficiente para a peça ficar coberta. A peça fica no coração do fogo, com coque por baixo entre ela e a entrada de ar; demasiado perto do ar, a atmosfera é oxidante e forma muita carepa.
- Regular o ar: mais ar dá mais temperatura, mas também mais oxidação e risco de queimar a peça. Ar moderado e fogo profundo aquecem de forma mais limpa.
- Manter: puxar coque para o núcleo, acrescentar carvão fresco à volta, retirar a escória quando o fogo perde rendimento.
- Apagar: cortar o ar, afastar o coque do núcleo e deixar arrefecer; o coque não queimado guarda-se para a sessão seguinte. A forja nunca fica sem vigilância enquanto houver brasa.
Operar a forja a gás
- Verificar a garrafa (na vertical, afastada da boca da forja), o regulador, a mangueira (sem fissuras, dentro do prazo) e as ligações. Fugas pesquisam-se com água e sabão, nunca com chama.
- Ventilar: porta aberta, extração ligada, nenhum material combustível junto da boca da forja.
- Acender: ter a fonte de ignição pronta junto ao queimador antes de abrir o gás; abrir o gás devagar até a chama pegar. Se não acender em poucos segundos, fechar o gás, deixar ventilar e só então tentar de novo.
- Regular: deixar a câmara aquecer alguns minutos; ajustar pressão e ar. Uma chama ligeiramente rica em gás (redutora) forma menos carepa do que uma chama com excesso de ar.
- Desligar: fechar primeiro a válvula da garrafa, deixar a chama consumir o gás que ficou na mangueira e só depois fechar a válvula do queimador.
Qualquer combustão incompleta produz monóxido de carbono (CO), um gás sem cor nem cheiro que pode causar intoxicação grave. Forjas a carvão e a gás só se usam com ventilação eficaz, com a hotte ou chaminé a funcionar. Dor de cabeça, tonturas ou náuseas junto à forja são motivo para sair para o ar livre de imediato.
Outros equipamentos de aquecimento
- Fornos elétricos (de mufla ou de indução), com temperatura estável e sem fumos de combustão; úteis para aquecer peças de forma controlada.
- Maçaricos oxiacetilénicos, para aquecimentos localizados (desempenar, dobrar um ponto numa peça já montada). As garrafas ficam presas na vertical e as mangueiras levam válvulas antirretorno.
Antes de acender qualquer forja, confirma o estado da ventilação do espaço e a proximidade do extintor de incêndio. É rotina, não exceção.
5. Preparar materiais e ferramentas
A realização preparar materiais e ferramentas é uma etapa própria do referencial, avaliada com o mesmo peso que forjar. Consiste em selecionar e preparar adequadamente os materiais e ferramentas necessários para a forja, garantindo que estejam em boas condições e prontos para uso, de acordo com as especificações do projeto.
Checklist de preparação
- Confirmar o tipo e a quantidade de ferro necessários, conforme o desenho técnico, incluindo o comprimento desenvolvido de cada barra.
- Confirmar que o material não é galvanizado nem tem pintura ou óleo que vão arder na forja; se estiver pintado, remove-se a tinta antes de aquecer.
- Verificar o estado das ferramentas: martelos sem folgas, bigorna estável, tenazes ajustadas à secção do ferro a trabalhar.
- Preparar os dispositivos de fixação (grampos, torno de bancada) para garantir a estabilidade da peça.
- Preparar a forja (capítulo 4) e o combustível necessário para a sessão.
- Ter à mão os guias e manuais com procedimentos padrão para forjamento e acabamento, e o desenho técnico junto à bancada.
- Confirmar que o equipamento de proteção individual está completo e em bom estado.
Exemplo resolvido: preparar uma sessão de forja
Peça a produzir: uma dobradiça simples em barra plana de 20x4 mm.
- Corta-se a barra à medida indicada no desenho, com margem de segurança de poucos milímetros.
- Confirma-se que a bigorna disponível tem o corno adequado ao raio da dobra pedida.
- Escolhe-se a tenaz de boca plana que abraça uma barra plana de 4 mm de espessura.
- Veste-se o EPI completo antes de acender a forja.
Só depois desta preparação se avança para a traçagem e o aquecimento.
6. Técnicas de traçagem no ferro
A traçagem é o processo de marcar no ferro os pontos exatos onde vão ocorrer as operações seguintes: cortes, dobras ou furações.
Ferramentas e procedimento
- Riscador: traça linhas finas e precisas em ferro frio, para cortes e furações feitos a frio. No fogo, a carepa apaga as linhas riscadas.
- Granete (punção de marcar): deixa um pequeno ponto cravado que continua visível depois de aquecer. É a marca mais segura para pontos de dobra e de furação a quente.
- Giz de esteatite: marca linhas visíveis sobre o ferro e resiste ao calor; útil para traçar gabaritos à escala 1:1 numa chapa.
- Talhadeira a quente: com um golpe leve, deixa uma marca que se vê bem no ferro incandescente.
- Compasso: marca circunferências e arcos.
- Esquadro: confirma ângulos retos antes e depois de dobrar.
O procedimento parte sempre de um ponto zero (referência) na barra, a partir do qual se somam as distâncias até cada ponto de dobra ou corte, evitando que pequenos erros se acumulem de dobra em dobra.
Exemplo resolvido: traçar uma peça com duas dobras
Peça: barra quadrada de 250 mm, com dobra a 90 graus a 60 mm de uma ponta e outra dobra a 90 graus a 180 mm da mesma ponta.
- Marca-se o ponto zero numa das pontas da barra.
- Mede-se e traça-se 60 mm a partir do ponto zero: primeira dobra.
- Mede-se e traça-se 180 mm a partir do mesmo ponto zero, nunca a partir da primeira marca: segunda dobra.
- Confirma-se com esquadro que as duas marcas estão devidamente perpendiculares ao eixo da barra, e crava-se um ponto de granete em cada uma, para que continuem visíveis depois de aquecer.
Medir sempre a partir do mesmo ponto zero é o que evita que um pequeno desvio na primeira dobra se torne um erro grande na segunda.
7. Aquecimento e cor do ferro
O ferro só se torna maleável a partir de determinada temperatura. Os processos de aquecimento dependem do equipamento disponível (capítulo 4), mas o objetivo é sempre o mesmo: atingir uma temperatura uniforme na zona a trabalhar, sem ultrapassar o ponto em que o aço se estraga.
Ler a cor do ferro como indicador de temperatura
A cor do ferro aquecido é, para o forjador experiente, o principal indicador de temperatura. Os valores abaixo referem-se ao aço macio observado na luz ténue da oficina; são aproximados, porque a mesma temperatura parece mais escura ao sol e mais clara num espaço escuro.
| Cor do ferro | Temperatura aproximada | Estado prático |
|---|---|---|
| Vermelho escuro | 650 a 750 °C | limite inferior: parar de martelar e reaquecer |
| Vermelho cereja | 800 a 900 °C | acertos finais, dobras ligeiras, endireitar, assentar |
| Laranja | 950 a 1050 °C | forjamento corrente: dobrar, torcer, puncionar |
| Amarelo | 1100 a 1200 °C | forjamento pesado: estirar, recalcar, preparar chanfros |
| Branco-amarelado | 1250 a 1300 °C | calor de caldear, para a soldadura por forja, com fundente |
| Branco com faíscas | acima de cerca de 1300 °C | o aço está a queimar |
Martelar abaixo do vermelho escuro faz o aço resistir ao golpe, encruar e, em ferro sujeito a esforço, fissurar. Há ainda uma zona a evitar por completo, entre cerca de 200 e 400 °C (quando a superfície limpa ganha cor azulada), em que o aço macio é mais frágil do que a frio: não se dobra nem se martela nessa gama.
Ferro com faíscas a saltar como uma estrelinha já está a queimar: perde qualidade estrutural e não recupera. Retira-se a peça do fogo de imediato e corta-se a zona queimada. E atenção ao contrário: abaixo de cerca de 500 °C o aço já não mostra cor, mas continua a causar queimaduras graves.
Boas práticas de aquecimento
- Aquecer só o necessário: a zona a trabalhar e um pouco mais. Aquecer a barra toda gasta combustível e forma carepa inútil.
- Rodar a peça no fogo para aquecer por igual.
- Não deixar a peça no fogo "à espera": cada minuto a alta temperatura forma mais carepa, que é aço perdido.
- Retirar quando a cor é uniforme em toda a secção, não apenas na superfície.
Exemplo resolvido: gerir o aquecimento de uma barra grossa
Uma barra quadrada de 16 mm demora mais tempo a aquecer de forma uniforme do que uma barra de 8 mm. Se se retirar demasiado cedo, o núcleo continua frio e resiste ao martelo, deformando só a superfície. A solução é aquecer por mais tempo, virando a peça no fogo para garantir uniformidade, e confirmar a cor em toda a secção antes de a colocar na bigorna.
8. Forjamento: martelamento, dobragem e corte
A realização forjar peças aplica técnicas adequadas de forjamento para modelar o ferro conforme as especificações, assegurando a precisão das formas e dimensões. É o critério de desempenho central da UC.
Forjar é deformar o metal no estado sólido, a quente, por golpes ou pressão. Não se confunde com a fundição (vazar metal líquido num molde) nem com a laminagem (fazer passar o metal entre rolos, como nas siderurgias que produzem as barras).
Martelamento
O martelamento controlado alonga, achata ou afina o ferro:
- Golpe perpendicular à bigorna, para achatar.
- Golpe inclinado, para afinar ou puxar o metal numa direção.
- Ritmo regular, aproveitando ao máximo o tempo em que o ferro está maleável, antes de arrefecer.
- Golpes sobrepostos, que avançam ao longo da peça, em vez de sempre no mesmo ponto.
As operações básicas da forja
| Operação | O que faz | Como se executa |
|---|---|---|
| Estirar (adelgaçar) | reduz a secção e aumenta o comprimento | golpes com a pena ou sobre a aresta da mesa, rodando a peça 90 graus |
| Recalcar (encalcar) | aumenta a secção e encurta a barra | aquece-se só a zona a engrossar e bate-se no topo; corrige-se logo qualquer encurvadura |
| Dobrar | muda a direção da barra | sobre o bico, na aresta da mesa, no garfo ou no torno |
| Torcer | roda a barra sobre o próprio eixo | zona aquecida por igual, presa no torno, rodada com a chave de torcer |
| Fender | abre a barra ao comprido | talhadeira a quente ao longo do eixo; furar primeiro as extremidades da fenda evita que ela avance |
| Puncionar | abre um furo a quente | punção até quase atravessar, virar a peça e acabar sobre o furo redondo |
| Degolar | abre uma garganta que isola material | degoladeiras de cima e de baixo |
| Assentar | aplana e alisa a superfície | face do martelo ou assentador, a vermelho cereja |
Na forja, o volume mantém-se: o que se perde em secção ganha-se em comprimento, e vice-versa (descontando a pequena perda por carepa). Isto permite prever o resultado de cada operação.
Exemplo resolvido: estirar. Estiram-se 50 mm de barra quadrada de 16 mm até ficarem com secção quadrada de 8 mm. Que comprimento se obtém?
- Área inicial: 16 × 16 = 256 mm². Área final: 8 × 8 = 64 mm².
- A área fica 4 vezes menor, logo o comprimento fica 4 vezes maior: 50 × 4 = 200 mm.
Exemplo resolvido: recalcar. Quer-se engrossar a ponta de uma barra quadrada de 12 mm até ficar com 16 mm de lado. Quanto comprimento de barra se consome para obter uma cabeça com 20 mm de comprimento?
- Volume da cabeça: 16 × 16 × 20 = 5120 mm³.
- Comprimento de barra de 12 mm com esse volume: 5120 ÷ 144 = 35,6 mm, cerca de 36 mm.
- A barra encurta cerca de 16 mm (36 menos 20), o que tem de estar previsto na traçagem.
Dobragem
A dobragem a quente apoia-se no corno da bigorna ou em ferramentas de dobra próprias:
- Aquecer a zona da dobra até à cor certa (laranja para dobras correntes).
- Apoiar no ponto traçado.
- Aplicar a força ou o golpe até ao ângulo pretendido.
- Confirmar o ângulo contra o desenho técnico, ainda com a peça quente, enquanto se pode corrigir.
Secções finas de aço macio também se dobram a frio, sobretudo com raios largos e com ferramentas de dobrar; a dobra a quente é necessária em secções grossas, em raios apertados e sempre que se quer um canto com forma controlada. Num ângulo reto de aresta viva, o lado de fora do canto estica e adelgaça; por isso recalca-se primeiro a zona do canto, para que a secção final fique cheia.
Volutas
A voluta é uma espiral dobrada, típica de grades e apliques:
- Calcular o comprimento pela linha média (capítulo 1) e cortar a barra.
- Estirar e afinar a ponta, que vai ficar no centro da espiral.
- Enrolar o início da espiral a quente sobre a aresta da bigorna, com golpes que curvam a ponta sobre si própria.
- Continuar a enrolar, aquecendo por troços, sobre um gabarito ou à mão com garfo de dobrar.
- Comparar a espiral com o desenho à escala 1:1 e acertar a vermelho cereja.
Corte de ferro durante a forja
O corte de ferro pode ser feito a frio (serra, tesoura, plasma), para medidas exatas antes de forjar, ou a quente (talhadeira a quente, ou talhadeira de baixo encaixada no furo quadrado), aproveitando a maleabilidade do ferro já aquecido. No corte a quente, corta-se de um lado até perto do fim, vira-se a peça e acaba-se do outro lado, sobre a mesa macia ou uma chapa de proteção, nunca sobre a mesa endurecida.
Exemplo resolvido: alongar e afinar uma ponta
Objetivo: transformar a ponta de uma barra redonda de 10 mm numa ponta afunilada de secção decrescente.
- Aquecer a ponta até laranja-amarelo.
- Colocar sobre a face plana da bigorna, com a ponta a sair ligeiramente da borda.
- Martelar em golpes inclinados, girando a peça a cada duas ou três batidas, para manter a secção circular (primeiro em quadrado, depois em octógono, por fim arredondando).
- Reaquecer sempre que a cor descer para vermelho escuro, antes de continuar.
- Repetir até a ponta atingir o comprimento e a espessura pedidos no desenho.
Girar a peça entre golpes é o que evita uma ponta achatada em vez de afunilada de forma regular.
9. Soldadura por forja
A soldadura por forja (ou caldeamento) é uma técnica tradicional que une duas peças de ferro através do calor e do martelamento, sem material de adição como elétrodo ou vareta. As peças não chegam a fundir: aquecidas perto do branco, com as superfícies limpas de óxido, unem-se no estado sólido sob a pressão dos golpes.
Condições para a união pegar
- Temperatura: o calor de caldear, branco-amarelado, por volta de 1250 a 1300 °C no aço macio. Abaixo disso a união não pega; acima, o aço queima.
- Superfícies limpas: a carepa impede a união. O fundente (bórax, o mais usado, ou tradicionalmente areia fina) derrete sobre a peça, dissolve o óxido e protege a superfície do ar.
- Fogo limpo e profundo: sem escória nem carvão fresco em cima da peça, com atmosfera pouco oxidante.
- Forma das pontas: pontas recalcadas (para compensar o material que se perde) e chanfradas em cunha, com as faces ligeiramente abauladas, de modo que se toquem primeiro no centro e o fundente e a escória sejam expulsos para fora.
Procedimento
- Recalcar e chanfrar as pontas a unir.
- Aquecer até laranja e aplicar o fundente; voltar ao fogo.
- Levar as pontas ao calor de caldear: a superfície fica brilhante, com aspeto molhado, e o fundente borbulha. Aquecer por igual, sem deixar faiscar.
- Retirar, sacudir a escória com uma pancada seca e sobrepor as pontas de imediato.
- Primeiros golpes firmes, mas não violentos, no centro da união, para a "colar"; depois golpes mais fortes, trabalhando para as bordas.
- Voltar ao calor de caldear e repetir para consolidar; depois forjar a zona a laranja para igualar a secção com o resto da peça.
- Verificar a união (ver abaixo).
Esta técnica distingue-se da soldadura por arco elétrico ou a gás por não usar material de adição nem fundir o metal: são as próprias superfícies de ferro, levadas à temperatura certa e limpas pelo fundente, que se unem sob o golpe do martelo.
Na forja a gás, o bórax corrói o revestimento refratário. Protege-se o fundo da câmara com um tijolo ou uma chapa de sacrifício.
Verificar a união
- Inspeção visual: a linha de união não deve mostrar fenda nem escória presa. Uma linha fina que só aparece depois de lixar indica união incompleta.
- Ensaio em provete: antes de soldar peças para o cliente, solda-se uma peça de ensaio e dobra-se no torno. Se abrir pela junta, a técnica (temperatura, fundente ou golpes) tem de ser corrigida.
Exemplo resolvido: fechar uma argola
Peça: uma argola decorativa fechada, a partir de uma barra redonda dobrada em círculo.
- Cortar a barra pelo comprimento desenvolvido mais a margem de caldeamento (capítulo 1).
- Recalcar e chanfrar as duas pontas, uma de cada lado, para que se sobreponham.
- Dobrar a barra em círculo sobre o bico da bigorna até as pontas chanfradas ficarem sobrepostas.
- Aquecer a zona das pontas, aplicar bórax e levar ao calor de caldear.
- Martelar a união sobre o bico com golpes firmes e rápidos, fechando a argola numa só peça.
- Reaquecer, arredondar a secção na zona da união e acertar a circunferência no bico.
Uma união mal feita deixa uma fenda que se nota ao acabamento e compromete a resistência da peça.
10. Lixamento, polimento e revestimentos protetores
A realização realizar o acabamento das peças forjadas cobre a última etapa: transformar a peça saída da forja numa peça com qualidade estética e proteção duradoura, cumprindo o critério de aplicar as técnicas apropriadas para garantir a qualidade estética e a durabilidade das peças.
Preparação da superfície
A peça sai da forja coberta de carepa (crosta de óxido). A durabilidade de qualquer revestimento depende de a remover e de deixar a superfície limpa:
- Escova de arame, manual ou na rebarbadora, de preferência com a peça ainda morna: remove a carepa solta.
- Decapagem mecânica: discos de lamelas ou, em peças maiores, granalhagem com granalha de aço (nunca com areia siliciosa, cujo pó causa silicose).
- Decapagem química: banhos ácidos próprios, seguidos de lavagem e secagem imediata, com EPI adequado aos produtos.
- Desengorduramento: limpar óleo, gordura das mãos e pó com desengordurante e pano limpo antes de aplicar qualquer revestimento.
Lixamento e polimento
- Remover a carepa e as impurezas com grão grosso: discos de lamelas de grão 40 ou 60 na rebarbadora.
- Passar progressivamente para grãos mais finos (80, 120 e, à mão, 180 a 240), sem saltar etapas.
- Aplicar discos e pastas de polimento (feltro ou sisal com pasta), quando o desenho exige brilho.
Nem todas as peças forjadas se lixam por completo: muitas vezes quer-se manter a textura do martelo. Nesse caso, escova-se a carepa, e passa-se lixa fina só nas zonas salientes, que ficam claras, enquanto as cavidades ficam escuras e dão relevo ao trabalho.
Saltar direto para lixa fina ou polimento numa peça ainda com carepa grossa deixa marcas visíveis que nenhum polimento posterior consegue esconder.
Revestimentos e proteção contra corrosão
Depois de lixada e polida, a peça precisa de proteção, porque o aço-carbono enferruja com a humidade do ar:
| Revestimento | Efeito | Uso típico |
|---|---|---|
| Cera (de abelha ou microcristalina) | acabamento mate ou acetinado, natural | peças de interior |
| Óleo (por exemplo de linhaça, aplicado a quente) | escurece e protege; exige manutenção | ferramentas, ferragens, peças de interior |
| Verniz transparente | deixa ver o aço; proteção moderada | peças de interior ou exterior abrigado, com manutenção |
| Sistema de pintura (primário anticorrosivo e tinta de acabamento) | cor e proteção duradoura | grades, portões, peças de exterior |
| Galvanização por imersão a quente, com ou sem pintura por cima | proteção muito duradoura | peças de exterior e de uso intensivo |
Métodos de aplicação
- Cera: aplica-se com a peça morna, à temperatura a que a cera derrete ao contacto sem arder; espalha-se com pano ou escova e dá-se brilho depois de arrefecer.
- Óleo: camada fina, com pano, retirando o excesso; os óleos secativos como o de linhaça endurecem com o tempo.
- Verniz e tinta: a trincha, a rolo ou à pistola, sempre em camadas finas, respeitando o tempo de secagem entre demãos indicado na ficha técnica do produto. Num sistema de pintura, o primário anticorrosivo vai diretamente sobre o aço limpo e a tinta de acabamento por cima.
- Galvanização por imersão a quente (norma EN ISO 1461): feita em empresa especializada, mergulhando a peça decapada num banho de zinco fundido, a cerca de 450 °C; o zinco reage com o aço e forma camadas de liga. Não é um processo eletroquímico (esse é a zincagem eletrolítica, com camadas mais finas). A galvanização faz-se depois de forjar e montar, nunca antes.
Panos embebidos em óleos secativos, como o de linhaça, podem inflamar-se sozinhos enquanto secam. Estendem-se abertos ao ar livre ou guardam-se num recipiente metálico fechado com água.
Exemplo resolvido: acabar uma dobradiça para exterior
- Escovar a carepa e lixar com grão grosso, médio e fino, por esta ordem.
- Limpar a superfície com pano seco, removendo pó de lixa, e desengordurar.
- Aplicar o primário anticorrosivo e, depois de seco, duas demãos finas de tinta de acabamento, respeitando o tempo de secagem entre demãos.
- Verificar, à luz, se não ficaram zonas por cobrir, sobretudo nas arestas e no interior da charneira.
Uma tinta aplicada em camada única e espessa costuma escorrer e secar de forma irregular; camadas finas e sucessivas dão melhor resultado.
11. Segurança, saúde e EPI
A forja junta calor, fogo, ruído, fumos, peças em movimento e ferramentas elétricas. Cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho e utilizar o EPI são aptidões avaliadas do referencial, com o mesmo peso que as técnicas.
Enquadramento legal
- A Lei n.º 102/2009, de 10 de setembro, estabelece o regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho: o empregador avalia os riscos e organiza a prevenção; o trabalhador cumpre as instruções e usa corretamente os equipamentos e o EPI.
- O Decreto-Lei n.º 348/93, de 1 de outubro, fixa as prescrições mínimas para a utilização de EPI: o EPI tem de ser adequado aos riscos, estar em bom estado e o trabalhador tem de receber formação sobre o seu uso.
Riscos da forja e EPI correspondente
| Risco | Medida e EPI |
|---|---|
| Faíscas, carepa e lascas projetadas | óculos de segurança com proteção lateral; viseira na rebarbadora |
| Calor e contacto com peças quentes | luvas de couro resistentes ao calor; nunca pegar em ferro "que já não tem cor" sem tenaz |
| Salpicos e fagulhas no corpo | avental de couro; roupa de algodão ou lã (fibras sintéticas derretem e colam à pele) |
| Queda de peças e ferramentas | calçado de segurança com biqueira |
| Ruído da bigorna, do martelo e da rebarbadora | protetores auriculares |
| Poeiras de lixagem e fumos | máscara respiratória adequada (por exemplo, FFP2 ou FFP3 para poeiras) e extração localizada |
| Monóxido de carbono | ventilação, hotte ou chaminé a funcionar; nunca forjar em espaço fechado |
| Fumos de zinco | não aquecer aço galvanizado |
Nunca se forja nem se aquece aço galvanizado. O zinco aquecido liberta fumos de óxido de zinco que provocam a febre dos fumos metálicos (arrepios, febre, dores musculares, náuseas) e podem causar danos mais graves com exposição repetida.
Regras da oficina
- Peças quentes: pousam-se num local próprio, longe da passagem, e assinalam-se; uma peça de aço macio pode arrefecer-se em água, mas o vapor também queima.
- Tenazes e ferramentas: arrefecem-se com frequência, porque também aquecem.
- Máquinas rotativas (rebarbadora, furadora de coluna, lixadora): protetores montados, disco adequado à rotação da máquina; na furadora de coluna não se usam luvas, pelo risco de arrasto.
- Incêndio: extintor acessível, nada combustível junto da forja, piso sem serradura nem trapos.
- Primeiros socorros: kit acessível; queimaduras arrefecem-se com água corrente à temperatura ambiente durante vários minutos, e procura-se assistência nas mais extensas ou profundas.
- Postura: bigorna à altura certa, pausas e alternância de braço reduzem as lesões músculo-esqueléticas.
12. Normas da qualidade e controlo da peça
Aplicar as normas da qualidade significa entregar uma peça que cumpre o desenho e o combinado com o cliente, e provar que cumpre. Numa pequena oficina, isto faz-se com critérios claros e verificações registadas; em empresas maiores, dentro de um sistema de gestão da qualidade (como o da norma ISO 9001).
O que se verifica
- Dimensões: cotas principais, raios, ângulos e secções, com fita métrica, paquímetro, esquadro e comparação com o desenho à escala 1:1. Cada medida compara-se com a tolerância indicada.
- Forma: peça direita, sem torções não desejadas, simétrica quando o desenho o pede, assente de forma estável.
- Defeitos de forja: fissuras; pregas (dobras de material sobre si próprio, que ficam quando se martela sobre a aresta da bigorna ou se deixa uma aba a dobrar); zonas queimadas; marcas de martelo acidentais; uniões caldeadas com linha visível.
- Acabamento: sem carepa solta, sem marcas de lixa cruzadas, revestimento uniforme, sem escorridos nem zonas por cobrir.
- Função: a dobradiça roda sem prender, o gancho aguenta a carga prevista, os furos estão no sítio para a fixação.
Exemplo resolvido: ficha de controlo de um gancho
Desenho: comprimento desenvolvido 238 mm, abertura interior do gancho 30 mm, secção Ø10, tolerância geral ±2 mm.
| Característica | Pedido | Medido | Resultado |
|---|---|---|---|
| Comprimento do troço reto | 150 ±2 mm | 151 mm | conforme |
| Abertura interior do gancho | 30 ±2 mm | 33 mm | não conforme |
| Secção | Ø10 | Ø10 | conforme |
| Superfície | sem fissuras nem pregas | sem defeitos | conforme |
A abertura está 1 mm fora da tolerância. Como a peça é de aço macio, reaquece-se a curva a laranja, fecha-se a abertura com golpes controlados sobre a mesa da bigorna e volta-se a medir. Regista-se a correção na ficha: é essa evidência que mostra ao cliente e ao formador que a qualidade foi controlada.
Erros comuns
- Não confirmar as cotas do desenho antes de cortar a barra, ficando com material curto ou longo demais.
- Somar cotas exteriores em vez de calcular o comprimento desenvolvido pela linha média.
- Martelar sempre no mesmo ponto em vez de distribuir os golpes, deformando a peça de forma desigual.
- Dobrar fora do ponto traçado, desalinhando a peça em relação ao desenho técnico.
- Retirar a peça do fogo demasiado cedo, martelando ferro ainda pouco maleável.
- Deixar o ferro passar do calor de caldear até faiscar e queimar, perdendo qualidade estrutural de forma irreversível.
- Saltar grãos de lixa, deixando marcas que o polimento final não corrige.
- Aplicar revestimento sobre superfície suja ou com pó, comprometendo a aderência.
- Retirar o EPI para operações "mais rápidas", aumentando o risco de queimadura ou corte.
Glossário
- Traçagem: marcação no ferro dos pontos de corte, dobra ou furação, com base no desenho técnico.
- Bigorna: bloco de aço sobre o qual se martela o ferro; tem mesa, bico, furo quadrado e furo redondo, cada um para operações diferentes.
- Corno da bigorna (bico): parte cónica da bigorna, usada para dobrar e curvar o ferro.
- Maleabilidade: capacidade do ferro de mudar de forma sem se romper, muito maior a quente do que a frio.
- Aço macio: aço de baixo teor de carbono, como o S235JR, que é o "ferro" que hoje se forja.
- Ferro pudelado: o ferro forjado histórico, quase sem carbono e com fibras de escória.
- Comprimento desenvolvido: comprimento de barra necessário para uma peça com curvas, medido pela linha média da secção.
- Estirar: reduzir a secção e alongar a barra.
- Recalcar (encalcar): engrossar a secção encurtando a barra.
- Soldadura por forja (caldeamento): técnica de unir peças de ferro por calor e martelamento, no estado sólido, sem material de adição.
- Calor de caldear: temperatura branco-amarelada a que se faz a soldadura por forja.
- Fundente: produto (como o bórax) que dissolve o óxido e protege as superfícies a caldear.
- Carepa (crosta de forja): camada de óxido que se forma na superfície do ferro durante o aquecimento.
- Prega: defeito em que o material dobra sobre si próprio durante o forjamento.
- EPI: equipamento de proteção individual, obrigatório em todas as etapas da forja.
- Corte a frio: corte feito sem aquecer o ferro, com serra, tesoura ou plasma.
- Corte a quente: corte feito com o ferro aquecido, com talhadeira a quente sobre a bigorna.
- Ponto zero: referência inicial na barra a partir da qual se medem todas as outras marcas de traçagem.
- Tolerância: desvio admissível entre a medida real e a cota do desenho.
Síntese
Este percurso não é uma lista de técnicas isoladas: cada etapa condiciona a seguinte, e um erro numa fase inicial (uma cota mal lida, uma barra do formato errado) só se percebe, muitas vezes, quando já é tarde para corrigir sem desperdício de material e de tempo.
Executar uma peça simples em ferro forjado segue sempre a mesma sequência: interpretar o desenho técnico e calcular o material → preparar materiais, ferramentas e forja → traçar → aquecer, lendo a cor do ferro → forjar, com martelamento, dobragem, corte e soldadura por forja → realizar o acabamento, com preparação da superfície, lixamento, polimento e revestimento protetor → verificar a qualidade contra o desenho. Em todas as etapas, o equipamento de proteção individual e as normas de segurança, saúde e qualidade aplicam-se sem exceção. Domina esta sequência e serás capaz de produzir, com rigor e autonomia, peças simples para oficinas, galerias, arquitetura, espaços públicos ou mercados de artesanato.
Exercícios resolvidos
1. Um desenho técnico pede uma barra redonda de 8 mm, dobrada a 90 graus a 100 mm de uma ponta. Que etapas seguirias antes de sequer acender a forja?
Resolução: confirmar as cotas (comprimento total, diâmetro 8 mm, ponto de dobra a 100 mm) e a secção da barra no desenho; confirmar que a barra não é galvanizada; cortar a barra à medida (com margem de segurança); traçar o ponto exato dos 100 mm a partir de um ponto zero e marcá-lo com granete; verificar que a bigorna disponível tem corno adequado a essa dobra e que a tenaz abraça a barra; vestir o EPI completo. Só depois se acende a forja.
2. Uma peça sai da forja com uma zona mais fina do que o previsto num dos lados. Qual é a causa mais provável e como se evita?
Resolução: a causa mais provável é martelamento desigual, com mais golpes de um lado do que do outro, ou a peça não ter sido girada regularmente durante o afinamento. Evita-se girando a peça a cada dois ou três golpes e comparando frequentemente com o desenho técnico durante o processo.
3. Ao observar a peça no fogo, vês faíscas brancas a saltar do ferro. O que fazer de imediato?
Resolução: retirar a peça do fogo imediatamente e reduzir o ar. Faíscas a saltar indicam que o aço está a queimar, o que degrada o material de forma irreversível. A zona queimada corta-se; não há forma de a recuperar, só de evitar chegar a esse ponto.
4. Que temperatura, pela cor, é apropriada para soldadura por forja, e porquê essa e não outra?
Resolução: o calor de caldear, branco-amarelado, por volta de 1250 a 1300 °C no aço macio, com fundente. A essa temperatura as superfícies limpas pelo fundente unem-se no estado sólido sob o golpe do martelo, sem fundir. Abaixo (amarelo, laranja) a união não pega; acima, o aço começa a faiscar e a queimar.
5. Uma peça foi lixada apenas com um grão fino, sem passar antes por grãos mais grossos. Que problema é esperado e porquê?
Resolução: espera-se que fiquem marcas e rugosidade visíveis, sobretudo da carepa original. O grão fino serve para afinar uma superfície já preparada, não para remover a crosta grossa inicial. É preciso seguir a sequência completa de grãos, do mais grosso ao mais fino.
6. Uma peça vai ficar exposta ao exterior, num portão de jardim. Que tipo de revestimento se recomenda e o que se deve fazer antes de o aplicar?
Resolução: recomenda-se um sistema de pintura (primário anticorrosivo e tinta de acabamento) ou, para maior durabilidade, galvanização por imersão a quente seguida de pintura. A cera e o verniz transparente não dão proteção suficiente ao ar livre sem manutenção frequente. Antes de aplicar, remove-se a carepa, e a superfície fica limpa, seca, desengordurada e sem pó de lixagem, senão o revestimento não adere e degrada-se mais depressa.
7. Quanto pesa, aproximadamente, uma argola cortada de 230 mm de barra redonda de 10 mm?
Resolução: a barra redonda de 10 mm tem cerca de 0,62 kg/m (área 78,5 mm² × 7850 kg/m³). Massa: 0,230 × 0,62 = 0,14 kg, cerca de 140 g, um pouco menos depois de forjada, pela carepa perdida.
8. Quer-se estirar a ponta de uma barra quadrada de 12 mm até uma secção quadrada de 6 mm, ao longo de 120 mm de comprimento final. Quantos milímetros da barra original é preciso aquecer e trabalhar?
Resolução: o volume mantém-se. Volume final: 6 × 6 × 120 = 4320 mm³. Comprimento de barra de 12 mm com esse volume: 4320 ÷ 144 = 30 mm. Trabalham-se os últimos 30 mm da barra, que passam a medir 120 mm.