Sebenta · Executar projeto de peça de mobiliário em serralharia artística (UC04885)
- Introdução
- 1. A serralharia artística e o mobiliário em metal
- 2. Materiais metálicos para mobiliário decorativo
- 3. Ferramentas manuais
- 4. Ferramentas elétricas
- 5. Equipamentos de soldadura
- 6. Segurança e equipamento de proteção individual
- 7. Do esboço ao desenho técnico
- 8. CAD e especificações técnicas
- 9. Planear e organizar a produção
- 10. Técnicas de corte, dobragem e trabalho a quente
- 11. Técnicas de soldadura e a fase de execução
- 12. Montagem, alinhamento e fixação
- 13. Acabamentos, proteção contra corrosão e normas de qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta acompanha o percurso completo de uma peça de mobiliário em serralharia artística: uma mesa, uma cadeira, um banco, um espelho de parede ou uma estante, feitos em metal com rigor técnico e sentido estético. É um trabalho de artesão: quem domina esta unidade curricular sai capaz de preparar materiais e ferramentas, desenvolver o projeto da peça, executar as operações de serralharia, montar a peça e aplicar os acabamentos finais.
O percurso segue exatamente as cinco realizações do referencial: preparar materiais e ferramentas de serralharia artística, desenvolver o projeto de mobiliário, executar as operações de serralharia artística, montar a peça e aplicar os acabamentos. Cada capítulo desta sebenta corresponde a uma etapa concreta desse percurso.
Objetivos de aprendizagem (referencial): selecionar e preparar materiais e ferramentas adequados; criar um design detalhado e funcional, com esboço e CAD; realizar operações de corte, dobragem e soldadura; ensamblar as partes garantindo alinhamento e fixação seguros; aplicar acabamentos decorativos e protetores; cumprir rigorosamente as normas de segurança e saúde no trabalho.
Onde se trabalha uma peça destas? Em oficinas e ateliês, em galerias de arte e exposições, em estúdios de design e arquitetura, em espaços públicos e parques e em feiras e mercados de artesanato. O contexto muda a escala e o cliente, nunca o rigor técnico exigido.
1. A serralharia artística e o mobiliário em metal
A serralharia artística trabalha o metal como material de expressão. Ao contrário da serralharia industrial, que produz em série peças normalizadas (grades, portões, estruturas repetidas), a serralharia artística trabalha muitas vezes peça a peça, com um desenho próprio para cada encomenda.
O que distingue o mobiliário artístico em metal
- É funcional: uma cadeira serve para sentar, uma mesa serve para pousar. A função nunca é secundária.
- É estético: a forma, a proporção e o acabamento têm de agradar ao olhar e ao toque.
- É muitas vezes único ou de série limitada: cada peça pode ter variações, mesmo dentro da mesma encomenda.
O artesão das artes do metal reúne três competências que raramente andam juntas: desenhador, técnico de fabrico e acabador. Esta UC trabalha as três em conjunto, numa só peça, do princípio ao fim.
O ciclo completo de uma peça
O trabalho segue sempre a mesma sequência lógica, mesmo quando a peça é simples:
- Preparar materiais e ferramentas para o projeto concreto.
- Desenvolver o projeto: esboço, desenho técnico e, sempre que possível, CAD.
- Executar as operações de serralharia: corte, dobragem, trabalho a quente, soldadura.
- Montar a peça: ensamblar, alinhar, fixar.
- Aplicar os acabamentos: lixar, polir, proteger.
Saltar uma etapa, ou avançar sem ter terminado bem a anterior, é a causa mais comum de peças que "quase" funcionam mas não ficam profissionais.
2. Materiais metálicos para mobiliário decorativo
A escolha do material certo condiciona todo o resto do trabalho: como se corta, como se solda, como se acaba.
Metais mais usados
| Material | Características | Uso típico em mobiliário |
|---|---|---|
| Aço | resistente, económico, fácil de soldar | estruturas, pés, armações |
| Alumínio | leve, resiste à corrosão sem pintura | mobiliário de exterior |
| Cobre | maleável, tom quente, ganha pátina | detalhes decorativos, puxadores |
| Ligas de fundição (bronze, ferro fundido) | moldáveis em formas complexas | remates ornamentais, peças fundidas |
O aço domina praticamente todas as estruturas de mobiliário em metal, pela combinação de resistência e custo. O alumínio entra sobretudo em exterior, porque não enferruja. O cobre raramente é estrutural: entra nos detalhes que se veem e se tocam.
O aço da serralharia artística: "ferro forjado" e aço macio
Na linguagem da oficina ainda se fala de "ferro forjado", mas o ferro forjado histórico (ferro pudelado, com filamentos de escória) já não se produz industrialmente. O que hoje se trabalha é aço macio (aço de construção de baixo carbono), normalmente da classe S235JR da norma EN 10025-2: 235 MPa de tensão de cedência mínima, boa soldabilidade, forja-se e dobra-se bem. Por ter pouco carbono, não ganha dureza com têmpera: a têmpera só faz sentido em aços de médio e alto carbono (ferramentas, molas, talhadeiras).
Outros metais que aparecem em mobiliário ("outros", no referencial):
- Aço inoxidável (por exemplo, AISI 304 em interior e exterior urbano, AISI 316 junto ao mar): não precisa de pintura, mas exige ferramentas e discos próprios para não ser contaminado por partículas de aço carbono, que enferrujam à superfície.
- Latão (liga de cobre e zinco): puxadores, remates, peças torneadas.
Propriedades que interessam na bancada
| Material | Densidade aproximada | Soldadura habitual | Atenção |
|---|---|---|---|
| Aço macio (S235JR) | 7850 kg/m³ | MAG, TIG, elétrodo revestido | enferruja: precisa sempre de proteção |
| Aço inoxidável | cerca de 7900 kg/m³ | TIG, MIG/MAG com gás próprio | ferramentas só para inox |
| Alumínio | cerca de 2700 kg/m³ | TIG (corrente alterna), MIG | conduz muito calor, não muda de cor antes de fundir |
| Cobre | cerca de 8960 kg/m³ | TIG, brasagem | dissipa o calor muito depressa |
Perfis, chapas e materiais de fundição
- Chapas de aço, alumínio e cobre, em várias espessuras, usadas em tampos, painéis e remates planos.
- Perfis metálicos: barras (redondas, quadradas ou chatas), tubos e cantoneiras, a base de qualquer estrutura de mobiliário. Em Portugal, as barras e tubos vendem-se habitualmente em comprimentos comerciais de 6 m.
- Ligas metálicas específicas para fundição e moldagem decorativa, usadas quando a forma é demasiado complexa para cortar e soldar.
- Areias de modelação e moldes e caixas de modelação, para dar forma à peça fundida antes de verter o metal líquido.
- Recipientes para fusão de metais e ferramentas de desmodelação e acabamento de peças fundidas, para completar o ciclo da fundição.
Massa por metro: saber quanto pesa antes de comprar
A massa de um perfil calcula-se pela área da secção multiplicada pela densidade: massa por metro (kg/m) = área da secção (m²) × 7850 kg/m³ para o aço.
| Perfil de aço | Área da secção | Massa por metro |
|---|---|---|
| Barra quadrada 12 mm | 144 mm² | 1,13 kg/m |
| Barra quadrada 15 mm | 225 mm² | 1,77 kg/m |
| Barra quadrada 20 mm | 400 mm² | 3,14 kg/m |
| Barra redonda Ø12 mm | 113 mm² | 0,89 kg/m |
| Barra chata 30 × 5 mm | 150 mm² | 1,18 kg/m |
| Tubo quadrado 20 × 20 × 1,5 mm | cerca de 111 mm² | cerca de 0,87 kg/m |
| Chapa de 3 mm | (por m²) | 23,55 kg/m² |
Os valores do tubo são aproximados: os catálogos dão um pouco menos, porque os cantos são arredondados. Para compras, usa sempre a tabela do fornecedor.
Exemplo resolvido: massa de uma barra quadrada de 15 mm
- Área da secção: 15 mm × 15 mm = 225 mm² = 0,000225 m².
- Massa por metro: 0,000225 m² × 7850 kg/m³ = 1,766 kg/m.
- Para os 4,736 m de barra da banca de apoio (capítulo 9): 4,736 × 1,766 = 8,36 kg.
Esta conta serve para três coisas: saber quanto se paga (o aço vende-se muitas vezes ao quilo), saber se uma pessoa consegue manusear a peça sozinha e prever o peso final do móvel para o cliente.
Exemplo resolvido: escolher o material de um banco de jardim
Um banco de jardim exterior, para uso público num parque. Exposição direta à chuva e ao sol, uso intensivo.
- Estrutura: aço, pela resistência estrutural, mas com tratamento anti-corrosão obrigatório (galvanização ou pintura de proteção), porque fica ao ar livre.
- Alternativa: alumínio, mais caro mas dispensa pintura de proteção contra corrosão ao longo dos anos.
- Assento: madeira tratada ou chapa perfurada, nunca cobre (custo e roubo de material são fatores reais em espaço público).
A decisão certa cruza sempre três fatores: função, exposição e custo.
Como se faz uma peça fundida em areia
Quando o remate ornamental (uma folha, uma pinha, um pé em pata) é demasiado complexo para cortar e soldar, faz-se por fundição em areia:
- Faz-se um modelo da peça (madeira, resina, cera ou uma peça existente).
- O modelo é colocado na caixa de moldação e a areia de modelação é compactada à volta, primeiro na meia-caixa inferior, depois na superior.
- Abrem-se o canal de vazamento e os respiros, retira-se o modelo e fecha-se a caixa.
- O metal é fundido no cadinho (recipiente de fusão) e vazado de forma contínua.
- Depois de arrefecer, desmolda-se, cortam-se os gitos (o metal que ficou nos canais) e acaba-se a peça com lima, rebarbadora e lixa.
Aviso: metal fundido em contacto com humidade (um molde húmido, uma ferramenta molhada, um cadinho frio) transforma a água em vapor de forma instantânea e projeta metal. Ferramentas e cadinhos têm de estar secos e pré-aquecidos, e o chão da zona de vazamento seco.
3. Ferramentas manuais
Mesmo com máquinas na oficina, o trabalho manual continua a ser o que ajusta, corrige e dá o toque final.
Inventário de ferramentas manuais
- Martelos e marretas de diferentes tamanhos e pesos, para forjar, ajustar e endireitar.
- Alicates, tenazes e torquês: alicates e torquês para segurar, dobrar e cortar arame a frio; tenazes para segurar peças quentes na forja.
- Chaves de fenda e de boca, para a fase de montagem e fixação por parafuso.
- Limas de diferentes granulações, para rematar arestas e ajustar encaixes.
- Serra de arco e lâminas de reposição, para cortes de precisão em barra e tubo.
- Punções e riscadores, para marcar a peça antes de qualquer corte ou furo.
- Tornos manuais para roscagem: o desandador (com machos, para abrir rosca interior num furo) e o porta-caçonetes (com caçonetes, para abrir rosca exterior num varão).
Medir e marcar
- Fita métrica e régua de aço para comprimentos; esquadro de serralheiro para ângulos retos; transferidor ou suta para ângulos quaisquer.
- Compasso de pontas para traçar arcos e transportar medidas.
- Punção de bico: um pequeno golpe no centro do furo impede a broca de "fugir".
- Nível de bolha para verificar horizontalidade e verticalidade na montagem.
Roscar à mão: o furo certo para cada rosca
Para abrir uma rosca interior com macho, fura-se primeiro com uma broca mais pequena do que o parafuso. Para passar um parafuso sem rosca, fura-se um pouco maior.
| Rosca métrica (passo normal) | Broca para roscar | Furo de passagem (série média) |
|---|---|---|
| M6 | 5,0 mm | 6,6 mm |
| M8 | 6,8 mm | 9 mm |
| M10 | 8,5 mm | 11 mm |
Rosca-se com óleo de corte, meia volta para a frente e um quarto de volta para trás, para partir a apara. Forçar o macho parte-o dentro do furo, e um macho partido num pé de mesa já soldado é um problema sério.
Boas práticas com ferramenta manual
- Marcar sempre a peça com riscador antes de cortar; nunca cortar "a olho".
- Guardar as limas por granulação, nunca misturadas: uma lima grossa usada por engano numa superfície fina marca-a de forma irreversível.
- Verificar o estado do cabo de martelos e marretas antes de usar; um cabo rachado é um acidente à espera de acontecer.
4. Ferramentas elétricas
As máquinas elétricas aceleram o trabalho e dão precisão que a mão sozinha não consegue.
Máquinas essenciais
| Máquina | Função | Cuidado principal |
|---|---|---|
| Furadora elétrica ou de bancada (engenho de furar) | abrir furos precisos | broca adequada ao metal |
| Rebarbadora | cortar, desbastar, acabar | disco certo para cada tarefa |
| Lixadora e polidora | acabamento de superfície | progressão de granulação |
| Serra elétrica (de fita ou de disco) | cortar perfil à medida, em série | fixação firme da peça, batente |
| Guilhotina manual | cortar chapa em linha reta | espessura máxima indicada na máquina |
Atenção: um disco de corte e um disco de desbaste na rebarbadora não são intermutáveis. Usar o disco errado desgasta-o mal, aquece em excesso e pode partir em rotação, um dos acidentes mais frequentes em oficina de metal.
Ajustar e calibrar ferramentas e máquinas
Ferramentas "em bom estado de conservação e calibradas" é o primeiro critério de desempenho da UC. Na prática, antes de começar uma peça:
| Ferramenta ou máquina | O que se ajusta ou verifica | Como |
|---|---|---|
| Esquadro | se está mesmo a 90° | traçar uma linha junto a uma aresta reta, virar o esquadro e traçar outra no mesmo sítio: se as linhas não coincidem, o esquadro está empenado |
| Fita métrica | a patilha da ponta e a escala | comparar com uma régua de aço num comprimento conhecido |
| Serra de fita | tensão da lâmina, guias, esquadria | cortar uma amostra e verificar o topo com esquadro; regular o batente de comprimento |
| Furadora de bancada | afiação da broca, velocidade, mesa | broca de aço rápido afiada a 118° para aço; mesa a 90° com a árvore |
| Rebarbadora | disco e proteção | disco sem fissuras, com rotação máxima igual ou superior à da máquina; proteção montada |
| Máquina MIG/MAG | tensão, velocidade do fio, caudal de gás | regular para a espessura e testar num retalho do mesmo material antes da peça |
| Guilhotina | folga entre lâminas | ajustar à espessura segundo a tabela do fabricante |
Exemplo resolvido: velocidade de furação
Furar aço macio com uma broca de aço rápido de 8 mm. Para este par material/broca, uma velocidade de corte de referência é cerca de 25 m/min (confirma na tabela do fabricante da broca).
Rotação: n = (1000 × velocidade de corte) / (π × diâmetro) = (1000 × 25) / (3,1416 × 8) ≈ 995 rpm, ou seja, cerca de 1000 rpm.
Com uma broca de 4 mm, a rotação duplica (cerca de 2000 rpm). Brocas grandes a rotação alta queimam a aresta de corte; brocas pequenas a rotação baixa partem.
5. Equipamentos de soldadura
A soldadura é o processo que une, de forma permanente, as peças de metal cortadas e dobradas.
Processos de soldadura elétrica
- MIG/MAG: fio contínuo, rápida e versátil. Em rigor, MAG usa gás ativo (dióxido de carbono ou mistura de árgon com CO₂) e é o processo do aço; MIG usa gás inerte (árgon) e é o do alumínio.
- TIG: elétrodo de tungsténio que não se consome, com árgon; mais lenta mas mais limpa. Ideal para chapa fina e para cordões visíveis.
- Elétrodo revestido: robusta e simples, boa para peças espessas e trabalho ao ar livre, porque não depende de uma garrafa de gás que o vento dispersa.
Os processos lado a lado
| Processo (número ISO 4063) | Proteção do banho | Metais | Onde brilha |
|---|---|---|---|
| Elétrodo revestido (111) | gases e escória do revestimento | aço | peças espessas, exterior |
| MIG (131) | árgon | alumínio | produção em alumínio |
| MAG (135) | CO₂ ou árgon + CO₂ | aço | estruturas de aço, rapidez |
| TIG (141) | árgon | aço, inox, alumínio, cobre | chapa fina, cordão à vista |
| Oxiacetilénica (311) | chama | aço | pequenas peças, também serve para aquecer e brasar |
Na serralharia artística usa-se ainda a brasagem (por exemplo com vareta de latão): o metal de adição funde, mas o metal base não. É útil para unir cobre e latão, ou peças finas decorativas, com cordões discretos.
Equipamentos e consumíveis
- Máquinas de soldadura elétrica (MIG, TIG, elétrodo revestido).
- Maçaricos e acessórios para soldadura e corte a gás.
- Elétrodos para soldadura e fio de adição, escolhidos em função do metal base.
- Discos de corte e rebarbação, para preparar as juntas antes de soldar.
Exemplo resolvido: escolher o processo de soldadura
Uma cadeira em tubo de aço de parede fina (1,5 mm), com cordões visíveis na estrutura.
- Chapa/tubo fino descarta o elétrodo revestido: funde e faz buraco com facilidade.
- MAG é rápido mas o cordão fica mais grosso e menos limpo à vista.
- TIG é a escolha certa: cordão fino, controlado, adequado a uma peça onde a soldadura se vê.
A escolha do processo de soldadura é, ela própria, uma decisão de design.
6. Segurança e equipamento de proteção individual
O metal quente, as faíscas, os discos em rotação e os fumos de soldadura tornam a segurança uma condição do trabalho, não um extra.
Equipamento de proteção individual (EPI)
- Luvas de proteção, resistentes ao calor e ao corte.
- Óculos de segurança (e máscara de soldar, com filtro adequado ao processo).
- Aventais de couro ou material resistente ao calor.
- Máscaras respiratórias, sobretudo em polimento, pintura e fumos de soldadura.
- Protetores auriculares, junto de máquinas ruidosas e na forja.
- Calçado de segurança com biqueira de aço.
O filtro da máscara de soldar tem um número de tonalidade: quanto maior, mais escuro. Para soldadura por arco usam-se em regra tonalidades de cerca de 10 a 13, conforme a intensidade de corrente; para soldadura e corte a gás, bastante mais claras (cerca de 4 a 6). A tabela do fabricante do filtro é a referência.
Riscos da oficina e medidas
| Risco | Onde aparece | Medida |
|---|---|---|
| Radiação ultravioleta do arco | soldadura MIG/MAG, TIG, elétrodo | máscara com filtro, roupa sem pele à vista, cortinas de soldadura para proteger colegas |
| Fumos de soldadura | todos os processos de arco | extração localizada e máscara respiratória; os fumos de soldadura estão classificados pela IARC como cancerígenos para o ser humano (grupo 1) |
| Fumos de zinco | aquecer, cortar ou soldar aço galvanizado | não forjar nem aquecer galvanizado; se for inevitável soldar, remover o zinco da zona e trabalhar com extração |
| Monóxido de carbono | forja a carvão ou a gás | chaminé e ventilação, nunca forjar em espaço fechado sem tiragem |
| Queimaduras | peças que já não brilham | o aço abaixo de cerca de 500 °C já não tem cor visível e continua a queimar: marcar as peças quentes com giz e pegar sempre com luvas ou tenaz |
| Projeção de partículas e rotura de discos | rebarbadora, lixadora | óculos ou viseira, proteção do disco montada, disco adequado |
| Ruído | rebarbadora, martelo na bigorna | protetores auriculares |
Normas de segurança e saúde no trabalho
Cumprir rigorosamente as normas de segurança e saúde no trabalho durante todas as etapas do processo, incluindo o uso adequado do EPI, é um dos critérios de desempenho centrais desta UC. Isto aplica-se à preparação de materiais, ao desenho, à execução, à montagem e aos acabamentos, sem exceção em nenhuma etapa.
Em Portugal, as bases legais são, entre outras, a Lei n.º 102/2009, de 10 de setembro (regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho), o Decreto-Lei n.º 348/93, de 1 de outubro (utilização de EPI), o Decreto-Lei n.º 50/2005, de 25 de fevereiro (utilização de equipamentos de trabalho) e o Decreto-Lei n.º 182/2006, de 6 de setembro (exposição ao ruído). Na oficina, isto traduz-se em máquinas com proteções no lugar, EPI fornecido e usado, e formação antes de operar cada máquina.
Aviso: soldar sem óculos ou máscara com filtro adequado inflama a córnea (o chamado "olho de arco" ou "flash"), muitas vezes sem dor imediata. Os efeitos aparecem horas depois: dor intensa, sensação de areia nos olhos, lacrimejo. Nunca soldar, nem observar quem solda, sem proteção ocular própria para o processo.
7. Do esboço ao desenho técnico
Antes de cortar metal, desenha-se a peça. Um bom desenho poupa material e horas de correção na bancada.
As duas fases do desenho
- Esboço à mão: exploração rápida de proporção, forma e função, sem compromisso.
- Desenho técnico: cotas, vistas, materiais e ligações definidos com rigor, para orientar o corte e a soldadura.
Considerar estética, funcionalidade e ergonomia em conjunto é um critério de desempenho explícito do referencial. Uma cadeira bonita mas incómoda falha tanto quanto uma cadeira confortável e feia.
Ergonomia: medidas de referência
Estas medidas são valores de referência habituais em mobiliário; confirmam-se sempre com o cliente e com o uso previsto.
| Peça | Medida | Valor de referência |
|---|---|---|
| Mesa de jantar | altura do tampo | 72 a 76 cm |
| Secretária | altura do tampo | 72 a 75 cm |
| Mesa de centro | altura do tampo | 40 a 45 cm |
| Mesa de apoio (de canto) | altura do tampo | 45 a 60 cm |
| Cadeira de jantar | altura do assento | 43 a 48 cm |
| Cadeira de jantar | profundidade do assento | 40 a 45 cm |
| Mesa + cadeira | distância do assento ao tampo | cerca de 27 a 30 cm |
Elementos do desenho técnico
- Vistas ortogonais: frente, cima, lado, para descrever a peça sem ambiguidade em três dimensões.
- Cotas: comprimentos, ângulos e diâmetros, sempre com unidade indicada.
- Legenda de materiais: perfil, espessura e metal exatos de cada componente.
- Notas de fabrico: tipo de soldadura exigido, acabamento final, tolerância admitida.
Ler um desenho sem se enganar
- Em Portugal usa-se o método europeu de projeção (1.º diedro): a vista de cima desenha-se por baixo da vista de frente, e a vista da esquerda desenha-se à direita da vista de frente. O símbolo do método aparece na legenda.
- Tipos de linha: contínua grossa para arestas visíveis, tracejada para arestas invisíveis, traço-ponto para eixos e linhas de simetria.
- Escalas normalizadas: 1:1 para pormenores e gabaritos, 1:2, 1:5 e 1:10 para o conjunto de um móvel. A cota escreve sempre a medida real, qualquer que seja a escala.
- Símbolos de soldadura (ISO 2553): uma seta aponta a junta e um símbolo indica o tipo de cordão; por exemplo, um pequeno triângulo indica um cordão de ângulo.
Exemplo resolvido: da ideia ao desenho de uma banca de apoio
Uma banca de apoio (mesa de canto) com 40 cm × 40 cm de tampo e 55 cm de altura.
- Esboçar duas ou três variantes de estrutura: quatro pernas retas, estrutura em X, estrutura tubular curva.
- Escolher a estrutura em X, porque a cruz triangula a estrutura (não "abana" de lado) e é visualmente mais leve.
- Desenhar as vistas de frente e de lado, com todas as cotas: altura 55 cm, cada barra do X a 60° com o chão, secção da barra 15 mm × 15 mm, tampo em chapa de 3 mm assente num aro de barra.
- Anotar no desenho: aço S235JR, soldadura MAG nos nós da estrutura, tolerância geral ±2 mm, acabamento pintado a preto mate.
Nada avança para o corte sem este desenho estar completo e validado. As contas de corte desta banca estão no capítulo 9.
8. CAD e especificações técnicas
O CAD (desenho assistido por computador) traz precisão que o papel não consegue igualar, e permite corrigir sem refazer tudo de novo.
O que o CAD acrescenta ao desenho manual
- Rever medidas rapidamente, sem apagar e redesenhar.
- Simular a montagem antes de gastar material.
- Gerar vistas prontas a imprimir ou a enviar para a bancada.
- Extrair a lista de materiais automaticamente a partir do desenho.
Programas comuns na profissão incluem AutoCAD, Fusion 360 e SketchUp, e há alternativas gratuitas como FreeCAD (3D) e LibreCAD (2D), todos capazes de suportar este fluxo.
Um fluxo de trabalho em CAD
- Desenhar à escala real (1:1) no espaço do modelo; a escala só se escolhe na impressão.
- Separar a peça em camadas (estrutura, tampo, cotas, notas), para mostrar ou esconder cada parte.
- Modelar cada componente como um objeto próprio (em 3D, um corpo por barra), o que permite contar peças e comprimentos.
- Cotar, acrescentar a legenda (material, escala, método de projeção, autor, data) e as notas de fabrico.
- Exportar em PDF para a bancada e para o cliente, e em DXF quando uma peça plana (um painel decorativo, uma folha recortada) vai ser cortada a laser, plasma ou jato de água por um fornecedor.
Especificações técnicas e tolerâncias dimensionais
Uma especificação técnica define exatamente o que a peça tem de cumprir: medida, material, acabamento, norma a respeitar. A tolerância dimensional é a margem de erro aceitável numa medida, por exemplo ±1 mm.
| Tipo de peça | Tolerância típica | Razão |
|---|---|---|
| Gaveta ou porta com encaixe | apertada (±1 mm) | tem de deslizar sem folga nem atrito |
| Tampo amovível sobre estrutura | média (±2 mm) | tem de assentar de forma estável |
| Detalhe puramente decorativo | larga (±5 mm) | não compromete a função da peça |
Quando uma cota não tem tolerância escrita, vale a tolerância geral indicada na legenda. A norma mais usada para isso é a ISO 2768-1, com quatro classes (f fina, m média, c grosseira, v muito grosseira). Um extrato:
| Comprimento nominal | Classe m | Classe c | Classe v |
|---|---|---|---|
| mais de 30 até 120 mm | ±0,3 mm | ±0,8 mm | ±1,5 mm |
| mais de 120 até 400 mm | ±0,5 mm | ±1,2 mm | ±2,5 mm |
| mais de 400 até 1000 mm | ±0,8 mm | ±2 mm | ±4 mm |
| mais de 1000 até 2000 mm | ±1,2 mm | ±3 mm | ±6 mm |
A classe m é típica de peças maquinadas; para mobiliário soldado, a classe c costuma chegar. Para construções soldadas existe também a norma EN ISO 13920, com classes próprias (A a D).
Exemplo resolvido: cotar sem acumular erros
Uma estante tem cinco prateleiras com 300 mm de intervalo entre elas, e cada medida é marcada com ±1 mm de erro.
- Cotagem em série (cada prateleira medida a partir da anterior): os erros somam-se. No pior caso, a quinta prateleira fica 5 × 1 = ±5 mm fora do sítio, e as prateleiras de uma coluna deixam de bater com as da outra.
- Cotagem em paralelo (todas medidas a partir do chão: 300, 600, 900, 1200, 1500 mm): cada prateleira tem só o seu próprio erro, ±1 mm.
Regra: numa peça com medidas repetidas, cota e marca tudo a partir de uma referência comum.
Selecionar e preparar os materiais e ferramentas adequados, de acordo com as especificações técnicas e os requisitos do projeto, é o primeiro critério de desempenho do referencial desta UC.
9. Planear e organizar a produção
Entre o desenho e a bancada há um passo que separa o amador do profissional: planear. O plano diz o que se compra, por que ordem se trabalha e quanto tempo leva.
Os documentos do planeamento
- Lista de corte: cada componente, quantas vezes se repete, perfil, comprimento e ângulo dos topos.
- Lista de materiais: o que comprar, já com as perdas de corte e a otimização das barras comerciais.
- Sequência de fabrico: a ordem das operações, pensada para não bloquear passos seguintes (por exemplo, furar antes de soldar, quando depois a furadora já não chega ao sítio).
- Estimativa de tempos, para cumprir o prazo e orçamentar.
Exemplo resolvido: lista de corte da banca de apoio
Banca do capítulo 7: tampo 400 × 400 mm em chapa de 3 mm, altura 550 mm, barra quadrada de 15 mm, dois quadros em X (frente e trás), cada barra a 60° com o chão, um aro de barra por baixo do tampo e duas travessas em baixo a ligar os pés da frente aos de trás.
- Altura vencida pelas barras do X: 550 menos 3 (tampo) menos 15 (aro) = 532 mm.
- Comprimento de cada barra do X (pela linha média): 532 / sen 60° = 532 / 0,866 = 614 mm.
- Abertura de cada X no chão: 532 / tg 60° = 532 / 1,732 = 307 mm entre eixos dos pés, dentro dos 400 mm do tampo.
- Topos das barras do X: têm de ficar horizontais (assentam no chão e encostam ao aro). A barra faz 60° com o chão, logo o corte faz 60° com o eixo da barra: na serra, regula-se 30° a partir do corte em esquadria.
- As duas barras de cada X cruzam-se sobrepostas (uma à frente da outra) e soldam-se no cruzamento, sem cortar nenhuma.
| Componente | Qtd. | Comprimento | Topos | Total |
|---|---|---|---|---|
| Aro, lados maiores | 2 | 400 mm | retos | 800 mm |
| Aro, lados menores | 2 | 370 mm | retos | 740 mm |
| Barras do X | 4 | 614 mm | 30° | 2456 mm |
| Travessas inferiores | 2 | 370 mm | retos | 740 mm |
| Total de barra 15 × 15 | 4736 mm |
Massa: barra 4,736 m × 1,766 kg/m = 8,36 kg; tampo 0,4 m × 0,4 m × 23,55 kg/m² = 3,77 kg; total cerca de 12,1 kg (sem contar o material dos cordões).
Compra: 4736 mm mais cerca de 2 mm de perda por cada um dos 10 cortes dá cerca de 4,76 m: chega uma barra comercial de 6 m, e sobram cerca de 1,2 m para provetes de soldadura e para o gabarito.
Os comprimentos são pela linha média. Antes de cortar as quatro barras do X, confirma a medida num desenho à escala 1:1 ou numa barra de ensaio no gabarito.
Sequência de fabrico da banca
| Ordem | Operação | Porquê nesta ordem |
|---|---|---|
| 1 | Cortar todas as barras e o tampo | as medidas saem todas da mesma regulação da serra |
| 2 | Limpar carepa e rebarbas das zonas a soldar | depois de soldado já não se chega a todas as faces |
| 3 | Montar e pontear o aro, verificar diagonais | o aro é a referência das outras peças |
| 4 | Montar os dois X no gabarito e pontear | garante que os dois X ficam iguais |
| 5 | Pontear X, aro e travessas; verificar esquadria e estabilidade | ainda dá para corrigir |
| 6 | Soldar em definitivo, alternando lados | controla o empeno |
| 7 | Soldar o tampo ao aro (ou aparafusar) | fecha a estrutura |
| 8 | Rebarbar, lixar, desengordurar, pintar | acabamento sobre a peça completa |
| 9 | Controlo final e registo | só depois se entrega |
10. Técnicas de corte, dobragem e trabalho a quente
Corte e dobragem transformam o perfil e a chapa em bruto nas formas que o desenho pede.
Técnicas de corte
- Serra elétrica e guilhotina manual, para chapa e perfil reto, com corte limpo.
- Disco de corte na rebarbadora, rápido e versátil, para obra corrente.
- Corte térmico com maçarico (oxicorte), para chapas de aço mais espessas. O oxicorte só funciona em aço carbono: não corta alumínio, cobre nem inox, que se cortam por plasma, serra ou disco.
- Marcar sempre a linha de corte com riscador antes de cortar, e descontar a espessura do corte (da lâmina ou do disco) pelo lado do desperdício.
Técnicas de dobragem
A dobragem transforma chapa ou perfil reto numa forma curva ou angular, sem cortar o material.
- Dobragem a frio: adequada a chapas finas e perfis de secção pequena, com raios que o material aguenta.
- Dobragem a quente: aquecer o metal para dobrar raios fechados ou secções grossas com menos força e sem fissurar.
- Cada metal tem um raio mínimo de dobragem (indicado pelo fornecedor ou pela norma do material): forçar um raio mais apertado a frio pode fissurar a face exterior da dobra. Quanto mais grossa a peça e mais duro o metal, maior o raio mínimo.
- Uma estimativa rápida: a face exterior de uma barra dobrada alonga-se cerca de metade da espessura a dividir pelo raio da linha média. Numa barra redonda de 12 mm dobrada com raio interior de 10 mm, isso dá 6 / (10 + 6) = 37,5 %, mais do que o alongamento mínimo garantido do S235JR (26 %, segundo a EN 10025-2 para as espessuras correntes): a frio, arrisca fissurar. Com raio interior de 40 mm dá 6 / 46 = 13 %, e dobra-se a frio sem problema.
- Ferramentas: quinadeira para chapa, calandra para curvas largas em chapa e perfil, dobradora de varão e garfos de dobrar para barra, gabaritos de voluta para curvas repetidas.
Comprimento desenvolvido: quanto material leva uma curva
Quando uma barra é dobrada, a face de dentro encolhe e a de fora estica. A linha que não muda de comprimento é, com boa aproximação, a linha média (o eixo da barra). O comprimento a cortar calcula-se por essa linha.
Exemplo resolvido: braço de cadeira em barra redonda de 12 mm
Braço com um troço reto de 350 mm, uma curva de 90° com raio interior de 40 mm e outro troço reto de 200 mm.
- Raio da linha média: raio interior + metade da espessura = 40 + 6 = 46 mm.
- Comprimento da curva: (90° / 360°) × 2 × π × 46 = (π × 46) / 2 = 72,3 mm.
- Comprimento total: 350 + 72,3 + 200 = 622,3 mm, ou seja, cortar 623 mm.
Em volutas e espirais o princípio é o mesmo, mas a conta é difícil: na oficina, desenha-se a voluta à escala 1:1, deita-se um arame por cima da linha média e mede-se o arame esticado.
Exemplo resolvido: dobrar a quente o braço curvo de uma cadeira
O mesmo braço em barra redonda de aço de 12 mm, com a curva de 90° e raio interior de 40 mm.
- Marcar o início e o fim da curva na barra, com riscador ou giz de serralheiro.
- Aquecer só a zona da curva com maçarico até vermelho vivo a laranja.
- Dobrar sobre um gabarito com o raio certo, num movimento contínuo; se a cor descer ao vermelho escuro, parar e reaquecer.
- Deixar arrefecer ao ar. No aço macio isto evita tensões e empenos; num aço de mais carbono, arrefecer em água endureceria e fragilizaria a zona.
A dobra a quente dá uma curva regular com pouca força e sem risco de fissura, e permite acertar a forma ao milímetro no gabarito.
Trabalho a quente: forja e cores do aço
A "modelagem" do metal, na serralharia artística, faz-se muitas vezes na forja: aquece-se o aço até ficar plástico e dá-se-lhe forma com martelo e bigorna. A temperatura lê-se pela cor, de preferência à sombra, porque ao sol as cores parecem mais escuras e o aço parece mais frio do que está.
| Cor do aço macio (aproximada) | Temperatura aproximada | O que se faz |
|---|---|---|
| Vermelho escuro | cerca de 700 °C | limite: deixar de martelar e reaquecer |
| Vermelho vivo (cereja) | cerca de 800 a 900 °C | dobras, acertos leves, endireitar |
| Laranja | cerca de 1000 °C | forjar: estirar, recalcar, torcer |
| Amarelo | cerca de 1100 a 1200 °C | forjar com grandes deformações |
| Quase branco | cerca de 1250 a 1300 °C | caldear (soldadura por forja), com fundente (bórax ou areia siliciosa fina) |
| Faíscas a saltar da peça | acima disso | o aço está a queimar e perde-se essa zona |
Martelar abaixo do vermelho escuro provoca fissuras e encruamento. As cores são aproximadas: dependem da luz e da experiência de quem olha.
Operações de forja mais usadas em mobiliário:
- Estirar (adelgaçar): alongar e afinar a barra, por exemplo para fazer uma ponta de voluta.
- Recalcar (encalcar): encurtar e engrossar, batendo no topo.
- Dobrar e torcer: curvas, volutas e torcidos decorativos em barra quadrada.
- Fender e puncionar (furar a quente): abrir a barra ou furá-la sem tirar material.
- Degolar: marcar um estrangulamento com a degoladeira.
- Caldear: unir duas peças por forja, à temperatura de caldeamento.
- Assentar (aplanar): acertar superfícies com o martelo de assentar ou com estampas.
- Rebitar a quente: ligação tradicional das grades e móveis de forja.
A bigorna tem a mesa (superfície plana de trabalho), o bico ou corno (para curvas), o furo quadrado (para encaixar ferramentas como degoladeiras e talhadeiras a quente) e o furo redondo (para puncionar e dobrar). As tenazes seguram a peça; a talhadeira a quente corta aço em brasa e nunca se usa em aço frio, para o qual existe a talhadeira a frio.
Forjar não é fundir (na fundição o metal é vazado em estado líquido) nem laminar (a laminagem é o processo industrial que produz as barras e chapas entre rolos).
11. Técnicas de soldadura e a fase de execução
A soldadura une os componentes já cortados e dobrados, seguindo as especificações do projeto.
Preparar a junta antes de soldar
- Limpar toda a ferrugem, carepa, óleo e tinta da zona a soldar.
- Alinhar as peças no ponto exato definido pelo desenho técnico.
- Usar um gabarito sempre que a peça tenha vários componentes iguais ou simétricos, para garantir que ficam todos na mesma posição.
- Em peças espessas, chanfrar os bordos para o cordão penetrar em toda a espessura.
Pontear, verificar, soldar
A soldadura faz-se em duas passagens mentais:
- Pontear: pequenos pontos de soldadura que seguram a peça na posição, alternando os lados.
- Verificar: medidas, esquadria e estabilidade, enquanto um ponto ainda se parte com um golpe de talhadeira ou de disco.
- Soldar em definitivo: cordões curtos, alternados entre lados opostos e zonas afastadas, deixando arrefecer entre cordões.
O calor dilata o metal e, ao arrefecer, o cordão contrai e puxa a peça para o seu lado. Por isso se alterna: cada cordão compensa a contração do anterior.
Exemplo resolvido: soldar a estrutura de um pé de mesa
Pé de mesa em barra quadrada de aço de 20 mm, quatro apoios, altura final 72 cm.
- Cortar as quatro barras à medida definida no desenho (72 cm menos a espessura do tampo).
- Riscar e cortar os ângulos de ligação com a rebarbadora.
- Colocar as quatro barras num gabarito, para garantir que ficam todas ao mesmo ângulo antes de soldar.
- Pontear em pontos alternados e verificar; depois soldar em MAG com cordões curtos alternados entre lados opostos, nunca de um lado só, para não empenar a peça pelo calor.
- Rebarbar o excesso de cordão e verificar, numa superfície plana e com nível, que o pé assenta sem oscilar.
Corrigir um empeno
Se, apesar de tudo, a peça empenar: endireitar a frio com prensa ou no torno de bancada, quando o empeno é pequeno; ou aquecer localmente, com maçarico, a face convexa em pequenos pontos, deixando arrefecer (a zona aquecida contrai e puxa a peça de volta). Corrigir empenos gasta sempre mais tempo do que evitá-los.
Realizar as operações de corte, dobragem e soldadura seguindo as especificações do projeto, com precisão e qualidade, é o critério de desempenho central desta fase.
12. Montagem, alinhamento e fixação
Depois de prontos todos os componentes, resta montar a peça completa.
A sequência da montagem
- Ensamblar as partes seguindo o desenho técnico, uma etapa de cada vez.
- Alinhar: verificar com esquadro e nível de bolha antes de fixar em definitivo.
- Fixar: parafusos, rebites ou soldadura, conforme decidido no desenho.
- Confirmar a estabilidade: pousar a peça, empurrar ligeiramente, testar em piso irregular.
Técnicas de alinhamento e fixação
- Mesa de montagem plana (uma chapa grossa ou uma bancada nivelada): é a referência de tudo.
- Grampos e sargentos seguram as peças na posição enquanto se ponteia; ímanes de soldadura seguram ângulos de 45° e 90°.
- Esquadria pelas diagonais: num retângulo, as duas diagonais são iguais. É a verificação mais fiável num quadro grande, porque o esquadro só vê um canto.
- Nível de bolha para horizontal e vertical; fio de prumo ou laser em peças altas.
Exemplo resolvido: verificar a esquadria de um aro de tampo
Aro retangular de 600 mm × 400 mm. Diagonal teórica: √(600² + 400²) = √520 000 = 721,1 mm.
Medidas no aro ponteado: uma diagonal com 723 mm e a outra com 719 mm. Diferença de 4 mm: o aro está "em losango". Como a diagonal maior é a que está a mais, aperta-se o aro com um sargento segundo essa diagonal até as duas medirem o mesmo (cerca de 721 mm) e só depois se solda.
Para o aro quadrado da banca (400 × 400 mm), a diagonal teórica é 400 × √2 = 565,7 mm.
Métodos de ligação de componentes metálicos
| Método | Vantagem | Quando usar |
|---|---|---|
| Parafusos | desmontável e ajustável | peças que se transportam ou reparam |
| Rebites | rápido e discreto | chapas finas, sem introduzir calor |
| Soldadura | ligação permanente e rígida | estrutura definitiva, sem necessidade de desmontar |
- Parafusos: em mobiliário, M6 e M8 são os mais comuns; usar anilhas e, onde há vibração, porca autoblocante. Parafusos à vista em peças de exterior devem ser de aço inoxidável ou galvanizado, para não escorrerem ferrugem.
- Rebites cegos (tipo "pop"): colocam-se só por um lado, bons para chapa fina e painéis.
- Rebites a quente: o rebite é aquecido ao rubro, introduzido no furo e a cabeça é formada ao martelo; ao arrefecer, contrai e aperta as peças. É a ligação tradicional das grades e do mobiliário de forja, e hoje usa-se também pelo efeito decorativo.
Ensamblar as partes do mobiliário, garantindo o alinhamento correto e a fixação segura, assegurando estabilidade e funcionalidade, é o critério de desempenho desta fase. Corrigir um desalinhamento depois de soldado é sempre mais difícil e mais caro do que confirmar antes.
13. Acabamentos, proteção contra corrosão e normas de qualidade
O acabamento é a primeira coisa que o cliente toca e vê de perto, e a última etapa antes da entrega.
Preparar a superfície
Nenhum acabamento é melhor do que a superfície por baixo dele.
- Remover a carepa (a camada escura de óxido que vem da laminagem ou da forja): mecanicamente, com escova de arame, disco de lamelas ou granalhagem (projeção de granalha de aço ou de abrasivos sem sílica livre, nunca de areia siliciosa, por risco de silicose), ou quimicamente, por decapagem em banho ácido.
- Desengordurar com solvente ou desengordurante próprio: as mãos deixam gordura que impede a tinta de aderir.
- Pintar logo: o aço limpo começa a oxidar em poucas horas numa oficina húmida.
Para sistemas de pintura exigentes, o grau de limpeza pede-se pela norma ISO 8501-1 (por exemplo, Sa 2½, decapagem por jato muito cuidada).
Lixamento e polimento
- Lixamento: remove rebarbas, marcas de soldadura e imperfeições.
- Polimento: dá brilho e suaviza o toque final.
- Progressão de granulação sempre do grosso para o fino, nunca ao contrário.
| Etapa | Abrasivo típico | Objetivo |
|---|---|---|
| Desbaste do cordão | disco de desbaste ou de lamelas P40 a P60 | nivelar o cordão com a barra |
| Uniformizar | P80 a P120 | apagar os riscos do desbaste |
| Antes de pintar | P120 a P180 | superfície uniforme com ancoragem para a tinta |
| Polimento (metal à vista) | P240, P400 e acima, depois pasta de polir em disco de feltro ou pano | brilho |
Não se lixa demasiado fino antes de pintar: uma superfície espelhada dá menos aderência à tinta.
Pintura, revestimento e proteção contra corrosão
- Vernizes e tintas protegem contra a corrosão e definem a cor final da peça.
- Aplicar em camadas finas e uniformes, respeitando o tempo de secagem entre demãos.
- Em peças de exterior, a proteção contra corrosão (galvanização, pintura de fundo específica) não é opcional.
| Sistema | Como funciona | Onde se usa |
|---|---|---|
| Primário anticorrosivo + tinta de acabamento | o primário adere ao aço e trava a corrosão; o acabamento dá cor e resistência | interior e exterior |
| Pintura eletrostática a pó (termolacagem) | pó aplicado por carga elétrica e curado em estufa | acabamento resistente e uniforme, feito por empresa especializada |
| Galvanização por imersão a quente (EN ISO 1461) | a peça é mergulhada em zinco fundido, a cerca de 450 °C; não é um processo eletroquímico | exterior, espaço público |
| Sistema duplex | galvanização seguida de pintura | exterior exigente, junto ao mar |
| Metalização | projeção térmica de zinco ou alumínio | peças grandes que não cabem na tina de galvanização |
| Cera ou óleo (cera de abelha, óleo de linhaça) | película fina que realça o aspeto do aço escuro de forja | só interior seco |
| Verniz sobre cobre e latão | impede o escurecimento | detalhes que se quer manter brilhantes |
| Patinas químicas | produtos próprios escurecem ou esverdeiam o cobre e o latão | efeito decorativo, aplicado com EPI e ventilação |
A agressividade do ambiente classifica-se pela norma ISO 12944-2 em categorias de corrosividade, de C1 (muito baixa, interior aquecido) a C5 (muito alta) e CX (extrema). Uma mesa de sala (C1) pode levar cera; um banco à beira-mar (C4 ou C5) pede sistema duplex ou alumínio.
Uma peça galvanizada não se pode depois aquecer na forja, nem soldar sem precauções: o zinco liberta fumos tóxicos. Por isso a galvanização é sempre a última operação de fabrico, feita sobre a peça já soldada e rebarbada.
Exemplo resolvido: quanta tinta leva a banca de apoio
Área a pintar (valores arredondados):
- Barras: perímetro da secção 4 × 15 mm = 60 mm = 0,06 m; 0,06 m × 4,74 m = 0,28 m².
- Tampo: duas faces de 0,4 × 0,4 m = 0,32 m² (as orlas de 3 mm desprezam-se).
- Total: cerca de 0,6 m².
Se a ficha técnica da tinta indicar um rendimento de 10 m² por litro e por demão, duas demãos precisam de 2 × 0,6 / 10 = 0,12 L, mais o primário. Uma lata de 0,25 L de cada chega, com margem para retoques.
Normas da qualidade
As normas da qualidade acompanham toda a produção, não só o acabamento final: materiais certificados, processos de soldadura documentados, verificação dimensional antes da entrega. Na prática:
- Rastreabilidade dos materiais: o fornecedor pode entregar um certificado de inspeção segundo a norma EN 10204 (por exemplo, o tipo 3.1), que liga o lote de aço à sua composição e propriedades.
- Sistema de gestão da qualidade: oficinas certificadas seguem a ISO 9001, que obriga a procedimentos escritos, registos e tratamento de não conformidades.
- Controlo em cada fase, registado numa ficha simples:
| Fase | O que se verifica | Instrumento | Critério |
|---|---|---|---|
| Corte | comprimentos e ângulos | fita métrica, esquadro, suta | tolerância do desenho |
| Pontear | esquadria e diagonais | fita métrica | diagonais iguais dentro da tolerância |
| Soldadura | cordões sem poros, fissuras nem falta de fusão | inspeção visual | cordão regular e contínuo |
| Montagem | nível e estabilidade | nível de bolha, superfície plana | não oscila |
| Acabamento | cobertura, escorridos, espessura | luz rasante | uniforme, sem falhas |
| Entrega | conformidade com o desenho e a encomenda | ficha de controlo | todos os pontos conformes e assinados |
Aplicar os acabamentos decorativos e protetores de forma uniforme, seguindo as técnicas adequadas, assegurando qualidade estética, durabilidade e proteção da peça final, de acordo com as especificações do projeto, é o último critério de desempenho do referencial.
Erros comuns
- Cortar sem desenho técnico completo: o erro de medida só aparece quando já não há forma barata de corrigir.
- Escolher o processo de soldadura errado para a espessura do material: elétrodo revestido em chapa fina faz buraco.
- Soldar sem gabarito peças que deveriam ser simétricas ou repetidas.
- Soldar sempre de um só lado: empena a peça pelo calor acumulado.
- Saltar granulações no lixamento: deixa marcas visíveis por baixo do brilho final.
- Aplicar acabamento sobre superfície não limpa: descasca em pouco tempo.
- Confiar a estabilidade "a olho": sem esquadro e nível, um erro de milímetros vira uma peça que abana.
- Ignorar o EPI por rotina: os acidentes mais graves em oficina de metal acontecem precisamente quando a proteção é vista como um estorvo.
Glossário
- Serralharia artística: trabalho do metal com foco na estética e na peça única, além da função.
- Aço macio: aço de baixo carbono (por exemplo S235JR), o material da serralharia artística atual.
- Perfil metálico: barra, tubo ou cantoneira usada como base estrutural.
- Carepa: camada de óxido escuro que se forma à superfície do aço laminado ou forjado.
- Fundição decorativa: técnica de moldar metal líquido em areia para obter formas complexas de uma só vez.
- MIG/MAG: processo de soldadura por fio contínuo; MIG com gás inerte (alumínio), MAG com gás ativo (aço).
- TIG: processo de soldadura com elétrodo de tungsténio, limpo e controlado.
- Elétrodo revestido: processo de soldadura robusto, adequado a peças espessas.
- Brasagem: ligação em que só o metal de adição funde, e o metal base não.
- Pontear: dar pequenos pontos de soldadura para fixar a posição antes de soldar em definitivo.
- Gabarito: molde ou guia usado para posicionar peças repetidas de forma consistente antes de soldar.
- Dobragem: técnica de curvar chapa ou perfil sem cortar o material.
- Comprimento desenvolvido: comprimento de barra necessário para uma peça dobrada, medido pela linha média.
- Caldear: unir duas peças de aço por forja, a temperatura próxima do branco, com fundente.
- Tolerância dimensional: margem de erro aceitável numa medida.
- Esquadria: estado de uma peça cujos ângulos retos estão de facto a 90°; verifica-se pelas diagonais.
- Desandador: ferramenta manual que segura e roda o macho de roscar.
- Galvanização por imersão a quente: proteção do aço por mergulho em zinco fundido.
- EPI: equipamento de proteção individual.
- Ensamblar: unir as diferentes partes de uma peça na montagem final.
- Pátina: alteração natural da cor de um metal (como o cobre) com o tempo e a exposição.
Síntese
Uma peça de mobiliário em serralharia artística percorre sempre o mesmo ciclo: preparar materiais e ferramentas de acordo com as especificações do projeto, com as ferramentas ajustadas e calibradas; desenvolver o design através de esboço, desenho técnico e CAD, com tolerâncias e lista de corte; executar as operações de corte, dobragem, trabalho a quente e soldadura com precisão, pontear antes de soldar e alternar cordões; montar a peça garantindo alinhamento, esquadria e fixação seguros; e aplicar os acabamentos, sobre superfície bem preparada, que dão qualidade estética, durabilidade e proteção adequada ao ambiente. As normas de segurança e as normas de qualidade acompanham todas as etapas, sem exceção. Domina este ciclo e serás capaz de produzir, de raiz, qualquer peça de mobiliário em metal.
Exercícios resolvidos
1. Um cliente pede uma mesa de exterior. Que material escolhes para a estrutura e que cuidado adicional é obrigatório?
Resolução: aço, pela resistência e pelo custo, mas com tratamento anti-corrosão obrigatório (galvanização ou pintura de proteção), porque a peça fica exposta à chuva e ao sol. Alternativa mais cara: alumínio, que dispensa esse tratamento por não enferrujar.
2. Porque é que se usa TIG e não elétrodo revestido numa cadeira de tubo fino com cordões visíveis?
Resolução: o elétrodo revestido funde com facilidade a chapa fina, podendo furar a peça. O TIG dá um cordão mais fino e controlado, adequado a uma estrutura onde a soldadura se vê e faz parte do acabamento.
3. Ao dobrar uma barra com um raio muito fechado, a peça fissura sempre na face de fora da curva. Qual é a causa mais provável e a solução?
Resolução: dobragem a frio num raio abaixo do raio mínimo do material: a face exterior estica além do que o metal aguenta e fissura. Solução: aumentar o raio, se o desenho o permitir, ou dobrar a quente, aquecendo a zona da curva a vermelho vivo ou laranja, o que torna o metal muito mais dúctil e evita a fissura.
4. Depois de soldar quatro pernas a um tampo, a mesa fica a abanar numa perna. Onde estava o erro e em que fase deveria ter sido apanhado?
Resolução: o erro está no alinhamento, provavelmente falta de gabarito ou falta de verificação numa superfície plana antes de soldar. Deveria ter sido apanhado na fase de montagem e alinhamento, com a peça apenas ponteada, antes da fixação definitiva; corrigir depois de soldado é sempre mais difícil.
5. Um colega quer poupar tempo e aplicar o verniz de proteção diretamente sobre a peça recém-soldada, sem lixar. Que lhe respondes?
Resolução: que o acabamento tem de seguir lixamento e limpeza antes de qualquer verniz ou tinta; aplicar sobre marcas de soldadura e superfície não limpa faz o produto descascar rapidamente e compromete a durabilidade e a qualidade estética da peça final.
6. Uma estrutura leva 6 barras quadradas de 20 mm com 720 mm cada. Qual é a massa de aço e quantas barras comerciais de 6 m tens de comprar?
Resolução: massa por metro: 0,020 × 0,020 × 7850 = 3,14 kg/m. Comprimento total: 6 × 0,72 = 4,32 m. Massa: 4,32 × 3,14 = 13,6 kg. Com cerca de 2 mm de perda por corte, 4,32 m mais 12 mm cabem folgadamente numa barra de 6 m: compra-se uma barra.
7. Um pé de banco em barra quadrada de 12 mm tem uma curva de 180° (meia-volta) com raio interior de 30 mm, entre dois troços retos de 250 mm. Que comprimento cortas?
Resolução: raio da linha média = 30 + 6 = 36 mm. Comprimento da meia-volta = π × 36 = 113,1 mm. Total = 250 + 113,1 + 250 = 613,1 mm: cortar 614 mm e confirmar a forma no gabarito.
8. Numa banca de apoio, cada barra do X faz 60° com o chão e vence 532 mm de altura. Quanto mede a barra e a que ângulo se regula a serra?
Resolução: comprimento = 532 / sen 60° = 532 / 0,866 = 614 mm. O topo tem de ficar horizontal, isto é, a 60° do eixo da barra; na serra, a regulação é 90° menos 60° = 30° a partir do corte em esquadria.