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UC · Unidade de Competência · UC04791

Sebenta · Efetuar a montagem de cunhos e cortantes (UC04791)

Do desenho de fabrico à ferramenta a funcionar em bancada, na indústria metalomecânica
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Produção de Cunhos e Co ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Um cunho e cortante é o conjunto de ferramenta que se monta numa prensa para cortar, dobrar ou conformar chapa metálica em série: a tampa de uma lata, a chapa de uma dobradiça, o corpo de um interruptor. A mesma ferramenta produz milhares de peças iguais, e a sua qualidade depende, mais do que de qualquer outro fator, do rigor com que foi montada, alinhada e testada em bancada.

Esta sebenta acompanha o percurso completo do técnico de produção de cunhos e cortantes: analisar as especificações técnicas de uma ferramenta, planear a estratégia de montagem, executar a montagem e o ajuste dos componentes, e avaliar o desempenho da ferramenta montada. Ao longo do caminho, cruzamos desenho técnico, metrologia, materiais, tratamentos térmicos e tolerâncias com o trabalho manual e mecânico de bancada, sempre sob normas de segurança, ambiente e qualidade.

Objetivos de aprendizagem (referencial): interpretar o desenho de fabrico e validar a lista de componentes de uma ferramenta de cunhos e cortantes; organizar e aferir os instrumentos de medição; preparar componentes e verificar acabamentos superficiais; montar os conjuntos de teto e de base; acoplar os dois conjuntos e verificar o alinhamento entre punção e matriz; ajustar o acoplamento e o deslizamento da platine; montar componentes pneumáticos ou hidráulicos quando aplicável; realizar testes de funcionamento e corrigir desvios; e aplicar as normas de segurança, ambiente e qualidade em todo o processo.

1. A profissão e o desenho de fabrico

Antes de tocar em qualquer componente, o técnico de montagem lê e interpreta o dossier técnico da ferramenta. É a primeira das quatro realizações da UC: analisar as especificações técnicas e funcionais.

O dossier de uma ferramenta de cunhos e cortantes inclui normalmente:

O desenho técnico segue simbologia e normalização próprias: tipos de linha (contorno, eixo, cota), vistas normalizadas (planta, alçado, perfil), cortes e secções, e a caixa de legenda com título, escala, data e autor. Um técnico que não domina esta simbologia lê mal a ferramenta antes sequer de a montar.

Exemplo resolvido · validar a lista de componentes

Antes de iniciar a montagem de um cortante simples, o técnico recebe a caixa de componentes e o desenho de conjunto com a lista de materiais:

  1. Confere cada item da lista contra a caixa recebida: punção, matriz, porta-punção, colunas (2), casquilhos (2), placa de pressão, réguas de guia (2), parafusos e cavilhas.
  2. Confirma que quantidade e referência batem certo com o desenho.
  3. Deteta que falta uma cavilha de posicionamento na caixa.
  4. Regista a não conformidade e solicita a peça em falta antes de iniciar a montagem, em vez de improvisar.

Resolução comentada: iniciar a montagem sem a totalidade dos componentes obriga quase sempre a desmontar depois. Validar a lista primeiro poupa tempo e evita montagens incompletas ou com peças substituídas indevidamente.

2. Metrologia dimensional

A metrologia dimensional garante que cada componente está dentro da cota e da tolerância exigidas pelo desenho, antes e durante a montagem.

Instrumento Resolução típica Uso principal
Paquímetro 0,02 mm cotas gerais, exteriores e interiores
Micrómetro 0,01 mm ou 0,001 mm cotas críticas, espessuras, diâmetros
Calibre passa/não passa fixo, sem leitura verificação rápida em produção
Relógio comparador 0,01 mm alinhamento, planeza, batimento
Rugosímetro micrómetros (Ra) qualidade do acabamento superficial

Organizar e aferir os instrumentos

Antes de qualquer medição em bancada, o técnico segue sempre a mesma sequência:

  1. Verifica o estado do instrumento: sem folgas, sem sujidade, sem risco nas faces de medição.
  2. Afere o zero contra um padrão ou calço-padrão de referência conhecida.
  3. Regista qualquer desvio encontrado e sinaliza o instrumento para calibração, se necessário.
  4. Guarda o instrumento no seu estojo, limpo, depois de usar.

Um instrumento descalibrado produz peças fora de tolerância sem que ninguém dê por isso: o erro só aparece muito depois, já na peça final ou em reclamação de cliente.

Exemplo resolvido · escolher o instrumento certo

O desenho de um punção pede o diâmetro com tolerância Ø12 h6, o que corresponde a uma tolerância de cerca de ±0,006 mm.

Resolução comentada: um paquímetro comum (resolução 0,02 mm) não tem precisão suficiente para verificar esta cota; usa-se obrigatoriamente um micrómetro (resolução 0,001 mm), previamente aferido. A escolha do instrumento depende sempre da tolerância pedida, não da conveniência.

3. Materiais e tratamentos térmicos

Cada componente de um cunho e cortante usa um material escolhido pela função que desempenha, com propriedades muitas vezes opostas:

Os aços de ferramenta mais usados são o AISI D2 (alto teor de crómio, boa resistência ao desgaste), o AISI O1 (temperável em óleo, fácil de maquinar) e o AISI H13 (resistente ao trabalho a quente, usado em ferramentas de estampagem exigente).

Tratamentos térmicos

Tratamento O que faz
Recozimento amolece o aço para facilitar a maquinação prévia
Têmpera aquecimento acima da temperatura crítica seguido de arrefecimento rápido, aumenta muito a dureza
Revenido reaquecimento a temperatura mais baixa após a têmpera, reduz fragilidade mantendo grande parte da dureza

Os componentes de corte (punções, matrizes) chegam à bancada de montagem já temperados e revenidos, e frequentemente já retificados às cotas finais. O técnico de montagem não reprocessa o tratamento térmico, mas tem de o reconhecer: um componente ainda em bruto (recozido) não deve ser usado como se já estivesse pronto para produção.

Uma oficina recebe um lote de punções novos, uns temperados e outros ainda por temperar (erro do fornecedor). Montados sem verificação, os punções "moles" desgastam-se e perdem a aresta de corte ao fim de poucas centenas de peças, muito antes do previsto. A verificação de dureza (ex.: com durómetro) antes da montagem evita este problema.

4. Tolerâncias dimensionais e geométricas

A tolerância dimensional é o intervalo admissível de variação de uma cota, indicado no desenho como Ø20 H7 ou 20 ±0,02. Os ajustes entre furo e veio classificam-se em três famílias:

Em cunhos e cortantes, a folga punção-matriz é a cota mais crítica de toda a ferramenta, porque define diretamente a qualidade da aresta de corte da peça produzida.

Tolerâncias geométricas

Além da dimensão em si, o desenho pode exigir forma e posição corretas:

Tolerância geométrica Controla
Planeza a face está plana, sem empeno
Perpendicularidade dois eixos ou faces a 90°
Paralelismo duas faces ou eixos paralelos entre si
Concentricidade eixos coincidentes (furo e veio)

O relógio comparador, montado num suporte magnético sobre a bancada, é o instrumento típico para verificar estas tolerâncias.

Exemplo resolvido · calcular a folga de corte

Vai cortar-se chapa de aço com 1,5 mm de espessura. A folga de corte recomendada para este material ronda 7,5% da espessura por cada lado.

Resolução comentada: folga por lado = 1,5 × 0,075 = 0,1125 mm, arredondado a 0,11 mm. Se o punção tem Ø20,00 mm, a matriz deve ter Ø20,22 mm (0,11 mm de folga em cada lado do diâmetro). Uma folga menor produz mais rebarba e desgasta o punção mais depressa; uma folga maior deforma a peça na zona de corte.

5. Organização do posto de trabalho e segurança

A organização da área e do posto de trabalho é uma das atitudes avaliadas nesta UC, não um detalhe de arrumação:

Equipamentos de proteção individual (EPI)

EPI Quando é obrigatório
Óculos de proteção maquinação, retificação, ajuste manual com limas
Calçado de segurança sempre, contra queda de componentes metálicos
Luvas manuseamento de peças, removidas junto a órgãos rotativos
Proteção auditiva operações ruidosas prolongadas

Usar luvas junto a um veio em rotação (torno, fresadora, engenho de furar) é um risco grave de acidente grave: a luva pode ser agarrada pela máquina e arrastar a mão. O EPI certo depende da operação em curso, não é sempre o mesmo do início ao fim do trabalho.

6. Anatomia de um cunho e cortante

Um cunho e cortante organiza-se sempre em dois conjuntos, que se movem um em relação ao outro:

Tecnologia de cunhos e cortantes

Consoante a operação que realizam, os cunhos e cortantes classificam-se em:

Tipo Operação
De corte simples corta o contorno numa só operação, numa só estação
Progressivo várias operações em estações sucessivas, com avanço da chapa entre elas
De quinar/dobrar conforma a chapa por dobragem, sem cortar
De embutir estampa a chapa numa forma tridimensional

A ferramenta progressiva é a mais usada em produção em série: entrega a peça acabada num único curso de prensa, depois de a chapa passar por todas as estações.

7. Componentes e acessórios da ferramenta

Conjunto superior

Conjunto inferior e elementos de ligação

A cavilha de posicionamento não aperta, posiciona: garante que uma peça só encaixa numa única posição possível, sem ambiguidade. O parafuso vem sempre depois, para fixar o que a cavilha já posicionou.

8. Maquinação e acabamento de superfícies

Os componentes chegam à bancada já maquinados; o técnico de montagem tem de reconhecer as operações usadas, para avaliar acabamentos e detetar desvios.

Operação Máquina Produz tipicamente
Furar engenho de furar furos para colunas, cavilhas, parafusos
Fresar fresadora faces planas, rasgos, contornos
Tornear torno peças de revolução (colunas, casquilhos)
Eletroerosão máquina de eletroerosão contornos de precisão em aço já temperado
Retificar retificadora acabamento fino e cota final de precisão

A retificação é normalmente a última operação, feita depois do tratamento térmico, porque é a única que garante a cota exata num material já endurecido.

Ferramentas manuais de acabamento

A verificação final faz-se com o rugosímetro (Ra, em micrómetros): um punção com má rugosidade desgasta-se mais depressa e produz rebarba na peça cortada.

9. Planear a estratégia de montagem

Planear é a segunda realização da UC, e acontece antes de qualquer aperto definitivo de parafuso:

  1. Validar a lista de componentes contra o desenho de conjunto.
  2. Definir a sequência de montagem: normalmente base primeiro, depois teto, depois acoplamento.
  3. Identificar os pontos críticos de alinhamento a verificar em cada etapa (colunas, punção-matriz).
  4. Reunir ferramentas, instrumentos e elementos de aperto necessários antes de começar.

Preparar os componentes

Exemplo resolvido · sequenciar uma montagem

Recebida a caixa de componentes de um cortante simples (punção, matriz, teto, base, colunas, casquilhos, placa de pressão, réguas de guia), planeia-se a sequência:

Resolução comentada: 1) limpar e inspecionar todos os componentes; 2) montar a base (colunas, matriz, placa de guia, réguas de guia); 3) montar o teto (casquilhos, placa de pressão, porta-punção, punção); 4) acoplar teto e base pelas colunas; 5) verificar o alinhamento punção-matriz; 6) ajustar o que for necessário; 7) testar em bancada. Inverter a ordem entre 2 e 3, ou saltar a verificação do ponto 5, é a causa mais comum de retrabalho.

10. Montagem do conjunto superior (teto)

Sequência típica de montagem do teto:

  1. Inserir os casquilhos no teto, com o ajuste de interferência previsto no desenho.
  2. Fixar a placa de pressão na face inferior do teto.
  3. Montar o porta-punção, alinhado com o furo previsto para o punção.
  4. Inserir e fixar o punção no porta-punção, verificando o comprimento saliente.
  5. Apertar os elementos de ligação em sequência cruzada (em estrela), nunca de um lado só.

Verificações durante a montagem do teto

O aperto de parafusos em estrela (como numa roda de automóvel) distribui a tensão de forma simétrica e evita empenar a placa de pressão por aperto desigual.

11. Montagem do conjunto inferior (base)

Sequência típica de montagem da base:

  1. Fixar as colunas na base, verificando a perpendicularidade em relação à face de apoio.
  2. Montar a matriz, alinhada com a posição do punção prevista no desenho de conjunto.
  3. Fixar a placa de guia, que apoia e orienta a chapa sobre a matriz.
  4. Montar as réguas de guia, ajustadas à largura exata da platine a processar.

A base é o referencial fixo de toda a ferramenta: o alinhamento de tudo o resto é medido a partir dela.

Alinhamento da matriz

Apertar a matriz a fundo antes de verificar o alinhamento com o relógio comparador é um erro difícil de corrigir depois, porque as marcas de posicionamento já ficam gastas ou deslocadas.

12. Acoplamento teto-base e alinhamento

Com os dois conjuntos montados em separado, junta-se a ferramenta:

  1. Inserir as colunas da base nos casquilhos do teto, com movimento suave, sem forçar.
  2. Descer o teto lentamente até ao fim de curso, verificando qualquer resistência anormal.
  3. Confirmar que o teto desliza livremente ao longo de todo o curso, nas colunas.
  4. Só depois disto se verifica o alinhamento entre punção e matriz, nunca antes.

Verificar o alinhamento entre punção e matriz

Com a ferramenta fechada, verifica-se a folga de corte, o parâmetro mais crítico de toda a montagem:

Exemplo resolvido · diagnosticar uma folga irregular

Ao verificar a folga entre punção e matriz com o calibre de folgas, o técnico encontra 0,10 mm num lado e 0,25 mm no lado oposto.

Resolução comentada: a folga irregular indica que a matriz não está centrada com o punção. Corrige-se afrouxando ligeiramente os parafusos da matriz, reposicionando com calços finos do lado com mais folga, e medindo outra vez à volta de todo o perímetro antes de apertar em definitivo. Não se corrige limando o punção: o defeito está na posição da matriz, não na geometria do punção.

13. Ajustes e deslizamento da platine

Efetuar ajustes no acoplamento entre punção e matriz

Quando a folga ou o alinhamento não estão dentro do previsto, ajusta-se manualmente:

Verificar o deslizamento da platine

Este é o último controlo antes de a ferramenta ir para os testes de funcionamento.

14. Sistemas pneumáticos, hidráulicos e estampagem

Componentes do circuito pneumático ou hidráulico

Algumas ferramentas usam sistemas auxiliares para funções como extração da peça ou reforço da pressão:

Um sistema pneumático ou hidráulico mal montado pode falhar em segurança, com libertação súbita de pressão. Verificar sempre a vedação de racores e mangueiras antes de pressurizar o circuito.

Tecnologia de estampagem

A estampagem é a família de operações que conforma a chapa por deformação, sem necessariamente a cortar:

Operação O que faz
Quinagem/dobragem dobra a chapa segundo um ângulo definido
Embutidura estica a chapa numa forma tridimensional (ex.: tampa de lata)
Repuxo variante de embutidura para peças de revolução

Ferramentas de estampagem partilham a mesma lógica construtiva teto-base-colunas dos cunhos e cortantes de corte, e corte e estampagem combinam-se muitas vezes na mesma ferramenta progressiva.

15. Testes, validação e qualidade

Realizar testes de funcionamento e avaliar o desempenho

Com a ferramenta montada, ajustada e verificada, procede-se aos testes:

  1. Teste em bancada: ciclo manual, sem prensa, para confirmar movimento livre e ausência de interferências.
  2. Teste em prensa, a baixa cadência: correr alguns ciclos e recolher amostras de peças.
  3. Avaliar o desempenho: medir as peças produzidas contra o desenho, verificar rebarba, planeza e cota.
  4. Corrigir desvios na montagem detetados nas peças de teste, antes de libertar para produção.

Manutenção, resíduos, ambiente e qualidade

Exemplo resolvido · interpretar o resultado de um teste

No teste em prensa, as primeiras 10 peças cortadas mostram rebarba visível num dos lados do contorno.

Resolução comentada: rebarba concentrada num só lado é sinal de folga de corte irregular, o mesmo defeito identificado no bloco 12, e não de um problema geral de material ou de prensa. Volta-se a medir a folga à volta de todo o perímetro com o calibre de folgas, corrige-se o lado com folga a menos, e repete-se o teste antes de libertar a ferramenta para produção.

Erros comuns

Glossário

Síntese

A montagem de um cunho e cortante segue sempre a mesma lógica: analisar o desenho e validar a lista de componentes, planear a sequência de montagem, executar a montagem por conjuntos, base primeiro e teto depois, acoplar e alinhar punção e matriz, ajustar os desvios encontrados, e avaliar o desempenho com testes de bancada e de prensa. Metrologia, materiais, tratamentos térmicos e tolerâncias sustentam cada decisão técnica ao longo do processo, e a segurança, o ambiente e a qualidade acompanham todo o trabalho, do primeiro ao último passo.

Exercícios resolvidos

1. Um cortante vai processar chapa de aço com 2 mm de espessura. Usando 7,5% de folga por lado, qual a folga de corte a aplicar?

Resolução: folga por lado = 2 × 0,075 = 0,15 mm. Se o punção tem Ø15,00 mm, a matriz deve ter Ø15,30 mm (0,15 mm de folga em cada lado).

2. Qual a diferença entre um ajuste com folga e um ajuste com interferência? Dá um exemplo de cada, num cunho e cortante.

Resolução: no ajuste com folga, o furo é sempre maior que o veio, exemplo: colunas nos casquilhos, que têm de deslizar. No ajuste com interferência, o veio é maior que o furo, exemplo: o casquilho prensado no seu alojamento no teto, que fica fixo por atrito.

3. Porque é que a base se monta antes do teto?

Resolução: a base é o referencial fixo de toda a ferramenta. Montar e alinhar a base primeiro dá um ponto de partida estável a partir do qual se verifica o alinhamento do teto e, depois, do punção com a matriz.

4. No teste em prensa, as peças saem com rebarba de um só lado. Qual é a causa mais provável e como se corrige?

Resolução: folga de corte irregular à volta do perímetro do punção. Corrige-se medindo a folga em todo o perímetro com o calibre de folgas e reposicionando a matriz com calços finos do lado com folga a menos, verificando outra vez antes de repetir o teste.

5. Porque é que um técnico deve remover as luvas antes de trabalhar num torno em rotação?

Resolução: porque a luva pode ser agarrada por um veio ou peça em rotação e arrastar a mão, um dos acidentes graves mais comuns em oficinas de maquinação. O EPI correto depende sempre da operação em curso.