Sebenta · Efetuar a montagem de dispositivos mecânicos em conjuntos e sistemas pneumáticos (UC04790)
- Introdução
- 1. Desenho técnico e esquemas pneumáticos
- 2. Metrologia dimensional
- 3. Produção e tratamento de ar comprimido
- 4. Distribuição do ar comprimido
- 5. Componentes, acessórios e a unidade FRL
- 6. Válvulas pneumáticas
- 7. Atuadores pneumáticos
- 8. Organização do posto e ferramentas de montagem
- 9. Montagem e ajuste do dispositivo
- 10. Ensaio, validação e calibração
- 11. Manutenção, avarias e normas de equipamentos sob pressão
- 12. Segurança, ambiente e qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a montar, ajustar e validar dispositivos mecânicos integrados em sistemas pneumáticos, a competência central de um técnico de produção que trabalha com cunhos, cortantes e ferramentas industriais. Um dispositivo pneumático de fixação, centragem ou acionamento não nasce pronto: nasce de um esquema, passa por uma bancada organizada, é montado por etapas, ajustado em função dos primeiros ensaios e só se considera terminado quando valida o funcionamento especificado.
O percurso segue as três realizações do referencial: analisar as especificações da montagem, executar as operações de montagem e ajuste, e efetuar o ensaio e validação do dispositivo. Ao longo do caminho, aprendes a ler desenho técnico e esquemas pneumáticos, a medir com rigor, a conhecer toda a cadeia de ar comprimido (produção, tratamento, distribuição, componentes, válvulas e atuadores), a organizar o posto de trabalho, a diagnosticar avarias e a cumprir as normas de segurança, ambiente e qualidade que atravessam qualquer contexto da indústria metalomecânica.
Objetivos de aprendizagem (referencial): interpretar documentação técnica e esquemas de montagem; identificar e selecionar componentes pneumáticos, ferramentas e acessórios; organizar o posto de trabalho; montar e ajustar dispositivos mecânicos em sistemas pneumáticos; ensaiar o funcionamento; detetar e solucionar avarias; aplicar procedimentos de manutenção; e aplicar as normas de segurança, ambiente e qualidade.
1. Desenho técnico e esquemas pneumáticos
Antes de tocar em qualquer componente, o técnico tem de ler o que lhe é pedido. Essa leitura assenta em duas linguagens técnicas: o desenho da peça mecânica e o esquema do circuito pneumático.
Desenho técnico: normas, projeções e cotagem
O desenho técnico segue normas que garantem que qualquer profissional o interpreta da mesma forma, em qualquer oficina:
- Projeções ortogonais: vista de frente, de topo e de perfil da mesma peça, para reconstruir mentalmente a forma tridimensional.
- Cortes e secções: "abrem" a peça num plano para mostrar o interior, essencial para peças como cilindros ou blocos de válvulas, cujo funcionamento depende do que não se vê por fora.
- Cotagem: as dimensões da peça, incluindo tolerâncias (a margem de erro admissível). Uma folga entre um êmbolo e a camisa de um cilindro pode ter tolerância de centésimas de milímetro.
- Simbologia e anotações: acabamento superficial, binário de aperto de um parafuso, tratamento térmico, entre outras notas que não cabem num desenho geométrico.
Esquemas pneumáticos
O esquema pneumático usa símbolos normalizados (norma ISO 1219) em vez de desenhos realistas. Regras de leitura:
- Lê-se, por convenção, de baixo para cima: a fonte de energia (compressor, unidade FRL) fica em baixo; os atuadores (cilindros, motores) ficam em cima.
- Cada elemento tem uma referência numérica por grupo funcional: 0.x para a fonte de energia, 1.x para o primeiro atuador e os seus elementos de comando, 2.x para o segundo, e assim sucessivamente.
- Linhas contínuas representam tubagem de potência (o ar que move o atuador); linhas tracejadas representam sinais de pilotagem (o ar que comanda uma válvula).
Exemplo resolvido · ler um esquema simples
Esquema: cilindro de duplo efeito 1.0, comandado por uma válvula direcional 5/2 monoestável 1.1, com dois reguladores de caudal 1.2 e 1.3 no escape de cada câmara, alimentados por uma unidade FRL 0.1 ligada ao compressor 0.
- Identificar a fonte: grupo 0, compressor e unidade FRL, a energia entra por aqui.
- Seguir a linha de potência: da unidade FRL até à válvula 1.1.
- Identificar a válvula direcional: 5/2 (cinco vias, duas posições), muda o sentido do ar conforme o sinal de pilotagem.
- Seguir até ao atuador: as duas vias de trabalho da válvula ligam às duas câmaras do cilindro 1.0.
- Localizar o ajuste de velocidade: os reguladores 1.2 e 1.3 estão no escape, não na entrada: é o controlo de caudal no escape, o método mais estável para regular velocidade em cilindros pneumáticos.
Este tipo de leitura, elemento a elemento, é o que a UC pede antes de qualquer montagem: analisar as especificações da montagem.
2. Metrologia dimensional
Montar e ajustar exige medir, tanto grandezas mecânicas como pneumáticas, com o instrumento e a unidade certos.
| Grandeza | Unidade | Instrumento |
|---|---|---|
| Comprimento / folga | milímetro (mm) | paquímetro |
| Pressão | bar, pascal (Pa) | manómetro |
| Caudal | litro por minuto (l/min) | caudalímetro |
| Tempo de ciclo | segundo (s) | cronómetro |
1 bar = 100 000 Pa = 10⁵ Pa. É a conversão mais usada em pneumática, porque os manómetros de bancada e as fichas técnicas de componentes costumam indicar a pressão em bar, enquanto o Sistema Internacional usa o pascal.
A metrologia não é um passo isolado: acompanha as três realizações da UC. Antes da montagem, confirmam-se as cotas do desenho contra as peças reais. Durante o ajuste, medem-se folgas, cursos e pressões de trabalho. No ensaio final, medem-se pressão de serviço, caudal e tempo de ciclo, e comparam-se com a especificação. Um valor fora da tolerância obriga a ajustar, nunca a "deixar passar".
Exemplo resolvido · verificar a pressão de trabalho
Especificação do dispositivo: pressão de trabalho de 6 bar ± 0,2 bar. O manómetro da bancada lê 5,7 bar.
- Confirmar que o manómetro está calibrado (comparar com um manómetro de referência, se disponível).
- Verificar a leitura do regulador de pressão da unidade FRL, pode estar desregulado.
- Ajustar o regulador até a leitura estabilizar dentro do intervalo 5,8 a 6,2 bar.
- Registar o valor final na ficha de ensaio.
Uma leitura de 5,7 bar está fora da tolerância (mínimo 5,8 bar): é motivo de ajuste, não de aceitação.
3. Produção e tratamento de ar comprimido
Todo o sistema pneumático começa na produção de ar comprimido.
- Compressor de êmbolo (alternativo): comprime o ar por vaivém de um pistão. Simples e comum em oficinas de pequena e média dimensão.
- Compressor de parafuso: rotativo, de funcionamento contínuo, usado em linhas de produção com maior caudal exigido.
O ar comprimido sai do compressor quente e com humidade. Se seguir assim para o circuito, corrói componentes internos e provoca avarias precoces em válvulas e cilindros. O tratamento do ar resolve isto em três etapas:
- Reservatório (depósito): amortece variações de caudal, deixa o ar arrefecer e a água condensar.
- Secador (frigorífico ou por adsorção): remove a humidade residual.
- Filtro de linha: retira partículas sólidas e água que ainda passe.
A purga periódica do reservatório e dos pontos baixos da rede elimina o condensado acumulado. Sem purga regular, a água acumula-se e acelera a corrosão interna de toda a instalação.
Nota: ar mal tratado é, na experiência de manutenção industrial, a causa mais frequente de avarias precoces em sistemas pneumáticos, mais do que o desgaste normal dos componentes.
4. Distribuição do ar comprimido
Do reservatório até ao dispositivo, o ar percorre uma rede de tubagem.
- Rede em anel (fechada): alimenta os pontos de consumo pelos dois lados do anel; mais estável em pressão, porque uma quebra num troço não isola completamente um ponto de consumo.
- Rede ramificada (aberta): mais simples e barata de instalar, mas com maior queda de pressão nas extremidades mais afastadas do compressor.
Regras de instalação da rede:
- Inclinação da tubagem principal (1 a 2%) no sentido do escoamento, para o condensado escoar até aos pontos de purga, não até ao dispositivo.
- Diâmetro dimensionado ao caudal previsto, para minimizar perdas de carga (queda de pressão por atrito nas paredes do tubo).
- Tomadas de ar com derivação superior: a ligação ao ponto de consumo sai por cima do tubo principal, evitando arrastar condensado acumulado no fundo para o dispositivo.
Cada ponto de utilização deve ter a sua válvula de corte própria, para permitir isolar e intervir num dispositivo sem desligar toda a rede.
5. Componentes, acessórios e a unidade FRL
Entre a rede de distribuição e o atuador existe uma cadeia de componentes que condiciona e liga o ar comprimido.
A unidade FRL
A unidade FRL (Filtro, Regulador, Lubrificador) trata o ar mesmo junto do ponto de utilização, na ordem exata do nome:
- Filtro: remove partículas e água residual que ainda tenham passado da rede.
- Regulador de pressão: fixa a pressão de trabalho daquele ramo do circuito, independentemente da pressão da rede geral.
- Lubrificador: adiciona uma névoa fina de óleo ao ar, para lubrificar componentes que o exijam (nem todos os atuadores modernos precisam).
Outros componentes e acessórios
| Componente | Função |
|---|---|
| Silenciador | reduz o ruído do escape de ar das válvulas |
| Uniões e racores rápidos | ligação e desligação sem ferramentas |
| Mangueira flexível | ligações móveis, entre a bancada e o dispositivo |
| Tubo rígido | tubagem fixa da rede de distribuição |
Selecionar o componente certo
Selecionar um componente para um circuito cruza três dados: pressão e caudal exigidos pelo atuador (ficha técnica do fabricante), diâmetro de ligação compatível com a tubagem disponível, e função no circuito (regular, filtrar, silenciar). Um componente mal escolhido obriga a desmontar e voltar a montar, com perda de tempo e de material.
6. Válvulas pneumáticas
As válvulas são o "cérebro" do circuito: decidem para onde vai o ar, quanto ar passa e em que condições.
Válvulas de pressão, caudal e escape
- Válvulas limitadoras/reguladoras de pressão: protegem o circuito, limitando a pressão máxima admissível.
- Válvulas reguladoras de caudal: ajustam a velocidade de um atuador, estrangulando a passagem de ar. Normalmente montadas no escape do atuador, não na entrada, para um controlo mais estável.
- Válvulas de escape rápido: montadas junto ao atuador, deixam o ar de retorno escapar ali mesmo em vez de percorrer toda a tubagem até à válvula direcional, acelerando o movimento de retorno.
Válvulas de sequência, direcionais e lógicas
- Válvulas de sequência: só deixam passar o sinal quando a pressão a montante atinge um valor definido, coordenando a ordem das operações num circuito com vários atuadores.
- Válvulas direcionais: comutam o caminho do ar. Designam-se por "vias/posições": por exemplo, 3/2 (três vias, duas posições) para um cilindro de simples efeito, 5/2 para um cilindro de duplo efeito.
- Válvulas de simultaneidade (função E): só deixam passar sinal se dois sinais de entrada estiverem presentes ao mesmo tempo. Aplicação clássica: comando de segurança de duas mãos numa prensa.
- Válvulas alternadoras (função OU): deixam passar sinal se um ou outro de dois sinais de entrada estiver presente, útil para comandar o mesmo atuador a partir de dois pontos distintos.
Exemplo resolvido · escolher a válvula direcional
Situação: um cilindro de simples efeito (retorno por mola) tem de avançar quando se pressiona um botão, e recuar automaticamente ao soltar.
- Identificar o tipo de atuador: simples efeito, só precisa de ar para um sentido.
- Escolher o número de vias: 3 vias chega (entrada de ar, saída para o cilindro, escape).
- Escolher o número de posições: 2 posições (passa ou não passa ar).
- Conclusão: válvula direcional 3/2, monoestável (volta à posição de repouso por mola quando se solta o botão).
Uma válvula 5/2 aqui seria sobredimensionada e desnecessária: o número de vias e posições tem sempre de corresponder ao que o atuador exige.
7. Atuadores pneumáticos
Os atuadores convertem a energia do ar comprimido em movimento.
Cilindros lineares e rotativos
- Cilindro de simples efeito: o ar atua só num sentido; o retorno faz-se por mola. Mais simples, mas com menos força de retorno.
- Cilindro de duplo efeito: o ar atua nos dois sentidos, avanço e recuo, com controlo total de força em ambos.
- Cilindro rotativo: converte a pressão do ar num movimento de rotação limitada, útil para virar ou orientar uma peça.
Elementos a verificar sempre na montagem de um cilindro: curso, diâmetro do êmbolo, tipo de fixação e amortecimento nos fins de curso (para evitar impactos que danificam o cilindro e a estrutura à sua volta).
Motores e ventosas pneumáticas
- Motores pneumáticos: convertem ar comprimido em rotação contínua; usados em aparafusadoras e ferramentas de bancada, mais leves e sem risco de faísca elétrica que os equivalentes elétricos.
- Ventosas: usam vácuo (efeito Venturi ou bomba de vácuo dedicada) para agarrar por sucção peças planas e não porosas, como chapas metálicas cortadas.
O critério de seleção é comum a todos os atuadores: força necessária, curso ou velocidade exigidos, e espaço disponível no dispositivo a montar.
8. Organização do posto e ferramentas de montagem
A organização da área e do posto de trabalho é, ao mesmo tempo, um conhecimento do referencial e uma atitude avaliada em toda a UC ("mantendo o posto de trabalho organizado" é critério de desempenho explícito).
Boas práticas de organização
- Ferramentas e componentes arrumados por função, ao alcance da mão.
- Espaço de trabalho limpo, sem óleo nem aparas soltas.
- Componentes já montados afastados dos que ainda faltam montar, para não trocar peças por engano.
- Metodologia 5S (triagem, arrumação, limpeza, normalização, disciplina) como base de trabalho diário.
Ferramentas para montagem de circuitos pneumáticos
| Ferramenta | Uso |
|---|---|
| Chaves fixas, de caixa e Allen | aperto de racores e suportes |
| Alicate de cravar e corta-tubos | preparação de mangueiras |
| Fita veda-roscas (PTFE) | estanquidade nas ligações roscadas |
| Manómetro portátil | verificar pressão em qualquer ponto do circuito |
| Detetor de fugas (espuma ou eletrónico) | localizar perdas de ar antes da entrega |
Antes de montar, o técnico confere a lista de componentes do esquema com o que está disponível, separa as ferramentas pela ordem de uso, e confirma que a fonte de ar comprimido está isolada (válvula de corte fechada) até ao momento do ensaio.
9. Montagem e ajuste do dispositivo
Esta é a segunda realização da UC: executar as operações de montagem e ajuste, sempre a partir da análise feita nos capítulos anteriores.
Sequência de montagem
- Confirmar o esquema pneumático e a lista de componentes contra o que está na bancada.
- Fixar os elementos mecânicos (suportes, cilindros, dispositivo) segundo a cotagem do desenho técnico.
- Ligar a tubagem e os racores, seguindo a numeração do esquema, do grupo 0 para os grupos seguintes.
- Montar as válvulas na posição e orientação corretas: uma válvula direcional montada ao contrário inverte toda a lógica do circuito.
- Verificar visualmente todas as ligações antes de aplicar qualquer pressão.
Respeitar esta sequência é um critério de desempenho: "respeitando as especificações e as sequências na montagem do dispositivo".
Exemplo resolvido · montar um circuito de fixação simples
Dispositivo: um grampo pneumático de fixação, com um cilindro de simples efeito 1.0, comandado por uma válvula 3/2 de botão de pressão 1.1, alimentado por uma unidade FRL 0.1.
- Fixar mecanicamente o cilindro 1.0 no suporte, segundo a cota do desenho (altura e alinhamento com a peça a fixar).
- Fixar a válvula 1.1 num ponto acessível ao operador.
- Ligar a unidade FRL 0.1 à rede, com a válvula de corte ainda fechada.
- Ligar a tubagem da unidade FRL à entrada da válvula 1.1, e desta à câmara do cilindro 1.0.
- Verificar visualmente todas as ligações, nenhuma torção nem racor mal encaixado.
- Só depois abrir lentamente a válvula de corte e observar a primeira pressurização.
Ajustar em função dos primeiros ensaios
O dispositivo raramente funciona perfeito à primeira. Ajustar em função dos ensaios é, ele próprio, um critério de desempenho:
- Regular a pressão de trabalho na unidade FRL, dentro da especificação do fabricante.
- Ajustar as válvulas de caudal para a velocidade correta de avanço e recuo.
- Corrigir alinhamentos mecânicos que impeçam o curso completo do atuador.
- Repetir o ciclo até o comportamento coincidir com o especificado, antes de avançar para o ensaio formal.
10. Ensaio, validação e calibração
A terceira realização da UC é efetuar o ensaio e validação do dispositivo.
Tipos de ensaio
- Ensaio de estanquidade: aplicar pressão e verificar ausência de fugas em todas as ligações, com espuma detetora ou detetor eletrónico.
- Ensaio funcional: correr o ciclo completo (avanço, ação, recuo) e confirmar que segue a sequência do esquema.
- Ensaio de desempenho: medir pressão, caudal e tempo de ciclo, comparando com a ficha técnica.
- Ensaio de segurança: confirmar paragens de emergência e comandos de duas mãos, quando aplicável ao dispositivo.
Garantir o funcionamento do dispositivo é um critério de desempenho: não chega "quase funcionar". Um desvio face à especificação volta ao ajuste (capítulo 9), nunca é ignorado ou forçado.
Calibração
- Calibração do manómetro: confirmar, contra um instrumento de referência, que a leitura de pressão corresponde ao valor real. Um manómetro descalibrado invalida todos os ensaios feitos com ele.
- Ajuste dos amortecedores de fim de curso: eliminar impactos no fim do curso do cilindro.
- Reafinação periódica das válvulas de caudal, à medida que os componentes assentam com o uso ao longo do tempo.
Exemplo resolvido · validar um dispositivo de fixação
Especificação: tempo de ciclo (avanço + fixação + recuo) de 2 s ± 0,3 s, pressão de trabalho de 6 bar.
- Isolar e ligar o dispositivo à rede, com a unidade FRL regulada a 6 bar.
- Ensaio de estanquidade: aplicar pressão e passar espuma detetora em todas as ligações; nenhuma bolha, dispositivo estanque.
- Ensaio funcional: acionar o botão e observar o ciclo completo três vezes seguidas, sem falhas nem paragens intermédias.
- Ensaio de desempenho: cronometrar o ciclo, resultado médio de 2,2 s, dentro da tolerância (2,0 a 2,3 s).
- Registar os resultados na ficha de ensaio e assinar como validado.
11. Manutenção, avarias e normas de equipamentos sob pressão
Manutenção preventiva e corretiva
A manutenção preventiva mantém o dispositivo dentro da especificação ao longo da sua vida útil, com intervenções programadas registadas em fichas de manutenção preventiva. Tarefas típicas: purgar reservatórios, verificar o nível de óleo do lubrificador, substituir filtros, inspecionar mangueiras e racores.
A manutenção corretiva acontece depois de uma avaria ser detetada, seguindo o método de diagnóstico abaixo.
Deteção e resolução de avarias
Método sistemático para diagnosticar uma avaria:
- Observar o sintoma (não avança, avança devagar, fuga, ruído anormal).
- Isolar o troço do circuito onde o sintoma ocorre, com o esquema como guia.
- Medir pressão e caudal nesse troço e comparar com o especificado.
- Identificar a causa (fuga, válvula colada, filtro entupido, ar insuficiente).
- Corrigir e voltar a ensaiar antes de dar por resolvido.
| Sintoma | Causa provável | Primeira verificação |
|---|---|---|
| Cilindro não avança | falta de pressão, válvula direcional avariada | manómetro à entrada da válvula |
| Movimento lento | regulador de caudal fechado, filtro entupido | posição do regulador de caudal |
| Fuga audível | racor mal apertado, junta danificada | espuma detetora na ligação |
Normas e legislação sobre equipamentos sob pressão
Reservatórios e componentes que operam sob pressão estão sujeitos a normas e legislação específicas de equipamentos sob pressão, com inspeções periódicas e documentação de conformidade obrigatórias. Qualquer alteração à pressão máxima de serviço exige validação formal, nunca uma decisão isolada na bancada.
12. Segurança, ambiente e qualidade
Estas normas atravessam todas as etapas da montagem e aplicam-se a qualquer contexto da indústria metalomecânica.
Riscos e equipamentos de proteção individual (EPI)
- Riscos do ar comprimido: golpe de ar sob a pele (pode causar embolia, é um risco grave), projeção de peças ou fragmentos, ruído elevado, esmagamento junto a atuadores.
- EPI: óculos de proteção, calçado de segurança, proteção auditiva quando aplicável.
- Regra de ouro: nunca apontar ar comprimido a pessoas; despressurizar sempre antes de qualquer intervenção no circuito.
Ambiente e resíduos
- Normas de proteção ambiental: descarte responsável do condensado com óleo recolhido nos purgadores, evitando contaminação do solo e da água.
- Normas de gestão de resíduos: separação e encaminhamento correto de filtros usados, óleos de lubrificação e embalagens.
Qualidade
Normas da qualidade: seguir os procedimentos definidos, documentar cada etapa do processo, e não desviar da especificação sem validação formal. Cumprir segurança, ambiente e qualidade vale tanto na avaliação da UC como a montagem mecânica em si.
Erros comuns
- Ligar a tubagem antes de fixar mecanicamente os elementos, dificultando depois o acesso para apertar suportes.
- Confundir válvula reguladora de caudal com reguladora de pressão: a primeira ajusta velocidade, a segunda ajusta força.
- Montar uma válvula direcional ao contrário, invertendo a lógica de todo o circuito sem se dar conta de imediato.
- Esquecer a purga periódica do reservatório, deixando acumular água que corrói componentes internos.
- Dar a montagem por concluída sem ensaio de estanquidade, deixando fugas por detetar.
- Intervir num circuito ainda pressurizado, "só para poupar tempo", ignorando a norma de segurança mais básica da UC.
- Nunca recalibrar o manómetro, confiando cegamente numa leitura que já não é fiável.
Glossário
- Esquema pneumático · representação normalizada de um circuito de ar comprimido, por símbolos (norma ISO 1219).
- Unidade FRL · conjunto Filtro, Regulador e Lubrificador que condiciona o ar junto do ponto de utilização.
- Válvula direcional · comuta o caminho do ar, designada por número de vias/posições (ex.: 3/2, 5/2).
- Válvula de simultaneidade · deixa passar sinal só quando dois sinais de entrada estão presentes ao mesmo tempo (função E).
- Válvula alternadora · deixa passar sinal quando um ou outro de dois sinais está presente (função OU).
- Cilindro de simples efeito · atua num só sentido, com retorno por mola.
- Cilindro de duplo efeito · atua nos dois sentidos por ação do ar comprimido.
- Amortecimento de fim de curso · mecanismo que evita impactos no final do curso do cilindro.
- Purga · eliminação do condensado acumulado num reservatório ou ponto baixo da rede.
- Estanquidade · ausência de fugas de ar num circuito pressurizado.
- Metrologia dimensional · medição de grandezas físicas com instrumentos e unidades apropriados.
- Manutenção preventiva · intervenção programada, antes de ocorrer avaria, registada em ficha própria.
- Equipamento sob pressão · componente sujeito a normas e legislação específicas por operar com pressão interna.
- EPI · equipamento de proteção individual, usado para reduzir o risco de acidente.
Síntese
Montar um dispositivo mecânico num sistema pneumático segue sempre a mesma lógica: ler (desenho técnico e esquema pneumático) → medir com o instrumento certo → conhecer a cadeia de produção, tratamento e distribuição do ar comprimido → identificar componentes, válvulas e atuadores → organizar o posto de trabalho → montar pela sequência do esquema → ajustar em função dos primeiros ensaios → ensaiar e validar o dispositivo → manter, calibrar e diagnosticar avarias ao longo da vida útil, sempre dentro das normas de segurança, ambiente e qualidade. Domina este ciclo e és capaz de montar e validar qualquer dispositivo pneumático dentro do referencial da UC.
Exercícios resolvidos
1. Um esquema pneumático mostra um elemento com referência 1.2, ligado por linha tracejada a uma válvula 1.1. O que representa a linha tracejada e o que é o elemento 1.2, provavelmente?
Resolução: a linha tracejada representa um sinal de pilotagem (comando), não tubagem de potência. O elemento 1.2, ligado por pilotagem à válvula 1.1, é provavelmente um componente de comando dessa válvula (ex.: um sensor ou um botão), não um atuador de potência.
2. Que válvula direcional escolherias para comandar um cilindro de duplo efeito, e porquê?
Resolução: uma válvula 5/2 (cinco vias, duas posições). O cilindro de duplo efeito precisa de ar dirigido alternadamente a cada uma das duas câmaras, o que exige cinco vias (entrada, duas de trabalho, dois escapes) e duas posições de comutação.
3. Depois de montado, um dispositivo avança devagar demais face à especificação. Qual é o primeiro ponto a verificar, e qual a possível correção?
Resolução: verificar o regulador de caudal no escape do cilindro. Se estiver demasiado fechado, está a estrangular o ar em excesso; abrir gradualmente até a velocidade coincidir com a especificação, e voltar a ensaiar.
4. Porque se coloca a derivação de uma tomada de ar por cima da tubagem principal, e não por baixo?
Resolução: porque o condensado (água) tende a acumular-se no fundo da tubagem. Uma derivação por cima evita arrastar essa água para o dispositivo ligado, protegendo-o de corrosão e avarias.
5. Um dispositivo passa no ensaio funcional mas falha o ensaio de estanquidade. Pode ser dado como validado?
Resolução: não. Garantir o funcionamento é um critério de desempenho, mas a estanquidade também faz parte da validação: uma fuga desperdiça energia, pode indicar um racor mal montado e compromete o desempenho a médio prazo. O dispositivo volta ao ajuste antes de ser validado.
6. Antes de desapertar um racor de um circuito que acabou de funcionar, que procedimento de segurança é obrigatório?
Resolução: despressurizar o circuito e confirmar no manómetro que a pressão chegou a zero. Intervir num circuito ainda pressurizado expõe o técnico a projeção de ar e de peças, um dos riscos de segurança explicitamente referidos no referencial da UC.