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UC · Unidade de Competência · UC04792

Sebenta · Monitorizar e executar o ensaio de conjuntos ou partes de cunhos e cortantes (UC04792)

Do desenho técnico ao relatório: preparar, operar e analisar o ensaio de ferramentas de corte e conformação
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Produção de Cunhos e Co ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a preparar, operar e analisar o ensaio de conjuntos ou partes de cunhos e cortantes, a etapa que valida uma ferramenta de estampagem antes de entrar em produção. Um cunho e um cortante são as duas metades de uma ferramenta de corte ou conformação: montam se numa prensa, produzem peças piloto, e essas peças dizem se a ferramenta está pronta ou precisa de ajuste.

O percurso segue a ordem real de trabalho de um técnico: primeiro interpretar o desenho e dominar a metrologia, depois preparar a ferramenta e a prensa, ajustar a centragem e as folgas, operar a prensa segundo os processos de estampagem, analisar os resultados obtidos, e por fim elaborar o relatório técnico que fecha o ciclo e alimenta a manutenção. Tudo isto sob normas de segurança, ambiente e qualidade que atravessam cada fase.

Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar a ferramenta e a prensa para o ensaio, operar a prensa, e analisar os resultados do ensaio, assegurando a preparação da prensa de acordo com os procedimentos definidos, comparando a peça obtida com as especificações exigidas, identificando melhorias no funcionamento mecânico, elaborando o relatório do ensaio, e cumprindo as normas de segurança e saúde no trabalho, de proteção individual, de proteção ambiental, de gestão de resíduos e da qualidade.

1. O ensaio de conjuntos de cunhos e cortantes

Um cunho é a parte macho de uma ferramenta de estampagem; um cortante é a parte fêmea que o recebe. Juntos formam o conjunto que corta, dobra, encurva ou conforma chapa metálica. Antes de esse conjunto ser aprovado para produção em série, realiza se um ensaio: monta se na prensa, produz se um pequeno lote de peças piloto, e compara se cada peça com o desenho técnico.

O ensaio é aplicável a diferentes contextos da indústria metalomecânica, do automóvel à eletrodomésticos, passando pela embalagem metálica. O que muda de setor para setor é a peça; o método de ensaio é sempre o mesmo.

O fluxo do técnico

As três realizações centrais desta UC organizam se numa sequência lógica que se repete em cada ensaio:

1. Preparar a ferramenta e a prensa para o ensaio
2. Operar a prensa
3. Analisar os resultados do ensaio

Um erro na fase 1 (por exemplo, um instrumento de medição descalibrado) propaga se até à fase 3, onde vai gerar conclusões erradas no relatório. Por isso cada fase começa por verificar o que ficou pronto na fase anterior.

Porque se testa antes da produção

Uma não conformidade descoberta no ensaio custa a correção de uma ferramenta e a repetição de um pequeno lote. A mesma não conformidade descoberta depois de a ferramenta estar em produção em série custa a paragem da linha, a rejeição de milhares de peças e, muitas vezes, a reclamação de um cliente. O ensaio é, por isso, o momento mais barato para encontrar e corrigir problemas.

2. Desenho técnico e normas

Ler o desenho de fabrico

O desenho de fabrico é a referência absoluta contra a qual se compara toda a peça obtida no ensaio. Interpretar o desenho de fabrico é a primeira aptidão exigida pelo referencial desta UC. Um desenho técnico completo inclui:

Normas de representação técnica

Os desenhos seguem normas (ISO, NP) para que qualquer técnico, em qualquer empresa, os leia da mesma forma:

Norma Assunto
Normas de projeção e cotagem como se representam vistas, cortes e dimensões
Normas de tolerâncias dimensionais e geométricas como se define o campo de tolerância admissível
Normas de acabamento de superfícies como se especifica e mede a rugosidade (Ra, Rz)

Exemplo resolvido · ler uma cota tolerada

O desenho indica a espessura de uma peça estampada como 2,00 ± 0,05 mm.

  1. Cota nominal: 2,00 mm.
  2. Tolerância: ± 0,05 mm.
  3. Intervalo admissível: entre 1,95 mm e 2,05 mm.
  4. Uma peça medida com 2,03 mm está conforme; uma peça medida com 2,08 mm está não conforme.

Esta leitura repete se em cada cota crítica do desenho, ao longo de todo o ensaio.

3. Metrologia dimensional: instrumentos e unidades

A metrologia dimensional é a ciência de medir com rigor. Organizar e aferir os instrumentos de medição e verificação é uma das aptidões centrais desta UC.

Instrumentos principais

Instrumento Mede Resolução típica
Paquímetro comprimentos, diâmetros, profundidades 0,02 mm
Micrómetro espessuras e diâmetros de precisão 0,001 mm
Calibre (passa não passa) conformidade rápida a uma tolerância definida fixo, sem escala
Relógio comparador desvios relativos, planeza, centragem 0,01 mm
Rugosímetro rugosidade da superfície (Ra, em µm) µm

A regra prática é: a resolução do instrumento tem de ser sempre bastante mais fina do que a tolerância exigida, tipicamente pelo menos dez vezes mais fina.

Organizar e aferir os instrumentos

  1. Guardar cada instrumento no seu estojo, limpo e protegido de choques.
  2. Aferir (calibrar) periodicamente contra um padrão certificado e registar a data.
  3. Verificar o ponto zero antes de cada série de medições.
  4. Um instrumento fora do prazo de aferição não deve usar se num ensaio oficial.

Exemplo resolvido · escolher o instrumento certo

Uma cota do desenho pede 10,00 ± 0,01 mm.

  1. A tolerância admissível é de apenas 0,02 mm de amplitude (entre 9,99 e 10,01 mm).
  2. Um paquímetro com resolução de 0,02 mm não é fiável para esta cota, porque a incerteza do instrumento se aproxima do próprio intervalo admissível.
  3. Escolhe se o micrómetro, com resolução de 0,001 mm, claramente mais fino do que a tolerância exigida.

4. Materiais e tratamentos térmicos

Propriedades dos materiais das ferramentas

Um cunho e um cortante trabalham sob impacto e atrito repetidos ao longo de milhares de ciclos. As propriedades relevantes:

Dureza a mais sem tenacidade parte a ferramenta na primeira batida mais forte; tenacidade a mais sem dureza gasta a aresta de corte rapidamente. O material da ferramenta é sempre um compromisso entre estas duas propriedades.

Tratamentos térmicos

O tratamento térmico ajusta as propriedades do aço através de ciclos controlados de aquecimento e arrefecimento:

Tratamento O que faz Efeito
Têmpera aquecimento seguido de arrefecimento rápido dureza elevada, mas fragiliza
Revenido reaquecimento a temperatura mais baixa, após a têmpera devolve tenacidade, sem perder toda a dureza
Cementação enriquecimento da superfície com carbono "casca" dura sobre um núcleo tenaz

Uma peça de ensaio com fissuras inesperadas pode não ser um erro de operação: pode indicar um tratamento térmico mal executado na própria ferramenta.

5. Tolerâncias dimensionais e geométricas

Tolerâncias dimensionais

A tolerância dimensional é o intervalo admissível à volta de uma cota nominal. Os ajustamentos (folga, aperto, incerto) resultam do cruzamento das tolerâncias de dois elementos que encaixam entre si, como um veio e um furo.

Tolerâncias geométricas e acabamento de superfície

Além da dimensão, o desenho pode exigir forma e posição corretas:

Estado de acabamento Ra típico Uso habitual
Grosseiro superior a 6,3 µm superfícies não funcionais
Médio 1,6 a 3,2 µm superfícies de contacto
Fino 0,4 a 0,8 µm arestas de corte, superfícies de vedação

Uma peça pode estar dentro da cota dimensional e, ainda assim, reprovar por não cumprir a tolerância geométrica ou o acabamento de superfície exigido. As duas verificações são independentes e ambas têm de passar.

6. Prensas e elementos de fixação

Tipos de prensas

O ensaio realiza se numa prensa, que aplica a força de corte ou conformação sobre o conjunto cunho/cortante.

Tipo de prensa Acionamento Características
Manual força humana, alavanca ou fuso força limitada, ensaios ligeiros
Mecânica volante de inércia acionado por motor ciclos rápidos, força constante ao longo do curso
Hidráulica óleo sob pressão força elevada e regulável, curso controlado com precisão

A escolha depende da força necessária, do processo de estampagem (corte, dobragem, encurvamento, conformação) e da série a produzir.

Elementos de fixação

O conjunto cunho/cortante fixa se à prensa através de:

Um aperto insuficiente causa vibração e desalinhamento durante o ensaio; um aperto excessivo pode deformar a platina.

7. Preparar a ferramenta e a prensa para o ensaio

Verificar o conjunto antes do ensaio

Verificar e controlar o conjunto da ferramenta de cunho/cortante e acessórios para testes é a primeira aptidão da fase de preparação:

  1. Confirmar a identificação da ferramenta e a versão do desenho técnico associado.
  2. Inspecionar visualmente arestas de corte, guias e molas quanto a danos ou desgaste.
  3. Verificar se os acessórios (extratores, batentes) estão completos e em bom estado.
  4. Confirmar que os instrumentos de medição estão aferidos e prontos a usar.

Preparar a prensa

Assegurar a preparação da prensa de acordo com os procedimentos definidos é o primeiro critério de desempenho explícito da UC:

Exemplo resolvido · checklist de preparação

Antes de ligar a prensa para um ensaio de corte:

  1. Ferramenta identificada e desenho técnico correspondente à mão. ✓
  2. Arestas de corte inspecionadas, sem lascas visíveis. ✓
  3. Instrumentos (paquímetro e micrómetro) aferidos há menos de um mês. ✓
  4. Platinas limpas e curso da prensa confirmado no manual da máquina. ✓
  5. EPI de toda a equipa colocado e proteções mecânicas fechadas. ✓

Só depois de todos os pontos confirmados se avança para o ajuste e o ensaio.

8. Ajustar a ferramenta: centragem, folgas e platinas

Ajustar a ferramenta em prensa de ensaio

Depois de montada, a ferramenta tem de ser ajustada:

Centragem, folga e platinas

Diagnóstico sintoma-causa

Sintoma na peça Causa provável
Rebarba excessiva em todo o contorno folga de corte a mais
Desgaste rápido e irregular da aresta folga a menos, ou descentragem
Marca ou rebarba só de um lado ferramenta descentrada

Exemplo resolvido · ajustar a folga de corte

Uma chapa de aço de 1,5 mm de espessura vai ser cortada. O catálogo de ferramentas recomenda uma folga entre 5% e 8% da espessura da chapa, por lado.

  1. Espessura: 1,5 mm.
  2. Folga mínima: 1,5 × 0,05 = 0,075 mm por lado.
  3. Folga máxima: 1,5 × 0,08 = 0,12 mm por lado.
  4. Regula se o cortante para uma folga dentro deste intervalo, por exemplo 0,10 mm por lado, e confirma se com um calibre de folgas antes de operar a prensa.

9. Operar a prensa: processos de estampagem

Processos de estampagem

Estampagem é o nome genérico dos processos que transformam chapa metálica com uma ferramenta e uma prensa:

Processo O que faz
Corte separa material segundo um contorno definido pelo par cunho/cortante
Dobragem forma um ângulo na chapa
Encurvamento dá uma curvatura contínua à chapa
Conformação dá forma tridimensional à chapa (embutidura), esticando o material

Cada processo tem exigências próprias de folga, força e velocidade de prensa; os parâmetros de um processo não se aplicam diretamente a outro.

Tipo de produção e cenários de estampagem

O tipo de produção (unitária, pequena série, série longa) condiciona o cenário de ensaio. Séries curtas usam ferramentas mais simples e ensaios mais frequentes entre lotes; séries longas justificam ferramentas robustas e um ensaio inicial exaustivo, seguido de manutenção programada. O cenário de estampagem inclui ainda o material da chapa, a espessura e o número de estações da prensa (corte simples ou ferramenta progressiva com várias estações).

Modos de operação e efetuar o ensaio

Ao efetuar o ensaio do conjunto, produz se um lote piloto de peças, guardando as primeiras e as últimas peças produzidas para permitir a comparação e detetar eventual deriva ao longo do ciclo.

10. Analisar os resultados do ensaio

Medir e comparar com as especificações

Comparar a peça obtida do ensaio com as especificações exigidas é o segundo critério de desempenho da UC:

  1. Selecionar uma amostra representativa do lote piloto.
  2. Medir formas geométricas das peças obtidas, com o instrumento adequado à tolerância exigida.
  3. Registar cada medição numa folha ou tabela, assinalando conforme/não conforme.
  4. Comparar sistematicamente com o desenho de fabrico e a respetiva tolerância.

Analisar geometria, superfícies e defeitos

Para além da dimensão, analisa se a qualidade da peça: geometria, estado de superfícies, deformações, redução de espessura, estiramento ou enrugamento.

Defeito Causa provável
Fissura material demasiado frágil, folga incorreta, deformação excessiva
Deformação ferramenta descentrada, aperto irregular da chapa
Redução de espessura estiramento excessivo em conformação
Enrugamento falta de força de aperto da chapa (prensa-chapas)

Exemplo resolvido · analisar uma não conformidade

Numa peça do lote piloto, a espessura medida no ponto crítico é 1,20 mm, quando o desenho exige 1,50 ± 0,05 mm.

  1. Verificar defeitos: a espessura está claramente abaixo do intervalo admissível (1,45 a 1,55 mm).
  2. Analisar a causa: uma redução de espessura desta grandeza aponta para estiramento excessivo em conformação.
  3. Conclusão para o relatório: recomenda se rever a força de aperto da chapa (prensa-chapas) ou a geometria do punção, e repetir o ensaio após ajuste.

11. Relatório técnico, melhorias e manutenção

Identificar melhorias no funcionamento mecânico

O terceiro critério de desempenho da UC: identificar melhorias no funcionamento mecânico em função das não conformidades verificadas.

Elaborar o relatório do ensaio

Elaborar o relatório do ensaio é o critério de desempenho que fecha o ciclo. Um relatório técnico completo inclui:

Um relatório bem escrito permite que outro técnico repita o ensaio e chegue exatamente às mesmas conclusões.

Procedimento de manutenção

As conclusões do ensaio alimentam a manutenção da ferramenta:

12. Segurança, ambiente e qualidade

Segurança e saúde no trabalho

Cumprir as normas de segurança e saúde no trabalho é um critério de desempenho transversal a toda a UC, não uma fase isolada:

Proteção ambiental e gestão de resíduos

Normas da qualidade e boas práticas

Erros comuns

Glossário

Síntese

O ensaio de um conjunto de cunho e cortante segue sempre o mesmo fluxo: interpretar o desenho técnico e as suas tolerânciaspreparar a ferramenta, a prensa e os instrumentos de medição, com o rigor da metrologia dimensionalajustar a centragem e a folga de corte, preparando as platinas → operar a prensa segundo o processo de estampagem e o modo de operação corretos, do ciclo manual ao contínuo → analisar os resultados, medindo e comparando com as especificações e identificando defeitos e a respetiva causa → elaborar o relatório técnico, que documenta tudo e alimenta a manutenção da ferramenta. Segurança, proteção ambiental e normas da qualidade acompanham cada uma destas fases, do início ao fim.

Exercícios resolvidos

1. O que distingue um cunho de um cortante, e porque se ensaiam sempre em conjunto?

Resolução: o cunho é a parte macho e o cortante a parte fêmea da ferramenta de estampagem. Ensaiam se sempre juntos porque o resultado (folga, centragem, qualidade do corte) depende da relação entre as duas partes, não de cada uma isoladamente.

2. Uma cota do desenho é 30,00 ± 0,02 mm. Que instrumento de medição escolherias e porquê?

Resolução: o micrómetro (resolução de 0,001 mm), porque o intervalo admissível tem apenas 0,04 mm de amplitude; um paquímetro com resolução de 0,02 mm não seria fiável para confirmar a conformidade desta cota.

3. Depois de um ensaio, as peças saem com rebarba excessiva em todo o contorno. Qual a causa mais provável e como corrigir?

Resolução: a causa mais provável é folga de corte a mais. Corrige se reduzindo a folga entre cunho e cortante, dentro do intervalo recomendado pelo catálogo de ferramentas para a espessura de chapa em uso, e repetindo o ensaio.

4. Explica porque se começa sempre um ensaio em modo manual antes de passar ao modo contínuo.

Resolução: o modo manual (ciclo a ciclo) permite verificar cada golpe antes de avançar para o seguinte, apanhando problemas de ajuste, folga ou centragem antes de estes se repetirem em série. Só depois de confirmado que tudo funciona corretamente se passa ao modo contínuo, mais próximo das condições reais de produção.

5. Uma peça sai com redução de espessura acentuada numa zona de conformação. Que causa se investiga primeiro e que dado do relatório a sustenta?

Resolução: investiga se primeiro o estiramento excessivo, tipicamente ligado a uma força de aperto da chapa (prensa-chapas) insuficiente ou a uma geometria do punção desadequada. O dado que sustenta a conclusão é a medição de espessura no ponto crítico, comparada com o valor nominal e a tolerância do desenho, registada na tabela de resultados do relatório.

6. Que três elementos, no mínimo, deve conter um relatório técnico de ensaio para que outro técnico o consiga repetir?

Resolução: no mínimo, identificação (ferramenta, prensa, data, responsável), parâmetros usados (folga, força, modo de operação, material e espessura da chapa) e resultados das medições (tabela de cotas, tolerâncias e conformidade). Idealmente inclui também os defeitos observados e as melhorias propostas.